Artigo 

2017-12-20
Tudo mudou para ficar na mesma

Quando acabou a final do Campeonato da Europa, enquanto a equipa festejava, vivi um momento de torpor, como que para me habituar à ideia. Eles é que eram campeões, mas a maior parte já crescera a ver o Figo, o Rui Costa ou o Vítor Baía a baterem-se com os mais fortes. A falharem, sim, mas a baterem-se. E isso faz toda a diferença. Para eles, não vou dizer que a coisa fosse normal, porque ser campeão da Europa nunca é corriqueiro, mas era pelo menos uma versão incrementada do “another day at the office”, por isso mesmo a valer umas fotos no Instagram, uns pulos no autocarro da equipa e não se fala mais nisso. A mim, no entanto, a ideia de uma seleção de Portugal campeã da Europa ainda me provocava alguma confusão. Tive de me habituar à ideia antes do meu momento de regozijo nas redes sociais, no terminal do Charles de Gaulle: a primeira página do “L’Équipe” e os pés em cima do trólei, antes do regresso a casa, em direta, logo no primeiro avião da manhã seguinte.

A ideia de um Portugal campeão não era fácil de assimilar. Cresci com a desilusão do falhanço do apuramento de 1980, depois de uma vitória em Viena, contra a Áustria de Krankl e Prohaska, nos ter deixado tão bem encaminhados que nem parecia verdade. Confirmei esse fatalismo lusitano em 1982, quando o Mundial era em Espanha, com mais seleções, e parecia feito para nós. E que difícil foi para mim perceber a derrota em Israel ou quão impotente me senti a ver a forma como os nossos craques eram atropelados pela Irlanda do Norte, em Belfast, no auge da questão Bobby Sands: ainda hoje o Windsor Park exerce em mim um fascínio muito particular à conta da atmosfera vivida nesse jogo, que a RTP trouxe até minha casa. É certo que depois subimos um patamar. Que os 5-0 de Moscovo, ante uma equipa da URSS cheia de Demianenkos sobre-humanos, foram cancelados pela conjugação feliz da arte de Chalana com a frieza de Jordão e a boa-vontade de um árbitro francês com apelido germânico – Georges Konrath – para nos levar ao Europeu de 1984. Mas até aí parecia que o objetivo final era convencer-nos da nossa pequenez com algum sadismo.

Fomos ao Europeu para perder a meia-final com a França da forma mais incrível que podia ser imaginada: com dois golos sofridos nos últimos cinco minutos do prolongamento a anularem uma vantagem que tinha custado tanto a obter. Qualificámo-nos depois para o Mundial de 1986 de forma tão heróica que Estugarda mais parecia o estreito dos Dardanelos e a seleção de José Torres se assemelhava ao grupo dos 300 espartanos frente ao exército persa. Mas aquele tiro teleguiado de Carlos Manuel a entrar na baliza de Schumacher e a resistência da equipa toda à frente de Bento, a aliança com os postes, a negar sabe-se lá como o golo aos alemães, foram outra forma perversa do Mundo nos dizer que aquilo dos Mundiais não era para nós. Como se viu depois em Saltillo, na confusão que começara dois anos antes em França mas por lá se foi desenvolvendo e da qual ninguém saiu inocente. Nem jogadores, nem treinadores, nem dirigentes.

Vivi depois, ainda como adepto, a bizarra seleção dos Seabrinhas, montada como se tivéssemos um campo de recrutamento tão vasto que pudéssemos dar-nos ao luxo dispensar os melhores. Comecei a trabalhar com as tentativas fracassadas de Juca levar a equipa ao Mundial de 1990 e de Artur Jorge repetir na seleção, em 1992, aquilo que conseguira no FC Porto, em 1987: o sucesso internacional. Falhou. Estive, por isso, na Suécia, a ver um Europeu sem Portugal, como fui depois aos Estados Unidos, em 1994, acompanhar mais um Mundial sem portugueses. Para os jornalistas, a vida ficava mais fácil. Nessa altura, o sucesso de Carlos Queiroz à frente das seleções jovens tinha desembocado na “porcaria” e esse anátema criado naquela noite de 1993 em Milão acompanhou toda uma geração: quando as coisas se decidiam, os portugueses perdiam, mas sempre por culpa alheia. Se não era a “porcaria” seria outra coisa qualquer fora do nosso controlo.

Fomos a Inglaterra, em 1996, para aprender, mas falhámos a presença em 1998. Porquê? Por causa do excesso de rigor de outro árbitro francês, Marc Batta, que expulsou Rui Costa por demorar a sair do relvado, em Berlim, por alturas de uma substituição. Podíamos ter sido campeões em 2000, mas aí foi o penalti de Abel Xavier assinalado por um fiscal de linha eslovaco a enterrar a equipa na meia-final com a França de Zidane. O odioso convergiu em Igor Sramka – assim se chamava o homem do olho de falcão. Envergonhámo-nos em 2002, saindo logo à primeira fase de um Mundial que podíamos ter disputado até ao fim. Mas se fomos eliminados foi por causa da lesão que Figo contraíra no Real Madrid, e que o deixara a precisar de botas de tamanhos diferentes em cada pé, do clima de Macau ou da superstição, dos alhos no balneário, dos passeios na praia ou da recusa de António Oliveira passar para dentro de campo a informação de que, face ao que estava a suceder no outro jogo do grupo, o empate com a Coreia bastava às duas equipas e era altura de refrear os ímpetos.

Perdemos a final de 2004 em casa, contra uma equipa antiga e ultrapassada como era aquela Grécia de Rehhagel – e nem nos demos ao trabalho de encontrar uma explicação, tão idiota tinha sido a derrota. Caímos na meia-final com a França em 2006, outra vez de penalti. Era sina. Em 2008 a culpa foi do Chelsea, que contratou Scolari antes do final do Europeu, e em 2010 de um golo que a Espanha nos meteu em fora-de-jogo, do isolamento em Magaliesburgo ou da inadequação das táticas defensivas do “Carlos” [Queiroz] às aspirações de um capitão [Ronaldo] que afinal não chegava para “encher a camisola”. Em 2012 foi a lotaria dos penaltis a ditar a derrota na meia-final com a Espanha e em 2014 o clima de Campinas – que se doze anos antes Macau era demasiado quente para se treinar, agora o interior paulista era excessivamente fresco e os alemães é que a sabiam toda e por isso foram treinar na Bahia, com calor e humidade máximos.

As seleções de Portugal, já se vê, não estavam ali para ganhar. E nunca era por nada que fizessem de errado. Aliás, se pensarmos bem, já em 1966 só não fomos campeões do Mundo porque os ingleses trocaram o local da meia-final de Liverpool para Wembley e nos obrigaram a uma viagem-extra de comboio. E depois, durante duas décadas, não fomos a uma única fase final mas não foi porque nos faltassem os treinadores, os craques, a equipa ou a organização. Não. Era porque os outros eram fortes demais, porque o lote de apurados era demasiado pequeno ou porque não tínhamos peso nenhum na UEFA e na FIFA – uma obsessão dos adeptos nos tempos da FPF de Silva Resende e depois de João Rodrigues, os mesmos adeptos que agora acham que se temos peso nas instituições é porque andamos a fazer alguma coisa mal. Porque o normal, para nós, portugueses, é perdermos e queixarmo-nos de que nos maltratam. Não é ganharmos e vermos que nos respeitam.

O Europeu de 2016 foi, por isso, uma coisa à qual foi difícil habituarmo-nos, porque aconteceu em contraciclo com toda a história do nosso futebol. Porque, por uma vez na vida, ganhámos – na verdade empatámos muitas vezes, mas até a empatar ganhámos. E por uma vez na vida, se se ouvia o país profundo, não éramos bons. Pelo contrário. Mais uma vez, a culpa – ou neste caso o mérito – não era da nossa equipa, dos nossos craques, dos nossos treinadores, da nossa organização… Não. Eram os outros que tinham azar, porque nós não jogávamos nada. Tivemos sorte na qualificação, sem adversários de jeito. Repetimos a sorte na primeira fase, onde o grupo também era muito fraco: Hungria e Áustria já não são o que eram e a Islândia, por amor de Deus, não é uma equipa de futebol. Esgotámos essa mesma sorte na final, naquela bola que Gignac mandou ao poste no último minuto do tempo regulamentar, sem a qual não haveria prolongamento nem golo de Éder. Porque a verdade é que nada mudou na forma de se ver futebol em Portugal, onde dois mais dois nunca são quatro: são sempre cinco, só que o árbitro rouba um.

Claro que, mesmo não tendo mudado o país futebolístico, para se ganhar um Europeu muita coisa teve de se mudar na equipa. Mudou-se o espírito, a noção de responsabilidade e de solidariedade. Mudou a forma que os jogadores têm de encarar o coletivo. Os selecionados deixaram de olhar para a equipa como reflexo dos seus egos, como chegou a acontecer em provas anteriores, até com jogadores que ainda lá estão. E deixaram de a ver como extensão dos clubes, como sucedera em tempos no balneário e sucedia ainda agora com os adeptos que seguiam a prova em casa, sempre mais preocupados em enaltecer os jogadores que tinham vestido de uma cor da sua predileção e em arrasar os que tinham vestido outras. No Europeu, para aqueles jogadores, a equipa era a forma única de expressão competitiva. Eliminou-se, além disso, a ideia de desculpabilização permanente do insucesso: quando esta seleção perdeu o primeiro jogo na qualificação para o Mundial de 2018, com a Suíça, em Basileia, pondo em risco o apuramento, não foi por não ter Cristiano Ronaldo, por ter tido azar ou alguns momentos de desconcentração que os suíços aproveitaram. Foi porque se deslumbrou e foi pior do que o adversário. E nessa consciencialização começou a vencer o jogo seguinte. Os nove jogos seguintes, aliás.

A questão é a de saber se o país aproveitou esta mudança. E não, infelizmente não aproveitou.

Não aproveitou porque, mesmo sofrendo desse mesmo mal geral da portugalidade, a seleção nacional sempre foi uma realidade à parte dentro do futebol português. Para o entender é preciso compreender um aparente paradoxo: os jogos da seleção são sempre os mais vistos da TV em Portugal, batendo recordes de audiência época após época e acabando invariavelmente no top da televisão nacional, mas quando a seleção joga os diretores de jornais desportivos deixam de dormir bem à noite, porque já sabem que vão ter de encontrar solução para quebras de vendas de 20 ou 30 por cento face às semanas de jogos de campeonato. A explicação não é – não pode ser – validada cientificamente, mas não creio que ande muito longe disto: a seleção vê-se e não se discute, por não haver adversário à vista com quem o fazer no dia-a-dia; os clubes discutem-se, mesmo quando não se veem os jogos – ou quando se veem mas não se entendem –, só pelo gosto de ir contra esse adversário do quotidiano.

É claro que a tendência para se ser do contra também se reflete nos jogos da seleção: daí a tal posição em contraciclo permanente dos adeptos ativos, para quem éramos bons quando não ganhávamos e somos fracos agora que ganhámos. Mas a seleção, além de só jogar de tempos a tempos, não gera debate de ideias. E sobretudo não mobiliza convicções. Muitos dos que passaram a prova toda a achar que a equipa era horrível estiveram depois no mar de gente que a recebeu em Lisboa com alegria genuína e que delirou quando Éder decretou um feriado no palco da Alameda D. Afonso Henriques. No fundo, a tal tendência para se ser do contra é, quando a seleção entra em campo, uma manifestação de portugalidade tão enraizada como são a comoção e a pele de galinha quando toca o hino ou o júbilo perante bons resultados. Não é, ao contrário do que acontece com os clubes, uma manifestação de cegueira ou de interesse parcial.

É por isso que, se me pedem para dizer o que mudou no futebol português com a conquista do Europeu de 2016, preciso de dividir a resposta em duas. Mudou a perceção que os estrangeiros têm do nosso jogo: afinal, conseguimos ser vencedores. Mas até esse era já um processo em curso, com a afirmação crescente dos nossos jogadores no plano internacional desde a geração de ouro, com o aumento do prestígio dos nossos treinadores desde a exportação de Mourinho e com a presença permanente e crescente dos nossos dirigentes nas comissões mais relevantes da UEFA e da FIFA. O Europeu foi, no fundo, um clique, o acontecimento que fez com que as pessoas se virassem para o campo, refletissem e dissessem para si mesmas: “pois é, eles estão a crescer”. Em Portugal, no entanto, não mudou nada, porque já se sabe que a seleção tem público de jogos – estádios cheios, recordes de audiências… – mas não de debates: esse está e continuará a estar restrito aos clubes. Toda a gente vibra com os sucessos da equipa nacional, mas ninguém os discute. Quanto muito, discutem-se os insucessos. E só até ao momento em que se puder passar a discutir um penalti ou um fora-de-jogo no jogo de campeonato, as Ligas da Verdade dos jornais, a falha de comunicações do VAR, a Porta 18, o Apito Dourado ou o depósito de dinheiro na conta de um árbitro auxiliar. Porque mais importante – e mais fácil, também – do que discutir nuances técnicas ou táticas do jogo é falar da influência das arbitragens, dos negócios e das vidas pessoais dos presidentes dos clubes.

Quando se discute futebol, em Portugal, há uma certeza: a explicação está sempre fora do campo. E eu acrescento-lhe outra: só há hipótese de isto mudar quando se conseguir levar essa mesma discussão para dentro do campo, quando se abrirem outra vez as portas que começaram a fechar-se nos anos 80. A questão, aqui, é a de perceber a quem é que isto interessa e quem é que pode funcionar como agente de mudança. Depois, a jusante, há que perceber se ainda é possível mudar a cabeça dos consumidores – sim, os adeptos são consumidores, porque o que está em causa é a viabilidade do futebol enquanto realidade empresarial, que, queiramos ou não, é a única forma de ele ser bem sucedido num plano global – e em quanto tempo. Mas vamos por partes.

Há a tendência para se julgar que o futebol se tornou um fenómeno hermético por conta das elevadas exigências do profissionalismo. É um pouco verdade. Ainda numa das últimas saídas da seleção nacional, a Andorra, onde há uma imensa comunidade portuguesa, muitos dos que lá vivem tiveram dificuldades para compreender por que razão conseguiram tirar uma “selfie” com o Presidente da República, que lá tinha passado semanas antes, e não viam agora Cristiano Ronaldo dar-lhes a mesma alegria. Mas mesmo que se perceba por que razão as equipas de futebol deixaram de conviver com os cidadãos comuns como o faz Marcelo Rebelo de Sousa, já se percebem pior as razões que levaram a que os jogadores, que deviam ser modelos para os adeptos, se tenham transformado em autênticos eremitas cm ordem de soltura tecnológica. Que não possam falar além do discurso planeado, em conferências de imprensa vazias e sempre com um delegado de propaganda a vigiar cada frase e pronto a interromper se o discurso sair do vácuo combinado, mas que depois nos encham o telemóvel com “instastories” patrocinadas a mostrar as últimas chuteiras ou o restaurante da moda. Da mesma forma que se percebe pior que os treinadores, que deviam ser os primeiros a estimular o debate público acerca do jogo, nunca possam dar entrevistas a falar dele, que sejam impedidos de fazer o que deles se espera para levar a discussão para dentro do campo.

Deixem-me aborrecer-vos com um pouco de história,.

Comecei a trabalhar ainda no final da década de 80 e tive a minha dose de convivência com os maiores treinadores internacionais. Uma vez, no Restelo, conduzi Arsène Wenger do balneário do Mónaco à sala de imprensa, porque o homem estava tão perdido ali como viria a estar, anos depois, na busca de troféus para o Arsenal. Já nos anos 90, habituei-me às conversas acaloradas com Tomislav Ivic na mesa do Snob, com moedas a fazer de jogadores em cima do pano verde da mesa do canto, ou ao chá com tostas com que Bobby Robson substituía o almoço em Alvalade, no fim dos treinos, durante o qual havia sempre uma explicação acerca de uma opção, da evolução física de Figo para se tornar um jogador que caísse menos, da melhor posição para Balakov... Debati os modelos de treino de Cruijff com Jorge Jesus, que na altura era treinador do FC Felgueiras e obcecado por tudo o que tinha a ver com o holandês. E depois, puf. Acabou tudo, silenciado por máquinas de comunicação que acham que o ruído que produzem acerca dos fatores externos ao jogo se torna mais eficaz se não tiver a concorrência de uma boa conversa acerca de futebol. E o que é extraordinário é que os adeptos – consumidores, lembram-se? – aplaudem aquilo que dizem ser um justo castigo aos jornalistas, quando na verdade os maiores castigados são eles, que ao verem extinto o acesso dos intermediários se viram condenados a substituir o debate futebolístico por lixo fedorento. Mas até isso as máquinas de propaganda conseguiram: iludir as pessoas acerca de quem são os verdadeiros inimigos de um desporto que elas adoram acima de todos os outros.

Tudo isto começou algures em meados dos anos 90 e, é verdade, teve o contributo importante dos centros de estágio, da melhoria das condições de trabalho da generalidade das equipas. À boleia dessa verdade, porém, espalhou-se por cá que lá fora se fazia assim e portanto era assim que tinha de ser. O que era mentira. Nos anos 90 estive em sítios como Milanello, onde calhou almoçar na mesma mesa de dois ou três jogadores campeões europeus antes de entrevistar Fabio Capello no seu gabinete. Pernoitei no hotel do Bayern Munique, em Colónia, e na manhã de um jogo da Bundesliga com o Leverkusen – e antes de uma eliminatória europeia com o FC Porto – não só entrevistei como tomei o pequeno-almoço com Jupp Heynckes. Joguei minigolfe com Bora Milutinovic e o irmão em Morschach, na Suíça, dias antes de começar o Mundial’98, em que ele ia dirigir a seleção da Nigéria. Tomei chá com Alex Ferguson, em Old Trafford, após uma derrota caseira do Manchester United com o Everton, quando em Inglaterra, em vez da conferência de imprensa, os treinadores iam ter com os jornalistas para falar de forma saudável do jogo que todos tinham visto.

Convencionou-se também que para ganhar era preciso fechar. Havia casos de sucesso, sim. A Itália foi campeã mundial em 1982 depois de decretar o “silenzio stampa”, como resposta às críticas dos jornalistas na sequência das derrotas nos jogos de preparação, em Portugal, antes do início da competição. Enzo Bearzot era uma “velha raposa” e sabia como poucos manejar um grupo, unindo-o em torno da noção do inimigo externo. Um pouco à imagem do que fizera José Maria Pedroto no FC Porto, na década de 70. Mas essa era uma medida excecional, para uma ocasião excecional, para suplantar uma posição de fraqueza, e não podia durar sempre. Porque o que garanto é que também se ganha de outra forma, mais aberta. Uma vez, entrevistei Johan Cruijff nas catacumbas de Camp Nou, depois de o saudoso Ricard Maxencs – ex-diretor de comunicação do FC Barcelona – não ter sido capaz de convencer o arquiteto daquele super-Barça a vir ter comigo ao local combinado, indicando-me em contrapartida o caminho que ele tinha de fazer do balneário para onde tinha o carro. A conversa foi assim, com Cruijff encostado à parede do parque de estacionamento, contrariado mas lúcido como sempre. E nunca vi tamanha baderna em torno de uma equipa como a que presenciei em Los Gatos, na Califórnia, na concentração da seleção brasileira que acabou por ganhar o Mundial de 1994. A confusão era tanta que a dada altura já não se distinguiam os jogadores dos jornalistas, muitos deles em tronco nu e calções, para fazer face ao calor.

O fecho do futebol falado e a sua substituição pelo lixo estratégico não são inevitabilidades da modernidade. São pragas que afetam o futebol português porque todos os clubes estão convencidos de que é assim que ficam mais perto de ganhar. E de caminho convencem o público que paga para ver futebol que melhor do que ouvir o seu treinador é ouvir um comentador engajado debitar aquilo que a comunicação enviesada acha que mais pode ferir o rival. A única coisa que isto consegue generalizar, porém, não são vitórias: é ódio. O ódio ao diferente, ao que veste cores diferentes. Que não tem nada a ver, digo eu, com o que se passa “lá fora”. Lá fora, as Ligas entendem – porque os clubes já o entenderam antes e lhes deram o poder para regular – que o sucesso do negócio passa pela credibilização. E quando falo em credibilização não falo na extinção das rivalidades nem sequer na sua higienização por via disciplinar. Se há coisa que já se percebeu foi que de nada serve proibir os agentes desportivos de produzirem declarações que ponham em causa o prestígio do jogo, porque eles encontrarão sempre funcionários que as produzam por eles, causando tanto ou mais danos à globalidade do futebol. A busca de credibilização passará sempre pela ocupação do espaço com conteúdos higiénicos, com a devolução do futebol falado ao campo de jogo, de onde ele nunca teria saído se não o tivessem de lá expulsado.

Claro que não se pode, por decreto, impedir os meios de comunicação social de discutir os milímetros de um fora-de-jogo, a intensidade de um toque ou a intencionalidade de um contacto. Impedi-lo seria uma afronta à liberdade de expressão e serviria apenas para adensar as teorias da conspiração comuns a adeptos de todos os clubes, segundo as quais isto está tudo feito para ganharem os outros. Mas pode compreender-se que se esses espaços proliferam como cogumelos numa floresta húmida é porque isso interessa aos clubes – que passaram a digladiar-se em tweets com queixas de arbitragem em tempo real – e porque os meios de comunicação não têm mais nada para mostrar quando querem falar de futebol. As grandes Ligas europeias já perceberam esta necessidade e já lhe responderam, quanto mais não seja através de magazines televisivos onde há boas entrevistas de jogadores e treinadores. A própria UEFA já entendeu esta necessidade há muito – terá sido, mesmo, percursora – quando passou a vender produtos associados à Liga dos Campeões, como as “super-flash” com os treinadores, antes dos jogos. São capazes de adivinhar quais são os clubes que, em vez dos treinadores, mandam os adjuntos, os secretários-técnicos, os dirigentes, mas não os treinadores principais? Se disseram os portugueses, acertaram.

Para que o futebol em Portugal mude, para que a atividade se torne mais atraente e saudável – e porque não dizê-lo também, mais segura – não bastou ganhar o Europeu de 2016 nem bastará, se o conseguirmos, vencer o Mundial de 2018 a seguir. Não bastará sequer a “revolução de mentalidades” que os idealistas passam a vida a pedir, porque a lusitanidade não muda e vai continuar a achar que o que é, afinal, não é, e que o que não é é que é. “A mim não me enganam eles!”, dizem, com um piscar de olhos. Mas é preciso, com urgência, devolver o jogo ao relvado. E não se iludam os que acham que a mudança vencerá de um dia para outro. Vai levar tempo. Talvez uma geração, que os hábitos não se mudam assim tão rapidamente. Certo é que quanto mais tarde se começar mais tarde esse momento de mudança triunfará. E tempo não é coisa que sobre, neste momento, ao futebol português.