Artigo 

Crédito: Manuel Araújo/Lusa
2017-12-03
Agarrem-me ou eu desfaço-o!

Ouvem-se Sérgio Conceição e Rui Vitória no final do segundo clássico da época – segundo empate a zero, por sinal – e apetece fazer-lhes perguntas. E não é só no que a futebol diz respeito. O antagonismo começa no modo como ambos olham para o comportamento dos neutrais, sejam eles o árbitro – que no dizer dos treinadores conseguiu prejudicar gravemente as duas equipas – ou os jornalistas, que Sérgio Conceição afirma serem demasiado “simpáticos” para o Benfica e Rui Vitória acusa de lhe quererem “fechar a tampa do caixão”. O nível de agressividade (felizmente) não concretizada faz lembrar o tipo trôpego e pequenino que, face a um gigante musculado, pede aos amigos: “Agarrem-me, que senão eu desfaço-o!” E o melhor é mesmo agarrarem-nos, ainda que neste momento nem árbitros nem jornalistas sejam gigantes musculados. Porque se ninguém os agarrar, se eles entram na dança também, alguém vai mesmo ser desfeito por algum energúmeno que se mostre mais eficaz do que aquele que entrou anteontem no relvado pelas costas do banco do Benfica.

As horas que se seguiram ao jogo foram outra vez de forrobodó total, de rédea solta aos insultos nas redes sociais. Voltámos a ter a antecipação generalizada dos programas de segunda-feira, aqueles em que, depois de duas horas a ver as mesmas imagens, os que achavam que era penalti continuam a achar que é penalti e os que achavam que não era continuam a achar que não era. O que achavam que era fora-de-jogo continuam a achar que era fora-de-jogo e o que achavam que não era continuam a achar que não era. Eu, que acerca da arbitragem de Jorge Sousa fiquei com três certezas – lance mal invalidado que acabaria por dar golo ao FC Porto e cartões amarelos por mostrar a Felipe e Alex Telles – e uma grande dúvida – não consigo, em consciência, garantir que haja penalti (mão) ou peito de Luisão – já cheguei hoje várias vezes à estupefação total com o grau de certeza absoluta que as várias iluminárias afetas às duas cores apresentam acerca dos vários lances. E rio-me – para não chorar, mais uma vez – com a forma como se tratam os que veem as coisas de outra forma.

Dizem-me sempre, a este respeito, que é impossível analisar um jogo de futebol sem analisar a arbitragem. Discordo, sempre discordei. Quanto muito, será impossível analisar um resultado sem analisar a arbitragem, porque aquilo que os árbitros – e os jogadores mais geniais ou mais desastrados – podem mudar é um resultado. O jogo, esse, é o mesmo, quer o árbitro decida que um lance é faltoso ou não. De uma vez por todas, percebam: tenho opinião acerca das decisões dos árbitros e, se nunca a expresso sem que ma peçam nas análises que faço dos jogos, não é para proteger o “Polvo”, como não era antes para proteger o “Apito Dourado”. Não é por medo de perder o tacho, seja lá isso o que for – até por estar há mais de três anos fora de uma redação. É porque não me interessa o nível insalubre da discussão que se segue e, sobretudo, por querer debater o jogo e não o resultado.

É por isso que me apeteceria fazer perguntas a Sérgio Conceição e Rui Vitória depois do jogo de sexta-feira. Até porque eles falam muito de boca cheia e ainda anteontem ouvi Vitória dizer que quer que lhe perguntem sobre futebol. Apetecia-me perguntar a Conceição se o problema de Marega na definição/finalização dos lances pode ser uma consequência do excesso de energia que ele dá à equipa nas ações de pressão ou de aceleração do jogo ou se é apenas uma questão técnica. Se nesse aspeto não teria sido mais aconselhável ter mantido Aboubakar, que não sendo tão disponível fisicamente, é pelo menos mais seguro frente à baliza. E apetecia-me perguntar a Vitória se o facto de a estratégia de organização defensiva do Benfica nos primeiros minutos – Krovinovic e Salvio a fecharem espaço e a impedirem a saída de jogo pelas laterais – deixou de funcionar por uma questão de défice físico ou tático (porque se não foi físico, terá sido falta de treino ou desconcentração). E se nesse aspeto a equipa baixou no campo por opção ou se foi a isso forçada pelo esticar de jogo nos avançados portistas.

Se quiserem responder, agradecia. Têm o meu número, podem mandar email, sms ou marcar uma conversa que lá estarei – aliás, a ambos, está pedida desde o início da época. À conferência de imprensa não ou, porque nem sou simpático, nem fecho tampas de caixões.