Artigo 

2017-11-26
De Santos a Vitória, de Ronaldo a Jonas

Entre as muitas maneiras de se fazer uma equipa, há uma que me agrada mais. É aquela que pega no melhor jogador do grupo, aquele que mais pode fazer pelo resultado do coletivo, e se faz todos os possíveis para lhe dar as melhores condições para exprimir o seu talento. Foi isso que Fernando Santos fez na seleção com Cristiano Ronaldo. Não é isso que Rui Vitória está a fazer neste momento no Benfica com Jonas. Mas tudo tem uma explicação e estes dois casos ate partilham um ponto de partida: o privilégio dado ao melhor jogador da equipa estava a tornar-se prejudicial ao equilíbrio do todo.

Vejamos o caso da seleção no ponto em que Santos lhe pegou. Ronaldo não esteve no arranque da qualificação do Europeu de 2016, aquela derrota comprometedora com a Albânia, em Aveiro, ainda com Paulo Bento, mas tinha estado no Mundial de 2014. Aí, surgira onde mais gostava, mas não onde fazia melhor à equipa: a partir da esquerda para o meio, com liberdade para se mover por onde quisesse. É verdade que, ofensivamente, o sistema funcionara na perfeição no play-off contra a Suécia (3-2 para Portugal em Estocolmo e uma Bola de Ouro ganha nessa noite, com um hat-trick, para o CR7), mas Portugal já não tinha sido uma maravilha do ponto de vista dos equilíbrios defensivos, como se percebe pelos dois golos sofridos. No Mundial, o brilho ofensivo nunca apareceu, porque Ronaldo padecia de uma lesão mal debelada, e a sua colocação à esquerda, num 4x3x3 assimétrico que obrigava João Moutinho a compensar por aquele lado sempre que o capitão fugia para o corredor central, foi sempre um problema defensivo.

No Benfica, a questão Jonas é, neste aspeto, semelhante. Jonas é um avançado muito móvel, que aposta muito nas desmarcações de apoio para o espaço entrelinhas, em aproximação aos médios, ou nos movimentos de rotura para os corredores laterais, abrindo caminho às diagonais dos alas para o meio. Não é o típico avançado que serve de referência, que fixa os centrais adversários. Isso e a noção de que o futebol de Jonas beneficia muito com a presença de uma referência central à sua frente – e com isso beneficia também, naturalmente, a equipa – levou a que todos os treinadores que o tiveram no Benfica – primeiro Jorge Jesus e depois Rui Vitória – optassem por o utilizar como segundo avançado, num 4x4x2 que necessariamente sacrifica o núcleo central do meio-campo. Trata-se de um sistema que prevê a utilização de apenas dois médios-centro, um para servir de âncora e outro que tem de trabalhar a dobrar para evitar os momentos de dois-para-três. E foi a inexistência desta segunda figura, esgotada a opção Pizzi – como se esgotaram antes dele Witsel ou Enzo Pérez, porque o papel é de facto esgotante – que levou Rui Vitória a optar recentemente por um meio-campo mais preenchido e por um 4x3x3, que no entanto o deixa com um problema a resolver: o que faz com Jonas?

Na seleção, Fernando Santos resolveu a questão de forma muito simples: com um 4x4x2 assimétrico, em que usa Ronaldo como segundo avançado, abre um extremo na direita e chama ao onze, para a esquerda, um médio-ala com capacidades para jogar por dentro. É certo que beneficiando das capacidades táticas de uma série de jogadores de exceção e de algum tempo de habituação, a seleção resolveu a questão a contento de todos: de Ronaldo, que assim pode jogar livre na frente, mas também da equipa, que fica com todos os corredores preenchidos e sem desequilíbrios flagrantes, aproveitando ainda o que o Bola de Ouro tem para lhe dar. No Benfica, pelo que se tem visto, Rui Vitória ainda não chegou à solução. Para já, estancou os desequilíbrios a meio-campo – que muitas vezes era uma auto-estrada para os adversários que passavam a primeira zona de pressão – trocando o 4x4x2 por um 4x3x3 clássico. Este, no entanto, apresenta dois problemas imediatos: inadequação da equipa às novas rotinas coletivas, tão viciada estava nos posicionamentos anteriores; e prejuízo evidente para o futebol de Jonas, que se ressente da falta da referência frontal. 

Porque, das duas uma. Ou o brasileiro deixa de ter o espaço que tinha para se mover por onde quer e se assume como referência da equipa na frente – e isso é mau para ele e, por inerência, para a equipa. Ou a equipa se re-habitua a um novo padrão de movimentações, a uma espécie de “futebol total” em que toda a gente se mexe por todo o lado, mas onde a coordenação se torna mais difícil e, por isso, mais dependente do treino. Em Moscovo, o resultado foi sofrível. Com tempo de habituação se verá se esta chega a ser solução ou se, pelo contrário, a coisa só vai lá com o regresso do primeiro avançado e a recomposição do meio-campo com um ala capaz de fechar bem. Uma espécie de João Mário ou André Gomes da seleção. Ou, num contexto benfiquista, uma espécie de Ramires, que Jesus usava para poder acumular no mesmo onze Cardozo, Saviola, Aimar e Di María.