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Crédito: Facebook Seleções de Portugal
2017-11-05
Um problema central na seleção

Em Madrid há quem chore por Pepe, 34 anos feitos em Fevereiro, que o clube deixou fugir para o Besiktas. Esse, Fernando Santos não deve perdê-lo antes do próximo Campeonato do Mundo. Mas não há tantas certezas acerca de Bruno Alves, que faz 36 anos este mês e já nem sempre joga pelo Glasgow Rangers. Ou até de José Fonte, que faz 34 antes do Natal, mas os celebrará  em recuperação de uma lesão contraída na semana passada e que o afastará dos relvados pelo menos até Janeiro. O selecionador nacional já reconheceu por palavras e por atos que esta é a sua maior preocupação, mas sendo verdade que o panorama é desanimador e não lhe facilita a tarefa, não é menos evidente que ele também tardou em assumir o problema: a chamada de segundas linhas para os particulares solidários deste mês pode ser tão importante como tardia para o que se pretende.

O que se pretende é ter pelo menos três defesas-centrais que deem garantias no Mundial, em Junho de 2018. Portugal apareceu e ganhou o Europeu de 2016 com Pepe (33 anos à data), Fonte (32 anos), Bruno Alves (34 anos) e Ricardo Carvalho (38 anos). É absolutamente invulgar uma equipa chegar a uma fase final com quatro defesas centrais tão avantajados, porque se a experiência pode ser uma virtude, ela deve ser temperada com a fogosidade da juventude. Porquê? Para que não suceda o que sucedeu com Ricardo Carvalho, por exemplo, no Europeu: começou a prova como primeira escolha e teve de ser substituído no onze a partir do final da primeira fase. Fez a sua parte, o que lhe competia, e fê-lo bem, mas por muito que um jogador se cuide, é humanamente impossível aguentar o ritmo de uma competição como um Europeu ou um Mundial a partir de determinada idade.

Não vou sequer centrar-me no futuro. O futuro, no futebol, é agora. Não acho que Santos deva ter nas listas defesas-centrais sub25 só porque pode vir a precisar deles daqui a dois ou três anos. Sei também que o tempo de treino de uma seleção é geralmente tão curto que tem de ser aproveitado para preparar o jogo seguinte e não dez jogos à frente. Ainda assim, podendo o selecionador chamar 23, 24, 25, até 26 jogadores para cada compromisso duplo da seleção, não vejo nenhuma razão para não se ter já começado a introduzir novos elementos desta posição no grupo há mais tempo. O selecionador confia em Pepe, Bruno Alves, Fonte e Neto (29 anos)? Muito bem. Pois que os convoque. Mas olhando para o envelhecimento daquela posição em específico, podia também já ter alargado o “numerus clausus”, chamando nem que fosse um jogador extra-contingente a cada convocatória. Depois, a treinar, se veria como respondia e se ia à ficha de jogo ou ficava a ver da bancada.

Agora, para os jogos com a Arábia Saudita e os Estados Unidos, apareceram na lista de Fernando Santos Edgar Ié, 23 anos, titular no Lille de Bielsa e membro recente da seleção de sub21, e Ricardo Ferreira, 24 anos, uma das opções de Abel Ferreira no SC Braga. Não são más escolhas – e em abono do atraso com que Fernando Santos os chamou pode até dizer-se que Ié era lateral-direito no Belenenses na época passada, que o Lille anda pelos fundos da tabela francesa ou que Ricardo Ferreira vai apenas com cinco jogos competitivos feitos esta época. A questão é que nem estes jogos servirão para avaliar grande coisa – o facto de não estarem os pesos pesados levará inevitavelmente a que toda a equipa os encare de forma, digamos, muito mais distendida – nem haverá já tempo para os avaliar em situação de pressão antes de chegar o Campeonato do Mundo.

O problema é que, no que aos defesas-centrais diz respeito, Fernando Santos olhou sempre para a seleção como ponto de chegada. E, tendo em conta a crise que o próprio detetou, devia tê-la visto mais como ponto de partida, reconhecendo até a sua vertente motivacional. Sei bem que, em situações normais, é assim que deve ser. A seleção é uma etapa de excelência, não deve servir para motivar jogadores. Só que esta não é uma situação normal. E para situações excecionais, medidas excecionais. Nos últimos anos, jogadores houve que – como Ruben Dias agora, por exemplo… – podiam ter sido chamados extra-contingente. Falo, por exemplo, de Ruben Semedo, quando foi titular do melhor Sporting de Jesus. De Josué, enquanto foi pilar defensivo de um Vitória SC que andava pelo topo da tabela em Portugal. De André Pinto, que chegou a ser chamado para um destes particulares de escassa exigência, contra Cabo Verde, e depois foi deixado cair.

Admito até que Santos não tenha visto nestes jogadores o que viu em Fonte que, valha a verdade, foi ele quem “inventou” para a seleção: testou-o contra a Argentina, num particular de prestígio que tem pouco a ver com os que aí vêm, e deu-lhe meses depois a prova de fogo, quando uma lesão de Ricardo Carvalho o forçou a coloca-lo em campo aos 17’ de um jogo decisivo com a Sérvia. Fonte respondeu bem. Mas está próximo o dia em que Santos vai ter de inventar mais alguém. Talvez seja ainda antes do Mundial.