Artigo 

Crédito: José Coelho/Lusa
2017-10-29
O Rio Ave como teste de algodão

Anda a metade do país futebolístico que gosta de falar de futebol – mesmo – entretida com a proposta de jogo do Rio Ave, mas tão ou mais interessante do que debater a filosofia da equipa de Miguel Cardoso é ver como os vila-condenses foram capazes de condicionar o jogo dos três candidatos ao título. Porque ao colocar a Benfica, FC Porto e Sporting problemas que eles raramente encontram na Liga, o Rio Ave pode funcionar como uma espécie de teste do algodão, que vem confirmar a força da candidatura da equipa de Sérgio Conceição, a única capaz de impedir o Rio Ave de jogar o seu futebol.

É verdade que há no exercício um aparente contra-senso. Se os grandes passam 90 por cento da Liga a jogar contra equipas que dão tudo para não deixar jogar, que sentido faz avaliá-los num jogo em que o adversário quer a bola para ele e não abdica de pôr em prática os mesmos princípios de jogo positivo que advoga em qualquer desafio. Jogos contra equipas que se limitam a juntar linhas à frente da sua área e a tentar esticar na frente quando conseguem, os grandes acabam naturalmente por vencer a maioria. E se os ganham ou não, isso depende mais de meras circunstâncias particulares e absolutamente incontroláveis: uma má decisão, uma bola que bate no poste ou que entra, um defesa que sobe uma fração de segundo mais tarde do que devia para fazer o fora-de-jogo…

Contra o Rio Ave, equipa que não bate a bola na frente à espera de um bambúrrio ou de ganhar segundas bolas no arreganho, é preciso qualidade para se jogar e, sobretudo, para não deixar jogar. Ora, os três grandes já passaram por Vila do Conde, com uma constante: todos tiveram menos bola do que os donos da casa. Aqui, quem mesmo assim conseguiu ter a bola por mais tempo até foi o Benfica (48/52, face a 42/58 do FC Porto e 43/57 do Sporting), mas a isso não será estranho o facto de o jogo com os tetracampeões nacionais ter sido o único em que o Rio Ave esteve em vantagem, motivando uma reação do adversário desde bem cedo. Porque a verdade é que quem melhor contrariou o jogo do Rio Ave foi o FC Porto, precisamente a equipa que, das três, consegue fazer mais com menos.

Além de ser a equipa mais competente das três na pressão sobre a saída de bola do adversário, o FC Porto de Sérgio Conceição é mais explosivo quando em iniciativa e precisa de menos situações para, com espaço nas costas, criar lances de golo iminente. Dos três, foi o que menos sofreu em Vila do Conde – ainda que o facto de nesse dia ter apanhado um Rio Ave sem Pelé e Geraldes ajude a explicar –, tendo-se colocado em vantagem logo a abrir a segunda parte e chegado à tranquilidade dos 2-0 a meio do segundo período. Bem diferente do que se passou anteontem com o Sporting, que foi manietado na primeira parte e não conseguiu fazer mais do que dividir o jogo no segundo tempo contra um Rio Ave também sem Geraldes (emprestado pelos leões), mas com Pelé e um soberbo Ruben Ribeiro.

Para ganhar em Vila do Conde, o Sporting fez valer uma arma que também é própria das grandes equipas: a superioridade individual dos seus jogadores, no caso com foco especial em Rui Patrício (o Rio Ave fez 22 remates contra seis) e Bas Dost, mas com destaque para todos os que estiveram em campo, que várias vezes conseguiram transformar água em vinho. Viu-se muitas vezes o Sporting a bater a bola na frente, porque Jesus sabia que tinha de sobrevoar aquele bloco e ir à procura de espaço onde ele estava, que podia perder muitas bolas nessa lotaria mas que o mais provável era que numa das que ganhasse acabasse por fazer um golo. Como fez. E como podia também ter feito antes.

Das três equipas, a que mais dificuldades sentiu em Vila do Conde foi mesmo o Benfica, não apenas por ter apanhado um Rio Ave com toda a gente – Geraldes, Bruno Teles, Pelé, Ruben Ribeiro… – mas também por ser a que tem o modelo de jogo menos evoluído, tanto defensiva como ofensivamente. Reage pior à perda, estabelece pior equilíbrios no corredor central, tem mais dificuldades para garantir situações de superioridade nas alas… E, sendo verdade que piorou da época passada para a atual (as saídas de Ederson, Semedo e Lindelof fazem-se sentir, naturalmente), já era assim na época passada. Ou há dois anos. E no entanto o Benfica ganhou esses dois campeonatos. Da mesma forma que o Real Madrid é neste momento bicampeão europeu e não tem o melhor coletivo: tem as melhores individualidades.

Se o futebol se ganhasse só pela qualidade do processo, o Rio Ave seria candidato ao título. Não é. Talvez até acabe a época fora dos lugares europeus. Mas o teste de algodão que fez aos grandes valida a candidatura portista ao título, garante um Sporting sólido e pronto para tudo e explica que o penta dependerá muito do nível que perderem Jonas (até agora não perdeu) ou Luisão e do que ganharem Svilar, Ruben Dias ou Diogo Gonçalves. Não é o futuro: o presente depende deles.

 Artigo incluído na edição do Diário de Notícias de 29 de Outubro de 2017