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Crédito: António Cotrim/Lusa
2017-10-22
O endeusamento de Svilar como justificação

Há mais do que uma diferença gritante entre os processos de afirmação de Oblak e Ederson no Benfica e aquilo que vive neste momento o jovem Svilar. Já se falou muito na experiência que os dois primeiros conseguiram acumular na UD Leiria e no Rio Ave, da mesma forma que é evidente a diferença de idades, mas uma coisa tem passado mais despercebida: a expectativa. Os adeptos olharam para Oblak e Ederson com desconfiança, não esperavam que fosse eles a resolver os problemas do clube e limitavam-se a ter fé de que não os criassem. Com Svilar é diferente: gerou-se à volta do jovem belga uma aura de prodígio, na qual até José Mourinho colaborou, que faz tudo menos facilitar-lhe o processo de integração e que aproxima o Benfica da abordagem que durante anos o Sporting teve para os seus jovens formandos, de um endeusamento prematuro que não é bom conselheiro.

Lembro-me bem da chegada de Ederson à equipa principal do Benfica. A ocasião era o dérbi com o Sporting, em Alvalade, por sinal decisivo para a definição do título de campeão de 2015/16. Júlio César teve o primeiro dos seus achaques físicos no clube e Rui Vitória foi forçado a apostar no jovem brasileiro. Não haveria muitos benfiquistas a achar que era por ali que o Benfica ia ganhar o campeonato – ao invés, a maioria esperaria apenas que o miúdo não comprometesse, como acabou por não comprometer. Svilar já chegou à Luz como Deus das balizas, apesar dos seus 18 anos. É o guarda-redes que até o Manchester United queria mas não pôde ter, dizem agora os meios “bem informados”. Só que tem 18 anos e comete erros próprios de quem não acumulou ainda horas suficientes de baliza para saber automaticamente o que tem de fazer em cada situação. Depois, se foi humilde a pedir desculpa a quem estava na bancada – já li textos emocionados a esse respeito que me pareceram altamente desproporcionados –, se vai aprender com os erros e se Mourinho terá mesmo de pegar na mala cheia de dinheiro que anunciou que ele vai valer para vir buscá-lo, isso só o futuro o dirá.

Não me escandaliza que Rui Vitória tenha agora com Svilar um comportamento diferente do que teve com Bruno Varela. Uma equipa de futebol não é uma repartição de finanças, em que toda a gente tem direito ao mesmo tratamento. Se Varela errou e foi afastado e agora Svilar errou e vai manter o lugar, isso quer dizer apenas uma coisa: que o treinador tem em Svilar uma crença, uma fé, que não tinha em Varela. E é ele quem tem de decidir, porque é também ele quem coloca o emprego em risco a cada decisão. O que já não é benéfico é que o próprio Benfica queira justificar esta decisão – normal, repito – através da criação de uma realidade alternativa que tem o seu quê de forçada. Svilar não é o Yashin dos tempos modernos. Ainda não é, pelo menos. E se para justificar a decisão do treinador se tiver de fazer crer ao público de que ele já pede meças a Buffon, há aí um elevado risco de isso vir a contribuir apenas para que ele acabe por não tirar dos erros – normais aos 18 anos, repito – os devidos ensinamentos.

Se havia coisa que, nos últimos anos, separava o Benfica do Sporting, por exemplo, era a abordagem que nos dois clubes se fazia ao lançamento de jovens. No Sporting, onde não se ganhou nenhum dos últimos 15 campeonatos, vivem-se entusiasticamente os sucessos de Cristiano Ronaldo ou Nani, como antes se viviam os de Futre ou Figo – e um dia, quem sabe, se o tempo apagar as mágoas, se viverão os de Simão ou Moutinho. Aplaude-se a percentagem de “Aurélios” – nome dado aos formandos de Alcochete, em referência a Aurélio Pereira – na seleção nacional que ganhou o Campeonato da Europa, esquecendo-se que de todos só um (Quaresma) foi campeão no clube. No Benfica, desde que se começou a vencer (o clube ganhou cinco campeonatos nos últimos oito), isso deixou de ser importante – e antes também não o era, porque a verdade é que daquelas escolas não saía nada… Ultimamente, porém, talvez por se sentirem atingidos pelo entusiasmo dos sportinguistas, os benfiquistas começaram a querer bater-se numa área que não é a deles, a endeusar jovens candidatos a prodígios como Renato Sanches, Nelson Semedo, Bernardo Silva, Gonçalo Guedes ou, agora, Svilar, Ruben Dias e Diogo Gonçalves. Não é um bom caminho.