Artigo 

2017-09-17
O futebol em dia de eleições

O futebol é um jogo ou é um negócio? Aparentemente nem uma coisa nem a outra – é o ópio do povo. É o que se conclui da bizarra decisão de atrasar o pontapé de saída do Sporting-FC Porto, passando-o para as 19h15 do dia das próximas eleições autárquicas, de forma a que não atrapalhe o normal curso dos procedimentos democráticos. Se fosse um jogo, poderia jogar-se, como todos os que decorrerão nesse domingo. Se fosse um negócio, poderia defender-se, como todos os negócios que estarão de portas abertas nesse domingo. Chato mesmo é ser o ópio do povo, a encarnação de todos os males.

A potencial abstenção dos eleitores portugueses não tem, afinal, a ver com o aumento do grau de desilusão que vão tendo nalguns políticos que elegem ou do sentimento de impotência para travar o que sentem estar mal. Não tem sequer a ver com a quantidade de programas de TV idiotas que lhes enchem a grelha do cabo e das generalistas ou com o facto de poderem passar os domingos de eleições a vegetar dentro de centros comerciais, que a cada ano esticam mais os horários de abertura e de fecho – quando em muitos países onde se fazem coisas parvas, como jogar futebol em dia de eleições, esses mesmos centros comerciais fecham ao domingo para permitir o convívio das famílias. Não. A abstenção dos eleitores portugueses tem a ver com os jogos de futebol. Por isso, no próximo dia 1 de Outubro, poderemos todos ir ao cinema, ao teatro, à praia, ver espetáculos de música, fazer piqueniques no campo… Poderemos até passar o dia a ver montras nos centros comerciais, mas estamos protegidos desse mal maior que é a possibilidade de ir ao futebol enquanto as urnas estão abertas.

Quem teve esta ideia peregrina demonstra muita coisa, mas não um conhecimento acertado da realidade. É que apesar das tentativas recentes de recuperação do setor, que sim, é um negócio e não está a ser nada ajudado com decisões como esta, o futebol, para os portugueses, deixou há muito de ser uma atividade predominantemente de estádio. É uma atividade de sofá. Há mais gente a ir aos estádios, mas o que as pessoas querem por estes dias não é ver um remate do Aboubakar, um drible do Gelson ou um passe a rasgar do Pizzi. O que querem é saber o que dizem na televisão desses feitos – daí o sucesso de programas que mais não apresentam do que imagens em loop dos treinadores a percorrer a linha lateral e a reação de adeptos “famosos” ao que se vai passando no campo. É giro, não tem de se perceber e sempre mete uns palavrões e uns insultos de vez em quando. Portanto, meus senhores, é melhor proibir também nesse dia os programas sobre futebol – mas podem deixar os reality shows, as novelas, as sessões de cinema e os desenhos animados, que isso, quem os vê não deve votar.

Aceito até que aleguem que não é só isso. Que a malta em Portugal anda mais entretida com essa conversa tóxica, com as entrevistas dos diretores de comunicação, os mails, o vídeo-árbitro ou as listas dos corruptos por comprovar do que a ver futebol a sério porque o futebol por cá não é assim tão interessante. Pois bem, eis a má notícia. Nesse dia 1 de Outubro, há um Real Sociedad-Betis às 11h, um Nápoles-Cagliari às 11h30,  Arsenal-Brighton ao meio-dia, um Hertha-Bayern às 14h30, um FC Barcelona-Las Palmas às 15h15, um Newcastle-Liverpool às 16h30, um FC Colónia-RB Leipzig e um Milan-Roma às 17h e por fim um Atalanta-Juventus e um Real Madrid-Espanyol às 19h45. Podem fazer uma de três coisas. Convencer os eleitores a irem votar pela fresquinha, esperar que o Barça e o Bayern resolvam os jogos depressa para se dar um salto à mesa de voto – pode ser que não haja muita fila e dê para votar antes de começar o Liverpool… – ou impor à Sport TV a transmissão dos jogos em diferido. E bloquear os streamings todos, para que quem prefere ver as coisas de forma, digamos, menos legal, também não se sinta tentado a abster-se.

O problema é que a política já passou há muitos anos pelo caminho de descredibilização que o futebol está a passar agora. Provavelmente tem a ver com a sociedade. Cresci a ouvir um pouco por todo o lado acerca dos políticos o que se ouve hoje da malta do futebol – e não eram coisas simpáticas. O segredo, acreditem, não passa por proibir. Ninguém deixa de ir votar por causa de um jogo de futebol às 18 horas. A submissão de uma atividade económica tão importante como o futebol – sim, podem rir-se à vontade, mas quando acabarem vão ver os números – a um capricho é que não indicia nada de bom. Nem acerca dos homens do futebol nem dos políticos que acham que estão a fazer uma coisa boa.