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Crédito: Facebook/Die Mannschaft
2017-06-18
E se de repente a Alemanha...

Portugal vai entrar hoje naquela que se diz poderá vir a ser a última Taça das Confederações da história do futebol num papel a que nunca se habituou e com o qual, diga-se, nunca se deu bem também: o de favorito. Olha-se para as principais publicações europeias, sejam elas de que país forem, e todas carregam a equipa nacional de favoritismo. Para dizer a verdade, não estou assim tão convencido. E não é por Portugal estar mal, que não está. Está até melhor do que há um ano. Nem sequer por esta ser uma competição maldita, cujo vencedor costuma dar-se mal no Mundial a seguir. É só porque todas estas análises se fundam na premissa de que esta jovem Alemanha que Joachim Löw trouxe até à Rússia não tem capacidade para competir ao mais alto nível, mas se há coisas que estes alemães têm a mais do que os outros são energia, ritmo e intensidade. E isso costuma ser decisivo em finais de época.

Há aquela velha frase de Gary Lineker. “O futebol é um jogo com onze de cada lado e onde no final ganha a Alemanha”. Pois bem, desta vez toda a gente acha que não ganha a Alemanha. É que, consciente de que não seria bom para o esforço de manter o título Mundial chegar à Rússia, daqui por um ano, com jogadores sujeitos a três anos seguidos com férias reduzidas e a conta-gotas, Löw trouxe uma equipa sem as suas maiores estrelas. Só lá estão três campeões do Mundo (Draxler, Mustafi e Ginter, sendo que este nem jogou um minuto sequer no Mundial); o mais velho é Wagner, ponta-de-lança do Hoffenheim, que tem 29 anos; e 18 dos 23 convocados têm 25 anos ou menos. Mais: face às lesões de Demme e Sané, o selecionador optou por nem chamar mais ninguém. “Bastam 21 jogadores”, disse Löw, mostrando uma ligeireza de atitude que, se for imitada pelos jogadores nos relvados, pode permitir-lhes ter as pernas muito mais leves do que as dos adversários.

Esta não é a super-Alemanha que ganhou o Mundial há três anos, mas continua a ser uma muito boa equipa, com jogadores como Goretzka, Kimmisch, Draxler ou Werner. E será o maior teste ao novo paradigma do futebol alemão, o tal paradigma inaugurado depois da derrota contra Portugal no Europeu de 2000 (3-0 contra as reservas portuguesas, que os titulares ficaram a descansar depois de terem garantido a qualificação), em que passou a beneficiar-se a habilidade em vez do físico. Claro que Portugal pode fazer sombra a esta Alemanha e é, até, favorito, como dizem as mais renomadas publicações internacionais. Mas é aqui que entra o fator-maldição: o vencedor da Taça das Confederações nunca faz um bom Mundial. E não é seguramente por causa de um alinhamento negativo dos astros, mas devido a uma conjugação de fatores onde entram o tal cansaço acumulado com os efeitos perniciosos que o sucesso traz a uma equipa: se se ganha, muda-se menos e chega-se ao Mundial com uma equipa mais velha, petrificada, com menos sede de vitórias. Talvez por isso mesmo Santos tenha reforçado que traz “oito jogadores” que não estiveram no Europeu, como quem diz que, caso Portugal se qualifique para o Mundial, outras mudanças poderão suceder.

Aliás, bem vistas as coisas, mais três equipas podem sonhar com o sucesso nesta prova. Há o Chile, que apresenta como desvantagem o facto de ser a seleção mais velha – 29 anos de idade média – de uma competição onde a recuperação física será fundamental, com três jogos numa semana. Mas que tem como vantagem o facto de muitos destes jogadores, de Sánchez a Vidal, de Bravo a Médel, já se conhecerem como irmãos, tantas batalhas já travaram juntos, incluindo as vitórias nas duas últimas edições da Copa América. Há a Rússia, uma Rússia rejuvenescida por Tcherchesov, em parte devido às ausências forçadas de Dzyuba, Dzagoev, Kokorin e Mamaev e aos abandonos internacionais dos centrais Berezutsky e Ignashievich, mas que mostrou contra a frágil Nova Zelândia uma velocidade rara nas suas seleções. E, sim, há o México, mais uma equipa veloz e vertiginosa, que depois dos 7-0 encaixados contra o Chile nos quartos-de-final da última Copa América, há exatamente um ano, não voltou a perder um jogo oficial e que além da tripla de inspiração portista – Layún, Reyes e Herrera – tem muita gente de qualidade na frente, graças a Chicharito, ao benfiquista Jiménez e aos regressos de Vela e Giovanni dos Santos.