Artigo 

2017-06-14
A justiça, os influenciadores e os facilitadores

O mundo do futebol está cheio de casos assim. Só para falar dos mais recentes, mediáticos e comprovados pela justiça, houve o caso Standard Liège-Waterschei no início dos anos 80, o escândalo OM-Valenciennes no final dessa década ou o polvo Juventus com tentáculos de Luciano Moggi na primeira década deste século. O que quer dizer que a tentação é grande e que andam todos ao mesmo: controlar, manipular o sistema, tirar dele o máximo proveito para aumentar as chances de ganhar. O limite, aqui, é o limite de cada um, porque nem todos temos a mesma noção de honestidade. E o importante, tanto no caso Apito Dourado como agora no caso dos mails divulgados pelo FC Porto a envolver funcionários do Benfica e outros ligados à arbitragem, é que a polícia investigue sem ser condicionada e a justiça atue se houver razão para tal. É nessa fase que estamos.

Vamos estabelecer aqui um ponto de ordem à mesa. Se um clube faz uso da sua influência para mexer na classificação dos árbitros, na nomeação dos delegados ou dos observadores ou alimenta a ideia segundo a qual os árbitros ou os adversários têm de lhe ser simpáticos se querem usufruir de determinadas benesses, isso chama-se tráfico de influências e é crime. Seja o Benfica, o FC Porto ou o Carcavelinhos a fazê-lo. O problema, aqui, é sempre o mesmo e tem a ver com o ónus da prova. Os adeptos tendem a culpar os jornalistas, a colocá-los como fazendo parte deste mesmo sistema corrupto, seja pela divulgação ou pelo silêncio, consoante os podres alastram aos seus clubes do coração ou aos rivais mais empedernidos. Aquilo que posso dizer em defesa da classe é que histórias já todos ouvimos muitas, mas obter provas a ponto de poder contá-las não está, quase nunca, ao alcance de um jornalista, a quem o estatuto de carreira obriga a uma dose de responsabilidade muito maior do que um simples bloguer ou um adepto anónimo. É por isso que Bob Woodward ou Carl Bernstein ficaram na história – por terem conseguido algo que é extraordinariamente difícil e que costuma estar apenas ao alcance da polícia, no caso Watergate.

Claro que entretanto podemos ter opinião. Há muito estou convencido de que entre os fatores de sucesso no futebol português, quero crer que ainda assim com menos influência do que os jogadores ou os treinadores, estão os influenciadores e os facilitadores. Por outras palavras? Estão os homens que influenciam a perceção da realidade do público, sejam os “paineleiros” dos clubes, os estrategas da comunicação ou até os spin-doctors que trabalham mais na sombra para semear ideias na cabeça de quem depois escreve ou fala na TV. E estão os homens que trabalham nos gabinetes com a missão de estabelecer relações de poder entre clubes ou entre clubes e órgãos de decisão, quase sempre através de manifestações de força, seja ela real ou fictícia, só para fazer bluff. O futebol está cheio desta gente, que se move nos limites da legalidade, umas vezes mais para o lado de cá, outras mais para o lado de lá. E é porque a linha que separa as duas coisas é tantas vezes tão ténue que nestas coisas, mais do que a legalidade, me interessa a moralidade. Porque há coisas que são legais e não são morais. E há outras que são ilegais mas não são imorais. Quem nunca tiver pisado um traço contínuo ou conduzido na auto-estrada a 130kms/h que atire a primeira pedra.