Artigo 

2017-05-26
A Liga em números (8): diferença entre candidatos

Já vimos ontem que o facto de uma equipa ter mais ou menos posse de bola não tem muito a ver com o sucesso ou o insucesso. Fundamental mesmo é a capacidade dessa equipa nos comportamentos com e sem bola, quer isto dizer, ofensivos e defensivos. E também há modos de aferir isso que vão muito para além da avaliação subjetiva. Olhando, por exemplo, para os totais da última Liga, verificamos que, com menos posse de bola, o FC Porto até rematou mais do que o Benfica e que em contrapartida permitiu menos remates do que os tetracampeões – o que devia ser uma boa forma de se ver que os dragões eram melhores com e sem bola. Acontece que foram piores no cruzamento desses dados com os golos marcados e sofridos, o que pode ter duas explicações: ou tiveram piores rematadores e piores guarda-redes ou – e eu acredito mais nesta segunda hipótese – tiveram no seu toso comportamentos coletivos que geraram situações mais favoráveis de remate no seu ataque e mais desfavoráveis de finalização aos adversários.

Por exagero, podemos pensar nas seguintes situações. Qualquer um de nós será pior guarda-redes do que Ederson, Casillas ou Rui Patrício, mas teríamos seguramente uma dose maior de êxito a defender remates de meio-campo do que eles a defender tiros da entrada da pequena área. Além disso, qualquer um de nós será pior finalizador do que Mitroglou, André Silva ou Bas Dost, mas também teríamos uma percentagem de sucesso maior em remates da marca de penalti do que eles em tiros feitos de trás da linha de meio-campo. No fundo, é disso que se trata: os comportamentos coletivos do Benfica foram, em ambos os casos, melhores do que os do FC Porto. Senão vejamos. O Benfica acabou o campeonato com 510 remates (exatamente 15 por jogo), menos 28 do que o FC Porto, que chegou aos 538 (15,8 por jogo). Foram as duas equipas mais rematadoras da competição, sendo que a terceira foi o Chaves, com 420 – o Sporting, por exemplo, só rematou 393 vezes (11,5 por jogo). Por outro lado, a equipa encarnada deixou os adversários rematar 285 vezes (8,3 por jogo), tendo o FC Porto ficado pelas 234 (6,8 por jogo). Entre os dois, neste particular, ainda se situou o Sporting, com 258 remates cedidos (7,5 por jogo).

Acontece, porém, que o Benfica marcou mais golos em menos remates e sofreu menos em mais remates: a equipa de Rui Vitória fechou a Liga a sofrer um golo a cada 15,8 remates e a marcá-lo a cada 7,1 tentativas, enquanto que o FC Porto marcou a cada 7,6 remates e sofreu a cada 12,3. A grande diferença foi estabelecida, portanto, no comportamento defensivo – o que faz sentido, tendo em conta que tanto Benfica como FC Porto apresentaram como arma principal a forma como foram capazes de esticar o jogo no ataque. Mas verdadeiramente espantosa é a avaliação dos comportamentos do terceiro classificado, o Sporting. Os leões foram a equipa mais bem trabalhada da Liga em termos atacantes, com um golo a cada 5,8 remates – sendo que até o Sp. Braga, por exemplo, foi melhor do que o Benfica e o FC Porto, com um golo a cada 6,9 remates. Só que os jogadores de Jorge Jesus estragaram tudo nos comportamentos defensivos, onde só na última jornada escaparam ao nada honroso título de pior equipa da Liga: já vimos acima que o Sporting foi a segunda equipa da Liga que menos remates permitiu, mas também esteve perto de ser aquela cujos adversários precisavam de menos remates para marcar. Ao todo, a equipa leonina sofreu um golo a cada 7,2 remates – média apenas piorada pelo Nacional, cujos adversários marcavam uma vez a cada sete tentativas.

Ainda se lembram que os valores de eficácia defensiva de Benfica e FC Porto eram 15,8 e 12,3? Ora aí está a explicação para o falhanço leonino em 2016/17.