Artigo 

2017-05-24
A Liga em números (6): Marítimo mandou nos cantos

Havia uma frase célebre em tempos nos campos de futebol. Sempre que havia um pontapé de canto, havia sempre alguém mais antigo que dizia que um canto era “meio golo”. Na verdade, nunca terá sido bem assim. E mais: depende de quem ataca e de quem defende. Porque há equipas especialistas neste tipo de lances. A identificação dos 84 golos nascidos de pontapés de canto na última Liga permite apontar para o Marítimo, as melhores equipa da Liga tanto a atacar como a defender nos pontapés de canto. Com o Sporting em segundo lugar.

Primeira constatação: os 84 golos saídos de pontapés de canto correspondem a 11,5 por cento do total de 728 golos marcados na Liga. Se todas as equipas fossem igualmente eficazes a atacar e defender pontapés de canto, o mais normal seria que todas andassem mais ou menos dentro destas percentagens. E não andam. Mas já lá vamos. Primeiro identifiquemos os maiores totais absolutos. As equipas que mais golos marcaram de canto na Liga foram o Marítimo, com 11, e o Sporting, com nove, seguindo-se o V. Setúbal, que marcou sete. Só uma equipa não fez qualquer golo de canto na competição: o Desp. Chaves. O que é curioso é que as equipas que menos golos sofreram do quarto-de-círculo foram as mesmas: Sporting e Marítimo, com apenas dois golos sofridos de canto, partilhando o V. Setúbal o terceiro lugar com outras quatro equipas que encaixaram mais um golo (FC Porto, Boavista, Benfica e Belenenses). Ora se estes são os melhores, então quem são os piores? O que é sintomático é que também aqui há repetentes. Defensivamente, ninguém esteve pior nos cantos do que o Arouca (nove golos), o Nacional (oito) e o Moreirense (sete). E se olharmos para a vertente ofensiva, todos estão no fundo da tabela: acima do já mencionado caso do Chaves, os piores foram o Nacional (dois golos) e depois Arouca, Moreirense, Feirense, Tondela e Rio Ave (todos com três).

Claro que a aplicação destes valores aos totais de golos de cada equipa nos permite depois ver qual o peso relativo dos cantos na produção de cada uma – e aí as tabelas variam. Enquanto os onze golos obtidos pelo Marítimo lhe valeram um terço (32,3%) do total de tentos marcados pela equipa insular na Liga (34), os nove do Sporting já só representaram 13,2% dos 68 obtidos pelos leões. Um peso relativo inferior a V. Setúbal (23,3%), Belenenses (18,5%), P. Ferreira (15,6%) ou Estoril (13,8%). Já em relação à performance defensiva, o Sporting foi a equipa com menor peso relativo dos cantos nos golos sofridos: os dois que sofreu significaram 5,5% dos 36 golos sofridos, enquanto que os dois encaixados pelo Marítimo valeram 6,2% dos 32 cedidos pelos verde-rubros.

Esta, no entanto, não é a forma mais interessante de avaliar as coisas. Bem mais significativo é vermos a percentagem de eficácia de cada equipa nos cantos que teve, de facto, na Liga. Ora a Liga portuguesa teve 3186 pontapés de canto, isto é, pouco mais de dez por jogo. Se estes 3186 pontapés de canto deram 84 golos, isso quer dizer que só 2,6% dos cantos geram um golo. Ou que, ao contrário do que diz o aforismo, um canto não é meio golo – é, sim, 40 avos de golo. A equipa que teve mais pontapés de canto a favor foi o FC Porto (235), seguido do Sporting (233) e, pasme-se, do Nacional (220). O Benfica, por exemplo, ficou pelos 210, ainda assim muito mais do que o Estoril, que só beneficiou de 127. Por outro lado, ninguém defendeu tantos cantos como o Nacional (225). Quem mais se aproximou foram Boavista (217) e Feirense (215) e quem menos vezes foi submetido a esta jogada foi o Sporting, que só teve 110 cantos contra (o FC Porto teve 118 e o Benfica 146).

Mais interessante é verificar, então, a percentagem de eficácia. Afinal, quem é precisa de menos cantos para chegar ao golo? E quem é que resiste a mais sem o sofrer? A resposta às duas perguntas é a mesma: o Marítimo. A equipa do Funchal fez onze golos em 147 cantos, isto é, marca um golo a cada 13,3 cantos (percentagem excelente, tendo em conta que a média geral é de um golo a cada 40). Quem mais se aproxima são V. Setúbal (sete golos em 173 cantos) e Sp. Braga (seis golos em 150 cantos), que marcam um golo a cada 25 pontapés de canto. Dos grandes, o melhor é o Sporting (9/233) com um golo a cada 25,8 cantos, seguido do Benfica (6/210) com um golo a cada 35 cantos e do FC Porto (4/235) com um golo a cada 58,5 cantos. Ninguém aparece pior do que o Chaves, naturalmente, pois os transmontanos não marcaram qualquer golo nos 186 cantos de que beneficiaram.

Defensivamente, é também o Maritimo a equipa proporcionalmente mais difícil de bater em pontapés de canto. Os insulares encaixaram dois golos em 173 cantos, isto é, um a cada 86,5. É um valor melhor que o do Sporting, que sofreu os mesmos dois golos, mas em 110 cantos. Ou seja, um golo a cada 55 pontapés do quarto-de-círculo. Melhor do que os leões ainda aparecem o Boavista (um golo a cada 72 cantos), o Belenenses (um a cada 58) e o V. Setúbal (um a cada 56). O Benfica (três golos em 146 cantos) sofre um golo a cada 48,6 pontapés de canto e o FC Porto (três em 118) tem uma má notícia a cada 39,3 cantos. A pior equipa da Liga, neste aspeto, foi o Arouca: em 207 cantos contra sofreu nove golos. Um a cada 23. Ora aí está uma das razões para a descida de divisão.