Artigo 

2017-05-21
Três meses definidores: o Sporting

Há um ano, se me perguntassem, diria que, em função da dinâmica de vitória que apresentava, o Sporting era o principal favorito a ganhar a Liga que se seguia. E no entanto as coisas mudaram tanto que os leões não passaram do terceiro lugar. Nesta altura, tudo indica que o Benfica vai sair à frente dos rivais para o campeonato de 2017/18. Falta perceber o que vai mudar daqui até lá, seja em termos de mercado (entradas e saídas de jogadores), da força dos treinadores dentro do contexto do clube ou de variáveis internas de balneário. Há um ano, a gestão de todos estes fatores contribuiu para que o Sporting caísse a pique em termos de produção. Caberá agora ao Benfica gerir os três meses até ao início do campeonato de forma a evitar os erros cometidos pelos outros. Começo hoje a antevisão desses três meses que vão definir aquilo que vai ser a nova época precisamente pelo Sporting, onde a atualidade é mais efervescente.

A pressão mediática está naturalmente mais em cima de quem mais falhou, que foi o Sporting. Saem notícias de desentendimentos entre treinador e presidente, seguidas de desmentidos formais de ambos, mas falta perceber como vai ser montada a equipa leonina para atacar a nova época. Há um ano, a adoção de uma política errada de perfis na altura de substituir os jogadores perdidos, seguida da alegada perda de poderes do treinador e, a montante disto, a pressão exterior nascida no êxito da seleção nacional e na consequente procura – e vontade de sair – de elementos fundamentais do balneário foi uma montanha demasiado íngreme para a equipa escalar. 

Bas Dost e Gelson foram os melhores leões em 2016/17, mas aquilo que deram à equipa foi sobretudo individual – os golos de Dost, a imprevisibilidade e as assistências de Gelson – e não substituiu aquilo que lhe davam Slimani e João Mário, que era altruísmo, capacidade para fazer brilhar os outros e poder coletivo de controlo sobre os jogos. Não é por acaso que além de Dost e Gelson mais ninguém tenha feito uma boa época no Sporting e que vários jogadores fundamentais tenham mesmo caído a pique em termos de rendimento – Bryan Ruiz é disso exemplo paradigmático.  Em paralelo, obedecendo a uma teoria de vasos comunicantes mas não só por causa deles, houve muitas contratações falhadas: uns por umas razões, outros por outras, Markovic, Castaignos, Elias, Douglas, Meli, Petrovic, Campbell ou André nunca justificaram a entrada no plantel. Tudo somado, os resultados foram maus e a empatia entre presidente e treinador começou necessariamente a diminuir. 

Jesus pode ou não continuar à frente da equipa do Sporting – e o melhor para os leões é que continue, porque os dois anos que lá passou levam a que não haja ninguém em melhores condições de compreender aquele balneário e de devolver ao clube o futebol que jogava há um ano. Mas o fundamental mesmo é que treinador e presidente compreendam que precisam de uma política comum, o que implica algumas cedências de parte a parte. Bruno de Carvalho tem de conceder que se o treinador tem uma ideia para a equipa, ou concorda com ela ou, se discorda, assume que errou na escolha – porque se há verdade absoluta na cartilha dos treinadores é a de que se deve viver e morrer de acordo com as suas próprias ideias e parte já para outra, sem perder mais tempo e dinheiro. E Jesus tem de assumir que o poder económico do Sporting não está, nem pouco mais ou menos, de acordo com aquilo que gasta na equipa técnica e que, por isso, não lhe resta outra alternativa a não ser continuar a aproveitar miúdos saídos da formação – como fez, bem, com Gelson ou Ruben Semedo e se prepara para fazer com Podence – e acertar mais nas escolhas dos craques que o clube contrata a peso de ouro.

No fundo, o desmentido que os adeptos esperam de Bruno de Carvalho e Jesus não é o de que estão pontualmente em desacordo. O que eles precisam de desmentir agora é aquilo que muitos anteviam como principal problema da parceria, que era o excesso de ego de ambos. Este não veio à tona nos primeiros 18 meses de convivência porque o que estava lá à frente – a perspetiva de ganhar a Liga – era mais forte do que aquilo que tinham deixado para trás – nada, na época de arranque, e um campeonato perdido com recorde de pontos e excelente futebol, no início da segunda temporada. Agora, no rescaldo de uma época totalmente falhada, a tentação é grande e manda apurar responsabilidades. E muito daquilo que anda por aí tem menos a ver com uma reivindicação de poder do que com uma declaração de isenção de culpa. Quando se diz que o que está aqui em causa é a decisão acerca de quem vai formar o plantel, no fundo, o que está a debater-se é quem fez asneira a formar o anterior. Porque nem presidente nem treinador – nem os seus defensores acérrimos, de resto – alguma vez admitirão que a miséria que foi a época de 2017/18 tem a ver com culpas próprias.