Artigo 

2017-05-07
O vídeo-árbitro e o exemplo do râguebi

As diferentes reações que se têm visto à chegada do vídeo-árbitro ao futebol português têm a ver, sobretudo, com a incapacidade de entender aquilo que o vídeo-árbitro é ou pode ser por parte de mentes excessivamente tradicionalistas ou bloqueadas por um grave défice de cultura desportiva. O vídeo-árbitro é um meio auxiliar de diagnóstico, não é uma forma de acabar com o erro numa área onde muitas vezes impera a subjetividade. É uma forma, isso sim, de ajudar a impedir injustiças, não uma forma de acabar com elas ou com a polémica em torno delas. Porque a polémica não tem nada a ver com a arbitragem, mas sim com a tal falta de cultura desportiva, que é o que em Portugal – e em poucos países mais – gera tanto ruído em torno dos casos de arbitragem. No limite, aos céticos, respondo sempre com o râguebi, onde o TMO (Television Match Official) já impediu erros grosseiros e onde a dinâmica de interação entre jogadores, árbitros e vídeo-árbitros está tão bem oleada que passou a ser um espetáculo dentro do espetáculo. E é nessa altura que me respondem: “Mas queres comparar o público do futebol com o do râguebi?”. E eu digo: claro que sim!

A ideia segundo a qual o futebol nunca poderá seguir o exemplo do râguebi nesta matéria por haver muito em jogo cai pela base quando se verifica que o TMO funciona – e bem – em competições como o Campeonato do Mundo, o Torneio das Seis Nações ou a Taça dos Campeões Europeus. Nestas competições, já vi ensaios irregulares serem anulados pelo TMO, não apenas pela conclusão, mas também por se detetar uma irregularidade lá mais atrás, tal como já vi questões disciplinares serem resolvidas com justiça pelo mesmo TMO. A dinâmica dos dois jogos não é assim tão diferente, ou não tivessem eles nascido da mesma base – as regras das duas modalidades eram as mesmas até meados do século XIX, quando se deu a separação entre os que permitiam que se agarrasse o adversário e se transportasse a bola nas mãos e os que o impediam. Se na altura houvesse programas de TV com adeptos dos diferentes clubes, imagino o que não se diria a respeito deste corte com a tradição. Não havendo, admito que a reunião decisiva para a cisão, na mítica Freemason’s Tavern, tenha sido preenchida com frases como “O futebol nunca mais vai ser o mesmo” ou “estão a destruir o futebol”. E a verdade é que tanto o futebol como o râguebi prosperaram.

Foi por essa altura que nasceu o famoso aforismo segundo o qual “o futebol é um jogo de cavalheiros jogado por brutos e o râguebi um jogo de brutos jogado por cavalheiros”. Não tem de ser assim, no entanto. Nos círculos do râguebi, contam-se outras piadas, como as que marcam a diferença entre os jogadores das duas modalidades: no futebol rebolam no chão e dizem que estão lesionados quando estão de perfeita saúde, enquanto que no râguebi tentam convencer o árbitro e o treinador de que estão bem quando na verdade estão lesionados. E isto também não tem de ser assim. A questão é que nem tudo tem a ver com formação. Há aqui muito de ética, é verdade, mas muito de ação, também. E neste aspeto quem tem de aprender são as hiper-profissionais estruturas que governam o futebol, que ganhavam tudo em deixar de apostar no secretismo como arma. Podia aqui encher-vos a paciência com histórias acerca do “fruto proibido” e de como ele é o mais apetecido, mas prefiro dar o exemplo positivo: há pouco mais de um mês fui a Twickenham assistir ao vivo ao Inglaterra-Escócia que permitiu à equipa inglesa assegurar, a uma jornada do fim, a segunda vitória consecutiva no Torneio das Seis Nações. À entrada, quem quisesse, podia levar um mini-transistor. E não era para ouvir o relato: era, sim, para ouvir as conversas entre o árbitro de campo e o TMO. Para compreender as decisões, portanto.

É nesse sentido, também, que as decisões são expostas à apreciação popular com repetições esclarecedoras nos ecrãs gigantes dos estádios. Ouvimos o árbitro dizer o que se passou e podemos ver que realmente se passou. É verdade que o fanatismo leva muita gente a ver o que não está lá e a ignorar o que qualquer mente sã é capaz de ver. Mas não terá sido essa a razão principal pela qual a FIFA deu em tempos indicações aos organizadores de jogos para que não sejam difundidas repetições nos ecrãs gigantes. Isso terá sido para que o público, os jogadores e até os próprios árbitros não possam aperceber-se de que estes últimos se enganaram de forma grosseira. E até isso o vídeo-árbitro pode impedir.