Artigo 

2017-04-30
As virtudes do trabalho integrado

Só cinco das 18 equipas que compõem a atual I Liga têm hoje os mesmos treinadores que tinham no início da competição e curiosamente quatro delas estão nos quatro primeiros lugares – Benfica, FC Porto, Sporting e V. Guimarães, além do V. Setúbal. Claro que aqui é sempre complicado distinguir o que é causa e o que é efeito, saber se estão bem por não terem mudado de treinador ou se simplesmente não sentiram necessidade de mudar de treinador porque estavam bem. Mas a única coisa que nos diz esta realidade é que a firmeza de convicções, desde que sejam convicções fundadas e certas, traz sempre resultados, porque permite que se tirem frutos do trabalho integrado. Não nos diz que a coragem para mudar não seja um atributo valorizável.

Uma vez, em miúdo, consegui impingir a um amigo a ideia de passarmos um bocado a ver uma cassete VHS de produção artesanal com todos os golos dos Mundiais de 1982 e 1986. Além de não gostar particularmente de futebol, esse meu amigo – que veio a dar jornalista, mas da área política – também não sabia grande coisa do assunto. E mantinha uma teoria indefensável segundo a qual os guarda-redes nunca deviam sair dos postes, porque dessa forma a baliza ficava desguarnecida e o golo tornava-se mais provável. E indiferente ao facto de aquela ser uma cassete que só tinha golos, dizia-me com um misto de ingenuidade e autoridade: “Estás a ver? Sempre que o guarda-redes sai é golo!” Seria agora demasiado fácil e simplista vir aqui dizer que todas as equipas que mudaram de treinador a meio da época devem ter-se arrependido, porque se os quatro primeiros não mudaram e estão lá em cima é por terem beneficiado do trabalho continuado de Rui Vitória, Nuno Espírito Santo, Jorge Jesus e Pedro Martins. E não é assim só porque José Couceiro também está aos comandos do seu Vitória desde o início da época e só ontem à tarde teve a certeza matemática da manutenção no escalão principal. É assim porque há muito mais fatores em apreciação.

O primeiro e mais evidente é a qualidade do trabalho do treinador no campo e no banco. Se é competente a trabalhar e potenciar os jogadores, se depois consegue tirar deles o que eles têm e até esticar-lhes os limites, se consegue conjugá-los da melhor maneira enquanto equipa. Esse fator, por si só, justifica as maiores subidas de rendimento após chicotada psicológica que se viram esta época. Falo do Marítimo (20 por cento dos pontos ganhos com Paulo César Gusmão face a 58 por cento com Daniel Ramos) e do Feirense (26 por cento dos pontos ganhos com José Mota e 52 por cento com Nuno Manta), por exemplo, mas talvez venhamos a poder alargar esta apreciação ao Estoril, que no entanto ainda não tem tempo suficiente com Pedro Emanuel para se perceber se este é capaz de consolidar a melhoria: passou de 27 por cento entre Fabiano Soares e Pedro Carmona para 61 por cento com o atual treinador (números, como todos os outros, antes da jornada deste fim-de-semana). Augusto Inácio, por exemplo, teve um efeito extraordinário à chegada ao Moreirense, levando mesmo a equipa à conquista da Taça da Liga, mas nunca conseguiu consolidar estas melhorias no médio prazo e em termos de classificação do campeonato, na qual acabou por deixar a equipa onde a tinha encontrado antes de ceder a vaga no banco a Petit.

Acontece que nem tudo tem a ver com a qualidade imediata do treinador. De que outra forma se explicaria que homens que têm sucesso numa circunstância não o consigam noutra? Ou que haja treinadores a obter resultados com determinado tipo de jogadores e não com outros, com certos estímulos e não com outros? Petit, que conseguiu o milagre da manutenção no Boavista há dois anos e uma recuperação a todos os títulos notável no Tondela, no ano passado, de repente deixou de servir para o clube beirão? Mas depois já serve para o Moreirense, de onde tinha sido dispensado Pepa, o treinador em quem apostou o mesmo Tondela, na tentativa de voltar a escapar à descida? E por que razão Jorge Simão, que fizera um trabalho notável no Chaves, como antes o fizera no Belenenses e no Paços de Ferreira, de repente chegou a Braga e falhou? Claro que há aqui o efeito da novidade. Por alguma razão se diz “chicotada psicológica” – por ter o efeito surpresa de uma chicotada, de um acordar, e por mexer com a mente de uma equipa. Mas o que os dirigentes têm de entender é que nenhum treinador é pau para toda a obra, que as hipóteses de sucesso crescem sempre que um clube pensa o seu futebol de uma forma integrada, na qual as ideias de uns coincidem com as ideias dos outros e as práticas têm a ver com as ideias de ambos. Quando isso acontece, tudo fica mais simples.

Texto publicado originalmente no Diário de Notícias, de 30.04.2017