Artigo 

2017-04-22
Os meus dérbis

Nasci em dia de Benfica-Sporting. Não sei se estava bom ou mau tempo nem o que mais se passou em Portugal, só sei que vim ao Mundo às 10h45 de um dia 1 de Março, em 1970, e quatro horas depois os onzes dos dois maiores clubes portugueses estavam a subir ao relvado do Jamor para se defrontarem em jogo da 20ª jornada do campeonato. O meu pai, que anos mais tarde me lembro de ver acompanhar os jogos pelo rádio ou até de o ver partir com os amigos, uns benfiquistas e outros sportinguistas, para os cerca de 80kms que separam Coruche de Lisboa, para ver os meus heróis ao vivo – eu não ia porque “era muita confusão, muito perigoso para um menino” – diz que não se lembra se houve dérbi nesse dia de Março. Faz sentido.

Os meus dérbis, que foi para falar deles que o Rui Pina me desafiou, só começam anos depois desse empate de 1970 de que há um pequeno trecho no youtube: um remate de Peres bloqueado por José Henrique. São quatro segundos de vídeo. A esses dois, ao Peres e ao Zé Gato, já não os vi jogar, embora tenha tido o prazer de os conhecer depois. Como não vi ao vivo nenhum dos golos que fizeram a história do dérbi que tenham sido marcados por Peyroteo, Rogério, Eusébio ou Yazalde – e destes só o Pipi e o King me deram a honra de um dia partilhar com eles uma mesma mesa. Todos foram importantes, mas não fazem parte dos meus dérbis, que começam em Novembro de 1978. Lembro-me como se fosse hoje de estar no Campo da Horta da Nora, a ver jogar o Coruchense e a acompanhar pelo pequeno transístor o evoluir dos acontecimentos no Estádio da Luz. Aos 15 minutos, golo de Reinaldo: 1-0. Aos 18’, golo de Nené: 2-0. Aos 28’, outra vez Reinaldo: 3-0. Dois minutos depois foi a vez de Alves: 4-0. E aos 40’, outra vez Alves, agora de penalti: 5-0. Naquele intervalo, que se fazia em simultâneo entre a I Divisão e o distrital de Santarém – toda a gente jogava às 15 horas de domingo –, a romaria à banca que vendia bebidas e amendoins foi feita a discutir o dérbi. E discutia-se de forma inflamada.

Os dérbis, nesses tempos, vivia-os de outra forma. Pegava nos jornais à segunda-feira, sobretudo em A Bola, e entretinha-me a simular que estava a falar na rádio, a dizer as constituições das equipas, a relatar os golos, a fazer o comentário final. Maluquices! Por essa altura já tinha aderido também à maluqueira dos cromos. Desde uma coleção de caricaturas, de 1975/76, que me tinha tornado um colecionador ávido, daqueles que não fazia a lista com os números que faltavam. E não a fazia por uma razão muito simples: os jogadores de futebol, que não apareciam frequentemente na televisão, eram os meus ídolos e tornava-se muito mais fácil saber se já me tinha saído o Manuel Fernandes, o Bento, o Nené ou o Jordão do que saber se tinha o 13, o 18, o 9 ou o 23. Foi pelas coleções de cromos que comecei a perceber que não se tinha de ser do Benfica ou do Sporting. O Artur, que na minha primeira coleção, aparecia no Benfica, era agora do Sporting. E o Alhinho, que eu já colecionara no Sporting, surgia agora de vermelho à Benfica. Não foram casos únicos daquele tempo. Botelho, Laranjeira, Jordão, Eurico, Fidalgo – e certamente muitos mais… – foram mudando de campo, o que dificultava as minhas simulações de tardes desportivas da rádio, pois obrigava-nos a “reformar” antecipadamente alguns dos meus “ativos”, como se diria agora, nos tempos em que o futebol é uma atividade económica.

Enquanto não me tocasse a hipótese de ver ao vivo um dérbi, o que sabia desses jogos mágicos era aquilo que ouvia na rádio. Por isso, juntava-me com mais três amigos – o Rui, o Zé e o Luís Claro, que depois também “deu” jornalista, ainda que sem ter nada a ver com os futebóis – e, dividindo uma mesa em quatro partes, construíamos quatro estádios onde cada um de nós simulava um jogo de I Divisão com cromos e bolas de papel. E íamos alternando na tarefa de relatar, imitando aquilo que ouvíamos ao Fernando Correia, ao Romeu Correia, ao António Pedro ou ao Ribeiro Cristóvão. Havia até quem se atrevesse a imitar os “jingles” com os nomes dos relatadores, repórteres e comentadores cantarolados com sotaque brasileiro, com que a Rádio Renascença nos brindava. Tínhamos oito, nove anos. Tudo nos era permitido. Até acabar com a paciência das nossas mães com aquela gritaria toda – não deve ser fácil ter a “Tarde Desportiva” mesmo ali ao lado, em volume perto do máximo, todos os dias, durante semanas.

A partir desta altura as minhas memórias do dérbi começam a ser mais frequentes. Lembro-me de, em Novembro de 1979, estar em viagem com os meus pais e ouvir no banco de trás do nosso Morris 1300 o relato de um Benfica-Sporting que os encarnados ganharam por 3-2 (Reinaldo, Alberto e Nené marcaram para o Benfica, Jordão e Menezes para o Sporting). E de, no dia seguinte, à entrada para a escola, ficarmos em pânico, porque os “matulões” do segundo ano estavam à porta a perguntar aos caloiros quem era do Benfica e quem era do Sporting. E constava que a resposta errada dava direito ao maior pesadelo de um miúdo do primeiro ano: a famosa carecada. Era tudo mentira e entrámos sem problemas. Esses eram também tempos em que o futebol dava origem a rivalidades mas não a ódios, em que o futebol animava discussões mas não provocava brigas. Sei do que falo, porque se o meu pai e o meu padrinho são sportinguistas, os meus avôs eram ambos benfiquistas. O futebol lá em casa era discutido com pluralismo e já desde essa altura me fui habituando ao papel de moderador, a ser capaz de conviver com as diferentes sensibilidades que um golo ou uma boa no poste podiam acicatar.

O primeiro dérbi que vi ao vivo foi em Alvalade, a 8 de Agosto de 1981, rodeado de sportinguistas e benfiquistas. Era um jogo de pré-época, pelo que o meu pai lá achou que devia ser menos perigoso levar-me, e então, com onze anos, pude pela primeira vez participar na romaria. Saímos de Coruche a seguir ao almoço, fomos ao Cartaxo apanhar o Zé Vicente, sportinguista, primo do meu pai, e o “Firmo”, sogro do Zé Vicente, benfiquista, e chegámos ao estádio umas horas antes do jogo. Com farnel, como é evidente. E casacos, porque o jogo era à noite e a minha mãe dizia-nos sempre para irmos agasalhados porque “em Lisboa, à noite, está sempre vento”. Não me lembro do vento, mas recordo que fiquei fascinado com aquela atmosfera. O relvado era maravilhoso – na Horta da Nora, em Coruche, jogava-se em pelado. As bancadas majestosas, o ruído constante das buzinas e das vozes uma novidade para um miúdo de uma geração muito menos estimulada do que as atuais. A iluminação era ainda mais fenomenal e fazia com que os jogadores tivessem quatro sombras, cada uma delas provocada por uma torre diferente, como se fossem estrelas de quatro pontas. É dessa altura a minha fixação pelo “Subbuteo”, o jogo que permitia imitar aquela atmosfera, com bancadas e “holofotes”, que era assim que lhe chamávamos.

No campo, o meu primeiro dérbi foi favorável ao Sporting, por 2-0, com um bis de Manuel Fernandes na baliza de Bento. Era um prenúncio do que estava para vir nessa época. O Sporting de Allison foi campeão e o título passou em grande parte pela reedição do jogo grande em Alvalade, um 3-1 que meteu a famosa expulsão de Bento, por agredir Manuel Fernandes. A esse jogo, quente, porque estava um campeonato em disputa, já não tive direito de ir, tal como não fui à generalidade dos que se seguiram, porque os amigáveis entre Benfica e Sporting não eram assim tão comuns. Esses 3-1 acompanhei-os pela rádio, podendo depois ver a transmissão em diferido na RTP, ao final da tarde. Às vezes, sobretudo quando os presidentes da equipa da casa acabavam o jogo bem-dispostos com o resultado, havia surpresas destas, a somar às raras ocasiões em que havia futebol de qualidade na TV, quase só nas finais das competições europeias. Foi pela rádio que segui os próximos dérbis. O empate a um golo na Luz, na penúltima jornada de 1983/84, com o Benfica a garantir logo ali a conquista do título, ou a vitória do Sporting por 2-1, no mesmo palco e nas mesmas circunstâncias, mas dessa vez a oferecer o campeonato ao FC Porto, que ao mesmo tempo ganhava em Setúbal. Esses ainda os ouvi num daqueles rádios que eram ao mesmo tempo um móvel de sala, com gira-discos incorporado. Mais tarde, já de rádio a pilhas, segui também os 5-0 de 1985/86, a permitir a passagem do Benfica às meias-finais da Taça de Portugal, ou os 7-1 de 1986/87, favoráveis ao Sporting numa tarde mágica de Manuel Fernandes, que mesmo assim acabou com o Benfica de Mortimore a sagrar-se campeão. O primeiro foi a uma quarta-feira à tarde e exigiu uma grande ginástica para estarmos a par do resultado durante uma aula de matemática, porque ainda não havia telemóveis nem “apps” com resultados ao vivo a disparar notificações. O segundo foi dividindo a minha atenção com os apontamentos que revia para me preparar para um teste de filosofia que ia ter no dia seguinte.

Em 1987, meses antes de me mudar para Lisboa, para estudar jornalismo, vi também a primeira final da Taça de Portugal, entre Benfica e Sporting. Já tinha estado no Estádio Nacional, para assistir a um Portugal-Itália em que os nossos “seabrinhas” foram derrotados por 1-0, no apuramento para o Europeu de 1988, e ficara um pouco baralhado com tanto mato à volta do estádio e com os caminhos para regressar ao carro, que me pareciam todos iguais. Quando se jogou a final da Taça foi pela RTP que a acompanhei. Diamantino marcou dois golões e o Benfica ganhou por 2-1. Como voltou a ganhar o Benfica quando voltei a assistir a um dérbi ao vivo. Por essa altura, em Maio de 1989, já acumulava a faculdade com o trabalho no Expresso há quase um ano. O João Querido Manha e o Zé Pereira ocuparam os lugares na tribuna de imprensa, mas segui com os meus colegas de jornal Paulo Querido e Daniel Reis para a bancada, onde vimos um Sporting-Benfica que na verdade já não contava para nada, pois os encarnados eram matematicamente campeões. E ganharam por 2-0, com golos ainda antes da meia-hora de Valdo e Abel Campos. Aquele era o tempo de um Sporting fraco e de um Benfica que se batia contra o FC Porto pela hegemonia do futebol português. Os dérbis foram, por isso, perdendo significado. Até para mim, que por esses tempos vivia na Rua Maestro Jaime da Silva Filho, ali para os lados da Rua dos Soeiros, paredes meias com o Estádio da Luz, onde chegava com uma caminhada de cinco minutos. Lembro-me de ter feito essa caminhada num domingo à tarde, antes de um empate a uma bola, em Maio de 1991, só para sentir o ambiente, mas de depois ter acompanhado esse jogo pela rádio: golos de Litos e Isaías, por esta ordem, e o Benfica de Eriksson a caminho do título, uma semana depois do bis de César Brito nas Antas.

Recordo também os 2-0 do Sporting ao Benfica, em Outubro de 1992, com o golo de Balakov na baliza de Silvino logo aos 12 segundos, ainda os fumos lançados das bancadas antes do início não se tinham dissipado, sobretudo por uma razão: foi o primeiro dérbi da SIC e eu por essa altura fazia comentários de futebol internacional na estação de Carnaxide. Vi o jogo pela TV, para apreciar as inovações na realização, mas nessa noite, mais do que ver o dérbi, pensava também no dia em que poderia comentá-lo. E isso ainda demorou uns anos. Foi pelo Expresso que estive na Luz em Março de 1993, quando Futre resolveu o dérbi a favor do Benfica, marcando o único golo da partida, ou em Dezembro do mesmo ano, no emocional jogo que se seguiu ao acidente de Cherbakov, no qual Figo marcou primeiro e gritou o nome do colega, mas depois o Benfica virou para o 2-1 final. Mesmo assim, Carlos Queiroz recuperou aquela equipa do Sporting e isso valeu-me estar, em Maio de 1994, em Alvalade, para ver, pela primeira vez, um dérbi que era simultaneamente o jogo do título. Ocupei um dos lugares do Expresso na tribuna de imprensa do estádio, que ficava separada dos camarotes de sócios leoninos apenas por um pequeno muro – ainda por cima deixando os sócios acima dos jornalistas. Ao meu lado, estava um rapaz do jornal do Benfica, que a partir de determinada altura começou a festejar mais efusivamente cada um dos golos com que o seu clube ganhou por 6-3, naquela tarde maravilhosa de João Pinto. O pior é que a alegria do benfiquista contrastava com a ira dos adeptos sportinguistas sentados acima dele. E foi por pouco que o guarda-chuva não passou a arma de arremesso. Ainda nos rimos, nessa noite, no Snob, eu, o Paulo Luís de Castro, o Daniel Reis e o Miguel Costa Nunes, a pensar no caso, que provavelmente marca a fronteira entre a época da birra genuína e a do hooliganismo organizado.

Em 1994, após o Mundial, mudei do Expresso para o Público e isso teve um reflexo imediato nos meus fins-de-semana e na capacidade que tinha para ir ver futebol de livre vontade. Estava a trabalhar, no jornal, na tarde do incidente entre Jorge Coroado e Cannigia, que levou à expulsão do argentino e à repetição do dérbi que os leões ganharam na Luz, por 2-1. Pelo Público não fiz muitos dérbis no estádio. Fiz um marcante, porém, já na tal era do hooliganismo: em Maio de 1996 estava na tribuna de imprensa do Jamor quando o very-light lançado da bancada à minha direita, por um adepto do Benfica, na celebração de um golo de Mauro Airez, matou um adepto do Sporting. O Benfica ganhou essa Taça de Portugal, por 3-1, mas não me lembro de muito mais desse jogo. Ninguém se lembrará, aliás. Olho para os livros e vejo que ficou 3-1, que chegou a estar 3-0, mas apagou-se-me tudo. Nem os festejos, tão comuns e empáticos quando se faz o caminho pela marginal até Lisboa, cá ficaram. Provavelmente ninguém estava sequer com vontade de festejar seja o que for.

Em Fevereiro de 1998 pude pela primeira vez comentar um dérbi para a televisão. Em paralelo com a minha atividade de jornalista de imprensa, mantinha o “hobby” – era “hobby” mesmo, tendo em conta o que pagava – de comentar futebol na TV e na rádio. Já tinha trocado a SIC pela TVI, para acompanhar as transmissões do futebol espanhol com o José Carlos Soares e o Paulo Sérgio, mas depois segui com o Jaime Almeida Ribeiro, quando ele regressou à RTP para coordenar o desporto da estação. Assim sendo, comentei o meu primeiro dérbi ao lado do Paulo Catarro. Ganhou o Benfica por 4-1, na noite em que João Vale e Azevedo chamou a si as atenções gerais por festejar todos os golos encarnados na tribuna de honra como se valessem títulos. Criticaram-no, mas ali vi o adepto genuíno. Se calhar uma das poucas coisas em que o então presidente do Benfica era genuíno… O jogo foi daqueles difíceis de explicar, com muitos erros defensivos, e por isso mesmo um daqueles jogos que os comentadores mais detestam, porque não se lhes encontra uma tendência racional. Saí do estádio com a ideia de que a coisa não me tinha corrido nada bem.

Os meus dérbis viviam agora ao ritmo da minha vida profissional. Em 1999 entrei pela primeira vez num jornal desportivo, no caso o Record. Era editor de futebol internacional e, ainda que fizesse parte do grupo de jornalistas que faziam crónicas de jogo, raramente me tocavam, naqueles primeiros tempos, os jogos grandes. Nos 3-3 da Luz, em Maio de 1999, na última jornada desse campeonato, estava em Alverca, a acompanhar um Alverca-V. Guimarães que era importante na luta pela fuga à despromoção. Nem pelo rádio fui sabendo do que se passava a umas dezenas de quilómetros, porque levava – e ainda levo – o trabalho muito a sério. Já estive na Luz, em Janeiro de 2000, na vitória do Sporting por 3-1 para a Taça de Portugal, na qual percebi que aquela equipa de Augusto Inácio tinha o espírito necessário para chegar ao título. E por pouco não acompanhei in-loco a interrupção do jejum de títulos nacionais do Sporting. Em Maio de 2000 foi destacado para fazer a crónica do Sporting-Benfica que, em caso de vitória, daria o título nacional ao Sporting, na penúltima jornada. Os leões bloquearam ante a responsabilidade e ganhou o Benfica por 1-0, num livre de Sabry quase em cima do apito final. Quando esse Sporting se sagrou campeão, ganhando na jornada seguinte ao Salgueiros, em Vidal Pinheiro, eu estava em Barcelos, a acompanhar o Gil Vicente-FC Porto, que também podia dar campeão mas só gerou frustração entre os adeptos portistas.

Os dérbis da época seguinte foram intensos. Duas vitórias por 3-0, sempre da equipa que jogava em casa. Vi o da Luz, com José Mourinho a festejar intensamente cada golo do seu Benfica, mas sem sequer sonhar com o drama que ia desenrolar-se. Mourinho demitiu-se, comprometeu-se com o Sporting e a guarda pretoriana que os leões – e todos os ouros clubes – tantas vezes chamavam às conferências de imprensa para condicionar as questões dos jornalistas funcionou ao contrário, impedindo Luís Duque de anunciar a troca. Eram os resquícios da mentalidade amadora num futebol que queria ser profissional. O dérbi de Alvalade apanhou-me fora de Lisboa, de fim-de-semana prolongado para os lados da Serra da Estrela, numa pousada sem Sport TV. Mas dele guardo uma experiência gratificante e provavelmente irrepetível: dias antes do jogo, fui com o João Marcelino, o João Querido Manha e o José Manuel Delgado almoçar, ali para os lados da Serafina, com o Manuel Fernandes e o Toni, que eram nessa altura treinadores de Sporting e Benfica. A reportagem ficou fantástica e não me consta que tenha sido por causa dela que um ganhou e o outro perdeu. Ainda assim, nunca mais os clubes aceitaram fazer trabalhos destes. Os jornais e os leitores ficam a perder. O futebol fica a perder.

Vi na TV os dérbis de 2001/02. Na polémica do primeiro, lembro-me de funcionar como “consciência” do José Manuel Delgado, que estava a fazer a crónica no estádio e falou comigo para esclarecer as dúvidas acerca dos penaltis marcados e por marcar. O segundo acompanhei-o em Sagres, de fim-de-semana, para onde tinha ido adiantar serviço para a revista que o jornal ia fazer antes do Mundial de 2002. No Record, estava a afastar-me cada vez mais da edição diária e a centrar-me noutros conteúdos. Vinha aí a Record Dez, a revista que ajudei a lançar em Abril de 2004. Passei a ter os fins-de-semana de folga, nasceu o meu filho e os dérbis ressentiram-se. Em Maio de 2005, quando o Benfica-Sporting voltou a ser o jogo do título, estava em casa, por esta altura na Alameda das Linhas de Torres, mais perto do Estádio José Alvalade. Quando Luisão marcou o golo que garantiu esse campeonato ao Benfica (vitória por 1-0, na penúltima jornada), o Francisco, que tinha nove meses de vida, dormia tranquilamente em cima da minha barriga. Era cedo para lhe explicar o sortilégio do dérbi… e mais tarde vim a perceber que não valia mesmo a pena fazê-lo, porque os únicos dérbis que lhe interessam são os do râguebi.

Algumas complicações profissionais levaram-me, por essa altura, a aceitar o conselho do engenheiro Paulo Fernandes, CEO da Cofina, e a sair do Record para o Correio da Manhã, que pertencia ao mesmo grupo de media. Tanto enquanto lá estive, como depois, quando decidi sair e tornar-me free-lancer, em 2006, passei a viver os dérbis sobretudo pela TV. O jornalismo estava a mudar, a rapidez passou a ser, sobretudo nos jornais generalistas – que tinham de fechar mais cedo – o vetor mais importante na forma de acompanhar estes jogos e isso já era dificilmente compaginável com idas ao estádio. Passei a ver os dérbis quase todos pela TV e, apesar de serem mais recentes, francamente, não me lembro de muitos detalhes. Prova de que quanto mais frio e assético é o ambiente, menos memorável se torna o acontecimento. O dérbi de Portugal é para ser vivo com paixão e essa eu tive de a matar quando escolhi tornar-me profissional da área. São os ossos do ofício.

Texto incluído com prefácio do livro "40 Derbies para a História", de Rui Câmara Pina (Chiado Editora, 2016)