Artigo 

2017-03-26
O que a Liga deve fazer (parte II)

Nos quase 30 anos que já levo de futebol, cansei-me de ouvir dizer que a Liga deveria castigar duramente quem pusesse em causa o prestígio da competição com declarações inflamatórias. Cheguei a engrossar o pelotão dos que defendiam essas sanções, importadas do então muito à frente futebol inglês. Hoje estou convencido de que o problema tem de ser atacado muito antes. O que a Liga tem de fazer não é no plano reativo. Tem, isso sim, que ser proativa. Tem de criar condições para que essas declarações não existam e sobretudo tem de fomentar a sua substituição no plano mediático por outras, que satisfaçam todos os players no mercado: a própria Liga, os clubes, os operadores e, sobretudo, o público, que é quem paga. Isso, em Portugal, é terreno absolutamente virgem. Vamos, então, falar de comunicação aplicada ao futebol.

A questão das punições a quem abalar o prestígio do futebol, os clubes já a driblaram. Criaram braços armados que não são dirigentes nem funcionários mas apenas e só adeptos socialmente reconhecíveis, para estarem nos programas onde se discute “futebol”. E sim, as aspas não são engano – porque o que ali se discute não é futebol, mas sim agendas políticas. Tenta-se sempre passar a mensagem de que o presidente, o treinador ou os jogadores do clube que se defende são os mais impolutos e que esse mesmo clube é invariavelmente o mais prejudicado, mas de caminho passa-se também a mensagem de que o futebol está cheio de malandragem que anda a roubar e que por isso nem vale a pena perder-se tempo ou gastar-se dinheiro com o tema. Aquilo vê-se como os reality shows, para perceber que novos limites se cruzam desta vez, mas quem quer que seja que, não sendo espectador habitual de futebol, vá ali parar, não fica com vontade de comprar bilhetes para o próximo jogo, camisolas para dar aos filhos ou assinaturas de canais temáticos.

Chegados a este ponto, há quem goste de culpar os operadores de televisão. Não o faço. Os operadores de televisão fazem o que os deixam fazer, na realidade em que estão inseridos – que é uma realidade de acesso-zero aos protagonistas. E dou um exemplo. A UEFA, que está muito à frente de toda a gente do futebol nesta matéria, criou há uns anos o conceito de mini-flash, a ser feita antes dos jogos da Liga dos Campeões pelo canal detentor dos direitos televisivos. Como estou no relvado antes dos jogos, habituei-me a ver passar por estas mini-flashes todas as grandes figuras dos bancos das maiores equipas europeias, mas nem assim os clubes portugueses mudaram de atitude. O Benfica manda invariavelmente Shéu Han, o secretário técnico; do FC Porto costuma aparecer Rui Barros, um dos treinadores-adjuntos; no Sporting já por lá vi Jaime Marta Soares, presidente da Assembleia Geral, ou Otávio Machado, diretor de futebol. Não é isto que promove o futebol, não foi por isto que os operadores pagaram e, acreditem, até pode ser isto que o público acha que quer, porque há muitos anos que não tem outra coisa.

Pensemos nas conferências de imprensa, agora sempre televisionadas e por isso mesmo um meio absolutamente gratuito que a Liga tem de promover o futebol. O que se passa lá? Para quem começou a carreira nas conferências de imprensa de Sven-Goran Eriksson, Tomislav Ivic ou Bobby Robson, que duravam enquanto houvesse uma dúvida por esclarecer, uma explicação a dar, e não estavam freadas por subterfúgios impostos pelos limites políticos à comunicação, estes simulacros de conferência de imprensa a que se assiste agora são absolutamente risíveis. O que temos ali é, sempre, um desastre à espera de acontecer: um treinador sem vontade de falar, um diretor de comunicação interessado em que ele fale o mínimo possível – a não ser que haja agenda política a satisfazer – e jornalistas dos canais de TV interessados em soundbytes rápidos, porque tudo o que seja acima de um minuto já é demasiado em termos televisivos. É assim que o futebol vai ganhar quota de mercado? Claro que não. E se o leitor acha agora que este é um problema dos jornalistas, desengane-se. Não é. É um problema do futebol. Os jornais apanham por tabela, mas quem perde mais com este vazio mediático é mesmo o futebol, que desaproveita as oportunidades que lhe são dadas de bandeja, abrindo caminho (e as TVs dos clubes são, aqui, caso emblemático) a mais intervenções que para enaltecerem o próprio, destroem o meio em que ele se insere.

Como jornalista, defendo e defenderei sempre o livre acesso aos protagonistas por parte dos meios de informação. No caso do futebol, porém, já ficaria feliz se a Liga aprendesse com a UEFA e percebesse que se quer acabar com aquilo de que não gosta nos programas sobre “futebol” – assim mesmo, com aspas – tem de tonar o caso em mãos e criar condições para que haja conteúdos sobre Futebol – assim mesmo, com maiúscula.