Artigo 

2017-03-25
O que a Liga deve fazer (parte I)

A perda de uma vaga na Liga dos Campeões por parte dos clubes portugueses já fez mexer a Liga. Pedro Proença, presidente do organismo que tutela a competição em Portugal, deu o primeiro passo, ao admitir o problema, e disse não só que quer “encontrar soluções” como que quer ver a Liga portuguesa “no Top 5 das Ligas europeias”. E se o primeiro objetivo me parece relativamente fácil de assumir – assim haja vontade… – para encarar o segundo já temos um atraso tão significativo que dificilmente o poderemos encarar no curto ou médio prazo. Mas, cada coisa a seu tempo. Para já, era urgente que a Liga se centrasse em três áreas de atuação: o plano competitivo, o plano da comunicação e, resultado do sucesso nos dois primeiros, o plano do negócio.

Não sou dos que acham que para a Liga ser competitiva seja necessário reduzir o número de clubes na divisão de topo. Se olharmos para as cinco principais Ligas da Europa, todas têm pelo menos 18 participantes. Têm mais jogadores, um universo maior? Verdade. Mas o número de clubes não é um fator decisivo na competitividade. Nenhuma dessas cinco Ligas tem a luta pelo título tão apertada como a portuguesa: a diferença entre Benfica e FC Porto era, à entrada para a jornada deste fim-de-semana, de um ponto, contra os dois que separam Real Madrid e Barcelona (e em Espanha o líder tem um jogo a menos) ou os três que dista o PSG do Mónaco. Em Inglaterra e na Alemanha as diferenças são de 10 pontos e em Itália são de 12. E se formos comparar com uma realidade de uma Liga com menos clubes, como a escocesa, o que vemos é o Aberdeen a 25 pontos do Celtic. Aliás, aos que depois argumentam que a diferença deve ser feita para os não candidatos ao título, a resposta também é simples: a diferença do primeiro ao sexto não é muito maior em Portugal (26 pontos) que na Alemanha (24) ou em França (25). Na Escócia, o dito paraíso do campeonato reduzido, é de 47 pontos em 28 jornadas. Abissal, portanto.

Ter mais clubes na I Liga não significa diminuir a competitividade. Significa, pelo contrário, dar a mais clubes – a mais jogadores, a mais treinadores, a mais adeptos – a hipótese de competir ao mais alto nível e, portanto, de crescer competitivamente. A competitividade aumenta-se, isso sim, quando lhes dermos condições para competir verdadeiramente. E aqui a questão começa a ser política e já exige alguma coragem que até ver não se viu a nenhum dirigente máximo do futebol em Portugal. Para termos uma Liga verdadeiramente competitiva temos de ter uma Liga em que existam mais do que os três grandes. E Portugal, neste particular, está particularmente inquinado. Basta ver o regozijo que os adeptos de cada um dos clubes assumiu assim que o rival foi afastado da Europa. Ou reparar que assim que se começou a debater a perda de uma vaga na Champions, tudo o que a generalidade dos adeptos quis discutir foi que clube estava a dar mais ou menos pontos para o bolo geral. A questão é que isso é absolutamente indiferente: Portugal só terá uma Liga de topo quando houver mais do que três clubes a contribuir de facto para esse bolo. E isso só se consegue quando a Liga – antes seja de quem for – assumir que em Portugal há mais do que três clubes. Como? Na distribuição da receita, por exemplo. Mas não só aí.

A questão da receita é flagrante. Primeiro, é importante deixar algumas perguntas. A Liga acha possível fazer subir o bolo global da receita gerada pela sua atividade? Como? Já fez alguma coisa para centralizar as negociações dos direitos televisivos dos jogos, podendo logo à partida aumentar o bolo e depois distribuí-lo de forma mais igualitária, assumindo como objetivo que passe a haver mercado interno em Portugal, com mais de três “players”? Já fez alguma coisa para assegurar, junto dos dois últimos governos, que uma das principais fontes de financiamento do futebol – o mercado de apostas – não seja excluída do mercado português? Já fez alguma coisa para garantir que o futebol em Portugal não são três estádios cheios, três meio-cheios e 12 às moscas? Já deu algum passo no sentido de promover o espetáculo do qual depende a sua sobrevivência, criando conteúdos mais abrangentes que possam ser atraentes para os operadores e para os telespetadores e que dessa forma substituam o insulto à inteligência de quem gosta de futebol que são os programas que gastam horas a discutir os centímetros de um fora-de-jogo ou a intensidade de um toque nas costas? Não, pois não? Pode começar por aqui. Mas amanhã voltarei ao tema.