Artigo 

2017-03-12
A Liga que faça alguma coisa

A matemática não engana e esta semana soube-se que muito provavelmente Portugal vai perder uma das três vagas que ocupa na Liga dos Campeões já em 2018/19. Podemos até dizer que é normal, consequência natural de termos as equipas mais fortes a jogar na I Divisão do futebol europeu, porque se sabe que elas pontuaram – e pontuariam – muito mais na Liga Europa, onde estão agora os russos e os belgas, que nos ameaçam. O sinal de preocupação não vem, portanto, da pura aritmética. E também não vem de onde devia vir: da eliminação do Sp. Braga na fase de grupos da Liga Europa, precisamente face a ucranianos e belgas; da incapacidade do Sporting se sobrepor ao modesto campeão polaco na corrida à permanência na Europa, esgotada a hipótese de continuidade na Champions; ou, por fim, da constatação de inferioridade evidente de Benfica e FC Porto face a Borussia Dortmund e Juventus (esta última ainda por confirmar no jogo da segunda mão, é verdade, mas com pouca esperança de êxito face ao resultado que se verificou no Dragão). Estes sinais do apocalipse deviam chegar para se pôr a mexer as ideias e se fazer algo, tanto no plano do contexto como no do negócio. Tem a palavra a Liga.
Jorge Jesus ainda esta semana falou do assunto e voltou a dizer que Portugal produz dos melhores treinadores que o futebol europeu vai vendo. Há Fernando Santos campeão da Europa. Há Mourinho para o confirmar. Há Jardim para ajudar à festa. Já houve Villas-Boas, antes do exílio dourado na China. Mas então se temos bons treinadores, dos melhores que a Europa produz, se vamos renovando a produção de jogadores de alto nível, capazes de serem campeões da Europa e de se imporem nos melhores clubes do continente, por que raio estaremos condenados a ficar apenas pela classe média da Champions e a perder influência numa Liga Europa que já foi feudo nosso?
Aqui chegados, toda a gente se foca na questão dos orçamentos. Mas a este propósito só tenho duas coisas a dizer. A primeira é que a questão dos orçamentos não tem de ser decisiva e só aparece sempre à tona do debate porque nos serve de bode expiatório perfeito. A cada vez que uma equipa portuguesa cai na Europa, aparece a justificação: o orçamento do adversário era superior e portanto está o assunto arrumado, não haveria nada a fazer. Perdão?! É para superar esta desvantagem que existem os tais excelentes treinadores e a tal renovação permanente de um quadro que tem dos melhores jogadores da Europa. E a segunda é que se a questão é a dos orçamentos, então o que tem de ser feito é mexer no futebol em termos de negócio, criar condições para que os orçamentos possam crescer e o jogo seja um oásis de prosperidade que não dependa apenas da criação de mais-valias nascidas na transferência dos melhores jogadores. Foi o que fizeram os ingleses há 25 anos, quando os resultados dos seus clubes definhavam e eles não só criaram a Premier League como lhe associaram uma estratégia de divulgação global do futebol que por lá se joga.
Claro que há coisas a melhorar em ambos os planos.
No que toca ao contexto, era bom que os adeptos portugueses se preocupassem mais em perceber o processo de jogo das suas equipas, as condições físicas, táticas e técnicas enfrentadas pelos jogadores e treinadores em cada situação e pusessem de lado a atual obsessão pelos cinco centímetros fora-de-jogo ou pelo intensómetro no toque do defesa no avançado. E termina nas pessoas mas começa nos clubes, que não entenderam ainda que só têm a ganhar em abrir onde hoje fecham, em utilizar o conhecimento dos seus treinadores em sessões públicas em vez de se fecharem sobre si mesmos, remetendo os néscios para a discussão das arbitragens. Já viram Vitória, Jesus ou Espírito Santo falar de forma aberta do processo de jogo das suas equipas? Claro que não, porque sempre que eles falam as conversas se limitam a aspetos banais, à busca do soundbyte televisivo, da polémica que queima mais depressa mas não cria valor.
Já acerca dos orçamentos, há uma coisa que não podemos mudar, que é a dimensão do país. Mas podemos mudar a dimensão do mercado. Portugal tem durante quatro anos uma vantagem competitiva enorme no plano do marketing: é campeão da Europa. Já tem há uma década outra vantagem do mesmo calibre: produziu Cristiano Ronaldo, crónico candidato ao título de melhor jogador do Mundo. Se mesmo assim não conseguimos que o Mundo queira ver os nossos jogos, é porque, das duas uma: ou não estamos a fazer o que podemos para os mostrar ou não lhes associámos as vantagens competitivas que temos. Há 30 anos, quando se viu perante um quadro de falta de talentos, a FPF lançou um plano de formação revolucionário que alimentou o futebol nacional durante duas gerações. Mais recentemente, colocada face ao mesmo problema, integrou as equipas B na II Liga e criou condições para voltar a ter de forma repetida a melhor seleção de sub21 da Europa e, consequência disso, a seleção campeã da Europa. O plano do negócio pertence à Liga. E acho que já era altura de a Liga fazer qualquer coisa.