Artigo 

2017-02-26
Claudio Ranieri e a fábula revista

A demissão de Claudio Ranieri no Leicester tem sido apresentada por toda a gente como o triunfo da ingratidão. Então o homem que pegou num lote de jogadores sem qualquer aspiração nem reconhecimento de categoria e fez deles campeões ingleses, que depois à conta disso foi eleito treinador do ano da FIFA, de repente deixou de servir? A resposta é muito simples. Sim. Deixou de servir porque aquilo que se lhe pedia passou a ser diferente. Para perceber as razões pelas quais o Leicester fez bem em demitir Ranieri era preciso ter percebido as razões pelas quais Ranieri fez do Leicester campeão inglês. E essas tiveram mais a ver com o trabalho de mentalização do que com futebol puro e duro.

Na história da época passada ficou a fábula da pizza. Conta-se que, ainda no início da aventura, irritado por a sua equipa não ser capaz de manter a baliza a zeros uma única vez, Ranieri terá prometido aos jogadores que os levava a jantar fora no dia em que o conseguissem. No menu estaria a típica pizza italiana. E à primeira oportunidade após a promessa, bingo: 1-0 ao Crystal Palace. Metido em trabalhos, Claudio Ranieri teve a arte para transformar o problema numa oportunidade. Levou os jogadores a um restaurante italiano, mas quando estes lá entraram tinham uma surpresa à espera: eram eles quem ia cozinhar as pizzas. A fábula da pizza foi de mestre em termos de construção de espírito de equipa, uma das chaves na chegada do Leicester ao título de campeão. A partir daquele momento, os jogadores perceberam que tinham de trabalhar por tudo aquilo que queriam, mas que se trabalhassem acabariam por alcançar o objetivo.

Durante meses, todos os que íamos achando piada ao esforço do Leicester e até a torcer pelo sucesso dos “underdogs” glorificávamos a fábula da pizza e a capacidade de Claudio Ranieri para, pela crença, pelo espírito coletivo, transformar jogadores banais em campeões. Só agora, que o Leicester anda pelos fundilhos da classificação, em risco de descer de divisão, é que nos vamos lembrando de uma coisa muito simples. É que nos argumentos utilizados na construção de um campeão pelo veterano treinador italiano não aparecia o treino. Não havia futebol. E é disso que a equipa do Leicester mais precisa agora. Porque neste momento já não é formada por um conjunto de operários em busca do primeiro sucesso – já são campeões, já não vão lá com receitas básicas de auto-ajuda. E esse upgrade, Claudio Ranieri nunca foi capaz de o dar à equipa. No fundo, salvaguardadas as devidas diferenças – porque o Boavista era muito maior à escala portuguesa do que o Leicester alguma vez será em Inglaterra – repetiu um pouco aquilo que aconteceu com Jaime Pacheco no Boavista. E, apagada a chama do campeonato ganho em 2001, muito à conta da garra, do compromisso e do empenho, Jaime Pacheco também acabou por ver extinto o seu período de ouro à frente da equipa axadrezada quando os milhões da Liga dos Campeões permitiu trazer mais jogadores e aspirar a maiores feitos.

Dir-me-ão que Jaime Pacheco saiu do Bessa de livre vontade e que por isso mesmo nunca teve a onda de apoio de que Ranieri goza agora, que o seu “sonho” morreu. De Mourinho a Klopp, com passagem até pelo australiano Eddie Jones, que é o selecionador inglês de râguebi, toda a gente por Inglaterra se mostra incrédula com a decisão do clube e solidária com o treinador italiano. Mas é preciso também entender estas tomadas de posição à luz de uma realidade muito diferente. A Premier League é muito mais popular do que a Liga portuguesa e os últimos dez anos também mudaram muito no panorama mediático mundial. E aquilo que toda a gente via agora era não apenas um Leicester que deixou de jogar acima das suas possibilidades – como lhe sucedeu na época passada, jogo após jogo – mas também adversários já precavidos e capazes de se ajustar ao que o Leicester tinha para propor. Que, no plano futebolístico, continuava a ser demasiado pouco para os pergaminhos de um campeão inglês.

Sem Ranieri, o Leicester pode melhorar ou não. Uma coisa é certa. O novo treinador volta a ter nas mãos uma equipa que duvida de si mesma, como a que Ranieri encontrou há um ano e meio. Pode repetir a receita do italiano, mas talvez não seja pior apostar no futebol.