Artigo 

2017-02-19
A perna que faltava ao boneco de NES

A notícia do pedido de uma reunião ao Conselho de Arbitragem por parte do Benfica é tão ou tão pouco significativa para o rumo do campeonato que os tricampeões eram até aqui o único dos três grandes que ainda não tinha solicitado um encontro com o órgão presidido por Fontelas Gomes. Agora, que a Liga aqueceu e se aproxima dos momentos decisivos, enquanto os benfiquistas vão alegando que a pressão dos Super Dragões sobre Soares Dias foi fulcral para a aproximação entre os dois emblemas na tabela, os portistas respondem que é o Benfica quem está com medo e a tentar coagir os árbitros. Nunca chegarão a consenso e por isso prefiro falar de futebol, das razões que estão por trás da preparação do sprint final que se adivinha e que passam muito pela alteração estrutural que o mercado de Janeiro permitiu.

Muita gente pergunta: mas que raio, será Soares um jogador assim tão fenomenal que justifique, por si só, a transformação do FC Porto ofensivamente inoperante de há uns meses num candidato ao título? Caramba, o homem andou pelo Nacional e pelo V. Guimarães e ninguém reparava assim tanto nele... A questão é que no futebol o que vale mais são as ideias e em segundo lugar as peças que são capazes de as fazer funcionar. Se colocarmos de lado fenómenos como Ronaldo ou Messi, que quase ganham os jogos sozinhos, o que garante vitórias são as ideias e a capacidade de as colocar em prática. Com a chegada ao Dragão de Soares, viu-se finalmente a ideia de Nuno Espírito Santo, uma ideia à qual Depoitre nunca conseguiu dar corpo. Soares não é um craque de nível estratosférico, mas consegue ser a perna que faltava no boneco que o treinador tentou desenhar há tempos na sala de imprensa, o pilar que mantém esse boneco em pé, porque dá à equipa a presença e a profundidade de que esta precisava para o jogo mais direto que ela tentava praticar.

É preciso enquadrar o futebol do FC Porto naquilo que os seus jogadores tinham dentro da cabeça. Passaram de um ano para o outro de um futebol que privilegiava a posse e de decisões que conduziam a equipa inevitavelmente para o ataque organizado em detrimento do ataque rápido ou do contra-ataque para outro tipo de jogo, com linhas mais juntas e procura mais rápida da profundidade. Nuns jogos sofriam porque a cabeça lhes fugia para as ideias antigas, noutros porque não tinham quem fosse buscar essa profundidade – André Silva é mais móvel na largura, procura bem a faixa, mas quase nunca ataca o espaço nas costas da defesa adversária – noutros ainda porque era o adversário quem, jogando muito atrás, roubava essa mesma profundidade e exigia ao FC Porto outros argumentos que esta equipa não tinha, como a presença na área para aproveitar os cruzamentos que ainda ia fazendo. A equipa melhorou primeiro com Jota, porque o simples facto de ter um repentista em campo já lhe permitia buscar o espaço atrás da defesa adversária. Mas vivia entre dois fogos: ou procurava essa profundidade na criatividade dos extremos e na sua capacidade de furar linhas no um para um ou tentava assumir o jogo com reforço do meio-campo, dando um passo para cada lado e acabando por trocar os pés.

Soares não resolveu todos os problemas, porque este FC Porto ainda tem de entender como se exprime melhor. Se com dois extremos puros, apostando na vertigem mas arriscando perder o controlo dos jogos se os adversários souberem envolver-lhe o meio-campo com três homens no corredor central – porque André Silva tem disponibilidade para correr sem parar mas não deve pedir-se-lhe que seja ele a estabelecer equilíbrios atrás – se com dois médios de coração a partir das alas, apostando na consistência mas perdendo chispa atacante – porque Herrera e André André pensam mais na bola do que no espaço e isso trava a equipa. Otávio é uma solução de compromisso entre as duas facetas, mas ainda precisa de rodagem para estar verdadeiramente pronto. Na forma que Nuno Espírito Santo encontrar para resolver este dilema estará a resposta para o que vai ser da equipa já na eliminatória com a Juventus e, depois, no sprint que se adivinha com um Benfica que perdeu fulgor mas poderá recuperá-lo com Zivkovic, com o regresso do melhor Pizzi ou com a entrada de Jonas, que ainda está por chegar a este campeonato.