Artigo 

2017-02-12
Como olhar para o episódio Jesus-Palhinha

“Estávamos a jogar bom futebol e só precisávamos de controlar o jogo, mantendo a posse. Mas nessa altura o Nani decidiu tentar uma finta, perdeu a bola e eles conquistaram um penalti”

Alex Ferguson, após uma derrota por 5-4 frente ao Chelsea, em Outubro de 2012

 

“Amrabat recebeu a bola e o nosso defesa-esquerdo estava a 25 metros dele em vez de estar a cinco. Mesmo a 25 metros devia ter ido pressionar, mas não… Isto é tático mas também é uma atitude mental, algo que não se aperfeiçoa num par de semanas”.

José Mourinho, após uma derrota por 3-1 frente ao Watford, em Setembro de 2016

 

 “Na primeira parte, o FC Porto foi melhor, porque o Palhinha não levou o guião certo para se enquadrar no jogo e isso foi fatal em termos táticos”

Jorge Jesus, após uma derrota por 2-1 frente o FC Porto, Fevereiro de 2017

 

Há várias coisas que me incomodam no episódio Jesus-Palhinha e a maior de todas não é o facto de o treinador ter apontado responsabilidades a um jogador em vez de se refugiar no que é politicamente correto, que é não dizer nada de concreto. Não gostei, é verdade, porque também acho que criticar os (hierarquicamente) mais fracos é um mau traço de caráter, mas faço parte dos que acham o discurso “chapa quatro” dos treinadores no final dos jogos um aborrecimento pavoroso e dos que têm saudades, por exemplo, das conferências de imprensa de Bobby Robson. Como aquela em que, após uma derrota do FC Porto frente ao Benfica na Luz, exclamou algo como “Benfica 2, Fernando Couto 0”, irritado por o então jovem defesa central se ter feito expulsar.

O que mais me incomodou no episódio Jesus-Palhinha foram outras coisas. Foi não se ter tido a oportunidade de perguntar, logo ali, ao treinador: o que quer dizer com isso do “guião certo”? E foram, depois, as tentativas de politizar aquilo que o treinador disse, de tornar aquela frase a charneira de duas narrativas completamente opostas. De um lado os que nela se suportam para defender que Jesus é “uma besta” que nunca assume responsabilidades e não tem um pingo de sensibilidade para trabalhar com jovens. Do outro os que defendem que aquela frase é a exata medida da assunção de responsabilidades por parte do treinador, que afinal era o argumentista e quem devia ter dado o guião certo ao ator que falhou taticamente na primeira parte do jogo. Na verdade, só uma pessoa sabe quem tem razão e essa é o próprio Jesus. E em vez de estarmos todos a adivinhar – ou, pior, a utilizar a frase para suportar ideias que são nossas – o que ele quis dizer, mais valia discutir o que verdadeiramente interessa: devem os treinadores criticar os jogadores em público?

Em resposta, eu diria que depende do que querem alcançar com as críticas. Manda o bom-senso que as críticas sejam feitas no balneário, mas é legítimo que se diga que hoje em dia os jogadores estão cada vez mais sensíveis e que a exponenciação do “star system” através, por exemplo, do endeusamento potenciado pelas redes sociais, não tem ajudado. A verdade é que há milhares de casos na história. Fernando Couto ficou destruído pelo comentário público de Robson? Não, porque era forte e sabia que tinha feito asneira. Alguém duvida que o Super-FC Porto de José Mourinho, que a equipa que veio a ganhar a Taça UEFA e a Liga dos Campeões, começou a nascer nas críticas ferozes que o treinador lançou em conferência de imprensa após uma derrota por 3-0 frente ao Belenenses no Restelo? Foi o que aconteceu, ainda que muitos dos que estiveram nessa noite não tenham tido a força suficiente para passar por cima do que se passou e por isso mesmo não tenham chegado ao sucesso que acabou por premiar aquela equipa. Ferguson, por exemplo, foi sempre extremamente duro com Giggs ou, mais tarde, com Ronaldo, que eram os meninos dos olhos dele. E foi também por isso – e por terem sabido dar a volta – que eles chegaram onde chegaram.

Claro que há casos de jogadores que não foram capazes de lá chegar. Quando Paulo Bento, também após um jogo no Dragão, pendurou o jovem guarda-redes Stojkovic na cruz por ter agarrado uma bola cortada por Polga – dando origem a um livre indireto e ao golo da vitória do FC Porto sobre o Sporting – pode até tê-lo feito por ter percebido que tinha Rui Patrício em fila de espera e que o futuro da baliza leonina estava no português e não no sérvio, mas daí até se dizer que a carreira deste nunca descolou por causa do episódio vai um salto maior do que a perna. Quer isto dizer que, seja qual for a verdade no episódio Jesus-Palhinha, não é isso que vai determinar o jogador que vai ser o jovem médio nem o treinador que é o amadorense. Jesus fez asneira, sim, mas foi sobretudo no início da época, quando achou que Petrovic podia jogar na equipa do Sporting, preferindo-a a Palhinha. Mas até saltar dessa decisão para o axioma segundo o qual Jesus é um mau treinador para a formação me parece forçado, porque ninguém estaria hoje a reclamar a presença de Palhinha – ou de Podence e Geraldes – se eles não tivessem tido a oportunidade de jogar meia época no Belenenses e no Moreirense.