Artigo 

2017-01-22
Jesus e os candidatos do Sporting

Os resultados da equipa de futebol serão evidentemente um aspeto a ter em conta pelos sócios do Sporting quando forem chamados a eleger os corpos sociais do clube, em Março. O quarto lugar na Liga, somado à eliminação prematura em todas as outras competições, tem sido a maior arma potencial à mercê da oposição a Bruno de Carvalho. No entanto, os sócios não vão votar em jogadores nem em treinadores – vão eleger quem acharem mais capaz de liderar o clube num rumo que lhe permita ter bons jogadores, bons treinadores e, em resultado disso, bons resultados. Nesse aspeto, Bruno de Carvalho soube dar a volta à má situação desportiva que a equipa vive: ao arregimentar Jorge Jesus para o seu lado da barricada – o que também tem o seu quê de discutível… – expôs Madeira Rodrigues a uma contradição que certamente não ajuda nada o candidato nos esforços para convencer quem pudesse estar insatisfeito com a atual liderança.

O que está aqui em causa não é Jorge Jesus. Haverá quem concorde com Bruno de Carvalho, que continua a dizer que o treinador é fundamental para o projeto, como haverá quem veja nele a causa de todos os males e queira vê-lo pelas costas como condição imprescindível para um Sporting ganhador. Isso, para o caso, é irrelevante. O que está aqui em causa é a estratégia de cada candidato para o futuro do clube e sobretudo a perceção que os sócios têm dela. Bruno de Carvalho foi inteligente e conseguiu anular um pouco do efeito dos maus resultados nesta campanha eleitoral. Foi desses maus resultados que nasceram as notícias em torno do afastamento entre presidente e treinador – as primeiras páginas dos dois maiores jornais desportivos de anteontem, com o Record a anunciar a união e A Bola a decretar a distância entre os dois são antológicas – e as consequentes reflexões, que levaram a oposição a acusar Bruno de Carvalho de querer sacrificar Jesus para salvar a pele. Ora, pelo menos publicamente, aquilo que o presidente fez foi exatamente o contrário: chamou Jesus para o seu lado, convidou-o para a Comissão de Honra e passou para a opinião pública a ideia de que está com os seus até ao fim. Sendo que Jesus passou oficialmente a ser um dos dele.

Colocado perante este cenário, o que podia fazer Jorge Jesus? Ora aqui há vários planos possíveis de análise. O mais normal era que o treinador, funcionário pago do clube, se recusasse a fazer parte de qualquer candidatura. Isso, porém, era supondo que vivíamos uma situação normal. Esta não é uma situação normal, fruto dos tais maus resultados e das notícias em torno dos desencontros entre presidente e treinador. Se recusasse o convite público de Bruno de Carvalho, Jesus estaria a assumir em nome próprio o ónus da separação e a legitimar desde logo qualquer iniciativa de rutura que nascesse na outra parte. Assim sendo, só restava a Jesus aceitar. Ele até é sócio do Sporting há décadas, sempre se soube que era sportinguista, mesmo quando treinava o rival Benfica, pelo que puxou do seu direito a ter algo a dizer sobre o futuro do clube e juntou-se ao rol dos apoiantes da reeleição de Bruno de Carvalho. Jesus defendeu a sua posição e deu ao presidente-candidato um ás para jogar na próxima puxada: este pode assim alegar que é coerente, que defende o seu treinador, chamando-o para o seu regaço mesmo num momento como este, que é de dificuldades.

A questão é que Bruno de Carvalho estava, neste caso, numa situação “win-win”: a alternativa deixava-o com razão para romper a aliança quando quisesse (e ainda há vários jogos até às eleições, onde, assumindo o pior cenário, isso podia dar-lhe jeito). Já Pedro Madeira Rodrigues, pelo contrário, ficou numa situação “loose-loose”. E só porque se precipitara ao anunciar, logo na apresentação da sua candidatura, em Dezembro, que contava com Jorge Jesus. “É o nosso treinador”, dissera na altura, apenas para agora se ver forçado a dizer que não contará com ele caso ganhe as eleições. Face à integração de Jesus na Comissão de Honra de Bruno de Carvalho, podia Madeira Rodrigues fazer outra coisa? Creio que não. Mas a ideia que passa é a de uma estratégia de cata-vento ou pelo menos a de alguém que não equacionou todas as variáveis possíveis antes de anunciar uma medida programática como é sempre a da escolha do treinador da equipa de futebol.

Mas isto, afinal, é só política.