Artigo 

2017-01-15
O que interessa na dívida e na gestão do Benfica

Em semana de Congresso dos Jornalistas, o documento “The European Football Landscape”, lançado pela UEFA, veio ajudar um pouco à reflexão em torno do jornalismo que se faz. Sei por experiência própria que os jornalistas de hoje não são piores do que os de há 30 anos. Pelo contrário: são melhores. Têm é problemas diferentes para ultrapassar, o maior dos quais é o mundo que os rodeia e que conspira para lhes roubar um bem precioso, que é o tempo. A forma como foi tratado o documento da UEFA vem provar isso mesmo.

Sem tempo, o que se faz? Primeiro, não se lê, treslê-se. Olha-se para aquilo e rapidamente se descobre que o Benfica é a segunda equipa mais endividada da Europa. Já há título, porque é esse tipo de comportamento extremo que os leitores procuram. E depois, seguindo outro aspeto particular da sociedade de hoje, onde todos se sentem informados e com opiniões definitivas sobre tudo, que lê divide-se em dois grupos: o dos que acham que é uma vergonha e o dos que sabem que é uma cabala. Não é uma coisa nem a outra. É assim mesmo.

Não é uma cabala porque o Benfica tem de facto uma dívida monstruosa, bem maior que as de FC Porto e Sporting. Não é uma vergonha porque o clube também tem uma receita muito superior aos rivais e faz dessa dívida e da sua gestão quotidiana uma forma de vida nos limites que lhe permite andar de mãos dadas com o sucesso. É essa forma de vida que ajuda a entender, por exemplo, a parceria com Jorge Mendes e o ocaso a que tem estado a ser vetado Raul Jiménez, que Luís Filipe Vieira já vem dizendo há muito tempo – há mais de um ano, creio… – que vai ser a maior venda da história do clube. Como se já tivesse visto o guião escrito em algum lado.

Transpondo a história para a nossa vida real de todos os dias, imaginemos que temos um vizinho que é futebolista num clube de meio da tabela, mas que de repente atinge os píncaros do sucesso e assina um novo contrato por um dos grandes, a ganhar 100 mil euros por mês. O rapaz ganhava uns dois mil no contrato anterior e estava a pagar uma casa ao banco que lhe tinha custado 250 mil euros. Uma casa sobre a qual penderia a normal hipoteca. De repente, com o aumento da receita garantido, abalançou-se a comprar uma vivenda de luxo numa zona mais rica da cidade e pediu um empréstimo de quatro milhões de euros. Tecnicamente, ficará com uma das maiores dívidas da rua, talvez mesmo a maior. Mas na prática tem condições de a pagar e ninguém tem nada a ver com isso.

A gestão do Benfica tem vindo a ser feita assim há anos, mesmo que Luís Filipe Vieira ande há anos também a dizer que quer passar a apostar na formação, porque quer manter a receita e reduzir a despesa. A narrativa que passa para o exterior é muito a de que isso não foi feito mais cedo porque Jorge Jesus não permitia e que com Rui Vitória, de facto, aumentou muito a aposta nos rapazes do Seixal. Se a segunda parte desta história bate certo com a realidade, já em relação à primeira tenho muitas dúvidas, porque para a relação com Mendes poder funcionar na perfeição as movimentações têm de ser para lá e para cá. A própria posição do agente no mercado internacional poderia ficar comprometida se só fizesse negócios mega-inflacionados num sentido.

Porque a questão aqui não é a de o dinheiro ser verdadeiro ou em notas de Monopólio, como muitos se atrevem a dizer. Não me passa pela cabeça que o dinheiro não seja real. Mas que todo o esquema se monta na capacidade para vender bens muito acima – nem é só acima, é muito acima – do seu real valor de mercado, isso parece evidente. Ora centremo-nos em Jiménez, que não ocupou a sua posição no banco de suplentes ontem com o Boavista porque Luís Filipe Vieira está a tentar vendê-lo para o futebol chinês. As notícias que circulam dão conta de propostas de 50 milhões de euros, mas que o presidente encarnado só aceita libertar o jogador pelos 60 milhões de que fala há meses. 60 milhões de euros. Por um suplente.

A concretizar-se – e não tenho muitas dúvidas de que acontecerá, se não já em Janeiro, no mercado de Verão – é caso para se dar uma nova perspetiva à expressão “negócio da China”. Só que basta andar um pouco para trás para perceber que o circuito é bi-direcional. Jiménez saiu do México para o Atlético de Madrid por 11 milhões de euros. Foi suplente em Espanha e saiu para o Benfica por um total de 22 milhões, pagos em duas partes. Continuou a ser suplente em Portugal e está prestes a sair para a China por 50 ou 60 milhões de euros. Isto sim, e não a dimensão da dívida do Benfica, merece esclarecimentos por parte de quem sabe e o tempo dos jornalistas.