Artigo 

2017-01-08
Arbitragens e exorbitâncias

Uma semana dedicado a outros projetos valeu-me agora o regresso a um futebol português posto de pernas para o ar. As razões são as habituais: as arbitragens e a interferência que têm nos resultados dos jogos. A este respeito, quem me segue já sabe o que penso. Há culpa de todos, dos que andam nos relvados aos que dirigem, passando pelos que reportam (estes umas vezes por inércia e outras por exagero no aproveitamento populista), mas o pior é mesmo não querermos olhar para as coisas como elas devem ser vistas.

Os árbitros erram e acredito que o futuro do futebol tem de passar (e rapidamente) pela criação de condições para que comecem a errar menos, com a institucionalização de um árbitro de régie, que tenha acesso às imagens de todas as câmeras disponíveis ao realizador de televisão. Isto não é unânime nem sequer pacífico. E até se preza a leituras como as que vi esta semana feitas por gente inteligente e responsável, que mesmo assim não se coibiu de dizer que com o vídeo-árbitro as coisas não teriam sido diferentes. Talvez. Não sou capaz de dizer que sim nem que não. Mas tenho a certeza que a complexidade de que se faz a natureza humana pode ajudar-nos a explicar o que acontece tanto a montante como a jusante dos factos.

Nunca explico jogos em função do acerto ou do erro das arbitragens. E se o não faço não é por achar que os árbitros acertam sempre, por ter medo de os afrontar ou por estar ao serviço de alguém que os comande como se fossem marionetas. Não o faço por acreditar que há sempre aspetos mais relevantes, que quem gosta de futebol pode debater para aumentar os seus conhecimentos e tornar o debate bem mais frutuoso. E não o faço por saber que o dia em que entrasse por aí seria o dia em que todos os outros caminhos iriam esbarrar numa parede, porque nesse caminho nunca é possível definir quem tem mais razão, tais são as suas subjetividade e (até às vezes) irracionalidade.

A mesma natureza humana que nos ajuda a explicar o erro dos árbitros volta a entrar na equação no momento em que o discutimos. Duplamente. Primeiro porque o sacudir de água do capote (em direção a tudo e muitas vezes aos árbitros) em noites de frustração é um reflexo muito normal no homem. Depois, porque em qualquer organização as relações de poder e a forma de as condicionar a nosso favor são aspetos fundamentais para separar o sucesso do insucesso. Sei disso. Sempre o soube.

Ora isto quer dizer o quê? Que os árbitros erram, sim. Que cabe aos líderes do futebol criar condições para que eles errem menos a cada dia que passa. Que apesar de isso não levar a lado nenhum, o choradinho de quem se sente prejudicado é tão natural e humano como o erro. Tão natural, igualmente, como a propensão – também ela humana – para querer dominar as organizações e passar a ser beneficiado nelas se tal for possível. Aliás, muitas vezes esse choradinho não mais é do que uma tentativa de condicionamento para virar a mesa.

Perante isto, o que fazer? Depende do lugar em que nos coloquemos. Os árbitros têm de continuar a apitar, os jogadores a jogar, os treinadores a treinar, os dirigentes a dirigir, os adeptos a apoiar, os jornalistas a reportar e a investigar. O que é muito diferente de se concluir que se os árbitros erram é porque são corruptos ou parte de um sistema que é corrupto, mas também de inferir que se as provas não nos caem no colo é porque não há corrupção nenhuma  – aqui serão as provas a marcar a diferença, mas é preciso inquietação e ir à procura delas.

Esta semana, tal como em várias ocasiões no passado, quando eram outros a queixar-se e outros também a manter-se em silêncio, não foram apenas os árbitros a exorbitar nos seus erros. Houve muitos jogadores e treinadores a ir longe demais nos protestos, mas também na acusação pública e na tentativa de expor os rivais ao ridículo. Houve responsáveis de clubes a exagerar na reação à infelicidade e adeptos a passar muito para lá das marcas nas ações e nas palavras. Os jornalistas estão entre a apatia face ao que muitos julgam ser passível de acusação (mesmo sem provas, que não se conseguem só porque se quer) e a denúncia populista, porque é o caminho mais fácil para somar likes e cliques.

Este é um assunto delicado. Não é por medo ou por conivência, mas sim por respeito à presunção da inocência. E não se resolve a misturar análise a jogos com avaliação das arbitragens.