Artigo 

2016-11-28
Os campeonatos das vendas

Ainda sou do tempo em que havia quem tentasse aplicar ao futebol regras do direito comum do trabalho, advogando que para se libertar de um contrato, rescindindo-o, a um jogador bastaria pagar ao clube a que estava ligado o valor correspondente aos salários que ainda teria a receber. Não era assim, não viria a ser assim, porque o futebol obteve neste particular o direito a uma especificidade que tem a ver com os milhões pelos quais são transacionados os passes dos jogadores e até com os salários muito acima da média que alguns destes recebem. E aí nasceram as cláusulas de rescisão. Que não servem para definir quanto vale um jogador nem muito menos para se fazer um campeonato, ao contrário do que acham os adeptos mais fervorosos e aqueles que se entretêm a alegrar-lhes os dias.

Quando um clube contrata um jogador, é porque acredita nele e quer contar com ele até o ver corresponder em campo, até o ver pagar com rendimento desportivo o que nele foi investido. A dada altura, passou a ser habitual que se lhe fixasse uma cláusula de rescisão, que entra num contrato como parâmetro negocial ao nível dos anos de duração, do salário ou do prémio de assinatura. Às vezes há coisas exageradas, como as cláusulas de dezenas de milhões de euros que o Sporting fixou para alguns jogadores da formação que andavam na equipa B ou os 80 milhões em que parece ir ficar a cláusula de rescisão de Nelson Semedo com o Benfica. São casos diferentes – o Sporting blindava os miúdos por ainda não saber se ali ia aparecer um novo Ronaldo, o Benfica blinda Semedo por estar a vê-lo crescer na equipa principal – mas têm em comum uma coisa: ambos os clubes ficaram aquelas cláusulas porque puderam fazê-lo, porque no ato de assinatura dos contratos os jogadores e os seus agentes concordaram com isso.

Nunca os clubes insinuaram sequer que aqueles jogadores valiam aquele dinheiro: queriam apenas assegurar que se um dia viessem a valer algo próximo daquilo não podiam fugir a não ser por aquele valor. Cissé não valia 60 milhões de euros, Semedo não vale 80 milhões e, mesmo que venha a assinar o novo contrato com a cláusula que o Sporting quer impor-lhe, Gelson não valerá ainda 100 milhões. O que vale então um jogador? Era costume dizer-se que valia aquilo que alguém se oferecesse para pagar por ele. É assim a lei do mercado. Se eu tenho um ativo – o passe de um jogador –, se me oferecem dez milhões por ele e se eu aceito, esse ativo valerá esses dez milhões. Só que, tal como em tudo na vida, o mercado de futebolistas mudou muito com as intervenções dos mega-agentes e dos fundos de investimento. Não é sequer uma questão exclusiva do futebol. Todas as áreas onde há mega-investimento para criação de mais-valias acolhem este tipo de especulação. Seja o imobiliário, a bolsa de valores ou até o trading em apostas desportivas.

Aquilo que mais influencia os mercados hoje em dia não é a qualidade dos jogadores, mas sim o dinheiro dos investidores. Os principais fatores determinantes nos valores das transferências dos jogadores não são a vontade dos clubes vendedores ou compradores ou a qualidade dos futebolistas mas sim a determinação estratégica de grandes grupos financeiros que entraram no futebol. São estes que, de acordo com o caminho que querem dar ao negócio, decidem se é altura de fazer dumping e vender abaixo do preço justo ou se, usando as influências que têm em clubes de vários países e dimensões, o que lhes convém é subir os preços numa espécie futebolística de cartelização. Exemplos disto são as chegadas a Portugal de jogadores como Elias (da primeira vez que veio para o Sporting), Jiménez ou Imbula, mas também saídas como as de Rodrigo para o Valência ou do mesmo Imbula, que fracassou e mesmo assim se valorizou. É por isso, sobretudo, que cada vez fazem menos sentido estes campeonatos da venda de jogadores que só os tais adeptos mais fervorosos vão alimentando. Nem as mais-valias são assim tão grandes, porque para vender caro é preciso comprar caro e manter a roda a girar um nível mais abaixo, nem o objetivo principal dos clubes é vender jogadores. É ganhar campeonatos, daqueles a sério, em que se somam pontos.