Artigo 

2016-11-22
O "bocadinho assim" que tem faltado ao Sporting

Jorge Jesus disse no final do Sporting-Real Madrid que as diferenças entre os leões e os seus adversários na Liga dos Campeões não são tão grandes como a distância pontual leva a crer. O treinador baseou a teoria nas quatro derrotas pela margem mínima, no "bocadinho assim" que tem faltado aos leões. E podia até ter ido mais longe, se constatasse que em 360 minutos contra Borussia Dortmund e Real Madrid, duas das melhores equipas da Europa, os vice-campeões portugueses só foram mesmo inferiores na primeira parte de Alvalade contra os alemães e nos últimos 20 minutos do Santiago Bernabéu ante os campeões europeus, tendo sido superiores em boa parte do jogo de Madrid e na segunda parte de Lisboa contra os alemães. Esta não é, porém, uma constatação feliz para quem já perdeu um campeonato fazendo um recorde de pontos do clube, porque transporta a necessidade de mudar para um plano que já não depende do treinador.

O problema deste Sporting, já se vê, não está no plano do jogo. A equipa consegue equiparar-se às melhores, equilibra jogos com elas, chega a superiorizar-se em alguns momentos. Contra o Real Madrid, hoje, mesmo a jogar com dez – o que implicou ficar sempre com menos um elemento em ataque organizado – foi à procura do empate e teve o 2-1 na cabeça de Campbell na jogada anterior ao golo que valeu o 1-2 a Benzema e ao Real Madrid. O problema deste Sporting está claramente no plano da competitividade, no facto de ficar sempre o tal bocadinho aquém do exigido. E isso é que é dramático, porque não se treina. Jesus pode treinar o ataque posicional, pode treinar a reação à perda, pode treinar a transição ofensiva, pode treinar as variações de centro de jogo, os posicionamentos defensivos ou até tentar aproximar Bas Dost do que representava Slimani, mas não pode dar personalidade vencedora de um momento para o outro aos seus jogadores.

Foi por falta dessa personalidade, do “instinto assassino” de que falava Bobby Robson há uns anos, que o Sporting perdeu o último campeonato: não sentenciou a Liga quando tinha pontos suficientes de avanço (derrota frente ao U. Madeira, em Dezembro); permitiu a aproximação do Benfica antes do derbi decisivo (empate em Guimarães); e perdeu depois com o rival em casa, no único jogo que não podia perder, permitindo que os encarnados o ultrapassassem. Jesus atribui estes percalços a erros de crescimento – ainda hoje voltou a falar disso – mas a verdade é que por esta altura a equipa que ele está a construir já passou a fase da adolescência para entrar na vida adulta. Os erros não são de crescimento mas sim de personalidade. E mudar isso é muito mais difícil.