Artigo 

2016-08-15
O fair-play? É uma treta!

No dia em que o futebol se tornou um negócio, os negócios do futebol tornaram-se mais difíceis de perceber. Desenganem-se todos os que se entretêm nas férias a imaginar campeonatos de defeso, a avaliar clubes e jogadores pelos muitos milhões que fazem movimentar no mercado. É que os valores atingidos pelas transferências de jogadores têm cada vez menos a ver com o valor real e mais com fatores extra, como a cartelização feita entre fundos de investimento, empresários e clubes cúmplices, o desespero que alguns vendedores têm e outros se dão ao luxo de desprezar no momento de se desfazerem das suas pérolas ou a necessidade que alguns compradores têm de levar a cabo operações de lavandaria a mando dos seus investidores principais ou, por oposição, de comprar abaixo do preço de mercado para respeitar as diretivas orçamentais que chegam de Nyon, sede da UEFA.

Quando ouvi pela primeira vez falar no empréstimo de João Mário ao Inter, por 10 milhões de euros, francamente, pareceu-me um péssimo negócio, porque com dez milhões o Sporting não ficaria com a folga necessária para poder aventurar-se no mercado em busca de um substituto que dê garantias no imediato e dessa forma estaria a prejudicar as suas hipóteses de ganhar muito mais do que isso sendo campeão nacional. Diziam-me que o Inter não podia pagar mais, porque está a contas com o rigor que as normas do fair-play financeiro ditado pela UEFA lhe impõe e que por isso mesmo até tentou que fosse o Jiangsu, clube chinês do mesmo dono, a comprar o passe do jogador, para mais tarde o emprestar aos italianos. Não tendo isso sido possível em Julho, porque na altura o Sporting manteve a intransigência negocial, os italianos quererão agora o empréstimo direto, atirando para daqui por um ano uma cláusula de compra obrigatória do jogador, por mais 35 milhões. É uma forma de driblar o controlo do fair-play financeiro, de o remeter à condição de “treta” – como dizia Jorge Jesus há anos do fair-play em campo – como há muitas outras. Desde as compras inflacionadas aos acordos com patrocinadores que pertencem aos mesmos donos dos clubes e pagam muito acima da tabela pelo espaço nas camisolas de forma a mascarar as injeções de capital de corriqueiras receitas operacionais.

Resta ao Sporting a avaliação do negócio em todos os planos e mais um. Para uns, os hooligans das redes sociais, tudo se resume a uma medição de egos clubísticos: o importante é fazer mais dinheiro que o rival, é ter o recorde da maior transferência. Para outros, que julgam sempre saber mais do que sabem na verdade, o que importa é simplesmente vender, porque é preciso amortizar dívida. À banca, à Doyen, a quem quer que seja. Estes dois grupos pecam por excesso e por defeito ao mesmo tempo. Na verdade, o importante aqui é apenas uma coisa: vender pelo preço justo, ou pelo menos não vender muito abaixo só porque se corre o risco de o jogador ficar contrariado e de se ter em mãos mais um choque como o que levou à perda de Carrillo a custo zero. O preço justo não são os 60 milhões da cláusula de rescisão – bastaria ter visto os problemas de João Mário na finalização para o perceber – mas andará entre os 30 e os 35, pelo que uma proposta de 10 mais 35 é boa e só tem mesmo o defeito de o grosso do dinheiro vir apenas daqui por um ano e não permitir procurar já um substituto, incorrendo o Sporting em prejuízo desportivo imediato. Só que é aqui que entra o negócio.

Porque não sendo o Sporting dono da totalidade do passe de João Mário e estando obrigado a entregar percentagem significativa da parte que lhe toca em cada transferência para amortizar a dívida à banca, o que lhe conviria, aliás, era emprestar João Mário por vários anos consecutivos, embolsando a totalidade dos valores apurados, e nunca o vender. Há quem o faça, aliás. Porque o mercado de transferências parece-se cada vez menos com aquilo que era há um par de décadas, quando se um jogador era o mais caro do Mundo isso quereria necessariamente dizer que seria também o melhor. Hoje, há muito mais fatores a ter em conta. E nenhum deles é o fair-play financeiro.