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Crédito: FPF
2016-07-08
Não jogam nada mas jogam muito

Lembram-se da seleção de 2004? Pois bem, não tem nada a ver. Ou melhor: tem um ponto de contacto: ambas chegaram a uma final. Mas para se perceber por que razão aquela equipa foi capaz de convocar bandeiras nas janelas de tantos portugueses e esta continua a ser olhada de lado pela generalidade dos que julgam que sabem de futebol é preciso recorrer a mais justificações do que a capacidade de marketeer de Luiz Felipe Scolari, a abundância face à escassez atual de estrelas no onze ou o facto de aquele Europeu ter sido disputado em casa e portanto mais próximo das emoções nacionais. É, fundamentalmente, uma questão de foco. Aquela equipa começava os jogos a pensar nas maneiras de chegar ao golo, de seduzir, esta começa-os a pensar nas maneiras de evitar que os adversários lá cheguem, de anular. Mas dizer que aquela jogava enormidades e que esta não joga nada é uma parvoíce que só mesmo no país das vitórias morais pode ouvir-se e ser aplaudida. Porque como dizia Chris Coleman no final do Portugal-Gales, “há mais de uma maneira de ganhar um jogo de futebol”.

Afinal de contas o que é jogar bem? Um dos primeiros que vi abordar essa questão foi Jorge Valdano, no Europeu de 1996. Escreveu-o acerca de Portugal, no “caderno” que publicava no El Pais, lançando a euforia no contingente de jornalistas portugueses ainda pouco habituados a verem a sua seleção nas fases finais. Eu sei, porque estava lá e também babei com o elogio internacional. “Jogar bem é tocar a bola, entendendo que cada lugar do campo tem a sua velocidade e a sua dificuldade. Todos a tocam e se oferecem…”, começava por definir o treinador argentino. Depois de passar detalhadamente por cada contributo, concluía. “Pode ser golo ou não, ganharão ou perderão, mas no fim dos jogos ingleses, espanhóis, italianos e búlgaros coincidem no veredito: ‘Maravilhoso!’ Ah sim? Então não me perguntem mais o que é jogar bem. É isto”. E no entanto aquele Portugal não ganhou. Ficou nos quartos-de-final. Jogava bem? Sem dúvida, mas não era eficaz. Não fazia golos que alimentassem tanto futebol.

A questão em torno da equipa de Fernando Santos não é tanto a de saber se joga bem ou mal. Este Portugal joga bem, porque o faz de forma coerente com as suas ideias. Não joga é bonito. É a equipa estrategicamente mais bem montada de todo o Europeu. O que se aponta ao selecionador nacional? Que não começou com o melhor onze, guardando jogadores como Cédric, Fonte, Adrien, William ou Renato para segundas oportunidades. É verdade. Mas, mesmo sem acreditar que isso tenha sido propositado, alguém pode garantir que se eles têm entrado de início estariam agora em condições de dar à equipa o contributo decisivo que têm dado? Um Europeu é uma prova super-intensa, com sete jogos em menos de um mês, e nesse aspeto Portugal foi brilhante, arrancando lento e utilizando os 20 jogadores de campo baseado na convicção de que seria preciso fazer muita asneira para ficar eliminado na primeira fase.

Mais acusações? Que Portugal joga muito em função dos adversários. Também é verdade. Mas a forma como a equipa foi montada nos jogos com a Croácia ou Gales, por exemplo, esteve perto da perfeição. Contra a Polónia esse espírito de antagonismo exacerbado foi longe demais e a ideia que ficou foi a de quem nem os próprios jogadores perceberam bem como era suposto jogarem, pelo menos até ao momento em que o treinador simplificou a fórmula em que, até pela dificuldade de pronunciar os nomes dos adversários, estes eram referenciados pelos números. Mas o modo como Adrien anulou Modric e Allen, os organizadores de jogo croata e galês; o modo como o mero posicionamento de Ronaldo impediu a Croácia de sair tantas vezes como quereria pela direita, através de Srna; o modo como João Mário e Renato Sanches fecharam as linhas de passe interior aos laterais galeses, impedindo-os de conectar com o resto da equipa quando se projetavam no ataque, tudo isso roçou o brilhantismo estratégico. Lembram-se do que disse Coleman lá mais acima? Há mais do que uma maneira de ganhar jogos de futebol. E, ao contrário do que aconteceu em 1996, agora a maneira de Portugal é esta.

E atenção, que isto não quer dizer que esta seleção seja a nulidade ofensiva e de espetacularidade que os mais desatentos possam ficar a pensar. Portugal é a terceira equipa com maior média de remates por jogo: 18,6, apenas atrás da Inglaterra e da Bélgica. É a quarta com mais cantos a favor: 7,5 por jogo, mais uma vez apenas atrás de Bélgica, Inglaterra e Espanha. Está um pouco pior na percentagem de posse de bola, mas mesmo aí só há sete equipas mais agarradas à iniciativa, e nem todas são exemplos de sucesso: Alemanha, Espanha, Inglaterra, Suíça, Ucrânia, França e Hungria superaram os 53% lusitanos. Seria isto possível com uma equipa que estivesse no Europeu apenas para se defender? Não creio. O que há é uma mudança de paradigma resultante da extinção da geração de ouro, mas que já estava bem à vista de quem a quisesse observar, por exemplo, no último Europeu de sub-21. Foi a jogar assim que os portugueses ganharam por 5-0 à Alemanha, por exemplo. E o país não se queixou.

É verdade que o futebol desta equipa é pouco atraente. Em comparação com o que jogava a de 2004, parece até vir de uma escola diferente. E a questão é que não vem de uma escola diferente, mas sim de uma realidade diferente, com menos jogadores de top mundial. Será preciso recordar que em 2004 a base da equipa era o FC Porto que acabara de ser campeão europeu e que o maior contingente na atual seleção vem do Sporting, que não ganhou sequer o campeonato nacional? Ou que há muito tempo que Portugal não fazia tantos jogos com tanta gente da Liga nacional em campo? Na meia-final lá estiveram Rui Patrício, Danilo, João Mário, Adrien e Renato Sanches. Nos quartos-de-final somaram-se-lhes Eliseu e William.

E aqui chegados, o argumento simplifica-se. Olha-se para o sorteio e conclui-se que esta equipa tem tido é muita sorte. Pois é. Que chatice! Isso é que não é nada português.

In Diário de Notícias, 08.07.2016