Artigo 

Crédito: FPF
2016-07-02
Curso de engenharia em recursos humanos

Gerir uma equipa, todos o sabem mas muitos tendem a esquecê-lo, é mais do que escolher um onze e decidir as substituições. Muito mais do que isso. Gerir uma equipa é sobretudo gerir os egos que coexistem num balneário, aspeto que ganha ainda mais preponderância quando se joga uma fase final de um Europeu ou de um Mundial, no qual 23 jogadores com pretensão a estrelas e centro do Mundo em que vivem têm de viver em conjunto dia e noite. E ainda que nem sempre tenha estado de acordo com as opções de Fernando Santos na escolha dos onzes, na sua arrumação em campo, nas substituições que foi fazendo, neste particular tiro o chapéu ao selecionador nacional e à sua navegação à vista. Portugal não joga um futebol espetacular do ponto de vista atacante, não é sequer uma equipa defensivamente coriácea como era a Grécia de 2004, mas tem grupo. E isso nota-se tanto mais quanto mais se radicalizam as críticas aos que esperavam ver Ronaldo decidir os jogos e entendem mal o Europeu que ele está a fazer.

Quando Cristiano Ronaldo falhou o penalti que podia ter dado a Portugal a vitória contra a Áustria, passou-me pela cabeça que o facto não tinha necessariamente de ser mau para a seleção nacional. O apuramento para os oitavos-de-final haveria de se conseguir com mais ou menos brilho, com maior ou menor dificuldade, e aquele momento era o que faltava para equilibrar a relação de poderes no balneário. A partir daquele penalti, Ronaldo desceu à Terra e passou a sentir-se em débito para com os colegas. Algo a que ele não está habituado na seleção, porque do que se fala sempre é de Ronaldo-dependência, é de uma equipa que ele carrega aos ombros com o seu brilho individual. E se a melhor coisa para a seleção numa fase final seria, de longe, ter o Ronaldo de Outubro/Novembro, meses em que ele se apresenta no auge do seu rendimento desportivo, a segunda melhor é ter um Ronaldo consciente de que tem de ser mais um a empurrar quando o coletivo disso necessitar.

E aquilo que se viu daí para a frente foi diferente. Contra a Hungria, preocupado em ser mais coletivo, em decidir mais em prol do grupo que do seu próprio protagonismo, Ronaldo foi premiado com dois golos. Frente à Croácia, trabalhou sempre para o grupo: pressionou, prendeu os centrais e não pôde rematar senão aos 117’, no lance que acabou por dar o golo a Quaresma. Finalmente, no jogo com a Polónia, não tendo decidido sempre bem – ainda chutou uma vez de ângulo apertado quando podia facilmente ter dado o golo da vitória a João Mário – voltou a ser o primeiro defesa e a sacrificar-se na posição central de que tão pouco gosta porque era disso que a equipa precisava. No final, Fernando Santos dedicou-lhe algumas palavras, destacando o papel que ele desempenhou. O selecionador sabe que tem ali um caso especial, que precisa de afagar o ego a Ronaldo quando antevê esses carinhos não chegarão da comunicação social ou de adeptos mal habituados, mas daí não vem nenhum mal ao Mundo nem ao grupo. E a diferença entre este comportamento do CR7 e o “Perguntem ao Carlos!” com que ele pontuou a deprimente prestação portuguesa no Mundial de 2010 é por demais evidente e sintomática de como a gestão de um grupo é mais importante numa fase final do que a tomada de decisões táticas. Não foi por acaso que, mesmo nunca lhe tendo dado muitas oportunidades, o selecionador falou também do tempo que passou com o ainda adolescente Ricardo Carvalho no FC Porto quando agora o relegou para o banco. Ou que a estrutura da seleção tanto se esforça para controlar danos na comunicação com os jornalistas sempre alguém sai da equipa. Faz parte.

Porque a verdade é que esta seleção é mais limitada do que muitas das suas antecessoras, mas para quem vê de fora parece ter mais grupo. Tem um Quaresma que aceita o seu papel de joker com um sorriso nos lábios e não deixa de ser decisivo. Tem um Renato Sanches que não deixa que o “hype” à volta das suas prestações lhe destrua a vontade de aprender. Tem um Adrien Silva que mesmo depois da excelente prestação contra a Croácia vem dizer que não ficaria surpreendido se voltasse ao banco. A foto de Renato e Adrien abraçados no seguimento do golo de Quaresma à Croácia é um exemplo daquilo que deve ser o espírito de seleção, indiferente às tonterias de radicalismo clubista que vêm sendo ditas e escritas um pouco por todo o Portugal. E se muitas vitórias são alcançadas graças a momentos de inspiração individual de alguns jogadores, nesse resultado o papel de quem gere este grupo não é irrelevante.

In Diário de Notícias, 02.07.2016