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Crédito: FPF
2016-06-27
Ganhar à grega ou empatar à lusitana

Quando Portugal dominou a Islândia e a Áustria e viu as hipóteses de vitória esbarrar nas deficiências de finalização, a reação do país foi mais ou menos esta: "que nabos! Nem sequer sabem chutar à baliza!" Agora que a seleção teve menos bola e menos remates que a Croácia mas acabou por ganhar o jogo, o país também não gostou: "que nabos! Jogaram como uma equipa pequena e tiveram uma sorte monumental!" Na verdade, este debate não interessa a ninguém. Portugal nunca foi tão mau como querem fazer crer estes radicais da análise ou os que se lhes opõem, vendo sempre o copo meio cheio. Mas há no desafio com a Croácia, o jogo em que Portugal teve menos bola e fez menos remates nos últimos dois anos, base para se lançar outro debate: qual é o futebol que mais convém a esta seleção de Portugal? Porque até é muito possível que seja este jogo mais passivo que se viu frente à Croácia.
Tradicionalmente, o futebol português dos últimos 40 anos evoluiu a partir da escola pedrotiana, privilegiando a posse mas sofrendo para entrar nos 30 metros finais. Por causa disso ou da timidez de alguns treinadores, criou-se a convicção de que Portugal tinha de jogar sobretudo em contra-ataque, condenando toda uma geração bastante talentosa a um futebol pequenino que teve como expoente o massacre a que a seleção foi submetida em Estugarda, onde ganhou à RFA e se apurou para o Mundial de 1986. A ideia de que Portugal tinha de jogar assim, lá atrás, só foi posta em causa mais tarde, pela geração de ouro. Os Figos, os Ruis Costas, os Paulo Sousas, os Baías ou os Joões Pintos perceberam que não só podiam como deviam mandar nos jogos. E criou-se a ideia oposta, segundo a qual Portugal tinha de mandar nos jogos, ter sempre uns 60 por cento de posse e ser esmagador na estatística de remates. A equipa do Europeu de 2000, mais tarde aperfeiçoada até se chegar a 2006, com Cristiano Ronaldo, foi o melhor exemplo deste novo paradigma do futebol nacional.
A questão é que não só o futebol mudou como mudaram os melhores jogadores portugueses. O futuro, com a tomada do poder pelas gerações que têm brilhado nas seleções de sub21, pode até devolver a seleção nacional a uma realidade com mais posse - ainda que o futebol da equipa que perdeu o último Europeu da categoria nos penaltis não pareça indicar essa direção - mas o presente é o de uma equipa que sofre para transformar um jogo mais dominador em vitórias por falta de um ponta-de-lança que liberte Ronaldo e ao mesmo tempo garanta golos com regularidade. Acaba por ser isso que leva os observadores a falar em Ronaldo-dependência ou na obsessão do capitão pelos golos, o que ao mesmo tempo é a razão que permite que esta equipa consiga algum sucesso com táticas assim tão conservadoras. Tivesse a equipa de 1984 um Ronaldo para jogar com Jordão e Chalana e seria campeã a jogar maioritariamente em ataque organizado ou em contra-ataque sem grandes problemas. Tivesse a equipa atual a profundidade de escolhas para a posição de ponta-de-lança que tinha a de 1984 (Jordão, Gomes, Nené e ainda Manuel Fernandes, que ficou em casa) e também poderia dar-se ao luxo de optar por uma ideia ou outra em vez de ouvir Ivkovic dizer que Portugal não tem uma ideia de jogo.
Na verdade, a seleção de Portugal vive numa dúvida permanente. Deve ouvir os otimistas que não se cansam de dizer que temos uma seleção de enorme qualidade e que "ganhar a jogar à Grécia" é uma vergonha? Ou deve reconhecer que, por falta de um atacante que sirva de referencia e por ser forçada a jogar ali com o CR7, tirando-o do jogo, precisa de unir o bloco, baixar linhas e aproveitar os momentos de contra-ataque que os jogos (todos os jogos) oferecem? O que está a dizer-nos este Europeu é que mais vale a segunda opção. Com a Croácia, Ronaldo, que tinha sido o mais rematador dos portugueses nos três desafios anteriores, teve de esperar 117 minutos para ter a primeira oportunidade de visar a baliza adversária. Mas ao contrário do que sucedeu contra a Islândia ou a Áustria, quando a teve foi decisivo. O que nos disse o jogo de Lens foi que, com este Ronaldo, sem ter um ponta-de-lança que permita fixar o futebol da equipa mais à frente, e mesmo sabendo-se que isso não traz um crescimento tão consolidado a nenhuma equipa como um futebol mais burilado e envolvente, Portugal parece condenado ao um modelo mais baseado no agrupamento atrás e na rapidez e profundidade nas suas transições. O problema é que a Polónia também gosta de jogar assim.