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Crédito: FPF
2016-06-24
O puzzle e a questão do milhão de euros

Uma equipa nunca é um esforço acabado. É sempre um projeto em construção. Porque há sempre flutuações de forma, parcerias e incompatibilidades que convém ter em conta. Onze Maradonas não fariam uma boa equipa e esta é uma noção difícil de assimilar por quem vê futebol olhando só para os momentos em que as equipas têm a bola. No jogo contra a Hungria, muitos adeptos ficaram maravilhados com a forma como Renato Sanches e João Mário se associaram para furar as linhas adversárias. Também gostei. Mas não vi quem se preocupasse com o facto de nesse período de jogo – a segunda parte – Portugal ter permitido que o jogo partisse, que se transformasse num exercício de sucessivos contra-ataques e ataques rápidos e se tornasse absolutamente impossível de controlar. No final, Fernando Santos concordou que resolver esse puzzle é acertar na resposta à questão do milhão de euros.

Olhemos para os 23 jogadores à disposição de Fernando Santos. Há ali escolhas que são tão óbvias que nem vale a pena discuti-las – ainda que também haja quem o faça. Se vamos fazer um onze, há que começar por esses. Joga Cristiano Ronaldo porque é o melhor de todos e saca truques de magia como os dois golos de quarta-feira. Joga Nani porque, ainda que me pareça que não está com 90 minutos ao mesmo nível, é o mais inteligente e coletivo a jogar de todos os atacantes nacionais (só Rafa lhe pede meças neste particular). No jogo com a Hungria, quem sabe se por sentir o peso da responsabilidade do penalti falhado no jogo anterior, Ronaldo também pareceu menos ansioso, vendo mais a equipa, como se prova no facto de ter feito a assistência para o primeiro golo nacional em vez de ter procurado a solução individual.

Olhando mais para trás, joga Rui Patrício porque é o melhor dos guarda-redes presentes, jogam Pepe e Ricardo Carvalho porque formam uma dupla complementar, experiente e de qualidade (ainda que Rircardo me tenha parecido menos fresco no último jogo e talvez seja exigir demais dele que faça mais uma partida já no sábado). Presumindo que se joga com quatro defesas, à esquerda era bom que pudesse jogar Raphael Guerreiro, que fez dois jogos bem melhores do que o de Eliseu ante a Hungria. E à direita, francamente, não tenho desgostado assim tanto de Vieirinha a ponto de justificar a mudança. Não é um lateral de grande brilho, mas ocupa a posição e no que mais sofre é quando caem bolas aéreas na sua zona. Se podia jogar Cédric? Creio que sim, também. Mas não vejo nenhuma razão forte que justifique a sua entrada para enfrentar o croata Perisic, apenas um dos melhores médios-esquerdos deste Europeu.

Desde logo se percebe que o busílis da questão é o meio-campo. Mas também aqui o rendimento dos jogadores não deixa muita margem de manobra a Fernando Santos. Tem de jogar William porque é o único médio-centro que dá saída de bola à equipa. Tem de jogar João Mário, porque tê-lo em campo é garantia de posse de bola inteligente e desequilibradora ao mesmo tempo. E o que já vi de Renato leva-me a crer que tem de jogar também ele, porque é o único médio nacional capaz de meter explosão desde trás. A questão é que, como já se viu frente à Hungria, William, João Mário e Renato não podem jogar os três no meio-campo em 4x3x3 – o que desde logo remete Quaresma, por exemplo, para o papel de arma secreta que ele tão bem desempenha. E não, a solução não passa por trocar William por Danilo, porque não é sequer claro que este defenda melhor do que aquele: o que faz, isso sim, é encostar mais aos centrais e protegê-los, mas isso deixa Portugal sem o volume de jogo necessário quando a equipa tem a bola. Jogar em 5x5 (cinco a defender e cinco a atacar) não se usa em lado nenhum no futebol moderno.

Além disso, esse tal futebol explosivo – “selvagem”, como dizia Rui Vitória – de Renato Sanches é uma fonte permanente de desequilíbrios ofensivos e defensivos, razão pela qual ele só apareceu ao meio em situações nas quais Portugal procurava desesperadamente o golo. Para já, o lugar dele é na ala. O lugar ao meio só pode ser de dois jogadores: Moutinho ou Adrien. E aqui Fernando Santos tem de procurar o equilíbrio. Moutinho ataca melhor que Adrien; Adrien defende melhor que Moutinho. Não sou eu que o digo. São as estatísticas. Se Portugal joga com André Gomes, que ocupa melhor o espaço defensivo que Renato Sanches, deve jogar com Moutinho, para que este chegue mais à frente. Se isso não está a funcionar e chama Renato Sanches, que estica mais o jogo e sai mais da posição, tem de chamar Adrien, que equilibra melhor atrás. Não sei se é esta a resposta à pergunta do milhão de euros, mas pelo menos ela ainda não foi tentada.

In Diário de Notícias, 24.06.2016