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Crédito: FPF
2016-06-22
O calculismo tira drama ao Portugal-Hungria

O complicado esquema que desenha o calendário deste Europeu leva ao calculismo. Se procuram as razões para os jogos estarem a ser tão pouco espetaculares, aí a têm: fazem-se muitas contas. Hoje, por exemplo. Quando entrar em campo, a Hungria já está qualificada. Portugal sabe que lhe basta empatar a zero. Mais. Portugal sabe que se empatar a zero tem a certeza de se qualificar em terceiro lugar e calhar na metade mais favorável do quadro daqui para a frente, com a Croácia nos oitavos-de-final, o vencedor do Suíça-Polónia nos quartos e Gales, a Hungria, a Bélgica (em princípio, ainda que também possa ser a Suécia) ou um dos terceiros classificados da primeira fase nas meias-finais. Se ganhar, em contrapartida, corre o risco de a Islândia também ganhar e acabar o Grupo F em segundo lugar, entrando na metade do quadro que tem a Itália, a França, a Alemanha e a Espanha.

Perante isto, a tentação de fazer contas deve ser grande, mas francamente preferia que Portugal entrasse no jogo para ganhar. Ainda assim, percebo que haja quem pense de outra forma. Recordo as histórias que se contam acerca do Mundial de 1986. Na altura os Mundiais também se jogavam com 24 equipas e apuravam os quatro melhores terceiros classificados para os oitavos-de-final (um sistema que já se provou ser prejudicial para a qualidade dos jogos). À entrada para a última jornada, um empate qualificava Portugal e Marrocos e, diz-se, da comitiva marroquina, cujo treinador era brasileiro, tinha chegado uma mensagem a apelar ao empate e não se falava mais disso. José Torres, conta-se, terá feito o que tinha de fazer e disse que não senhores, que Portugal ia entrar para ganhar. No fim, a seleção perdeu por 3-1 e voltou a casa imediatamente. Pessoalmente, entre histórias tristes, prefiro recordar outra. Em 2002, Portugal jogava com a Coreia do Sul em Incheon e, face aos dois golos que a Polónia fez nos primeiros cinco minutos aos Estados Unidos, ficou desde logo mais ou menos claro que o empate qualificava as duas equipas, mas os coreanos nunca desistiram de procurar uma vitória que satisfizesse o seu público. Acabaram por conseguir o golo que eliminou Portugal a 20 minutos do fim, por Park-Ji Sung, já com os portugueses reduzidos a nove jogadores.

Claro que todas estas conjeturas vêm reforçar a tentação de fazer contas à medida que se retira a carga dramática de que um jogo deste cariz deveria estar revestido. A saber que precisa apenas de empatar, o que deve fazer Fernando Santos? Um onze mais recatado, com regresso ao 4x4x2 e sacrifício de uma das unidades da frente? Isso, creio, sucederia fosse qual fosse a história deste jogo. Um onze sem os jogadores que já viram o cartão amarelo no jogo com a Áustria – Quaresma e Pepe – de forma a garantir que estarão aptos para os oitavos-de-final? Tenho mais dúvidas, porque creio que Quaresma sairia do onze de qualquer modo e é difícil à seleção abdicar de Pepe, o mais reputado dos seus defesas-centrais? Um onze no qual não se arrisca a utilização dos jogadores que sofrem de mazelas físicas – Raphael Guerreiro e André Gomes – de forma a não correr riscos de as agravarem? Julgo que sim, que se aplicará o mesmo princípio que já foi válido com Quaresma na partida inaugural. De qualquer modo, a composição do onze depende muito do que Fernando Santos quiser do jogo. E isso, repito, não é claro.