Artigo 

2016-06-16
As batalhas a meio-campo que merecem ser travadas

Um dia, quando se aproximava um jogo contra um adversário que abusava do jogo aéreo, sempre direto para o ponta-de-lança, Johan Cruijff surpreendeu Guardiola dizendo-lhe expressamente que não o queria a saltar com o gigante, mas sim colocado uns metros mais atrás, para se concentrar na tarefa de recolher a bola que iria sobrar do duelo que alguém iria disputar – e quase sempre perder – com ele. Ali, o que importava não era saltar mais alto que o armário, não era ser mais forte do que ele no choque: era só atrapalhá-lo o suficiente para que ele não pudesse escolher o local para onde ia dirigir a bola que lhe caía dos ares. O jogo começaria a seguir e aí estaria Guardiola para lhe dar início. Depois de ver o Portugal-Islândia e de analisar todas as estatísticas do jogo, fiquei convencido de que foi um erro a opção por Danilo em detrimento de William Carvalho, porque ao assumi-la o selecionador nacional estava a escolher as batalhas erradas, aquelas que nunca poderia ganhar, face à qualidade de Sigthorsson no jogo aéreo. Acredito que Fernando Santos concordará e que será ali que começarão as alterações na equipa que empatou com a Islândia quando for preciso ganhar à Áustria. Resta perceber se ficarão por aí.

“Se uma batalha não pode ser ganha, não a traves”. Este era o conselho de Sun Tzu, na velha “Arte da Guerra”. Ora a batalha corpo a corpo com os possantes islandeses – não era só uma questão de estatura, mas também de peso e sobretudo de predisposição para aquele tipo de futebol – era das que não podia ser ganha. Depois do jogo, olhando para os números é fácil de entender que esta era uma das batalhas que não devia sequer ser travada. Todos os jogadores baixaram a percentagem de duelos corpo-a-corpo ganhos em comparação, por exemplo, com o jogo ante a Inglaterra. Só na linha defensiva, Vieirinha caiu de 71% para 56%, Ricardo Carvalho de 75% para 64%, Pepe ficou pelos 65% e portanto abaixo dos 66% da soma de Bruno Alves com José Fonte em Wembley, e Raphael Guerreiro conseguiu 43% face aos 50% de Eliseu em Inglaterra. A maior diferença, contudo, esteve em Danilo, que tinha ganho 60% dos duelos em Wembley e se ficou agora por uns 32% que são o seu pior número desde Setembro. É claro que um onze não deve ser escolhido com base nos jogadores que ganham mais duelos corpo-a-corpo… a não ser que a base do jogo da equipa seja essa. A de Portugal não é e não será nunca, o que transformou a escolha de Danilo numa contra-medida paradoxal para a ideia de jogo da equipa.

O problema não foi Danilo mas sim o facto de ele estar em campo com base em argumentos que são os da Islândia e não os de Portugal. Em vez de travar a batalha das lutas corpo-a-corpo, Portugal devia ter-se concentrado nas que podia vencer, com bola no chão, triangulações para envolver o adversário e ganhar o espaço entre as linhas defensivas do adversário, de onde poderia solicitar os avançados com muito maior perigo. Pois isso raramente foi conseguido: Portugal só criou perigo a jogar por fora e isso teve muito a ver com a forma como priorizou os valores errados no primeiro momento de construção. Será, evidentemente, impossível definir agora se a incapacidade da equipa nacional para meter gente entre linhas teve a ver com uma má gestão da transição ofensiva – o primeiro passe –, com o facto de tanto João Mário como André Gomes estarem demasiado abertos junto às linhas e procurarem pouco as diagonais para dentro ou ainda com um menor rendimento de Moutinho face ao que o treinador dele espera.

Olhemos para João Moutinho, por exemplo. Acabou o jogo com uma boa percentagem de passes certos: ficou-se pelos 91%, acima até da sua média do último mês (que é de 89%) e bem acima da média para toda a época, que é de 84%. Ora este é o primeiro dado que pode fazer-nos desconfiar. A olho nu parece que ele está a jogar menos, mas apresenta uma percentagem de passe melhor do que a sua própria média? Provavelmente porque está a proteger-se mais: desde o jogo com a Noruega que Moutinho não tenta sequer um passe de rotura – daqueles que deixam os companheiros com espaço para correr atrás do bloco adversário – quando a sua média para a temporada é de 2,5 por jogo e fechou os meses de Janeiro e Fevereiro com três tentativas por cada 90 minutos. As médias ofensivas da temporada de Moutinho são de longe as melhores entre os candidatos ao lugar de médio-centro: soma 7,0 passes na área por jogo contra 2,3 de Renato e 1,9 de Adrien; 2,5 passes de rotura contra 2,0 de Renato e 1,6 de Adrien. Defensivamente, o melhor é Adrien, com 6,0 interceções contra 4,2 de Moutinho e 3,5 de Renato; e 6,0 recuperações, contra 4,2 de Renato e 3,7 de Moutinho. Adrien tem ainda a melhor percentagem de passe: 88% de entregas certas, contra 85% de Renato e 84% de Moutinho.

Aqui, no entanto, começa aquela área da decisão que tem a ver com as convicções. A aposta de Fernando Santos em João Moutinho tem a ver com o facto de querer devolver-lhe o ritmo que ele perdeu com a lesão a tempo de o ter a carburar nos oitavos-de-final. Neste momento a questão que se coloca é: haverá condições para continuar a assumir o risco? Este é um daqueles momentos em que o treinador é o homem mais só do Mundo.