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2016-06-02
Wembley será teste ao peso da experiência

O Inglaterra-Portugal de hoje pode contribuir muito para se perceber o que as duas equipas valem tendo em vista o Europeu que aí vem. É um particular de perfil elevado, contra um adversário que, tal como a equipa de Fernando Santos, se conta entre os outsiders no alinhamento de favoritos, e ainda que a ausência de Ronaldo e Pepe possa funcionar como dissuasor para os que pretendem fazer do jogo um teste realista, há aspetos que podem ser medidos. Como por exemplo um dos dois que, a par da dependência de Ronaldo, mais preocupa os observadores nacionais: o peso da experiência. Adequado ou excessivo?

Uma eventual vitória de Portugal em Wembley – seria a primeira da história, mais um “borrego a matar” por Fernando Santos – 50 anos depois da derrota ali sofrida pela equipa de Eusébio, no Mundial de 1966, poderá significar que a experiente seleção nacional aguenta ritmos elevados, como aqueles que os ingleses por si só já costumam imprimir aos seus jogos. Mais importante ainda se torna medir isso se tivermos em conta que Roy Hodgson juntou a equipa mais jovem que a Inglaterra leva a uma fase final desde o Mundial 1958, o que pressupõe que a Inglaterra deverá apostar ainda mais do que habitualmente nessa elevada intensidade. Se compararmos os 23 de Inglaterra com os 23 de Portugal, as diferenças são grandes. Não tanto em termos de idades (25,3 anos de idade média dos ingleses para 27,8 anos de idade média dos portugueses), mas mais em termos de internacionalizações (22,0 de Inglaterra contra 35,3 de Portugal) e, sobretudo, de presenças em fases finais (um total de 20 nos jogadores ingleses para 36 dos portugueses). É esta experiência de competição internacional ao mais alto nível que Portugal leva para França, seja como um dos seus maiores atributos ou um dos seis maiores defeitos.

E no entanto, quando se olha para o onze que Portugal fez alinhar no domingo no Dragão frente à Noruega, a realidade parece bem diferente. Fernando Santos começou esse jogo com seis sub-25 (Anthony Lopes, Cédric, Guerreiro, William e João Mário), tendo chegado a ter sete em campo, entre os 60 e os 79 minutos de jogo (quando Rafa e Danilo substituíram Quaresma e Ricardo Carvalho). Esse elevado contingente saído da geração que foi vice-campeã europeia de sub21 faz depois com que a idade média da seleção nacional não seja assim tão elevada, quando o verdadeiro problema é o hiato entre a geração campeã europeia de sub17 em Viseu (em 2003) e estes jogadores mais novos. Olha-se para o grupo de Santos e descobrem-se onze jogadores com pelo menos 29 anos, mas depois há um buraco enorme até ao contingente de oito elementos que ainda são sub24 e à partida seriam convocáveis para a equipa que vai estar nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em Agosto. Dos quatro anos intermédios, aparecem apenas quatro homens: Antony Lopes (25 anos), Adrien Silva (27), Rui Patrício (28) e Éder (28). Tendo em conta que esta é a idade associada ao pico de carreira de um futebolista, é caso para se tentar perceber o que se fez em Portugal com estas gerações, de forma a evitar repetir.

A Inglaterra, por exemplo, tem nove jogadores entre os 25 e os 28 anos: Henderson, Rose e Clyne têm 25, Sturridge, Smalling, Walker e Bertrand têm 26, Lallana e Forster têm 28. Depois, o que é diferente é que enquanto Portugal tem os tais onze jogadores mais velhos, na Inglaterra aparecem apenas seis: Hart (29), Vardy (29), Heaton (30), Cahill (30), Milner (30) e Rooney (30). Há oito portugueses mais velhos que o mais antigo dos ingleses. Não espanta, por isso, a diferença abismal no total de internacionalizações (nove portugueses contra cinco ingleses acima dos 30 jogos pela seleção, para uma média que dá mais 13 jogos a cada português) e, sobretudo, nas presenças em fases finais. É verdade que onze dos jogadores chamados agora por Hodgson já estiveram no Mundial de 2014, prova da qual a Inglaterra não pode orgulhar-se. Esse contingente é igual ao total de elementos que Santos leva agora a França e já estiveram com Paulo Bento no Brasil. Só que há depois duas diferenças. Primeiro, Quaresma e Ricardo Carvalho não estiveram no Brasil mas já tinham sido convocados para mais provas antes disso. Depois, se entre os ingleses só Rooney (cinco), Hart (três), Milner (três) e Henderson (duas) foram a mais de uma fase final, na equipa de Portugal há bem mais repetentes: Ronaldo tem seis fases finais, Ricardo Carvalho, Bruno Alves e Pepe foram a quatro, Rui Patrício, Eduardo, Nani, João Moutinho a três e Quaresma a duas. Eles já sabem e podem bem enquadrar os mais novos, no fundo fazer aquilo que motiva Rooney antes do Europeu: “Preciso de ser um exemplo para os outros jogadores. Não vou ter de tomar conta deles, mas se eu puder estabelecer o exemplo correto no hotel ou no campo de treinos, é isso que eles vão ver. Muitos deles vão jogar a primeira fase final e não sabem o que esperar. Se eu puder antecipar-lhes o que aquilo vai ser, fá-lo-ei”. Portugal tem vários Rooneys. Resta saber se consegue aproveitá-los.