Artigo 

2016-05-02
Certificados pelo aforro

Rui Vitória já assumiu que deverá, em princípio, poupar alguns jogadores na meia-final da Taça da Liga, que o Benfica jogará hoje na Luz contra o Sp. Braga. Olhando para a forma desgastada como os encarnados têm vindo a cumprir, sempre sem falhas, ainda assim, cada passo da caminhada que o treinador espera venha a conduzir ao tricampeonato, parece sensato que o faça. E, suceda o que suceder, tanto hoje como no próximo fim-de-semana, a história deste campeonato escrever-se-á sempre através do recurso às diferentes estratégias de poupança dos treinadores das duas melhores equipas. Teremos um campeão certificado pelo aforro.

Olha-se para Benfica e Sporting e percebe-se que estão equilibrados no total de jogos feitos: hoje, ao receber o Sp. Braga, o Benfica empata com o Sporting em total de jogos feitos (49), podendo vir a superar os leões se assegurar a passagem à final da Taça da Liga. Contudo, isso não quer dizer que o Sporting esteja neste momento mais desgastado, quer porque os seus jogos internacionais – na Liga Europa – tiveram um grau de dificuldade inferior aos do adversário, quer porque Jesus optou por uma gestão diferente do seu plantel, tirando exigência em determinada altura, o que pode ter ajudado a equipa ao nível da fadiga central. Se olharmos para os números, verificamos que ambos os grupos têm seis jogadores com pelo menos 40 jogos efetuados: Jonas (44), Pizzi (44), Eliseu (43), Mitroglou (42), Jardel (41) e Jiménez (41) no Benfica; Rui Patrício (44), João Mário (44), Slimani (44), Ruiz (44), Adrien Silva (40) e Gelson (40) no Sporting. É verdade que entre os sportinguistas há um guarda-redes – e bastaria Júlio César não se ter lesionado para estar também no lote – e que, se em ambos há um jovem tantas vezes saído do banco – Gelson e Jiménez –, a pressão colocada em cima do extremo leonino tem sido sempre muito menor que a feita sobre o ponta-de-lança mexicano, tantas vezes entrado com a necessidade de desbloquear o marcador.

Nestas coisas, como se sabe, não há uma verdade científica. Cada grupo, cada organismo reage de uma maneira muito própria a diferentes estímulos, mas parece evidente que as estratégias de Rui Vitória e Jorge Jesus foram radicalmente diferentes. Vitória tem trazido sempre os melhores a cada jogo, porque na Champions a isso era obrigado, e se fez alguma rotação na equipa isso deveu-se tanto às lesões (Júlio César, Luisão, Lisandro, Nelson Semedo…) como à eclosão de Renato Sanches, que tirou espaço a Samaris na equipa principal. Chega assim aos últimos três (ou quatro) jogos da época com os jogadores fundamentais em condições muito difíceis – não é estranho que Jonas, Pizzi e Mitroglou tenham caído tanto de produção nas últimas semanas –, mas na frente da classificação. Do outro lado, com o discurso centrado na Liga, com o menosprezo constante da Liga Europa, Jorge Jesus chega aos últimos dois jogos da época com a equipa em melhores condições. E também não é estranho que os quatro homens mais utilizados da época tenham sido os melhores na vitória de sábado no Dragão. Sobretudo Slimani, João Mário e Rui Patrício chegam a Maio a voar, depois de um período de quebra em Fevereiro-Março, que foi quando o Sporting perdeu a liderança, com apenas duas vitórias em sete jogos, de 8 de Fevereiro a 5 de Março.

Acontece que quem ganha o campeonato não é quem faz melhor resultado na última jornada, não é quem chega às férias em melhores condições. É quem soma mais pontos nas 34 rondas da competição. E neste particular o Benfica tem vantagem, pois parte para as últimas duas jornadas com mais dois pontos. Se o campeonato durasse mais umas quatro ou cinco semanas, o Sporting pareceria a equipa em melhores condições para o ganhar, mas com a meta tão perto começa a parecer cada vez mais improvável que o Benfica escorregue antes de a ultrapassar. Claro que o debate acerca da melhor estratégia nunca chegará a conclusões mais definitivas do que o destinado a decidir qual é a melhor equipa das duas. Ninguém garante como estaria o Benfica se Vitória tem tirado exigência na Liga dos Campeões ou como estaria o Sporting se Jesus tivesse ido a jogo sempre com os melhores na Liga Europa. Por isso mesmo, daqui a duas semanas, as conclusões estarão sempre ligadas aos resultados. Se o Benfica mantiver a passada por mais duas jornadas e for campeão, teve razão Rui Vitória; se os encarnados passarem das vitórias difíceis e tangenciais a um empate ou derrota e o Sporting continuar a ganhar os seus jogos e for campeão, teve razão Jesus. Certo é apenas que ambos estão a fazer um fantástico trabalho.

In Diário de Notícias, 02.05.2106