Artigo 

2016-04-25
Eu mereço, tu mereces...

Jorge Jesus veio afirmar, após a vitória do Sporting frente ao U. Madeira, que os leões mereciam ser campeões nacionais, em virtude do excelente campeonato que estão a fazer. É verdade. O problema é que o Benfica está a fazer um campeonato ainda melhor e por isso mesmo tem mais dois pontos, a três jornadas do fim. A questão é que muito dificilmente uma prova de regularidade como um campeonato, jogado em 34 jornadas, deixa de sorrir a quem merece ganhá-la. E por isso mesmo as contas só se fazem no fim. Ou, como também já disse Jorge Jesus noutra ocasião: “isto não é como começa; é como acaba”.

Certo é que, no fim-de-semana em que Benfica e Sporting garantiram matematicamente que vão acabar nos dois primeiros lugares da classificação, fica a certeza de que seja quem for a levar a melhor dará um excelente campeão. Neste caso, o verbo merecer não deve ser conjugado só numa pessoa, porque os méritos de ambos os candidatos são evidentes e não podem ser mascarados com erros dos árbitros ou dos adversários, que acontecem um pouco por todo o lado. Ainda neste fim-de-semana os que correram a chamar “vendido” a Gudiño, guarda-redes do U. Madeira, pela forma como sofreu o primeiro golo do Sporting, terão certamente corado de vergonha – se é que ainda têm um pingo dela – quando viram a intervenção de André Vilas Boas no lance do tento de Jiménez ao Rio Ave. Da mesma forma que os que andaram meio campeonato a acusar vários adversários de facilitarem a tarefa ao Benfica, quando este ganhava de goleada, podem agora meter a viola no saco ao ver a equipa de Rui Vitória arrancar vitórias tão difíceis e sofridas como as que obteve contra o Boavista, a Académica, o V. Setúbal ou o Rio Ave. Vitórias onde se houve algo que o Benfica mostrou acima de tudo foi espírito de luta e competitividade, atributos de que não precisaria se alguém lhe facilitasse a vida.

Uma equipa que, como o Benfica, vem com 17 vitórias em 18 jornadas desde o empate contra o U. Madeira, em meados de Dezembro, tem méritos mais do que evidentes na posição que ocupa. Na altura em que, empatando no Funchal, ficou a oito pontos do líder – ainda que com um jogo a menos –, o que se disse foi que pelas debilidades que tinha mostrado até ali, o Benfica tinha perdido o direito ao erro. Que só um Super-Benfica podia voltar a discutir a Liga. Ora se a equipa entra nas três últimas jornadas na frente e como favorita, há-de ser porque se transformou de facto nesse Super-Benfica e por isso não deixará de ser um bom campeão. Por outro lado, uma equipa que, como o Sporting, liderou durante a maior parte das jornadas, só perdendo essa liderança com dois zeros atacantes seguidos em jogos – com o V. Guimarães e o Benfica – nos quais teve sempre mais volume de jogo ofensivo mas falhou na finalização também não deixará de ser um bom campeão. Até por ter conseguido manter a pressão sobre o líder, não desabando animicamente no momento em que passou a ter de olhar para cima para ver o adversário.

Merecer ser campeão, merecê-lo-á quem chegar à última jornada na frente. E, além de não merecer as tentativas de menorização alheia que alguns idiotas presentes nas duas trincheiras têm vindo a ensaiar, o desafio constante que Benfica e Sporting têm feito um ao outro leva a crer que vamos ter campeonato até ao fim. A tarefa do Sporting, que não depende apenas de si próprio, é bem mais complicada, porque tem dois jogos fora – e logo contra FC Porto e Sp. Braga – mas se há algo que os benfiquistas devem ter certo é que reservar o Marquês de Pombal antecipadamente não dá bons resultados. O último campeonato perdido pelos encarnados, em 2012/13, começou nos festejos exagerados após uma dura vitória fora de casa sobre o Marítimo de Pedro Martins – atual treinador do Rio Ave – a três jornadas do fim. Seguiram-se o empate com o Estoril e o ajoelhar de Jesus no Dragão. O discurso equilibrado de Rui Vitória parece conduzir a equipa do Benfica no sentido inverso ao da euforia. Do outro lado, o discurso inflamado e mesmo assim confiante de Jorge Jesus tenciona levar a sua equipa a acreditar que o título continua a ser possível. E até nisso os dois se merecem um ao outro.

In Diário de Notícias, 25.04.2016