Artigo 

2016-04-18
A teoria do remediado

Quem faz o favor de me ler há tempo suficiente sabe que adotei de Sven-Goran Eriksson a teoria segundo a qual discutir arbitragens é irrelevante porque, no fim, feitas as contas, entre o deve e o haver, as coisas acabam por se equilibrar. É por isso, e também porque nunca encontrei um debate sobre penaltis ou foras-de-jogo em cujos padrões de urbanidade ou educação me reveja, que não sigo o caminho geral, o caminho que manda o adepto comum vociferar contra os árbitros nos fins-de-semana em que a sua cor saiu prejudicada e silenciar essas discussões quando são os outros a queixar-se. Mas também já ando no futebol português há tempo suficiente para acrescentar à teoria de Eriksson uma outra, à qual chamo a “teoria do remediado”. E que diz o seguinte: nos últimos dez ou quinze anos, em cada momento conjuntural do futebol português, há sempre um que ganha, um que é cúmplice porque joga na mesma na Champions e um terceiro que luta por aquilo a que chama “a verdade desportiva”, mas que não é mais do que a defesa dos seus interesses e a vontade em ocupar o lugar de um dos outros dois.

Não vou ao ponto de dizer, como Jorge Jesus disse do fair-play, que a verdade desportiva seja uma treta. Não é. Sou, aliás, favorável à introdução no futebol de meios auxiliares de diagnóstico que venham ajudar os árbitros a decidir melhor. Mas não tenho a ilusão de que isso venha acabar com a discussão, porque não é preciso recorrer às hordas de fanáticos que enxameiam as redes sociais para encontrar gente que, perante as mesmas imagens, tira conclusões diferentes. Basta muitas vezes consultar ex-árbitros internacionais. Como não existe uma verdade absoluta, mas sim diferentes interpretações de um mesmo acontecimento, quando houver vídeo-árbitro – e reparem que não disse “se”, disse “quando”, porque acredito que isso é inevitável – as suspeitas de favorecimento manter-se-ão, mas mudarão de destinatário: passarão do relvado para a régie. E isso será assegurado por todos os que mantém a funcionar o sistema de acordo com a “teoria do remediado”, esse axioma nascido da evidência de que só há lugar para dois clubes verdadeiramente grandes no futebol nacional, porque são apenas duas as vagas garantidas na distribuição de milhões da Liga dos Campeões.

Foi de acordo com essa evidência que as coisas mudaram. Se até há uns dez, quinze anos, o que interessava era só ganhar, depois da reforma das provas europeias, que assegurou uma segunda vaga direta de clubes portugueses na Champions, passou a interessar também ficar em segundo lugar. Chegámos, nessa altura, ao ponto de ouvir um presidente do Sporting dizer que ante dois desafios, preferia ficar em segundo no campeonato a ganhar a Taça de Portugal. Ou ser duas vezes segundo a ser uma vez primeiro e outra terceiro. Essa, já se vê, era a altura em que o Sporting era o remediado. O FC Porto ganhava – e nos últimos 30 anos nunca deixou de ganhar por mais de três anos seguidos, mantendo mesmo assim com frequência o segundo lugar – e o Sporting era segundo, o que garantia à equipa de Paulo Bento um cartão de passageiro frequente na Liga dos Campeões. E dinheiro, muito dinheiro. Quem lutava nessa altura pela “verdade desportiva”? O Benfica, pois então. Era Luís Filipe Vieira quem falava mais na regeneração do sistema. António Dias da Cunha, um voluntarioso franco-atirador que, na qualidade de presidente do Sporting, chegou a alinhar com Vieira nalgumas iniciativas, acabou por ser afastado dentro do próprio clube, pois estava a ir contra a “teoria do remediado”.

Entretanto, o Benfica passou a ganhar – é neste momento favorito à conquista do tricampeonato. E da Luz passaram a chegar vozes de moderação, de crítica a quem passa a vida a falar dos árbitros. Quem passou a ser o principal crítico do sistema? O Sporting, pois então, onde Bruno de Carvalho diz tudo aquilo que Luís Filipe Vieira disse e talvez até muito mais, questionando os árbitros e clamando por injustiça em todas as jornadas e chegando mesmo ao ponto de recusar a admissão de favorecimentos quando eles acontecem – como foi o caso esta semana. O FC Porto tem sido o remediado e por isso mesmo ninguém se juntou a Lopetegui quando este criticou as arbitragens, na época passada. Veremos como passarão a comportar-se no Dragão na próxima época, quando se torna mais ou menos evidente que o FC Porto será terceiro na Liga que se aproxima do fim e tem a Liga dos Campeões em risco.

In Diário de Notícias, 19.04.2016