Artigo 

2016-04-04
Renato Sanches e os talibãs

Renato Sanches conseguiu um feito notável. Não foi levar um miúdo a invadir um relvado para o abraçar e pedir-lhe uma camisola. Isso é consequência. O que Renato Sanches conseguiu foi pôr um país inteiro a discuti-lo, a ele, com argumentos radicais, próprios da talibanização que tomou conta do futebol nacional. Para uns já é um dos melhores médios da Europa e “tem coisas de Eusébio”, como afirmou José Augusto, que tem pelo menos a seu favor e do que disse o facto de ter conhecido muito bem o “King”. Para outros, é um caceteiro que não joga nada, que tem a data de nascimento martelada e beneficia do beneplácito de adversários pouco empenhados e árbitros desatentos para se impor. Ridículos, uns e outros. Renato Sanches está a fazer o seu caminho. É um bom jogador, pode vir a ser um muito bom jogador, talvez até um extraordinário jogador, sobretudo se aliar ao que já conseguiu mais outro feito notável, que é alhear-se do ruído que a simples menção do seu nome já provoca no futebol português.

Quanto vale Renato Sanches? Não digo em milhões, que aí, como todos os jogadores que entram na teia do negócio de import-export em que se transformou ultimamente o futebol nacional, valerá aquilo que o poderoso empresário que vai transacioná-lo quiser, consoante lhe der mais jeito subir ou baixar a fatura. Digo no campo. No campo, Renato Sanches foi um dos grandes responsáveis pela mudança de cara do Benfica, de Novembro para agora. Ele entrou na equipa há meio campeonato, precisamente no jogo em Braga, quando Rui Vitória bebia gole de água atrás de gole de água sem ver a equipa melhorar. O Benfica ganhou esse jogo por 2-0, ultrapassou os minhotos no terceiro lugar, mas continuava a oito pontos do Sporting, ainda que com um jogo a menos, na Madeira contra o União. Com o miúdo na equipa, os encarnados empataram esse jogo com o U. Madeira, perderam com o FC Porto e ganharam todos os outros desafios, estando agora na frente da Liga, com cinco pontos (e um jogo) a mais do que o Sporting. Algum mérito ele terá, porque se fosse irrelevante o treinador já o teria mandado de volta para a equipa B.

Renato Sanches não é, por enquanto, um dos melhores médios da Europa e, com franqueza, além do tom de pele, não vejo nele mais nada de Eusébio. Mas o seu futebol, que Vitória definiu como “selvagem”, ajudou a dar a volta ao Benfica. Sobretudo porque, com bola, Renato é muito forte. É forte na aceleração, na mudança de velocidade, no sprint longo, nas bolas divididas e consegue ainda alargar a potência muscular de que dispõe ao remate de meia-distância, que lhe sai bem com regularidade. Fernando Santos chamou-o à seleção e fez bem, porque era importante vê-lo em ação naquele ambiente, nem que fosse para concluir que, por mais que isso custe a quem faz disto o seu cavalo de batalha, ainda é cedo para lhe dar a responsabilidade de ser um João Moutinho. E porquê? Porque ao mesmo tempo que é fortíssimo com bola, o “selvagem” Renato Sanches compromete sem ela. Se não impõe o primeiro momento de pressão, é um dos causadores dos desequilíbrios posicionais do Benfica no momento defensivo, porque sai muito da posição, porque tem fraca noção das responsabilidades de cobertura num meio-campo a dois.

Rui Vitória sabe disso e não quer que ele mude, porque em 95% dos jogos do Benfica isso não chega a ser um problema. Pelo contrário. Mas o futebol de altíssima competição é mais do que o momento em que se tem a bola – e nisso Renato ainda tem uma enorme margem de progressão. Pensemos assim: há 90 minutos de jogo e, se as coisas lhe correrem particularmente bem, um jogador tem a bola na sua posse em dois desses 90 minutos. Os outros 88 são passados em movimentos de apoio ofensivo ou de pressão ou contenção defensiva. Ora nesses 88 minutos, o grande jogador do meio-campo do Benfica é Pizzi (além de Jonas, claro, que compreende como ninguém a urgência de cada momento). E por estranho que pareça, não vi ninguém dizer que ele faz lembrar Simões, o extremo que tanto aparecia nos espaços interiores no Benfica europeu dos anos 60, ou que a sua eventual não-convocatória para o Europeu será um escândalo. Com a agravante de, no caso de Pizzi, o ser mesmo, porque não há em Portugal quem faça aquilo melhor do que ele e João Mário.

In Diário de Notícias, 04.04.2016