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Crédito: FPF
2016-03-28
O novo jogar da seleção

Fernando Santos escolheu o jogo com a Bulgária para pôr em prática um novo jogar na seleção nacional. Mais do que olhar para o resultado, que foi mau, ou para as indicações, que face ao elevado número de situações de golo criadas até foram boas, o que importa é avaliar se este novo jogar tem pernas para a andar e se é a melhor resposta aos problemas da seleção. A resposta às duas perguntas é sim. O que em si não significa que esteja tudo bem ou que o problema não pudesse ter começado a ser atacado há mais tempo. Porque o Europeu é já daqui a dois meses.

O selecionador nacional apanhou a equipa a meio de uma fase de qualificação que, ainda por cima, nem tinha começado bem e a primeira prioridade que teve foi a de apurar a equipa para a fase final. Fê-lo com um misto de sensações. Por um lado ganhou todos os jogos, por outro mostrou quase sempre um futebol pobre, resolvendo nos últimos instantes muitas partidas de fraca produção atacante. Parecia estar em curso um processo de helenização da seleção nacional, mas foi a esse processo que Santos puxou agora o travão de mão. Porque além de não confiar assim tanto na sorte, também ele percebeu que esse processo não resolvia o maior problema da equipa. A saber: o que fazer com Ronaldo?

Voltemos ao último Mundial. Com Paulo Bento, Portugal usava o 4x3x3 e Ronaldo jogava a extremo-esquerdo, a posição que melhor lhe permite desequilibrar, pois dá-lhe os metros necessários para embalar, da esquerda para o meio, e aparecer já lançado face à defesa adversária. A questão é que isso acarretava dois problemas adicionais: para Ronaldo jogar ali era preciso estar lá um ponta-de-lança que, não existindo, roubava o lugar no onze a jogadores melhores e, por outro lado, essas deambulações de Ronaldo pelo campo deixavam sempre a equipa nacional coxa e desequilibrada no momento de transição defensiva, pois raramente havia alguém para defender o corredor que o CR7 deixara vago além do defesa-lateral, condenado a incontáveis situações de inferioridade numérica.

Quando a prioridade foi conseguir a qualificação, Ronaldo chegou a jogar como ponta-de-lança solitário. Isso que vinha resolver o problema defensivo, pois mantinha todos os corredores bem preenchidos, mas sacrificava o melhor jogador da equipa a uma posição que não é aquela em que ele mais rende – Ronaldo passava boa parte do jogo de costas para a baliza adversária a batalhar por bolas aéreas bem longe da área – e de caminho sacrificava também o potencial ofensivo da equipa. Conseguido o apuramento, a ideia devia ter sido logo resolver este problema, que só podia passar pela adoção de um 4x4x2 que permitisse a Ronaldo aparecer solto, com um parceiro no centro do ataque. Nem precisava de ser um goleador – que para os golos está lá Ronaldo. Tinha era de ser alguém que fosse capaz de fazer tudo aquilo que ele não faz: tinha de se bater com os defesas-centrais, para ganhar espaço para Ronaldo, e pressioná-los na fase defensiva, para que Ronaldo pudesse guardar energias para desequilibrar depois.

Santos, porém, dispensou Ronaldo dos dois primeiros particulares, desperdiçando nessas partidas com a Rússia e o Luxemburgo a oportunidade de testar a compatibilidade entre os pontas-de-lança convocados (Nélson Oliveira e Lucas João) com o capitão de equipa. Percebe-se agora que nunca quis sequer fazer esse teste, pura e simplesmente porque não acreditava no seu sucesso. A ideia de Santos, o novo jogar da seleção, passa por uma frente de ataque com dois jogadores móveis, que não se dão à marcação, dois jogadores que tanto procuram os corredores laterais em trocas posicionais com os médios-ala, como a profundidade nas costas da defesa adversária, a solicitar o passe dos médios com movimentos de rotura, ou as desmarcações de apoio para tabelas no espaço entre as linhas adversárias.

Contra a Bulgária jogaram ali Nani e Ronaldo e o teste não correu mal, tantas foram as situações de golo criadas. É preciso, no entanto, ter em conta dois aspetos. Primeiro, que o adversário era fraco – e parece-me mais importante valorizar isso do que o facto de Portugal ter perdido, porque em condições normais uma equipa que cria tantas oportunidades flagrantes de golo acaba por golear. Depois, que este novo jogar, por privilegiar tanto a mobilidade e uma primeira zona de pressão agressiva, com muita gente no último terço, deixou a equipa vulnerável do ponto de vista defensivo, com muitos jogadores fora do lugar em transição e pouca gente atrás em organização defensiva. A ideia não é má, mas ainda precisa de muito trabalho. A ver já amanhã, contra a Bélgica.

In Diário de Notícias, 28.03.2016