Artigo 

2016-03-21
Afinal, quando vale Jonas

A discussão está lançada e tem feito as delícias de quem vê futebol com óculos coloridos, daqueles que aumentam umas coisas e diminuem outras. Jonas é o maior, o pistoleiro que eleva o nível do futebol do Benfica. Não, Jonas não serve para grande coisa, porque só marca aos pequenos. Jonas está na corrida à Bota de Ouro e até foi chamado à seleção do Brasil. Não, Jonas beneficia da debilidade de quase todas as equipas do campeonato português e Dunga só se lembrou dele porque Roberto Firmino se lesionou. O mais estranho é que é tudo verdade. Jonas não é um dos melhores pontas-de-lança do Mundo, porque se fosse não teria baixado da Liga espanhola para a portuguesa, mas é provavelmente uma das maiores pechinchas na história das contratações decisivas de um clube português. E se o Benfica for esta época tricampeão nacional é em grande parte a ele que o deve.

Jonas é um típico centro-avante brasileiro. O que quer isso dizer? Que prefere a conversa ao monólogo, que joga como quem dança o samba, um passo aqui, um toque acolá, sempre com ginga. Mas também que não podem contar com ele para o trabalho árduo, que está viciado na presença de um parceiro que fixe os centrais adversários, que lhe alargue o espaço entre linhas para ele poder aparecer a decidir. Uma das melhores formas de definir o futebol de Jonas é dizer que à frente dele os adversários parecem demasiado rápidos, demasiado sôfregos, porque ele é capaz de definir o timing de cada jogada de forma a que, mesmo abrandando, quem está no momento certo é ele. Os outros passam, mas ele fica com a bola e com a iniciativa. E se ele fica com a bola, isso é quase sempre uma boa notícia para o Benfica, porque ele define como poucos, servindo-se de uma capacidade técnica invulgar, tanto no passe como na finalização, e também daquilo que transforma um grande jogador num grandíssimo jogador: a tomada de decisão.

É certamente por não entrar em correrias – e por ter quem o faça por ele – que Jonas pensa quase sempre a solução certa para a equipa. Sem bola, decide se deve procurar o corredor lateral ou baixar em desmarcações de apoio. Com ela, se deve esperar, driblar, chutar, passar e para onde passar. Se ele tiver tempo para pensar, o Benfica sai geralmente a ganhar. Mas então por que razão não saiu Jonas do Valência para o Real Madrid, chegando antes dispensado ao Benfica? É que nos jogos de maior nível de exigência raramente há o tempo para pensar de que Jonas precisa. Raramente o espaço sobra para ele impor a sua ginga. É por isso também que Jonas não fez um único golo em quatro jogos contra o Sporting e está igualmente em branco em três desafios contra o FC Porto. Ou que Jorge Jesus, que sempre o prezou tanto como a Gaitán quando se falava em argumentos capazes de levar o Benfica a ganhar campeonatos, nem sequer o colocou em campo na vitória por 2-0 no Dragão, na época passada.

O jogo de ontem, contra o Boavista, serve de exemplo para esta dificuldade. Contra uma equipa que foi competente do ponto de vista tático e sem contar com o imprescindível apoio de Mitroglou, Jonas sofreu horrores. E aqui, se falo de Mitroglou, é mesmo de Mitroglou, não é de outro avançado qualquer. Porque o grego procura quase sempre a profundidade, o espaço nas costas da defesa adversária, quando Raul Jiménez busca a mobilidade, as desmarcações nos corredores laterais. Consequência disso? Ora pensemos. O Boavista defendeu-se com duas linhas bem próximas uma da outra e colocou ao meio da segunda linha dois médios muito fortes na marcação, como são Idris e Tahar. Os movimentos laterais de Jiménez, compensados pelos laterais, não faziam dançar assim tanto a organização axadrezada e raramente redundavam na criação de espaço vital para Jonas. Mas os movimentos mais profundos de Mitroglou costumam obrigar a primeira linha defensiva adversária a compensar essa mesma profundidade, colocando a segunda linha perante uma dificuldade: ou baixava também ou mantinha a posição. Fizessem os médios do Boavista o que fizessem, a consequência seria sempre a mesma e redundaria em espaço para Jonas combinar com quem lhe aparecesse por perto à entrada da área.

Depois, quando tudo o resto falha, aparece outra caraterística de Jonas: a capacidade técnica. Num jogo em que raramente teve bola ou espaço para jogar, depois de uma noite em que se eclipsou, foi ele que, ao terceiro minuto de descontos, teve a frieza e a capacidade técnica para finalizar, de pé esquerdo, um passe de cabeça de Carcela. Não só a bola não vinha fácil, como a própria criação da situação de finalização dependeu, em primeira instância, da mente futebolística de Jonas, que adivinhou onde a bola ia cair e avançou para lá antes de Philipe Sampaio. Fez o golo, manteve o Benfica isolado na frente e lançou a euforia nas hostes benfiquistas. Jonas é o maior? Jonas não marca aos grandes? Tudo verdade. Mas mesmo assim está a ser o jogador mais decisivo deste campeonato.

In Diário de Notícias, 21.03.2016