Artigo 

2016-03-07
A vida de Bryan

Há um momento em “A vida de Brian”, a genial sátira à religião dos Monty Phytom, em que Graham Chapman, que passa a história a ser confundido com Jesus, vocifera: “Eu não sou o Messias! Podem por favor escutar-me? Eu não sou o Messias, compreendem? Honestamente!”. E logo uma rapariga na multidão clama: “Só o verdeiro Messias nega a Sua divindade”. Outro Bryan, este com y, o Ruiz, passou toda a época a ser confundido como a arma principal que inevitavelmente conduziria o Sporting ao título nacional de futebol, para em duas jornadas seguidas e decisivas, contra V. Guimarães e Benfica, falhar duas bolas de golo, de baliza aberta, já sem guarda-redes nem nada. Os dois falhanços fizeram a diferença entre os leões ficarem três pontos à frente do Benfica ou, como acontece neste momento, dois pontos atrás. E Rui Vitória, cujo apelido levou no início da época a tantas piadas sem a graça dos Phyton – “Tratem-me só por Rui, por favor!” – acabou por conseguir a vitória que mais interessava e que, a nove jornadas do fim da época, deixa o Benfica como principal favorito à conquista do título.

No fim do dérbi de sábado, Jorge Jesus deixou que a frustração lhe tomasse conta do espírito e diminuiu de forma muito exagerada o mérito do Benfica na vitória de Alvalade. Dizer que “o Benfica ganhou aqui sem saber como” ou que aquele foi o Benfica “mais fraco” dos que esta época defrontou o Sporting é um erro de apreciação inaceitável para quem tem a experiência do treinador leonino. O Benfica de sábado foi mais forte que aquele que se apresentou receoso na Supertaça, que o que se mostrou desorientado na partida da Luz ou que o que se revelou impotente no jogo da Taça de Portugal, que também abriu com um golo no primeiro remate à baliza. Foi um Benfica defensivo? Foi. Mas foi um Benfica que, enquanto o jogo esteve a zero, mandou no jogo e obteve alguma supremacia territorial, abdicando depois de atacar quando se viu em vantagem. Podia ter perdido? Claro que sim. Mas isso não invalida que este tenha sido, isso sim, sem qualquer dúvida, o Sporting “mais fraco” dos quatro dérbis da época. Podia mesmo assim ter ganho? Claro que sim. Bastava que a bola que Jefferson mandou à barra tivesse entrado e que Bryan Ruiz não tivesse sido traído pela relva (que fez subir a bola) e pelo seu excesso de confiança no momento de concluir aquele cruzamento que o deixou a um par de metros da baliza, sem guarda-redes pela frente.

Este não foi o Benfica mais fraco dos quatro dérbis. Foi o mais forte. Porque levou sempre o jogo para onde quis e quando quis. Porque, como é seu hábito – e isso é um elogio, não é uma crítica – foi uma equipa de golo fácil, que marcou na primeira vez que rematou. E porque, ao contrário do que aconteceu no jogo da Taça de Portugal em Alvalade, mesmo tendo abdicado da iniciativa quando se viu em vantagem, mesmo tendo baixado o bloco e colocado duas linhas à frente da sua área, mesmo tendo perdido o guarda-redes e um dos centrais titulares, não foi pisado pelos leões. Em contrapartida, o Sporting não mostrou a mesma capacidade para impor o seu jogo ofensivo aos encarnados. Porque nenhuma das três substituições feitas trouxe alguma coisa ao jogo. Porque há ali muita gente a render menos do que há uns meses: Slimani é disso o caso mais paradigmático, mas William (apesar da boa segunda parte, depois de 45 minutos muito fracos), Adrien ou o próprio Bruno César (que não tem o efeito no jogo que tinha Téo no Outono) também são bons exemplos. E francamente, com tanta poupança feita nas provas europeias, não se percebem as razões para a quebra de rendimento dos leões, sobretudo no plano ofensivo – três jogos a zero nos últimos cinco – levando a que as opções feitas na gestão do grupo e na sua recomposição no mercado de Janeiro devam ser avaliadas.

O campeonato não ficou resolvido, mas teve mudança de favorito. Ao ganhar em Alvalade, ficando na frente e tendo o calendário mais fácil até final, o Benfica passou a ser a aposta mais segura para a conquista do título. Enquanto o Sporting ainda tem de se deslocar ao Dragão e a Braga (terceiro e quarto classificados) e, mais atrás na classificação, além do jogo com os leões, o FC Porto tem também deslocações complicadas pela frente, a Setúbal, Paços de Ferreira ou Vila do Conde, o Benfica joga cinco vezes em casa e, nas saídas, só Marítimo e Rio Ave parecem poder tirar-lhe pontos. O Sporting manteve a vantagem no confronto direto e provavelmente até poderá fazê-la valer… se ganhar todos os seus jogos. Mas para isso, Jesus, precisa de fazer valer o palmarés, de provar que não é um qualquer Brian, a cantar “Always looking on the bright side of life” enquanto os seus objetivos se esfumam.