Artigo 

2016-02-29
Cristiano e a exigência

Cristiano Ronaldo não tem que saber de jornalismo e por isso até pode queixar-se do tratamento que os jornalistas espanhóis lhe têm dado. É verdade que ao CR7 lhe tem bastado aquilo que sabe de futebol, que é muito, sobretudo por ele ter a capacidade tão rara de o pôr em prática. Mas não tem havido muitas situações melhores do que esta para aplicar a velha máxima de Manuel Sérgio, segundo a qual “quem só sabe de futebol, nem de futebol sabe”. E, descontando o desconforto que mostrou com a exigência sempre nos píncaros com que os media espanhóis lhe sobrecarregam os ombros, Cristiano tinha a obrigação de saber mais do que a melhor forma de meter um remate cruzado ao ângulo. Tinha de saber que a exigência, que é algo fundamental em qualquer equipa que quer ser grande, tem locais para ser colocada. Os jornalistas colocam-na nos jornais, os jogadores de futebol nos balneários.

Primeiro, o jornalismo. Aqui há uns anos, quiseram convencer-me que o jornalismo desportivo era o palco do domínio inevitável do emocional sobre o racional. Nunca o aceitei. Em Espanha, contudo, é assim que o negócio está montado, até na forma como os jornais cavalgam o sucesso dos clubes que estão no mesmo lado do que eles e descobrem os podres aos que estão do outro lado. Quando Cristiano é bom, é o melhor; quando é menos bom – porque não me lembro de alguma vez o ter visto ser mau num campo de futebol – é o pior. Se aqui, à distância, qualquer um já se apercebeu disso, é evidente que Cristiano, que é quem há anos deve ter momentos de deleite narcísico a olhar para umas manchetes e outros de pura raiva a contemplar outras, não pode ter tido agora uma epifania. Percebo mal, por isso, que aquele que é um dos dois melhores jogadores do Mundo há várias épocas venha queixar-se da injustiça dos jornalistas espanhóis. São injustos? Claro que são injustos. Sempre o foram. Para o bem e para o mal, em toda a carreira de Cristiano Ronaldo, desde que ele chegou ao Real Madrid. São excessivamente bajuladores numas alturas e demasiado críticos noutras.

É normal, portanto, que perante o fracasso que está a ser a época do Real Madrid os media se virem para Cristiano Ronaldo. Ele segue com 34 golos em 33 jogos feitos esta época e por isso se sai com aquela frase que pretende ser deinitiva: “Olhem para as estatísticas!”. OK. Olhemos então para as estatísticas. Na época passada, Ronaldo seguia em finais de Fevereiro com 38 golos em 35 jogos, números que eram apenas ligeiramente melhores que os atuais. Mas só tinha ficado em branco onze vezes (31,4%), ao passo que este ano não marcou em 16 ocasiões (48,4%). E nessas o Real Madrid empatou seis e perdeu quatro. É a olhar para as estatísticas que se conclui que, se há uma época Cristiano não marcara golos num terço das partidas, esta época ficou a seco em metade. Claro que segue com uma média excelente, que qualquer clube daria tudo o que tem por um avançado que tem mais golos do que jogos, mas a verdade é que deixou de levantar sozinho a equipa quando esta se mostra incapaz de ganhar por outros meios. A culpa é dele? Claro que não. Nisso, tem razão Cristiano: a única culpa que ele tem aqui é a de ter feito ganhadora uma equipa que valeu sempre menos do que aquilo que parecia. E, agora, a de se ter expressado de forma inapropriada, ou pelo menos num local inapropriado, acerca dessa evidência.

Cristiano tem razão em ser exigente com os colegas. Tem essa obrigação, aliás. Mas tal como teve razão nas críticas à valia geral da seleção portuguesa antes do Mundial 2014 e escolheu mal o timing e sobretudo a forma de as expressar, voltou agora a cometer o mesmo erro. “Se todos estivessem ao meu nível seríamos primeiros”, disse, na zona mista após a frustrante derrota em casa com o Atlético. Mais uma evidência, que não precisava que o CR7 viesse depois fazer o esclarecimento que fez, alegando que se referia a “nível físico” e não a “qualidade” de jogo. Como? Deixando de parte o facto de ninguém se expressar assim, de ninguém dizer “se todos estivessem ao meu nível” em vez de “se todos estivessem aptos”, este é um discurso que Ronaldo pode ter em todos os locais menos à frente dos jornalistas. Pode dizer a Florentino que contratou um treinador que era um problema (Rafa Benítez) e que mais tarde ou mais cedo isto aconteceria. Ou que a pré-época foi catastrófica e redundou na quantidade absolutamente irreal de lesões, que tem mantido a equipa amputada de alguns dos seus melhores elementos. Pode dizer a Zidane que, de Kroos a James, com passagem por Danilo, Mayoral e Isco, houve muitos erros defensivos acumulados a contribuir para o golo com que Griezmann derrotou o Real Madrid. Mas quando escolhe dizê-lo na zona mista, o mínimo que pode ouvir é que está a abrir a porta de saída do clube. E não, isto não é uma perseguição.

In Diário de Notícias, 29.02.2016