Artigo 

2016-02-22
Penalti sim, penalti não

Alguns amigos, tanto de direita como de esquerda, têm comentado comigo a preocupação que lhes cresce na alma perante a possibilidade cada vez mais iminente de Donald Trump vir a ser presidente dos Estados Unidos. O que lhes digo sempre é que isso não me surpreende, porque o estado do Mundo é um convite à intolerância, ao radicalismo, ao soundbyte que deles se alimenta. E não é só na política. Fruto daquilo em que se transformaram os media, da amplificação da opinião do “idiota da aldeia” que trouxeram as redes sociais, o futebol português está cheio de radicais encartados, de gente cuja única missão é sobrepor as suas cores às de todos os outros, nem que para isso seja preciso atropelar todas as regras do bom-senso, da educação ou da ética. Um fim-de-semana como o que acaba de viver a Liga portuguesa, com penaltis polémicos e discutíveis, é o combustível destes Donald Trumps dos relvados, desta gente para quem mais importante do que ganhar ou perder é garantir que o rival teve ajudas.

Passei boa parte do fim-de-semana a responder a esta legião de radicais, a adeptos que repetem até à exaustão as mesmas expressões – “jornaleiro”, “cobarde”, “burro”, “faccioso”, “invertebrado”, “azia”, “tira as palas”, despe a camisola”, “se falas acabam-se os tachos”… – e que me acusam de ser sempre adepto ou de estar a ser pago por um clube que não o deles. Seja o deles qual for. Aliás, já me aconteceu ser acusado por leitores diferentes de estar ao serviço de cada um dos três grandes e contra cada um os três grandes por causa de um só texto. Na parte que me sobrou do fim-de-semana, achei que precisava de me reconciliar com a profissão e foi ver “Spotlight”, um excelente filme acerca de jornalismo como ele deve ser e que recomendo sem reservas a todos os talibans da bola nacional. Sei que as realidades não têm comparação, que uma coisa é falar-se de penaltis e outra denunciar o crime mais hediondo que possamos imaginar, que é o crime de pedofilia, mas acreditem que, com mais ou menos tempo – a investigação acerca da pedofilia na igreja em Boston levou meses de dedicação total e só foi denunciada com provas irrefutáveis – e com mais ou menos meios, os jornalistas são e querem ser sempre jornalistas. E, dentro da responsabilidade ética e moral da profissão, o que querem é revelar a verdade e denunciar quem a não respeita.

Simplesmente, se Trump acha que consegue resolver o problema da criminalidade nos Estados Unidos impedindo a entrada de imigrantes mexicanos, os radicais do futebol português acham sempre que o futebol seria uma limpeza se os jornalistas se comportassem como os comentadores engajados que aparecem nos programas de segunda-feira a gritar penalti sempre que é um jogador deles que cai e a assobiar para o ar quando quem se estatela é um dos rivais. Nunca escolhi, nem escolherei esse caminho. Porque não creio que a minha opinião em lances polémicos seja palavra de lei. Porque acredito no erro – e tenho visto os mesmos árbitros errar para todos os lados. Porque ainda estou para ver uma discussão acerca de arbitragem mantida no plano racional e de urbanidade no qual me reveja. E porque, francamente, muito mais interessante do que discutir penaltis é perceber que o Paços de Ferreira encontrou espaço para jogar entre as linhas do Benfica porque, desgastada, a equipa de Rui Vitória não foi tão compacta como costuma ser. Ou explicar que os problemas defensivos do FC Porto têm a ver com o deficiente controlo da profundidade defensiva ou com o espaço que a equipa deixa criar entre central e lateral quando o adversário cruza referências à sua frente.

Assim será até que, tal como em “Spotlight”, a história não seja ir atrás de um penalti, não seja dar a minha irrelevante opinião acerca de um lance, mas sim denunciar todo um sistema. Até perceber que há uma teia a manobrar para favorecer um clube – os do Benfica dizem que é o Sporting, os do Sporting dizem que é o Benfica, ambos concordam que há uns anos era o FC Porto e os do FC Porto dizem agora que quem é favorecido são os de Lisboa – vou continuar a ver e interpretar futebol sem me focar nos árbitros. Da mesma forma que os religiosos falam com Deus sem precisar da intermediação dos padres.

In Diário de Notícias, 22.02.2016