Artigo 

2016-02-15
A importância dos defesas centrais

Não há grandes equipas sem grandes defesas-centrais. Ou pelo menos é o que passamos a vida a ouvir dizer. Que o talento desequilibra mas nenhuma equipa ganha se não estiver construída em torno de um pilar que lhe dê estabilidade. É pensarmos nas grandes equipas da história, na enorme importância que tinham os jogadores encarregues de impedir o adversário de finalizar em boas condições. Todos têm duas coisas em comum: são super-valorizados pelos jornalistas que cobrem os acontecimentos e pelos treinadores que os comandam; e são depois esquecidos na atribuição dos prémios para os melhores jogadores do ano e apagados pela espuma dos anos que passam, que só eterniza o talento puro. Será que não são assim tão importantes?

Olhemos para o campeonato português e para os seus três candidatos ao título. Ao Sporting, diz-se desde o início, falta um defesa-central que seja ao mesmo tempo experiente, forte fisicamente e competente. O Benfica tinha Luisão, mas perdeu-o há meses e tem vivido tão bem sem ele que já deve haver quem se atreva a duvidar que a equipa beneficie assim tanto com o seu regresso. E ao FC Porto, também se comenta desde o Verão, tem faltado sempre um central à altura da qualidade do resto do plantel – com a agravante de à falta de qualidade se ter somado agora alguma falta de quantidade, fruto dos problemas com Maicon. Neste fim-de-semana, um fim-de-semana decisivo  na Liga, o Sporting estreou uma dupla de centrais nova – Coates e Ruben Semedo –, o Benfica fez confiança em Lindelof, que ainda nem tinha uma dezena de jogos na Liga e, sendo ribatejano, José Peseiro deu a alternativa a Chidozie. E, adivinhem: todos se saíram muito bem. Se calhar quem tem mais razão são mesmo os adeptos que, com o passar do tempo e o desfilar das fintas dos atacantes, se esquecem de quem era o defesa central naquele jogo fundamental que deu o título nacional de mil novecentos e qualquer coisa.

Coates, é bom que se diga, tem quase tudo para poder ser decisivo na ponta final da época do Sporting. É imponente, tem quase dois metros, o que pode valer-lhe uma importância acrescida nas bolas paradas. É experiente, fruto dos anos que passou na Premier League e tem ainda mais uma qualidade importante, que partilha com Lindelof, Ruben Semedo ou Chidozie: os adversários ainda não tiveram tempo para aprender as suas debilidades, de forma a poderem explorá-las a cada jogo. O novo tem aqui sempre uma atração irreprimível, que tem a ver com isso mesmo. É fácil dizer agora que Luisão já não tem a velocidade de outros tempos e que com Lisandro López e Jardel o Benfica pode jogar com as linhas mais próximas e subidas, com a chamada “equipa mais curta”. E isso não tem a ver só com a idade de Luisão ou com o facto de a sua mobilidade, mudança de velocidade ou de trajetória já não ser a de outros tempos. Tem a ver também – ou sobretudo – com o facto de já todos sabermos disso. Qual é o ponto fraco de Lindelof? Ou de Chidozie? Ou até de Coates, que apesar de ser mais consagrado (o homem é internacional uruguaio, caramba), também há-de tê-lo, ou então teria vingado na Premier League? A questão é que, para já, ninguém sabe identificá-los com clareza.

Estou seguro, no entanto, que os defesas-centrais vão desempenhar um papel primordial na luta pelo título. E todos os treinadores terão dilemas a enfrentar. No Sporting, acredito que Jesus já se tenha decidido pela titularidade do gigante uruguaio, precisamente por ser novo – e mais difícil de ler – e por poder vir a ser importante nos livres laterais e nos cantos. Mas quem, para jogar ao lado dele? Paulo Oliveira é o melhor de todos, mas teria de desviar-se para a meia-esquerda. Naldo não compromete, está habituado àquele quadrante, mas não tem o futuro e a qualidade de Oliveira. E até Ruben Semedo parece mais perto de ser opção que Ewerton. No Benfica, Rui Vitória encontrou a estabilidade em torno da dupla Jardel-Lisandro, dois centrais rápidos e por isso mesmo muito importantes da definição estratégica do onze, no posicionamento do bloco. Mas poderá Luisão exercer a liderança de que o plantel necessita de fora quando, daqui por um mês, mês e meio, estiver apto a regressar? Por fim, no FC Porto, Peseiro tem em Martins-Indi o potencialmente melhor mas ao mesmo tempo mais inconstante dos seus centrais, e em Marcano o mais apagado mas ao mesmo tempo mais fiável. Com Maicon fora do baralho, haverá espaço para Chidozie se mostrar mais vezes e até vir a ser importante. Pelo menos até lhe aprenderem as debilidades.

In Diário de Notícias, 15.02.2016