Artigo 

2016-02-08
O nascimento de uma equipa

O Benfica soma golos em cima de golos e Rui Vitória começa a convencer aqueles que dele tanto duvidavam. As reações têm sido múltiplas, entre os que dizem que os verdadeiros testes vão chegar agora, os que atribuem a melhoria à capacidade individual e à criatividade de três ou quatro jogadores muito acima da média e os que dizem que há muto trabalho do treinador na forma como a equipa subiu de rendimento. Todos têm razão. Porque este Benfica não descolou enquanto Rui Vitória não largou o ideário dos últimos anos e isso levou tempo, mas nunca conseguiria fazê-lo sem a capacidade individual dos seus melhores jogadores e, sim, faltam os testes a sério. Porque se já se sabe que este Benfica é capaz de ser muito forte com os mais fracos, ainda não se percebeu se sabe ser igualmente forte com aqueles que estão ao seu nível.

Aquilo que se vê neste momento do Benfica é um futebol ofensivo avassalador, muito por culpa da criatividade e da tomada de decisão de Jonas, Gaitán e Pizzi, da presença na área que é assegurada por Mitroglou, das acelerações dadas ao jogo por Carcela e da dinâmica imprimida no transporte de bola por Renato Sanches. Tudo individualidades, ainda que, com exceção de Carcela e Sanches, que eram preteridos em favor de Gonçalo Guedes e da acumulação de Samaris com Fejsa, todos lá estivessem no penoso início de época em que o Benfica perdia tanto como ganhava. Ora é aí que entra o trabalho do treinador. Porque este Benfica comporta-se agora de forma muito diferente do que fazia nesse início de época. O Benfica de agora joga muito mais curto, com linhas mais próximas e sem a obsessão pela largura que revelava há uns meses, dessa forma favorecendo as coberturas e aumentando a possibilidade de tabelas. E ainda que o comportamento de Renato Sanches, que é ofensivamente tão vistoso, deixe muito a desejar quando a equipa perde a bola – seja porque está geralmente fora do sítio em transição defensiva ou porque ainda percebe mal as necessidades da equipa em organização defensiva – torna a equipa muito menos vulnerável aos ataques lançados pelos adversários.

Por que é que isto levou tanto tempo a engendrar? Difícil responder. Mas aquilo que o Benfica vem fazendo permite ter teorias. Primeira de todas: as equipas levam tempo a construir. É que o maior problema do Benfica era, simultaneamente, a sua maior vantagem: a herança de seis anos de trabalho com Jesus. Na Supertaça, contra o Sporting, Jesus jogou bem mentalmente e, com o que disse, obrigou Vitória a abdicar dos suportes dessa herança, obrigou-o a mudar quando ainda era demasiado cedo para o fazer. Mas Vitória, que teve uma pré-época catastrófica por força daquilo que o Benfica quis lucrar na digressão à América do Norte, também terá evoluído na sua forma de pensar. O que se viu no dérbi com o Sporting, na Luz, nesses 0-3 de que o Benfica saiu tão diminuído, foi uma equipa com ideias desajustadas ou pelo menos impraticáveis contra adversários do mesmo nível: largura total, muitos passes laterais a atravessar o corredor central sem cobertura defensiva, convidando o adversário à interceção e à transição. O Benfica de hoje já não é isso. Joga com linhas mais próximas e favorece a diagonal dos alas para o corredor central, onde funcionam como ponto de apoio para progressões trianguladas mais seguras. Trocou a largura e a vertigem por uma posse com cabeça.

Chegará para ganhar ao FC Porto e inflar ainda mais o balão da expectativa benfiquista? Essa é a grande dúvida da semana que vai entrar. Porque, por exemplo, no jogo da Taça de Portugal em Alvalade, o novo Benfica não foi capaz de se impor a um adversário do mesmo nível, nem mesmo beneficiando de um golo a frio que podia ter encaminhado o jogo para um desfecho completamente diferente. A favor dos encarnados está o facto de também o FC Porto de Peseiro ser uma equipa em mudança de processos e por isso a precisar do tal tempo de que precisou o Benfica de Vitória. Ou o facto de o Zenit de André Villas-Boas estar a regressar das férias de Inverno e ainda sem o ritmo competitivo de que precisaria para dar uma resposta à altura. Certo é que a próxima semana e meia definirá muito do que vai ser esta época para o Benfica.

In Diário de Notícias, 08.02.2016