Artigo 

2016-02-01
Deitar o líder no divã

Há um mistério por resolver acerca da equipa do Sporting. Como é que os leões passam tão bem pelas melhores equipas da Liga e tremem contra as mais pequenas? Como é que arrumaram por três vezes o Benfica, entre Supertaça, Liga e Taça de Portugal, ganharam sem espinhas ao FC Porto, golearam em Setúbal, mas depois já deixaram dois pontos ao Boavista, outros dois ao Tondela e três ao U. Madeira? Como é que vão ganhar sem problemas a Paços de Ferreira, mas sofrem tanto no jogo em casa com a Académica, que só conseguem vencer nos últimos dez minutos? A necessidade de uma explicação pediria que se deitasse a equipa no divã para uma sessão de psicanálise, mas é claramente do domínio do emocional, porque as rotinas e a qualidade dos jogadores continuam lá e teriam até mais razões para aparecer nos jogos em que os adversários são mais fracos.

Quem chegasse agora a Portugal e visse, por um lado, que o Benfica vai com dez vitórias seguidas, a maioria delas com clareza, que o FC Porto acaba de mudar de treinador e que o Sporting vem de um empate a dois golos e duas vitórias sofridas por 3-2 nos três últimos jogos em Alvalade teria alguma dificuldade em olhar para os leões como mais fortes candidatos ao título ou em explicar que eles sigam isolados na frente da tabela. Mas se depois lhe dissessem que a equipa de Jorge Jesus ganhou todos os jogos grandes em que entrou – e já defrontou três vezes o Benfica e uma o FC Porto –, se calhar esse observador já pensaria outra coisa. E tentaria explicar esta dualidade sem recorrer à justificação mais primária, que é sempre a que fala das arbitragens como fator determinante. Ora, aí chegados, há duas explicações possíveis: ou falta de foco ou excesso de confiança. Apesar de todos os sinais aduzidos em sentido contrário, ainda me inclino mais para a segunda.

Se, como pretendem alguns analistas, a quebra recente do Sporting na Liga, não tanto expressa em pontos mas sobretudo na dificuldade para ganhar jogos em casa, tivesse mais a ver com o excesso de ruído criado à volta da equipa, dessa forma desfocando os jogadores, os leões não teriam sido capazes de ganhar com clareza em Setúbal ou em Paços de Ferreira. É claro que o que se passa durante a semana, que o clima de constante conflitualidade fomentado acima do balneário, tem efeito naquilo que a equipa vai rendendo – por exemplo, contra a Académica viu-se um Slimani menos imponente fisicamente, como que tolhido pelo que se tem vindo a dizer da sua forma de atuar – mas se fosse esse o problema a equipa teria muito mais razões para falhar nos jogos difíceis. Porque o ruído já não é novidade de agora e porque as pontuações das equipas de Jesus sempre se fizeram à conta de uma regularidade impressionante nos jogos em casa contra adversários mais fracos.

Por isso me inclino mais para a outra explicação, a explicação que tem a ver com a falta de foco seletiva, apenas em alguns jogos, sobretudo aqueles que se afiguram mais fáceis. Excesso de confiança, portanto. O modo como os leões deram golos de avanço contra o Sp. Braga (0-2 ao intervalo), mas sobretudo contra o Tondela e a Académica, que também marcaram primeiro em Alvalade, tem todos os sintomas do adormecimento coletivo de uma equipa que se viu na frente da Liga e com mais jogos em casa por fazer do que os adversários e que por isso se terá deixado contagiar pelo otimismo permanente do seu treinador acerca das suas próprias capacidades. Se Jesus é capaz de dizer à Marca que o grande problema de Lopetegui em Portugal foi ele próprio, não admira que a equipa, sobretudo uma equipa menos experiente no ataque aos títulos, também entre nos jogos mais fáceis a julgar que não precisa de pôr o pé a fundo para os ganhar. Mas a questão é que precisa. E agora mais do que nunca, porque Benfica e FC Porto vão defrontar-se daqui a duas jornadas e bastará ao Sporting manter a cadência para se afastar em breve pelo menos de um dos perseguidores.

In Diário de Notícias, 01.02.2016