Artigo 

2015-09-06
Uma proposta tática para a seleção nacional

Cristiano Ronaldo já fez 30 anos, está perto de apanhar Figo como jogador mais internacional de sempre por Portugal e, no entanto, a discussão acerca da forma como pode ser mais útil à seleção nacional ou de como esta se deve organizar para tirar o máximo proveito das suas características continua bem viva. Fernando Santos tem tido o mérito de procurar uma solução para os problemas que o Mundial’2014 deixou à vista, mas esta tarda em aparecer. Deixo uma proposta, que resumidamente passa pelo seguinte: uma seleção em 4x4x2, com Ronaldo no papel de segundo avançado, meio-campo em losango mas linhas bem mais avançadas do que vem sendo hábito.

Como em Portugal gostamos muito de discutir a parte gregária, a discussão tem muitas vezes caído num estéril “não é a equipa que tem de adaptar-se a Ronaldo, mas deve ser este a adaptar-se à equipa”. Nada de mais errado. Ronaldo tem de fazer sempre aquilo que faz dele um dos dois melhores do Mundo e Portugal tem tudo a ganhar em aproveitar os momentos em que ele o faz e tudo a perder em esgotá-lo em tarefas que lhe diminuem a capacidade de o fazer. Pedir a Ronaldo que se adapte à equipa seria o mesmo que pedir a Picasso que pintasse umas cercas em vez de colocar a sua genialidade na tela. Uma perda de tempo.

Parece-me claro que cabe ao selecionador encontrar a melhor forma de explorar Ronaldo e construir uma equipa em torno dele. Ora, na seleção, Ronaldo já foi extremo puro, quando ainda não era a máquina goleadora que é hoje. Depois, com Queiroz, foi ponta-de-lança único do 4x3x3, o que ajudou a secar a sua fonte de golos e transformou a seleção numa equipa de cariz defensivo, a apostar sobretudo no contra-ataque. Com Bento passou a ser ala esquerdo constantemente a cair no corredor central, em diagonais que lhe recuperaram a veia goleadora mas criaram à equipa problemas de equilíbrio defensivo que esta nunca soube resolver – o flanco esquerdo estava sempre sujeito a situações de inferioridade numérica do lateral contra dois adversários. Com Santos, Ronaldo tem tido a liberdade para fazer o que lhe apetece, é uma espécie de elemento em função do qual toda a manobra atacante se organiza. Ou melhor: em função da qual toda a manobra atacante devia organizar-se, por que falta encontrar essa organização que faça da equipa um coletivo.

De que precisa Cristiano Ronaldo na seleção? Precisa que lhe deem liberdade para aparecer onde adivinha que pode criar perigo, onde descobre espaço para uma aceleração ou para um remate. E precisa de apanhar a bola o mais perto do último terço do campo possível, para não ter de enfrentar sprints de mais de 50 metros em cada transição ofensiva. Em contrapartida, de que precisa a equipa para evitar problemas nascidos da utilização de Ronaldo? Precisa que essa liberdade não cause desequilíbrios defensivos (como acontecia com Paulo Bento) nem ofensivos (como acontece com Santos, com quem a equipa não preenche sempre os três corredores a atacar). E precisa que o desejo de poupar o CR7 a tarefas defensivas não condicione o comportamento global nem em transição nem em organização defensivas (e isso também tem acontecido, pois Portugal transformou-se numa equipa que não pressiona de todo a saída de bola dos adversários).

A resposta, parece-me, tem de ser o 4x4x2 com meio-campo em losango: um sistema que Fernando Santos conhece bem, pois jogou com ele no Sporting e no Benfica. E um sistema que o atual selecionador foi testando até ao jogo com a Itália (em que Ronaldo não esteve), ainda que com nuances que me parecem funcionar como contra-indicações. Este é o momento em que surgem os protestos. Mas como pode Portugal, que tem o melhor extremo do Mundo, jogar num sistema que anula os extremos? Ora não só pode como deve. Porque há muito tempo que Ronaldo não é extremo. Há muito tempo que deixou de funcionar como tal.

Até ao jogo com a Itália, o Portugal de Fernando Santos jogava num misto de 4x4x2 losango com 4x3x3. Os dois homens mais avançados eram os alas (Nani e Ronaldo), sendo que o ponta-de-lança (Danny) baixava muito no campo para funcionar como quarto médio. Ora esta organização apresentava vários problemas, o maior dos quais era a falta de pressão na saída de bola do adversário, que obrigava a equipa nacional a baixar muito as linhas, dessa forma diminuindo a ameaça Ronaldo em momentos de transição ofensiva – se a equipa estava tão baixa no campo, a bola chegava a Ronaldo com mais de meio-campo para percorrer.

O 4x4x2 que faz falta a esta seleção é um 4x4x2 em que Ronaldo surge como avançado livre, a aparecer por onde acha que deve aparecer. Isto é: Ronaldo deve fazer mais ou menos o que fez contra a França, mas a equipa deve aprender a funcionar com aquele Ronaldo. Daí que esta tenha de dar o que faltou nesse jogo, em que o ataque era tão móvel que muitas vezes surgiam dois jogadores no mesmo corredor e depois o resto do campo ficava entregue a um só, com a inevitável falta de presença na área que não seria a chegada de um médio a resolver, sobretudo se estes partem tão de trás, condicionados pela vontade de jogar tão recuado como jogou a equipa nacional em Alvalade.

Assim sendo, pensando numa ideia de jogo e de equipa, o que falta para complementar o futebol de Ronaldo?

Falta, primeiro um ponta-de-lança que dê à equipa aquilo que Ronaldo não é capaz de dar ou não deve dar por razões estratégicas. E aquilo que Ronaldo deixa de dar não são golos – esses, ele marca-os aos magotes. O que Ronaldo não dá é uma presença mais fixa no centro do ataque, para fixar os defesas-centrais adversários. O que Ronaldo não dá e que, por isso mesmo, a equipa tanto precisa, é pressão sobre a saída de bola do adversário, de forma a que a equipa não tenha que recuar toda para um bloco médio-baixo que lhe condicione depois todo o jogo. A equipa precisa de um ponta-de-lança que fixe os centrais, de modo a dar espaço às arrancadas do CR7, que funcione como apoio nas tabelas que ele queira fazer, e que pressione defensivamente. Nem precisa de fazer muitos golos, que para isso está lá Ronaldo. Existe esse jogador? Não tenho a certeza, mas encontrá-lo devia ser a prioridade máxima do selecionador neste momento.

Se chegamos ao meio-campo, este precisa de ser mais compacto, de estar mais perto dos atacantes. Nos momentos defensivos, tem de bascular para o lado da bola, para combater a falta de largura, e ao mesmo tempo de ser agressivo, para evitar as variações de flanco que o deixem exposto. Ofensivamente tem de chegar mais à frente, com tarefas bem definidas. Tem de ter um pivot defensivo que assuma o jogo e seja capaz de sair a jogar e dois médios interiores que tragam intensidade e, à vez, chegada à área ou jogo de corredor. Com exceção de Quaresma, que teria de funcionar como duplo de Ronaldo, ou de Varela, que seria a solução para mudar o esquema quando isso fosse necessário, todos os jogadores que Portugal tem usado como extremos podem funcionar neste papel. Por fim tem de ter um vértice mais adiantado capaz de compensar Ronaldo, de aparecer como terceiro atacante se for caso disso e de emprestar criatividade no último terço.

Este meio-campo não será um problema, pois há em Portugal talento suficiente para o compor duas ou três vezes. Quem tem William, Danilo, Veloso, Moutinho, Adrien, Tiago, André André, João Mário, André Gomes, Nani, Danny ou Bernardo Silva não tem de ter medo deste desafio.

Falta acrescentar dois laterais com pulmão para todo o corredor (Vieirinha ou Cédric à direita, Coentrão, com Guerreiro e Eliseu como alternativas à esquerda), de forma a compensar a propensão mais interior dos médios, e dois centrais que têm de ser rápidos (Pepe, Ricardo Carvalho e Paulo Oliveira, mais que José Fonte ou Bruno Alves), para poderem responder à necessidade de jogar subidos no terreno. Porque Portugal não tem de ser uma equipa de contra-ataque ou que tente explorar apenas os momentos de transição ofensiva. Aliás, para tirar partido de Ronaldo, não deve sê-lo. Da mesma forma que o Real Madrid não o tem sido nos últimos anos.