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Último Passe

Benfica e Sporting deixaram dois pontos pelo caminho face a adversários menos apetrechados, mas fizeram-no por razões diferentes. Os encarnados porque entraram no jogo com o Boavista iludidos com a sucessão de vitórias que transportavam no histórico recente, a ponto de Rui Vitória ter sentido a necessidade de dizer no final que “esta não é uma equipa invencível”; os leões porque mesmo em esforço total e espicaçados pelo tropeção do rival foram curtos para se imporem a um Chaves aguerrido e organizado, porque de facto é como diz Jesus e ali é “sempre o mesmo a marcar os golos”. Quem esteve na Luz pode preferir optar por destacar a recuperação épica do tricampeão nacional, que esteve a perder por 3-0 e ainda salvou um ponto, mas sendo verdade que o volume de jogo ofensivo da equipa encarnada depois de reduzir para 1-3 foi impressionante, não durou sempre e a seguir aos 3-3, já conseguidos em fase de perda, o Boavista até teve a capacidade para criar duas ocasiões de golo claras. A história do jogo está refletida na frase que Rui Vitória disse no final: esta equipa “não é invencível”. Porque a ideia que deu de início, sem rigor nem agressividade atrás foi a de se julgar invencível, como se as camisolas chegassem para ganhar. A ajudar à festa, entrar com Jonas e Gonçalo Guedes na frente roubou-lhe presença na área e uma referência de que o seu jogo precisava para lá chegar em tabelas. Com a entrada de Mitroglou e, ao intervalo, de Cervi para começar a atacar desde a posição de defesa-esquerdo, o Benfica construiu o cenário de que precisava para a tal recuperação. Chegou aos 3-3, mas aí, com mais de 20 minutos por jogar, parou. Falta de pulmão, acerto tático de Miguel Leal com a entrada de Mesquita ou simplesmente a ideia de que esta “equipa não é invencível” e de vez em quando aparecerão adversários capazes de lhe colocar dificuldades, como fez o Boavista com o seu jogo de corredor a corredor. Diferente é a problemática do Sporting. E a frase sintomática, Jesus disse-a na semana passada, depois de ganhar ao Feirense. “Não é normal nas minhas equipas que seja sempre o mesmo a fazer os golos”. Em Chaves, o mesmo fez o seu papel. Bas Dost respondeu com dois golos de oportunidade a um início desconcentrado que permitiu aos transmontanos adiantar-se no marcador. O Sporting até respondeu bem à desvantagem, sempre sem brilhar, é verdade, sem o jogo envolvente que praticava na época passada, mas assumindo a iniciativa do jogo e impedindo o Chaves de criar perigo. Teria chegado, não fosse mais uma vez o descontrolo das emoções em que esta equipa é pródiga: expulsão de Ruben Semedo, necessidade de sacrificar Dost para fazer entrar Paulo Oliveira e um golão de Fábio Martins a dois minutos no fim. O golo do empate do Chaves foi um pouco como a recuperação do Benfica: fez-se anunciar a todos os sentidos antes de se deixar ver por quem estava no estádio. E é destas fatalidades que se faz a história dos campeonatos.
2017-01-14
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O que espanta na forma fácil como o Benfica voltou a vencer o Vitória em Guimarães no Minho e se qualificou para a Final Four da Taça da Liga não é tanto o facto de Rui Vitória ter trocado oito jogadores na equipa inicial, porque também Pedro Martins apresentou uma equipa alternativa na repetição do jogo de sábado. O que espanta mais é a forma diferente como o Benfica jogou: apresentou como denominador comum a velocidade nos momentos ofensivos, mas trocou desta vez a dupla Jonas-Mitroglou por outra, muito mais móvel, com Rafa e Gonçalo Guedes. O que vale, ali, é a ideia. Claro que o sistema continuou a ser o 4x4x2. Mas os jogadores que o serviam hoje eram muito diferentes. Carrillo não é Salvio, Zivkovic até se aproxima do jogo de Cervi, mas sobretudo nem Rafa nem Gonçalo Guedes são jogadores de presença constante na área como é Mitroglou. E se Guedes ainda tem um histórico recente a ocupar as zonas prediletas de Jonas – mesmo que de forma radicalmente diferente, com mais dinâmica, mas muito menos intuição e capacidade de antecipação dos acontecimentos – foi Rafa quem surgiu no apoio. E até aí o Benfica mudou, pois foi quase sempre o segundo avançado a procurar a profundidade, tendo Guedes recolhido para, por exemplo, marcar os dois golos. Tudo diferente, a dificultar o processo defensivo do Vitória, pela imprevisibilidade, mas também a tornar mais difícil de prever a capacidade de resposta dos jogadores. Na Final Four da Taça da Liga, onde já não há FC Porto nem Sporting, com um sorteio favorável na Taça de Portugal e seis pontos de avanço na Liga, este Benfica continua a perseguir um póquer histórico – começou a época a ganhar a Supertaça. E isso tanto pode ser um aspeto de que Rui Vitória venha a servir-se para motivar os jogadores como um fator descompressor, que permita ao plantel meter um maior foco na competição internacional. Mesmo com todos os perigos que isso encerra, uma equipa com esta capacidade de se transfigurar pode ter a tentação de ir por aí. Essa é a grande decisão a tomar nos tempos mais próximos.
2017-01-10
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A consagração de Cristiano Ronaldo na Gala da FIFA, destinada a premiar o melhor jogador do Mundo em 2016, fez mais que confirmar uma supremacia do português sobre Messi no último ano, que a conquista da Bola de Ouro do France-Football, em Dezembro, já tinha antevisto. Em 2016, Cristiano não se limitou a reduzir o score, que ainda é favorável a Messi, por 5-4. Cristiano conquistou o terceiro troféu de melhor do Mundo nos últimos quatro anos, deixando bem evidente que, apesar de ser mais velho que o argentino, é ele quem está a envelhecer melhor. Apesar de jogar um futebol mais físico. Tendo em conta que os últimos nove anos só viram estes dois vencedores e que Ronaldo até chegou lá primeiro, sendo depois arrasado por quatro troféus consecutivos de Messi, esta retoma é mais do que parece. Argumentarão de um lado que as conquistas de CR7 se devem a momentos físicos menos conseguidos do argentino, mas isso não é forma de menorizar aquilo que Cristiano tem conseguido. Pelo contrário. Também ele tem tido lesões, mas a forma como trabalha permite-lhe superá-las, o seu espírito de sacrifício chega para que jogue e renda mesmo diminuído. E, ainda que a ausência de todo o grupo do Barcelona na gala de hoje não seja vista com o mesmo olhar crítico de que se revestiram as reações às faltas de Ronaldo e Mourinho na cerimónia de há cinco anos (quando as razões são as mesmas), o célebre “mau feitio” do português não o impede de fazer balneário e assegurar que as suas equipas ganham sem ele em campo – veja-se, a título de exemplo, o que se passou na final do Europeu. Sacrificado na gala foi Fernando Santos, cuja vitória com Portugal no Europeu teve muito de treinador, não só na estratégia que foi desenhando para cada jogo como ainda (e sobretudo) na forma como foi capaz de unir os 23 jogadores convocados em torno de um ideal, em tempo de extremismo faccioso no país. Fernando Santos acabou por ser apenas terceiro na votação para os treinadores, mas até isso pode ser compreendido. É que Zidane ganhou a Liga dos Campeões e o Mundial de Clubes depois de ter pegado nos cacos que Rafa Benítez deixara no Real Madrid. E Ranieri protagonizou apenas a maior surpresa do século no futebol mundial. Dir-me-ão que Ranieri não tem uma ideia, que não é treinador para estes palcos, que é muito mais o homem despedido da Grécia do que o campeão com o Leicester e eu até concordo. Mas aquilo que o homem fez com o Leicester merece ser assinalado.
2017-01-09
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Bas Dost bisou e já segue na frente da lista de goleadores do campeonato, Alan Ruiz mostrou durante 45 minutos poder ser o segundo avançado de que Jorge Jesus precisa, Campbell voltou a parecer aposta ganha na esquerda, mas nem assim o Sporting foi capaz de passar um domingo sem sofrimento na receção ao modesto Feirense. Após uma excelente primeira parte, a redução de intensidade e concentração no segundo tempo permitiu aos visitantes reduzir para 2-1 e reentrar no jogo a ponto de ameaçar empatar, servindo de metáfora para aquilo que tem sido a época dos leões: se estão a oito pontos da liderança devem-no também a defeitos próprios, que anulam parte do que de bom a equipa vai fazendo a cada jogo. Uma equipa que tem um avançado letal como Bas Dost tem de fazer mais golos. E se não encontrou ainda um segundo ponta-de-lança capaz de o acompanhar, não deve abdicar das boas sensações que alguns candidatos ao lugar lhe vão dando quando por ali passam. Alan Ruiz voltou ontem de umas férias de Natal excessivamente prolongadas e mostrou condições para o lugar que já não se viam na equipa desde que, de outra forma, ali jogou Campbell, no Bessa. Mas entretanto por lá tem passado muita gente, não se dando continuidade a ninguém: e se ainda se compreende o desvio de Campbell para a esquerda, onde tem sido aposta ganha, pela forma como cria situações de superioridade e conduz a equipa à finalização, já é mais difícil de perceber que pelo meio tenham entretanto passado o próprio Alan Ruiz (na Luz), Bryan Ruiz (quase sempre), Castaignos, Markovic e Bruno César. Até final da época, o Sporting terá, na melhor das hipóteses, 22 jogos – quatro na Taça de Portugal e 18 no campeonato. Já se vê que não há grande necessidade de Jesus andar a mudar muita coisa, até porque só uma campanha muito próximo dos 100 por cento de sucesso poderá dar-lhe as tais razões para festejar em Maio de que falava o presidente antes do desaire de Setúbal. E se a lesão de Adrien não é tão preocupante como chegou a temer-se, permitindo ao capitão ficar no onze e aos leões manter o foco defensivo, esses 100 por cento de sucesso dependerão muito da capacidade de Jesus para acertar nos outros dez jogadores. Com especial atenção para o defesa-esquerdo – Bruno César está no golo do Feirense – e o segundo avançado. Estranho será que em Chaves não jogue Alan Ruiz.
2017-01-08
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Quando Pep Guardiola disse que a organização defensiva do Benfica era “digna de uma equipa de Arrigo Sacchi” não tinha visto a forma como os encarnados ganharam em Guimarães, superando um dos obstáculos mais complicados no caminho que pretendem seja o do inédito tetracampeonato. Mais uma vez a equipa de Rui Vitória marcou primeiro e pôde depois sentar-se no cadeirão a gerir a vantagem, conseguindo a proeza rara para um grande de ter sempre mais espaço no ataque do que o adversário – algo que teria dado muito jeito ao FC Porto em Paços de Ferreira, onde não foi além de um empate a zero. Quando um clube grande joga, o normal é ter pela frente equipas fechadas. Isso não acontece tantas vezes com o Benfica e leva muitas vezes os adeptos a insinuar que estes adversários se abrem quando defrontam os tricampeões. Mas não é assim. É que com o Benfica, há dois fatores-extra a ter em conta. Primeiro, o comportamento da equipa nas transições: agressividade na transição defensiva, que permite recuperar a bola mais vezes, mais cedo e mais perto da área adversária; e velocidade na transição ofensiva, levando-a a uma percentagem maior de ataques rápidos e contra-ataques do que os outros grandes, forçados a cair mais vezes em organização ofensiva e a defrontar defesas mais bem posicionadas e organizadas. Neste aspeto, o futebol do Benfica é menos trabalhado no ataque posicional que o do Sporting ou do FC Porto – vale-lhe o facto de fazer por que isso quase nunca lhe faça falta. Depois, os níveis de eficácia na finalização benfiquista permitem que a equipa se coloque quase sempre em vantagem antes de o adversário poder marcar e dão-lhe a oportunidade de fazer o jogo de que gosta. Não é um jogo defensivo, mas é um jogo defensivamente competente, com um posicionamento impecável em organização defensiva, onde se vêem as tais duas linhas bem juntas, entre as quais Guardiola dizia que não cabia sequer “um cabelo”. Não será bem assim, sobretudo quando ali falta Fejsa. Ter Samaris não é a mesma coisa, pela forma como o grego não é capaz de antecipar as ideias do adversário para equilibrar. Em Guimarães, mesmo sem Fejsa durante quase todo o jogo, o Benfica manteve as redes de Ederson a zeros, mas esse já não foi tanto um triunfo da organização como foi da ocasião.
2017-01-07
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O país futebolístico anda entretido com a Taça da Liga e a ideia generalizada é a de que os espetáculos não têm sido condizentes com a quadra festiva que se vive. Acumulam-se os resultados mínimos, em jogos tardios, com o frio e a falta de interesse competitivo a levar a que se registem médias consideravelmente mais baixas de espectadores para todos os clubes. A Liga, que até tem feito muito pela credibilização desta prova, não fez ainda o suficiente. Nem sequer o que podia. E não falo sequer da atribuição de uma vaga na Liga Europa para aquele a que agora quem manda no futebol quer chamar campeão de Inverno.Quem é que não inveja o boxing day inglês, aquela jornada de dia 26 de Dezembro, à tarde, com estádios cheios de famílias e a competitividade ao máximo? Ou aquilo que se fazia na Escócia até há poucos anos, com o Old Firm (Celtic-Rangers) sempre marcado para o dia de Ano Novo? No fundo, o que os britânicos fazem há muito tempo é uma coisa muito simples: juntam a predisposição do público para assistir ao espetáculo com a realização de jogos apaixonantes. Aqui, se é verdade que já se acabou com essa ideia peregrina de interromper a competição por duas ou três semanas por alturas do Natal e do Ano Novo, que é quando as famílias têm mais dinheiro e tempo livre, depois enche-se o calendário desta época festiva com jogos muitas vezes vazios de sentido, porque são organizados com a intenção firme de ter os grandes no “final four” e fingir que se joga uma competição justa até lá chegarmos. João Eusébio, treinador do Varzim, lamentou após a derrota em Alvalade o facto de ter de jogar duas vezes fora e apenas uma em casa, mais uma desvantagem competitiva a juntar ao facto de liderar uma equipa de um escalão inferior, apenas para concluir de forma até muito compreensiva que “o futebol é cada vez mais um negócio”. A questão é que é um negócio que não sabe defender-se em boas condições.Percebo bem a ideia por trás do raciocínio de Eusébio: o negócio precisa de ter tantos grandes clubes quanto for possível no “final four” para tornar o evento atrativo para a TV ou para os compradores de bilhetes. Mas o negócio defender-se-ia muito melhor com mais competitividade. E se olharmos para o futebol como um todo, o negócio defender-se-ia melhor se a Taça da Liga, a terceira das provas nacionais em termos de relevância, aparecesse numa altura em que o público tem mais fome de bola. No início da época, por exemplo, em vez de atafulhar esta altura de Natal, na qual seria muito mais cativante dar aos potenciais interessados jornadas competitivas, sim, mas do campeonato nacional, onde cada clube mete sempre mais gente nos estádios. Se os treinos abertos de Natal são um sucesso, por que razão não se explora melhor esta época com jornadas diurnas, eventualmente até com os derbis regionais? É por isso que continuo a considerar a Taça da Liga como a melhor ideia desaproveitada dos últimos anos do futebol português. Já no ano de inauguração me parecia que a melhor altura para a jogar seria o início de época, a altura em que a fome de bola dos adeptos é tão grande que até um Sporting-Varzim, um FC Porto-Feirense ou um Benfica-Vizela são pratos apetecíveis. Depois, toda a prova se revela injusta, na forma como os grandes são poupados à primeira fase e fazem dois jogos em três nos seus estádios: uma competição justa começaria com a fase de grupos entre todos os participantes e, no final do Verão, com os grandes a jogar fora, nos campos das equipas de II Liga, fazendo uma espécie de “tournée” pelo país real. Até me parece evidente que, na maioria das vezes, os grandes acabariam na mesma por satisfazer quem se preocupa apenas com os nomes dos participantes na decisão final, sobretudo se jogassem as fases a eliminar numa altura da época em que ainda não estão fatigados pela dureza da época que já vai longa. E nesta altura estaríamos todos a deliciar-nos com uma jornada diurna cheia de derbis. Com os estádios cheios e com as famílias felizes a ver futebol em vez de andarem a vaguear pelos centros comerciais. Não tem de ser assim apenas no estrangeiro.
2017-01-01
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A imagem de Cristiano Ronaldo de pé junto à linha lateral, ao lado de Fernando Santos, ambos a gritar instruções para dentro do campo, na final do Europeu, era uma espécie de prenúncio da presença de ambos na gala da FIFA, como candidatos a vencedores dos prémios de melhor jogador e treinador de 2016. Os méritos de cada um para lá chegar são, contudo, muito diferentes.A presença de Ronaldo a este nível é habitual e é seguro dizer que ele lá estaria na mesma se Portugal não tivesse ganho a final contra a França. A vitória nesse jogo, mesmo tendo em conta que, lesionado desde cedo, nesse dia ele pouco contribuiu em campo, será o empurrão final para que o português possa somar mais um título de melhor do Mundo à Bola de Ouro da France-Football, mantendo acesa a disputa com Messi para definir qual dos dois extra-terrestres é mais alienígena. O que Ronaldo ganhou nesse dia afasta-o do argentino num particular: mesmo jogando numa seleção potencialmente mais fraca, já a conduziu a um título internacional, coisa que Leo ainda não fez com a bem mais poderosa Argentina.A reeleição de Ronaldo como melhor do ano, porém, não se esgota ali. É feita dos números mais uma vez impressionantes de golos, da vitória na final da Liga dos Campeões com o Real Madrid e também, porque isso revelou uma dimensão diferente do craque, do que mostrou ao nível da liderança na fase final do Europeu. O incidente do microfone, no qual se viu um Ronaldo irado com críticas e a virar a ira para o lado menos produtivo – para os jornalistas – marcará uma diferença entre o Ronaldo egocêntrico e o Ronaldo coletivo. A partir daí, o que se viu foi um CR7 que não se importava de se sacrificar em prol da equipa, que colocava o resultado final da seleção à frente do seu destaque pessoal na forma de lá chegar. A presença do craque ao lado de Fernando Santos na linha lateral no calor da disputa com a França ilustra aquilo que foi bem mais profundo: o compromisso entre os dois. E aí começa a explicar-se a entrada de Fernando Santos no lote dos que vão lutar pelo título de treinador do ano.Porque há muitas formas de ter êxito como treinador. O povo fala de táticas, o analista junta a estratégia, não há quem negue que o estar rodeado dos colaboradores certos tem muita importância, mas não há nada mais decisivo do que ser capaz de tirar o melhor de cada jogador. Fazer que cada um assuma na primeira pessoa o compromisso com o coletivo. Foi isso que Fernando Santos teve a arte de conseguir. E foi por isso que saiu de França com o título de campeão da Europa.
2016-12-28
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No dia em que se apresentou um novo – e até ver primeiro – candidato à presidência do Sporting, a tentação será a de se olhar para a lista de Pedro Madeira Rodrigues e procurar entre os seus apoiantes um grupo de adeptos “notáveis” que garanta credibilidade e uma boa hipótese de sucesso na ida às urnas. O Sporting, porém, mudou muito desde que o grupo que o liderou nas últimas décadas caiu em desgraça, levando à eleição de Bruno de Carvalho. E as eleições nos maiores clubes nacionais também.No Sporting, que ainda assim é o único dos três grandes onde as eleições vão para além de um formalismo (e a isso não é estranho o facto de ter ganho muito menos do que os rivais nos últimos anos), o apoio desses tais “notáveis” seria mais um empecilho do que uma real vantagem. Foi em boa parte esse beijo da morte que custou a José Couceiro, uma das melhores e mais modernas cabeças do futebol português, a derrota nas eleições que conduziram Bruno de Carvalho ao trono do leão. A última coisa que poderá acontecer nas eleições de Março é, por isso, vermos um candidato saído do grupo de herdeiros do roquetismo, o movimento que mandou no clube entre meados dos anos 90 – com Pedro Santana Lopes – e a demissão de Godinho Lopes, há três anos. Mesmo que nesse lote de presidentes tenha havido homens tão diferentes como o impulsivo Dias da Cunha, o mais fleumático Soares Franco ou até o patriarca Roquete.O peso dessa liderança e a revolução que foi a sua queda, para abrir caminho a Bruno de Carvalho, faz com que neste momento não se discutam tanto ideias e projetos, mas sim a figura do atual presidente. Talvez ainda seja cedo, mas a Madeira Rodrigues ainda não se ouviu grande coisa acerca do que pretende fazer, mas sim sobre aquilo que o líder atual tem feito de errado: as fugas para a cabina em noites de derrota, as voltas olímpicas em dias de vitória e até a forma dissimulada de falar da obsessão de Bruno de Carvalho com o Benfica, referindo que os anos que este já leva à frente do clube foram de títulos, sim, mas para os encarnados. No fundo, Pedro Madeira Rodrigues e quem está com ele já perceberam uma coisa: nas eleições de Março, mais do que o Sporting, vai discutir-se Bruno de Carvalho. O que ele fez bem – renegociação com a banca, mais dureza nas negociações de jogadores, apoio ao vídeo-árbitro e combate aos fundos – e o que ele fez mal – posições que estão muito perto da irresponsabilidade na relação com outros clubes, radicalismo excessivo naquilo que defende. Até por isso, o candidato diz que espera um combate a dois. É que já sabe que quanto mais gente aparecer a querer discutir Bruno de Carvalho, menos hipótese terá cada um de convencer os votantes dos seus méritos particulares. Até por isso, sem ter ainda desfeito o tabu que evidentemente levará à sua recandidatura, o presidente já veio dizer que todos os candidatos serão bem vindos. Quantos mais, melhor.
2016-12-27
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O Natal é tempo de ofertas e seguramente que os treinadores dos primeiros colocados da Liga portuguesa estarão a pensar no que gostariam de ver debaixo do pinheiro. É uma forma de encarar o que se passou neste ano e o que os espera em 2017: Rui Vitória quererá poder contar com mais gente no ativo; Nuno Espírito Santo com um par de reforços que compatibilizem melhor o plantel com a evolução da ideia de jogo; Jorge Jesus com uma certeza acerca da mudança da ideia de jogo do Sporting; e Jorge Simão com tempo, uma pausa natalícia mais demorada para poder criar um Sp. Braga mais à sua imagem. O maior problema de Rui Vitória têm sido as lesões. Pois o Pai Natal vai trazer-lhe novidades: a interrupção das competições permitir-lhe-á recuperar alguns jogadores e, desde que eles deixem de cair que nem tordos no que falta de Liga – como aconteceu até aqui – aquilo que mais pode preocupar o treinador do Benfica serão as saídas no mercado de Janeiro. É que embora lutem pelo mesmo objetivo, o treinador e o presidente não têm necessariamente de ter as agendas fotocopiadas. A de Rui Vitória passa por manter as armas que tem, mesmo sem estar a pensar em reforços; a de Luís Filipe Vieira – e de Jorge Mendes – fala em aproveitar (e criar) ocasiões de negócio para a SAD. A eventual saída de Lindelof para o Manchester United, mais a mais se for pelos números irreais de que se tem falado, até pode ser bem ultrapassada com o regresso de Jardel ou Lisandro López ao onze, mas se ao central se juntar Nelson Semedo a equipa já sairá prejudicada. Mesmo tendo em conta a recente quebra de rendimento do lateral, a profundidade que ele continua a dar no corredor direito e a velocidade que exibe na recuperação defensiva são fundamentais para manter a força deste Benfica. A desejar que eles saiam estará seguramente Nuno Espírito Santo, treinador de um FC Porto que fez uma primeira parte da época em crescendo e já se mostra o obstáculo maior ao tetra do Benfica. Só que Nuno tem com que se preocupar dentro de casa também, onde lhe faltam mais um extremo verdadeiro e um ponta-de-lança capaz de aliviar a carga de André Silva. O crescimento atacante do FC Porto teve a ver com a entrada no onze de extremos verdadeiros, Corona e Brahimi, por oposição à preferência até ali dada a médios com tendência a jogar por dentro, como Otávio e sobretudo Herrera ou André André. A história da recuperação de Brahimi talvez nunca seja contada, mas o mais certo é ele ter de se ausentar para jogar a Taça de África pela sua seleção – e já se sabe que quando vão jogar esta prova, os africanos voltam muitas vezes com ideias diferentes. Por isso, até tendo em conta que a prova começa já em meados de Janeiro, do que Nuno precisa é de mais um extremo. Pode ser Jota? Poder, até pode, mas isso só virá reforçar a necessidade de outroavançado, que aí já me parece difícil ser Depoitre, condenado a servir como reforço para um Plano B de jogo, com bolas altas a cair na área. A opção, aqui, terá de ser entre manter tudo como está e encontrar um jogador móvel, ou ir à procura de um trabalhador explosivo. O objetivo será sempre o mesmo: conseguir que André Silva se centre mais na tarefa de fazer golos. Jorge Simão quererá certamente aproximar o seu Sp. Braga daquilo que eram o seu Paços de Ferreira ou o seu Chaves e até, em certa medida, o seu Belenenses. A chegada de Battaglia é uma pista nesse sentido, mas a transformação de uma equipa de futebol solto, criativo e em certa medida até potenciador da desorganização em termos atacantes num coletivo sólido e capaz de se impor pela repetição e mecanização de processos não é simples. E o tempo, em competição, nunca é muito para mudar as coisas de forma consolidada. Já Jorge Jesus precisa de pensar numa segunda metade da época muito perto dos 100 por cento de rendimento para ir de férias feliz. Já não tem Europa e poderá trabalhar a equipa para jogar uma vez por semana, o que é o cenário ideal para quem pensa como ele, separando claramente os titulares dos reservistas. O que lhe falta, então, é encontrar a ideia certa para os jogadores que tem – à ideia da época passada, faltam Teo, João Mário e sobretudo Slimani, com todas as implicações que isso tem na agressividade na frente, no controlo ao meio e na capacidade para abrir espaços através da procura da profundidade. Se tiver essa ideia de jogo no sapatinho, talvez o Sporting ainda possa acabar a época a ganhar coisas interessantes. Caso contrário, falar-se-á sempre de um segundo ano em regressão após uma excelente primeira temporada.
2016-12-26
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A questão do total de títulos nacionais de futebol tem sido vista à luz da rivalidade entre os maiores clubes ou da estratégia de comunicação de Bruno de Carvalho, que a trouxe para a agenda mediática com o intuito de comprar mais uma guerra que sirva de forma de afirmação ao Sporting, mas vale muito mais do que tudo isso. Porque em causa não estão só o total de títulos de campeão nacional dos leões e, por inerência, do Benfica e do FC Porto. Em causa estão também os títulos de clubes como o Olhanense, o Marítimo, o Belenenses ou o já extinto Carcavelinhos (um dos clubes que deu lugar ao Atlético), que merecem tanto respeito como os três grandes, suportados em milhões de adeptos. Em causa está se a decisão do campeão nacional é retrospetiva ou prospetiva, feita a olhar para trás ou para a frente. Porque uma coisa é certa: não pode haver anos com dois campeões. A FPF decidiu que contam como títulos de campeão nacional os três campeonatos da I Liga, realizados entre 1934/35 e 1937/38, por serem provas por jornadas, em modelo de todos contra todos, e terem sido jogados antes da instituição do campeonato nacional da I Divisão, em 1938/39. Decidiu ainda a FPF não contar como suscetíveis de atribuição do título de campeão nacional os 17 Campeonatos de Portugal, jogados entre 1921/22 e 1937/38, por os considerar antepassados da Taça de Portugal, também ela jogada por eliminatórias a partir de 1938/39. Dessa forma, aos títulos de vencedor do campeonato nacional de futebol – Benfica por 32 vezes, FC Porto por 26, Sporting por 18, Belenenses e Boavista com um cada – somam-se mais três do Benfica e um do FC Porto, fruto das vitórias que conquistaram no tal campeonato da I Liga. Pretenderia o presidente do Sporting que, em vez desses títulos da I Liga, fossem contabilizados os vencedores do Campeonato de Portugal: quatro troféus do FC Porto e do Sporting, que assim aumentariam o pecúlio para 29 e 22 títulos, respetivamente; três do Benfica, que subiria na mesma para 35, substituindo as três Ligas por igual número de campeonatos de Portugal; três do Belenenses, que passaria a considerar-se quatro vezes campeão nacional; mais um do Olhanense, um do Marítimo e um do Carcavelinhos, que engrossariam o lote de campeões. A tese da FPF é que o antepassado do atual campeonato nacional é o campeonato da Liga, também ele jogado por jornadas. Faz sentido. Mas também pode não fazer. Ora, façamos um pouco de história. O futebol português andou uns anos atrás do resto da Europa, a ponto de só em 1922 se ter extravasado o nível regional no que a competições respeitava. Nesse final de época de 1921/22 jogou-se pela primeira vez o Campeonato de Portugal, que em ano de estreia se resumiu a uma espécie de finalíssima entre os campeões de Lisboa (o Sporting) e do Porto (o FC Porto). Ganharam os nortenhos, que tal como todos os seus sucessores na prova adquiriram o direito a apresentar-se como “campeões de Portugal”. Veja-se o caso do Benfica de 1930, de que se mostra na imagem acima o cartaz relativo ao almoço de homenagem aos jogadores. O Campeonato de Portugal foi evoluindo. Na segunda edição, além de Sporting e FC Porto, outra vez campeões dos seus distritos, já participaram os campeões de Coimbra, da Madeira, do Minho e do Algarve. E a prova foi-se alargando a mais regiões, até passar, a dada altura, a permitir a entrada de mais do que um representante por cada distrito. Iam-se assim sucedendo os campeões de Portugal. E tudo continuou igual até que, em Março de 1934, a seleção nacional foi arrasada pela Espanha em Chamartin. Foram 9-0, a eliminação do Mundial e a abertura de um processo de reformulação dos quadros competitivos do futebol nacional. Uma das coisas que os espanhóis tinham e os portugueses não era competição nacional regular – o Campeonato de Portugal só se jogava de Maio a Julho – sob a forma de uma prova por jornadas, em que todos os clubes se defrontavam a duas voltas. Os portugueses resolveram imitar esse modelo e criaram, ainda que de modo experimental, o campeonato da Liga – cujo nome derivou do modelo inglês. A prova foi introduzida a título experimental, por se temer que o aumento da receita não chegasse para cobrir o aumento da despesa com deslocações mais longas e frequentes. Foi um sucesso. Ora é aqui que se introduz a rotura. Para a FPF, agora, os 13 campeões de Portugal até aí coroados deixaram de o ser. E os vencedores das quatro Ligas experimentais que antecederam a criação do campeonato nacional de futebol, em 1938/39, passaram a poder ostentar o título de campeão nacional. O primeiro campeonato da Liga, em 1934/35, foi ganho pelo FC Porto, mas nesse mesmo ano o Benfica venceu o Campeonato de Portugal, batendo o Sporting na final, por 2-1. Na página 143 do segundo volume da História do Sport Lisboa e Benfica (1904/1954), obra excecional editada aquando do cinquentenário do clube por Mário Fernando de Oliveira e Carlos Rebelo da Silva e prefaciada por Ribeiro dos Reis, reproduz-se a ementa do jantar oficial de homenagem “Ao team de Foot-Ball Campeão de Portugal” do Sport Lisboa e Benfica. Teve lugar nas Portas do Sol, em Santarém, a 21 de Julho de 1935. Claro que se a prova se chamava Campeonato de Portugal, a equipa que a ganhava se considerava campeã de Portugal. Nem outra coisa faria sentido, apesar de já existir o campeonato da Liga, que nesse ano coroou o FC Porto. Só em 1938 o panorama competitivo voltou a mudar. Ao campeonato da Liga sucedeu o campeonato nacional de futebol; ao campeonato de Portugal seguiu-se a Taça de Portugal. As competições mantiveram os moldes de disputa, pelo que é natural que, vendo as coisas de trás para a frente, a FPF considere agora campeões nacionais os clubes vencedores da Liga e não os que ganharam o Campeonato de Portugal. Porque a questão é que, durante quatro anos, houve clubes cuja legitimidade para se considerarem campeões nacionais se funda no futuro (e na evolução que a competição veio a ter) e outros cuja legitimidade se funda no passado (e no facto de até 1934 o campeonato de Portugal ter sido a única prova nacional). Como não podia haver dois campeões nacionais no mesmo ano, era preciso tomar uma decisão. A FPF decidiu assim e a decisão tomou letra de lei. O mais justo, porém, seria separar as quatro provas e os respetivos palmarés. Porque a alternativa é dizer aos jogadores e aos clubes que ganharam o campeonato de Portugal entre 1922 e 1938 que afinal não foram campeões de Portugal. E isso vai muito para lá das provocações de Bruno de Carvalho ou das respostas dos adeptos benfiquistas.
2016-12-23
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É curioso que o golo com que o Sporting ganhou ao Belenenses no Restelo tenha nascido numa casualidade. Sim, o cruzamento de Campbell é excelente. Sim, a finalização de primeira de Bas Dost é igualmente muito boa. Sim, sem jogar uma maravilha, o Sporting já tinha feito o suficiente para se adiantar no marcador antes disso. Mas se Dost estava em posição para marcar deve-o ao facto de ter escorregado e caído, ainda a meio-campo, no momento em que dá início à jogada, num dos seus habituais momentos em que baixa para tabelar com os médios. Só esse “atraso” na chegada à jogada o impediu de estar onde é suposto e, assim, aparecer onde ninguém do Belenenses o esperava: em corrida desenfreada, solto, ao segundo poste. Dost é um jogador muito diferente de Slimani, já aqui o disse vezes sem conta. Mas nem é um jogador assim tão diferente de alguns dos avançados com quem Jesus foi trabalhando ao longo dos tempos. É pesado mas letal na área, um pouco como Cardozo, que foi sempre um jogador contra-natura em todo o jogar daquele Benfica de Jesus: toda a gente corria à volta dele mas ele aparecia a fazer os golos. Nesse aspeto, Dost faz bem o seu papel. É bom finalizador, tem tido um peso incomparável nos resultados da equipa e não é seguramente a ele que o Sporting está a dever a posição em que se encontra na tabela. O que falta fazer é casar a equipa com o avançado que tem e fazer com que ela se esqueça do avançado que deixou de ter. E é nessas contradições, tanto como na fadiga de alguns elementos, que custou ao Sporting os três pontos no jogo com o Sp. Braga, que está a resposta para as dificuldades que a equipa tem vindo a passar nas últimas semanas. O próprio Jesus, que desenha ao mais ínfimo detalhe cada momento, cada triangulação – e por isso é insuperável a treinar – parece ainda enredado nesta teia de indecisões. O que quer do segundo avançado? Alguém que dê a profundidade que Dost não procura, como Markovic ou Campbell? Alguém que traga imprevisibilidade, criatividade e soluções fora da caixa, como Bryan Ruiz ou até, em certa medida, Alan Ruiz? Alguém que seja simultaneamente um terceiro médio, capaz de auxiliar William e Adrien na tarefa de segurar o meio-campo, como Bruno César? Ou ainda alguém que assegure mais presença na área, de forma a aproveitar o facto de Dost exaurir os centrais adversários, como André ou até Castaignos, que desta vez até foi útil? O problema aqui, note-se, não está na diversidade de opções. Isso é bom. O problema está no facto de o resto da equipa não mudar o seu futebol em consonância. Está na busca insistente do espaço interior quando ele não existe fruto da perda da profundidade, por exemplo. Ou até na criação de situações de cruzamento, quando geralmente quem cruza não tem a qualidade necessária para o fazer ou depois falta presença na área (algo pouco habitual nas equipas de Jesus). Quando isto acontece, pode aparecer uma escorregadela que ajude. E isso não é mau nem sequer deslustra. Mas não pode contar-se com isso a cada jornada.
2016-12-22
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É impossível não ligar Mitroglou à vitória sobre o Rio Ave com que o Benfica fechou a sua participação na Liga em 2016, assegurando o título oficioso de campeão de inverno. E não foi só por ter sido ele a desbloquear o marcador, obtendo o primeiro golo do jogo. É que o regresso do ponta-de-lança grego ao onze permitiu a Rui Vitória mudar o jogo atacante da sua equipa, dando-lhe mais presença na área e profundidade no corredor central, por oposição ao futebol mais móvel de Jiménez. Indiferente à discussão acerca de quem será o melhor ponta-de-lança da Liga e mesmo sem ter tantos como o Sporting, por exemplo, o Benfica tem uma certeza: na Luz mora o lote mais complementar de todos os candidatos. Mesmo que depois o melhor marcador da equipa seja o médio Pizzi. É que se Mitroglou anda sempre na perseguição do golo, raramente saindo do corredor central ou se envolvendo em movimentações antes dos últimos 20 ou 30 metros do campo, preferindo ir mais vezes em busca da profundidade, Jiménez, o avançado a quem ele tirou a vaga nos titulares, cai com frequência nas laterais, dessa forma ajudando a desposicionar as defesas adversárias e abrindo caminho à entrada dos médios em situações de finalização. Depois, há Guedes, um corredor por excelência, rápido com bola nos pés e pouco certeiro na definição dos lances – ainda hoje se lhe viram raides sem a decisão correta no final – mas incansável na pressão quando a equipa perde a bola e lhe compete entrar em fase defensiva. E recomeça a haver Jonas, jogador tão diferente dos outros três, por ter até mais golo que Mitroglou, mesmo jogando uns metros atrás, por ser tecnicamente refinado e quase presciente naquilo que falta a Guedes, que é a capacidade para adivinhar o que vai suceder em cada lance. Podendo ainda fazer jogar ali Rafa – um misto de Jonas com Guedes, porque decide quase sempre bem, mas nem sempre define a contento – ou Cervi, Rui Vitória está mais bem servido de atacantes que Nuno Espírito Santo ou Jorge Jesus. No FC Porto, há Jota, um velocista com golo nas botas, há André Silva, um trabalhador que dá tudo – às vezes até demais – e acaba por sair muito da zona de finalização no processo, e há Depoitre, um gigante de área que aparenta ser muito limitado com os pés. Nuno Espírito Santo seguramente poderia usar a capacidade de explosão de Aboubakar, se tivesse havido a capacidade para lhe explicar que a aposta principal era o miúdo da formação e ele se predispusesse a ser útil, ainda assim. E no Sporting, onde mora o maior lote de avançados da Liga, também não se encontrou ainda a complementaridade. Há Bas Dost, outro gigante, que é melhor jogador e finalizador que o dragão belga, mas pouco dado a buscar a profundidade em construção, como fazia Slimani, preferindo baixar para jogar entre linhas, no espaço de Jonas, por exemplo. E aí faltam-lhe argumentos para desequilibrar. E há Bryan Ruiz, tecnicamente muito bom mas lento a executar, mau finalizador e nada propenso às mudanças de velocidade, ou Campbell, que continuo a achar que pela explosão e boa finalização é o melhor par para o holandês no meio. Não tem havido Markovic, ainda não se viu o que pode valer Alan Ruiz, nunca foi dada constância a André e creio que dificilmente se verá Castaignos. Com mais opções, Jesus ainda não definiu claramente o que espera de cada uma delas. E por aí também se explica a diferença pontual que a equipa já tem para o Benfica.
2016-12-21
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O FC Porto ganhou de forma especial ao Chaves, voltou a colar-se ao Benfica no topo da Liga e, no final do jogo, apareceu o Nuno Espírito Certo. Isto é como quem diz que o treinador encontrou finalmente o tom correto para encarar as questões fundamentais que se aproximam. Nem professoral, a roçar o fanfarrão de canudo debaixo do braço, como tinha sido na noite dos desenhos, após a excelente exibição contra o Arouca; nem deprimido, a inspirar comiseração e solidariedade nos que se reviam nas agruras que a equipa ia vivendo, como na sucessão de jogos sem marcar golos. Ontem, Nuno Espírito Santo foi claro nas coisas boas e nas coisas más. E somou pontos. A verdade é que, de forma até tímida, por vezes, o FC Porto está lá em cima, à frente do Sporting de Jesus, que no início da época era tido como principal obstáculo na corrida do Benfica até à conquista do inédito tetra. Nuno até se deu ao luxo de repetir o onze que tinha defrontado o Marítimo dias antes, mas nem por isso viu a equipa fraquejar física ou mentalmente, como acontecera ao Sporting na véspera. É certo que o adversário não era um Sp. Braga, mas se além da amputação do treinador, não perder também jogadores como Battaglia, este Chaves tem personalidade e futebol para ficar muito bem na Liga. E o FC Porto, dentro das suas limitações, foi capaz de dar a volta ao jogo, ganhando até Depoitre para futuras batalhas, de forma mais inesperada do que tinha ganho Brahimi, por exemplo. Nuno foi capaz de fazer uma boa avaliação da primeira metade da época, que foi exigente para ele e para a equipa, desde a necessidade de passar pela pré-eliminatória da Liga dos Campeões às evidentes limitações de um plantel que não tem soluções de sobra. E foi ao mesmo tempo claro mas não impositivo na declaração acerca da necessidade de ir ao mercado em Janeiro. Os dragões continuam na Champions, têm ali uma almofada financeira que pode ao mesmo tempo permitir-lhes e exigir-lhes encontrar mais algumas soluções, por exemplo, para o centro da defesa, as alas do meio-campo e a frente de ataque. Estará Boli à altura? Quem está lá além de Brahimi e Corona, agora que a equipa encontrou o equilíbrio com extremos? E será Depoitre mesmo o avançado de área que o FC Porto precisa para abrir jogos mais fechados? As respostas chegarão depois do Ano Novo.
2016-12-20
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Último Passe

O vídeo-árbitro foi risível no Mundial de clubes e a experiência serviu aos que sempre se opuseram à sua utilização para provarem uma razão que na verdade não têm. Não tivesse Gianni Infantino, presidente da FIFA, vindo reiterar que o caminho é para ser percorrido e até me ocorreria pensar que foi para adiar a discussão por mais uns anos que serviu esta experiência. Como assim não é, importa aprender com os erros que foram cometidos para que o futebol possa centrar-se no que é fundamental. E o que é fundamental não é abolir o erro ou a componente subjetiva que preside a cada decisão. É dar aos árbitros os melhores meios de diagnóstico possíveis. E isso não foi feito no Mundial de clubes. Aquilo que foi experimentado no Mundial de clubes é, em si, ridículo. Pedir a um árbitro que dê uma corridinha até um monitor colocado na linha lateral para ver uma repetição de um lance é apenas idiota, porque aumenta a pressão mediática sobre o decisor, com toda a gente a olhar para ele e para aquele pequeno monitor, porque não lhe dá todos os meios possíveis para esclarecer e trava na mesma o fluir o jogo. O que defendo não é isso. O que defendo há anos é a existência de um árbitro de régie, de um especialista treinado para tomar decisões rápidas com base em imagens televisivas, que tenha acesso imediato às imagens de todas as câmeras disponíveis para o realizador televisivo e que esteja em comunicação permanente por circuito áudio com os outros árbitros de campo. A entrada em vigor deste sistema teria de pressupor alguma abertura por parte das instâncias que regem a arbitragem e o futebol em geral. Ganhar-se-ia, por exemplo, com uma explicação por parte do árbitro no sistema sonoro do estádio a cada decisão do vídeo-árbitro, para que todos os espectadores percebessem o que estava a passar-se. É o que se faz no râguebi, por exemplo. E quando se ativaria o vídeo-árbitro? Simples. O vídeo-árbitro poderia ser ativado de duas formas. Quando os clubes, pela voz do seu treinador ou do seu capitão de equipa, desafiassem a decisão do árbitro central (e perderiam esse direito após duas oportunidades em que não lhes fosse dada razão), nunca sendo o jogo interrompido para tal – a consulta seria feita após a interrupção normal seguinte. Ou então quando o árbitro central, por ter dúvidas ou por ter sido para tal alertado pelo árbitro de régie, quisesse, por si só, pedir uma segunda opinião a quem pudesse rever as imagens de vários ângulos. É aqui que começam as objeções. Já ouvi muitas diferentes, mas todas são rebatíveis. Que o jogo perderia a fluidez, permitindo, por exemplo, a uma equipa pedir a intervenção do vídeo-árbitro só para impedir um contra-ataque perigoso após a perda da bola. Errado, pois nenhuma jogada seria interrompida, já que só após a interrupção normal de jogo se pediria a intergvenção do vídeo-árbitro. Que o árbitro-central perderia a sua capacidade de decisão, tendo de a delegar noutro elemento da equipa de arbitragem. Mas isso já acontece com os árbitros auxiliares, que se tornaram muito mais do que simples fiscais de linha. Ou algum árbitro central manda seguir o jogo depois de um seu auxiliar agitar a bandeira como se não houvesse amanhã para assinalar uma falta? Que levaria uma eternidade até se ter uma decisão. Outra vez errado. Basta perguntar a qualquer realizador quanto tempo leva a ter acesso a todas as imagens de todas as câmeras. Menos de um minuto, garanto. A minha objeção preferida, porém, é a de que o vídeo-árbitro não anula o erro, como é evidente pela consulta a diferentes opiniões de ex-árbitros dadas em painéis de jornais ou sites de internet, e que por isso não vale a pena tê-lo. Claro que não anula o erro. Primeiro porque o erro, como se sabe, é humano. Não é o sal ou a alma do futebol, como já ouvi dizer, mas infelizmente faz parte. Depois, porque em todas as tomadas de decisão há uma componente subjetiva, que depende da opinião de quem está a decidir. O objetivo, porém, não é nem nunca pode ser anular o erro. Tem de ser, isso sim, auxiliar o diagnóstico de quem tem o dever de decidir. Impedir que quem decide tenha menos meios que qualquer tele-espectador sentado no conforto do seu sofá. Impedir que eu em casa veja com os dois olhos aquilo que quem tem de decidir só vê com aquele onde necessita de mais dioptrias. O objetivo do vídeo-árbitro não tem de ser eliminar o erro. Tem de ser clarificar as coisas e, como disse Infantino, impedir que “uma equipa seja eliminada por causa de um erro dos árbitros”. Só por causa disso, serei sempre a favor.  
2016-12-19
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A derrota do Sporting em casa, contra o Sp. Braga, com a agravante de ter perdido o terceiro lugar na Liga para os minhotos e de ter ficado a oito pontos do Benfica, vem chamar a atenção para a gestão em Alvalade. Se Jorge Jesus já viu os primeiros lenços brancos nas bancadas de Alvalade é porque há quem lhe atribuía responsabilidades na forma como o treinador tem gerido o plantel disponível – e desta vez a “capacidade de superação” dos jogadores não chegou para ganhar um jogo em que eles pareceram pouco frescos. Mas só internamente poderá perceber-se um pormenor importante: se Jesus esgotou os 12 ou 13 jogadores que tem usado quase sempre porque os outros não servem, ou se os outros não servem porque o treinador os foi “queimando” semana após semana desta época de grande investimento. A evidência do jogo foi a de um Sporting fatigado. Os leões tiveram dificuldades para pressionar, para ganhar duelos diretos, para aguentar as arrancadas dos bracarenses, muito bem organizados por Abel Ferreira, o treinador interino que herdou a equipa de Peseiro e a montou com inteligência. Jesus terá cometido erros neste jogo – a colocação de Ruiz ao meio é, insisto, o maior de todos, porque o costa-riquenho não tem vivacidade para jogar ali e falha clamorosamente nas finalizações, pelo que o ideal será sempre tê-lo mais longe da baliza – mas o foco deve ser alargado a toda a temporada. E ainda que se compreenda que a pressão dos insucessos – de Varsóvia para a Luz, da Luz para Setúbal e para o jogo com o Sp. Braga – tenha levado o treinador a apostar sempre nos mesmos, há espaço para se questionar se isso esteve ou não na base da situação que a equipa vive atualmente. Porque num ano em que os leões contrataram tanta gente com nome, é estranho ver sempre as mesmas caras subir ao relvado, sobretudo quando os seus donos estão fisicamente inferiorizados e perdem os jogos por estarem, como diz o próprio treinador, “menos frescos”. E é aqui que convém perceber-se uma coisa. Beto, Douglas, Petrovic, Elias, Meli, Markovic, Alan Ruiz, André e Castaignos, as aquisições que, juntamente Bas Dost e Campbell, os dois que estão a jogar, encheram os sportinguistas de esperança no Verão, não servem? E não servem porque foram mal escolhidos ou não servem por terem perdido qualidades já depois de terem chegado? Na verdade, acho que há ali gente mal escolhida, uns por falta de qualidade flagrante, outros por não encaixarem naquilo que era o plano de jogo de Jesus, que tinha perdido Slimani e João Mário e recebeu jogadores muito diferentes. Mas outros foram perdendo fulgor à medida que a época seguia o seu curso e eram opção apenas em jogos de menor responsabilidade. Recuperá-los será a tarefa principal do treinador para o novo ano, onde os oito pontos de diferença para o líder não deixam os leões fora mas ao mesmo tempo diminuem a pressão pelo esvaziar do balão da esperança. E disso pode depender também a tranquilidade com que Bruno de Carvalho poderá encarar as eleições de Março.
2016-12-18
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O regresso de Jonas aos relvados foi a boa notícia da noite para os benfiquistas que viram a sua equipa vencer à justa o Estoril, por 1-0. O brasileiro entrou na ponta final do jogo, já com o resultado feito, mas em meia dúzia de intervenções mostrou que muda tudo à sua volta, pela inteligência que lhe permite adivinhar o epílogo de cada lance, pela capacidade técnica e a tomada de decisão que o leva a defini-lo melhor que os colegas. E no entanto, como o segundo golo não entrou, também foi com ele em campo que o Benfica mais perto esteve de consentir o empate. Porque com Jonas – e com Mitroglou em vez de Jiménez – muda também a capacidade do Benfica para controlar os jogos e gerir vantagens curtas. E aqui Rui Vitória corre o risco de ser apanhado entre dois fogos, entre os corredores e os definidores. Já vi atribuírem a quebra do Benfica no final do jogo da Amoreira ao cansaço. É possível que sim, porque a primeira metade da época está a ser muito exigente para um plantel que tem sido fustigado por lesões permanentes. Os que permanecem de pé têm sido sugados até ao tutano e devem precisar desta pausa natalícia que aí vem como de ar para respirar. A questão é que esta não é uma tendência nova. É uma realidade constante nos momentos em que o Benfica decide segurar o resultado e muda as zonas de pressão. Nos momentos em que Rui Vitória opta por juntar mais gente atrás, com as entradas de Samaris, Danilo ou Celis e o sacrifício de um dos homens da frente, o Benfica passa a permitir mais facilidades na construção adversária e não consegue depois ser tão eficaz nas manobras para estancar a chegada à área de Ederson. E isso já não tem a ver com cansaço, mas sim com a definição estratégica acerca do local onde a equipa deve colocar o seu foco a cada momento dos jogos. Claro que nem Gonçalo Guedes e Jiménez, dois corredores por excelência, dois homens que trabalham mais sem bola do que com ela, conseguem durar 90 minutos ao mesmo ritmo. Aliás, a primeira parte do jogo mostrou isso mesmo: o Estoril quase nem saiu da sua área antes da meia-hora, porque nessa altura a pressão do Benfica era eficaz e compacta, mas dividiu o jogo nos últimos 15’ antes do intervalo, porque aí, já mais fatigados, os jogadores das linhas da frente do Benfica já não conseguiam pressionar de forma tão compacta. A questão é que, depois, Jiménez sai muito da área e Gonçalo continua a ser sofrível na definição dos lances. Os dois funcionam muito bem em vários parâmetros mas não dão à equipa a mesma facilidade goleadora de Jonas e Mitroglou. Com o brasileiro e o grego, na época passada, o Benfica não defendia tão bem desde a sua primeira linha, mas também não precisava disso, porque muitas vezes quando o opositor começava a pensar em chegar-se à frente já o fazia com o desânimo de dois ou três golos na sua baliza. Esta será a grande dúvida de Rui Vitória na ideia de equipa para depois do Ano Novo. O que está a provar-se que causa dificuldades é começar a construir resultados com os corredores e meter os definidores quando é altura de os defender.
2016-12-17
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Três assuntos têm animado os adeptos de futebol em Portugal. O caso Sporting-Doyen, a troca de José Peseiro por Jorge Simão no Sp. Braga e a polémica em torno da contagem dos títulos nacionais. Com algum atraso num ou noutro caso, eis o que penso de cada um. 1. O Sporting vai ter de pagar à Doyen no caso relativo à transferência de Rojo para o Manchester United. Sempre foi claro para mim que assim seria, porque havia um contrato em vigor e ele tinha sido assinado pela direção legítima do clube. Não sei se Bruno de Carvalho entrou nesta guerra para adiar o pagamento, para o evitar de todo ou apenas para fazer barulho à volta do tema polémico que é o da participação de fundos de investimento nos passes dos jogadores. Se foi a primeira razão, limitou-se a ser chico-esperto. Se foi a segunda, estava a ser ingénuo. Se foi a terceira, fez bem. Porque os negócios com os fundos de investimento sem rosto são, na maior parte dos casos, lesivos dos interesses dos clubes e abrem a porta ao dinheiro sujo que quem gosta de futebol deve querer ver longe da modalidade. 2. Nutro por José Peseiro a estima de muitos anos de conhecimento, porque crescemos a 150 metros um do outro. Tenho, além disso, o reconhecimento pela qualidade do trabalho que ele fez em muitos clubes, mas acho que fez mal em voltar a Braga. Depois de ele próprio ter perdido a final da Taça de Portugal para o Sp. Braga de Paulo Fonseca, entrar naquele balneário só podia ser feito com a certeza de que tinha condições para fazer melhor. E a verdade é que não tinha. Peseiro não foi demitido por ter perdido com o Sp. Covilhã. Foi demitido porque antes de cair na Taça de Portugal já tinha perdido a passagem à fase seguinte da Liga Europa e porque, antes ainda, a sua equipa mostrara um futebol demasiado pobre no Dragão contra o FC Porto – e o futebol de qualidade até foi sempre uma das imagens de marca deste treinador. Para o lugar dele entra Jorge Simão, um treinador jovem e ambicioso, que tem muito mais condições para ser bem sucedido. Quais? Tem atrás dele um trabalho de enorme qualidade no Chaves e entra num clube onde as expectativas já estão outra vez a um nível muito baixo. O resto é capacidade de trabalho, que tanto um como o outro têm inegavelmente. 3. A FPF manifestou-se finalmente acerca da polémica relativa aos títulos de campeão nacional, decretando que aos torneios da I Liga, disputados por jornadas entre 1934/35 e 1937/38, correspondem títulos de campeão nacional, e que aos Campeonatos de Portugal, jogados por eliminatórias entre 1921/22 e 1937/38, correspondem troféus equiparados à Taça de Portugal. A polémica vem da mais recente cruzada de Bruno de Carvalho, que nem sequer é uma ideia nova: recordo-me de, durante anos, o Record se ter recusado a alinhar com A Bola nessa equiparação, valendo-se da tese de Henrique Parreirão, segundo a qual só havia campeão nacional a partir de 1938/39, havendo antes, sim, o campeão da Liga e o campeão de Portugal, que eram coisas diferentes. E se na altura achei que a tese defendida pelo Record servia sobretudo de afirmação ante o gigante que era A Bola – era preciso contrariar o establishment para poder vir a superá-lo, algo que o Record depois até chegou a conseguir – também agora vejo na preocupação de Bruno de Carvalho uma forma de agitar as hostes e de ser contra-poder. As taças, porém, valem o que valem e estão nos museus dos clubes, de nada valendo agora tentar reescrever a história, seja num ou noutro sentido. O FC Porto, por exemplo, foi duas vezes campeão e europeu? Ou ganhou uma Taça dos Campeões e uma Liga dos Campeões? É que as provas têm nomes e formatos diferentes. E foi campeão mundial de clubes? Ou tem duas Taças Toyota? É claro que o documento da FPF aqui faz lei, mas na minha opinião as contas são outras: o Benfica tem 32 títulos de campeão nacional (e não os 35 que reclama com a soma das três I Ligas que ganhou), o FC Porto tem 26 (e não 27) e o Sporting tem 18 (e não os 22 que exige ver reconhecidos com a adição do Campeonato de Portugal).
2016-12-16
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Pinto da Costa já fez a sua parte ao vir dizer que a dupla de centrais formada por Felipe e Marcano é das melhores que alguma vez viu na sua longa permanência à frente do FC Porto – e nisso terá tido o seu quê de exagero. Mas, não sendo entusiasmante no plano ofensivo, esta equipa de Nuno Espírito Santo raramente se desequilibra e fundou na segurança defensiva de 746 minutos de jogo consecutivos sem sofrer golos o regresso a sério à luta pelo título. Nisso e no regresso de Brahimi, o proscrito que passou a servir que nem uma luva nas ideias atacantes do treinador. Djoussé pôs termo à longa imbatibilidade portista, que já durava desde o golo de Lisandro López no clássico com o Benfica, no Dragão, e fê-lo precisamente num lance em que bateu os dois centrais portistas, um após o outro. Não são piores jogadores por isso, mas há que reconhecer que grande parte da segurança defensiva desta equipa tem a ver com a opção por Danilo – em vez de Ruben Neves, por exemplo, que é um jogador ofensivamente muito mais entusiasmante mas menos imponente nos duelos – ou com o facto de os laterais – sobretudo Layun e Teles – terem como motivação fundamental a manutenção da posição, procurando muito o desequilíbrio desde trás em detrimento de uma maior projeção no meio-campo adversário. Se é verdade que as equipas se constroem desde trás, então Nuno Espírito Santo está a fazer bem. As vitórias, porém, só começaram a surgir quando o treinador contrabalançou tanta contenção com mais criatividade na frente, através das entradas de Corona e Brahimi no onze. O primeiro nunca esteve verdadeiramente fora, mas acabou por ganhar a posição a jogadores mais contidos, como Herrera ou André André. O segundo estava com pé e meio fora da equipa, com guia de marcha anunciado para Janeiro, antes de contribuir com três golos nos três últimos jogos. Contra o Marítimo, foi ele que desbloqueou o marcador com um golo de autor, como foi ele que depois colocou André Silva na cara do guarda-redes para o 2-0. Janeiro, se é preocupação, será sobretudo por causa da perda de Brahimi, que nessa altura seguirá para a seleção para jogar a Taça de África das Nações e dará outra vez o lugar a Otávio.
2016-12-15
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Apanhado entre duas frentes, Jorge Jesus decidiu optar por “acreditar na capacidade de superação” dos seus jogadores. E fez bem, porque ganhou com toda a justiça o direito a seguir para os quartos-de-final da Taça de Portugal. Mas o mais importante no facto de ter entrado no Estádio do Bonfim, para defrontar o V. Setúbal, com o melhor onze disponível, mudando apenas um elemento relativamente à equipa que alinhou de início contra o Benfica no domingo não é o facto de contrariar aquilo em que o treinador acredita há anos: que ninguém é capaz de render ao mais alto nível quando joga de três em três ou de quatro em quatro dias. É o facto de nesta escolha ter ficado bem à vista que ele não transpira confiança nas segundas escolhas. É verdade que os leões ficaram fora das provas europeias, mas essa ausência de desgaste só se fará notar lá para Fevereiro, quando em condições normais seriam chamados a jogar para a Liga Europa. Para já, a realidade é o calendário nacional, sempre muito congestionado por Dezembro e Janeiro, de forma a que se encontre espaço para a breve pausa de Natal e para a fase de grupos da Taça da Liga. Durante anos se viu Jesus poupar jogadores até antes de se chegar a esta fase. Já esta época, o mesmo Jesus veio justificar a opção de ter resguardado momentaneamente homens como Coates ou Bas Dost com o facto de, sendo jogadores pesados, terem mais dificuldades de recuperação. É uma teoria diferente da seguida, por exemplo, por Rui Vitória, mas é uma teoria cientificamente validada. Desta vez, porém, a importância do momento levou Jesus a ter fé na tal “capacidade de recuperação dos jogadores” – e alguns, como Adrien, estiveram uns furos abaixo do habitual. Acontece que, mesmo não tendo o treinador gostado que lhe fizessem a pergunta logo na flash-interview, o facto de ter ficado fora da Europa veio aumentar a exigência relativa à carreira na Taça de Portugal. Ainda por cima numa Taça de Portugal onde já não estão FC Porto e Sp. Braga mas que pode levá-lo a novo duelo com o Benfica. Como veio aumentar a exigência relativa à carreira na Liga, onde a derrota no dérbi deixou o Sporting a cinco pontos dos encarnados. Só que este ciclo infernal – Legia, Benfica, V. Setúbal, Sp. Braga e Belenenses em 16 dias e sem direito a errar mais – ainda está longe de acabar e o mais certo é Jesus ter nos próximos dois jogos de continuar a acreditar na capacidade de superação dos 12 homens que neste momento contam para ele, que são os onze titulares de ontem, mais Bryan Ruiz (Markovic está lesionado, tal como Schelotto). E num ano em que o Sporting até investiu mais do que o habitual no reforço do plantel, era boa altura para se perceber se os restantes não contam por problemas de gestão de recursos humanos ou se foram apenas erros de casting.
2016-12-14
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A conquista da quarta Bola de Ouro por parte de Cristiano Ronaldo, com uma gritante superioridade sobre a concorrência liderada por Messi, é vista por alguns como muita coisa que não tem necessariamente de ser. A votação dos correspondentes da France-Football – na qual, deixem-me dizê-lo, acredito muito mais do que naquela que vai ser feita pelos capitães e selecionadores nacionais chamados a votar pela FIFA, por ser menos suscetível a lóbis – confirma que Ronaldo foi o melhor jogador de 2016 e é um dos maiores da atualidade, a par do argentino. E mesmo assim dá que pensar, porque a vitória de Ronaldo se monta muito em cima de um jogo no qual ele saiu lesionado logo nos primeiros minutos: a final do Europeu. Nesse aspeto, esteve bem Ronaldo no discurso de agradecimento, no qual falou nos colegas da seleção nacional e do Real Madrid. Porque o futebol é um desporto coletivo e quase de certeza que se a França de Griezmann tivesse ganho aquele jogo ao Portugal sem Ronaldo as votações seriam, pelo menos, muito mais equilibradas. Como ganharam os portugueses, Ronaldo leva a Bola de Ouro para juntar aos títulos de campeão europeu de clubes e de seleções, elevando-se bem acima de Messi, “apenas” campeão espanhol com o Barcelona. O resto são leituras. Mais enviesadas umas, mais escorreitas outras. Já vi por aí que esta é a melhor reposta de Ronaldo ao escândalo fiscal em que se viu envolvido? Não creio, pois uma coisa nada tem a ver com a outra e ou muito me engano ou nem Ronaldo nem nenhum dos muitos envolvidos no processo divulgado pelo Football Leaks tem responsabilidade além da procuração quase plenipotenciária passada a quem lhes trata do dinheiro e dos negócios. Mais seguro será dizer que a quarta Bola de Outro eleva Ronaldo a um patamar ao qual ainda nenhum português tinha acedido. Mas mesmo isso é polémico. Sim, é verdade que o futebol de hoje é muito diferente do que era nos tempos de Eusébio. É evidente que a globalização permite a entronização muito para além do efémero dos melhores, independentemente do rendimento que tenham nos dois ou três jogos maiores do ano, que há meio século eram os únicos que muita gente via – e daí Messi e Ronaldo terem açambarcado as nove últimas Bolas de Ouro. É ainda claro para mim que a Eusébio nunca lhe foi permitido jogar fora de Portugal e que, tivesse ele ficado igualmente por cá, Ronaldo certamente levaria a uma nova mudança hegemónica no futebol nacional, a favor do Sporting, mas não poderia ser o fenómeno global que é hoje. Mesmo assim, tudo descontado, acho legítimo que se acabe com o debate. Porque como este nunca tivemos. E tenho sérias dúvidas de que voltemos a ter a tempo de eu poder vê-lo.
2016-12-13
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A vertigem, que durante anos deu títulos a ganhar a Jorge Jesus, mudou de lado e resolveu o dérbi de ontem a favor do Benfica. Foi muito à conta da velocidade dos homens que tem do meio-campo para a frente, da forma como foi sendo capaz de explorar o espaço vazio entre e atrás das linhas do adversário e da rapidez de decisão e execução dos seus jogadores nas transições que o Benfica bateu um Sporting mais forte sempre que o jogo entrava em controlo. A crise que batia à porta do Estádio da Luz mudou de lado da Segunda Circular e ameaça agora Alvalade.Jorge Jesus sempre construiu equipas vertiginosas. No Sporting, até em função dos jogadores que tinha e tem, mudou um pouco de estilo e aposta agora mais no controlo, ficando mesmo muitas vezes mais próximo do 4x2x3x1 do que do 4x4x2 de que nunca abdicava na Luz. Rui Vitória, por sua vez, sempre foi um treinador de futebol mais pausado e controlado - começou por tentar impor o 4x2x3x1 na Luz - mas este Benfica não lhe segue o pensamento, tanto se aproxima de uma equipa de velocistas, sobretudo na frente. Esta inversão de paradigmas vem mostrar que a identidade dos treinadores não conta assim tanto na definição daquilo a que joga uma equipa e que o papel dos líderes passa muito mais por fazer o melhor aproveitamento possível dos jogadores que têm do que por lhes mudar as formas de jogar ou pensar.Nunca se saberá o que seria este Benfica com Jonas. Mais controlo, mais cérebro na definição de cada jogada, mais capacidade de antecipação do que vai suceder e maior qualidade de decisão, mas sem dúvida menos intensidade e velocidade na exploração dos espaços. Sem o brasileiro, este Benfica está até mais próximo daquilo que são as equipas típicas de Jesus: Jiménez e Guedes correm muito – por vezes até demais – com e sem bola, Salvio parece feito no mesmo molde e o próprio Rafa, que ontem foi o melhor do Benfica na capacidade para ir desenhando jogadas, é muito dependente do espaço atrás das linhas adversárias. O Benfica não precisou por isso do mesmo volume de jogo para criar tantos lances de perigo como o Sporting – e, mais importante, para lhe ganhar – porque era sempre capaz de encontrar estradas menos congestionadas par chegar ao objetivo.Do outro lado, se é verdade que não pôde controlar a saída de Slimani, Jesus ainda fez os possíveis para ter uma equipa mais à sua imagem, vertiginosa, sobretudo com as contratações de Markovic e Campbell, dois velocistas que servem sobretudo para esticar o jogo. Só que, mesmo começando Campbell a justificar a aposta, o DNA desta equipa é outro, ditado pelo jogo mais cerebral de William e Ruiz ou pelas sinuosas corridas de Gelson. O próprio Dost é mais jogador de controlo que de esticões, se bem que a razão mais importante a levar Jesus a mudar de paradigma e a aproximar-se mais vezes do 4x2x3x1 terá sido a qualidade de uns e outros. Tal como no Benfica, não é possível saber como seria um Sporting com Markovic e Campbell e sem Ruiz ou William. Mais vertigem e menos controlo, mas não necessariamente melhores resultados.No dérbi, fundamentalmente, o que decidiu foi a qualidade. A qualidade de Ederson em algumas defesas importantes, mas sempre tendo em conta que Rui Patrício também fez uma de grande nível. A qualidade de Rafa, de Dost, de Gelson, numa tarde em que nenhuma das duas equipas teve defesas laterais à altura dos acontecimentos. Semedo teve problemas com Bruno César e depois com Campbell, André Almeida sofreu com Gelson, mas os dois ainda foram sendo capazes de disfarçar, enquanto que no Sporting nem Zegelaar nem João Pereira estiveram à altura da exigência do jogo: o holandês está nos dois golos do Benfica e o português foi diretamente batido por Jiménez no lance do 2-0, quando tentou fechar ao meio depois do envolvimento dos centrais.O resultado não fecha o campeonato, porque a derrota do Benfica na Madeira assegurou que ele ia continuar aberto. Mas serviu ao Benfica para afastar as nuvens negras que se aproximavam da Luz. Após duas derrotas seguidas e sobretudo num momento em que a equipa não anda a mostrar um futebol muito conseguido, o Benfica voltou a alargar a vantagem para o segundo classificado, porque este agora é o FC Porto. E caberá agora ao Sporting fazer a sua parte para afastar a crise de que terá de se falar devido às duas derrotas seguidas que implicaram o fim da Europa e o regresso aos cinco pontos de desvantagem para o líder. Sem nada a que se agarrar a não ser as competições internas, Jesus sabe que não tem mais margem de erro nas semanas que se aproximam se quer convencer a SAD a dar-lhe em Janeiro mas jogadores para atacar o grande objetivo da época.
2016-12-12
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O Benfica-Sporting de hoje contou várias histórias. O jogo foi bom, colocou frente a frente duas equipas muito distintas na forma de o abordar, e acabou por decidir-se a favor dos tricampeões nacionais sobretudo graças à facilidade que mostraram na chegada à baliza do adversário. Não foi uma questão de finalização, mas sim de capacidade para criar o mesmo perigo com menos volume de jogo.A estatística final mostrou números mais gordos para o lado do Sporting e não foi só porque os leões passaram mais tempo a correr atrás do resultado. Foi também porque graças ao regresso da construção a três - com recuo de William – o Sporting garantiu mais bola (e mais ataques, mais cantos, mais remates…). O preço a pagar foi o aumento de espaço entre setores, que o Benfica aproveitava para desenhar ataques mais rápidos e objetivos. Assim, mais elaborado e coletivo o futebol do Sporting, mais repentista e veloz o do Benfica, os rivais proporcionaram um jogo intenso e equilibrado em ocasiões de golo.Já se sabia que as duas equipas vinham em momento psicológico instável – o Benfica com duas derrotas seguidas, o Sporting na ressaca da eliminação europeia – pelo que o primeiro golo seria ainda mais importante do que é habitual. Pelo conforto que daria a quem o marcasse e pelas dúvidas que criaria em quem o sofresse. Fê-lo o Benfica, em contra-ataque, e isso veio naturalmente condicionar o jogo. O 2-0, instantes após um remate de Bas Dost ao poste, logo a abrir a segunda parte, podia ter acabado com a discussão, mas o que se viu aí foi um Benfica outra vez com dúvidas e um Sporting pouco afetado com o que estava a suceder-lhe. Jesus mexeu com o jogo através da entrada de Campbell, Vitória também quando voltou a baixar a equipa numa situação de vantagem, permitindo que a bola passasse a andar mais onde lhe é mais difícil controlar defensivamente as partidas: as trocas de Salvio e Guedes por Danilo e Cervi levaram a um recuo de linhas do Benfica que o Sporting podia ter aproveitado melhor para ainda sacar um ponto na Luz. Individualmente, os melhores foram Ederson e Rafa no Benfica, Gelson e Bas Dost no Sporting. Sinais de preocupação vieram das laterais defensivas dos dois lados. A diferença aqui é que se Nelson Semedo teve um mau jogo e dele se espera que volte ao nível habitual e se André Almeida é apenas a terceira opção dos encarnados para a lateral esquerda, no Sporting não há no plantel alternativas claramente melhores a João Pereira e Zeegelaar (o ocaso de Jefferson é um mistério). Coisa para se resolver em Janeiro, mas só se o Sporting lá chegar em condições reais de discutir a Liga.
2016-12-12
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Os momentos que antecedem o Benfica-Sporting foram marcados pela mais profunda normalidade. Sem fogo cruzado, ainda que com os dois treinadores empenhados em manter alguma incerteza acerca das equipas que vão fazer subir ao relvado da Luz. Sem provocações e com pedidos para se falar de futebol. Vamos a isso então, com a resposta a nove perguntas acerca do dérbi. 1 – O jogo pode ser decisivo para o campeonato? Não. Uma coisa era o Benfica receber o Sporting com cinco pontos de avanço e a possibilidade de alargar a vantagem para oito. Outra completamente diferente é entrar em campo dois pontos à frente. Mesmo uma vitória do Benfica não deixa os leões fora da corrida. Um empate acentua a noção de que a Liga volta a ser uma corrida à três, sobretudo se antes o FC Porto tiver ganho ao Feirense. E uma vitória do Sporting deixa os leões com vantagem pontual e psicológica para o que resta de campeonato, sobretudo tendo em conta que também já não estão na Europa e podem concentrar-se nas provas internas. 2 – Assim sendo, quem tem mais a perder com o jogo? Mesmo tendo em conta que até pode jogar com dois resultados (o empate deixá-lo-ia como a única equipa a ganhar um clássico na primeira volta), é o Sporting quem arrisca mais em caso de derrota. Porque o Benfica é o campeão em título, mas também porque o fracasso europeu aumentou a pressão sobre Jorge Jesus e Bruno de Carvalho. 3 – Quais são as maiores armas do Benfica? A forma como a equipa de Rui Vitória reage à perda da bola, condicionando muito a saída de bola dos adversários desde a primeira linha de pressão, graças à disponibilidade física e mental dos quatro homens da frente (aumentada se for Jiménez a jogar em vez de Mitroglou). Os problemas do Benfica começam se essa primeira zona de pressão falha a estancar o jogo adversário, porque depois disso a equipa de Vitória tem problemas tanto no controlo da largura (por vezes inferioridade numérica nas alas, por vezes espaço para progredir com bola após variações rápidas e certeiras de flanco) como da profundidade (Luisão não a garante como Jardel). 4 – E do Sporting? A organização ofensiva continua a ser a fase mais forte do jogo leonino, mesmo tendo a equipa de Jesus perdido controlo com a saída de João Mário e capacidade para criar espaço entre as linhas adversárias com a saída de Slimani, cuja busca incessante da profundidade era a melhor forma de encontrar espaço para Ruiz ou Adrien. Ainda assim, o crescimento de Gelson deu a Jesus uma força em lances de um para um que a equipa não tinha na época passada. 5 – Haverá surpresas nos onzes? Não acredito. Presumindo que o Sporting vai mesmo ter Adrien e Gelson, penso que Jesus vai entrar com Bryan Ruiz e Bruno César, desta vez com este na esquerda para, com menos diagonais, condicionar a ação de Nelson Semedo. No Benfica, A dúvida é entre Jiménez e Mitroglou, sendo que em condições ideais acredito mais na titularidade do grego, mais jogador de área, porque com Guedes, Salvio e Cervi a equipa não precisa tanto da capacidade de pressão do mexicano. 6 – E Jonas? Assumindo que está em condições, talvez possa entrar perto do fim, mas só se o Benfica estiver desesperado ou com a vitória garantida. Caso contrário, parece-me que os 80/20 enunciados por Rui Vitória terão sido apenas para manter Jesus em dúvida acerca da possibilidade de o brasileiro poder aparecer. 7 – As derrotas europeias terão influência no jogo? É possível. No Benfica porque vem de duas derrotas seguidas, ainda que o facto de ter conseguido na mesma o apuramento para os oitavos de final da Liga dos Campeões possa servir de atenuante. No Sporting, o fracasso total, a incapacidade de atingir até à Liga Europa, pode ter levado a equipa a duvidar de si mesma, sobretudo porque o treinador não abdicou dos titulares no jogo com o Legia. Aqui falará mais alto a capacidade de Jesus para instigar uma resposta por parte dos jogadores. 8 – E a fadiga pode ser importante? Pode. Porque além de ter tido menos 24 horas de repouso, o Sporting teve de enfrentar uma longa viagem de regresso e um ambiente diferente, com temperaturas muito baixas. 9 – Que resultado convém mais ao FC Porto? Sem dúvida o empate. Porque lhe permite ganhar pontos aos dois, porque não moraliza Benfica nem Sporting.
2016-12-10
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Que o Sporting tenha sido afastado da Liga dos Campeões, num grupo onde teria de ultrapassar Real Madrid e Borussia Dortmund, foi natural. Mas que o Sporting tenha depois ficado fora da Liga Europa, afastado por um Legia Varsóvia que tem apenas dois ou três jogadores acima do razoável e que há mais de 20 anos não ganhava uma partida sequer na Champions já é uma anormalidade que só a falta de estatuto europeu e uma invenção de Jorge Jesus na Polónia pode explicar. Se a ideia era ficar fora da Europa para se centrar nas competições nacionais, Jesus bem podia ter levado a equipa B e poupado os titulares para o dérbi com o Benfica que aí vem. Assim, entrará na Luz com uma equipa cansada, desmoralizada e com mais pressão em cima da cabeça. No dia em que o FC Porto se juntou ao Benfica nas 16 melhores equipas europeias, algo que o futebol português só tinha conseguido uma vez, à entrada de 2009, o Sporting voltou a mostrar ao Mundo que lhe falta aquilo que é preciso para vingar a este nível. E tudo começou na equipa montada por Jorge Jesus. Repetiu os três defesas-centrais que tinha escalado em Dortmund – com o mesmo resultado, a derrota por 1-0 – mas desta vez juntou a essa originalidade a colocação de Bruno César a ala direito, de Gelson mais por dentro e de um também cada vez mais inexplicável Markovic nas costas de Bas Dost. O resultado foram 45 minutos oferecidos aos polacos, com um Sporting à procura de si mesmo, lento por falta de referências e incapaz de compreender a melhor forma de ocupar os espaços, como se viu no golo polaco, marcado em inferioridade numérica na área leonina. É verdade que, depois de dar avanço, Jesus corrigiu e o Sporting melhorou, tendo ficado perto de empatar – André falhou dois golos cantados – mas nem isso serve para atenuar o embaraço que é não ter conseguido fazer um único golo a uma equipa que tinha encaixado 24 nas cinco partidas anteriores da Champions. Fora da Europa em Dezembro, o Sporting terá agora condições para repetir a época que fez sob o comando de Leonardo Jardim, na qual se concentrou na competição interna e fez alguma sombra ao Benfica de Jesus. Este desfecho, porém, vem na pior altura, pois os leões perderam hoje a vantagem emocional que teriam sobre um Benfica que entra no dérbi com duas derrotas seguidas. Quando subirem ao relvado da Luz, no domingo, os jogadores leoninos não estarão apenas fatigados e desmoralizados: vão com a noção de que não podem falhar, porque jogam ainda mais ali do que seria de prever nesta altura do ano. É menos provável, porém, que Jesus repita os três centrais.
2016-12-07
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A derrota contra o Napoli, mas sobretudo a forma como os italianos foram tantas vezes capazes de expor as debilidades que a equipa do Benfica ainda revela serão as duas maiores preocupações na cabeça de Rui Vitória na noite em que, mesmo perdendo, celebrou um justo segundo apuramento consecutivo para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões. A Europa, porém, pode esperar, porque o que aí vem é o escaldante dérbi com o Sporting, onde o tricampeão nacional põe em risco a liderança na Liga. E aí os problemas de hoje até podem voltar para assombrar o treinador. Porque mesmo que Jesus os não conhecesse, teria tido a oportunidade de os ver. O facto de vir de duas derrotas seguidas (contra o Marítimo e o Napoli) tanto pode provocar no Benfica um sentimento de insegurança como a vontade urgente de superação. A verdade é que as duas derrotas acabam por ser muito diferentes. Mais devida a falta de concentração, alguma sobranceria e até uma boa dose de passividade própria de quem acha que tudo se resolverá a encaixada na Madeira; mais natural e saída das próprias debilidades a que o Napoli impôs na Luz. Mesmo quando ainda estava espacialmente concentrada nos 25/30 metros da sua organização defensiva, quando o ritmo de reação à perda ditado por Gonçalo Guedes ainda imperava no campo, o Benfica viu os italianos serem capazes de o desequilibrar sempre da mesma forma: com passes diagonais a explorar as costas dos seus laterais. Não é um problema nascido da falta de Grimaldo, porque não foi só André Almeida a comprometer: Nelson Semedo também foi réu neste particular, mais nascido da projeção ofensiva natural dos dois laterais e da falta de capacidade defensiva demonstrada quando o adversário ultrapassa a feroz primeira linha de pressão encarnada. Fejsa, sozinho, nem sempre consegue disfarçar. Pior, porém, aconteceria quando, seguro face à goleada que o Besiktas já embrulhava em Kiev, Rui Vitória abdicou de Gonçalo Guedes – poupança para domingo? – e o Napoli trocou o corpulento Gabbiadini pelo repentista Mertens. Tal como em Istambul, após a perda da capacidade defensiva de Guedes, o Benfica sofreu dois golos quase seguidos. E se isso pode ser resolúvel, outras questões podem implicar a necessidade de uma decisão. Os problemas de concentração de Lindelof – eventualmente originados pelas vozes de mercado – estiveram na origem do primeiro golo italiano, enquanto que as dificuldades de Luisão face a avançados rápidos a mudar de direção se somaram à falta de solidariedade defensiva dos extremos (no caso Salvio) para gerar o segundo. Não são questões fáceis de resolver – a projeção ofensiva de laterais e extremos é preciosa para a máquina atacante que este Benfica também é – mas esperará Rui Vitória que sejam irrelevantes no domingo. O problema é que Jorge Jesus até já tinha dito que só estava 90% focado no jogo de Varsóvia e os 10% restantes já estarão a pensar na forma de as explorar.
2016-12-06
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Os dérbis entre Benfica e Sporting sempre foram um jogo à parte na história do futebol português, mas nunca terão sido marcados por tantos “mind games” como na época passada, fruto da passagem de Jorge Jesus de um para o outro lado da Segunda Circular. Dos quatro desafios entre ambos que se jogaram em 2015/16, só o último não ficou marcado por trocas de galhardetes verbais – o que de certa forma vem contrariar a ideia segundo a qual os leões perderam o campeonato por causa da estratégia de polémica constante a envolver os rivais, pois esse foi o único dos quatro jogos que não ganharam. Esta época, porém, tudo parece mais morno. Ainda que o último fim-de-semana já tenha representado um ligeiro aquecer de reatores, a que a semana de Liga dos Campeões pode ou não dar o devido empurrão. A época passada começou com Jorge Jesus ao ataque e Rui Vitória muito mais recatado. Por uma questão de personalidade – mais confrontacional a do atual treinador leonino, muito mais professoral a do técnico benfiquista. Os resultados favoráveis ao Sporting (1-0 na Supertaça, 3-0 na Luz para a Liga e 2-1 em Alvalade para a Taça de Portugal) ainda levaram a um extremar de posições por parte de Jesus, cujo ego, já se sabe, supera em muito o muito que já é capaz de fazer à frente de uma equipa. Passou-se do “eles perderam o cérebro” ao “pu-lo deste tamanhinho” e ao “nem o vejo como treinador”. Ao mesmo tempo, estas constantes provocações levaram ainda a uma tentativa certamente ensaiada mas nunca bem conseguida de resposta por parte de Vitória, que definitivamente não está na sua praia quando se trata de confronto. Não quero aqui fazer juízos morais acerca de um e de outro. Acho mesmo que, dentro de determinados limites, estas provocações animam as bancadas, levam os adeptos a sair de casa e a defender as suas cores com outra paixão. Até porque, no final, elas não foram decisivas: o que ganha os jogos são as bolas na baliza. O que diz a teoria é que Jesus ganhará sempre no bate-boca, mas que terá perdido no campo porque as constantes provocações terão levado a uma muito maior união num adversário que nunca se importou de perder nos soundbytes desde que ganhasse nos relvados. A teoria, porém, também não tem necessariamente de estar certa. Porque da única vez que manteve o recato face ao adversário, Jesus perdeu o jogo (1-0 em Alvalade, para a Liga) e o próprio campeonato. A questão aqui é a de perceber porque esteve Jesus mais calado antes do quarto dérbi. Por falta de assunto, esgotados os temas de provocação? É possível. Por ter empatado em Guimarães na semana anterior, ter visto a vantagem diminuir e passar a correr ali o risco de ver o rival ultrapassá-lo na tabela (tal como pode acontecer agora ao Benfica de Rui Vitória)? É mais provável. Por entender que, já há oito meses na Luz, os jogadores rivais já não podiam ver as suas convicções acerca do velho e do novo mestre abaladas por declarações do primeiro? É ainda mais provável. O que transporta os “mind games” de Jesus para uma dimensão completamente diferente, da mera fanfarronice para a estratégia. Pode ser por isso, aliás, que o aquecimento para o Benfica-Sporting de domingo tem sido tão lento e que talvez até possamos assistir a um cumprimento cordial entre os dois técnicos antes e no final da partida que definirá quem fica na frente do campeonato. Para gáudio de todos os que defendem um desporto assético e impoluto, sem tricas nem ofensas. Não tenho, ainda assim, a certeza de que tal venha a acontecer. Porque apesar dos mornos dias anteriores, houve ali, de parte a parte, sinais de que há alguma vontade de condicionar na sala de imprensa o que vai passar-se no relvado. Começou Rui Vitória, ainda antes da deslocação ao Funchal, quando aproveitou uma pergunta da BTV acerca do departamento médico – dando-se até ao trabalho de mostrar alguma surpresa por essa pergunta ter sido feita – para vir defender os médicos postos em causa e para deixar no ar um nada enigmático “eu não ando nisto há dois dias”. Tradução: alguém anda a pôr na rua notícias acerca do nosso descontentamento com o departamento médico e não somos nós mas sim quem nos quer mal. Continuou Jorge Jesus, quando após a vitória por 2-0 frente ao V. Setúbal aproveitou para vir queixar-se da arbitragem, que anulou dois golos aos leões – quando nem nas derrotas é hábito vê-lo pôr em causa os árbitros. Tradução: já fomos prejudicados hoje, portanto não se atrevam a apitar de modo a que não gostemos no jogo da Luz. Os sinais estão lá. Os vulcões estão ativos, apenas à espera de um sinal para poderem entrar em erupção. E a semana europeia pode bem provocar ali alguma coisa. Antes de um jogo em que pode acabar de deitar ao lixo uma vantagem que já foi de sete pontos, o Benfica recebe o Napoli – que também precisa de pontuar – num jogo que, faça o Besiktas o seu papel em Kiev, pode ser de mata-mata. Um dia depois, o momento leonino pode ser afetado ou confirmado em Varsóvia – e francamente nem sei o que pode ativar mais Jesus, se a euforia ou a depressão – num jogo que pode mandar o Sporting para a Liga Europa ou deixá-lo sem provas europeias até final da temporada. Lá para o final da semana fazemos contas.
2016-12-05
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O FC Porto podia até nem ter ganho ao Sp. Braga, tão tarde apareceu o golo salvador de Rui Pedro, mas isso teria sido uma tremenda injustiça. Porque hoje, ao contrário do que tem vindo a acontecer em quase todos os jogos dos Dragões, só faltaria mesmo o marcador - e não era aquele que falhou a Nuno Espírito Santo em mais uma aula prática de educação visual, dada esta semana aos jornalistas. O FC Porto encostou à baliza a equipa que, antes do jogo, era terceira na Liga, e nem o facto de os minhotos terem ficado reduzidos a dez ainda na primeira parte serve de justificação para a tão grande diferença entre o futebol jogado pelos dois conjuntos. O que leva a questão da crise portista para outro patamar: se esta equipa sabe jogar, por que razão não o faz mais vezes e passou mais de oito horas de jogo sem fazer um golo, contra equipas bem mais fracas que Benfica e Sp. Braga, que lhe motivaram as últimas exibições de bom nível?À partida, ocorrem-me duas justificações. Uma é meramente futebolística e muito concreta. A outra entra na psicologia de balneário e tem o seu quê de adivinha. A mais concreta fala da ideia de jogo de Nuno Espírito Santo, uma ideia bem mais alicerçada nos momentos de transição do que nos momentos de organização. O FC Porto de Nuno é muito forte na reação à perda da bola - transição defensiva - e imediatamente após a recuperação da posse - transição ofensiva. Para que esta equipa possa exprimir-se na plenitude, é preciso que o adversário queira ter a bola. Ora a maior parte das equipas não é isso que pretendem, limitando-se a juntar as linhas à frente da sua área, abdicando de jogar e forçando os dragões a abusar do momento em que são menos fortes, que é a organização ofensiva.O grão de areia nesta explicação está no facto de o Sp. Braga também não ter tido qualquer interesse em jogar a partir do minuto em que ficou reduzido a dez, por expulsão de Artur Jorge. E mesmo assim o FC Porto jogou a bom nível. É verdade que havia Brahimi e Corona ao mesmo tempo ou que Layun dá mais qualidade no ataque do que Alex Teles, mas isso não me parece suficiente para explicar a diferença entre o FC Porto de qualidade que se viu frente a Benfica e Sp. Braga e a equipa apática e infeliz que se mostrou em Setúbal ou no Restelo. Aqui chegado, a melhor explicação que encontro tem a ver com a motivação do grupo. Que nos jogos com outros grandes aparece bem focado e nos restantes entra a achar que as coisas acabarão por se resolver mais cedo ou mais tarde. Isso só pode querer dizer que a mensagem não está a chegar devidamente ao balneário. E que a Nuno não basta substituir o marcador. Porque é improvável que lá chegue a fazer mais desenhos.
2016-12-03
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Dentro de todo o equilíbrio com que indiscutivelmente analisou a derrota do Benfica no Funchal, frente ao Marítimo, Rui Vitória disse não aceitar que alguém viesse considerar que os donos da casa tinham tido o domínio do jogo. “Não posso deixar que se diga que o Marítimo foi a melhor equipa”, sentenciou. São duas coisas diferentes, porém. Claro que o Marítimo não teve o domínio de jogo – nem o queria, de resto. Mas nunca devemos estar à espera que quem quer seja na nossa Liga precise ou procure esse domínio de jogo quando quer ganhar a um dos grandes do futebol português. Foi o caso hoje, num jogo cuja chave foi a troca da confiança pelo sentimento de fatalidade iminente que a sucessão de finais provocou nos encarnados. Usando a expressão também hoje elaborada por Nuno Espírito Santo, na antevisão do FC Porto-Sp. Braga, o Marítimo teve uma ideia para o jogo e defendeu-a como podia. A ideia não era atraente, não leva gente aos estádios, no final aproximou-se perigosamente do anti-jogo – como se aproximam todos os jogos em que os pequenos estão quase a bater o pé aos grandes, ainda que os adeptos achem que isso só acontece aos clubes deles – mas deu indiscutivelmente mais resultado do que a abordagem ingénua e passiva desta mesma equipa ao jogo na Luz, há dias, onde encaixou 6-0 do Benfica. Dir-me-ão que o ideal está no meio. Que bom era que os pequenos conseguissem sacar pontos aos grandes limitando-se a perder a passividade mas mantendo a positividade. E eu até concordo. Mas para tal precisaríamos de ter uma Liga mais equilibrada em todos os aspetos, a começar pelos meios disponíveis a todos. O Marítimo ganhou ao Benfica por várias razões, sendo que a estratégia de perda de tempo no final foi apenas uma delas. Antes disso houve uma entrada estrategicamente muito bem conseguida, reduzindo os espaços que os tricampeões nacionais costumam utilizar e criando até mais ocasiões de golo do que eles durante a primeira parte. Depois houve também o aproveitamento da pressão a que vem sendo repetidamente submetido um Benfica que salta de final em final a cada semana, seja na Liga ou na Europa. Se por um lado jogos houve já recentemente em que a equipa de Rui Vitória podia ter feito um resultado pior, tendo acabado por ganhá-los no detalhe, graças à confiança que se monta em cima da sucessão de bons resultados – aquilo a que genericamente se chama “estrelinha de campeão” mas que é muito mais do que isso – acaba por ser normal também que, confrontada com uma semana na qual não podia falhar, ela vacile e se deixe diminuir pelo mesmo sentimento de fatalidade iminente que afetou o Sporting de Jesus na Primavera passada. A diferença, aqui, vê-se no dia seguinte. Muito do que é feito este Benfica se verá já na terça-feira e no próximo fim-de-semana, contra Napoli e Sporting. Aumenta a pressão, aquece a Liga.    
2016-12-02
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Quando Rui Vitória afirma que o Benfica “funciona como um todo e não por departamentos” está a fazer o mesmo que o goleador que marca um “hat-trick” e vem a seguir dizer que não o conseguiria sem a ajuda dos companheiros ou o mesmo que o defesa-central que, após uma derrota pesada, se justifica dizendo que a missão de defender é de toda a equipa e não apenas da linha mais recuada. Isto é: pode até ter alguma razão, que as lesões não são só culpa dos médicos – mesmo daqueles médicos vistos na perspetiva mais alargada em que o futebol de hoje os transformou –, mas está sobretudo a querer ser politicamente correto e provocador ao mesmo tempo. O que não é nada fácil. O rendimento de uma equipa de futebol depende de muitos fatores. Da categoria dos seus jogadores, da qualidade do treino que fazem, da capacidade do treinador para os juntar e formar um coletivo forte, obedecendo a uma ideia de jogo coerente, da forma como o mesmo treinador desenha estratégias para os levar à vitória, mas também daquilo que a estrutura auxiliar faz para que os jogadores se sintam bem, focados naquilo que importa, da capacidade de resposta de massagistas ou médicos, da perspicácia dos scouts enviados a fazer relatórios acerca dos adversários, do apoio dos adeptos, do acerto das equipas de arbitragem, das condições meteorológicas… E podia ficar aqui até amanhã, nem que fosse para dizer o seguinte: dizer que dentro de uma equipa não há departamentos é errado. Claro que há. E que uns funcionam melhor do que outros. Em todas as equipas. O Benfica não é exceção. O que Rui Vitória pensou ao dizer aquilo foi que não vai entregar na praça pública quem quer que seja nesta cadeia que não estiver a funcionar da melhor maneira. Que tudo é analisado, que ele como chefe da equipa tem a missão de assegurar a melhor forma de funcionar e lidará internamente com o que estiver a funcionar pior. Por que não o disse assim? Porque assim não passava a mensagem que queria. Aquele “eu não ando aqui há dois dias” tinha múltiplos destinatários. Os seus jogadores, que podem até perder a crença no funcionamento no departamento médico e de planificação de treino, mas sobretudo os que estão fora do clube. Foi a forma que Rui Vitória encontrou para ser, ao mesmo tempo, politicamente correto e provocador. Porque com este alívio para a bancada, lançou no ar a suspeita de que as notícias segundo as quais Luís Filipe Vieira não estaria satisfeito com o departamento médico podiam ter sido plantadas com o intuito de desunir o Benfica. Se o foram ou não, não sei dizer. Mas sei que nada funcionaria tão bem como ter o próprio Luís Filipe Vieira a dizê-lo de viva voz e a reiterar a sua confiança nos contestados. Mesmo que isso fosse assim como ver Pinto da Costa renovar nesta altura contrato com Nuno Espírito Santo. E se não o fazem, um nem o outro, por alguma razão será.
2016-12-01
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Uma equipa que passa 430 minutos sem fazer um golo, como acontece atualmente com o FC Porto, pode queixar-se de muita coisa. Porque quem não marca um golo em mais de sete horas de futebol não tem apenas um problema de criatividade na organização do ataque, de ineficácia na finalização, de falta de qualidade de alguns elementos ou até de infelicidade face a algumas decisões. Tem esses problemas todos ao mesmo tempo. E no segundo 0-0 consecutivo contra o Belenenses de nada serviu a Nuno Espírito Santo recuperar Brahimi e Ruben Neves, cuja presença até vinha sendo reclamada há algum tempo, porque lhes faltou o contexto. Além de ser uma equipa mal trabalhada do ponto de vista do ataque organizado, a este FC Porto já lhe falta confiança em cada movimento, nota-se-lhe a indisponibilidade para assumir o risco de muitos jogadores, que com medo de falhar preferem jogar seguro a procurar o desequilíbrio – e nesse particular Brahimi até foi dos poucos que chamou a si as decisões de risco, acabando até por meter alguns bons cruzamentos na área. A questão é que essa predisposição para o risco também não é ajudada pela presença em campo de jogadores que estão num patamar claramente inferior de qualidade. E aqui, falo por exemplo de Depoitre. Porque quanto mais vejo jogar este lento e complicativo avançado belga mais me confunde que, mesmo com toda a sua altura, possa ser ele o reforço de ataque para uma equipa que quer ganhar a Liga e chegar longe na Champions. Não me recordo de um FC Porto com um avançado tão fraco desde que Tomislav Ivic “inventou” o comprido Vinha para a frente quando queria desbloquear jogos. E Vinha até chegou a fazer alguns golos, como os fará inevitavelmente Depoitre se continuar a jogar. Mas não resolveu, como não resolverá Depoitre, por mais que o treinador o faça jogar. O empate, mais um a chamar lenços brancos às bancadas onde estão adeptos portistas, pode até deixar Nuno Espírito Santo com vontade de acordar cedo para continuar a trabalhar amanhã, mas diminui-lhe ainda mais a margem de manobra e pode deixá-lo em breve sem razões profissionais para se levantar da cama. Contra o Sp. Braga e o Leicester, os adversários que aí vêm, só duas vitórias interessam, porque só ganhando aos minhotos os dragões regressam ao Top 3 da Liga e só batendo o segundo terão a certeza de seguir para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões sem depender do resultado entre Copenhaga e Brugges. E para isso são precisos golos.
2016-11-29
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Toda a gente que viu o Benfica ganhar ao Moreirense enaltecerá a prestação de Pizzi, autor dos primeiros dois golos dos encarnados. Mas para se perceber como é que um homem que joga como segundo médio consegue ser um dos melhores marcadores da equipa de Rui Vitória é preciso colocar os olhos mais à frente, na mobilidade de Raul Jiménez e Gonçalo Guedes. Sobretudo do primeiro, que foi a novidade apresentada hoje pelo treinador encarnado. É que a relação de Pizzi com o golo cresce exponencialmente com o mexicano em campo. Pizzi tomou parte em 19 partidas do Benfica nesta temporada, entre Supertaça, Liga, Liga dos Campeões e Taça de Portugal. Nelas, contabiliza 1603 minutos em campo e sete golos marcados. Mas comecemos então a detalhar as coisas. Destes 1603 minutos, 1071 foram com Mitroglou na frente e apenas 284 com Jiménez (há ainda a registar 23 minutos com os dois avançados em simultâneo e 225 sem nenhum deles). Ora a questão é que com Mitroglou à sua frente Pizzi fez três golos (um a cada 357 minutos), tendo marcado os outros quatro com Jiménez (um a cada 71 minutos). Os números explicam aquilo que os olhos vêem. Isto é, que Jiménez é um ponta-de-lança muito mais móvel, que sai mais da zona de finalização, dessa forma permitindo a entrada dos médios até junto do golo. Foi o que aconteceu no lance do primeiro golo do Benfica hoje, por exemplo, uma jogada que nasce em Jiménez na esquerda e acaba com remate de Pizzi na cara do guarda-redes. Mais a mais depois da quase crucificação de Mitroglou pela ocasião falhada em Istambul, que podia ter dado ao Benfica o 4-1, seria demasiado fácil concluir desde já que os encarnados deviam jogar com o mexicano em vez do grego. Mas não. O que estes números mostram não é que seja melhor para o Benfica jogar com Jiménez. Mostram, sim, que a entrada do mexicano muda a forma de atuar de Pizzi, que lhe pede outras responsabilidades, e que o transmontano, sendo um jogador inteligente, não lhes foge como podia fazer. E mostram ainda que o Benfica tem mais de um método para chegar ao golo, o que, mesmo tendo em conta a predileção encarnada pelas conclusões em transição e ataque rápido, acaba por ser um ponto a favor do trabalho de Rui Vitória.
2016-11-27
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Os 340 minutos de futebol que o FC Porto leva sem marcar golos desde que Diogo Jota faz o 1-0 frente ao Benfica, no Dragão, há três semanas, chegam para justificar o ar resignado com que Nuno Espírito Santo se apresentou hoje na sala de imprensa do Restelo, após o empate com o Belenenses. O resultado foi mau, porque deixa os dragões dois pontos atrás do Sporting e pode levar ao aumento da desvantagem face ao Benfica para sete pontos já no domingo. E foi flagrante a diferença no olhar do treinador face à chispa confiante que se lhe tinha visto, por exemplo, após a vitória por 3-0 sobre o Arouca, enquanto desenhava para a plateia de jornalistas os pilares em que queria ver a sua equipa assentar o jogo. Hoje não faltou comunicação, compromisso ou cooperação. O que mais faltou foi qualidade. O que mudou desde esse jogo com o Arouca? Ou desde a muito boa exibição contra o Benfica, há três semanas, onde a qualidade ficou à vista de todos? Estas são perguntas com respostas diferentes. As diferenças entre o FC Porto de todos os dias e o FC Porto que encostou o Benfica atrás têm a ver com fatores tão díspares como a motivação dos jogadores para um clássico ou um maior investimento do treinador no delinear da estratégia. O jogo com o Benfica, com variantes interessantes, como a derivação de Oliver para a meia-esquerda, onde com Alex Telles e Otávio foi capaz de tapar a saída a Nelson Semedo e desequilibrar o Benfica, teve dedo de treinador. Tanto na forma como o FC Porto subjugou o tricampeão nacional como mais tarde na forma como lhe permitiu vir à procura do empate, quando tirou do campo quem tinha capacidade para ter a bola. O jogo com o Arouca foi diferente: o FC Porto fez uma muito boa exibição sobretudo porque aquele que é o ponto fulcral do “jogar à NES” – a reação forte à perda da bola – chegou para quase impedir o opositor de sair dos últimos 30 metros. Começando muitas vezes a atacar ali à frente, asfixiou o adversário, dando o mote para justificar uma ideia recorrente acerca deste FC Porto: bom não é ter a bola; bom é que o adversário a tenha, para poder recuperá-la em condições de o surpreender na transição ofensiva. O problema coloca-se quando a frescura física e mental dos jogadores envolvidos nessa pressão não é a ideal ou quando o adversário tem mais categoria e consegue sair da teia, como fez o Belenenses hoje. Aí, o jogo é transportado para outro segmento: o da qualidade. E aqui, o FC Porto não tem conseguido fazer a diferença com os onze que entram nem com as alternativas. Ainda hoje se viu: Depoitre por Jota, para dar peso na áera e tentar superar as condições meteorológicas adversas com um jogo mais direto; André André por Oliver, talvez para ganhar intensidade de pressão, mas seguramente não capacidade para desequilibrar; e Varela por Otávio, quem sabe se para ganhar largura e um jogo mais retilíneo, ainda que com a consequência natural de, sem Oliver e Otávio, a equipa sentir ainda mais a falta de um médio que lhe dê qualidade em ataque posicional, como seria por exemplo Ruben Neves. A verdade é que nenhuma resultou e que o olhar pesado de Nuno Espírito Santo não faz prever que ele venha a ser agora tão claro como foi na semana passada, quando disse que a falta de golos ia deixar de ser assunto.
2016-11-26
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O empate do Sp. Braga na Bélgica, arriscando vir a fazer depender a continuidade na Liga Europa do resultado frente ao poderoso Shakthar Donetsk de Paulo Fonseca, na última jornada da fase de grupos da prova, não pode ser visto apenas à luz das declarações do diretor financeiro do Benfica, Domingos Soares Oliveira, que veio protestar contra os prémios insignificantes da competição quando comparada com a Liga dos Campeões. Disse Soares Oliveira que o dinheiro que se ganha na Liga Europa é tão pouco que nem os clubes portugueses a levam a sério. Mas nem todos podem pensar assim. Aliás, nem o Benfica devia pensar assim. A razão do dirigente benfiquista parece estar bem à vista, por exemplo, na carreira do Inter Milão, ontem matematicamente afastado dos 1/16 de final da segunda competição da UEFA depois de somar frente aos israelitas do Hapoel Beer Sheva a quarta derrota em cinco partidas, num jogo em que Stefano Pioli trocou cinco jogadores relativamente ao onze que empatou no fim-de-semana com o Milan. Para o Inter, a Liga Europa vale pouco mais de zero, porque o prize-money que ali pode alcançar não faz nenhuma diferença no orçamento da sociedade. Soares Oliveira assenta ainda o que diz na experiência do próprio clube português, que com Jorge Jesus chegou a duas finais da Liga Europa, depois de fracassar na Champions, mas colocando sempre a Liga interna à frente e poupando jogadores até à fase decisiva da competição internacional. Aliás, o próprio Jesus parece ainda pensar assim, não tivesse ele repetido depois da derrota com o Real Madrid que o Sporting tem de se afirmar primeiro em Portugal, para depois poder andar na Europa. Os prémios monetários que a UEFA paga pela progressão na Liga Europa são, na verdade, escandalosamente mais baixos do que na Champions. Nisso, Soares Oliveira tem razão. Se conseguir o segundo lugar no grupo, o Sp. Braga irá ainda buscar um valor na ordem do milhão de euros (um pouco mais se o fizer ganhando ao Shakthar, um pouco menos se se apurar empatando ou até perdendo o último jogo). Depois disso, cada eliminatória vai valendo mais à medida que a prova se aproxima do fim: 750 mil euros por chegar aos oitavos-de-final, um milhão para atingir os quartos, 1,6 milhões pelas meias-finais, mais 3,5 milhões se for finalista vencido ou 6,5 milhões se ganhar a decisão. Para uma equipa como o Sp. Braga, atenção, esses valores já fazem diferença. Aliás, já a fizeram para o Benfica nos anos em que chegou às finais. E não apenas pelo que pesaram na realização orçamental. É que a partir de certa altura os jogadores ganham visibilidade e tornam-se alvos mais apetecíveis no mercado, o que não é despiciendo para clubes de um país periférico e sempre a precisar de realizar mais-valias com transferências, como são os portugueses. E, mesmo que o Benfica tenha esse problema resolvido através da parceria que estabeleceu com Jorge Mendes, até à recente alteração das regras de escalonamento das equipas para o sorteio, privilegiando os campeões dos países mais bem colocados no ranking da UEFA, foi em grande parte aos pontos que foi somando na Liga Europa que os encarnados ficaram a dever as suas sucessivas colocações no Pote 1 da Champions e os grupos menos complicados que tiveram de enfrentar nesta competição. É também por isso que o apuramento para a fase seguinte da Liga Europa é tão importante para o Sp. Braga e até para o Sporting, que por ele vai lutar em Varsóvia, sendo um mal-menor para Benfica e FC Porto, que ainda podem continuar na Liga dos Campeões mas para quem a Liga Europa não pode ser uma hipótese desprezível. Por mais que os prémios não cheguem para virar a cabeça de quem faz as contas todos os semestres.
2016-11-24
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Que este é um Benfica cheio de contradições, já aqui foi escrito vezes sem conta. Mas o empate frente ao Besiktas em Istambul, após estar a ganhar por 3-0 a meia-hora do fim, foi o expoente máximo da bipolaridade encarnada, da forma como esta equipa é capaz de alternar o melhor com o pior. O melhor, com as armas do costume, durou uma hora e devia ter chegado perfeitamente para sentenciar o apuramento para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões. O pior, na incapacidade para controlar um jogo quando deixa de ter a bola, adiou tudo por duas semanas e cobriu a última jornada do grupo de incerteza, com a hipótese de Benfica e Napoli se defrontarem quase como se fosse em eliminação direta. O futebol está cheio de clichés que este Benfica desmente a cada vez que entra em campo. Rui Vitória tem muitos jogadores velozes na frente e para muitos isso faria todo o sentido numa equipa especializada em contra-ataque e ataque rápido, mas a rapidez de pernas e de decisão de muitos destes elementos transforma este Benfica numa máquina a jogar em ataque organizado, primeiro fixando as linhas defensivas adversárias no local onde têm de estar só para poder depois dinamitá-las. Foi a isso, que aliás já se vira nos 6-0 ao Marítimo, que se assistiu no arranque do jogo de Istambul e na forma como o Benfica chegou a 3-0. Depois, Vitória tem muita gente forte na reação à perda da bola, o que permite à equipa muitas recuperações altas, e devia transformar o Benfica numa máquina defensiva. E a verdade é que, na maior parte dos casos, isso acontece. Só que, fortíssimo em transição defensiva, na definição desse primeiro momento de pressão, este Benfica sofre essa reação inicial falha e a equipa se vê obrigada a fazer duas coisas: a passar mais tempo sem a bola e a abusar do momento de jogo que menos lhe agrada, que é a organização defensiva a qual todas as equipas que passam mais tempo sem bola se vêem obrigadas a recorrer. Aí, já se lhe notam lacunas de preenchimento de espaços. Claro que no empate de Istambul há erros à mistura: nem outra coisa seria possível quando se fala de uma recuperação de 0-3 para 3-3. Há erro de Lindelof na forma como concede o penalti que origina o segundo golo turco, há deficiências de agressividade no ataque à bola no golo do empate, como há também um erro de Rui Vitória na forma como, trocando Guedes por Samaris, leva a equipa para onde ela é menos forte – para trás. Guedes é uma das chaves do comportamento defensivo do Benfica na frente e apesar de toda a sua inteligência tática, Pizzi corre menos e não condiciona os adversários como ele faz. Tendo em conta que todas as equipas atacam e defendem com onze, a troca de um avançado por um médio defensivo não leva necessariamente a que uma equipa defenda melhor – leva, isso sim, a que ela defenda noutra zona. E essa troca de zona de foco defensivo custou caro ao Benfica.
2016-11-23
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Benfica, Sporting e FC Porto têm todos, esta época, uma jovem coqueluche. E não há como não ficar entusiasmado com o rendimento de Nelson Semedo, Gelson Martins e André Silva, as melhores notícias do futebol português nesta época. Por indiscutível mérito próprio e dos treinadores que neles apostaram, mas também – se calhar sobretudo – de quem desenhou os plantéis sem consagrados que viessem atrasar a sua natural imposição. Seriam os mesmos jogadores se Maxi Pereira e André Carrillo não tivessem desertado? E se Aboubakar não tivesse sido forçado ao exílio na Turquia? Duvido. Sempre achei que não há treinadores com vontade de apostar na juventude e outros menos propensos a isso. Todos os treinadores querem o mesmo, que é ganhar. Jorge Jesus, o treinador que o Benfica terá deixado cair por não querer abraçar o novo paradigma de aposta nos miúdos do Seixal, está agora a jogar reiteradamente com Ruben Semedo e Gelson Martins no Sporting, remetendo para o banco consagrados como Douglas ou Markovic. É por isso que sempre desconfiei dos que o acusavam de ter deixado que se perdessem talentos como Bernado Silva, André Gomes ou João Cancelo, todos eles hoje na seleção nacional, mas transferidos pelo Benfica antes de terem tido sequer a oportunidade de se afirmarem na equipa principal. Jesus foi bruto na forma como tentou matar os sonhos destes jovens, com a famigerada frase do “têm de nascer dez vezes”? Claro que foi. Jesus é bruto, ponto final. Já o tinha sido no passado e voltará a sê-lo no futuro. Faz parte da personagem que ele encarna. Mas daí a ser o único responsável pelo facto de aqueles três internacionais nunca se terem afirmado na Luz já vai uma distância que me recuso a percorrer. Vejamos o caso de Cancelo, atualmente titular na lateral direita da seleção, depois de quase ter passado diretamente do Benfica B para o Valência. Cancelo pouco jogou no Benfica porque à sua frente estava Maxi Pereira. E agora olhemos para Nelson Semedo, que do meu ponto de vista é até superior a Cancelo, sobretudo na forma como defende. Seria ele o jogador que é se Maxi tivesse ficado no Benfica em vez de assinar pelo FC Porto? Claro que não. Porque lhe faltaria aquilo que faz verdadeiramente os grandes, que é a competição. A verdadeira mudança de paradigma no Benfica, o que permitiu nos últimos doze meses a afirmação de jovens como Renato Sanches, Nelson Semedo, Gonçalo Guedes ou Lindelof, tem mais a ver com a ausência de alternativas indiscutíveis no plantel – quase sempre por causa de lesões – do que com a mudança de treinador. Claro que, até pelo seu percurso ligado à formação, Rui Vitória trabalha melhor os miúdos do que Jesus, transmite-lhes uma confiança que este nunca seria nem alguma vez será capaz de transmitir. E isso também conta. Mas nem Nelson jogaria tanto se houvesse Maxi nem nenhum dos outros estaria hoje onde está sem as ondas de lesões que lhes deram as primeiras oportunidades. O mesmo vale, aliás, para Gelson Martins. Estaria Gelson onde está se Carrillo não tivesse querido mudar para o Benfica? Claro que não. Carrillo era no início da época passada o maior desequilibrador do plantel do Sporting e, mesmo tendo ele afirmado em entrevista que Gelson era o miúdo com mais talento que alguma vez tinha treinado, Jesus faria sempre a equipa com o peruano. Aliás, no íntimo e mesmo que o não diga, o treinador há-de estar convencido de que se Bruno de Carvalho não tivesse imposto o ostracismo a Carrillo a partir do momento em que este se recusou a renovar contrato, teria sido campeão. Afinal, ele tinha sido campeão em 2014/15 no Benfica, com Nelson Semedo na equipa B e Maxi a jogar durante meses, depois de se recusar a renovar. Sem Carrillo, a aposta em Gelson foi tão natural como a de Rui Vitória em Gonçalo Guedes quando se viu privado de Salvio e agora de Jonas. E, por mais hesitante que tenha parecido a primeira época, na qual Gelson terá nascido umas quantas vezes, o extremo é ao segundo ano uma das figuras da equipa e um fixo da seleção nacional. Nenhum caso será tão paradigmático, no entanto, como o de André Silva. Não se pode acusar José Peseiro de andar desatento aos jovens: foi ele que deu continuidade a João Moutinho, por exemplo, levando-o a jogar uma final europeia com 18 anos. E no entanto, na época passada, depois de dar a titularidade a André Silva, reverteu a aposta antes do clássico com o Sporting, recuperando Aboubakar. Quando lhe pediram para justificar a ausência de André Silva no Europeu, aliás, Fernando Santos até se deu ao luxo de dizer que tinha ido vê-lo ao clássico mas ele não tinha jogado. A administração portista terá encaixado a direta e, para evitar recuos na aposta naquele que pode ser o bastião do portismo nos anos que aí vêm, substituiu-se ao mercado: sem propostas por Aboubakar, mandou-o para a Turquia sem remissão, por empréstimo. E essa foi a forma de o FC Porto e a seleção ganharem o ponta-de-lança que fazia (a ambos) tanta falta.
2016-11-21
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A forma como o Benfica destroçou o Marítimo serviu a toda a gente menos aos adeptos da equipa madeirense, que têm ali muito com que se preocupar. Serviu aos benfiquistas para mostrarem que a sua equipa está fortíssima: afinal de contas, os 6-0 são sempre um resultado imponente, mais a mais se contra uma equipa do mesmo escalão. E serviu aos portistas e aos sportinguistas para fazerem valer a tese segundo a qual frente ao Benfica a generalidade das equipas de menor dimensão comete erros infantis: os três primeiros golos encarnados nasceram de bolas que os insulares chegaram a ter controladas, dentro ou pelo menos nas imediações da sua área. O que uns e outros ainda não perceberam, no debate permanente e sempre hiperbolizado ao extremo, é que estão a dizer exatamente a mesma coisa. Dizem os benfiquistas que o Benfica está muito forte e têm razão. A forma como o onze de Rui Vitória parece adormecer os adversários no início do processo ofensivo, com um ritmo propositadamente mais baixo antes de meter as mudanças de velocidade à entrada dos últimos 30 metros, parte as defesas, que estão sempre obcecadas com a diminuição do espaço entre linhas, explorando-lhes as deficiências no controlo da profundidade e da velocidade. Seja por dentro ou por fora, seja no corredor central ou nas alas, o Benfica mete muitas vezes gente com bola atrás da última linha dos adversários e isso resolve-lhe os jogos. Depois, dizem os adeptos rivais que toda a gente parece facilitar a tarefa ao Benfica e, olhando pelo menos para o jogo desta noite, também tiveram razão. Aqui, as razões são duas. Por um lado, a pressão que a equipa de Rui Vitória mete na saída de bola dos opositores convida ao erro. Por outro, a falta de capacidade que estes mostram para tirar a bola das zonas de pressão leva ao reiniciar do processo e a mais uma vaga de ataque do Benfica. No fundo, a explicação para este Benfica avassalador com os pequenos e mais débil nos jogos com equipas do seu nível escreve-se com uma palavra: investimento. A qualidade do Benfica no processo ofensivo depende de duas coisas: das mudanças de velocidade e da posse de bola. A posse de bola depende de outras duas coisas: da capacidade para a recuperar rapidamente e da qualidade que o adversário (não) tem na sua circulação, de forma a conseguir mantê-la. Quando o adversário consegue, como o FC Porto, ter a bola e iludir esta primeira pressão – e a generalidade das equipas mais fortes têm gente capaz de sair a jogar – transporta o jogo para zonas e momentos nos quais o Benfica investe menos e é capazes de expor as debilidades que esta equipa tem. Por isso, nem o Benfica está uma equipa perfeita e imbatível, nem os adversários perdem os jogos de propósito. E em nome da sanidade do debate, seria excelente que uns o outros compreendessem isso.
2016-11-19
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O facto de ter sido André Silva, sempre um dos melhores da equipa, a falhar o último penalti na eliminação do FC Porto da Taça de Portugal, em benefício do Desp. Chaves, pode até retirar um pouco de peso à decisão tomada por Nuno Espírito Santo, que antes mandara Depoitre bater a penúltima grande penalidade, tendo o belga também permitido a defesa a António Filipe. Não concordo com Jorge Simão, treinador dos flavienses, que reduziu o desfecho de um desempate por penaltis à sorte – e creio que o guardião do Chaves, que defendeu três remates, também não concordará – mas o que se espera do FC Porto numa eliminatória como esta é que não deixe as coisas chegar tão longe. E, nesse aspeto, bem mais penalizadora que a escolha do até aqui desastrado Depoitre me pareceu a decisão de Nuno Espírito Santo não chamar ao jogo Brahimi, cuja criatividade poderia ter ajudado a desfazer o 0-0 que durou 120 minutos, a segunda metade dos quais com o FC Porto quase sempre instalado no ataque. Hoje estão de parabéns o Chaves e Jorge Simão, como é evidente. Mas este Chaves não me pareceu sequer tão forte como tinha demonstrado contra o Benfica, num jogo que perdeu com alguma infelicidade – o que é diferente de tê-lo perdido por azar. Não creio que tenha sido o Chaves a piorar, admito que tenha sido o FC Porto a bloquear sempre bem as saídas venenosas do adversário, o que lme eva a não ser capaz de dizer que os dragões tenham jogado mal. O FC Porto foi a melhor equipa em campo e, mais, a partir dos 60’, foi a única com andamento para chegar à baliza adversária. Fosse por incapacidade física, técnica ou tática, o Chaves – que tinha mostrado boas ideias no arranque do jogo – deixou de conseguir sair a jogar e aceitou o papel de saco de boxe: desde que o FC Porto não marcasse no processo, tudo estaria bem para os donos da casa. E a verdade é que o FC Porto não marcou. Nuno começou em 4x3x3, com dois extremos velozes e diretos: Varela de um lado e Jota do outro. Passou durante o jogo para um 4x4x2, com Depoitre perto de André Silva, motivando um jogo mais direto. Mais tarde chamou Evandro e Layun, mas deixou no banco Brahimi, que é possivelmente o mais criativo de todos os jogadores do plantel. Quando pela frente tinha uma equipa que baixava as linhas, que fechava todos os espaços de acesso à sua baliza e o importante era conseguir um golpe de prestidigitação, o FC Porto abdicou do seu jogador mais incontrolável. A não ser que existam fatores extra-rendimento desportivo desconhecidos de quem está de fora a justificar o constante ostracismo ao argelino, tudo parece resumir-se precisamente à imprevisibilidade do jogador, ao facto de ele ser tão incontrolável para os adversários como é para o seu próprio treinador. Mas é uma decisão de risco. E é uma decisão que não creio que Nuno Espírito Santo mantenha em Copenhaga, na terça-feira, se chegar a estar perante a possibilidade de se atrasar na obtenção de mais um objetivo, que é a qualificação para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões.
2016-11-18
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Sempre que um grande defronta um clube de muito menor dimensão em jogo da Taça de Portugal, a conversa mais frequente é acerca de motivação. Da falta de necessidade do treinador do clube mais pequeno motivar os seus jogadores, porque estes estarão já naturalmente espicaçados pela hipótese de se mostrarem a uma audiência muito mais ampla que a normal, mas também da dificuldade do responsável do clube mais forte em focar os seus homens num jogo de resultado previsível e onde estes terão muito mais a perder do que a ganhar. Essa não é, no entanto, a principal variável em campo. Muito mais importantes são a qualidade e o entendimento coletivo, já para não falar do ritmo competitivo ou da confiança que faltam quase sempre aos que aparecem ali como se aquela fosse a sua última praia. No Sporting-Praiense, o que permitiu aos açorianos ficar dentro da eliminatória durante boa parte da partida – na verdade até ao 3-1, que apareceu a meia-hora do fim – não foi a motivação por defrontar um grande ou por jogar em Alvalade. Foi o entendimento que os seus jogadores mostraram entre si, porque estão habituados a jogar uns com os outros e formam uma verdadeira equipa. Depois, o que permitiu aos leões dar a volta à eliminatória até ao 5-1 final não foi a vontade de mostrar serviço dos nove suplentes habituais chamados ao onze por Jorge Jesus, mas sim a qualidade dos dois titulares (Adrien e, sobretudo, Bruno César) que, por não terem jogado na pausa para partidas de seleções, ficaram na equipa inicial. Porque a motivação, nascida da tal vontade que os suplentes mais habituais podem ter de justificar mais chamadas à equipa, pode muito bem dar bons ou maus resultados: no Sporting, aquilo de que mais gente vai lembrar-se é de mais um jogo desastrado de Castaignos, com especial relevo para uma trivela que, a meio da segunda parte, mais pareceu saída de uma tarde de convívio entre solteiros e casados. Quer isto dizer que fazem mal os treinadores que, face a jogos desta natureza, mudam o onze de forma radical? Não. A questão é que os jogadores chamados para este tipo de jogos não são – não podem ser – tão maus como aparentam. Castaignos, por exemplo, tem uma história atrás dele e, por muito que a mais recente seja negra, tem de ser melhor do que o que se viu. Ou do que os dois golos de André, depois de o substituir, podem ajudar a fazer crer. O que lhe falta – a ele, como a Douglas, a Esgaio, a Jefferson ou a Alan Ruiz, por exemplo – é ritmo competitivo. E a confiança que nasce nele. Essa, porém, não vai aparecer por decreto.
2016-11-17
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Tenho evitado entrar na polémica do túnel de Alvalade, até porque não tenho nada de relevante a acrescentar ao que toda a gente viu: muita gente a portar-se mal, dos dois lados da barricada. Como não sou juiz, não decreto sentenças nem atribuo culpas. Como não sou advogado nem procurador, não faço a defesa de uns nem a acusação de outros. Sou jornalista. E os jornalistas aquilo que mais fazem são perguntas. É a única coisa que posso fazer neste caso. Deixo, assim, as perguntas que gostaria de fazer aos intervenientes neste caso, porque me parece que ainda não foram devidamente respondidas. Por que razão se dirigiu Carlos Pinho a Bruno de Carvalho de forma apressada e intempestiva, indo mesmo de braço em riste até ao confronto? Houve alguma provocação anterior feita por Bruno de Carvalho? O que disseram um ao outro nessa ocasião? O presidente do Sporting cuspiu na cara de Carlos Pinho? Ou mandou-lhe com vapor do cigarro eletrónico para a face? Se cuspiu e tendo em conta as acusações que foram feitas na altura (insultos e tentativa de agressão), isso não era suficientemente relevante a ponto de ter sido citado na conferência de imprensa que se seguiu pelo diretor desportivo do Arouca? Se vaporizou, isso é um comportamento digno? O que disse o steward a Carlos Pinho para, mesmo tendo ele os braços erguidos e abertos, o presidente do Arouca lhe ter dado um “safanão”? Acha digno tentar bater num homem cuja única intenção era, aparentemente, acalmar os ânimos? Para que estava o presidente do Arouca a chamar reforços de dentro do seu balneário? O que disseram os jogadores que compareceram por ali a acalmar a guerra aos seus presidentes? E os adeptos? Por acaso são capazes de se rever no comportamento dos respetivos dirigentes? Enquanto não souber a resposta a estas onze perguntas, não sou capaz de ter opinião acerca dos incidentes a não ser esta: ali, tirando os futebolistas, ninguém se portou bem. É por isso que gosto mais de falar de futebol.
2016-11-16
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Não há-de haver um adepto de futebol que não tenha gostado da resposta que a Federação de São Marino deu a Thomas Müller, depois de o craque alemão do Bayern se ter queixado da perda de tempo que é ter de defrontar equipas como aquela nas eliminatórias do Mundial. Entre os que se emocionaram com os dinheiros que vão para a construção de campos nas escolas, os que se riram com a imagem das sandálias com meias brancas, tão própria da falta de gosto dos alemães, e os ficam felizes por ser possível a amadores defrontarem os campeões do Mundo, ninguém deixou de aplaudir. Mas agora que a festa está bonita, vamos lá a pôr um pouco de bom-senso na conversa e ver o lado correto entre as duas realidades. Não tenho nada contra os jogos entre seleções como a Alemanha ou Portugal e outras como Andorra ou São Marino. Como espetáculo valem pouco mais de zero e são, como alertou Müller, um “risco idiota”, porque alguém pode magoar-se sem haver nada em disputa, mas para os representantes daquelas nações aquele é sempre um momento marcante. Nunca defrontei Bobby Fischer ou Anatoly Karpov num tabuleiro, quando era aspirante a xadrezista, nem tive alguma vez a oportunidade de placar Jonah Lomu ou Julian Savea numa das minhas incursões pelo râguebi, mas uma vez, estava eu junto ao relvado onde a seleção nacional de futebol jogava aquele meinho que se faz sempre antes do treino a sério, e a bola veio ter comigo. E não só a devolvi para o grupo onde estava Ronaldo com um toque de primeira, como o fiz de pé esquerdo. Estranhamente, nenhum dos nossos internacionais valorizou o gesto técnico que eu acabara de protagonizar: continuaram todos na galhofa. Como digo, não tenho nada contra os jogos entre seleções como a Alemanha e equipas como a de São Marino. Acho contra-producente que se joguem nesta altura do ano, na qual os jogadores de top estão demasiado concentrados em competições de clubes, e por isso já propus que as datas FIFA para os jogos de seleção se concentrassem todas no final da época, de forma a evitar estas constantes mudanças de foco com as quais ninguém ganha a não ser as companhias aéreas que fazem voos de longo curso entre a Europa e a América do Sul. De resto, sou dos que acredita na componente aspiracional dos desafios de futebol: todos devem poder jogar contra todos, desde que mostrem mérito para tal, razão pela qual nunca achei que as eliminatórias dos Mundiais ou dos Europeus devessem jogar-se com duas ou três divisões e fui e serei sempre contra Superligas fechadas, sem subidas nem descidas, sem um modelo que permita a qualquer clube lá chegar. A realidade recente, porém, com a dissolução de tantas nações e o aparecimento de seleções com pouca razão de existir – Gibraltar, Andorra, qualquer dia o Vaticano, a Madeira, os Açores ou até o Baixo Alentejo – transformou a maioria dos calendários de seleções num aborrecimento quase permanente. Porque em cada dez jogos, as seleções de top só são verdadeiramente postas à prova duas ou três vezes. E isso não só vem complicar muito a vida a quem tem por missão exigir àqueles jogadores rendimento permanente como muda radicalmente o panorama que os adeptos da minha geração viveram ao crescer, onde as datas de seleções eram uma espécie de ponto alto do calendário. É isso que importa recurperar. E não se fará com muitos jogos entre a Alemanha e São Marino.
2016-11-15
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A seleção nacional completou com a vitória frente à Letónia o último compromisso previsto para este ano de 2016, dando a sensação de que tem tudo para ganhar sempre até à decisiva partida com a Suíça, daqui a onze meses, na qual definirá se vai direto ao Mundial de 2018 ou se tem de passar pelo play-off. O jogo do Algarve não foi brilhante, pode até defender-se que os 4-1 finais, sendo justos, não espelham a incerteza de que o resultado chegou a rodear-se, mas basta olhar para a totalidade de recursos de que esta equipa dispõe para se entender que ela nunca pode ficar fora do Mundial. Não é por ser campeã da Europa. É por ter tantas e tão boas soluções para quase todos os problemas que possa vir a enfrentar. Todos menos um: a necessidade de se transformar numa equipa avassaladoramente ofensiva quando a oposição baixa de nível mas é, mesmo assim, suficientemente competitivo para criar problemas, como a Letónia ou a Hungria. O jogo com a Letónia, quem acabou por ajudar mais a resolvê-lo foi Quaresma, com os dois cruzamentos para os dois golos com que a equipa respondeu de imediato ao problemático empate dos letões, a 20 minutos do fim. Mas é inevitável reparar que a seleção acabou o jogo com João Cancelo, André Silva e Gelson, todos eles jovens que não estiveram no Europeu de França e que demonstram que a renovação continua a ser feita e está assegurada pelo filão permanente que são os sub21 de Rui Jorge. Além disso, em campo também estiveram Guerreiro, William, André Gomes, João Mário ou Renato Sanches, todos eles ainda com muitos anos pela frente na equipa nacional. Ronaldo pode até ter noites menos felizes – e apesar dos dois golos e das duas bolas nos ferros o jogo de ontem esteve longe de ser perfeito para ele – que a equipa acaba por encontrar o caminho e chegar às vitórias. Pela frente, Fernando Santos tem agora quatro meses sem competição até ao jogo com a Hungria, uma espécie de primeira pré-eliminatória para definir em que condições a equipa chega à decisão final com a Suíça (a segunda será a viagem a Budapeste, que os suíços até já venceram). E apesar de eu estar convencido de que os suíços ainda vão escorregar pelo menos uma vez até ao último dia (e tanto a receção à Hungria como as duas saídas às Ilhas Faroé e à Letónia podem servir), o fundamental mesmo é a equipa nacional entender que não pode falhar e precisa de repetir o percurso sem faltas que completou na última qualificação depois do arranque em falso que foi a derrota com a Albânia. Desta vez a derrota foi frente ao outro candidato à qualificação e isso complica as contas, mas a maior preocupação do selecionador nem será provavelmente essa. Será sim o facto de esta equipa nem sempre estar a conseguir jogar coletivamente com a qualidade que os seus componentes poderiam justificar e de numa fase de qualificação nem sempre poder impor a estratégia do contra-futebol que lhe valeu na fase final do Europeu. Olhando para o plantel jogador a jogador, Fernando Santos tem mais de duas soluções de qualidade para cada posição e poderia até sentir-se tentado a construir uma equipa com uma filosofia diferente. Uma equipa mais dominadora, que soubesse corresponder aos pedidos de maior “velocidade” e predominância atacante, seria seguramente mais eficaz numa fase de qualificação. E a verdade é que Portugal tem jogadores para a construir. Depois corria era o risco de se transformar numa espécie de Inglaterra, a melhor equipa do Mundo em fases de apuramento e uma desilusão permanente nas fases finais, porque não sabe mudar o chip quando a oposição sobe de nível. E isso também não seria nada bom.
2016-11-14
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Passei grande parte do Portugal-Letónia a achar que a seleção nacional estava a jogar pouco por dentro e a procurar com demasiada frequência os dois corredores laterais, onde era quase sempre travada em situações de inferioridade numérica. No final, Fernando Santos veio à sala de imprensa reclamar que a equipa insistiu demais no jogo interior e que devia ter ido mais vezes à procura dos corredores laterais. E no entanto ambos queríamos dizer o mesmo: que a seleção estava a cair onde não tinha condições para criar situações de desequilíbrio e que por isso o seu futebol entrou em bloqueio atacante. O jogo com a Letónia acabou por se resolver nos corredores laterais, com a entrada de Quaresma. Só então, com o extremo do Besiktas de um lado e Gelson do outro (e mais tarde Ronaldo, quando o capitão encostou à esquerda e mandou o ponta sportinguista mais para dentro) Portugal começou a ter presença suficiente nas alas. Porque até aí Cancelo e Guerreiro tinham estado sempre muito abandonados, em virtude dos constantes movimentos interiores de João Mário e Nani, e eram quase sempre apanhados em momentos de um para dois com as duas duplas de duplas laterais que o adversário tinha, uma de cada lado. Se a bola chegasse à ala com rapidez suficiente para apanhar os adversários ainda a bascular, a mudar de um lado para o outro, até podiam criar lances de perigo, mas isso não era a norma. Na verdade, havendo adeptos de um jogo mais interior e outros de um futebol com mais largura, não creio que seja possível estabelecer a superioridade de uma das opções sobre a outra em abstrato. O que é importante é apenas e só a coerência. E se Fernando Santos queria jogo exterior, o erro foi ter entrado com dois alas que a cada oportunidade que tinham para o fazer vinham para dentro. A equipa só começou a ser ameaçadora no momento em que teve em campo gente capaz de executar a ideia escolhida pelo treinador: extremos flanqueadores para jogo exterior. E o problema não era de Nani e João Mário - a coisa também poderia resultar com os dois, desde que se mudasse a ideia e se apostasse mais nas tabelas entre as linhas do opositor para as penetrações pelo corredor central. É essa capacidade para dançar conforme a música que torna esta equipa forte e dá ao treinador garantias de que pode bater-se com qualquer adversário com chances reais de lhe ganhar. Desde que o faça com coerência.
2016-11-13
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Fernando Santos fez o seu papel ao alertar para as dificuldades que a seleção da Letónia pode vir a colocar a Portugal, mesmo (e sobretudo) tendo exagerado nas qualidades que atribuiu ao adversário. De resto, por tudo aquilo que têm dito durante a semana, também os jogadores parecem conscientes da realidade: este é um jogo que só pode ser para ganhar, tão grande é a diferença de qualidade entre as duas equipas. E mesmo tendo eu a convicção de que a Suíça acabará por perder pontos em alguma curva do caminho, a qualificação de Portugal decidir-se-á lá mais para a frente, no duplo confronto com a Hungria, marcado para Março e Setembro, antes de se jogar o fundamental Portugal-Suíça, no último suspiro da qualificação. Neste domingo, contra uma Letónia que ganhou a Andorra mas perdeu em casa com as Ilhas Faroe, uma seleção que já ficou em último lugar no seu grupo de qualificação para o Euro’2016 – ainda que empatando cinco dos dez jogos, quatro deles fora de casa, por exemplo frente a Islândia, Turquia ou Rep. Checa – Portugal tem tudo para ganhar. Não são a falta de Pepe, o desaparecimento da veia goleadora de Ronaldo no Real Madrid ou as dúvidas acerca do homem que o acompanhará no ataque que vão impedir a equipa nacional de somar mais três pontos e manter a pressão sobre a Suíça. Acredito que José Fonte e Bruno Alves chegam para o ataque letão, que a equipa pode manter dois laterais muito ofensivos, voltar a jogar sem médio centro posicional, colocar Nani numa das alas e entregar o centro de ataque a Ronaldo e André Silva e ganhar com tranquilidade mais três pontos. A batalha desta equipa, porém – e uma batalha que ela começou a ganhar no duplo confronto com Andorra e as Ilhas Faroe – é consigo mesma e passa por convencer-se que estas facilidades de calendário não podem implicar perdas de concentração ou divergências entre o discurso de empenho máximo que os jogadores vêm apregoando e a prática. Porque, repito, apesar de não acreditar que a Suíça possa chegar à última jornada com o pleno de vitórias – só a Inglaterra o fez na última qualificação, enquanto que nos grupos de apuramento europeu para o Mundial de 2014 ninguém cometeu tal proeza – aquilo que Portugal tem de fazer é repetir a caminhada 100 por cento vitoriosa que se seguiu ao arranque perdedor na última qualificação. E sobretudo tem de convencer o país de que é capaz de o fazer, para poder tê-lo às costas nos momentos decisivos. É por isso também que Fernando Santos diz o que diz. Porque isso é o que os jogadores precisam de ouvir neste momento.
2016-11-12
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Um jogador não faz uma equipa. Quando me perguntam o que conta mais para uma equipa ser grande, se os jogadores ou o treinador, inclino-me sempre mais para os que andam de chuteiras, mas o facto de Messi ainda não ter ganho um Mundial ou sequer uma Copa América com a seleção argentina permite todas as dúvidas. No rescaldo da derrota por 3-0 frente ao Brasil, que deixou a alviceleste provisoriamente fora das vagas de qualificação para o próximo Mundial, os comentadores argentinos viraram-se contra o melhor jogador. Mas acreditem: Messi não é o problema. Já se sabe que perder com o Brasil é a pior coisa que pode acontecer a um argentino, mas uma passagem pelo que se escreveu hoje em Buenos Aires deixou muitos ares de exagero, com o apontar de dedo a Messi e ao que chamam o seu “clube de amigos”. “Se o preço da sua chamada à seleção é continuar a chamar Di Maria, Agüero, Higuaín, Zabaleta ou Romero, prefiro uma refundação com um líder mais terra-a-terra”, escreveu Pablo Lafourcade no TycSports. “Se gostam tanto de estar uns com os outros, podem muito bem juntar-se numa mansão europeia a comer churrascos e a jogar cartas, mas na seleção não se pode vê-los mais”. Ora se quase todos estes jogadores são ganhadores a nível de clubes, o que está mal? Não se empenham? Faz pouco sentido a Argentina estar a apoiar-se em futebolistas que chegam fatigados dos seus compromissos europeus? Ou o que falta ali é a ideia de jogo? Messi, na ideia de jogo do Barcelona, faz a diferença. Vê-se isso todos os fins-de-semana e às terças e quartas-feiras na Liga dos Campeões. Na seleção argentina passa a ser um jogador banal. E a questão é que de nada serviria a Edgardo Bauza ver-se livre de Messi, como se ele fosse um empecilho, ou dos tais amigos que ele leva com ele à seleção, como se as eliminatórias do Mundial fossem aquele anúncio de batatas fritas com matraquilhos e uma taça pelo meio. Porque o que falta à Argentina é uma ideia, uma forma de coordenar os jogadores que tem com uma estratégia que lhe permita ganhar. Durante anos, Portugal andava convencido de que tinha os melhores do Mundo e queria jogar sempre bonito e positivo. Diziam que éramos o Brasil da Europa e nós, parolos, ficávamos todos contentes e deixávamos essa coisa de ganhar os jogos importantes para os outros. Quando Fernando Santos coordenou os jogadores que tinha à disposição com uma ideia de jogo, Portugal ganhou um Europeu. Com sorte? Claro. Não há outra forma de se ganhar quando não se tem os melhores. A Argentina tem feito um percurso inverso, dando quase sempre um tiro em cada pé. Usa jogadores burgueses e quer pô-los a jogar um futebol de operários. Já seria duvidoso que, com toda aquela qualidade, essa fosse a melhor aproximação. Mas é pior ainda quando ela é pedida a quem já não está habituado a ela há muito tempo. Deixem lá estar o Messi e a maior parte dos amigos dele. E entretanto arranjem uma ideia. Nem que seja a que Menotti levou em 1978 a uma das mais guerreiras seleções que alguma vez se sagrou campeã mundial. “A tocar, a tocar!”
2016-11-11
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Hoje lembrei-me de Tony Cottee. Não sabe quem é? Cottee é atualmente um simples comentador de futebol na TV em Inglaterra, mas aquilo que me levou a recordá-lo foram as declarações de Marco Verratti acerca do montante que é legítimo um clube pagar por um jogador. Porque Cottee bateu o recorde inglês de transferências em 1988, o ano em que comecei a minha carreira de jornalista e tinha a mania que sabia tudo acerca de futebol internacional. Na altura, quem perdeu a cabeça foi Colin Harvey, o manager do Everton, que pagou 2,2 milhões de libras (pouco mais de 500 mil contos, ou 2,5 milhões de euros, ao câmbio da época) para o contratar ao West Ham. E nunca chegou a justificar tão elevado montante investido: a ressacar a perda da equipa de Andy Gray, Southall, Gary Stevens ou Trevor Steven, o Everton não voltou a ser campeão inglês ou a brilhar na UEFA e, anos depois, Cottee estava de regresso ao West Ham como ponto de passagem para um clube na Malásia. Tudo isto a propósito de Verratti, o médio por quem Bayern, Chelsea e Juventus se têm interessado e por quem se diz que o Paris St. Germain pede 100 milhões de euros. Uns 40 Cottees, portanto. É certo que Verratti é muito melhor jogador do que Cottee alguma vez foi, mas aquilo que ressalta do que disse ontem é que também já vai bem lançado para o emular no comentário futebolístico. “Nenhum jogador devia valer 100 milhões de euros. É uma verba exagerada para toda a gente”, disse Verratti, continuando com o exemplo de Pogba: “Ele tem de mostrar todos os dias que pode ganhar um jogo sozinho”. E a verdade é que não pode. Os 100 milhões de euros são um exagero que só pode ser justificado fora de campo, por estrelas da magnitude de um Messi ou de um Ronaldo, arrastando para a mesa todas as dimensões do futebol-negócio. Pogba, com o devido respeito, não está ao mesmo nível nem dentro nem fora do relvado – por muito que a máquina do Manchester United possa potenciar o seu valor facial em termos de marketing. E Verratti muito menos. Só a total desregulação em que vive o mercado de transferências por estes dias poderia levar a tamanho exagero. E sempre com a certeza de que o destino o confirmaria como o Tony Cottee de 2017.
2016-11-10
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Algo de muito estranho se passa em Portugal para que, com dois vencedores da Bola de Ouro pela frente, toda a gente se preocupe sobretudo em saber, de um, se acha que o Sporting pode apanhar o Benfica na classificação da Liga e, do outro, que acaba de assinar uma renovação de contrato que o deixa em Madrid pelos próximos anos, se tenciona voltar a jogar no Sporting. Sei que Rui Costa estabeleceu um precedente invulgar, voltando ao Benfica depois de uma longa carreira em Itália – e não ganhou a Liga nesse regresso, que por isso não foi particularmente feliz nem para ele nem para o clube – e que quase todos os portugueses olham para o futebol não como um desporto, não como um negócio, mas como uma guerra de trincheiras. Como um nós contra eles. Um podemos nem ganhar nada com isso, mas depois de voltar do estrangeiro o craque x ou y provou que gosta é de nós e não deles. Como se isso importasse alguma coisa. Questionado sobre o regresso eventual ao Sporting, Ronaldo – para quem o futebol é uma profissão, na qual ele é parte fundamental de um mega-negócio, conforme se via só pelo facto de as perguntas serem parte da apresentação das novas chuteiras do craque – disse o que podia dizer. “Quem sabe aos 41 anos…” Essa é uma pergunta à qual, em bom rigor, ele neste momento não pode responder. Se o Real Madrid se fartar dele, se ele se fartar do Real Madrid, se não houver mais nenhum clube dos campeonatos de topo a querer contar com ele, se não houver nenhuma reforma num qualquer “Eldorado” onde ele possa impulsionar o negócio. São muitos ses. Bruno de Carvalho já disse que gostaria de o ter de volta, ele certamente também acharia graça à ideia, mas essa não é sequer uma questão atual ou uma questão à qual se possa responder de forma clara com um mínimo de honestidade intelectual. Inspirada na atualidade é a pergunta feita a Figo acerca da classificação da Liga, quando o antigo Bola de Ouro apresentava uma app de telemóvel destinada a ajudar na captação de talentos. Acha que o Sporting ainda consegue apanhar o Benfica? Figo lá balbuciou que sim, que é possível – e para o saber não é preciso ter sido Bola de Ouro – e que para bem dos sportinguistas era bom que isso sucedesse, mas certamente terá sido, pelo menos, surpreendido com a temática. Figo já não joga há uns anos e o futebol, para ele, já é mesmo só negócio. E se estivesse preparado para aquela pergunta até podia ter dito que sim, que o Sporting pode apanhar o Benfica na Liga, mas só porque o acordo que assinou com os encarnados para canalizar os jovens talentos captados pela sua app para o Seixal ainda não está em vigor. Fazia publicidade ao produto que estava a promover e respondia ao nonsense com nonsense.
2016-11-09
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As palavras de Nuno Gomes e Rui Costa acerca do negócio da formação, no “web summit”, casam melhor do que se pensa com as declarações do jornalista italiano Pippo Russo, em mais uma entrevista que este deu para promover o seu mais recente livro acerca do universo de Jorge Mendes. No fundo, ambos defendem a mesma coisa: um modelo de negócio que permita aos clubes florescer, tanto os ricos como aqueles que, como é o caso dos portugueses, vivem das mais-valias feitas com transferências no mercado internacional. A formação em futebol já não é o que era há uns 20 ou 30 anos, quando o FC Porto anunciava aos quatro ventos o primado do “jogador à Porto”, ganhando campeonatos com uma equipa cheia de futebolistas formados em casa. A globalização e a identificação dos jovens jogadores como um negócio em potência trouxeram desafios que Nuno Gomes e Rui Costa identificaram bem na conferência de hoje. Primeiro: por estes dias, o desporto para jovens paga-se. Segundo: por estes dias, os jovens com real talento nos clubes de mercados periféricos são detetados muito cedo e saem para os países ricos antes de poderem dar muitos títulos a ganhar a quem os forma. O modelo de negócio está no equilíbrio, na capacidade para, primeiro, iludir o crivo do poderio financeiro dos pais e, depois, fugir durante algum tempo à pressão dos grandes clubes para terem o próximo Ronaldo. Nuno Gomes deu o exemplo de Gonçalo Guedes e Bernardo Silva, dois jovens talentos cujos pais tiveram de pagar para que eles pudessem jogar nas escolas do Benfica. Ambos são já internacionais A, tendo o segundo saído por muito dinheiro para o Mónaco antes sequer de se afirmar na equipa principal do Benfica. Ora, o que teria sucedido se os pais destes jogadores não tivessem podido pagar para eles jogarem nas escolas do Benfica? Ter-se-ia perdido o talento? Certamente que não. Mas o Benfica iria perder o negócio. E é nesta busca de equilíbrio que está o segredo: em não impedir que os melhores acedam à melhor formação e em impedir, aí sim, que vão embora antes de contribuírem para a conquista de títulos. Porque só assim os clubes portugueses poderão cumprir o desejo de Rui Costa, que quer vê-los a competir no campo com os grandes de Inglaterra ou Espanha. Mas onde entra aí Pippo Russo? Na segunda parte da equação. Diz o jornalista italiano que, estando nas mãos dos grandes agentes e dos fundos de investimento, os clubes não ganham dinheiro. Que ganham nas transferências que fazem, mas como têm de manter o carrossel em funcionamento comprando igualmente caro, essa mais-valia esvai-se. Se olharmos para as dificuldades dos clubes portugueses em amortizar passivo, apesar das vendas que têm feito, teremos de concluir que tem alguma razão. Porque para vender caro, um clube tem de manter satisfeita a clientela. Ainda assim, estou convicto que nem um nem o outro lado da barricada no que respeita à relação entre clubes e fundos encontrou ainda a pedra filosofal da transformação da formação em negócio. Nem o Sporting, que rejeita fundos e super-agentes, não gasta assim tanto, mas depois também não tem a mesma facilidade de escoamento dos seus formandos no mercado internacional, como se viu nas propostas modestas que lhe chegaram pelos seus campeões da europa. Nem o Benfica ou o FC Porto, que trabalham com os super-agentes e os mega-fundos de investimento, conseguindo vendas milionárias mas sendo depois também forçados a fazer compras muito acima do preço de mercado. Esse equilíbrio, estou convicto, só chegará quando houver verdadeira regulação dos mercados. Mas, seja por razões políticas ou estratégicas, a FIFA, para já, não parece muito para aí virada.
2016-11-08
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Os clássicos têm sempre mensagens para quem as quiser ler. O de ontem, no Dragão, trouxe várias, mas a principal é que, continuando a ser o favorito, o Benfica ainda não pode cantar vitória na Liga. Não só porque não conseguiu ganhar e ampliar a vantagem sobre o FC Porto, caso em que o resto da época poderia ser a coisa mais parecida com um passeio de que há memória, mas também porque viu reduzida a que tem sobre o Sporting. Ainda são cinco pontos, em cima dos quais os encarnados podem fundar um favoritismo muito legítimo para chegarem ao tetracampeonato, mas a questão é que, pela frente, os tricampeões ainda têm mais três clássicos. E o de ontem voltou a mostrar como sofrem neste tipo de ambientes. A verdade é que o clássico mostrou um FC Porto perfeitamente capaz de se bater com o Benfica. Tivesse a equipa de Nuno Espírito Santo esta intensidade em todos os jogos da Liga e seguramente não teria empatado com o Tondela ou com o V. Setúbal e estaria em melhores condições para discutir o campeonato. Corona deu largura e repentismo, aliviando a pressão sobre Jota; André Silva conseguiu estar sempre em jogo, mostrando-se o jogador adulto que o BI diz que ainda não pode ser; e Oliver encheu o campo, a jogar atrás e à frente, a defender e a atacar sempre com qualidade. A questão, aqui, é sempre a de saber quando é suficiente e quando é preciso continuar a carregar. Contra o Benfica, com a motivação certa, a equipa portista deu provas de qualidade e encostou o adversário às cordas. Fez um golo, podia ter feito mais um ou dois, mas fracassou duas vezes. Falhou a finalizar quando se lhe pedia que fechasse o jogo e falhou no volume de jogo, quando achou que era altura de proteger o resultado mais perto da sua baliza e não de se manter a jogar alto, como até aí. E essa demonstração de fraqueza, o Benfica não a perdoou. Porque este Benfica pode sofrer sempre que defronta adversários do mesmo calibre, mas tem uma alma que só a conquista reiterada de títulos pode conferir a uma equipa. Há quem lhe chame estrelinha de campeão e dê à coisa ares de fortuna, mas nada podia estar mais errado: é nestas alturas que me lembro do que acontecia vezes sem conta ao Manchester United de Alex Ferguson, especialista em golos nos descontos. Mais. Lembram-se do empate em Alvalade, a uma bola, com um golo de Jardel nos descontos a dar ao Benfica de Jesus um ponto depois de ser dominado durante quase todo o jogo pelo Sporting de Marco Silva, lançando a equipa para o bicampeonato de 2015? No Dragão, ontem, passou a repetição desse filme. Ou a reprise do filme que teve como ator principal Kelvin, a dar ao FC Porto de Vítor Pereira o tricampeonato frente ao Benfica, em 2013. Rui Vitória continua a ter de gerir as constantes lesões – além de Jonas e Rafa, ontem faltaram-lhe Fejsa, Grimaldo e faltou-lhe Luisão a partir dos 20 minutos – mas continua a ser capaz de ir ao banco buscar alternativas para obter resultados. Lisandro, por exemplo, saltou do banco para ser o melhor jogador do Benfica: a ninguém como a ele assentaria tão bem o golo do empate. É certo que Samaris não confere à equipa a mesma competência de Fejsa nos momentos defensivos, mas até foram dele as primeiras duas situações de perigo no ataque: e na maior parte dos jogos, o que o Benfica tem de fazer é atacar. Os clássicos fogem à regra e é nesses que a equipa mais dificuldades tem sentido: o Benfica de Rui Vitória tem uma vitória e três derrotas com o Sporting e um empate e duas derrotas com o FC Porto, mas mesmo assim foi campeão e segue na frente da classificação, com vantagem folgada sobre os rivais. Cinco pontos talvez não lhe cheguem para mais três clássicos, mas a seu favor a equipa do Benfica terá sempre as outras 21 jornadas. É que nessas não costuma falhar. FC Porto e Sporting, por seu turno, não têm podido dizer a mesma coisa.
2016-11-07
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O empate entre FC Porto e Benfica, que deixa tudo na mesma entre as duas equipas no topo da tabela, resulta da excelente exibição do FC Porto durante cerca de 70 minutos, sempre a mandar no campo, mas também da reação benfiquista na ponta final de uma partida em que esteve encostado às cordas mas conseguiu ir ao fundo da alma buscar aquilo de que precisava para pontuar, já nos descontos. Sim, é verdade que até essa ponta final o meio-campo escalado por Rui Vitória nunca se impôs e o FC Porto podia até ter feito mais de um golo, mas também é certo que a reação benfiquista foi auxiliada pelas trocas feitas por Nuno Espírito Santo, a puxar a equipa para trás. Chegar aqui e decidir o que é mérito próprio ou demérito do adversário é conversa para ter na bancada dos sócios, que de qualquer modo andarão mais entretidos nas próximas horas a debater os méritos de decidir o resultado de um clássico no período de compensação. Essa impossibilidade chega até aos lances dos dois golos. No do FC Porto, há mérito na diagonal de Corona, a descobrir Diogo Jota, como na forma como este saiu de Nelson Semedo e chutou forte e colocado, mas também há culpas de Ederson, que permitiu que a bola entrasse entre ele e o poste mais próximo, o poste do guarda-redes. No do Benfica, viu-se um excelente cruzamento de André Horta e a habitual contundência de Lisandro nas bolas paradas ofensivas, mas também um erro de julgamento de Herrera, a ceder um canto despropositado, e a falta de resposta coletiva dos portistas, que não colocaram ninguém para impedir o canto curto e por terem voltado as costas à jogada deram todo o tempo e espaço do mundo a Horta para cruzar. O jogo foi muito interessante também no plano tático e estratégico. Nuno Espírito Santo fez o onze inicial que se impunha, mantendo Maxi Pereira e fazendo entrar Corona, para ganhar largura e repentismo no campo. Com uma excelente noite de Oliver – a melhor desde que regressou ao FC Porto – a equipa recuperava muitas vezes a bola ainda no meio-campo adversário, remetendo o Benfica a uma primeira parte com pouco ataque. Rui Vitória também fez o que se lhe aconselhava, não inventando e trocando os lesionados Fejsa e Grimaldo por Samaris e Eliseu, mas a equipa não respondeu. Fê-lo apenas quando, já em desvantagem, o treinador mexeu e devolveu Pizzi a uma das alas, mas com a incumbência de auxiliar Samaris e Horta, que a partir daí ficaram no meio, na batalha contra Danilo, Oliver e Otávio, que também procurava vir para dentro com frequência. Vitória ainda reforçou o ataque com Jiménez, ao mesmo tempo que Espírito Santo ia puxando a equipa para trás: Ruben Neves por Corona, Layun por Oliver e Herrera por Jota. Em consequência das trocas – e do resultado, também, como é evidente, pois era ao Benfica que competia fazer pela vida – o jogo foi-se aproximando da baliza de Casillas e o Benfica acabou por chegar ao empate. Ficou tudo igual na classificação, num jogo que mostrou três coisas. Que o FC Porto, afinal, tem intensidade para se bater com o Benfica e lutar pelo título. Que o Benfica continua a sentir enormes dificuldades para assumir o jogo quando enfrenta adversários do mesmo calibre. Mas que mesmo assim consegue resultados úteis e mantém-se na frente da tabela e por isso mesmo é ainda o principal favorito na Liga.
2016-11-06
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A alta competição tem-se tornado tão exigente, com um ritmo alucinante de jogos, que cada vez mais me convenço que só um milagre da genética que além disso é um fanático do trabalho e da recuperação, como Cristiano Ronaldo, pode estar ao mais alto nível durante uma década e meia. Entre os outros, os “mortais”, os inícios precoces começam por trazer vantagens mas depois acabam por acarretar custos. Pode até nem ser o caso de João Moutinho, mas lá que parece, isso parece. Além do talento indesmentível, da responsabilidade e de uma capacidade de trabalho e de compromisso em campo muito acima da média dos seus colegas, uma das maiores vantagens competitivas de João Moutinho sempre foi o facto de ter entrado na equipa principal do Sporting aos 18 anos e de, logo na época de estreia, se ter convertido num dos esteios de um onze que, com José Peseiro, chegou à final da Taça UEFA. É a competir que os jovens mais crescem e muitas vezes o facto de encontrarem esse espaço competitivo desde a mais tenra idade faz toda a diferença: veja-se, a título de exemplo, a importância do regresso das equipas B para a crescente afirmação das seleções nacionais de sub21. Isso pode é pagar-se com juros, como parece estar a suceder com o médio algarvio do Mónaco, mais uma vez lesionado e por isso mesmo fora da lista de Fernando Santos para o jogo de Portugal com a Letónia. É uma fase? Talvez. Tem a ver com a estadia no Mónaco, principado cujo glamour já tem na lista de baixas uma série de outros grandes jogadores mundiais? Quem sabe… João Moutinho terá ainda muito para dar ao futebol nacional, mas a forma penosa como passou pelo último Europeu, lutando a cada jogo com dificuldades físicas que o impediam de ser o equilibrador a que a equipa estava habituada, permite que se pense nos custos a pagar por uma carreira que, apesar dos 30 anos do jogador, já vai longa. Por alguma razão, depois da época de estreia no Sporting (26 jogos, em 2004/05), Moutinho esteve sempre acima dos 40 jogos por ano até chegar ao Mónaco, em 2013. E tirando esse ano de estreia em França, com a equipa fora das competições europeias, só na época passada voltou a baixar essa barreira que separa os gigantes competitivos dos outros. É que o conta-quilómetros não pára e no panorama atual da seleção nacional, com tantos médios de grande capacidade, só o melhor Moutinho pode bater-se por um lugar no onze.
2016-11-03
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A vitória do FC Porto frente ao Brugges, imitando o pleno de pontos nos dois jogos com os belgas que o Benfica tinha obtido contra o Dynamo Kiev, deixou os dragões em boa posição para se apurarem para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões, levando a que a deslocação a Copenhaga assuma a mesma importância que terá a viagem benfiquista a Istambul. Por sua vez, aliada ao surpreendente empate do Real Madrid em Varsóvia, a derrota do Sporting em Dortmund, que qualifica desde já os alemães, deixa os leões em maiores dificuldades para poder garantir a Liga Europa, mas permite-lhes manter a esperança matemática de se apurarem em detrimento do campeão europeu. Desde que o batam, em Alvalade, daqui a três semanas. Tudo somado, isto significa que vamos ter mais dispersão provocada pela Champions nas próximas jornadas da Liga. Com tudo o que isso pode significar. Um golo de André Silva chegou ao FC Porto para cumprir o caderno de encargos para hoje. Ganhou por 1-0 ao Brugges e justificou em pleno os três pontos. Entrando para as últimas duas jornadas com os mesmos sete pontos do Benfica, a equipa de Nuno Espírito Santo enfrenta menos dificuldades que a de Rui Vitória. Ambas visitam a equipa que lhes disputa a vaga na fase seguinte e acabam em casa contra o líder atual do respetivo grupo, mas enquanto que o FC Porto segue para Copenhaga com a certeza quase firme de que um empate chegará para carimbar o apuramento, ao Benfica esse mesmo empate no terreno do Besiktas pode exigir uma vitória na última ronda, frente ao Napoli. É que, empatando em Copenhaga e mantendo os dois pontos de vantagem sobre os dinamarqueses, o FC Porto beneficiaria de uma última ronda em casa contra um Leicester já apurado, na qual só uma derrota aliada a uma vitória do Copenhaga em Brugges implicaria a queda na Liga Europa. Por sua vez, empatando em Istambul com o Besiktas, o Benfica manteria um ponto de avanço sobre os turcos, mas em nenhuma ocasião poderia desprezar o resultado do último jogo, em casa com o Napoli. É que mesmo que ganhem em casa ao Dynamo Kiev, os italianos chegarão sempre a Lisboa a precisar de pontuar – e o empate no último dia é pouco para o Benfica, se os turcos ganharem em Kiev. No fundo, FC Porto e Benfica sabem que se qualificam de certeza com uma vitória e um empate. Essa – além de já terem garantido, pelo menos, a Liga Europa – é a grande diferença para a realidade vivida pelo Sporting. A equipa de Jorge Jesus melhorou face ao que tinha feito em Alvalade frente ao Borussia Dortmund, mas voltou a perder. Soma apenas três pontos e, tivesse o Real Madrid ganho em Varsóvia ao Legia, até estaria já fora da Champions. Assim sendo, com o empate dos campeões europeus face à equipa mais fraca do grupo, sabe que se ganhar em casa ao Real Madrid, poderá ainda continuar a sonhar com a qualificação na vez de Cristiano Ronaldo e companhia. Um sonho que não passa de uma quimera? Possivelmente – depois disso, os leões ainda precisariam de ganhar em Varsóvia e esperar que os madridistas perdessem em casa com o Borussia Dortmund, que até já está apurado e não precisará de gastar muita energia nessa noite. Mas será certamente o que basta para obrigar Jesus a investir no jogo de dia 22. Isso e outra coisa. É que de repente até a luta pela vaga na Liga Europa se complicou: a não ser que imitem a proeza dos polacos, que tiraram um ponto ao Real Madrid, e presumindo que o Dortmund não vai desinvestir na receção ao Legia, o Sporting ficou a saber que não pode perder em Varsóvia se quer continuar a ter UEFA para lá do Natal. Razão mais do que suficiente para que Jesus tenha de enfrentar os dois jogos que faltam com investimento total.
2016-11-02
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A importante vitória do Benfica sobre o Dynamo Kiev (1-0), que permitiu ao campeão português continuar bem vivo na Liga dos Campeões, teve o contraponto na infeliz lesão de Fejsa, que abandonou o campo a meio da segunda parte e está em dúvida, pelo menos, para o jogo com o FC Porto, no Dragão, no domingo, do qual depende muito do que será a Liga portuguesa nos próximos tempos. Rui Vitória já se viu a braços com tantas ausências – até Jonas – que há-de haver muito quem pense que mais uma, menos uma, não lhe fará assim tão grande diferença. Mas Fejsa é provavelmente o jogador mais difícil de substituir no Benfica. Porque se a falta de Jonas se sente mais quando o Benfica tem a bola – e portanto a capacidade de escolher caminhos alternativos – a de Fejsa nota-se sobretudo quando é o adversário a controlar a iniciativa. Fejsa é fundamental no processo defensivo do Benfica, porque é capaz de estabelecer o equilíbrio permanente da equipa, aparecendo onde faz mais falta. Depois, joga bem com o corpo, cobrindo a bola e impondo o físico no desarme. Samaris, em comparação, sai mais da posição, oferece mais de si próprio ao ataque, aparece mais até em posições de finalização, mas não tem a leitura de jogo do homem que hoje substituiu. E enganem-se os que pensam que Fejsa é irrelevante a atacar. Não sai com a bola em posse, não dribla, nem tem por hábito fazer golos – e Samaris até os faz com alguma frequência – mas não é de perder passes e até tem vindo a arriscar mais quando os faz, ligando por vezes com os avançados. Lembra-se das derrotas do Benfica na Liga do ano passado? Com o Arouca? Fejsa foi suplente. Com o FC Porto, no Dragão? Estava lesionado. Com o Sporting na Luz? Entrou para a segunda parte, já com 0-3 no marcador, mas magoou-se e teve de sair. E com o FC Porto na Luz? Estava outra vez lesionado. Na época passada, Fejsa não foi apenas campeão. Jogou apenas 22 minutos numa das quatro derrotas da sua equipa, e depois de esta já ter entregue o resultado. Aliás, não é por acaso que ele vem com oito títulos de campeão nacional consecutivos: campeão sérvio pelo Partizan em 2009, 2010 e 2011; campeão grego pelo Olympiakos em 2012 e 2013; campeão português pelo Benfica em 2014, 2015 e 2016. A vitória sobre o Dynamo Kiev deixa o Benfica relativamente bem posicionado para seguir em frente na Champions – precisa, na pior das hipóteses, de uma vitória e um empate nos dois últimos jogos, sendo que se a vitória vier em Istambul a última jornada será irrelevante – mas é seguro que esta noite Rui Vitória não estará tão preocupado a fazer contas a cenários de qualificação como à espera das necessárias 24 horas para que seja feita a reavaliação do estado físico do seu médio-centro. Porque se a equipa soube readaptar-se até à perda de Jonas – Guedes joga diferente, mas a equipa percebeu-o e mudou – mais difícil lhe será habituar-se a não ter Fejsa, cuja importância é mais dificilmente catalogável, por se notar sobretudo em que a iniciativa é do adversário.
2016-11-01
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Há um mundo inteiro de convicções entre Rui Vitória e Jorge Jesus. E são elas que ajudam a explicar os momentos vividos por Benfica e Sporting desde que os dois se enfrentam com estes treinadores no banco. Os adeptos só querem saber quem é melhor, mas isso é como perguntar a um analista político o que é melhor: a esquerda ou a direita? Responder a isso é entrar no domínio do gosto, da opinião. O melhor, no futebol, é sempre quem está à frente. Vitória e Jesus são, isso sim, diferentes, na ideia que têm do jogo e da liderança. Na época passada, o campeão foi o Benfica: logo, o melhor foi Rui Vitória. Durante toda a época, disse e escrevi que o Sporting tinha um futebol coletivamente mais bem trabalhado e que o Benfica ganhava mais graças ao primado da qualidade individual dos seus jogadores. Os adeptos do Benfica acharam que estava a menorizar o trabalho do seu treinador, mas sempre fui dizendo que não. Ser treinador é ser líder e ser líder é escolher a ideia que mais se adapta a um grupo de homens, fazê-la valer e levar a equipa a acreditar nela e a segui-la. Ao optar por dar uma maior liberdade de escolha aos seus jogadores, Vitória não só ganhou como estava a criar uma equipa que se adaptaria sempre melhor a qualquer eventualidade, um todo orgânico capaz de reagir a tudo. Como na verdade se adaptou e reagiu, por exemplo, à crise de lesões que a assolou neste início de época. Jorge Jesus é diferente. O futebol que o Sporting jogou na época passada foi sempre um futebol mais bem trabalhado do ponto de vista coletivo. As movimentações ofensivas postas em prática a cada jogo eram fruto de trabalho hiper-detalhista no campo de treinos, feito por um treinador que, ao contrário de Rui Vitória, dá pouca liberdade de escolha aos seus pupilos. Nas equipas de Jesus – já era assim quando ele treinava o Benfica, ou o Sp. Braga, ou o Belenenses – cada jogador tem de saber, ao milímetro, onde tem que estar em cada situação de jogo, para onde tem de correr, se deve pedir a bola ou procurar o espaço… Todas as situações estão previstas e têm uma resposta antecipada. O processo é menos humanizado, os jogadores acabam por transformar-se em peças de uma máquina, com uma função a cumprir. Se a cumprem bem, a equipa joga um futebol altamente mecanizado e eficaz; se falham, todo o coletivo entra em crise. O problema do método de Jesus é aquele que o Sporting enfrenta neste momento: a máquina perdeu peças fundamentais. O Benfica perdeu mais e mesmo assim ganha? Certo. Mas no Benfica, recordam-se, todo o processo valoriza mais a criatividade, a inspiração dos intérpretes. Falta Jonas? Entra Guedes, que joga diferente, muito diferente, mas o todo acaba por adaptar-se a essa diferença. Falta Gaitán? Entra Cervi, que também joga muito diferente, mas mais uma vez o coletivo acaba por se ajustar. Falta Sanches? Entrou Horta, primeiro, e aqui o coletivo sentiu algumas dificuldades, porque aquilo que Sanches dava à equipa era único e esta sofreu mais para se habituar à perda daquela capacidade de queimar linhas e esticar o jogo. Melhorou com Pizzi, jogador mais experiente, mas também porque o todo-orgânico que compõe a equipa já teve mais tempo para absorver a novidade. No Sporting, o primado da mecanização coletiva – em nome do qual Jesus usa tantas vezes a primeira pessoa do singular, porque na verdade é ele que desenha os movimentos da máquina – leva a que a equipa sinta mais, não tanto a ausência das peças que se foram, mas a incapacidade das que as substituíram para cumprir exatamente as mesmas funções, para fazerem os mesmos movimentos, quase ao milímetro. Não é tanto uma questão de qualidade como é de compreensão. É por isso que a perda simultânea de Slimani e Adrien – João Mário está a ser bem substituído por Gelson –, a juntar à saída de Teo Gutièrrez no início da época, tem conduzido à incapacidade da máquina para operar em boas condições e a esta sucessão de empates que deixou o Sporting a sete pontos de distância – e por isso um pouco mais longe de poder ser o melhor no final da época. Aquilo que Jesus tem de decidir agora é se o que está a pensar fazer não é substituir uma roda dentada por uma peça de formato diferente, que nunca encaixará ali, levando a máquina a encravar. Isto é: se os jogadores que entraram alguma vez serão capazes de fazer as movimentações dos seus antecessores ou se deve desenhar uma máquina nova, com outras mecanizações, que estas peças possam cumprir. É por isso que Jesus diz que tem jogadores que ainda estão a fazer pré-época com as competições em andamento, mas a verdade é que esta não é a primeira vez que passa por uma situação destas e que, nas ocasiões de anteriores transferências no último dia de mercado, nunca as suas equipas levaram tanto tempo a readaptar-se.
2016-10-31
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A forma como o FC Porto empatou em Setúbal permitiu perceber que, como é natural, por serem ainda recentes, os processos que Nuno Espírito Santo quer ver na equipa não estão ainda totalmente consolidados. A uma semana do confronto que pode definir os próximos meses de campeonato, a receção ao Benfica no Dragão, falta à equipa portista uma maior capacidade para explorar aquela que foi a sua maior arma, por exemplo, na vitória que foi buscar à Luz, na época passada, com José Peseiro ao leme: o controlo da largura em termos atacantes. E isso nota-se mais sempre que adota uma atitude mais conservadora e abdica de Brahimi e Corona, por exemplo. Com todos os jogadores disponíveis – desta vez regressou Otávio a Corona caiu do onze – já se percebeu que Nuno Espírito Santo aposta num meio-campo a quatro com grande propensão para jogar por dentro. Mais desequilibrador Otávio a sair da esquerda, mais dado ao fortalecimento do coletivo e aos equilíbrios Herrera a partir da direita. Pretende Nuno Espírito Santo que sejam os laterais a dar a tal largura atacante – a equipa faz sempre a saída a três, com Danilo entre os centrais, e Layun e Alex Telles subidos – e que a mobilidade dos dois avançados, Diogo Jota e André Silva, faça o resto no que toca à ocupação dos espaços. Só que, dando à equipa um maior volume de jogo, um maior controlo das operações, esta opção tem custos em termos de criação de desequilíbrios atacantes. Porque lhe tem faltado gente em condições de explorar o espaço deixado vago pela basculação defensiva do adversário e capacidade para, com essas variações de flanco, tirar mais vezes a bola das zonas de pressão. E só os laterais são curtos para isso. É verdade que o FC Porto – tal como o Sporting na véspera, na Choupana – até podia ter ganho em Setúbal: bastaria para tal que Bruno Varela não tivesse feito duas defesas impossíveis, a remates de Oliver e Jota. Mas o futebol que se viu à equipa foi menos completo do que aquele que se lhe tinha visto contra o Arouca, que raramente saiu dos últimos 30 metros do campo. Mérito do adversário? Seguramente: este Vitória joga mais e estava no seu estádio. Mas também falta do repentismo e da mistura de criatividade com rapidez que Corona deu ao FC Porto no jogo da semana passada ou da qualidade no um para um que lhe traz Brahimi. A grande decisão que Nuno Espírito Santo tem a resolver por estes dias é a escolha de quem pode sair do onze-base, porque o que salta à vista é que um dos dois extremos tem mesmo de entrar.
2016-10-29
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Se os sportinguistas quiserem ser honestos, sobretudo consigo mesmos, reconhecerão que o anti-jogo sempre existiu, que desde que há futebol se falham penaltis, e que a verdade é que a equipa de Jorge Jesus está mesmo a jogar demasiado pouco para poder justificar uma candidatura convincente ao título nacional. Sim, há um ano, depois de perder o dérbi, o Benfica também ficou a uma distância pontual da liderança que parecia impossível de superar – e superou-a. É verdade ainda que nessa altura também o Benfica jogava pouco, se afundava em dúvidas, enquanto que o Sporting voava – como acontece agora aos encarnados. E no entanto o Benfica foi campeão, porque os seus responsáveis souberam olhar para dentro em vez de apontarem baterias a tudo o que os rodeava. Fez, afinal, aquilo que Jesus defendeu antes da visita à Choupana: “Sem desculpas!” Se deixarmos de lado a partida da Taça de Portugal, contra o Famalicão, o Sporting não ganhou nenhum dos últimos quatro jogos. Segue-se a viagem a Dortmund, da qual vai depender o futuro leonino na Liga dos Campeões. E depois uma jornada fulcral, com a receção ao Arouca em dia de clássico no Dragão, entre FC Porto e Benfica. Correndo-lhe tudo bem, Jorge Jesus poderá continuar a manter esperanças na prova europeia e chegará à 10ª jornada a quatro pontos do líder. O treinador leonino tem, por isso, uma semana para sair desta fase a que chamou segunda pré-época e para encontrar as soluções que devolvam à equipa o futebol que chegou a jogar na época passada. Já aqui escrevi que, mais até do que a lesão de Adrien, o maior problema vivido neste momento pelo Sporting é a falta de Slimani, que deixa a equipa menos capaz em transição defensiva – logo, demorando mais a recuperar a bola e limitando-lhe o número e a zona de início dos ataques – e sobretudo em organização ofensiva, onde as caraterísticas do substituto encontrado (Bas Dost) são radicalmente diferentes e pedem a reformulação quase total do processo. Reconhecê-lo, admitir que aquilo que este Sporting está a jogar é demasiado pouco se for comparado com aquilo que produziu qualquer equipa de Jesus na última década, será meio caminho andado para encetar o processo da recuperação. A questão é que aquilo que os maiores adeptos de Jesus sempre apontaram – e com razão – como a sua maior virtude, que é a forma coletivamente trabalhada que as suas equipas têm de atacar, acabou por ser o seu maior problema assim que lhe faltaram algumas peças na máquina. Dando aos seus homens mais liberdade para decidirem, num futebol onde o primado do individual é maior, Rui Vitória conseguiu que o seu Benfica encontrasse a coerência interna que lhe permitiu superar várias contrariedades neste início de época, sob a forma de lesões de jogadores importantes. E isso voltou a ver-se na vitória clara, indiscutível e sem história que os encarnados obtiveram contra o Paços de Ferreira, num jogo onde o meio-campo Fejsa-Pizzi voltou a funcionar às mil maravilhas, onde a falta de Grimaldo não constituiu problema e onde Gonçalo Guedes foi outra vez fundamental a jogar atrás do ponta-de-lança.
2016-10-29
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A mais do que certa reeleição de Luís Filipe Vieira para um quinto mandato como presidente do Benfica não é sequer notícia. Seja porque o trabalho já feito na devolução do clube aos patamares de exigência competitiva no futebol – que é o que interessa aos sócios – está à vista de todos; seja também porque, em consequência disso, Vieira passou pelo segundo ato eleitoral sem qualquer oposição. Nesse aspeto, aliás, Vieira e o Benfica estão a fazer um percurso muito igual ao de Jorge Nuno Pinto da Costa e do FC Porto. E é nisso, mais do que nas “admiráveis manifestações de fervor clubístico” que os presidentes agradecem sempre aos sócios que se dão ao trabalho de ir votar em dias de eleições de lista única, que vale a pena debater em plebiscitos como o de hoje. Porque no futebol, nem a política é política. Vieira, que já era o presidente mais durável no comando do Benfica – completará 17 anos no final do mandato para que será hoje eleito – foi cinco vezes a votos, duas delas sem oposição. Nas três ocasiões em que alguém lhe disputou o cargo, no entanto, as suas votações foram arrasadoras: 90% contra Jaime Antunes e Guerra Madaleno em 2003; 91% contra Bruno de Carvalho em 2009; e 83% contra Rui Rangel em 2012. É uma realidade muito próxima da experimentada por Pinto da Costa, que no final da época passada foi eleito para um 13º mandato consecutivo à frente do FC Porto, os últimos nove sem qualquer oposição nas urnas. Aliás, o lendário presidente portista só teve um adversário em 34 anos: Martins Soares concorreu em 1988 (menos de 5% dos votos) e em 1991 (20% dos votos). E desapareceu de circulação até que, já neste século, a TSF o descobriu e lhe recolheu declarações de apoio ao trabalho feito pelo atual presidente Em comum, Pinto da Costa e Vieira têm a recuperação competitiva dos seus clubes. Mais completa a do presidente portista, que cinco anos depois de ser eleito estava a sagrar-se campeão europeu e mundial e a dar entrada em década e meia de hegemonia indiscutível no espaço nacional; mais restrita ao panorama interno a do líder benfiquista, que depois de um título atribulado ao segundo ano de presidência, ganhou quatro Ligas e esteve em duas finais europeias nos últimos sete anos. Fizeram um excelente trabalho, tanto um como o outro, e isso ajuda a perceber como se foram eternizando nos cargos. O mais difícil de entender, porém, é que mesmo assim não apareça ninguém com uma ideia diferente e disponível para se bater por ela. Sim, boa parte dessa abrangência tem a ver com a integração das diferentes sensibilidades no bolo cozinhado para cada ato eleitoral. Vieira, por exemplo, já o tinha feito com José Eduardo Moniz e voltou a fazê-lo agora com Fernando Tavares; Pinto da Costa ter-lo-á feito em tempos com Adelino Caldeira, o aliado que quis aproveitar das candidaturas de Martins Soares. E é aqui chegado que qualquer teorizador político pode alertar para o perigo que é a falta de massa crítica, o desaparecimento da oposição em qualquer organização. Mas o contraponto, fornecido a cada eleição pelo Sporting, não tem sido o mais feliz. Em 2011, as eleições mais disputadas na história recente do clube, com cinco listas concorrentes e vitória de Luís Godinho Lopes, com apenas 36% dos votos, deram lugar à maior crise competitiva de que o futebol leonino tem memória. E o facto de João Rocha (1973 a 1986) ter sido o último presidente a durar pelo menos uma década poderá ser apresentado como justificação para o declínio competitivo do futebol do clube, que ganhou apenas dois campeonatos nos 30 anos após a saída daquele seu importante líder. No fundo, o que falta explicar é se a falta de oposição leva às vitórias ou se são as vitórias que levam à falta de oposição. Seja como for, o fenómeno faz do futebol um palco único para os admiradores de plebiscitos e dos líderes totais a que eles dão azo.
2016-10-27
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Pinto da Costa esteve na exposição destinada a celebrar os 86 anos do andebol do FC Porto e, certamente a isso instado pelos jornalistas – a fazer lembrar o célebre “ainda bem que me faz essa pergunta” – não perdeu a oportunidade de falar daquilo que mais interessa, que é o futebol. Fê-lo para manifestar a sua confiança em Nuno Espírito Santo e no plantel, bem como para manifestar otimismo a respeito do que tem vindo a ver à equipa, tanto em termos de resultados como de espírito, e fez bem. De errado só mesmo a forma como descartou o que se passou nos últimos anos, como se tivesse acabado de chegar de uma viagem a Marte. Este FC Porto teve um início de época complicado, fruto da necessidade de adaptação às ideias do novo treinador e do facto de vir de três anos sem ganhar nada e, por isso mesmo, com um plantel diminuído na qualidade e na moralização. Ainda assim, a equipa respondeu quase sempre bem quando isso foi necessário. Aconteceu em Roma, quando correu riscos de ficar de fora da Champions – e todos sabemos como isso seria problemático para umas contas já a ameaçar o crash – e voltou a acontecer recentemente em Brugges, onde qualquer outro resultado que não fosse a vitória a deixaria em sério risco de desmobilização para a segunda metade do grupo da Liga dos Campeões. A exceção às boas respostas terá sido a visita a Alvalade, onde os dragões perderam com o Sporting, mas mesmo essa derrota terá sido atenuada pelas perdas de pontos sucessivos dos leões – também enfatizadas pelo presidente portista –, podendo ser completamente posta para trás das costas caso o FC Porto ganhe em casa ao Benfica, daqui a semana e meia. Vendo a equipa a crescer ao ritmo da afirmação de André Silva, um ponta-de-lança como o clube não via nascer desde Domingos, há um quarto de século, Pinto da Costa deu-lhe o empurrãozinho que muitas vezes faz a diferença. “Temos uma equipa, um plantel, como eu desejava, e como já não via há algum tempo”, disse, completando: “Nos últimos anos, nem todos os jogadores eram à FC Porto”. Talvez, fruto da longa experiência que já acumulou no cargo de presidente do clube, Pinto da Costa esteja a ver mais longe do que toda a gente, mas o que é mais estranho é que foi acima de tudo ele quem assinou por baixo a tão dispendiosa política de recrutamento dos últimos anos, os anos do Lopeteguismo. E que, depois de um ano sem nada ganhar, manteve a ideia e a política, jogando o “dobro ou nada” que se vê nos filmes e arruína tanta gente nos casinos. O que Pinto da Costa disse agora acerca do espírito criado por Nuno Espírito Santo no plantel do FC Porto é mais do que suficiente para garantir ao treinador a permanência no cargo, mesmo que, por esta ou aquela razão, ele acabe por não ganhar nada. Da mesma forma que o que ele disse da equipa após a derrota caseira contra o Tondela, em início de Abril, chegava a sobrava para que se percebesse que José Peseiro poderia até ganhar a Taça de Portugal que nunca iria continuar em funções na nova época. Mas não foi para nos garantir isso que Pinto da Costa falou agora. Fê-lo para dar o seu empurrão, sob a forma de moral, para evitar um quarto ano sem troféus. Porque não quererá ter de abusar da falta de memória de alguns para voltar a dizer daqui a uns tempos que nos últimos anos, nem todos os jogadores “eram à FC Porto”.
2016-10-26
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A escolha de Renato Sanches como Golden Boy 2016, pelo jornal italiano Tuttosport, e a nomeação de Rui Patrício entre os 30 finalistas da Bola de Ouro, da revista francesa France Football, têm sido apresentadas ora como mais uma prova da influência da Liga portuguesa, ora como arma de arremesso na guerra entre fanáticos de dois clubes. Mas na verdade não deviam ser uma coisa nem a outra, porque – e sei que isto doerá a muita gente – se os dois chegaram a estas distinções, é à fase final do Europeu que o devem. O que, atenção, não quer dizer que as não mereçam. Pelo contrário. Há uma especificidade na votação do Tuttosport em Renato Sanches – na verdade, na votação dos jornalistas de toda a Europa que o Tuttosport consultou. É a transferência milionária do jovem médio para o Bayern, a estabelecer uma espécie de tendência, depois da escolha de Martial (também ele transferido por mundos e fundos para o Manchester United) em 2015. É possível que os jornalistas consultados tenham sido influenciados pelos valores das transferências, coisa em que quem me lê sabe que há muito deixei de acreditar, pois a cartelização que os grandes fundos de investimento e os mega-agentes têm imposto ao mercado tem levado a que a fixação dos preços sirva para pouco mais do que o acerto de contas entre eles. Rui Patrício, no entanto, não se transferiu e está na lista dos 30 melhores da Europa do France Football. Pelo muito que fez na excelente época do Sporting na Liga portuguesa ou na efémera passagem pela Liga Europa? Claro que não. Da mesma maneira que a escolha de Renato se deve sobretudo ao impulso que deu à candidatura portuguesa à vitória no Europeu e não à importância que teve no título do Benfica ou à caminhada da equipa de Rui Vitória até aos quartos-de-final da Champions, a presença de Rui Patrício naquele lote de jogadores predestinados tem a ver com o facto de ter sido a última barreira na quase intransponível muralha defensiva da seleção nacional. Portanto, se o que querem é decidir se as escolhas de Renato Sanches e Rui Patrício são uma maior honra para Benfica ou Sporting, esqueçam. E se o que querem é dizer que afinal a Europa ainda presta atenção à Liga portuguesa, podem também esquecer – ainda que provavelmente devesse fazê-lo. Renato foi o Golden Boy de 2016 porque é um médio com uma potência e mudança de velocidade incrível, com uma alegria contagiante no jogo, porque queima linhas com bola como quase ninguém, seja da sua idade ou mais velho. E isso viu-se no Europeu. Rui Patrício está nos 30 finalistas da Bola de Ouro porque é um guarda-redes seguro, com uma agilidade invulgar para a envergadura física, sobretudo na rapidez de reação entre os postes, e isso também esteve à vista no Europeu. Os clubes são os clubes e infelizmente para todos nós têm andado tão longe de poder influenciar este tipo de votações como perto de orientar as ideias de quem não pensa senão em função de um emblema.
2016-10-25
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A quebra evidente de rendimento do Sporting nos últimos jogos tem sido muitas vezes reduzida a fatores demasiado simples, como a ausência de Adrien, as dificuldades de recuperação após os jogos europeus ou a falta de qualidade de alguns novos jogadores. Na verdade, tudo terá o seu peso para explicar exibições tão pobres como a que a equipa de Jorge Jesus assinou frente ao Tondela. No entanto, a razão mais importante é tática e tem a ver, não com a saída de Slimani, mas com o facto de ninguém estar a dar à equipa aquilo que o argelino dava. E mais difícil do que fazer o diagnóstico é encontrar a profilaxia adequada, que no meu ponto de vista só pode passar por Campbell a jogar no corredor central. É claro que Adrien faz falta, pela intensidade e abrangência que mete no jogo a meio-campo. É claro também que se a equipa faz um jogo de elevada exigência competitiva a meio da semana vai perder velocidade e dinâmica no fim-de-semana seguinte. Mas todas as equipas que andam nas competições europeias vivem com isso e algumas até têm mais lesões – e lesões mais importantes – que o Sporting. Veja-se o caso do Benfica, que perdeu Jonas, o melhor jogador da Liga anterior, numa altura em que também não tinha Mitroglou ou Jiménez. E que teve de passar a viver sem Gaitán e Renato Sanches. O Sporting está sem Adrien e teve de reconstruir-se sem Slimani e João Mário, com Bas Dost a aparecer e Gelson a ganhar preponderância. E a questão é que o todo, a soma das partes, deixou de fazer tanto sentido. O que caraterizava o ataque organizado do Sporting de Jesus era a facilidade com que jogava por dentro, no corredor central. Ali apareciam os dois pontas-de-lança, mas também Adrien, Ruiz e João Mário, sendo que havia sempre facilidade em criar desequilíbrios ofensivos. Porquê? Porque havia espaço, muito espaço entre as duas linhas defensivas dos adversários para os jogadores do Sporting penetrarem em tabelas rápidas que muitas vezes deixavam um deles na cara do golo. Então o que mudou? Será que os adversários deixaram de colaborar e fecharam esse espaço? Ora achar isso é uma idiotice. Na verdade, os adversários nunca quiseram colaborar, abrindo esse espaço. O que se passava é que as movimentações de Slimani na busca da profundidade, indo buscar muitas vezes a bola nas costas da última linha do adversário, obrigavam esta última linha a recuar vezes sem conta, alargando o espaço entre ela e a segunda linha, formada pelos médios. Era aí que o Sporting jogava. Sem Slimani – e com um jogador que faz movimentos contrários, de aproximação à equipa, recuando para tabelar com os médios – Jesus podia fazer uma de duas coisas. Ou encontrava uma réplica, um jogador igualmente capaz de esticar o jogo, ou deixava de apostar tanto no jogo interior, preferindo jogar por fora e aproveitar o superior capacidade de finalização de Bas Dost para aumentar a percentagem de jogadas que conclui com cruzamentos. Neste momento, a equipa hesita entre as duas profilaxias. No jogo contra o Tondela, cruzou muito, mas raramente o fez bem ou no momento mais adequado, mesmo quando tinha superioridade posicional e numérica na área – e nesse particular Zeegelaar, autor do melhor cruzamento no jogo com o Borussia Dortmund, foi desastroso. No sábado, aliás, o Sporting procurou vezes demais o labirinto em que se transformou o corredor central: ao espaço entre-linhas do Tondela acorriam Ruiz, Bas Dost, André e até Elias ou Gelson, que neste contexto faria muito melhor em permanecer aberto, para aumentar as possibilidade de combinação na direita que levassem a cruzamentos. Claro que a equipa pode (deve, aliás) adotar as duas soluções, ser igualmente eficaz no jogo exterior como no interior. Mas para isso tem de dominar melhor cada momento e tomar nele as melhores decisões. O problema é que para isso tem de aperfeiçoar a ideia de jogo e encaixar melhor as peças: o Sporting de 2015/16 tinha um onze encaixado; o desta época ainda não encontrou o parceiro para Bas Dost nem a forma que ele terá de encarar o jogo. Umas vezes joga com Bruno César, outras com Markovic, outras ainda com André, no sábado experimentou até somar Castaignos ao seu compatriota. Olhando para o grupo, vejo duas possibilidades: Bruno César atrás de Dost para jogos em que se quer o bloco mais unido e jogar mais desde trás (FC Porto em casa ou jogos da Champions com Real Madrid e Borussia Dortmund) e Campbell ao lado do holandês nos restantes. Da forma como vejo as coisas, Markovic só pode jogar na ala, onde está condenado a ser suplente de Gelson. Ao sérvio falta presença na área e capacidade de trabalho para jogar no corredor central, onde a pressão em transição defensiva é muito importante. Campbell tem as duas coisas. E até a capacidade de ir à procura da profundidade, como fazia Slimani, dessa forma permitindo que se abra o tal espaço entre as linhas do adversário para que a equipa possa jogar por dentro. Mistério para mim é mesmo a razão pela qual o costa-riquenho ainda não foi experimentado ali.
2016-10-24
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As competições europeias não têm necessariamente que afetar o rendimento das equipas na Liga e a prova disso é dada a cada jornada do campeonato pelo Benfica, que venceu todos os seus jogos após as partidas na Champions. Hoje, ante o Belenenses, no Restelo, fê-lo mesmo de uma forma convincente, por duas razões muito simples: tinha melhores jogadores do que o adversário e eles sabiam perfeitamente ao que jogam. Já tinha escrito aqui que o Benfica joga sempre como grande, porque os seus princípios de jogo nunca deixaram de ser os de um grande, mas ganha muitos jogos com armas de um pequeno: a grande eficácia no aproveitamento das ocasiões de golo e a forma como nega esse mesmo golo aos adversários nas ocasiões que ainda assim lhes permite. Pois na noite em que bateu o seu próprio recorde de vitórias consecutivas fora de casa no campeonato (são agora 16, uma acima das 15 conseguidas em 1972 e 1973), a equipa de Rui Vitória foi mais dominadora do que tem sido hábito, sem os períodos de ocaso no jogo que tinham valido alguns sustos nas anteriores deslocações e tendo mesmo a maior dose de desperdício: além dos dois golos, acertou duas vezes no ferro e perdeu mais dois ou três golos cantados. A vitória no Restelo premiou, por isso, a melhor exibição do Benfica em todas as deslocações desta época, provando que a fadiga nem sempre é um problema irresolúvel e que desde que se saiba para onde se deve correr, toda a gente parece bem mais veloz. A questão é que, dos três grandes, este Benfica é aquele que tem o modelo de jogo mais consolidado. E isso sucede mesmo tendo em conta que ali falta Jonas (lesionado) e que, se Cervi compõe bem a ausência de Gaitán, com a sua rapidez na esquerda, ninguém traz à equipa os esticões que lhe dava Renato Sanches. Rui Vitória teve, por isso, que recompor algumas coisas. Manteve dois laterais muito ofensivos, a darem largura, Fejsa como pêndulo ao meio, mas beneficia agora da inteligência de Pizzi, que dá mais consistência à equipa no corredor central (andava toda a gente a exagerar com André Horta, não vos parece?). E, não garantindo a qualidade ofensiva e os golos de Jonas, a capacidade de trabalho de Gonçalo Guedes permite defender muito melhor e desde muito mais à frente no campo. Para os jogos contra a maioria das equipas da Liga portuguesa, chega perfeitamente. Saber se chegará para a próxima deslocação, ao Dragão, em inícios de Novembro, é a questão da qual depende o futuro deste campeonato.
2016-10-23
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Depois de ganhar ao Arouca por 3-0, Nuno Espírito Santo desenhou o boneco que servia de logótipo às míticas camisas Triple Marfel e colocou na base os três pilares que estão na base do que é jogar “à FC Porto”: “compromisso, cooperação e comunicação”. São ideias importantes? Claro. Mas isso lê-se em qualquer livro de auto-ajuda ou em todos os manuais para a liderança nas empresas. A verdadeira razão pela qual o FC Porto passou a ganhar mais vezes – e já agora, na inversa, pela qual o Sporting começou a ganhar com menos regularidade – é tática. Finalmente, a equipa passou a jogar com homens que servem o modelo que o treinador escolheu. O “C” fundamental, aqui, é compatibilidade. À chegada ao Dragão, Nuno Espírito Santo trazia duas novidades. A recuperação da cultura de clube, que se viu na forma como apelou aos sentimentos mais profundos dos adeptos, e a ruptura com o modelo de jogo que presidira aos dois anos de Lopetegui e Peseiro. A primeira era estratégica e extravasava muito o futebol jogado; a segunda era tática e com ela o treinador tencionava acabar com o jogo de posse avassaladora e com o predomínio obsessivo do ataque organizado entre todos os momentos do jogo, para os trocar por um futebol de mais risco e capaz de integrar também o contra-ataque e o ataque rápido. A questão é que, até à titularidade de Diogo Jota – ou à entrada de Corona num bom momento – a equipa padeceu sempre de alguma falta de velocidade. E não me refiro apenas à rapidez do pique, mas sobretudo à sua aplicação na tomada de decisão e no ataque às bolas divididas, à velocidade em espaços curtos, que quase sempre permite fazer a diferença. Da mesma forma, nas últimas semanas todos os jogadores do Sporting parecem mais lentos. Razões? Há quem fale de atitude, da “ressaca” das competições europeias, da lesão de Adrien… Aceito todas essas explicações, mas a fundamental, para mim, é uma súbita inadequação da equipa ao futebol desenhado pelo treinador. O Sporting de Jesus
2016-10-22
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O empate que a seleção nacional feminina cedeu frente à Roménia, no Estádio do Restelo, no primeiro jogo do play-off de apuramento do Europeu, foi uma desilusão e deixa a equipa em maus lençóis no que respeita a uma qualificação inédita, pois terá de enfrentar a segunda mão em casa do adversári. A exibição, mesmo tendo a equipa nacional sido melhor que a romena e tendo mesmo falhado um penalti, também não foi brilhante. A adesão do público, tendo em conta que as entradas eram gratuitas, também ficou aquém do esperado, mesmo com as atenuantes da chuva e do horário (ainda) laboral. No entanto, o dia pode bem ter sido um marco importante para o futebol feminino nacional.Quando me sentei para ver o jogo da seleção, fi-lo devido a uma série de motivações. A caminhada que a equipa fez no grupo, com a épica superação da Finlândia e da Irlanda em cima do risco fina, após o arranque tremido, terá sido a maior. A mais importante, no entanto, terá sido o investimento pesado que a FPF fez na promoção desta equipa e tem feito no futebol feminino em geral, cuja face mais visível foi o vídeo de apoio feito por vários campeões europeus. Porque mesmo que a seleção não se qualifique para esta fase final, é esse investimento, associado aos últimos resultados nas categorias inferiores, que me leva a acreditar que estará na próxima.O jogo em si, na verdade, até me desiludiu. Vi uma equipa melhor que a adversária, mas bem abaixo do que se vê nas grandes provas de futebol feminino que vão sendo transmitidas no que respeita aos princípios de jogo ou à articulação coletiva. Este não terá sido um dos melhores jogos desta seleção. Mas há outra oportunidade para brilhar já na terça-feira. E o importante é que se sente de cima a firmeza de não deixar que as coisas voltem a ser como antes e que o futebol feminino veio para ficar.
2016-10-21
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Depois de Paolo Maldini se ter recusado a desempenhar o papel de legitimador-mor para a solução chinesa que promete devolver o Milan ao topo do mundo em cinco anos, agora foi Gianluigi Buffon, o veterano guarda-redes da rival Juventus, quem veio mostrar ira face à entrada dos investidores estrangeiros nos maiores clubes do país. "É a prova da nossa falha como país", disse Buffon. Acredito num mundo e numa economia globais, pelo que não partilho a visão de Buffon. Mas não sou tolo a ponto de acreditar que as ofensivas dos grandes grupos sejam tão boas assim para o futebol.O problema da entrada dos milhões no futebol não está na frustração que traz aos sentimentos nacionalistas de quem quer que seja. O Chelsea já pertence a um russo há muito e não creio que isso tenha sido um problema para os adeptos, que com todas as vicissitudes próprias de Abramovich, até conheceram com ele o regresso às vitórias. Os americanos já dominam o capital de Manchester Utd., Arsenal e Liverpool. O Leicester ganhou a Premier League graças à liderança de um grupo tailandês e o Manchester City fê-lo e tenciona repetir a proeza com dinheiro dos Emiratos Árabes Unidos. Na Premier League há investidores de todos o tipo: dos que acreditam no negócio aos que só buscam um brinquedo para torrar os seus milhões, com passagem pelos que (sim, também os há) pretendem apenas vincar o poder da sua nação ou das suas economias emergentes. Nada disso veio piorar a competição, que cada vez mais é a mais atrativa do Mundo.Isto, contudo, não significa que a FIFA deva assistir sentada a este fenómeno. A interferência destes grandes grupos pode levar a problemas iguais aos vividos nas outras áreas da economia global. Desde a manipulação do preço dos passes em negócios que envolvam "clubes irmãos", com propósitos nem sempre claros, até ao tráfego de informações ou mesmo à  hipótese de manipulação de resultados, esta nova realidade exige da FIFA toda a determinação possível com o intuito de desenhar uma Lei Sherman que impeça os "trusts" de desenhar a realidade global do futebol. O problema é que na FIFA se olha para as injeções de capital que estes milionários fazem no futebol e se perdoa o mal que faz pelo bem que sabe. Há um ponto, porém, onde é preciso traçar uma linha. E não pode ser daquelas com spray que desaparece, como os dos árbitros.
2016-10-20
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Há uns quinze anos, a propósito de uma equipa do Farense, escrevi um texto intitulado "Jogar como os grandes para ser como eles" que se destinava a enaltecer a ideia de jogo como fator determinante para a identidade de uma equipa. Essa tese continua atual, mas ver este Benfica de Rui Vitória jogar traz à discussão outro aspeto igualmente preponderante: a maior qualidade individual em zonas de definição de um jogo. Voltou a ser essa a chave da vitória em Kiev, onde o Benfica reafirmou a candidatura a um lugar nos oitavos-de-final da Liga dos Campeões.Esta constatação não vem diminuir o papel do treinador. O Benfica de Rui Vitória joga como um grande, sempre com largura, com busca da profundidade nos movimentos de ataque, redução de espaço quando lhe cabe defender (aqui com mais dificuldades, é certo), preocupação de construir com segurança desde trás e colocação de muita gente na frente. É uma equipa positiva. Às vezes até demasiado positiva, o que a leva a perder controlo dos jogos com alguma frequência, pela forma como não ocupa bem a zona central do campo, por exemplo. E é aqui que se separam detratores e defensores do futebol do Benfica. "Têm a sorte de os adversários falharem golos e mais golos e de aproveitarem muitas das ocasiões que criam", dizem os primeiros. É certo que voltarão a dizê-lo hoje sobre o 2-0 ao Dynamo Kiev. Mas ninguém tem sorte tantas vezes como este Benfica - o que devia levar-nos a verificar se ali não há algo mais. Porque há.Claro que esta equipa não atingiu ainda o grau de maturidade que lhe permita ser indiscutível e conseguir ser igualmente eficaz perante os outros grandes, com quem perde mais do que ganha. É provável que não o atinja nunca. Mas desde que vá ganhando contra os que têm menor qualidade nunca os que lhe questionam os atributos terão grande acolhimento. Porque este Benfica joga como um grande mas faz de argumentos geralmente associados aos pequenos - como o desperdício alheio ou um elevado aproveitamento das chances que vai criando - uma arma. É também por isso que ganha.
2016-10-19
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Lazar Markovic e Joel Campbell, emprestados pelo Liverpool e pelo Arsenal, foram apresentados em Alvalade como duas armas fortíssimas no ataque do Sporting ao título e a uma boa Liga dos Campeões. Passaram-se entretanto dois meses de competição e ainda não se viu maneira de isso acontecer. Não são maus jogadores - se fossem não teriam chegado onde chegaram - mas movem-se sempre ao contrário do que pede o futebol de Jesus. E têm sido mais as vezes em que se tornam empecilho do que aquelas em que contribuem ativamente para os sucessos do coletivo. Já sei que vão dizer-me que Markovic até marcou em Guimarães, num jogo que se o Sporting o não ganhou não foi seguramente por culpa dele. E que lhe pertenceu o golo da vitória frente ao Famalicão, na Taça de Porugal. Até acrescento: mais golos marcará, porque é um jogador explosivo, veloz com bola e capaz de ir buscar a profundidade nas costas das defesas adversárias. E se Jesus quis recuperá-lo e juntar-lhe Campbell, que com ele partilha várias dessas características, é porque quer ter um Plano B ao seu futebol habitual. Quer certamente encontrar diversidade, uma forma de contornar obstáculos moldados à sua forma de jogar. Mas duvido muito que um ou outro possam tornar-se ponto de partida no jogo desta equipa. Qual é a marca dominante do jogo ofensivo de Jesus? São as triangulações, os movimentos da ala para o meio, as entradas no espaço entre o central e o lateral, a rapidez no passe para tirar a bola das zonas de pressão. Tudo aquilo que faz Gelson, por exemplo, e que lhe permitiu crescer tanto de um ano para o outro. E exatamente o contrário do que fazem Markovic e Campbell, do que fizeram ainda no jogo com o Borussia Dortmund, no qual insistiram em soluções individuais, sempre de cabeça em baixo e sem ver o resto da equipa, perdendo por isso inúmeras bolas e comprometendo o esforço ofensivo da equipa. O Sporting não perdeu por causa deles, mas para ganhar com eles terá formatá-los à forma de jogar deste grupo. Porque a continuarem assim serão sempre um corpo estranho
2016-10-18
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Que o futebol vai mudar em breve, toda a gente já percebeu. Podemos ficar à espera que os grandes agentes de mudança avancem - e nessa altura não nos restará nada a não ser aceitar o que eles terão para impor. Em alternativa, podemos tentar cavalgar essa onda de mudança e conduzi-la para um desfecho mais justo e racional. Foi isso que a UEFA fez no início da década de 90, quando travou as iniciativas de secessão com a criação da Liga dos Campeões. Isso, hoje, porém já não chega. E não chega porque nos conduziu a uma realidade em que clubes e seleções estão sempre no caminho uns dos outros (os últimos Jogos Olímpicos deviam ter sido a gota de água a fazer transbordar o copo da insanidade) e em que não se está a explorar devidamente a possibilidade de passar a competição para a escala normal dos dias de hoje, que é a continental. As alterações nos tempos mais próximos serão, como defendi no artigo da semana passada, nestes dois âmbitos. Hoje deixo a minha proposta. Não estou convencido de ser dono da razão. Mas sei que recusar o que aqui vai ler só porque "isso é impossível" ou porque muda muitas das realidades tidas por imutáveis é ficar à mercê de uma mudança que é inevitável e será então regulada apenas por interesses económicos dos mercados mais imponentes. Seria como a NBA recusar equipas de estados mais pequenos dos EUA só porque neles a TV tem menos audiência potencial. Em tempos já escrevi sobre um projeto de Superliga europeia. Acho que ela vai chegar mais cedo ou mais tarde e, francamente, quanto mais cedo melhor. Porque os campeonatos nacionais estão de tal modo desvirtuados com o dinheiro da Champions que, à exceção da Premier League, onde o dinheiro da TV pode competir com o da prova europeia, os maiores clubes passeiam impavidamente por eles. A Superliga europeia vem aí. Pode ser é de uma forma justa, em que os lugares são distribuídos de acordo com o mérito desportivo, com subidas e descidas e sem matar os campeonatos de cada país, ou à bruta, com atribuição de vagas numa Liga fechada, de acordo com a força que os clubes têm nos mercados, e sem preocupação com os campeonatos nacionais. O que vai fazer a diferença aqui é a proatividade que as federações que terão mais a perder com uma competição desenhada de acordo com os maiores interesses económicos (como a portuguesa, por exemplo) irão ou não assumir.Imaginemos então uma Superliga europeia com 24 clubes, os 16 melhores da Liga dos Campeões de um ano e os oito mais fortes da Liga Europa do mesmo ano. E imaginemos que os dividimos em dois grupos de 12, que jogariam todos contra todos a duas voltas (22 jornadas). Aqui chegados, apuramos os oito melhores para os quartos-de final (seguidos de meias-finais e final) os oito piores para a fuga à despromoção. No fim, em 27 jogos, teríamos um campeão europeu e dois despromovidos, que na época logo a seguir dariam o lugar aos finalistas da Liga Europa, que se manteria nos moldes atuais. São 27 semanas de competição, com jogos todas as semanas: supondo que se começava na terceira semana de Agosto e que se interrompia por três semanas por alturas do Natal e Ano Novo, podia jogar-se a final no primeiro domingo de Março. Ao mesmo tempo, jogar-se-iam os campeonatos nacionais, também por jornadas. Equipas haveria que teriam de jogar as duas competições, mas esse seria um problema bom. Por um lado porque o que ganhariam na Liga Europeia lhes permitiria pagar planteis com a profundidade necessária para as "duas cadeiras"; por outro porque ao terem de dividir as atenções entre ambas as provas, deixariam de ser tão dominantes dentro de portas, incrementando a competitividade. Com o tempo, o normal é os campeonatos nacionais acabarem por sofrer o mesmo destino que tiveram os regionais em meados do século passado. Mas aí morrerão de morte natural, sendo substituídos por mais escalões na competição continental. Ninguém os assassinará. E haverá tanta gente a bater-se pela sua continuidade como houve na altura gente a dizer que acabar com o campeonato de Lisboa ou do Porto era matar o futebol. Em Março, findos os campeonatos nacionais e europeus, era a altura ideal para entrarem em ação as seleções, com três ou quatro meses anuais para jogarem qualificacão e, se fosse caso disso, fases finais, sem os jogadores terem de andar a saltitar de uma realidade para a outra e de preferência dividindo as seleções em escalões, para evitar a profusão de jogos com amadores que hoje se realizam. Já sei qual é a primeira objeção: como sobreviveriam os clubes nesses meses? Os que tivessem internacionais receberiam pela cedência desses jogadores, que a FIFA e a UEFA geram receita suficiente para tal. Além disso, havia sempre a positividade de se jogarem provas de menor importância, como as Taças da Liga, disputadas sem os internacionais. Podiam organizar clínicas para jovens, porque vai caber-lhes cada vez mais a formação transformada em negócio. Podiam organizar digressões. Porque essa ideia segundo a qual os clubes têm de estar em ação permanente para serem um sucesso financeiro é desmentida, também, pela NBA. As finais de 2016 chegaram ao sétimo jogo e concluíram-se a 19 de Junho. A competição recomeça a 25 de Outubro, mais de quatro meses depois. E as equipas que não chegarem ao playoff ficam despachadas em inícios de Abril, quase seis meses antes de voltarem à competição. E não tenho ideia de as franchises andarem a perder dinheiro
2016-10-17
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A segunda vitória consecutiva de Portugal por 6-0, desta vez no piso sintético de Tórshavn, contra as Ilhas Faroé, começou numa noite perfeita de André Silva, autor de um hat-trick na primeira parte, mas teve igualmente grande influência de João Mário, o maestro que foi permitindo à equipa de Fernando Santos jogar dentro das linhas do adversário. Ronaldo, Moutinho e Cancelo completaram o resultado num segundo tempo onde nem a descontração normal em situação de vantagem permitiu aos donos da casa entrar no jogo. Prova disso é a superioridade estatística dos portugueses e o facto de as Ilhas Faroé só terem rematado por três vezes nos 90 minutos.Portugal manteve o 4x4x2 do jogo com Andorra, mas com a troca de Bernardo Silva e João Moutinho por João Mário e William Carvalho. Estas trocas tinham a intenção de ganhar centímetros que podiam ser decisivos face ao jogo mais direto e físico das Ilhas Faroé, mas também de conseguir jogar dentro do bloco adversário. Partindo da esquerda mas surgindo frequentemente pelo corredor central, quase sempre em trocas posicionais com Ronaldo, que nessas alturas abria na lateral, João Mário foi capaz de encontrar o espaço para jogar entre as linhas das Ilhas Faroé e de dirigir a equipa e André Silva até ao hat-trick que resolveu o jogo bem cedo, após um início no qual a seleção nacional até teve algumas dificuldades na adaptação ao relvado (problemas de tração no arranque e meia dúzia de escorregadelas) e ao tal futebol direto dos nórdicos, com procura dos ressaltos.A verdade é que Portugal marcou na primeira ocasião, logo aos 12': João Mário entrou pelo meio e deu a bola a André Silva, que a ganhou a tempo de bater Nielsen, apesar da tentativa de corte de Nattestad. E depois fez o 2-0 na segunda, dez minutos mais tarde: abertura de João Mário para a direita, de onde, após driblar um adversário, saiu um cruzamento de Quaresma que nem o guarda-redes nem um defesa foram capazes de desfazer, dando a André Silva a oportunidade de bisar, num cabeceamento muito bem colocado. Se dúvidas ainda houvesse, o hat-trick de André Silva, aos 37', em recarga a um tiro do sempre ofensivo João Cancelo, acabou com elas ainda antes do intervalo, o que de certa forma permitiu a Portugal regressar para a segunda parte com a tentação da gestão do jogo e do resultado. Era normal.Ainda assim, após mais um início dividido, os portugueses foram à procura de mais golos. Ronaldo, a passe de João Mário, perdeu o 4-0 logo aos 49', isolado na cara de Nielsen, vindo a fazê-lo aos 65', após dupla tabela com o mesmo João Mário e um remate ao ângulo que lhe saiu tão potente do pé esquerdo que o toque do guardião não fez mais do que confirmar o golo. Com o jogo resolvido, os donos da casa puseram a ideia num golo de honra e até fizeram os seus únicos (três) remates nesses 25 minutos finais, mas sempre sem ameaçar a tranquilidade de Rui Patrício, que foi um espectador durante toda a noite. Foi por essa altura que, vendo a equipa abrandar, Fernando Santos deu sinais de querer mais. Chamou Gelson para o lugar de Quaresma e o jovem leão trouxe a velocidade e a criatividade que já iam faltando ao jogo: praticamente na primeira vez que tocou na bola deu a André Silva a possibilidade de fazer mais um golo, mas desta vez Nielsen foi mais forte e desviou para canto. No canto, Davidsen safou em cima da linha um cabeceamento de Pepe, o que parecia encaminhar o jogo sem mais golos até ao fim. Gelson, no entanto, quis deixar a sua marca e não esteve pelos ajustes, fazendo as assistências para os golos com que Portugal fechou a goleada, já para lá do minuto 90: primeiro deu atrasado para um remate em jeito de Moutinho, muito colocado, junto ao poste, e depois lançou Cancelo nas costas da defesa da casa, para o terceiro golo do lateral direito em outras tantas internacionalizações. Notável.O jogo acabou por resolver-se com mais facilidade do que o esperado por toda a equipa portuguesa - às Ilhas Faroé não tinham sofrido um único golo nas primeiras jornadas - mas isso não significa que Portugal tenha a vida mais facilitada, pois mesmo com dificuldades, a Suíça voltou a ganhar e os 2-1 a Andorra também valeram três pontos.
2016-10-10
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Afinal, a quem aproveita esta interrupção no calendário competitivo dos clubes europeus para que se joguem os desafios de qualificação para o Mundial de futebol? Quer a verdade? A ninguém. Perdem os clubes, perdem as seleções, perdem os adeptos e perdem os meios de comunicação, que também são parte importante na mobilização de gente para o espetáculo. Já devia ser razão mais que suficiente para que esta questão, a par do tema dos quadros competitivos do futebol no continente e no Mundo, fosse posta em causa de uma forma séria e sem tabus. Porque o Mundo mudou e a evolução não pode esperar nem estar presa a ideias feitas de acordo com a realidade de há décadas.A instituição das datas FIFA já foi uma vitória, mas uma vitória de Pirro. Porque organiza as coisas, ainda que o faça no sentido contrário ao da sua evolução natural. Experimente por-se no lugar do treinador de um clube. Se tem bons jogadores, daqueles que vão às seleções, ficou sem meia equipa durante quase duas semanas, o que torna impossível os trabalhos de conjunto. Mais: quando eles regressarem, muitos de longas viagens intercontinentais e em vésperas do jogo que se segue, chegam "mortos" e em condições que não recomendam que os envolva nos compromissos do próximo fim-de-semana. É mau, não é? Ponha-se então no lugar de um selecionador nacional. Pode ser Fernando Santos. Chamou 23 jogadores para as partidas com a irrelevante equipa de Andorra e a mais complicada (mas nem por isso mais estimulante) seleção das Ilhas Faroé. Recebeu os jogadores em cima da data dos jogos, sem hipótese de trabalhar seja o que for em condições satisfatórias, e a sua maior dificuldade é motivar homens que fazem a sua vida na Liga dos Campeões e em exigentes Ligas nacionais para meterem o pé com o risco de se lesionarem contra amadores e em jogos onde não têm nada a ganhar mas muito a perder. Não parece nada fácil e acredite: não é aliciante.Como se tudo isso ainda não bastasse, a interrupção não serve aos adeptos, que já ressacam a falta da emoção dos jogos dos clubes - ou, no caso dos que gostam e vivem a seleção, de jogos mais a sério da equipa nacional - nem aos órgãos de comunicação, que se vêem a braços com períodos vazios de interesse, nos quais por mais que se esforcem não lhes será possível manter o show em andamento nem cumprir a parte do orçamento que diz respeito às receitas. No fundo, estas interrupções, que todos temos como obrigatórias porque sempre as conhecemos assim, não satisfazem ninguém. E no entanto ninguém as põe em causa, porque estamos todos cheios de medo da evolução, do que aí vem no futuro do futebol mundial. Só que essa é a perspetiva errada. O futuro virá sempre. Escondê-lo, adiá-lo é só idiota, porque nos tira a possibilidade de o moldar da forma que melhor serve os interesses globais.O que reserva o futuro? Reserva mais jogos de perfil elevado e, a não ser que eles nasçam dentro do sistema, acabará por motivar a cisão entre grandes e pequenos e até entre grandes clubes e seleções, no dia em que um Real Madrid ou um Barcelona tenham uma alternativa credível à Liga dos Campeões e por isso se recusem a aceitar libertar os Ronaldos ou os Messis para jogarem contra agentes de seguros ou especialistas na pesca do bacalhau. Reserva, por isso, uma Superliga europeia, porque os grandes clubes já sabem há muitos anos que é a jogar uns contra os outros que enchem os estádios e motivam as audiências televisivas. E reserva na mesma jogos de seleções, mas com uma lógica que não fuja ao resto do panorama competitivo que os jogadores enfrentam no resto das suas vidas. Porque a não ser para bater recordes, as passagens de um jogador como Ronaldo pelas atuais fases de qualificação de Europeus e Mundiais parece-se assustadoramente com uma perda de tempo, com sete jogos inúteis em cada dez.Para enquadrar estas duas realidades é preciso pôr tudo em causa. Fá-lo-ei no artigo da próxima semana.
2016-10-10
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Portugal goleou Andorra por 6-0, numa noite que ficará para a história da seleção e de Cristiano Ronaldo, autor de quatro golos que igualam o recorde de concretizações num só jogo da equipa nacional, até então pertença de Eusébio, Pauleta e Nuno Gomes. A partida serviu a Fernando Santos para começar a emendar o passo em falso dado com a derrota na Suíça, na jornada inaugural, mas não chega para alimentar euforias, não só porque Andorra é uma seleção demasiado fraca para ser tida em conta, como também porque os suíços complicaram as contas nacionais, ganhando na Hungria por 3-2 e superando com o pleno de pontos o obstáculo mais complicado que tinham antes da deslocação a Portugal. O jogo de Aveiro teve pouca história, porque Portugal marcou dois golos nos primeiros quatro minutos, ambos da autoria de Cristiano Ronaldo, que assim assinou o bis mais rápido de sempre na equipa nacional. A questão da atribuição dos pontos ficou logo ali resolvida, mas para a tibieza da reação andorrenha contribuiu igualmente o facto de os visitantes terem jogado os últimos 20 minutos com nove homens, devido a duas expulsões nascidas de um jogo persistentemente faltoso com que tentaram travar a equipa lusa. Fosse por excesso de empenho físico enquanto puderam dá-lo ou devido a um atraso constante na chegada à bola quando começaram a acusar a fadiga, os pupilos de Alvarez foram sendo fustigados com amarelos que lhes retiraram qualquer hipótese de construir jogadas de ataque e permitiram a Portugal acabar o jogo com várias unidades atacantes em campo ao mesmo tempo: Ronaldo, Quaresma, Gelson, Bernardo Silva, André Silva, João Mário e João Moutinho terminaram todos o jogo em campo, numa equipa que já só tinha três defesas e podia ter dispensado o guarda-redes, tão desprovida de sentido foi a permanência entre os postes de um sempre desocupado Rui Patrício Este foi, ainda assim, um jogo com várias pequenas histórias. Foi a história do recorde de golos num só jogo da seleção, que Ronaldo igualou mas podia bem ter superado, não tivesse ele passado os últimos 20 minutos de jogo longe da área, devido a um toque mais violento que sofreu por essa altura. Mas foi também a história do primeiro golo de André Silva na seleção, uma finalização longe de ser brilhante, que beneficiou de um desvio num defesa adversário, mas que nem por isso ou por ele ter perdido antes dois cabeceamentos com selo de golo tira vontade de o ver mais vezes ao lado de Ronaldo, pela forma como trabalha para libertar o capitão de amarras e da necessidade de jogar de costas para a baliza, como referência do ataque. A primeira experiência da dupla foi boa, mas tal como acerca da titularidade de Cancelo na defesa, exige observação mais cuidada perante um adversário de um nível de exigência mais alto para se formarem opiniões mais definitivas. E foi ainda a história da estreia de Gelson na seleção principal, entrando nos últimos 20 minutos para acelerar a equipa – quis o destino que a entrada do extremo leonino coincidisse com a lesão de Ronaldo e a redução de Andorra a nove homens, o que mudou o jogo. Nesses últimos 20 minutos, contra nove, Portugal só fez um golo – o sexto, de André Silva. Até aí tinha feito cinco, que completam a história do que se passou em Aveiro. Ronaldo marcou o primeiro aos 2’, sendo mais rápido a erguer-se que Rebés após uma defesa do guarda-redes Gomez para a frente, e juntou-lhe o segundo logo aos 4’, respondendo da melhor forma a um excelente cruzamento de Quaresma. Portugal entrou nessa altura numa fase de menor fulgor, com vários passes perdidos, nascidos da desconcentração de uma equipa à qual tudo parecia demasiado fácil. João Cancelo, em lance individual, fez o 3-0 pouco antes do intervalo, mas a equipa voltou melhor para o segundo tempo, provavelmente acordada com a insatisfação de Fernando Santos. Ronaldo fez o quarto aos 47’ numa belíssima finalização em volei após cruzamento tenso de André Gomes, e o quinto aos 68’, acorrendo de pé esquerdo a um desvio de José Fonte. Igualado o recorde e com mais de 20 minutos por jogar, esperar-se-ia que ele o batesse, mas foi aí que o capitão recuou no campo e a equipa assumiu o objetivo de dar a André Silva o seu primeiro golo internacional. Fê-lo já perto do final, compondo o resultado e deixando toda a gente à espera de ver o que trará o jogo nas Ilhas Faroe. Mais dificuldades, certamente.
2016-10-08
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Quando se perde, é normal que surjam as queixas. Quando se perde muitas vezes, como tem acontecido ao Nacional neste início de época, é ainda mais normal que as queixas se acumulem como ficheiros em lista de espera em cima de uma secretária. Manuel Machado, que viu a sua equipa perder mais vezes que as esperadas nas primeiras sete jornadas da Liga, passou a semana a queixar-se. Mas, ainda que as queixas tenham o seu quê de circunstancial e, pelo menos num caso, de desculpa de mau pagador, o veterano treinador não deixa de ter alguma razão. Já se sabe que o futebol português se move de acordo com os estados de alma dos três grandes, mas nunca é demais lembrar que sem os outros não haveria Liga. E portanto é importante saber o que têm para dizer. Ora Machado começou por se queixar de um calendário que o forçou a receber o Benfica à terceira jornada e o FC Porto à sétima e que em breve o levará a medir forças com o Sporting. Qual é o problema? Nenhum, como é óbvio. A Liga joga-se em sistema de todos contra todos e este não é sequer um daqueles casos evidentes – que já se viu em épocas anteriores – de um “rolo compressor”, em que uma equipa jogava, por exemplo, com dois dos três grandes de seguida. Acha que nunca aconteceu? Pois engana-se. Em 1992/93, por exemplo, quase todas as equipas do campeonato defrontaram, de seguida, Sporting, Benfica, Boavista e FC Porto. A questão é que isso só deixou de ser possível porque o grande que jogava primeiro se queixou, pois os rivais acabavam por beneficiar, por exemplo, de castigos provocados por expulsões nesses jogos. E aí, mesmo não tendo razão nenhuma na queixa que fez, Machado mete uma “lança em África” ao completá-la com a alusão a tantos condicionalismos que se fazem nos sorteios, sempre em benefício dos mesmos. Por que razão não hão-de os grandes jogar entre si a abrir os campeonatos? Há alguma razão que o justifique e que os mais pequenos não possam depois apresentar em sua defesa para fugirem a este tipo de confrontos de perfil mais elevado nas primeiras jornadas? Claro que não há, a não ser a proteção dos mais fortes. Mais interessante, porém, é a temática em torno da segunda queixa de Machado. Então o FC Porto pôde jogar com dois jogadores emprestados pelo Atlético Madrid – Diogo Jota e Oliver Torres – e o Nacional não pôde fazer o mesmo com o jogador que tem emprestado pelo FC Porto? Dita assim, a coisa parece ser para rir. Vítor Garcia não pôde jogar por estar emprestado: ele não pôde jogar por estar emprestado pelo clube que o Nacional ia defrontar. Aliás, no mesmo jogo, o Nacional alinhou com César, que está emprestado pelo Benfica, e Tobias Figueiredo, emprestado pelo Sporting. No entanto, mesmo não tendo outra vez razão, Machado voltou a pôr o dedo numa ferida que está mal cicatrizada. Sei que a Liga portuguesa proibiu os clubes de utilizarem os emprestados nos jogos contra o clube-mãe para evitar suspeições. Sei até que não é a única Liga mundial que o faz. Assim sendo, a utilização dos jogadores não fica dependente da boa vontade de quem empresta – e já se sabe que uns autorizavam e outros não – ou até da capacidade para influenciar decisões que cada clube grande vai tendo junto da sua “clientela”. E no entanto, esta é uma solução que nunca me convenceu. Porque afasta bons jogadores dos relvados, porque desvirtua a concorrência e porque se baseia na ideia de que os clubes não podem ser todos iguais, mesmo que participem todos no mesmo campeonato. Ora isso não é bom. Será esta solução melhor que a anterior, na qual a utilização dos emprestados era deixada ao critério de cada um? Admito que sim, como admito o contrário. Depende das boas ou más intenções de cada um. Mas sei que a solução ideal passava, isso sim, pela limitação do total de jogadores que cada clube pode ter sob contrato e, depois, do total de jogadores que poderia emprestar. Uma equipa mais forte do ponto de vista financeiro – e já se sabe a influência que o dinheiro da Champions tem em campeonatos de países periféricos como o nosso – pode contratar sem limites e depois espalhar jogadores por vários clubes concorrentes, assegurando desde logo que está a defrontar equipas que nesses dias se apresentam inferiorizadas jornada após jornada. Ora se cada clube visse limitado o total de jogadores que podia contratar e emprestar isso viria automaticamente reduzir os efeitos deste atropelo às regras da concorrência. Se são bons, os jogadores que os grandes contratam e emprestam não iam deixar de ter emprego – teriam, isso sim, outros empregadores. Empregadores pelos quais poderiam lutar em todas as rondas da Liga. Ganhariam menos dinheiro? Talvez. Mas a essa questão – a da distribuição da receita, que continua a ser o maior entrave a um futebol português verdadeiramente competitivo – voltarei um dia.
2016-10-03
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Duas carambolas felizes transformaram o que corria riscos de se tornar um jogo difícil num passeio agradável para o Benfica. Os encarnados ganharam por 4-0 ao Feirense e já seguem com três pontos de avanço sobre os rivais, isolados na liderança do campeonato e indiferentes à onda de lesões que lhes roubou vários titulares nestes primeiros meses de competição. O resultado amplo encerrou também quaisquer questões que a derrota de Nápoles pudesse levantar: aos quatro golos da Champions, respondeu a equipa de Rui Vitória com mais quatro na Liga portuguesa. E no entanto o jogo começou por não se apresentar fácil para os encarnados. Rui Vitória chamou ao onze Ederson e Luisão, por troca com Júlio César e Lisandro, promovendo ainda os regressos de Salvio e Gonçalo Guedes, que em Itália tinham sido sacrificados à estratégia. Pizzi apareceu a jogar pelo meio, devido à ausência de André Horta por lesão, mas os primeiros momentos do jogo mostravam na mesma um Benfica com dificuldades para se opor ao jogo apoiado do adversário. O tricampeão nacional tinha muito mais bola, sim, criava até perigo sempre que chegava à frente em cantos ou livres laterais – a influência de Luisão cresce nesses momentos e faz-se notar – mas ao mesmo tempo o Feirense conseguia chegar à frente em boas condições, quase sempre em contra-ataque, bem ao estilo das equipas de José Mota. O primeiro golo do Benfica, marcado na própria baliza por Luís Aurélio, aos 35’, no seguimento de um lançamento lateral longo, de Salvio, no qual mais ninguém tocou antes do desvio no sentido errado, veio premiar o maior volume de jogo dos encarnados, mas não uma boa exibição. Longe disso. Consciente de que o jogo não estava resolvido, Rui Vitória terá pedido mais aos jogadores durante o intervalo, o que se refletiu num Benfica mais pressionante e intenso na entrada da segunda parte. Foi, ainda assim, noutra carambola feliz que a equipa da casa chegou aos 2-0, aos 61’: o alívio de Ícaro encontrou Salvio pelo caminho e o ressalto tomou a direção da baliza de Peçanha, que estaria à espera de tudo menos daquilo. E aí, de facto, o jogo mudou. O Feirense deixou de acreditar na possibilidade de levar pontos para casa e o Benfica começou a articular belas jogadas de ataque, como a que lhe deu o 3-0, por exemplo: movimentação coletiva a libertar Semedo na direita e cruzamento deste para o cabeceamento de Cervi, que quatro minutos antes entrara para o lugar de Carrillo. Com o jogo ganho, ao Benfica faltava somar mais um golo para se isolar também na lista dos melhores ataques do campeonato. Depois de várias ocasiões, acabou por fazê-lo no último minuto de compensação, num livre direto superiormente executado por Grimaldo. Os 4-0, talvez demasiado penalizantes para um Feirense que até começou o jogo de forma personalizada, valeram ao Benfica o aumento da vantagem para os perseguidores na classificação, a manutenção da melhor defesa (quatro golos sofridos, tantos como o FC Porto) e o regresso ao comando dos ataques (com 17 golos marcados, mais um do que o Sporting). Quando o campeonato segue para uma interrupção de três semanas antes da deslocação ao Restelo, na qual Rui Vitória já deverá ter vários dos lesionados, eis vários motivos para a equipa encarar o que aí vem com otimismo.
2016-10-02
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Último Passe

Um hat-trick de Diogo Jota ainda na primeira parte transformou a viagem do FC Porto à Choupana num passeio, reduziu a oposição do Nacional a zero e alertou Nuno Espírito Santo para a existência de valores seguros no plantel para os quais talvez nem os mais fervorosos adeptos portistas estivessem alerta. A vitória por 4-0, para a qual contribuiu mais um golo de André Silva, na segunda parte, permitiu aos dragões colarem-se a Sporting e Benfica (que ainda tem de jogar a sua partida desta jornada) no primeiro lugar. E, apesar de a interrupção da Liga não chegar na melhor altura para uma equipa subitamente remoralizada, permitirá um recomeço quase do zero quando o campeonato regressar: este FC Porto jovem, esta equipa dos "jotinhas", apresentou o melhor compromisso dois dragões desde o início da temporada. Para o desequilíbrio final no marcador contribuiu um Nacional fraco, é verdade, mas também um FC Porto outra vez forte. O regresso de Herrera, melhor em posse do que André André, e sobretudo a titularidade de Jota, explicam alguma coisa. Um jogador rápido e objetivo como Jota, que fez 14 golos ainda como júnior, na época de estreia na Liga, não pode ser visto só como elemento de contra-ataque – é uma arma incontornável na construção do processo ofensivo portista, tendo feito mais numa noite do que todos os outros parceiros de André Silva no 4x4x2 no resto da temporada. Fez o 1-0 após tabela com Herrera, logo aos 11’. Perdeu o segundo golo em lance individual ao qual se opôs o guardião Rui Silva, mas apenas para o fazer pouco depois, após passe de André Silva. E antes do intervalo ainda fez o terceiro, de cabeça, após cruzamento vindo da direita. A perder por 3-0, ninguém regressa a um jogo contra um grande a não ser que este facilite. Na segunda parte, o FC Porto não o fez e na verdade não se viu sequer ameaça de regresso do Nacional à luta pelos pontos. Foi o FC Porto quem marcou mais um, aliás, ainda antes dos 60’: André Silva finalizou, após assistência de Otávio, num lance nascido da criatividade de Oliver. Com Herrera, Otávio e Oliver à frente de Danilo, o meio-campo do FC Porto ganha uma capacidade de construção ofensiva a que depois dois bebés com golo nas botas como são Jota e André Silva podem dar a devida sequência. Chegará tanta juventude para os desafios a que se propõe o FC Porto? Não é fácil responder afirmativamente e sem reservas. Mas que ainda não se tinha visto melhor compromisso esta época aos dragões, isso é uma evidência.
2016-10-02
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Último Passe

A incapacidade do Sporting para controlar os jogos em situações de vantagem custou à equipa de Jorge Jesus dois pontos numa partida que dominou por completo até aos 75 minutos, mas onde um quarto-de-hora de pesadelo lhe custou um empate a três bolas, frente ao Vitória, em Guimarães. A ganhar por 3-0 e tendo perdido mais três ou quatro situações claras de golo, foi a equipa do Sporting que, a 15 minutos do final, levantou o ânimo aos minhotos, cedendo um penalti escusado e falhando depois na marcação a Marega num cruzamento. Num ápice, um jogo que estava fechado, reabriu, de 0-3 para 2-3. O Vitória acreditou e já sobre o minuto 90 chegou a um empate que o muito maior volume de jogo leonino não faria prever, mas que castigou a desconcentração e a tremedeira final dos leões. Esta não foi a primeira vez que os leões cederam neste tipo de situações. Basta lembrar o jogo de Madrid (de 1-0 para 1-2 nos últimos dois minutos) ou até a partida caseira com o Estoril (dois golos sofridos nos últimos cinco minutos, transformando uma noite tranquila num jogo de emoção no final). Em Guimarães, hoje, nada o faria prever, face ao que o jogo vinha dando. Jesus apresentou um onze muito próximo da sua equipa de gala, mudando apenas os dois defesas-laterais e apresentando Markovic na frente, no apoio a um Bas Dost desta vez mais apagado e distante da equipa. O Vitória, com três homens declaradamente na frente – Soares, Marega e Hernâni – ainda ameaçou num passe longo para as costas da defesa leonina que o malinês não conseguiu captar em condições, mas depois desse lance os leões passaram a mandar no jogo. Gelson voltou a mostrar o futebol que o levou à convocatória para a seleção nacional e numa arrancada pelo corredor central inventou o primeiro golo: passou por vários adversários e chutou para uma defesa incompleta de Douglas, tendo Markovic sido o mais rápido a chegar para a recarga. O facto de ter perdido o capitão, Adrien, pouco depois, com uma lesão muscular, poderia ter afetado o rendimento leonino, mas não foi pela presença de Elias que a equipa fraquejou, pois o brasileiro até entrou bem na manobra geral. Coates ainda fez o segundo golo antes do intervalo, na sequência de um canto de Ruiz e o Sporting parecia rumar tranquilamente a mais três pontos. Até pela facilidade com que criava – e perdia – lances de golo. Isso viu-se, por exemplo, no arranque da segunda parte. Elias, em boa posição, chutou ao lado, aos 46’, tendo Douglas tirado o terceiro a Markovic um minuto depois, quando o sérvio lhe surgiu isolado pela frente em mais um belo lance de Gelson. O guarda-redes vimaranense, que já não tinha ficado isento de culpas no golo de Coates, tentava redimir-se, mas acabou por voltar ao lado errado da partida, deixando escapar para as redes um remate de Elias que queria enviar pela linha de fundo. Com 0-3, a 19 minutos do fim, o jogo parecia ter acabado. Mas não. Um penalti escusado de William sobre Hernâni, convertido por Marega aos 74’, podia ser um incidente meramente folclórico, não tivesse o mesmo Marega feito o 2-3 logo um minuto depois, surgindo entre Coates e Schelloto na sequência de um cruzamento da direita. De repente, o jogo reabria. O Vitória voltava a acreditar, puxado de forma entusiasta pelo seu público. E chegou mesmo ao empate num dos muitos livres de que beneficiou nessa ponta final: cobrança de Rafinha e cabeça de Soares, ao segundo poste, nas costas de Schelloto. O golo premiava 15 minutos finais com muito coração da equipa de Pedro Martins, mas acabava por ser bem mais o reflexo das dificuldades defensivas que este Sporting vem enfrentando: desde Madrid, em cinco jogos, o Sporting sofreu dez golos. Começa a ser uma tendência.
2016-10-01
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Dizer que o Benfica médio de Nápoles não foi tão mau como os quatro golos sofridos em menos de uma hora parecem fazer crer é como dizer que o Benfica médio da época passada não foi tão bom como os 88 pontos que somou na tabela final da Liga parecem dar a entender. E é tão profundo na análise como seria afirmar que Rui Vitória errou na escolha do onze só porque os dois jogadores que hoje sacrificou à vontade de dar à equipa mais algum controlo – Salvio e Gonçalo Guedes – acabaram por entrar e fazer os golos com que a equipa transformou um resultado catastrófico numa derrota apenas preocupante. Os 4-2 de Nápoles revelaram fundamentalmente duas coisas. Primeiro, uma propensão para o erro, sobretudo nas bolas paradas defensivas, que o Benfica já mostrara em jogos anteriores – a maior parte dos golos sofridos pelos encarnados esta época nasceu de bolas paradas. E depois um adversário mais matreiro e com maior taxa de acerto do que a maioria das equipas que o Benfica já tinha defrontado até aqui e que por isso mesmo foi capaz de transformar um superior volume de jogo em golos. Porque se Rui Vitória começou o jogo com André Almeida ao lado de Fejsa, de forma a que ambos pudessem ser auxiliados por André Horta, que partia de uma posição mais avançada – a de Jonas, que vem sendo ocupada por Gonçalo Guedes – foi por reconhecer que o Benfica tem tido problemas para controlar o ritmo dos jogos a meio-campo. É verdade que também não controlou este e que, genericamente mais atrás no campo, acabou por ver os erros cometidos transformados em golos. Hamsik fez o 1-0 logo aos 20’, de cabeça, num canto em que Fejsa se mostrou pouco agressivo no ataque à bola no primeiro poste. Ao intervalo, esperar-se-ia que Rui Vitória despertasse Carrillo, em sub-rendimento na esquerda do ataque, e que a equipa se juntasse para lutar pelo empate, mas o que se viu foram mais três golos do Napoli. Em sete minutos, Mertens fez o 2-0 num livre muito bem batido, Milik aumentou para 3-0 de penalti e Mertens chegou aos 4-0, num lance do qual Júlio César dai mal-visto, por ter falhado a interceção de um cruzamento que era dele. Com a discussão do resultado arrumada, Rui Vitória ainda fez entrar Salvio e Gonçalo Guedes, atenuando o resultado de 0-4 para 2-4 com dois golos dos dois suplentes, a dar sinal de uma atitude mais agressiva do Benfica, mas também da natural diminuição de intensidade de um Napoli que chegou aos seis pontos e encara a jornada dupla com o Besiktas na perspetiva de carimbar o apuramento. Para o Benfica, pelo contrário, os dois jogos com o Dynamo Kiev serão uma espécie de última praia, na qual um mínimo de quatro pontos se exige para entrar na fase decisiva em condições de discutir a passagem à fase seguinte.
2016-09-28
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Um Sporting poupado, tanto nos golos como na exibição que assinou na segunda parte, chegou para ganhar por 2-0 ao Legia Varsóvia, a pior equipa do grupo na Champions, e entrar na dupla jornada contra o Borussia Dortmund com os alemães à vista na tabela. Bryan Ruiz e o inevitável Bas Dost fizeram dois golos em nove minutos, no melhor período dos leões, que depois, ainda antes do intervalo, fecharam a loja e deixaram que o campeão polaco revelasse alguma vulgaridade: nem com os leões em ritmo de treino o Legia foi capaz de ameaçar discutir o resultado. Notava-se, de início, que o Legia vinha com duas ideias fixas: pressionar a saída de bola leonina, sobretudo quando ela era feita por William Carvalho, e quando recuperava a iniciativa mais atrás, explorar as costas dos laterais adversários com passes rápidos. Isso chegou para que os leões – ontem escalados com Bruno César como segundo avançado, num onze mais conservador do que o habitual – tivessem dúvidas. Mas só por uns minutos. Assim que acertou posicionamentos, a equipa dirigida por Raul José encostou o adversário à sua baliza, raramente o deixando sequer passar a linha de meio-campo. Gelson surgia ao nível habitual, imparável na direita, e tanto Adrien como Bryan Ruiz se aproximavam com critério de Bas Dost, o pivot ofensivo do esquema. Como resultado disso, acumulavam-se as ocasiões de golo na baliza de Malarz. Antes do 1-0, Gelson já tinha acertado na barra, numa finalização de baliza aberta, e tanto Dost como Adrien e Ruiz tinham estado também perto do golo. O golo de Ruiz, mesmo nascido de um mau corte de um polaco, justificava-se, o mesmo sucedendo com o segundo, que Dost marcou nove minutos depois, após bela abertura de Adrian. Até ao intervalo, Coates ainda obrigou o guardião Malarz a uma grande defesa, para evitar o 3-0, o mesmo tendo acontecido logo a abrir a segunda parte com Adrien. Só que aí já o Sporting entrara em modo de poupança. Os leões chamaram ao campo Markovic, Campbell e até Petrovic, acabando o jogo num assumido 4x2x3x1, revelando que não estavam assim tão interessados em correr riscos para ir à procura do 3-0. Com mais bola, o Legia também não foi capaz de deixar sequer a sensação de que podia vir a discutir o jogo: teve uma ocasião de perigo, por Radovic, mas a bola saiu ao lado da baliza de Rui Patrício. Terá de melhorar muito o Legia se quer evitar uma dupla goleada nos jogos com o Real Madrid que aí vêm. Ao mesmo tempo, o Sporting vai tentar discutir a qualificação com o Borussia Dortmund. Sem poupanças, nesse caso.
2016-09-28
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Não foi convincente o discurso de Nuno Espírito Santo na sequência da derrota do FC Porto em Leicester. Não é uma anormalidade perder por 1-0 no relvado do campeão inglês, mais a mais quando o FC Porto nunca tinha ganho em Inglaterra, e apesar de entrar na terceira jornada com apenas um ponto este nem sequer é o início de Champions do qual seja impossível recuperar, tendo em conta que aí vêm os dois jogos com o acessível Brugge, dos quais em condições normais os dragões retirarão o pleno de pontos. Mas ao treinador cabe perceber que o problema não foi a equipa não ter sido “mandona”, ter-lhe faltado “confiança” ou “eficácia” ou ainda ter sido pouco “madura”. O problema é que essa tem sido uma avalição recorrente e nasce da demora da equipa a assimilar princípios de jogo atacante. Objetivamente, mesmo tendo em conta que esta foi apenas a quarta vitória em dez jogos para o Leicester desta época, o FC Porto perdeu um jogo com normalidade. Fez uma primeira parte fraca, na qual um erro de Marcano e Felipe deu a Slimani o único golo do jogo: o espanhol estava mal posicionado no momento do cruzamento de Mahrez e o brasileiro permitiu que o ex-avançado do Sporting se lhe antecipasse no ataque à bola, que pelo caminho já tinha passado por Vardy. Depois, a perder, com Herrera, Corona e Jota, o FC Porto melhorou, é verdade. E isso, o facto de a equipa acabar quase sempre bem os seus jogos, quando o treinador recorre às alternativas, também devia ser motivo de reflexão. Se Nuno se queixa de falta de maturidade, por que não joga Herrera? Se se queixa de falta de eficácia e de golo, porque estão de fora jogadores que têm golo nas botas, como Corona – oito golos na época passada – ou Jota – que fez 14 no Paços de Ferreira? O extremo mexicano ainda meteu uma bola no poste da baliza de Schmeichel, já perto do fim, e esse lance, a somar a uma tentativa de chapéu de André Silva que saiu ao lado, logo no início da partida, foi um oásis em mais uma noite de pouca produção atacante da equipa portista. O Leicester também não fez muito mais, é verdade. Mas estranho será olharmos para os dois onzes, ou para os dois plantéis, e de repente acharmos que os ingleses tinham jogadores internacionalmente mais experientes, com mais capacidade para serem mandões ou, face ao terrível início de época que estão a viver, mais confiantes. A questão é que ao FC Porto falta ainda assimilar um plano de jogo em posse. O Leicester também o não tem? Mas o Leicester joga simples e grosso e nem quer saber disso. Ao FC Porto não tem faltado confiança, eficácia ou maturidade. Falta-lhe convicção.
2016-09-27
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Portugal é campeão da Europa e ganhou o campeonato jogado em França há menos de três meses com sangue novo no onze e sobretudo nos 23, pelo que mencionar a hipótese de renovação é sempre complicado e sujeita quem levantar o dedo para falar a levar como resposta que ela já está a ser feita. Mas as equipas renovam-se. Mesmo as que ganham. E as melhores renovações são aquelas que nem precisam de debate. É por isso que nem o facto de a taça ainda não ter acumulado pó suficiente para justificar que se lhe passe o pano inibiu Fernando Santos de chamar André Silva ao grupo na viagem à Suíça. E que se tudo correr dentro da normalidade o duplo confronto com Andorra e as Ilhas Faroe pode motivar mais três ou quatro adições ao grupo: Gelson Martins, Pizzi, Ruben Semedo e Nelson Semedo. Parece-lhe demasiado? Olhe que não. Sabia por exemplo quantos jogadores Luiz Felipe Scolari mudou entre a equipa que chegou às meias-finais do Mundial de 2006 e a que foi à Suíça jogar o Europeu de 2008? Foram 12. E acha que foi porque aquela seleção já era veterana e por isso era necessário pensar em renovação? Olhe que se engana. Porque em 2010, no momento de convocar para o Mundial da África do Sul, Carlos Queiroz mudou outros 12 nomes nos 23. E em 2012, quando fez a sua lista para o Europeu da Polónia e da Ucrânia, Paulo Bento voltou a fazer muitas mudanças – se arriscou vaticinar que foram doze, acertou em cheio. O doze não é nenhuma espécie de número mágico para esta conversa, mas serve de referência para que julguemos que a partir desse momento a equipa entrou numa espécie de estagnação. Paulo Bento só mudou sete homens na lista que elaborou para o Mundial do Brasil, em 2014, e face à pobreza dos resultados todo o país passou a achar que ele foi conservador demais. Fernando Santos voltou ao ritmo anterior, mudou onze convocados para 2016 e a seleção ganhou o Europeu. Quer isto dizer que, em condições normais, André Silva não será a única novidade de Portugal na fase final do Mundial de 2018 – se, como se espera, a seleção lá chegar. Já se viu que o ponta-de-lança do FC Porto tem qualidade para a equipa nacional, embora ainda não tenha sido possível testar algo que defendo desde antes do Europeu – que ele é o parceiro ideal para o Ronaldo dos dias de hoje na frente de ataque, porque faz tudo o que o CR7 deixa por fazer. Pressiona sem bola, dá profundidade, luta no corpo-a-corpo, o que já de si vem tornar algo irrelevante se faz poucos ou muitos golos. E ele por acaso até tem feito muitos. Esta semana, Jorge Jesus veio apresentar formalmente mais uma candidatura à próxima convocatória de Fernando Santos. Disse o treinador do Sporting que não há no futebol português nenhum jogador com as caraterísticas de Gelson Martins e tem razão, porque Gelson alia a criatividade de Quaresma em situações de um para um à velocidade que já vai faltando ao Mustang do Besiktas e que entre os mais jovens atacantes nacionais só se encontra, por exemplo, em Rafa. É uma mistura de tal forma explosiva e que foi de tal modo impactante, por exemplo, no Santiago Bernabéu, quando o Sporting lá defrontou o Real Madrid, que estranho seria que Fernando Santos se privasse de a ver em ação. Acontece que não é por ter tido o seu treinador a fazer lobby por ele que Gelson terá de estar sozinho como novidade na próxima convocatória. Pizzi continua a ser, juntamente com João Mário, o melhor médio nacional a articular jogo exterior com jogo interior. Se com Jesus jogava no corredor central – foi a resposta possível à saída de Enzo Pérez a meio de uma época –, com Rui Vitória o transmontano tem sido sempre o médio-ala que mais frequentemente usa o cérebro para se juntar aos colegas do corredor central quando é necessário restabelecer equilíbrios. Entre os médios portugueses, só João Mário o faz melhor, pelo que custa a entender que continue a ser deixado de parte quando se juntam os melhores executantes nacionais. Como custará entender que Ruben e Nelson Semedo fiquem fora da próxima lista. O lateral do Benfica, vigoroso na forma como enche todo o corredor direito, pode até esbarrar no facto de haver boas opções para a sua posição entre os campeões da Europa, mas o central do Sporting, veloz e forte no desarme e na antecipação como mais nenhum outro jogador da sua geração, até ocupa a posição mais necessitada de renovação na equipa campeã europeia. Ricardo Carvalho, aos 38 anos, está sem clube; Bruno Alves (34), Pepe (33) e José Fonte (32) também já não vão para novos, pelo que parece mais ou menos evidente que em 2018 haverá pelo menos um novo central português no Mundial. A ideia é dar-lhe rodagem.
2016-09-26
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Rui Vitória lembrou esta semana que a máquina do Benfica anda a trabalhar sem várias peças, que espera recuperar em Outubro, mas a verdade é que mesmo sem elas a equipa continua isolada na frente do campeonato. E isso deve-se muito a tardes como a de hoje, nas quais a máquina mostra eficácia máxima nas bolas paradas. De visita a um Chaves tão competente como o seu treinador, Jorge Simão, o Benfica obteve uma complicada vitória por 2-0, graças a mais dois golos nascidos nas bolas paradas: livre lateral de Grimaldo para um ligeiro desvio de Mitroglou, a 20’ do fim, e livre direto do mesmo Grimaldo à barreira, para a rcarga de Pizzi, aos 84’. Esta tem sido, aliás, a receita que o Benfica tem aplicado neste início de campeonato sem asa tais peças que lhe confiram maior qualidade: marcou de bola parada em todas as deslocações, sendo que em duas delas (Nacional e agora Chaves) foi mesmo assim que se adiantou no marcador. Aliás, no jogo de hoje, foi sempre de bola parada que mais ameaçou a baliza de António Filipe: mesmo com dificuldades para evitar que os três médios do Chaves (Assis, Battaglia e Braga) se superiorizassem no corredor central a André Horta e Fejsa, dessa forma gerando várias situações prometedoras que os flavienses desperdiçavam por falta de qualidade no último passe, o Benfica foi tendo as melhores ocasiões de golo até à ponta final da primeira parte. Mitroglou obrigou António Filipe a defesa apertada na ressaca a um livre, logo aos 17’, e Lisandro, na sequência de um canto da esquerda, voltou a cheirar o golo, aos 20’. Não era, porém, um Benfica consistente. As triangulações do Chaves libertavam quase sempre alguém para cruzar – porque Pizzi e Salvio eram muitas vezes chamados a tentar equilibrar ao meio em transição defensiva –, fossem Fábio Martins ou Nelson Lenho na esquerda ou o sempre ofensivo Paulinho à direita. E na sequência de um desses lances, a equipa da casa perdeu por três vezes o golo inaugural, aos 41’: Braga e Fábio Martins acertaram ambos no mesmo poste da baliza de Ederson, tendo depois Rafael Lopes feito a recarga de baliza escancarada ao lado. O Chaves, porém, voltou menos forte para a segunda parte e o jogo entrou num impasse até ao momento em que Mitroglou fez o 1-0, aparecendo no fim de um livre de Grimaldo que nascera de uma falta cometida por João Mário, a seta que Jorge Simão lançara na esquerda para voltar a aparecer nos metros finais do campo. Saiu-lhe mal a receita. A ganhar, o Benfica passou a sentir-se mais à vontade. Simão ainda tentou virar o jogo, chamando a ele Vukcevic para apoiar Rafael Lopes, mas Rui Vitória fechou a partida chamando Cellis para o lado de Fejsa, passando a poder explorar o espaço no meio-campo ofensivo como nunca conseguira até aí. Foi, ainda assim, noutra bola parada que fez o golo da tranquilidade, aos 84’: o livre de Grimaldo, quase em cima da linha de área, bateu na barreira, mas Pizzi estava na meia-lua à espera disso mesmo e teve todo o tempo para colocar a bola rasteira junto ao poste da baliza de António Filipe. Estava definida a atribuição dos pontos e a primeira derrota do Chaves neste campeonato, bem como o regresso do Benfica à liderança. Quando ainda está à espera de peças.
2016-09-24
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Mais uma noite fulgurante de Gelson Martins, desta vez bem acompanhado pela certeza na finalização de um Bas Dost que começa a ser solução, valeu ao Sporting uma vitória tranquila sobre o Estoril, à qual só uma meia-hora de descompressão final deu números ainda assim equilibrados: o 4-2 definitivo, com três golos nos últimos cinco minutos (dois deles para os visitantes), reflete tanto o amplo domínio que os leões exerceram sobre o adversário até ao momento em que Jorge Jesus deu descanso a alguns titulares como a total desconcentração da equipa na ponta final da partida. Gelson mereceu bem as palavras que Jesus lhe endereçou na flash-interview: está numa forma impressionante, não só pela velocidade que imprime ao jogo, mas também pela capacidade que revela no um para um e às vezes até no um para dois. Com ele colado à direita, o treinador do Sporting sabe que tem uma fonte permanente de desequilíbrio, bastando-lhe depois somar um finalizador e juntar a tudo uma equipa concentrada e taticamente bem colocada no terreno. Foi por isso que, tirando uma investida logo aos 4’, na qual criou alguma sensação de perigo na esquerda do seu ataque, o Estoril só voltou a aproximar-se da área leonina quando já perdia por 3-0. E mais podiam ter sido se Bryan Ruiz não estivesse num daqueles dias de perder golos cantados. É verdade que o Sporting marcou bastante cedo, num lance que pode tornar-se típico no futebol dos leões: desequilíbrio de Gelson na direita, cruzamento para a área, onde Bas Dost se antecipou a Lucas Farias e marcou de cabeça. Apesar de ainda faltar mais de meia-hora para o intervalo e de o jogo se desenrolar todo o meio-campo do Estoril – muito bem os dois centrais leoninos, a jogarem em antecipação e a não deixarem que os adversários construíssem os seus contra-ataques – o resultado não sofreu alterações antes do descanso. Bryan Ruiz pode explicar porquê: teve uma bola a saltitar à entrada da pequena área mas chutou-a para a bancada, perdendo o 2-0. Com André em vez de Alan Ruiz, que desperdiçou mais 45 minutos no onze titular para causar boa impressão, o Sporting entrou forte na segunda parte, chegando aos 3-0 por volta da hora de jogo. Marcou primeiro Coates, de cabeça, após canto de Bryan Ruiz, tendo depois Bas Dost bisado, na conclusão de um contra-ataque à Slimani: recuperação de Gelson, tabela entre André e William, que colocou a bola na profundidade, onde o holandês a foi buscar e bateu Moreira. Fabiano Soares preparava-se para tentar discutir o jogo quando levou com este golpe duplo, mas as entradas de Gustavo e, sobretudo, de Bruno Gomes – que substituiu o ponta-de-lança Paulo Henrique – ainda haviam de dar os seus resultados. Antes disso, porém, foi o Sporting quem perdeu por duas vezes a possibilidade do 4-0: primeiro André, aos 74’, após jogada entre Gelson e Markovic; depois William, aos 78’, após tabela com Gelson; e por fim Bryan Ruiz, aos 81’, a ver Moreira tirar-lhe o golo com o pé. Jesus, nessa altura, já substituíra jogadores fundamentais. Bas Dost e Adrien já viram do banco a forma como os dois suplentes do Estoril combinaram para reduzir a desvantagem: cruzou Gustavo, para uma bela finalização de Bruno Gomes, que por fim conseguiu chegar a uma bola antes de Ruben Semedo. Faltavam cinco minutos para o fim e o golo de André, a passe de Bryan Ruiz, acabava com quaisquer veleidades que os canarinhos ainda tivessem de vir a discutir o resultado, mas não com a possibilidade de lhe dar um cariz mais equilibrado: Bruno Gomes ainda bisou, após um canto em que toda a equipa do Sporting já estava a pensar no Legia de Varsóvia. Com quatro dias de avanço.  
2016-09-24
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A qualidade individual de Otávio e a movimentação sempre inteligente de André Silva, hoje bem complementado por Adrián López, permitiram ao FC Porto ultrapassar o obstáculo constituído por um Boavista que nunca mostrou grande futebol mas teve a capacidade para manter o resultado em aberto até aos últimos minutos. O 3-1, marcado a quatro minutos do fim, quando os axadrezados apostavam num jogo partido, com bola cá-bola lá, permitiu a justa atribuição dos três pontos à equipa de Nuno Espírito Santo, mas a demora no golo da tranquilidade e uma segunda parte muito desinspirada dos dragões não afastaram as nuvens negras do horizonte antes da visita a Leicester, em importante desafio da Liga dos Campeões marcado para terça-feira. Nuno Espírito Santo apostou num 4x4x2 com maior preenchimento do corredor central, pois nele não entraram extremos: a largura era dada pelos dois defesas-laterais e pelas saídas da área dos dois pontas-de-lança, os móveis André Silva e Adrián López, que substituiu o belga Depoitre, nulo no jogo de Tondela. Adrián procurava muito a esquerda, dessa forma compensando as constantes diagonais de Otávio para o meio, nas quais o jovem brasileiro se mostrava o melhor portista na difícil arte de queimar linhas com bola. E isso tornou-se tanto mais importante quanto o início de jogo foi complicado para a equipa da casa, uma vez que o Boavista marcou na primeira vez que chegou perto da baliza de Casillas, logo aos 5’: livre de Fábio Espinho e cabeça de Nuno Henrique para o 0-1. A ganhar desde tão cedo, não se percebeu bem se o Boavista trazia algum plano de jogo a não ser o de impedir os ataques portistas. A equipa de Sánchez juntava linhas perto da área, mostrava um Idris em momento pujante, mas raramente conseguia ligar-se aos jogadores da frente – só Bukia se mostrou, em noite anónima de Iuri Medeiros e Digas. O FC Porto, com Oliver mais atrás do que o habitual e André André a procurar também o corredor central a partir da direita, só entrava na organização defensiva adversária em bolas paradas – dois quase-golos de Danilo, ainda na primeira parte – ou nas tais arrancadas de Otávio. Foi o jovem brasileiro quem descobriu André Silva para o golo do empate, aos 19’, e foi ainda ele quem, numa mudança de velocidade, forçou uma falta de Nuno Henrique junto à linha de fundo. No penalti correspondente, André Silva bisou e colocou o FC Porto na frente do marcador, ainda antes do intervalo. Foi aquilo de que o FC Porto precisou para baixar o ritmo do jogo numa segunda parte que foi correndo mais sonolenta. Foi interessante a entrada de Diogo Jota para o lugar de Adrián, pois permitiu ao jovem português mostrar a rapidez de processos e o descaramento para finalizar que lhe permitirão voar alto, mas o jogo estava por essa altura mais dividido do que seria de supor. Com Schembri em vez de Iuri Medeiros e a subida de rendimento de Fábio Espinho, o Boavista foi ganhando chegada à frente e, mesmo sem ocasiões claras de golo, manteve o suspense no resultado até ao minuto 86, quando um cruzamento de Alex Telles acabou no fundo das redes, fruto de uma intervenção desastrada do guardião Agaev. Estava resolvido o jogo e os dragões podiam finalmente pensar na Champions. Se é que não era já por lá que tinham a cabeça antes disso.  
2016-09-23
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Um regresso feliz de Mitroglou ao onze ajudou o Benfica a vencer o Sp. Braga por 3-1 e a isolar-se na frente da classificação da Liga, à quinta jornada. Um bis do grego, somado a um golo de Pizzi, transformou um desafio que se antevia – e que foi… – difícil numa vitória que até permitiu alguma descompressão no final, quando a margem de manobra cresceu e o desgaste do adversário também. Até ao momento em que o Benfica acabou com o jogo, com dois golos de rajada, à entrada para os últimos 20 minutos finais, porém, quase que se via a repetição da partida da Supertaça, com a eficácia na finalização a fazer a diferença entre as equipas de Rui Vitória e José Peseiro. O jogo começou a um ritmo alucinante, o que à partida parecia ser melhor para os donos da casa do que para os visitantes, que tinham menos dois dias de recuperação desde a sua partida europeia. O Benfica, com Mitroglou à frente de Gonçalo Guedes, a alargar o espaço disponível pela forma como busca a profundidade, era melhor com bola do que sem ela: o seu meio-campo ligava bem o jogo ofensivo mas, até pela baixa de Fejsa em momento de construção, era pouco agressivo em transição defensiva, permitindo que o jogo se disputasse muito na largura e na capacidade que ambas as equipas mostravam para encontrar o corredor contrário ao da bola. E aqui invertiam-se os papéis: o 4x2x3x1 do Sp. Braga, com Vukcevic sempre bem no passe e os dois extremos (Pedro Santos e Wilson Eduardo) inteligentes na forma de variar centro de jogo, conseguia expor vulnerabilidades no Benfica e transformar o desafio num jogo de transições que convinha menos aos donos da casa. Nessa altura, só a noite seguríssima de Júlio César evitou males maiores para o Benfica. As ocasiões de golo sucediam-se, nas duas balizas. Mitroglou chutou ao lado da entrada da área aos 2’, respondeu Hassan falhando o alvo depois de isolado frente a Júlio César, aos 4’. O guarda-redes do Benfica tirou um golo cantado a Pedro Santos aos 5’, sendo imitado por Marafona, que deteve um remate perigoso de Salvio aos 12’. Nessa altura, Marafona lesionou-se, o jogo esteve interrompido e da pausa saiu melhor o Benfica, que inaugurou o marcador aos 27’, numa arrancada de Guedes que Mitroglou transformou no 1-0, depois de ser o mais rápido a adivinhar onde ia cair o cruzamento. Até ao intervalo, o Sp. Braga ainda obrigou Júlio César a mais duas defesas providenciais, a remates de Pedro Santos (aos 37’) e Rosic (num canto, aos 45’), mas a equipa de Peseiro já não regressaria tão forte para o segundo tempo. Fosse por causa do desgaste da partida de quinta-feira ou devido às correções feitas ao intervalo por Rui Vitória, a verdade é que passou a pairar na Luz a ideia de que estava mais perto o 2-0 que o 1-1. Guedes, de livre, ainda obrigou Marafona a uma extraordinária defesa, num livre que ainda desviou na barreira, como que a prenunciar que um ressalto acabaria por resolver o jogo. Foi o que aconteceu aos 74’, quando um atraso de Mitroglou bateu no bracarense Douglas Coutinho e ganhou a direção da área, onde Pizzi estava sozinho e aproveitou para fazer o 2-0. A desorientação bracarense conduziu ao terceiro golo, apenas quatro minutos depois, obra de Mitroglou, de cabeça, após uma insistência de Pizzi na esquerda. E o resultado só não foi o mesmo da Supertaça porque, mesmo em cima do minuto 90, Rosic melhorou o que tinha feito a fechar a primeira parte, cabeceando para golo um canto de Wilson Eduardo. O jogo fechava, ainda assim, com a vitória do Benfica, uma vitória que, mesmo no meio de tantas lesões, deixa os tricampeões nacionais isolados na frente da tabela. Rui Vitória não valorizou este aspeto, mas certamente que não o desprezaria se alguém lho antevisse antes deste atribulado arranque de campeonato. Ainda há muitos jogos para fazer, alguns pontos para perder, mas a tendência normal com o regresso dos titulares é que este Benfica fique mais forte.
2016-09-19
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Jorge Jesus já devia saber que quando faz aquele barulho, como que a espremer a língua entre os dentes para pontuar uma tirada bombástica, é porque não vem aí coisa boa. Quando resolveu concluir um debate acerca da melhor equipa ou do melhor plantel do campeonato com mais uma tirada de auto-elogio absolutamente desnecessária, dizendo que “quem faz a diferença é o treinador”, esqueceu-se que a realidade pode sempre encontrar formas de contrariar a teoria. Porque, sim, otreinador faz diferença, mas não a faz só de uma maneira. E quem faz sempre a diferença, em todos os momentos, são os jogadores que esse treinador leva a jogo.Jesus costuma fazer a diferença de várias formas. Faz a diferença a trabalhar a equipa ao longo da semana, criando comportamentos defensivos e movimentações ofensivas difíceis de contrariar. Por isso o seu Sporting cresceu até aos 86 pontos na Liga passada ou se superiorizou ao Real Madrid na quarta-feira, antes de um final de jogo que lhe foi fatal. Depois, faz a diferença no banco, com a pressão permanente sobre os jogadores exercida desde a linha lateral, fazendo crescer a concentração e baixar o total de erros. Faz ainda a diferença nas coisas que diz, aqui nem sempre uma diferença positiva, deixando no ar a dúvida acerca dos intuitos dessa comunicação: estratégia ou incontinência? E ontem, em Vila do Conde, fez ainda a diferença numa avaliação errada, tanto do estado em que se encontravam os seus jogadores depois do jogo intenso que tinham feito no Santiago Bernabéu como das armas do Rio Ave, que dinamitou de forma irreparável o flanco esquerdo leonino em 45 minutos. Porque desde os primeiros instantes do jogo se percebeu que Gil Dias ganhava sempre em velocidade ao improvisado lateral-esquerdo que é Bruno César, ainda por cima muito mal apoiado por Campbell, ou que André e Alan Ruiz não estavam a cumprir a tarefa de pressionar a saída de bola do adversário, permitindo ao Rio Ave um jogo fluído.Nessa altura, quem fez a diferença foi Nuno Capucho, que percebeu o que ali estava e meteu naquele lado direito uma gazua capaz de abrir a defesa do Sporting e de chegar a um 3-0 de que os leões já não recuperaram. Mais ainda. Quem fez a diferença foi Gil Dias, porque os treinadores só fazem verdadeiramente a diferença no mais longo prazo e quem decide jogo a jogo são os futebolistas. É por isso que o debate que motivou toda esta polémica foi lançado em bases erradas. Tudo nasceu, recorde-se, numa pergunta feita a Jorge Jesus: “o Sporting tem o melhor plantel da Liga?” E se é verdade que o Sporting tem um plantel melhor do que tinha na época passada, ao nível do grupo do Benfica na profundidade das opções à disposição do treinador, também é certo que os leões têm neste momento pior onze do que tinham na Liga anterior. Jesus, que respondeu dizendo que uma equipa orientada por ele será sempre a melhor, porque “quem faz a diferença é o treinador”, esqueceu-se que muitos dos jogadores que ia levar a jogo em Vila do Conde ainda não estavam familiarizados com o processo de jogo que ele trabalha e que, no médio e longo prazo, sim, pode fazer mesmo a diferença. Mas para já não fazem, porque se Gelson ainda disfarça a saída de João Mário, ninguém está à altura do rendimento de Slimani e não há quem dê à equipa o que lhe dá Bryan Ruiz (ontem suplente) na esquerda do ataque.A explicar o banho de humildade a Jesus esteve a rotação na equipa, com a saída de quatro titulares de Madrid, numa inversão da lógica que presidiu à época passada, na qual os leões guardavam as melhores opções para a Liga portuguesa e andavam pela Liga Europa com segundas escolhas. Ainda por cima segundas escolhas bem mais fracas do que as de agora – daí a chapa três na Albânia, frente ao Skenderbeu, por exemplo. Mas esteve também o facto de os jogadores ontem utilizados na frente, que é onde está a base de qualquer equipa de Jesus, ainda não terem tempo suficiente de trabalho para compreenderem como hão-de fazer a diferença naquela organização. É por isso que este Sporting tem melhor plantel do que em 2015/16, mas ainda tem pior equipa. Se vai chegar ao nível exibido na época passada ou não, isso sim, já dependerá da capacidade do treinador. Sendo que o direito ao erro ficou ontem mais reduzido.
2016-09-19
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Quarenta e cinco minutos calamitosos, ao nível apenas do que se tinha visto ao Sporting de Jorge Jesus na Albânia, frente ao Skenderbeu, na época passada, custaram aos leões uma desvantagem de três golos ao intervalo frente a um Rio Ave competente, organizado e inteligente a aproveitar as debilidades do adversário e impediram o líder do campeonato de pontuar em Vila do Conde. O 3-1 final, nascido da incapacidade leonina para pressionar e para fechar o flanco esquerdo face à velocidade de Gil Dias, foi um banho de humildade para Jesus, que fechara a semana com declarações de peito cheio mas teve depois um encontro imediato com uma realidade mais sombria do que ele a pintou: este Sporting não é ainda a equipa que pode ser. A derrota, que deixa o Sporting à mercê do que fizerem Benfica e Sp. Braga no encerramento da quinta jornada da Liga – se algum dos dois ganhar na Luz isola-se na frente – foi justíssima, por mais que tenha surpreendido a exibição pouco intensa e rigorosa da equipa lisboeta. Jesus sacrificou quatro titulares do Santiago Bernabéu – Bas Dost, Bryan Ruiz, João Pereira e Zeegelaar – apostando em André e Alan Ruiz para a frente de ataque e em Campbell para atacar na esquerda, à frente de Bruno César, que voltou a ser defesa-lateral. Do outro lado, Nuno Capucho optou por um 4x3x3 que metia o móvel Guedes em cunha na frente e abria o veloz Gil Dias na direita. E foi aí que começaram os problemas do Sporting: desde cedo se viu que Campbell não defendia e que, lançado nas costas de Bruno César, Gil Dias ganhava sempre em velocidade e abria uma avenida naquele lado. A ajudar à festa vila-condense, ninguém fazia a pressão que notabilizou Slimani: nem André nem Alan Ruiz se preocupavam em atrapalhar a construção de jogo do Rio Ave, como se viu, aliás, no lance do primeiro golo, em que o defesa-central Roderick avançou desde o seu meio-campo até à linha de fundo para ali descobrir Tarantini, que não perdoou. O golo surgiu, é verdade, num momento em que, passado o primeiro embate, o Sporting até já tinha conseguido equilibrar o jogo. André até tinha desperdiçado uma boa ocasião de desfeitear Cássio, permitindo, aos 22’, que este fizesse a mancha depois de um bom passe de Coates. Sete minutos depois, porém, Tarantini inaugurou o marcador. E outros sete minutos volvidos, aos 36’, Gil Dias teve no corredor central espaço para arrancar, correr umas dezenas de metros e solicitar a desmarcação circular de Guedes, que isolado ante Rui Patrício lhe meteu a bola no poste mais próximo. O 2-0 não resistiu muito tempo: foram mais sete minutos. Aos 43’, antes da saída para o intervalo, Gil Dias lançou Guedes na direita, este ganhou a linha de fundo e cruzou para o segundo poste, onde o mesmo Gil Dias tornava o jogo uma missão impossível para os leões. Ao intervalo, Jesus chamou a sua artilharia pesada: Bas Dost e Bryan Ruiz substituíram os desastrados Alan Ruiz e Campbell, mas, mesmo não tendo o Rio Ave voltado a beneficiar de situações de golo, a verdade é que a produção atacante do Sporting nunca atingiu o nível a que a equipa habituou os seus adeptos. Dost, de cabeça, aos 51’, e sobretudo Ruiz, de frente para a baliza, aos 62’, perderam as melhores oportunidades para relançar o jogo, o que levou Capucho a puxar os seus um pouco para trás, com as entradas de Pedro Moreira e João Novais. Quando chegou o golo leonino, marcado por Dost aos 82’, após assistência corajosa de Gelson (ainda assim, juntamente com Adrien um dos melhores do Sporting), já não havia tempo para pensar em pontos. Depois da derrota injusta do Santiago Bernabéu, o Sporting levou de Vila do Conde uma lição de humildade que não deve esquecer tão cedo e a certeza de que esta equipa ainda precisa de muito trabalho para igualar a da época passada.
2016-09-18
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O mesmo défice de criatividade que já lhe custara dois pontos na partida da Liga dos Campeões frente ao Copenhaga, no Dragão, voltou a impedir o FC Porto de vencer na deslocação a Tondela. Num jogo onde beneficiou de iniciativa atacante quase permanente e de amplo domínio territorial, atenuado apenas na segunda parte, quando o jogo partiu e o Tondela conseguiu meter no relvado alguns contra-ataques, a equipa de Nuno Espírito Santo não foi além de um 0-0 que a penaliza. Não foi um problema de esquema tático – voltou o 4x4x2 –, de eficácia ou de falta de homens ofensivos no onze. O que faltou mesmo foi a capacidade para criar desequilíbrios em ataque organizado. Perante um Tondela bem organizado defensivamente e sempre aguerrido, Nuno Espírito Santo voltou ao 4x4x2, juntando Depoitre a André Silva e entregando as faixas laterais ao regressado Brahimi e a Otávio. Os dois alas procuraram sempre o corredor central, para aí promoverem os tais desequilíbrios – algo que Otávio conseguiu sempre melhor do que Brahimi – e para deixarem as laterais aos ofensivos Layun e Alex Telles. Só que, apesar das tentativas de Ruben Neves desempenhar o papel de médio centro de uma forma mais atacante do que o habitual Danilo, os primeiros 45 minutos foram quase um deserto em termos de situações de perigo. De parte a parte: o FC Porto só entrou com perigo na área uma vez, num passe longo de Felipe a, que nem André Silva, primeiro, nem Depoitre, no aproveitamento do ressalto, deram o melhor seguimento. O Tondela, metido num 4x2x3x1 que tinha em Crislan um avançado capaz de segurar a bola e de esperar pela equipa, dando assim tempo aos homens mais recuados para respirar, ia ganhando confiança. E depois de Gonçalves ter procurado, sem sucesso, um dos ângulos superiores da baliza da Casillas, a segunda parte começou com uma equipa da casa mais afoita do ponto de vista atacante. Espírito Santo quis mudar o ataque, primeiro trocando Brahimi por Oliver – e desviando André André para a direita – e depois substituindo o desastrado Depoitre por Adrián López, mas a primeira situação de golo flagrante da partida foi a equipa da casa a perdê-la, quando Murillo se isolou na cara de Casillas e viu o remate esbarrar na mancha do guarda-redes espanhol. Aí, já com Corona em campo, o FC Porto acordou para dez minutos finais melhores, que certamente tiveram a ver também com a quebra física da equipa de Petit, que também perdera Kaká, o seu cérebro defensivo, por lesão. André Silva e Adrián López ainda chegaram com bola à cara de Cláudio Ramos, mas nas duas situações o guarda-redes do Tondela levou a melhor, segurando um 0-0 que manda uma mensagem para o balneário do Dragão. Para ganhar é preciso mais do que um sistema tático ou a acumulação de jogadores de ataque: eles têm de combinar no campo. E isso é que não se tem visto.
2016-09-18
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A dramática derrota do Sporting frente ao Real Madrid no Santiago Bernabéu (1-2) e o insuficiente empate do FC Porto em casa ante o Copenhaga (1-1) puseram um ponto final modesto na semana das equipas portuguesas na Liga dos Campeões. Os dois jogos tiveram histórias muito diferentes mas epílogos semelhantes, de desilusão. Saíram desiludidos os leões, que foram a melhor equipa em campo durante 70 minutos mas não conseguiram congelar o desafio nos últimos 20, ficando à mercê da remontada madridista, como desiludidos saíram os dragões, incapazes de criar desequilíbrios na defesa dinamarquesa, nem mesmo quando o adversário ficou reduzido a dez. A derrota do Sporting veio recheada de uma demonstração de personalidade que não está ao alcance de qualquer equipa. Com um posicionamento irrepreensível e face a um Real pouco dinâmico, a equipa de Jorge Jesus foi sempre assegurando superioridade numérica nos vários duelos a meio-campo, fundando aí a capacidade de assegurar a maior dose de iniciativa de jogo: o Real só chutou à baliza de Rui Patrício à passagem da meia-hora, e de fora da área, por Cristiano Ronaldo. Gelson, mais uma vez o melhor em campo, foi um pesadelo constante para a defesa do Real Madrid, tendo começado nele o lance em que Bruno César abriu o marcador. Foi ainda o jovem ala quem, num lance pela direita, deu a Bas Dost a melhor ocasião do jogo – o holandês tentou meter o pé onde se impunha a cabeça e o cruzamento perdeu-se. O Real acabou por virar o jogo quando já poucos nisso acreditariam, fruto da conjugação de vários fatores. Primeiro, as alterações introduzidas por Zidane: Morata, Lucas Vasquez e James Rodríguez melhoraram muito o rendimento do campeão europeu. Depois, o facto de os leões terem piorado com as trocas de Adrien e Gelson por Elias e Markovic. Por fim, é verdade, a inexperiência de muitos jogadores da equipa portuguesa em momentos como aqueles, em que se impõe quebrar o ímpeto ao adversário. A verdade é que, tendo feito o empate num livre irrepreensível de Ronaldo (após falta de Elias), aos 89’, o Real ainda teve tempo para ganhar, num cabeceamento de Morata após cruzamento de James. Houve muito banco numa reviravolta que deixa o Sporting com zero pontos e a precisar de ganhar ao Legia já na segunda jornada. A pressão, senti-la-á também o FC Porto, que seguirá para Leicester com um ponto e a precisar pelo menos de pontuar em Inglaterra, depois de uma exibição pouco conseguida frente ao Copenhaga. Nuno Espírito Santo voltou ao 4x3x3, remetendo Depoitre para o banco, e parecia até poder sair-se bem, depois de um início premiado com um golaço de Otávio, após bela assistência de André Silva. Já nessa altura, porém, o FC Porto revelava parte dos pecados que haveriam de custar-lhe dois pontos, nomeadamente a falta de controlo do espaço aéreo defensivo face à potência de Santander e Cornelius, os dois avançados dos dinamarqueses. O resto ver-se-ia no segundo tempo, sobretudo depois de o Copenhaga ter empatado – por Cornelius, após mais um cruzamento não desfeito pelo último reduto portista – e de o adversário ter ficado reduzido a dez homens, por expulsão de Gregus. Nessa altura, em que Espírito Santo descobriu falta de eficácia, o que se viu foi falta de capacidade para criar desequilíbrios numa equipa organizada mas de qualidade inferior. O FC Porto voltou então ao 4x4x2, com Depoitre em vez de Corona, e mais tarde com a entrada de Brahimi para as vezes de Herrera, mas nem assim criou verdadeiras ocasiões de golo, parecendo sofrer sempre que as probabilidades estão a seu favor. Talvez não seja esse o caso em Leicester, como não era em Roma.
2016-09-14
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Um livre de Talisca, já em período de compensações, custou ao Benfica dois pontos na estreia na Liga dos Campeões desta temporada. O empate a uma bola, nascido de várias mudanças táticas operadas pela equipa do Besiktas na segunda parte, acaba por punir a quebra dos campeões nacionais nesse mesmo período, depois de em 45 minutos de clara superioridade não ter feito mais de um golo, obra de Cervi. O facto de ter jogado sem as primeiras escolhas no ataque – Jonas, Mitroglou, Jiménez e Rafa estão todos lesionados – acabou por custar caro a Rui Vitória. O Benfica entrou com uma dupla de ataque improvável, formada por Cervi e Gonçalo Guedes, com o primeiro, mais forte em ataque rápido, a jogar nas costas do segundo, que não fazia nada tão bem como a pressão à saída de bola do adversário. A consequência da aliança desta dupla com a excelente exibição de Fejsa e André Horta, os dois médios-centro encarnados, foi o bloqueio total de uma equipa do Besiktas disposta em 4x2x3x1, mas com os dois extremos muito abertos – Quaresma na direita – e Ozyakup perdido no meio das linhas encarnadas no apoio a um isolado Aboubakar. O jogo, no primeiro tempo, tornou-se muito repetitivo: tentativa frustrada de organização ofensiva do Besiktas, bola recuperada pelo meio-campo do Benfica e saída rápida para o ataque. O golo, logo aos 12’, nasceu de um excelente passe de Horta, a rasgar, até encontrar uma diagonal de Salvio da direita para a esquerda. De pé esquerdo, o argentino chutou, o guarda-redes largou a bola e Cervi foi mais rápido que Tosic na reação, fazendo a recarga vitoriosa. A ganhar desde cedo, o Benfica serenou e teve mesmo duas situações de contra-ataque em superioridade numérica que, por erros no passe, não levou sequer até a finalização. Só que aquele Besiktas facilmente manietável da primeira parte voltou diferente para a segunda. Com Talisca em vez de Ozyakup, com Quaresma mais por dentro e Adriano a subir de lateral para extremo-esquerdo, surgindo também mais no corredor central, os turcos subiram de produção. Mais tarde, com a entrada de Tosun para ponta-de-lança e as aproximações de Aboubakar, a equipa de Senol Günes começou mesmo a criar lances de golo: Tosun perdeu um lance na cara de Ederson e este tirou com uma excelente defesa o empate a Marcelo, na sequência de um livre. Nessa altura já o Benfica trocara Cervi por Samaris, numa tentativa provavelmente prematura de encerrar o jogo, fechando a porta ao adversário – talvez se aconselhasse mais nessa altura um ganho de qualidade na frente, com Carrillo, por exemplo. É verdade que mesmo assim Gonçalo Guedes teve nos pés o 2-0. O improvisado ponta-de-lança benfiquista ganhou a bola a Quaresma, que foi fugindo a sucessivos desarmes desde o meio-campo até ser batido à entrada da área, mas depois, isolado frente a Tolga Zengin, não evitou que o guarda-redes turco desviasse o remate com o pé. Esse acabou por ser o lance decisivo do jogo. Antes do final, o Benfica ainda substituiu Fejsa por Celis. E já tinha José Gomes na linha lateral, pronto para entrar e para se tornar o mais jovem de sempre a jogar pelo clube nas provas europeias, quando o médio colombiano meteu a mão a uma bola a uns seis ou sete metros da linha de área. Talisca apontou logo para o peito, a assumir que ia ser ele a bater o livre. E fê-lo de modo imparável, festejando efusivamente o golo que valeu o empate à sua nova equipa frente à que o emprestou.
2016-09-13
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O mercado de transferências no futebol europeu não tem a função niveladora do “draft” nos desportos norte-americanos, mas a forma como está estruturado acaba por abalar as certezas que muitos tinham a 31 de Agosto e deixaram de ter a 1 de Setembro. O primeiro jogo do Sporting sem Slimani veio confirmar a ideia de que Jorge Jesus vai ter trabalho a sério para devolver à equipa o futebol que esta praticava com o argelino. E se o facto de ter mantido o onze até às vésperas de encerramento do mercado conferia ao Sporting alguma vantagem face aos seus mais diretos competidores, a saída de João Mário e, sobretudo, do avançado argelino vem atrasar a vida aos leões e deixar toda a gente na mesma situação: a de ter de construir tudo de novo.Aqui, do que se fala não é da qualidade dos jogadores. Não é se Rafa é melhor que Gaitán, se Bas Dost tem mais qualidade que Slimani ou se Oliver pode fazer esquecer Brahimi. Nada disso. Aqui fala-se da qualidade dos coletivos, daquilo que cada jogador dá à equipa e daquilo que a equipa pode fazer quando o perde. A maior vantagem do Sporting na luta pelo título era não ter mudado quase nada. De repente, sem Slimani, vê-se forçado, não a mudar, mas a reconstruir a casa a partir dos alicerces – porque ao contrário do que sucede com a maior parte dos treinadores, Jesus constrói as suas equipas a partir da frente. Daí que o primeiro jogo do Sporting sem Slimani não tenha sido brilhante nem sequer uma simples aproximação ao que a equipa já tinha produzido esta época ou, sobretudo, na anterior. No fim dos 3-0 ao Moreirense, Jesus explicou: “O Bas Dost jogou de acordo com a ideia dele e não com a ideia da equipa”. E nem podia ser de outra forma, tãopoucas vezes o ponta-de-lança holandês treinou com a equipa.Qual foi a ideia de Bas Dost? Jogou à ponta-de-lança de equipa grande, baixando por vezes para o espaço entre-linhas, em desmarcações de apoio, mas procurando estar sempre no centro da área, para a finalização. Acontece que essa não é a ideia de Jesus, que quer que o seu homem mais avançado procure as laterais, em movimentos coordenados com os alas, que ao mesmo tempo preenchem o espaço interior, e sobretudo que ele alargue o espaço à frente da defesa adversária através da busca da profundidade, com desmarcações para o espaço entre a última linha defensiva e a baliza. Era em Slimani que começavam a surgir os espaços para as diagonais de Gelson ou Bryan Ruiz, as oportunidades de remate de Teo Gutièrrez ou as bolas à frente de Adrien Silva. No fim, não se tratará tanto de saber se Bas Dost conseguirá fazer tantos golos como Slimani – ele parece ser até melhor finalizador que o argelino. Trata-se de saber se cria tantas condiçõescomo ele para que os colegas possam criar desequilíbrios. Talvez lá chegue, mas para isso precisa de tempo para compreender aquilo a que Jesus chamou “a ideia da equipa”.Rafa, que durante algum tempo achei que, face à proliferação de extremos no plantel do Benfica, podia ser alternativa a Jonas no centro do ataque, teve uma entrada bastante mais impositiva no onze de Rui Vitória. Não fez golos na vitória em Arouca, mas a sua entrada num onze de emergência fez mexer muito mais o futebol do Benfica que a de Dost veio influenciar o jogo do Sporting. Porque a criação de desequilíbrios promovida por Rafa é muito mais resultante de variantesindividuais: tem a ver com a sua tomada de decisão, com a velocidade, o pique, com as trajetórias que escolhe por instinto e que dependem menos de variáveis coletivas. Visto o jogo de Arouca, e tendo em conta mais uma noite tão infeliz do ex-bracarense na finalização como influente na criação, fiquei convencido de que ele terá o lugar na esquerda do ataque à disposição assim que Jonas voltar da lesão que o apoquenta. E num momento em que ainda não acabou de habituar a equipa a superar a falta que lhe faz a capacidade de Renato Sanches para queimar linhas em posse, Rui Vitória terá de começar a trabalhar na coordenação dos dois, porque o jogo de Rafa é diferente do de Gaitán: menos cerebral, menos técnico, mais repentista, mais veloz.No mesmo fim-de-semana em que Benfica e Sporting estrearam Rafa e Bas Dost, o FC Porto apresentou um novo sistema de jogo, um 4x4x2 que lhe dá mais presença na frente. Pode ser uma mudança histórica para uma equipa que há anos navega na dinâmica de um 4x3x3 em nome do qual tem sempre construído os seus plantéis. Uma carga de trabalhos também para Nuno Espírito Santo. Com uma diferença: é que o FC Porto era, dos três, o que mais precisava de mudar, tão débil era a herança deixada por Lopetegui e Peseiro. Até aí, o mercado foi nivelador.
2016-09-12
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A adoção do 4x4x2, com Depoitre à frente de André Silva, os médios-ala a saírem muito da faixa em busca do espaço interior e o recurso intensivo aos defesas laterais para darem largura ao ataque foi a surpresa reservada por Nuno Espírito Santo para o regresso do FC Porto à competição após a derrota no clássico de Alvalade. A jogar assim, mesmo não exercendo nunca um domínio asfixiante sobre o V. Guimarães, o FC Porto saiu do Dragão com uma vitória indiscutível, por 3-0, sobre uma equipa que vai bater-se pelas posições europeias. Alteração caucionada, portanto, apenas com uma reserva: terá a equipa portista plantel para mudar o seu sistema? Não parece fácil.O próprio Pedro Martins, treinador vimaranense, reconheceu no final da partida que tinha sido surpreendido pelo onde inicial do FC Porto. Com Depoitre a fazer de referência na frente, André Silva ganhou liberdade para estar mais em jogo do que no 4x3x3 sem que com isso a equipa perdesse presença na área. Além disso, o jogo mais interior de Otávio, Oliver e André André, abrindo os corredores laterais a Layun e Alex Telles, levava a que em cada situação de cruzamento ou de tabela a equipa portista tivesse sempre mais gente em potencial situação de finalização, o que terá contribuído para um rácio superior de situações de golo por volume de jogo criado. É verdade que o primeiro golo nasceu de um canto – mais um de bola parada, sinal de que a equipa está a trabalhar bem este tipo de lances – mas antes do golo de Marcano já Depoitre e André Silva tinham estado perto de inaugurar o marcador. E isto num jogo que até estava dividido em termos de estatísticas, com o 4x2x3x1 do V. Guimarães a assegurar ao seu setor mais recuado a capacidade de parar para respirar.Se o 1-0 ao intervalo ainda dava aos minhotos a possibilidade de voltarem para o segundo tempo em condições de discutir o resultado, a forma como o FC Porto chegou ao 2-0, logo a seguir ao intervalo, encerrou o jogo. É verdade que os dois golos portistas no segundo tempo nasceram de lances algo afortunados. Otávio beneficiou de um ressalto em Oliver para fazer o 2-0, enganando o guardião Doulgas. E o 3-0 saiu de um autogolo algo pateta de João Aurélio, incapaz de afastar um cruzamento de Layun para outro locar que não o fundo da baliza. De qualquer modo, em ambos os casos a chave do sucesso portista esteve na acumulação de gente na frente. A julgar pelo que se viu no relvado, este sistema tem pernas para andar, nascendo as maiores dúvidas da profundidade do plantel para preencher condignamente as duas posições no centro do ataque.É certo que além de Depoitre e André Silva ainda há Brahimi (que, mais do que poder jogar ali, tem visto muita gente nos últimos dois anos reclamar que ele deve jogar ali), Adrian López e que o próprio Diogo Jota, que era jogador de corredor lateral no Paços de Ferreira, foi chamado a jogar pelo meio quando entrou. Ainda assim, o que me parece é que este plantel foi construído a pensar no 4x3x3. E que se o 4x4x2 passar a Plano A, vai precisar de retoques em Janeiro. Resta saber se daqui até lá o nome de Aboubakar não será lembrado pelas piores razões.
2016-09-11
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A vitória fácil do Sporting frente ao Moreirense, em Alvalade, por 3-0, permitiu aos reforços Campbell e Bas Dost estrearem-se a marcar com a camisola leonina, deu para a substituição antecipada de Adrien, de forma ao capitão poder ser aplaudido de pé pelos adeptos, mas serviu acima de tudo para mostrar que Gelson está um homem. A jogar pela direita de um ataque onde era o único jogador com mais de um par de meses a trabalhar com Jorge Jesus, o jovem Gelson era o único a conhecer de cor as movimentações que o treinador tanto preza e serviu-se desse conhecimento e da sua indiscutível qualidade para se cotar como melhor jogador em campo. Com tanta gente a chegar para o ataque leonino, uma coisa é certa: não vai ser fácil tirar o lugar ao miúdo. A influência de Gelson no jogo ofensivo do Sporting foi mais visível na primeira parte, um período onde o fantasma de Slimani pairou sobre Alvalade. Bas Dost é um finalizador por excelência, mas nem dá à equipa a busca permanente da profundidade ou dos corredores laterais a que esta estava habituada com o argelino, nem teve ainda o tempo suficiente de treino com os colegas para os compreender e para que estes o compreendam a ele. A jogar pela esquerda, Campbell mostrou velocidade e repentismo, mas não é o jogador cerebral que é Bryan Ruiz, provavelmente poupado a pensar em Madrid. O resultado da soma dos dois a um Alan Ruiz que também não estava a atravessar uma tarde-sim foi um início de partida em que o Sporting dominava territorialmente mas onde tinha dificuldades para criar lances de golo iminente. Com um Dramé motivado pelo regresso a Alvalade, o Moreirense tinha menos bola mas dava a ideia de poder surpreender caso o 0-0 se prolongasse por muito mais tempo. Só que aí entrou em ação Gelson. Numa diagonal da direita para o corredor central, o extremo apareceu no fim de um excelente passe de William e inaugurou o marcador. O golo, aliado à expulsão de Neto, poucos minutos depois, podia ter entusiasmado os leões, mas o que aconteceu foi precisamente o contrário: a equipa adormeceu face à facilidade que antevia. E só depois de ouvir das boas ao intervalo resolveu definitivamente o jogo. Entrando na segunda parte com mais intensidade, fez dois golos rápidos e viu o guardião Mackaridze impedir mais dois. Campbell fez o 2-0, de cabeça, após cruzamento de Alan Ruiz, e Bas Dost fechou a conta com um remate feito quando estava já sentado no chão, depois de ter falhado a entrada à bola cruzada por Schelotto e aproveitado o ressalto num adversário. Jesus aproveitou então para promover mais duas estreias e um regresso, mas a equipa voltou a perder concentração e as entradas de Markovic, Elias e André não lhe trouxeram nada de novo em termos de foco e qualidade, a ponto de Rui Patrício ainda ter tido que se empenhar para manter o zero na sua baliza. A altura era tanto de celebrar a continuação da liderança isolada no campeonato, com pleno de vitórias, como de pensar no jogo de quarta-feira em Madrid, frente ao Real, na estreia na Liga dos Campeões. E para esse Jesus bem gostaria de ter mais algum tempo de treino para ensinar o seu futebol a todos estes reforços – é que sem ele quase mais vale pensar em enfrentar o Bernabéu com jogadores que sabem ao que jogam.
2016-09-10
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A profundidade do plantel do Benfica ficou à vista na qualidade da exibição que a equipa fez na primeira parte da vitória em Arouca (2-1), período onde um melhor aproveitamento das várias ocasiões de golo desperdiçadas teria chegado para construir um resultado confortável. Aí, suspirou-se por Jonas. O facto de ter entrado com um onze experimental, face à ausência das que têm sido as suas três primeiras escolhas para a frente de ataque, ajuda melhor a explicar a incerteza no resultado até final e até a perda momentânea do controlo do jogo no segundo tempo. A justiça da vitória é validada pela noção de que mesmo nessa altura foi o tricampeão nacional quem mais perto esteve do golo. Sem Jonas, Jiménez e Mitroglou, Rui Vitória teve de inventar um ataque. E a contratação de Rafa já começou a dar frutos. Que o avançado chegado de Braga não é perito na finalização até os adeptos benfiquistas o sabiam pelo menos desde a Supertaça. Que ele é capaz de desequilibrar qualquer defesa também se sabe: foi por isso, aliás, que o Benfica pagou mais de 16 milhões de euros por ele. Combinar a mobilidade de Gonçalo Guedes com a velocidade e a noção de espaço de Rafa e a inteligência de Pizzi foi o que bastou para o Benfica entrar várias vezes na organização defensiva de um Arouca que não conseguia pegar na bola para responder. O golo feito por Nelson Semedo pode até ter sido fruto da sorte num ressalto, após um corte mal efetuado, mas tanto antes como depois, o Benfica teve várias oportunidades para construir logo ali um resultado folgado. O segundo golo do Benfica, a provar a importância que Lisandro pode vir a ter nas bolas paradas ofensivas - já tinha marcado em Tondela e repetiu a graça agora, após canto de Grimaldo - parecia ter acabado de vez com o jogo. O Arouca tinha voltado melhor para a segunda parte, mas tornava-se difícil reagir ao golpe que é sofrer o 2-0 ante um adversário mais forte. Com a entrada de Walter Gonzalez, colocado à esquerda do ataque, Lito Vidigal ganhou mais agressividade e qualidade na frente e reabriu mesmo a questão do resultado, graças a um belo cabeceamento do argentino, nas costas de Nelson Semedo.  A lesão de Rafa, logo a seguir, tornou o jogo complicado para o Benfica. No lugar do ex-bracarense, Carrillo não deu a mesma constância ao Benfica: a movimentação do peruano era mais previsível e mais facilmente anulável. Só que mesmo aí sobrou ao Benfica o que faltou ao Arouca: banco. Quando precisou de refrescar, Lito recorreu ao cabo-verdiano Kuca, que não lhe trouxe nada de novo. Do outro lado, Rui Vitória chamou o grego Samaris para fechar a porta de entrada na área, o que permitiu ao Benfica voltar a mandar no jogo e estancou desde logo as hipóteses de o Arouca sonhar sequer com o empate.  O 1-2 final, num jogo que o Benfica até perdeu no ano do tri, veio mostrar que pode haver vida para lá de Jonas numa equipa que encaixou bem Rafa. Mas não será uma vida parecida com a anterior: o Benfica de Rafa pode até produzir mais, mas não será nunca a equipa de golo-fácil que é o Benfica de Jonas. Rui Vitória tem agora pela frente um desafio que passa por pôr os dois a render no mesmo onze. Se o conseguir, sem deixar cair aquilo que lhe dão Mitroglou ou Jiménez, sobe um importante patamar.
2016-09-09
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Há duas constantes nas entrevistas de Luís Filipe Vieira. Uma é a comparação com o que era o Benfica antes de ele e Manuel Vilarinho lá chegarem – e essa chega para que o presidente saia a vencer de goleada, porque a recuperação está à vista de todos e não pode ser negada. Outra são as promessas irreais, que nunca cheguei a perceber se são feitas fruto do entusiasmo e de uma crença que depois os actos acabam por contrariar ou se são mesmo programadas para afastar a conversa de áreas mais sensíveis. Na entrevista que deu à TVI – que não pude ver em direto porque estava a viajar de Basileia para Lisboa – Vieira voltou a referir muitas vezes o que mudou no Benfica nesta década e meia. Desde as taças que desapareciam ao estado caótico em que Vale e Azevedo deixou o clube, tudo serve para caucionar uma liderança que voltou a fazer do Benfica um clube ganhador e financeiramente estável – a questão da dívida que aumenta é outra. Só por isso, nenhum benfiquista pode deixar de agradecer a Vieira e Vilarinho o terem-se disponibilizado a abraçar a tarefa de tomar conta do clube. Mas isso, francamente, já foi conversa para outras entrevistas e ao longo de muitos anos. Neste momento, muito mais interessante é falar do futuro, dos desafios que se colocam ao clube e da relação de parceria que este mantém com Jorge Mendes, não no sentido de a assumir mas sim de a clarificar em termos que todos a entendam. Vieira, é bom que se dia, não se negou a falar do futuro. E fê-lo com entusiasmo, não só afirmando que neste momento tem um Plano B para tudo – treinador ou jogadores que venham a sair – como indo ao ponto de dizer que após o que gastou neste defeso, “nos próximos três ou quatro anos” o clube “pouco ou nada terá de investir” no mercado, ou que vai ter uma equipa quase toda fornada por "jogadores feitos no Seixal”. E é aqui que me apetece dizer como a menina do anúncio dos iogurtes: “nisso eu não acredito”. E não acredito por duas razões. Primeiro, porque me parece difícil manter a tal parceria com Jorge Mendes apenas num sentido – quando falham as hipóteses de saída, é preciso alimentá-la também com entradas, mesmo que sejam excessivamente inflacionadas, como foram as de Pizzi, Jiménez ou Rafa, por exemplo. Aliás, serão sempre inflacionadas, mesmo que Mendes consiga depois servir-se da sua influência para os vender por mais dinheiro ainda. Depois, também não acredito porque, mesmo admitindo que seria possível ganhar em Portugal com a aposta na formação – e já isso acho muito complicado, como se vê pela última década do Sporting – o mais difícil será sempre manter os jogadores excecionais por tempo suficiente para fazer uma equipa consolidadamente ganhadora. É que os Renatos Sanches, quando aparecem, são extraordinariamente difíceis de segurar. E os outros, só por si, sem os que fazem a diferença, não ganham campeonatos. O Barcelona pode ter uma equipa baseada na formação porque os Xavis e os Iniestas não querem sair dali para lado nenhum. O Benfica ou o Sporting até podem formar a “espinha dorsal da seleção nacional” – promessa antiga de Vieira, agora recauchutada – mas dificilmente a manterão por tempo suficiente para ganhar de forma repetida. Acreditar nisso equivale a acreditar que é Jesus o culpado por o Benfica ter usado poucos jogadores da formação. Como se acima dele não estivesse uma estrutura que lhe dava os Di Marias, os Gaitáns, os Matic, os Enzos Perez ou os Rodrigos, os Garays e os Ramires.
2016-09-08
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A seleção nacional falhou o regresso à competição depois de ter ganho o Europeu de França. Fez uma partida fraca e um mau resultado na Suíça, de onde saiu vergada a uma derrota por 2-0 que pode complicar bastante um grupo de qualificação onde só o primeiro classificado se apura para o Mundial. Os golos suíços surgiram separados por apenas sete minutos, entre os 23' e os 30', em dois erros individuais, que até deram força ao que Fernando Santos vinha dizendo nos últimos dias: Portugal perdeu por não ter sabido jogar feio quando isso se impunha. Na primeira parte, a Suíça não foi à baliza de Patrício vezes suficientes para justificar o 2-0 com que chegou ao intervalo. E no entanto fez os dois golos, contra zero de Portugal, fruto dos tais erros. No primeiro, o livre de Rodriguez seguiu em curva, mas nem a defesa de Patrício foi perfeita (para a frente) nem a reação de Cédric foi boa: olhou só para a bola e perdeu a referência de Embolo, que chegou à recarga mais depressa. No segundo, a desorientação foi maior: William e Moutinho permitiram que Mehmedi saísse com bola de uma situação de inferioridade numérica e lançasse na esquerda, de onde Seferovic fez uma devolução que, outra vez, William e Moutinho não impediram se tornasse em concretização fácil por parte do mesmo Mehmedi.  Os dois golos sublinharam a falha de Portugal naquilo que vinha sendo a especialidade desta seleção (o jogo de concentração defensiva, o anular das armas do adversário a que se tem chamado "feio") e punham fim a uma entrada forte da seleção. Até aos 20 minutos, altura em que baixou a intensidade de jogo, o meio-campo de Portugal tinha mandado no jogo, com jogo de posse bem conseguido e permanente disponibilização dos dois laterais. Éder e Bernardo Silva já tinham estado perto do golo, mas o 2-0 mudava tudo. Prevendo (e bem) que o adversário recuaria, Fernando Santos apostou num jogador de área (André Silva) e num médio mais dado ao jogo criativo (João Mário), em vez de Éder (que precisa de mais espaço) e William. A equipa passou para um 4x4x2 que lhe assegurou, outra vez, o domínio do campo, perante uma Suíça muito recuada, mas sofria para criar situações claras de golo. Havia sempre muitas pernas entre o remate e a baliza. Só a entrada de Quaresma forneceu à seleção capacidade para criar os necessários desequilíbrios na faixa lateral que, seguidos de cruzamento, permitiam finalizações em situações flagrantes. O extremo do Besiktas deu a Nani uma bola de golo, mas o cabeceamento deste não saiu bem e acertou no poste. Morria ali a última hipótese de Portugal pontuar no seu jogo de arranque e complicava-se o panorama da qualificação. Falta ver o que fará esta Suíça, mas o caminho não se afigura tão fácil como acabou por ser o da recuperação após a falsa partida no apuramento do Europeu de 2016. 
2016-09-06
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A entrevista de Jorge Jesus ao Record teve assuntos para satisfazer todas as correntes. Dela saíram a sorrir os benfiquistas que depois de ele abandonar a Luz descobriram que não o queriam lá, tal como suspiraram de alívio os sportinguistas que não compraram as versões que circulavam no panorama mediático, segundo as quais treinador, capitão e presidente já não podem nem ver-se. Ainda assim, por mais entretida que a entrevista tenha sido, dali tiro acima de todas uma opinião do treinador leonino: afinal, o plantel que Marco Silva tinha em Alvalade não só não era maravilhoso como tinha tanta sucata que, confrontado com ele, Jesus ponderou ir-se embora ao fim de um mês. Já se sabe que no futebol de hoje a realidade se cruza muitas vezes com as versões que os departamentos de comunicação nos querem impingir. O caso da demissão de Marco Silva, que além de muitas justificações lançadas e nunca provadas (a defesa de outros interesses que não os do Sporting) resume-se, no fim, a uma questão de resultados. Foram maus, como quis fazer crer uma grande parcela de sportinguistas? Aparentemente não. Terão sido até muito bons. Quem o valida é o próprio Jesus, ao sustentar que ao fim de um mês em Alvalade quis sair, face à falta de qualidade que encontrou no balneário. O resto da entrevista são versões da realidade. Há uma coisa que é factual - que uma só aquisição do Benfica quase chega para pagar todas as que o Sporting fez - mas que ainda assim satisfaz duas vezes, como o chocolate do anúncio: satisfaz os leões que querem sacudir a pressão criada por um mercado bem sucedido, da mesma forma que alegra as águias, que veem nestas repetidas alusões ao Benfica uma mal curada obsessão do treinador com o seu anterior clube.  E há outras histórias que são puramente subjetivas. A quem duvida da relação profícua que mantém com Bruno de Carvalho ou da forma como lida com as aspirações de Adrien, Jesus diz que estão os três como o aço. A quem acha que o Benfica é que geriu bem o caso Luisão, ele responde com uma versão segundo a qual os encarnados quiseram e querem ainda correr com o seu capitão. Quem fala a verdade? Quem mente? Tal como no caso do alegado interesse leonino em Rafa, é impossível decidir com certeza. As 31 jornadas que faltam da Liga, no entanto, podem dar-nos umas pistas. Porque é mais fácil construir em cima de um clima saudável que de uma mentira repetida mil vezes por spin doctors a soldo.
2016-09-06
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A saída de Antero Henrique do FC Porto, no final de um defeso capaz de deprimir a maioria dos adeptos do clube, pode até ter sido mesmo devida apenas a razões pessoais do ex-administrador da SAD com responsabilidade máxima no mercado, conforme foi escrito no comunicado que pôs termo a mais de duas décadas de ligação. Mas no futebol estas coisas raramente se explicam com recurso a uma só leitura e neste caso parece evidente que o que está aqui em causa é a chicana política visando a inevitável sucessão de Pinto da Costa e a aplicação das duas leis do Pinto-da-Costismo.Sim, é verdade que o presidente portista tomou posse em Abril para o 14º mandato, apontando a mais quatro anos à frente do clube, até 2020. Goste-se ou não do estilo e da estratégia, há que reconhecer ao veterano líder dos dragões o estatuto dos gigantes, de quem mudou o panorama do futebol em Portugal. Se a hegemonia do Benfica começou com Eusébio, na década de 60, a portista teve início com Pinto da Costa, entre os anos 80 e 90. Só que tal como Eusébio deixou de jogar, um dia Pinto da Costa vai deixar de liderar. E à noção de que esse dia está próximo – o presidente completará 79 anos em Dezembro – junta-se o facto de o futebol portista estar a atravessar um dos períodos mais difíceis desde que Pinto da Costa tomou posse para o primeiro mandato, em 1982. Desde que ele é presidente, esta é apenas a segunda vez que o FC Porto passa três campeonatos seguidos sem ganhar (a primeira foi de 1999 a 2002 e acabou com a chegada às Antas de Mourinho) e a primeira em que, nesses três anos, não ganha mais nenhum troféu. A Supertaça de Agosto de 2013 foi a última conquista do plantel azul-e-branco.A verdade é que há muitos anos que se fala na sucessão de Pinto da Costa e até aqui o presidente sempre soube dar a volta por cima. Chegou a pensar-se que o sucessor podia ser José Guilherme Aguiar, que podia ser Angelino Ferreira, que podia ser Fernando Gomes – seja o Bibota de Ouro ou o presidente da FPF –,que podia ser Vítor Baía, que podia ser António Oliveira… Houve quem mencionasse o próprio Antero Henrique ou até António Salvador, presidente do Sp. Braga mas portista de coração. Como todas as estrelas do firmamento, Pinto da Costa atrai vários planetas à sua órbita, mas ao contrário do que sucede na lei da gravidade universal, estes planetas acabam por se afastar. Porque aqui não se aplicam as Leis de Newton, mas sim as tais leis do Pinto-da-Costismo. A primeira é que Pinto da Costa nunca “nomeará” um sucessor, nem formal nem informalmente. A segunda é que não se pode ganhar um lugar no pós-Pinto da Costa afrontando Pinto da Costa. Nem é o legado, esse inatacável: é a presidência atual e as decisões de hoje.E em que medida é que se enquadra aqui a saída de Antero Henrique? Isso é matéria de discussão para blogues, uns acusando Antero de ser o culpado dos erros de mercado cometidos pelo FC Porto nos últimos anos, outros atribuindo esses erros à intervenção do presidente e dos seus “yesmen”. Uns achando que o regresso de Luís Gonçalves é a vitória da importância do scouting sobre os jogos de bastidores, outros rebatendo que é apenas uma forma de o clube deixar de ter massa crítica que se oponha aos especialistas nos tais jogos de bastidores. Qual é a verdade? Só o próprio Antero poderia vir esclarecê-lo. Mas tal como nunca se ouviram a Angelino Ferreira declarações públicas acerca das divergências que mantinha com a linha dominante na SAD acerca do destino a dar às mais-valias que se iam fazendo no mercado de transferências – abatimento de passivo ou compra de mais e mais jogadores –, também dificilmente se ouvirá Antero Henrique falar abertamente das últimas escolhas de treinador ou da crescente influência de Alexandre Pinto da Costa, filho do presidente, que voltou às boas graças do pai depois de ter sido o parceiro predileto de José Veiga na tentativa de o derrubar.A questão é que, apesar dos tais três anos sem ganhar nada, a segunda lei do Pinto-da-Costismo continua válida. Foi por ela que, depois de se ter esticado mais do que quereria a propósito do presidente, Baía adotou imediatamente uma atitude conciliadora, deixando a animosidade para o debate entre as esposas dos dois nas redes sociais. É por isso que Oliveira mantém há muito um distanciamento cauteloso em relação às políticas do clube, que não abandona sequer nas suas múltiplas intervenções públicas, na TV ou nos jornais onde escreve opinião. Foi para aparecer na fotografia que, depois de também ter sido tão próximo de José Veiga, Fernando Gomes regressou ao clube para ocupar uma posição de alguma visibilidade mas nula importância estratégica. Onde se encaixa Antero Henrique? Di-lo-á o futuro próximo. E isso em muito vai depender do que fizer o plantel que ele deixa no clube na época que agora se inicia.
2016-09-05
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Fernando Santos aproveitou o jogo de consagração da seleção nacional após a vitória no Europeu para fazer um treino ofensivo a que a goleada a Gibraltar (5-0) não faz justiça. Logo à partida porque os cinco golos ficam muito aquém da produção atacante da equipa nacional, que deixou pelo menos mais uns três golos cantados por marcar. E depois porque a equipa de Gibraltar se revelou tão incapaz de pôr o campeão europeu à prova, mal entrando até no meio-campo de Portugal, que o jogo não podia correr de outra forma. Mesmo assim, e mesmo tendo em conta que o jogo de terça-feira, com a Suíça, em Basileia, não terá nada a ver com este, Santos diz que tirou do que viu no relvado do Bessa algumas conclusões. Sem Cristiano Ronaldo, o selecionador abdicou do 4x4x2, indo a jogo com o 4x3x3 mais tradicional da seleção nacional, mas no final do jogo afirmou que a segunda parte, no regresso ao 4x4x2, mostrou maior diversidade de opções atacantes. É verdade que sim, mas não foi a isso que se deveu o facto de Portugal ter feito quatro dos seus cinco golos no segundo tempo. Isso teve mais a ver com o cansaço dos adversários ou a maior qualidade dos serviços feitos por Bernardo Silva face à noite mais desinspirada de Quaresma ou ainda com uma maior presença de médios na área - e aí sim pode haver alguma influência de movimentos mais bem construídos. A verdade é que o jogo de Basileia vai ser lançado em bases diferentes. Em vez de ser sujeito ao desconforto de jogar sempre dentro da área, onde se notam mais as suas dificuldades nas finalizações ao primeiro toque e sem espaço, Éder vai ter mais bolas para surgir embalado ou para ganhar num corpo-a-corpo como o que lhe deu o golo na final do Europeu. Nani, autor dos dois primeiros golos de Portugal - a passes de Bruno Alves e Bernardo Silva - estará na mesma como peixe na água, dependendo o sistema que a equipa adotará da escolha entre o jogo de linha e Quaresma ou um jogo mais interior de Bernardo. Com tudo certo a meio-campo (Moutinho está melhor que no Europeu e William em bom momento), as maiores dúvidas para terça feira estarão na posição de lateral direito, onde Cancelo marcou a estreia com um golo (o terceiro) e se chegou à frente. O problema é a propensão ofensiva do lateral direito do Valencia, adequada para a equipa de Gibraltar mas arriscada quando o adversário é a Suíça.
2016-09-01
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O futebol continua a ser um oásis na economia portuguesa. Mais nenhuma área consegue aquilo que os maiores clubes nacionais voltaram a alcançar neste defeso: fechar as contas com amplo saldo positivo e acabar com a equipa bem mais forte do que há um ano. Crise, se existe, nestes casos, é de abundância, fazendo crer que os grandes estão a preparar-se para um campeonato ainda mais disputado, mesmo que mais longe do resto do pelotão da prova. O Benfica faturou bastante com as vendas de Renato Sanches e Gaitán, tornando quase irrelevante a saída de Carcela. Os quase 70 milhões que o clube recebeu chegaram e sobraram para recompor o plantel com opções do agrado de Rui Vitória e ainda para adquirir o passe de Mitroglou, que estava na Luz por empréstimo, ou completar a compra de Jiménez, que cortou as amarras ao Atlético Madrid. Rafa, Cervi, Carrillo e Zivkovic bater-se-ão pelo lugar do argentino, ao passo que Danilo, Horta e Celis por lá estarão à espera de ocupar a vaga de Renato, pela qual também concorre o grego Samaris, que acabou por ficar no clube. Claro que nunca será igual, mas o próprio Rui Vitória se negou a entrar na lógica da substituição por clones, pelo que agora lhe restará a tarefa de gerir a abundância, que é mais evidente nas alas do ataque, já que o clube não conseguiu desfazer-se de todos os jogadores que queria colocar até ao fecho do mercado. Mesmo dando de barato que Rafa até pode jogar ao meio e concorrer com Jonas pelo lugar atrás do avançado de referência (e os 16 milhões que os encarnados bateram por ele fazem pensar em mais do que isso), há ali muita gente a esforçar-se por garantir um lugar nas alas do ataque. Se as vagas são duas, por elas se batem Salvio, Pizzi, Carrillo, Zivkovic, Cervi e Gonçalo Guedes. É muito? Nada de estranho no outro lado da segunda circular, por exemplo. Porque apesar de se ter também regalado com 70 milhões de euros por João Mário e Slimani - e o valor de Naldo também aparece aqui como um acrescento quase irrelevante - o Sporting só precisou de gastar pouco mais de um terço desse montante para reforçar o grupo de forma evidente. Se há um ano Jesus só tinha Slimani para jogar na frente (Barcos nunca contou), já lá tem Dost e André, enquanto espera pela recuperação de Spalvis. Se face à saída de Montero, Teo Gutierrez era também opção quase única para ser segundo avançado, obrigando Jesus a desviar para ali Bryan Ruiz em alguns jogos, agora já lá tem Castaignos e Alan Ruiz. E nas alas, as opções são inúmeras: para dois lugares, há Gelson, Campbell, Markovic, Bruno César e Bryan Ruiz. Tudo somado à existência de duas ou três opções para cada lugar a meio-campo, onde Adrien e William ficam, mas entram Elias ou Melli, leva a que este seja um plantel sem desculpa na falta de profundidade para desistir de nenhuma prova. Nacional ou europeia. O FC Porto foi, dos três, quem menos mexeu no mercado e o único a fechar com saldo negativo entre compras e vendas. As três épocas de insucesso impediram o clube de fazer grandes operações. Martins-Indi, Aboubakar, Bueno ou Reyes saíram apenas por empréstimo, Brahimi por lá continua, o que terá impedido os dragões de atacarem com certeza maior alvos que pretenderiam, como Mangala. As aquisições de Depoitre, Felipe, Alex Telles e Boly, bem como a compra do passe de Layun, o regresso de Otávio e as chegadas, por empréstimo, de Oliver e Jota, implicam, ainda assim, um investimento demasiado elevado para se afastar os dragões na corrida ao título. Até por ter mudado ideia de jogo e de equipa técnica, o FC Porto parece ligeiramente atrás dos rivais de Lisboa na bolsa de favoritismo da Liga, mas seria um erro afastar Nuno Espírito Santo do lote de treinadores candidatos ao título.
2016-09-01
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O papel do capitão de equipa não está escrito em lado nenhum. No papel, sabe-se que é ele quem fala com o árbitro durante o jogo, quem escolhe campo ou bola no início dos jogos, quem oferece o galhardete do clube ao capitão do adversário. Mas ser capitão é mais do que isso: é ser o líder de um balneário, o exemplo de comportamento para os outros, uma espécie de representante do clube na equipa, de extensão do treinador em campo. Neste particular, Adrien Silva e Luisão não estão a ter um início de semana à altura da função de porta-estandarte dos clubes de que são a referência maior. Porque o futebol é cada vez mais um desporto individual na qual a noção de coletivo está pela hora da morte. Vejamos caso a caso. Adrien Silva é o capitão do Sporting, jogador da casa há mais de uma década. Assinou um novo contrato há seis meses, válido até 2020, com cláusula de rescisão de 45 milhões de euros. É muito? É! É mais do que pode valer um jogador da idade e do nível de Adrien? Muito provavelmente. Mas acredito que o jogador, o seu pai e o agente que lhe trata da vida se terão feito pagar por essa cláusula, seja com um prémio de assinatura robusto ou um salário à altura. Entretanto, é verdade, surgiu o Europeu de futebol, onde Adrien foi arma importante na vitória da equipa portuguesa. O mercado não reagiu de imediato mas, seja ou não com a interferência de Jorge Mendes, como foi denunciado pelo presidente do Ol. Lyon, eis que aparece uma proposta de Inglaterra, a poucos dias do fecho do mercado. Gerir é avaliar os pros e contras de cada ação e terá sido isso que fez o Sporting, que face ao montante da proposta (fala-se em 25 milhões) e à dificuldade de encontrar substituto para o seu capitão, terá recusado as abordagens do Leicester. O jogador, que pensa naturalmente nos seus interesses pessoais antes de pensar nos da equipa que capitaneia, ficou afetado. Deu uma entrevista na qual, a bem, disse que era altura de dizer adeus a casa e, face à resposta que o Sporting deu, libertou o empresário e o pai para falarem, a única forma de radicalizar sem se comprometer. A questão, porém, é muito simples: da mesma forma que o clube não tem o direito de despedir um jogador por falta de rendimento (e o Sporting e o Benfica muito gostavam muito de poder despedir Labyad ou Taarabt, por exemplo), também não tem a obrigação de os libertar se eles se destacarem e de repente tiverem propostas mais tentadoras. Se lhe prometeram a liberdade, como o pai e o empresário dizem, não estavam no direito de o fazer. A liberdade de Adrien tem um preço: são 45 milhões de euros. Ele sabe isso e, mais ainda sendo capitão de equipa, devia estar em condições de o entender. Menos claro é o caso de Luisão. O capitão do Benfica protagonizou, anos a fio, vários casos de mercado, nos quais tentou forçar a saída da Luz. Nunca chegou uma proposta que o Benfica considerasse boa e o jogador foi ficando, até ao momento em que já não é sequer escolha para titular do clube. Neste momento, os melhores centrais do Benfica são Lindelof, Jardel e Lisandro, sendo o capitão uma alternativa. E é a partir daqui que o caso se torna obscuro: o Benfica não tem interesse em dar ao capitão mais um ano de contrato, este acha que pode continuar a jogar e, mais, tem dificuldade em entender que o seu papel mudou, que poderá continuar a ser uma referencia dentro do balneário sem jogar regularmente. Nunca ficou claro se foi o Benfica a querer "despachar" Luisão para o Wolverhampton, do segundo escalão inglês, aproveitando as ligações de Jorge Mendes aos proprietários do clube, e se o fez por achar que não é fácil manter Luisão como suplente, ou se, pelo contrário, é o jogador que quer partir, em busca de um último contrato em grande. Seja como fôr, a verdade é que os 13 anos de ligação de Luisão ao Benfica e a braçadeira de capitão que ostenta mereciam algo diferente do que o "é difícil ficar calado" que o jogador publicou na sua conta de instagam.
2016-08-30
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As lágrimas vertidas por Slimani à saída do relvado de Alvalade, depois da vitória do Sporting sobre o FC Porto, podem até revelar um sentimentalão na pele de um Terminator, mas serão mais rapidamente deitadas para trás das costas do que as preocupações de Jorge Jesus face ao desmantelamento da sua equipa pelos últimos dias de mercado. É verdade que os leões só perderam dois titulares, que um deles - João Mário - até já estava fora desde a jornada anterior, mas será a saída do ponta-de-lança argelino que mais mexerá com toda a organização da equipa. É por isso que apesar da chegada à liderança isolada do campeonato o treinador receberá de braços abertos a pausa para os jogos das seleções: não poderá capitalizar em cima da moralização que essa liderança inevitavelmente gera, mas poderá começar a trabalhar os novos elementos numa espécie de segunda pré-época que todos os anos se repete na interrupção para os jogos das seleções. As equipas de Jesus são sempre muito montadas em cima dos seus pontas-de-lança. Foi assim no Belenenses, no Sp. Braga, no Benfica e é agora no Sporting, onde Slimani se transformou no elemento fundamental de todo o onze. É-o pelos golos que marca, mas não só. Aliás, golos também Bas Dost, Castaignos ou André poderão dar à equipa. A questão que torna Slimani o jogador mais difícil de substituir no plantel do Sporting tem que ver com a compreensão que ele já tem da forma de jogar das equipas de Jesus. Com os momentos em que procura o corredor lateral, os momentos em que busca a profundidade nas costas da defesa adversária, os momentos em que adivinha a movimentação do homem que joga atrás dele e ainda com os momentos em que pressiona a saída de bola do adversário. Ofensivamente, toda a equipa se mexe de acordo com as escolhas feitas pelo ponta-de-lança; defensivamente, ela depende da sua intensidade na primeira zona de pressão para poder reduzir espaços mais atrás, tornando a vida mais fácil para quem ali joga. Mesmo tendo Jesus ontem dito que "Slimani só há um" e que "por isso é que vale 40 milhões", o que torna o argelino dificilmente substituível no imediato não tem tanto que ver com a qualidade que ele mostra, mas mais com o trabalho que com ele já foi feito e que fez dele o jogador que ele é, neste contexto. É a mesma razão pela qual Óliver Torres, sendo o excelente jogador que é, valendo até mais do que os jogadores que veio substituir e tendo ainda a vantagem de já ser um menino da casa, de conhecer um pouco aquilo que é ser FC Porto, não se mostrou ainda em condições de ser a mais-valia que pode vir a ser. Porque Óliver acaba de chegar e do que se lembra do FC Porto era de uma equipa que pensava o jogo de outra forma. Para ser o craque que é precisa de perceber bem as diagonais de André Silva, os movimentos interiores de Otávio, as subidas de Danilo e até os movimentos de compensação de André André, possivelmente o jogador que acabará por substituir no onze. Se Óliver já foi ao banco em Alvalade - e acabou mesmo por jogar toda a segunda parte - foi apenas porque é mesmo um excelente jogador, que estava fisicamente apto, por ter feito a pré-época no Atlético de Madrid. Mas faltava-lhe o resto, aquilo que forma as equipas. É por isso que cada vez percebo pior que os campeonatos comecem e duas ou três semanas depois ainda haja jogadores a mudar-se de um lado para o outro. Isso dá azo a mudanças na forma de jogar das equipas com a época em curso, ao necessário período de readaptação, que as diminui no plano das competências, mas sobretudo a uma enorme instabilidade emocional nos balneários, que pode ser fomentada por quem quer, seja com intenção de contratar ou não. E no entanto, apesar de todos os anos os treinadores se queixarem, de todos os anos andarem a trabalhar uma coisa na pré-época e depois terem de trabalhar outra durante a interrupção para os jogos das seleções em setembro, apesar de o mercado estar aberto desde o final da época anterior e de ter havido tempo mais do que suficiente para todas as transações possíveis e imaginárias, nada se altera. Todos os anos há quem pergunte porquê. E a resposta é sempre a mesma e está na letra da música de Lisa Minelli: "Money makes the world go round" [o dinheiro faz girar o mundo]. E como quem manda é o dinheiro, vamos agora entrar numa segunda pré-época, à qual, dos grandes portugueses, só escapará o Benfica. Porque foi o único a fechar as entradas e as saídas importantes a tempo de estabilizar o grupo.
2016-08-29
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A vitória (2-1) sobre o FC Porto em Alvalade permitiu ao Sporting assumir a liderança isolada da Liga pela primeira vez desde a derrota contra o Benfica naquele mesmo palco, em Março, e deixou Jorge Jesus nas condições ideais para atacar Setembro, quando regressar a competição e já estiver o mercado encerrado. Os leões ganharam com justiça, num jogo intenso, no qual o FC Porto até começou melhor, mas onde Jesus corrigiu a tempo o erro tantas vezes repetido de colocar Bryan Ruiz ao meio. Muito do jogo do Sporting se baseia nas movimentações e na intensidade dos dois homens da frente, na forma como Slimani busca a profundidade ou a largura e como o seu parceiro o compensa ou se aproxima do meio-campo. Com Ruiz ali em vez de estar à esquerda, a equipa leonina foi perdendo a batalha do meio-campo, setor onde o trio portista, formado por Danilo, Herrera e André André, se impunha com naturalidade a William e Adrien, desamparados face à falta de genica do costa-riquenho. Havia sempre um portista a soltar-se para lançamentos capazes de aproveitar as diagonais de André Silva para o espaço entre o central e o lateral do Sporting, pelo que foi com alguma naturalidade que os dragões se adiantaram bem cedo no jogo. Foi de livre, à semelhança da abertura do marcador no jogo de Roma, desta vez de Layun para Felipe. O resto do jogo, contudo, foi muito diferente do de terça-feira. Porque Jesus reagiu a tempo e devolveu Ruiz ao lugar onde faz mais sentido, que é na esquerda, derivando Bruno César para o meio. Com o brasileiro ali, os leões ganharam ascendente e foram capazes de virar o marcador. O 1-1 saiu de um livre marcado por Bruno César ao poste, de uma primeira recarga de Gelson e de uma segunda de Slimani, a impedir que Casillas fizesse uma segunda defesa. E o 2-1 de um belo remate de Gelson, depois de beneficiar de um ressalto em Ruiz de uma bola mal aliviada por Felipe. Após o intervalo, Nuno Espírito Santo tentou mexer com o jogo, mas as coisas não lhe saíram bem. Oliver fez a estreia, entrando para o meio, com a passagem de Herrera para a direita,  mas mostrou que ainda não está em condições de ser a mais-valia que será assim que compreender melhor a equipa. Depoitre e Adrian Lopez entraram depois, na tentativa de dar outra acutilância ao ataque, mas por essa altura já o Sporting reforçara o meio-campo com Bruno Paulista e só não aproveitou o balanceamento do adversário porque Campbell também ainda não parece preparado. Sporting e FC Porto enfrentam agora duas semanas de paragem nas quais terão de fechar os planteis e de dar aos novos elementos a capacidade de compreender melhor as dinâmicas  coletivas. O primeiro clássico da época mostrou que há ali matéria prima para se trabalhar.
2016-08-28
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O superior talento de Jimenez e Salvio, na noite de regresso de Jonas à competição, valeu ao Benfica uma merecida vitória na Choupana, por 3-1, sobre uma equipa do Nacional que teve muitas vezes a cabeça fora do lugar: aconteceu a Aly Ghazal nos primeiros dois golos dos benfiquistas e na gestão da equipa feita por Manuel Machado, que levou os madeirenses a acabar com dez homens, por lesão do egípcio. Com o resultado, Rui Vitória já pode assim olhar para o Sporting-FC Porto de domingo com a certeza de que sairá sempre a ganhar, seja qual for o resultado. A expectativa na equipa benfiquista era grande, sobretudo devido ao regresso antecipado de Jonas, após a intervenção cirúrgica a que foi submetido. Com Jonas, já se sabe, o coletivo de Rui Vitória ganha poder de finalização e capacidade para ligar o jogo nos últimos 30 metros, mas a verdade é que o brasileiro não foi tão influente assim e perdeu as ocasiões que teve para marcar, o que obrigou o Benfica a recorrer a outras fontes de talento para ganhar os três pontos. Salvio confirmou as indicações que tinha dado frente ao V. Setúbal e abriu avenidas no lado direito do ataque, mas quem melhor apareceu foi mesmo Jiménez. O mexicano fez a diferença em relação às noites mais apáticas que o grego Mitroglou vinha assinando, movendo-se sempre com inteligência, como se viu nos lances do segundo e do terceiro golos do Benfica: no segundo, foi ele quem lançou Salvio para o passe de morte que deu o 1-2 a Carrillo; no terceiro, adivinhou a dificuldade de Washington, médio adaptado a central, para ser último homem, pressionou-o, ganhou-lhe a bola e marcou na cara do desamparado guarda-redes. Por essa altura já se notava a falta de cabeça do Nacional, que acabou o jogo com dez homens, fruto da lesão de Aly Ghazal e do posterior esgotar das substituições por parte de Manuel Machado, que mesmo assim manteve o egípcio em campo quando quis reforçar o ataque. Ghazal, aliás, teve uma noite infeliz. Foi ele quem fez o primeiro golo do Benfica, deixando que um livre de Pizzi, que o guardião Rui Silva devia ter afastado, lhe batesse na cabeça e seguisse para a baliza deserta. Depois, já Tobias Figueiredo tinha empatado, de cabeça, após um canto de Agra, quando surgiu o tal lance de Jimenez e Salvio, no qual Carrillo desempatou. Ao tentar desfazer o cruzamento de Salvio, Ghazal bateu violentamente com a cabeça no relvado, o que veio a impossibilitar que ficasse em campo até final. E foi quando Manuel Machado já tinha dois avançados em campo que o capitão teve de sair de maca: Washington recuou para a linha defensiva, ainda tirou um golo cantado a Jimenez, com um corte sobre a linha de baliza, mas permitiu depois, já em período de compensação, que o mexicano lhe roubasse a bola para fazer esse mesmo terceiro golo, dando mais folga ao resultado. A vitória permite ao Benfica olhar para o clássico de Alvalade com a tranquilidade de quem já fez a sua parte. E a interrupção do campeonato que aí vem, para os jogos da seleção, dará a Rui Vitória o tempo para recuperar o melhor Jonas e trabalhar a equipa com Jimenez, que depois do que fez na Choupana dificilmente perderá a vaga nos tempos mais próximos.
2016-08-27
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As três equipas portuguesas na Liga dos Campeões tiveram sortes radicalmente diferentes no sorteio do Mónaco. O FC Porto teve um sorteio tão feliz que nem os mais otimistas seriam capazes de o antecipar. Pelo menos no plano desportivo. O Benfica vai estar num grupo muito aberto, no qual é favorito para fazer valer o estatuto de cabeça de série, mas não terá pêras doces pelo caminho. E ao Sporting calhou todo o azar da tarde: os duelos com o Real Madrid e o Borussia Dortmund tornam difícil pensar em mais que na Liga Europa, ao mesmo tempo que farão de Alvalade cabeça de cartaz europeu em algumas noites até ao Natal.Depois de ter tido azar no adversário que lhe calhou no playoff (a Roma), o FC Porto beneficiou agora de toda a fortuna que lhe podia calhar numa só tarde. Primeiro, apanhou o Leicester, o mais fraco dos sete cabeças de série que podiam surgir-lhe à frente. Sim, trata-se do campeão inglês, mas foi um campeão de tal modo surpreendente que ninguém espera que volte a jogar ao nível que foi prolongando em esforço até ao fim da época passada. Terminada a Premier League, esvaziou-se o balão de adrenalina que levou a equipa até ali e, como se viu no início da atual temporada, a fábula da pizza não chegará a Ranieri para manter o rendimento dos seus jogadores lá em cima, muito acima do que eles valem na verdade. E depois do Leicester, o FC Porto ainda teve a mão amiga de Ian Rush a enviar-lhe o Bruges e o Copenhaga, duas equipas vindas de um patamar inferior e que elevam o nível de exigência dos portistas. O FC Porto não só é favorito, como poderá acabar esta fase com uns 12 pontos, que tanto ajudarão o ranking próprio e o de Portugal.A expectativa de bons resultados poderá ser o principal fator aglutinador para levar espectadores ao Dragão, pois não será certamente o cartel dos adversários a tornar os cartazes atrativos. É quase o que sucede com o Benfica, que também não terá na Luz grandes da Europa, mas ainda assim vai enfrentar um grupo mais complicado, sobretudo tendo em conta que era cabeça de série. O Napoli é uma força ofensiva muito difícil de controlar e o Dynamo Kiev, num dia bom, pode também criar problemas aos encarnados - eliminou o FC Porto há um ano, por exemplo. Não tendo, ainda assim, tido azar nos Potes 2 e 3, onde havia alternativas muito piores, o Benfica ficará a lamentar não lhe ter calhado um docinho no Pote 4. É que até o Besiktas de Ricardo Quaresma pode ser um problema. Este vai seguramente ser um grupo aberto, onde o pleno de pontos em casa será fundamental e onde as coisas podem decidir-se com um ou dois resultados úteis como visitante. Ainda na última época o FC Porto e o Sporting empataram em Kiev e Istambul, pelo que é possível ao Benfica fazer uns 10 ou 11 pontos e até ganhar o grupo.Quem não pode queixar-se de falta de adversarios atrativos no seu estádio é o Sporting, uma vez que por Alvalade vão passar os complicados Real Madrid e Borussia Dortmund. O Real é o campeão da Europa e favorito em todos os jogos da fase de grupos. Basta ver que nas últimas três temporadas cedeu apenas dois empates em 18 partidas nesta fase, quando visitou a Juventus e o Paris St Germain. E o Borussia Dortmund é a equipa que mais sombra faz ao Bayern na Alemanha, não tendo perdido nada da sua força ofensiva com a saída de Klopp e a entrada de Tuchel. O sucesso para o Sporting passa por fazer seis pontos contra o Legia de Varsóvia, a equipa mais fraca do grupo, ganhar ao Borussia em casa e depois esperar uma de duas coisas: ou que os alemães se distraiam na rivalidade geográfica com os polacos e deixem pontos num dos jogos com o Legia ou que seja capaz de pontuar no WestfalenStadion. Difícil, sim. Muito difícil. Mas não impossível.
2016-08-26
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Por mais facilitada que tenha sido pelo descontrolo emocional do adversário, que fruto disso jogou meio desafio apenas com nove homens, a vitória do FC Porto em Roma (3-0) e o acesso à fase de grupos da Liga dos Campeões constituem um sucesso ao mesmo tempo indiscutível e vital do grupo dirigido por Nuno Espírito Santo. Ao contrário do que tinha sucedido na primeira mão, desta vez os portistas entraram ligados no jogo, concentrados, e foram os italianos que pareciam adormecidos, excessivamente confiantes na vantagem que o empate com golos no Dragão lhes conferia e seguros de que o apuramento não lhes pedia esforço nenhum. É que o jogo, desta vez, não permitia quaisquer contemplações à equipa portuguesa, que aproveitou bem a necessidade de ir à procura de um resultado que a qualificasse. E se em algum momento a coisa se complicou, foi precisamente quando pareceu demasiado fácil. A chave da vitória portista esteve na entrada intensa, por oposição ao início mais passivo de há uma semana. A pressionar alto, a atrapalhar a saída de bola dos italianos, a recuperar muitas bolas bem dentro do meio-campo ofensivo, o FC Porto marcou logo aos 8 minutos, num cabeceamento de Felipe, após livre de Otávio. É verdade que as linhas portistas depois foram baixando e que a Roma foi conquistando cantos atrás de cantos (9-0 ao ingtervalo), mas quando a equipa de Luciano Spalleti começava a tornar-se ameaçadora, De Rossi fez-se expulsar, ainda antes do intervalo, por uma entrada de sola sobre Maxi Pereira. E se a expectativa acerca do que poderia fazer a Roma com dez na segunda parte, numa espécie de 3x4x2, era grande, depressa se perdeu, porque Emerson também foi expulso, por falta semelhante sobre Corona, logo aos 50’. Com onze contra nove, o FC Porto teria de fazer muita asneira para não seguir em frente. E foi aí que a coisa se complicou. Nos 23 minutos entre a expulsão de Emerson e o golo de Layun, o que se viu foi um jogo partido, com finalizações nas duas balizas, algo que face à flagrante superioridade numérica de que dispunha o FC Porto não devia ter permitido. Nuno Espírito Santo, que já trocara o lesionado Maxi por Layun, tentou ganhar consistência na posse com a entrada de Sérgio Oliveira e velocidade no contra-ataque através de Adrián López. A Roma, por sua vez, mandava-se com todos para a frente, porque precisava de empatar para pelo menos forçar o prolongamento, e Perotti e Naingollan ainda tiveram um par de situações nas quais perderam o empate – fundamental o corte de Layun na perdida do argentino. Ao mesmo tempo, o FC Porto ia desperdiçando também ataques rápidos nos quais chegava perto da área em quatro para três ou até três para dois. Até que o golo de Layun, numa dessas situações, sentenciou a eliminatória a favor da equipa portuguesa. Corona ainda fez o 3-0, mas nessa altura já os romanos tinham entregue os pontos, como se via no semblante carregado de Totti, várias vezes apanhado pela realização televisiva com um ar incrédulo de desalento. A vitória e a presença na fase de grupos da Liga dos Campeões pode ser aquilo de que este FC Porto mais precisava para arrancar para uma temporada consistente. Não só porque o encaixe financeiro garantido lhe permitirá ir ao mercado buscar os reforços de que o treinador necessita, mas também porque a equipa entrará em Alvalade, no domingo, mais solta, mais confiante nas suas hipóteses de enfrentar aquela que, no seu terreno, tem sido a besta negra dos dragões.
2016-08-23
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O empate do Benfica, em casa, frente ao V. Setúbal (1-1) já foi comparado, por exemplo, por Raul Jiménez, com a derrota que a equipa encarnada sofreu frente ao Arouca, em Aveiro, à segunda jornada da época passada (0-1). “É seguir em frente!”, sentenciou com clarividência o atacante mexicano. Mas as razões por trás da perda de pontos de hoje são mais profundas do que o normal titubear de muitas equipas no mês de Agosto, quando os processos ainda não estão assimilados. Ao Benfica faltou aquilo que teve em abundância na época passada: boas decisões na frente e ainda melhores finalizações. Em suma, faltou Jonas. Jonas estava na bancada, de óculos postos, a ver as dificuldades que a equipa ia sentindo para criar lances de golo. Porque mesmo tendo mais volume de jogo, os encarnados nunca conseguiram reduzir a produção ofensiva do adversário: Amaral foi uma seta apontada à baliza de Júlio César em toda a primeira parte, período no qual os sadinos chegaram a beneficiar de um lance de dois para dois em ataque rápido e o perderam por falta de qualidade na definição. Claro que o Benfica também teve as suas ocasiões, mas nada que se compare, por exemplo, ao tal jogo com o Arouca ou à avalanche que conseguira na receção anterior a este mesmo V. Setúbal, na última primavera, quando ganhou por 2-1, de virada, na Luz. E foi por ter tido as ocasiões para ainda assim ganhar o jogo – quase todas no forcing final, depois de se ver a perder – que se notou a menor qualidade na finalização. O puzzle Jonas é o mais difícil de resolver por Rui Vitória. Se há um ano o treinador terá tido dúvidas mas ainda assim cedeu quando percebeu que o brasileiro era muito melhor como segundo ponta-de-lança do que como avançado de referência no 4x2x3x1, este ano é Mitroglou quem sente a falta das movimentações sempre inteligentes para a ala, o espaço entre-linhas ou as costas da defesa e das decisões sempre coletivamente válidas do companheiro de ataque. O grego voltou a fazer um jogo anónimo, dele só se retirando um cabeceamento, ainda na primeira parte, para excelente defesa de Bruno Varela. É pouco, como já tinha sido pouco em Tondela. Horta começou bem mas foi-se apagando face à qualidade dos dois médios-centro sadinos (Pacheco e Mikel) e acabou por ser Salvio, por um dia capitão, o melhor do Benfica. Com o jogo no impasse, foi o Vitória quem marcou, de bola parada, por Venâncio. E aí o Benfica entrou em modo pressionante, com dois avançados declarados – Mitroglou e Jiménez – e dois extremos – Guedes e Carrillo – ainda com Salvio e Grimaldo a darem largura no ataque desde a posição de laterais. Era muita gente na frente, o que somado ao menor esclarecimento dos cada vez mais desgastados jogadores do Vitória à medida que o jogo se aproximava do fim, podia ter dado em virada do Benfica. Jiménez ainda empatou, de penalti, e Lindelof acertou na barra, na recarga a um livre de Grimaldo que Varela foi buscar junto ao poste. O Benfica deixou dois pontos no relvado onde lhe faltou, acima de tudo, a qualidade de Jonas e onde voltou a provar-se que foi a qualidade que tem na frente a fazer a diferença no campeonato anterior.
2016-08-21
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André Silva mantém a média e torna impossível que não se perceba que é nele que tem de começar o renascimento do FC Porto. Foi mais uma vez com um golo do jovem ponta-de-lança – o terceiro em outros tantos jogos oficiais – que os dragões ganharam ao Estoril, numa partida que se jogou nos 40 metros mais próximos da baliza canarinha mas na qual tiveram de esperar até aos últimos cinco minutos para se colocarem em vantagem. Mas o jogo com o Estoril tem outro protagonista: Layún fez o cruzamento fantástico para o golo da vitória, uma espécie de grito de revolta vindo do melhor assistente da última Liga, de repente colocado na situação de reservista. Nuno Espírito Santo não mostrou, com a escolha do onze, que esteja tão obcecado com o jogo de terça-feira em Roma como a importância da continuidade na Liga dos Campeões talvez justificasse. Só mudou quatro nomes em relação à partida anterior, um deles por obrigação: Layún apareceu na lateral esquerda em vez do castigado Alex Telles. As outras trocas, de Adrian Lopez por Varela, de Danilo por Ruben Neves e André André por Corona, derivando Otávio para o meio-campo, foram depois sendo emendadas à medida que a partida se aproximava do fim com o resultado em branco: Adrian entrou ao intervalo, André André a meio da segunda parte. Mas nem assim o FC Porto mudou de cara. Foi até ao fim uma equipa mais dominadora do que o habitual mas com alguma dificuldade em transformar domínio evidente em golos. É verdade que teve algum infortúnio – duas bolas à barra, num remate de Otávio e num quase autogolo de Denkler, e uma noite grande de Moreira, guarda-redes estorilista – mas também não deixa de ser claro que este Estoril jogou de menos e que tanto na terça-feira, em Roma, como na generalidade dos jogos deste campeonato, vai enfrentar maiores dificuldades, a exigirem outras soluções. Faltam melhores cruzamentos para aproveitar o ponta-de-lança que é André Silva – e daí a importância de Layún, seja a lateral ou a médio – como falta maior intensidade e velocidade face a equipas remetidas aos metros mais defensivos do retângulo de jogo. Faltou perceber se falta capacidade atrás, que o Estoril não chegou lá: esse teste vai ser feito em Roma. E num desafio do qual dependerá em boa parte a capacidade de resolver todos esses problemas. É que sem Liga dos Campeões será certamente mais difícil ir ao mercado buscar argumentos.
2016-08-21
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Meio Slimani foi o suficiente para o Sporting sair de Paços de Ferreira com uma difícil vitória por 1-0. Claro que não foi só ele. Houve um Adrien dos grandes dias, dois defesas-centrais em tarde-sim e melhorias, por exemplo, na combinação entre defesas-laterais e extremos, sobretudo no plano defensivo, onde Gelson parece mais crescido. Mas a questão é que no jogo em que deixou de ter João Mário e recuperou o avançado argelino, o Sporting só teve direito a metade: a metade que luta até à insanidade. Aos que suspeitavam que Slimani estaria desencantado e especulavam que por isso podia não se entregar a 100 por cento, esta foi uma boa resposta. O golo decisivo, obtido por Adrien mesmo a fechar a primeira parte, nasceu de uma insistência do argelino, de uma bola que só ele acreditou que podia ir buscar à linha de fundo, em tackle. Bruno César cuzou-a para Gelson, que a entregou para uma bela finalização de Adrien. Mas a resposta de Slimani não pode ser só a esses. Ao Sporting faltou o Slimani goleador, o jogador que resolve jogos em nome próprio. Teve pelo menos duas ocasiões claras para acabar com o jogo, mas em ambas perdeu a possibilidade de fazer o 2-0. Numa delas, após passe de Gelson, já nem tinha guarda-redes à frente, mas não conseguiu dar bem na bola e esta perdeu-se. Na verdade, ao Sporting fez mais falta esse meio-Slimani que João Mário, que Jorge Jesus disse – e sem se rir – que não tinha sido convocado por causa de uma situação física no último treino, mas que está em vias de se transferir para o Inter de Milão. Teve razão o treinador leonino quando disse que os leões estiveram melhor a defender do que a atacar – e isso notou-se sobretudo nos passes perdidos a meio-campo – mas criaram ainda assim situações de golo suficientes para não terem passado pelo aperto final, quando o Paços se lançou em busca do empate com dois pontas-de-lança (Cícero e Whelton) a forçarem a igualdade numérica na frente pelo corredor central. Nessa altura, pela primeira vez no jogo, o Paços de Ferreira fez figura de mandão e instalou-se no meio-campo leonino, ganhando quase sempre espaço para cruzar. É verdade que nem aí criou autênticas situações de perigo para Rui Patrício, porque o setor mais recuado dos leões funcionou sempre bem, com grandes jogos de Coates e Ruben Semedo. Só que foi tendo livres e cantos em número suficiente para afligir Jesus e para o fazer lamentar-se com os seus botões acerca do jeito que lhe teria dado ter o Slimani inteiro.
2016-08-20
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Cresci na década de 70, quando o Benfica ganhava três campeonatos em cada quatro. A chave dessa hegemonia era sobretudo uma: o controlo do único mercado que estava à mercê, que era o nacional. Por esses tempos, o Benfica tentava contratar todos os jogadores promissores que aparecessem, conseguindo fazê-lo com a maioria, tendo por isso equipas de reservas que se bateriam com qualquer outro emblema do campeonato. Mas por muito que alguns saudosistas vejam na contratação de Rafa a reedição dessa época, há diferenças evidentes entre o presente e esse passado – e não passam apenas pela globalização e por esta ter tornado impossível gizar uma estratégia tão hegemónica com base num mercado limitado. Por outro lado, não acredito que o Benfica tenha aceite pagar 15 milhões de euros (mais Rui Fonte) por Rafa só para chatear Pinto da Costa ou impedir que o FC Porto se reforce com um jogador que o seu treinador queria. Porque nem a fartura financeira na Luz é assim tão grande – que o diga a dimensão do passivo, por mais controlado que esteja – nem os seus dirigentes são loucos ao ponto de gastarem tanto dinheiro por jogadores de que o seu treinador não precise. Rafa é um excelente atacante, com argumentos extraordinários na mudança de velocidade e na tomada de decisão. É jogador de seleção, que pode atuar como extremo ou como segundo avançado, posição na qual o Benfica não tem assim tantas alternativas a Jonas. Portanto, começam logo por se enganar os que se centram na abundância de extremos atualmente existente no plantel do Benfica para defender a irrelevância da contratação do bracarense. Há mais formas de ser útil. Além de que, mesmo para esse lugar, a entrada de Rafa deve ser lida numa base global, onde entram também a contratação – e provável revenda – de Carrillo e a vontade de transferir Salvio. No entanto, a contratação de Rafa extravasa em muito a dimensão puramente futebolística. Aqui, pelo menos tão relevante é a componente do negócio, a estratégia gizada por Luís Filipe Vieira e Jorge Mendes, neste caso com o acordo de António Salvador, presidente do Sp. Braga, cujo objetivo último passa pela valorização do jogador e pela sua entrada num carrossel onde já estão jogadores como Bernardo Silva ou André Gomes, que rendem a cada mudança de clube. Mesmo que seja em circuito mais ou menos fechado, a máquina rende e é preciso continuar a alimentá-la.
2016-08-19
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Mudar uma equipa não é tarefa fácil. Rui Vitória percebeu isso no ano passado, quando se sentiu tentado a abdicar de boa parte da herança de Jorge Jesus no Benfica e só acertou o passo lá para Novembro. Nuno Espírito Santo está a abraçar a tarefa no FC Porto, mas o que mostrou o empate (1-1) com a Roma, no Dragão, na primeira mão do play-off da Liga dos Campeões, foi que a este FC Porto falta pelo menos uma referência aglutinadora que seja uma espécie de treinador em campo, de descodificador, para os dias em que a mensagem não passa à primeira. Como foi o caso. Nuno Espírito Santo quer mudar o “chip” a este FC Porto. E isso significa mudar os momentos de jogo em que mais investe. Basicamente quer abandonar o jogo de posse por vezes pouco incisiva e muito especulativa que caraterizou o período anterior e aproximar-se de um jogo com mais aposta no ataque rápido e no contra-ataque. O foco deixa de estar tato na organização ofensiva e na transição defensiva, para passar a estar mais na organização defensiva e na transição ofensiva. É mais Jesualdo Ferreira e menos Julen Lopetegui. É claro que é possível fazê-lo. Mas contra uma Roma que é forte em ataque posicional, era preciso que a mensagem passasse de forma cristalina, para evitar o que aconteceu nos primeiros 25 minutos do jogo, período no qual o FC Porto podia ter hipotecado a eliminatória. Visto de fora, o que pareceu foi que os jogadores do FC Porto entraram em campo a pensar nas ideias-base do treinador e com a noção de que para as pôr em prática era preciso a Roma ter a bola. Como se pode contra-atacar se o adversário não estiver ao ataque? Daí até ao posicionamento expectante do início da partida foi um pequeno passo que a equipa não devia ter dado e ao qual podem ter ajudado indicações de não ir com tudo para cima do adversário: uma equipa mais experiente saberia distinguir as coisas e manter a intensidade, não confundiria a vontade de apostar na transição ofensiva com a cedência do controlo do jogo, porque saberia que qualquer jogo lhe dá todos os momentos treinados. É só saber esperar. O problema é que a passividade portista no que toca à necessidade de assumir o controlo do jogo equivalia a colocar em confronto aquele que por enquanto ainda é o pior momento da equipa de Nuno Espírito Santo – a organização defensiva – com o melhor da Roma – a organização ofensiva. E o que se passou foi que nesses 25 minutos, os italianos tiveram quatro situações de golo claras, tendo concretizado uma. Só depois do intervalo, quando se viu a perder e, mais ainda, com um jogador a mais, por expulsão de Vermaelen, é que o FC Porto assumiu verdadeiramente o que significa jogar em casa numa eliminatória europeia. Mais intenso, mais rápido, mais agressivo na pressão sobre o condutor da bola, esse FC Porto colocou a Roma em dificuldades e até podia ter ido além do empate, obtido de penalti por André Silva. O empate adia a resolução do play-off para Roma, onde o FC Porto precisa de ganhar ou empatar com golos. Os seis dias que faltam podem servir ao treinador para clarificar conceitos, ainda que não lhe seja possível injetar maturidade tática na equipa a tempo de esta ler as situações com mais clareza sem precisar de passar pelo balneário. Para já, basta-lhe ler uma coisa: uma eventual eliminação deixa as coisas mais complicadas no que toca ao que resta de mercado e fará a equipa entrar mais pressionada em Alvalade, para o jogo com o Sporting, no último fim-de-semana de Agosto.
2016-08-18
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Há pelo menos duas maneiras de olhar para a possibilidade de transferência de Luisão para o Wolverhampton. Uma é fazê-lo segundo o ponto de vista do Benfica e é simples. Outra é fazê-lo segundo o ponto de vista do jogador e é muito mais complexa. Porque este é claramente um negócio mais interessante para o clube do que para o jogador, por mais zeros que tenha o salário que ele venha a receber a jogar pelo 14º classificado do último Championship, o segundo escalão do futebol inglês. Para o Benfica, o potencial negócio é simples. Tem um jogador que ganha um bom salário, mas que não é eterno e que, se querem saber a minha opinião, já não é um dos dois melhores defesas centrais do clube – Jardel e Lindelof estão acima e acho mesmo que Lisandro López também, ainda que esse não tenha nunca tido continuidade suficiente para ter acerca dele um veredicto mais avisado. Em Lisboa desde 2003, Luisão é o jogador com mais tempo de clube, terá seguramente muita influência no balneário, ou não fosse ele capitão, mas por muito que isso custe ouvir, a equipa melhorou quando ele se magoou e teve de ser substituído, na época passada. Sobretudo por uma razão. É que o veterano brasileiro é mais lento que os colegas de posição e, com ele, das duas uma: ou a equipa joga com a defesa menos subida, aumentando o espaço entre setores ou diminuindo a capacidade para pressionar o adversário, ou então passa a ter mais problemas com as bolas nas costas. E, no entanto, Rui Vitória tem feito a equipa com ele a titular… Para Luisão, tudo é mais complicado. O que se disse há tempos foi que o Benfica já lhe teria comunicado que não ia renovar-lhe o contrato no final desta época – o homem, afinal, já tem 35 anos – mas lhe ofereceu um lugar na estrutura. Oferta essa que Luisão estava inclinado a recusar, porque queria continuar a jogar. O que, visto pelos olhos dele, até se percebe. Afinal, repito, Rui Vitória tem feito a equipa do Benfica com ele a titular. O que ele perceberá pior, afinal de contas, é que, assim sendo, não lhe renovem o contrato: ao capitão de equipa, titular da equipa aos 35 anos. A não ser que a titularidade de Luisão nas primeiras partidas da época fosse simplesmente uma condição para que ele pudesse ser colocado noutro clube até ao fecho de mercado, um clube que poderia perder o interesse se soubesse que estava a levar um suplente na curva descendente e não sobretudo um ex-internacional brasileiro, capitão do tricampeão português. Não conheço as motivações de Luisão para sequer admitir sair neste momento do Benfica: se precisa de fazer um último grande contrato para assegurar o futuro da família, se desconfia das motivações de quem lhe oferece um lugar no momento em que decidir pendurar as chuteiras, se pura e simplesmente acha mesmo que precisa de continuar a jogar, mesmo que seja numa equipa muitos patamares abaixo daquele a que está habituado. Conheço e percebo as do Benfica: quer encontrar lugar e orçamento para um defesa-central que possa valorizar-se e criar sérios problemas aos melhores que por lá tem. Como ainda por cima, via Jorge Mendes, tem esta ligação recente ao Wolverhampton, onde já colocou Hélder Costa e João Teixeira, tentou encontrar aqui uma via de saída para o problema. Só que quanto mais olho para o caso, mais me parece que não estão todos na mesma página.
2016-08-17
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Último Passe

Rui Vitória sentiu a necessidade de dizer que não anda “à procura de clones” dos jogadores que perdeu neste início de época, que cada um é aquilo que é e tem as suas próprias caraterísticas. Fê-lo após a vitória do Benfica em Tondela, por 2-0, ainda por cima minutos depois de um golaço de André Horta provar que o miúdo tem mesmo muita categoria e que não tem nada que ser o segundo Renato Sanches. Porque na verdade não tem. As equipas são organismos vivos, que crescem de acordo com o que têm. Levam é tempo a crescer, como se percebe pelo total de situações de golo que o Benfica tem permitido aos adversários que vai encontrando. Uma coisa é certa: o Benfica está hoje muito melhor do que há um ano. Há um ano, com uma pré-época calamitosa, Vitória refreou os ímpetos de mudança, deixando a equipa numa espécie de terra de ninguém tática da qual só a emergência de Renato Sanches, somada à inegável categoria dos seus avançados, a resgatou. Agora, sem um duelo com Jesus a abrir a época, respaldado pelo sucesso que foi a última campanha – foi ele o campeão –, Vitória está a levar a equipa para terrenos que lhe agradam mais. O perfume do futebol de André Horta tem muito mais a ver com o jogar de Vitória que a pujança física de Sanches. Não se trata de dizer se é melhor ou pior: é apenas diferente. E a equipa reage a isso. Em Tondela, sem Jonas, Vitória entrou mais próximo do 4x2x3x1, com Gonçalo Guedes atrás de Mitroglou. O jogo mal conseguido dos dois levou-o a aproximar-se ainda mais à medida que o jogo avançava: primeiro trocou Guedes com Pizzi, alimentando a equipa com a capacidade que o médio transmontano tem para fazer (bem) todos os lugares no meio-campo e ataque. Foi dele, aliás, o livre que Lisandro López aproveitou para inaugurar o marcador, minutos depois de ter entrado para o lugar do lesionado Luisão. Mas ainda que seja mais ou menos claro que a defesa benfiquista tem mais capacidade para controlar a profundidade e as bolas nas costas com o argentino do que com o brasileiro, a verdade é que apesar da troca o Tondela continuou a ameaçar chegar ao empate, perdendo várias situações de golo. Com o resultado em risco, Rui VItória reagiu à investida final do Tondela jogando a partir dos 65 minutos com Samaris ao lado de Fejsa, Pizzi à esquerda e Horta a “10”. Foi assim, neste 4x2x3x1 mais claro, que o miúdo fez o segundo golo, num lance em que serpenteou por entre a defesa adversária antes de marcar e no qual muitos viram sombras de Rui Costa. Mas o melhor mesmo é limitarem-se a pensar nisso, sem o dizer muito alto. Porque se há algo de que Horta não precisa é de se livrar da pressão de ser clone de Renato Sanches para o compararem a um ainda maior ídolo de todos os benfiquistas.
2016-08-14
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O que Jorge Jesus disse acerca das possíveis saídas de João Mário e Slimani, no final da vitória do Sporting sobre o Marítimo (2-0), está dentro da razão e vem muito no sentido do que tem vindo a dizer Bruno de Carvalho ultimamente sobre mercado: os jogadores têm contrato, o clube é que decide se os transfere ou não e nada do que eles possam ansiar tem importância decisiva nos casos. Ou, como disse Jesus de Slimani, “isso, se ele quer sair ou ficar, é igual ao litro”. O que não quer dizer que o facto de eles saírem ou ficarem seja igual para o clube. Porque não é. E da resolução destes casos depende o desfecho da batalha da qualidade que este Sporting vai travar. O que se viu frente ao Marítimo foi uma equipa forte na criação, na sequência do que já fazia na época passada. Com bola, este Sporting continua muito bem. Sem ela, continuou a deixar-se tolher por um par de momentos de desconcentração que já se tinham visto na pré-época e que podiam ter posto em causa o desfecho do jogo: nas duas vezes que chegou à baliza leonina, ainda na primeira parte, o Marítimo devia ter marcado, valendo aos leões uma grande defesa de Rui Patrício frente a Baba e, no segundo lance, as finalizações desastradas de Ghazaryan e Alex Soares. Jesus corrigiu os problemas defensivos ao intervalo, com um puxão de orelhas a Gelson, que passou a estar mais perto de João Pereira, e a troca de Jefferson por Bruno César, lançando os leões para um segundo tempo amplamente dominador. Nada disto quer dizer que a vitória do Sporting tenha sido sequer difícil. Não foi. Porque a equipa da casa teve situações de golo mais do que suficientes para construir um score mais amplo – o que seguramente faria se Slimani estivesse em campo. Alan Ruiz jogou como ponta-de-lança e nem jogou mal: vê-se que tem escola, que tem visão, que apesar de estar longe do seu melhor em termos físicos tem qualidade no último passe. Mas golos é que nem vê-los. João Mário jogou como segundo avançado, assistiu Coates para o 1-0 e provou que não está com a cabeça em Itália – ainda que a sua saída, aos 89 minutos, para ser ovacionado, tenha cheirado a despedida – com uma exibição mexida e presente, nunca se escondendo e aparecendo em três ou quatro situações que teriam dado golo se a finalização deficiente não fosse o que o separa de valer já os 60 milhões da cláusula de rescisão. Bryan Ruiz até marcou um golo, o segundo, mas também se sabe que para ele os adornos estão sempre primeiro e que as conclusões simples dos lances não lhe dão grande satisfação. A questão é que o Sporting não pode abdicar de mais do que um dos seus jogadores mais requisitados se quer ganhar a tal batalha da qualidade – e se esse jogador não for Slimani, tanto melhor, porque é o mais difícil de substituir. Para já, João Mário parece estar na pole position. O próprio Bruno de Carvalho já deixou entender que há limites para a intransigência negocial: o clube deve acautelar os seus interesses, não cedendo a propostas que o penalizam desportivamente sem o beneficiarem no imediato do ponto de vista financeiro, como o empréstimo, mas acabará por vender. E aqui, quanto mais depressa o fizer, mais depressa poderá Jesus começar a construir a equipa com que pretende atacar a Liga.
2016-08-14
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Último Passe

Quem tivesse olhado para a primeira parte da vitória do FC Porto em Vila do Conde, frente ao Rio Ave, por 3-1, poderia ter ficado com a ideia de que o meio-campo do FC Porto estava curto demais para o jogo. Danilo, Herrera e André André tinham dificuldades para assegurar a iniciativa, muitas vezes deixados em inferioridade numérica face ao quarteto formado por Wakaso, Pedro Moreira, Tarantini e Ruben Ribeiro e sobretudo com demasiado espaço para cobrir, face à maior distância entre linhas que a equipa mantinha. A forma como o jogo decorreu até final, porém, pode deixar uma sensação diferente: e se tudo isso for estratégico? E se essa for a maior diferença face ao “Lopeteguismo” e ao FC Porto dos últimos dois anos? Este é, na verdade, um FC Porto filosoficamente diferente. Onde a equipa dos últimos anos procurava movimentos de aproximação, encurtar linhas, promover apoios, a equipa de Nuno Espírito Santo quer abrir grandes espaços, procurar o ataque rápido e dar aos médios condição para que, assim que conseguem superar a primeira zona de pressão do adversário, correrem livres em direção a zonas de decisão. O golo de Herrera foi disso exemplo: o passe de Otávio, inteligente no movimento para trás e depois na forma como chamou Wakaso, ajudou a libertar o mexicano, que face à tal maior distância entre as linhas teve à frente uma auto-estrada até à entrada da área, de onde desempatou o desafio com um belo remate ao ângulo. Esse lance marcou a diferença num jogo que teve uma primeira parte sempre equilibrada e pode muito bem ser uma afirmação de identidade deste novo FC Porto, que tem em André Silva um excelente avançado de área e em Corona mais um velocista, capaz de decidir tanto na ala como ao meio. Há um ano, houve quem achasse que a maior lacuna deste FC Porto era a falta de um 10. Nunca tal me pareceu claro, porque a intensidade dada ao jogo pelos médios – sobretudo quando ainda havia Imbula em boa fase – chegava para assegurar a iniciativa durante a maior parte dos jogos e aquilo que mais fazia falta era um 9 com capacidade para resolver no aperto da área, que Aboubakar nunca foi. Por alguma razão o camaronês está atrás de Depoitre, um clone de André Silva... Esta época fala-se menos do 10, porque os movimentos interiores e para o espaço entre-linhas de Otávio, vindo do lado esquerdo, parecem ter como intenção mascarar a falta de soluções para a segunda linha de médios. Ruben Neves é mais um 6 do que um 8, alternativa a Danilo, portanto, e além dos que jogaram ontem (Herrera e André André) só há Sérgio Oliveira, Evandro e João Carlos Teixeira. Faltará mais classe ali? É possível. Classe nunca fez mal a nenhuma equipa. De qualquer modo, a avaliação deste FC Porto pede mais tempo. A capacidade daquele meio-campo não pode ser medida nem pela primeira parte do jogo, em que a teia desenhada pelos médios do Rio Ave acabrunhou os portistas e lhes roubou o controlo do terreno, nem pela segunda parte, quando aumentou o espaço para as correrias e a baliza de Cássio se tornou mais próxima. Numa época tão longa, o FC Porto vai precisar de jogar de muitas formas, de dominar todos os momentos do jogo. É verdade que isso não me parece assegurado. O próprio treinador disse no final do jogo que a equipa está “em construção”. Mas enquanto conseguir ir construindo em cima de vitórias, está a ganhar tempo para consolidar o processo.
2016-08-12
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A vitória do Benfica na Supertaça, frente ao Sp. Braga, pode ter vindo avolumar as certezas de que os encarnados são os principais candidatos à renovação do título nacional. Mas as dificuldades que o tricampeão sentiu na maior parte da partida frente ao onze de José Peseiro e o facto de, no limite, a Supertaça só ter tomado o caminho da Luz porque Rafa e Pedro Santos foram bastante perdulários na finalização – e Jonas, já se sabe, não perdoa… – terão chegado para temperar algum entusiasmo aos mais eufóricos dos adeptos encarnados. O Benfica, pela forma como alargou o lote de opções à disposição de Rui Vitória, é realmente o maior candidato à vitória final na Liga, mas nada do que se viu ontem permite ter certezas de que venha a ter a tarefa mais facilitada do que na caminhada difícil para o tri. Porque Sporting e FC Porto estão à espreita e, resolvidos os problemas na definição, este Sp. Braga também tem de ser levado a sério. Se é verdade que Cervi parece dar garantias de que, mesmo de forma diferente de Gaitán, pode ocupar a faixa esquerda do ataque encarnado – e se não estiver ele podem estar Carrillo ou Salvio, mesmo que isso implique o desvio de flanco de Pizzi – já a substituição de Renato Sanches não está ainda comprovadamente conseguida. Não é que André Horta tenha feito um mau jogo. Não só não fez como ainda falta ver Danilo naquela posição. Só que, com exceção dos primeiros 20 minutos, em que jogou praticamente dentro da área do Sp. Braga, faltou sempre ao Benfica explosão para aproveitar o balanceamento ofensivo de um adversário que se viu a perder cedo e por isso assumiu a partida. Talvez este seja um Benfica mais à imagem de Rui Vitória, até a caminhar para o 4x2x3x1 predileto do treinador campeão, com jogo mais pensado e menos explosivo: a incorporação de Luisão, obrigando a uma defesa mais baixa no campo, a entrada de Grimaldo e Nelson Semedo, dois laterais mais ofensivos que André Almeida e Eliseu, podem até levar a equipa para aí e conduzir a uma maior participação de Jonas na construção. Mas se houve Benfica entusiasmante ontem, em Aveiro, foi nos primeiros 20 minutos, quando a equipa esteve ligada à corrente máxima e desfez a organização defensiva bracarense. Depois vieram as dúvidas. Essas dúvidas podem também encontrar justificação no valor dos adversários. Ainda que o clima depressivo que se vive em Alvalade à conta dos resultados da pré-época pareça indicar o contrário, o Sporting também é forte candidato. A equipa tem perdido muitos jogos na pré-época? É verdade. E tem revelado desatenções defensivas imperdoáveis. Os resultados nos jogos de preparação, no entanto, não justificam tão acirrados estados de alma, como sabe Jorge Jesus, que já foi campeão depois de pré-temporadas bem piores do que esta e tem muito mais com que se preocupar. O problema de Jesus é que o dia 1 de Setembro nunca mais chega e, com ele, o fecho do mercado e a estabilização do grupo. Rui Patrício, William Carvalho, Adrien Silva e, sobretudo, João Mário e Slimani são muito requisitados. Se todos ficarem, o Sporting só tem de contratar mais um homem para o ataque: assumindo que Alan Ruiz vem suprir a falta de Gutierrez, só há que encontrar uma alternativa credível a Slimani. Jesus pode sempre alegar que continua a não ter a profundidade no plantel para atacar todas as frentes que tem, por exemplo, o Benfica, mas não tem uma equipa pior do que há um ano. Pelo contrário. E há o FC Porto, a quem ainda falta um defesa-central e um médio-ofensivo, mas que apresenta como maior arma para esta época uma coerência que lhe faltou na segunda metade da temporada passada. Arrumado o lopeteguismo que Peseiro teve de gerir, Nuno Espírito Santo começa o processo do zero e pode construir uma equipa segundo as suas próprias ideias. O maior reforço parece veio de dentro do plantel: André Silva parece mais alto, mais forte, mais rápido e tudo somado isso quer dizer que será mais goleador. Ao contrário de Aboubakar, um avançado de grandes espaços, André Silva resolve no primeiro toque e isso faz toda a diferença no 4x3x3 de uma equipa grande. De resto, a chegada de Felipe e Alex Teles, a aposta reiterada em Corona e a entrada do mais contante Otávio para o lugar do imprevisível Brahimi só deixa este FC Porto a precisar de algum talento a meio-campo. Mas também ali o mercado ainda não fechou.
2016-08-08
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Último Passe

O Benfica que venceu o Sp. Braga por 3-0 e conquistou a Supertaça foi um Benfica muito diferente do que ganhou a Liga anterior. Mais do que os seis titulares de hoje que não fizeram parte do onze-base no tricampeonato, notou-se uma maneira diferente de encarar o jogo, aproximando a equipa do ideal de Rui Vitória. No melhor e no pior. Além dos reforços André Horta e Cervi, que ocuparam as posições dos tranferidos Renato Sanches e Gaitán, Rui Vitória chamou ao jogo Júlio César, Nelson Semedo, Luisão e Grimaldo, por impedimentos de diversa ordem de Ederson, André Almeida, Jardel e Eliseu. A equipa, naturalmente, comportou-se de uma forma diferente, mesmo tendo mantido a tónica no jogo de avançados que resolvem. Foi diferente no seu período mais eufórico, quando encostou o Sp. Braga atrás, fruto de cavalgadas constantes dos dois laterais, de um jogo elétrico de Cervi e do contributo de Horta, jogador mais cerebral que Renato Sanches. E foi diferente no longo período menos feliz, em que o Sp. Braga acertou posicionamentos, controlou o meio-campo com um losango, passou a criar as melhores ocasiões de golo e ao Benfica faltaram as explosões que Sanches metia no campo, a aproveitar o espaço que nessas ocasiões sempre aparece, a convidar aos contra-ataques ou aos ataques rápidos. Cervi não é Gaitán: é mais extremo, jogador mais linear, mas fez um grande golo e abriu o apetite para o que aí vem. E Horta não é Renato – julgo que Danilo também não o será. O Benfica 2016/17 pode assim aproximar-se mais do ideal de Rui Vitória, na procura de um jogo mais de posse e no desprezo pelo jogo de transições de que Renato se tornou expoente máximo. Vê-se a projeção dos dois laterais, observam-se triangulações constantes entre eles e os extremos, com o auxílio de Pizzi e André Horta, e acentua-se a participação de Jonas na construção que pode levar a equipa para o 4x2x3x1 e arrumar de vez com a herança de Jesus. As alternativas são muitas, mas apesar do 3-0 o teste não foi perfeito. E não necessariamente por causa das ocasiões de golo perdidas pelos bracarenses. Fico à espera de ver o que será esta equipa com Danilo e se Vitória vai manter a aposta em Luisão, tornando mais complicado o controlo da profundidade defensiva. Disso vai depender o que será o Benfica 2016/17.
2016-08-07
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Chego de férias com a notícia triste da morte de Moniz Pereira. Toca-me a emoção de Fernando Mamede a falar daquele a quem chamou “um pai”. Os contactos que tive com um e com o outro foram sempre demasiado efémeros para ter sobre eles qualquer opinião que não venha dos resultados que foram sempre conseguindo e que provam que Moniz Pereira era um excelente treinador e Mamede um atleta excecional. Mas Mamede recorda como o mestre foi capaz de elevar toda uma geração da indiferença para um patamar de conquistas internacionais, interferindo a nível governamental em 1975 para fazer aprovar um plano que veio transformar o atletismo nacional. E isso, essa missão de uma vida, que teve os primeiros resultados logo nos Jogos Olímpicos de 1976, com a medalha de prata de Carlos Lopes, fez dele muito mais que um treinador. Moniz Pereira era um líder, um ideólogo que via à frente dos outros. Vai a enterrar quando estão a começar os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, competição da qual a generalidade do público português já exigirá medalhas e na qual quase todo o desporto nacional se empenha para as obter. Quase? Sim. Porque há sempre o futebol, única modalidade que o país levará aos Jogos sem chamar – nem pouco mais ou menos – os melhores atletas disponíveis, mesmo tendo celebrado o brilhantismo com que a seleção de Rui Jorge conseguiu, há um ano, a qualificação para o Rio de Janeiro. É verdade que muita da responsabilidade da vergonha que foi a convocatória para a seleção caberá à FIFA, que não é capaz de dignificar o torneio olímpico com ajustes na calendarização que tornassem possível a imposição da libertação dos melhores jogadores por parte dos clubes. No que ao futebol diz respeito, estes Jogos Olímpicos serão uma competição quase clandestina, a decorrer em simultâneo com o arranque dos campeonatos nacionais e com a fase decisiva de acesso à Liga dos Campeões. Ainda assim, ao ouvir Fernando Mamede falar do plano apresentado por Moniz Pereira há 40 anos, da forma como ele valorizava os Jogos Olímpicos, não pude deixar de me lembrar da tragicomédia que foi o anúncio da lista de convocados para a seleção olímpica de futebol. A FPF não está ao nível em que estava o atletismo – e o desporto – nacional em 1975 e a prova disso está na conquista do Europeu de França. Mas isso não quer dizer que não lhe faça falta a visão de um Moniz Pereira.
2016-08-01
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E agora, para algo completamente diferente... Portugal ganhou o campeonato da Europa, vencendo a França, a quem não ganhava há 41 anos, em Paris, onde nunca uma equipa portuguesa tinha ganho um jogo de competição, sem Cristiano Ronaldo em 95 dos 120 minutos, por lesão prematura, e com um golo de Éder num remate do meio da rua. Quais eram as probabilidades de isto acontecer? Mínimas. Mas a vitória, conseguida no prolongamento, depois de duas grandes mudanças no xadrez tático e no seguimento de um jogo em que a capacidade de sofrimento foi o argumento principal para contrariar um adversário sempre mais perigoso do ponto de vista ofensivo e mais possante nas manobras pelo meio do campo, acaba por premiar uma equipa que foi isso mesmo: uma equipa, um coletivo indestrutível e inexpugnável. Portugal não ganhou muitos jogos – nos 90 minutos, aliás, só ganhou um – mas não perdeu nenhum em dois anos de competição. E fê-lo utilizando sempre toda a profundidade do seu plantel, acabando por fazer de uma maior frescura física na final uma arma fundamental para melhor controlar a França. O jogo começou muito difícil para Portugal. Fernando Santos manteve o 4x1x3x2, mas o 4x2x3x1 da França deixava os médios portugueses com falta de referências para o seu habitual jogo de encaixe. William tentava preencher a área à frente dos centrais, onde caía preferencialmente Griezmann, mas depois com Renato Sanches e João Mário abertos nas alas, Adrien sofria face a Pogba e Matuidi. O médio português tentava subir em pressão, mas os seus esforços eram regra geral infrutíferos, pois mesmo que encostasse em alguém acabava atropelado pela maior pujança dos opositores. Giroud, cujo futebol dependia sempre mais dos cruzamentos, estava controlado por dois centrais intratáveis no jogo aéreo, mas a França era capaz de lançar vaga sobre vaga de ataque fruto das arrancadas dos homens que chegavam das linhas atrasadas. O primeiro remate até foi português, quando Cédric descobriu uma diagonal de Nani e este lhe deu depois de controlar no peito, mas depois a França tomou conta do campo e bem podia ter chegado ao golo. Uma recuperação alta permitiu a Griezmann chutar à rede lateral de boa posição (aos 7’) e, pouco depois (aos 10’) foi Rui Patrício que, com uma defesa magistral, impediu o Bota de Ouro da competição de marcar de cabeça. Até que se deu o golpe de teatro. Magoado numa entrada de Payet, Ronaldo teve mesmo de sair do campo aos 25’, depois de ter tentado o regresso com um joelho ligado. Fernando Santos chamou Quaresma, mas a equipa não piorou, sobretudo porque o treinador a reorganizou, trocando o 4x1x3x2 por um 4x3x3 que permitia a Portugal encaixar no meio-campo francês. Com Renato mais por dentro, a manter Matuidi em sentido, Adrien passava a ter de ocupar-se “apenas” de Pogba. E o problema aí passaram a ser as movimentações de Sissoko, um monstro de disponibilidade física, que ganhava todos os duelos que disputava. Foi Sissoko, aliás, quem voltou a estar perto do golo, quando aos 34’ se livrou de Adrien e chutou para mais uma excelente defesa de Rui Patrício, neste período o garante do zero na baliza de Portugal. A partir deste momento, porém, com o encaixe tático, a França já só ameaçava em movimentos individuais, fossem eles de Pogba, Sissoko ou Coman, que entrara para o lugar de Payet com o intuito de alargar o campo e forçar o um para um com Cédric. E apesar de Griezmann ter voltado a perder uma ocasião clara, cabeceando ao lado após centro de Coman, Portugal parecia agora mais confortável no jogo. E mais confortável foi ficando com as trocas de Adrien, esgotado, por Moutinho, e sobretudo com a saída de Renato por Éder, dando mais coerência ao 4x3x3 da seleção. Nani, que estava no centro do ataque, muitas vezes a ser alvo de impossíveis bolas aéreas, passou para a direita, deixando a Éder a missão de jogar de costas para a baliza; Quaresma mudou para a esquerda e João Mário baixou para o meio-campo, onde rende muito mais do que como extremo. E assim que chegou ao flanco direito, Nani mostrou o que podia fazer: cruzamento-remate para grande defesa de Lloris, que deteve também a recarga acrobática de Quaresma (aos 80’). A França já tinha então trocado de ponta-de-lança, inserindo em campo Gignac, que pelo jogo de pés e pela forma como defende a bola com o corpo, era muito mais difícil de controlar que Giroud. E GIgnac esteve mesmo à beira de sentenciar a final, já em período de descontos: trabalhou bem sobre Pepe e, na cara de Patrício, chutou ao poste. Aqui, foi a sorte a proteger Portugal e a levar o jogo para um prolongamento onde, no entanto, a equipa nacional já foi melhor, mostrando que a profundidade do plantel é muito importante numa competição-relâmpago como esta: não só Portugal utilizou mais jogadores (só não jogaram os dois guarda-redes suplentes), como mudou cinco titulares da abertura para o encerramento (contra apenas dois da França) e até teve onze dias para fazer os últimos três jogos, enquanto a França desenhou o calendário para os fazer em oito dias. Com Ronaldo empenhadíssimo na motivação dos companheiros antes do prolongamento, a equipa portuguesa entrou melhor nesta fase do jogo, muito fruto da capacidade de luta e de ganhar faltas mostrada por Éder. Didier Deschamps ainda não tinha feito a última substituição quando Raphael Guerreiro acertou na barra num livre direto (aos 108’) que deixara Lloris completamente batido. E já se preparava para colocar em campo Kanté, um médio de contenção, quando Éder inventou o golo da vitória: saiu da esquerda para o meio, foi ganhando espaço e acertou um pontapé forte do meio da rua que fez a bola entrar no canto inferior da baliza francesa. Com onze minutos para jogar, Portugal colocava-se em vantagem. Até final, a ideia foi resistir e vinha bem sonora do banco, onde Ronaldo estava híper-ativo, saindo frequentemente da área técnica e mais parecendo um treinador pela forma como ia gritando para dentro do campo. Deschamps emendou a substituição e fez entrar Martial, mais um homem de ataque, mas a França já não voltou a conseguir criar as situações de perigo que tivera no tempo regulamentar. E no fim foi Ronaldo quem ergueu a taça, lançando a festa em Portugal e em todo o local onde há portugueses.
2016-07-11
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Último Passe

Quando Fernando Santos dizia que só voltava a casa no dia 11 de Julho, depois da final do Europeu, estava a falar a sério. Portugal assegurou a qualificação para o jogo onde vai decidir-se a prova ao bater com inteira justiça o País de Gales por 2-0, com golos de Ronaldo e Nani, a coroar um jogo que só não foi defensivamente perfeito porque a equipa abanou durante uns dez minutos da primeira parte. Mas desta vez nem os que só conseguem ver tacanhez na equipa terão grande margem de manobra, uma vez que Portugal foi claramente a melhor equipa em campo, até do ponto de vista atacante, tendo desperdiçado pelo menos cinco ocasiões claras para construir um resultado mais amplo. É verdade que o foco da equipa continuou a ser não deixar jogar o adversário. Que Fernando Santos construi o seu onze com a ideia firme de anular as principais armas de quem lhe surge pela frente. E, depois de o ter conseguido contra a Croácia, voltou a ser bem sucedido frente a Gales. O 4x4x2 de Fernando Santos, com recusa de pressionar a primeira fase de construção de Gales, tinha como maiores objetivos a anulação de Joe Allen por Adrien Silva, o médio-centro português, e o fecho das linhas de passe dos dois laterais galeses, Gunter e Taylor, através da colocação estratégica de Renato Sanches e João Mário entre eles e os jogadores dos quais mais dependia a criação, que eram Bale e King. Ora, com exceção de oito minutos da primeira parte (entre os 18’ e os 26’), nos quais os dois interiores portugueses perderam um pouco o posicionamento e Gales fez os seus três remates dos primeiros 45’, o plano resultou em pleno. O problema é que Portugal também não conseguia construir: eram raros os momentos de combinação entre os interiores e os seus laterais e os passes longos para Ronaldo esbarravam numa noite inesperadamente perfeita de Collins, que impedia a bola de lá chegar. A primeira parte foi, por isso, demasiado morna e na verdade teve apenas uma situação de perigo verdadeiro: foi quando, aos 44’, Adrien Silva se desamarrou e foi à esquerda para cruzar para um cabeceamento de Ronaldo, em boa posição, sobre a barra. O jogo precisava de um golo para mudar e foi Portugal quem o fez. Já Quaresma, Moutinho e André Gomes aqueciam para dar mais chispa no meio-campo e no ataque quando, ao terceiro canto português, João Mário bateu pela primeira vez curto, para Raphael Guerreiro. O lateral cruzou de forma perfeita e Ronaldo aproveitou o atraso da chegada da bola à zona de definição para se superiorizar à defesa galesa e cabecear para o 1-0. O jogo ia mudar, mas antes que Gales pudesse reagir, os portugueses fizeram o 2-0, após um bom movimento ofensivo, coroado com um remate de fora da área de Ronaldo. A bola parecia ir fraca e em direção às mãos de Hennessey, mas Nani apercebeu-se disso e desviou-a do alcance do guarda-redes galês, fazendo o 2-0. Havia 37 minutos por jogar, mas a urgência de Gales poderia abrir caminho ao ampliar da vantagem. Coleman meteu risco no jogo. Primeiro, trocou o médio mais defensivo, Ledley, por um segundo ponta-de-lança, Vokes, que foi jogar para perto de Robson-Kanu, transformando o sistema num 3x4x1x2, com Bale atrás dos dois avançados. A ideia manteve-se após a troca de Robson-Kanu por Church e acentuou-se a 25 minutos do final, quando Collins deu o lugar a Jonathan Williams. Aí, Gales passou a um 4x4x2, com Allen e Bale a pegarem no jogo alternadamente, Vokes e Church na frente e King e Williams nas alas. Santos, porém, não mudou a estrutura e limitou-se a refrescá-la: Renato Sanches cedeu a vaga a André Gomes, mais contido; Adrien foi trocado por Moutinho, que manteve a posição ao meio; e Nani abriu caminho à entrada de Quaresma. Portugal resistiu sempre a fazer entrar um terceiro central ou até a baixar Danilo no campo e continuou a ter as melhores situações para marcar. Primeiro, num contra-ataque aos 65’, no qual Nani forçou Hennessey a uma defesa incompleta e João Mário recargou de primeira rasar o poste, já com o guarda-redes caído. Depois, aos 70’, quando José Fonte cabeceou um canto de João Mário para nova defesa do guardião galês. Renato Sanches ainda perdeu esse mesmo 3-0 num contra-ataque em que Portugal teve superioridade numérica, mas no qual optou por chutar de fora da área (aos 73’, imediatamente antes de sair). Danilo, aos 78’ podia também ter ampliado a margem, quando aproveitou uma situação de pressão para se isolar na cara do guardião galês e o viu deter-lhe o remate à segunda, já em cima da linha de golo. E por fim Ronaldo, isolado por André Gomes na meia-direita, viu a receção prejudicar-lhe a finalização, que saiu à rede lateral (aos 86’). Nessa altura, porém, já os portugueses viam St. Denis ao longe. Gales caía muito no jogo direto para os pontas-de-lança, ganhando algumas bolas aéreas mas perdendo outras, e só se tornava perigoso quando Bale conseguia espaço. Dois remates de longe da estrela galesa (aos 77’ e aos 80’), ambos defendidos por Rui Patrício, representaram o último estertor de uma equipa que saiu deste Europeu merecidamente aplaudida de pé pelos adeptos mas que não chegou para contrariar a superioridade técnica, tática e sobretudo estratégica de Portugal.
2016-07-06
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Um aproveitamento de 100 por cento nas grandes penalidades, a somar a um penalti defendido por Rui Patrício, permitiu a Portugal carimbar o apuramento para as meias-finais do Europeu, depois de mais um empate – o quinto – da equipa de Fernando Santos nesta fase final. Desta vez, o futebol jogado saldou-se por uma igualdade a um golo: os polacos marcaram logo a abrir, por Lewandowski, tendo os portugueses empatado por Renato Sanches quando Fernando Santos transmitiu alguma clareza tática para dentro do campo, ainda na primeira parte. Cristiano Ronaldo ainda perdeu um par de situações claras para fazer o segundo, mas não vacilou quando se tratou de liderar a equipa no desempate. Aí, além do capitão, Renato Sanches, João Moutinho, Nani e Quaresma também fizeram golo nas suas tentativas, tendo Rui Patrício detido o remate de Blaszczykowski da definição do 5-3 final. Sem Raphael Guerreiro e André Gomes, Fernando Santos colocou finalmente na relva o meio-campo que o país em peso vinha pedindo, mas nem por isso a equipa entrou bem no jogo. Com Wiliam Carvalho atrás de Renato Sanches, Adrien Silva e João Mário, Portugal passou meia-hora numa indefinição tática da qual ninguém se salvava. Ora Cristiano e Nani abriam nas alas deixando a João Mário a missão de aparecer como falso ponta-de-lança; ora o capitão ficava no meio e era Adrien quem mais dele se aproximava, baixando Nani; ora a equipa se aproximava de um 4x3x3 com Adrien e Renato por dentro e João Mário a abrir como extremo... As combinações ofensivas não saíam e, pior do que isso, defensivamente a equipa parecia adormecida. Para cúmulo, a Polónia marcou logo aos 2’, num lance em que alguns portugueses não ficaram isentos de culpas: Cédric falhou a interceção de um passe que encontrou Grosicki na esquerda, este ganhou posição na linha de fundo e, beneficiando de um movimento de Milik, que arrastou os dois centrais portugueses em direção à baliza, deu a bola para a finalização fácil de Lewandowski, que se adiantou a William Carvalho graças a uma melhor e mais rápida leitura do lance. Estava dado o mote para uma meia-hora na qual, mesmo tendo experimentado visar a baliza de Fabianski algumas vezes, Portugal podia ter deitado o jogo a perder, tanta era a desconcentração que a equipa mostrava e que se revelava na perda sucessiva de passes. As melhores ocasiões neste período foram polacas, nelas se contando um remate de Milik ao lado (aos 15’) e uma defesa de Rui Patrício a novo tiro de Lewandowski (aos 17’), mas sobretudo uma troca de passes no lado esquerdo do ataque polaco que, mesmo sem ter criado sensação clara de golo, deixou os portugueses como se fossem meros pinos de treino. Por volta da meia-hora, porém, Fernando Santos parece ter esclarecido as coisas com a equipa. Corrigidas as posições em campo, tendo Portugal assumido um 4x1x3x2 mais clássico, com Renato na direita, João Mário na esquerda e Adrien perto de William, a equipa assentou o jogo. E ato contínuo chegou ao golo, numa bela tabela de Renato com Nani, que o jovem médio concluiu com um remate de pé esquerdo para o fundo da baliza polaca. Houve alguma fortuna na forma como o remate desviou em Krychowiak, fugindo do guarda-redes, mas Portugal encarregar-se-ia nos minutos seguintes de mostrar que merecia essa sorte. Abriu-se aí a melhor fase portuguesa no jogo. E em condições normais esta podia mesmo ter dado origem à primeira vitória portuguesa em 90 minutos. O meio-campo funcionava na forma como era capaz de tirar a bola da zona de pressão polaca e conduzir a equipa a ataques rápidos, como aquele em que Ronaldo se isolou sobre a esquerda e, quando tinha João Mário do outro lado, de baliza aberta, optou por rematar em vez de lhe dar a bola para o que se adivinhava viesse a ser uma conclusão fácil. O remate do capitão, no entanto, acertou na rede lateral (aos 56’). O mesmo Ronaldo acertou mal numa bola já dentro da área (aos 60’), tendo Adrien chutado de ressaca contra um adversário. E até Cédric, num disparo de fora da área, esteve à beira de desempatar (aos 64’). O cansaço de alguns elementos pôs termo a esta boa fase de Portugal. O sinal veio num desvio de Milik, que Rui Patrício deteve com categoria (aos 69’) ou no cartão amarelo mostrado a Adrien pela forma como travou, em falta, um contra-ataque polaco (aos 70’). Mas mesmo com o jogo mais dividido, os portugueses podiam perfeitamente ter ganho. Primeiro num raide de Pepe em que, para evitar que a bola chegasse a Ronaldo, Glik quase fez autogolo (aos 81’). Depois, já em período de compensação, quando João Moutinho (que substituíra Adrien) descobriu mesmo Ronaldo atrás da linha defensiva polaca, mas o capitão luso não foi capaz de desviar o passe alto em direção da baliza do desamparado Fabiánski. O prolongamento foi marcado mais pelo medo de perder do que pela vontade de ganhar. Portugal já tinha lançado Quaresma em vez de João Mário, fazendo-o o jogar pela direita e derivando Renato para a esquerda. Percebendo o cansaço de William, mais uma vez o que mais estava a correr entre os jogadores lusos, Fernando Santos trocou-o então por Danilo, de forma a evitar que essa fadiga se refletisse em falta de cobertura defensiva aos centrais na contenção dos dois pontas-de-lança que Nawalka mantinha em campo e de testar já a solução para a meia-final, uma vez que William viu um amarelo que o afasta do jogo. Ainda assim, com a Polónia a beneficiar nesta fase de alguma falta de agressividade portuguesa no ataque às sobras e a encaminhar o jogo para mais perto da baliza de Rui Patrício, a melhor ocasião de golo pertenceu a Portugal, quando Ronaldo voltou a não acertar bem na bola, desta vez após ficar em boa posição no seguimento de um cruzamento de Eliseu (aos 93’). A verdade é que ninguém desempatou o jogo e este se decidiu mesmo nas grandes penalidades. E aí, 100% de frieza e competência dos marcadores portugueses, tendo Rui Patrício assinado a única defesa do desempate, quando caiu para a sua esquerda para ir buscar o remate de Blaszczykowski. Quaresma não vacilou na hora de bater o penalti decisivo e apurou Portugal para a sétima meia-final do seu historial (já lá tinha estado nos Mundiais de 1966 e 2006 e nos Europeus de 1984, 2000, 2004 e 2012).
2016-07-01
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Último Passe

Quando a Islândia ganhou à Inglaterra logo saíram da multidão uns quantos “especialistas” a dizer, com um sorriso irónico: “ah, e tal, afinal Portugal até fez um grande resultado com os islandeses”. Pois bem: isso é mentira. Portugal tem muito melhor equipa do que a Islândia e devia ter ganho à Islândia. Tal como a Inglaterra, aliás. Não ganharam, nem uns nem outros, por várias razões, quase todas relacionadas com a realidade islandesa. Porque a Islândia pode ser um país pequeno, com recursos muito limitados, desde logo no campo de recrutamento, mas tem uma grande vantagem sobre outras nações mais poderosas: sabe ao que joga. Portugal, já o escrevi aqui, não tem a certeza acerca disso. Vive dividido entre realidades, uma da mais pura megalomania, que manda que queiramos impor o nosso jogo a quem quer que seja, outra de uma pequenez irritante, que nos conduz para um jogo de submissão e cinismo. Estamos entre os dois mundos. A Inglaterra está no primeiro, mesmo que tenha uma equipa demasiado inexperiente para ter sucesso. Mesmo encerrando na sua ideia de jogo contrassensos demasiado poderosos para poder ter sucesso. Faz algum sentido, por exemplo, jogar com três avançados e um “10” à frente de Rooney, o que automaticamente, em nome do equilíbrio da equipa, afasta este também das zonas de finalização? Faz algum sentido, ainda, fazer uma arma da capacidade dos laterais Walker e Rose para correrem todo o corredor e cruzarem se depois se joga com um ponta-de-lança como Kane, que se notabiliza sobretudo pela forma como sai da área? Funciona no Tottenham? É verdade, mas o Tottenham joga na Premier League. E isto é o Europeu, onde há ideias diferentes. Como a da Islândia, por exemplo. E qual é a ideia da Islândia? A Islândia é a equipa mais coerente que está neste Europeu. Tem noção das suas debilidades e do que tem de bom. Sabe que não tem malabaristas, nem super-criativos, nem dribladores, que tem problemas até numa troca rápida de passes. Sabe também que é quase imbatível no ataque às bolas aéreas e na agressividade com que chega às segundas bolas que delas resultam. E não é preciso ser um génio de estratégia futebolística para se perceber como se deve jogar nestas condições: equipa junta atrás, duas linhas bem fechadas, bola longa para Sigthorsson e aposta na capacidade de Bodvarsson, Sigurdsson e Gunarsson para recomeçarem o processo mais à frente. Por fim, investimento total nas bolas paradas ofensivas. É minimal? Claro que sim. A Islândia nunca ganharia o prémio para a equipa com o futebol mais elaborado da competição, mas a verdade é que também nunca pensou sequer em concorrer. Aqui chegados, é preciso reconhecer que, em condições normais, isto não chegaria. Afinal de contas a Islândia jogou sempre assim e nunca tinha sequer atingido uma fase final, quanto mais uns quartos-de-final, ganhando de caminho à Áustria e à Inglaterra (e eliminando a Holanda na fase de qualificação). É aqui que entra em grande força o trabalho de base. Fartos de serem os bombos da festa, os responsáveis pelo futebol na Islândia perceberam que o maior problema que tinham, maior mesmo que as limitações no campo de recrutamento, era a incapacidade para treinar e desenvolver jogadores. Pois se em oito de cada doze meses não se consegue jogar futebol, porque os campos estão gelados, como podem aparecer jogadores? No ano 2000, a Islândia começou a construir pavilhões gigantes, com campos de futebol de relva artificial lá dentro. Até a mais pequena aldeia piscatória tem um, o que permite aos miúdos locais jogar e treinar durante todo o ano em vez de fugirem para modalidades mas de acordo com o meio-ambiente. Depois, o país investiu muito em formação: tem hoje 600 treinadores de elite, um a cada 550 habitantes. Por fim, foi só esperar. A Islândia vai provavelmente perder o jogo dos quartos-de-final com a França, mas a aventura que a trouxe até aqui já terá valido a pena, pela forma como alegrou tanta gente na ilha. E embora eles gostem de alimentar o mito de que só aqui chegaram porque são loucos, porque têm a atitude temerária dos vikings, há muito mais a justificar o que está a suceder. Trabalho e coerência, que se reflete em inteligência competitiva. Eis o segredo da Islândia.
2016-06-28
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Último Passe

Um jogo muito diferente dos três anteriores e até daquilo a que a seleção nacional está habituada permitiu a Portugal atingir os quartos-de-final do Europeu, mercê de uma vitória sobre a Croácia, por 1-0, com um golo de Quaresma a três minutos do final do prolongamento. O golo nasceu de um contra-ataque perfeito e coroou de sucesso a tática do esticão em que Fernando Santos apostou quando percebeu que era impossível tirar o domínio ao adversário e chegar lá através de um futebol mais consistente. Também por isso se falou tão pouco de Ronaldo: o primeiro remate do capitão aconteceu precisamente no lance do golo e exigiu uma defesa enorme a Subasic, tendo Quaresma sido o mais rápido a acorrer ao ressalto para marcar de cabeça na baliza deserta. As maiores virtudes lusitanas, no entanto, tiveram pouco a ver com brilho. Foram a exibição imperial de Pepe no comando da defesa, a disponibilidade física de Adrien para contrariar o jogo de posse do meio-campo croata, o jogo quase sem erros de Cédric e Guerreiro e, depois, quando foi preciso mudar o chip ao jogo, as arrancadas de Renato Sanches, a fustigar um adversário que apesar dos dois dias a mais de recuperação de que dispôs também não estava assim tão fresco. Entre os citados estão várias das alterações feitas por Fernando Santos no onze inicial, revelando uma avaliação perfeita do grupo e do que lhe era exigido. Um jogo não se faz com onze jogadores, mas sim com 14. Um jogo não tem de se ganhar nos primeiros minutos: pode ganhar-se nos últimos. Não costuma ser boa política esperar até lá para o ganhar, mas esta seleção tem-no feito com tanta frequência que dá que pensar. Fernando Santos optou por fazer quatro alterações ao onze que tinha defrontado a Hungria. Por três ordens de razões. Raphael Guerreiro regressou à equipa em vez de Eliseu porque é já o titular da posição e já não estava fisicamente impedido de alinhar. José Fonte ocupou a vaga de Ricardo Carvalho no centro da defesa porque os 38 anos do titular não lhe permitem já uma recuperação física tão rápida como a dos companheiros e a fadiga já se lhe notara no jogo com os húngaros, mas também porque era preciso combater o jogo físico do possante Mandzukic. Cédric e Adrien entraram em vez de Vieirinha e João Moutinho por questões ao mesmo tempo estratégicas e de análise do grupo: o lateral direito conteve bem Perisic e o médio não só inibiu Modric de exercer maior influência no jogo como conseguiu ir à frente municiar o ataque: é dele, por exemplo, a recuperação seguida de passe para Nani no lance em que o atacante sofreu uma grande penalidade não assinalada pelo árbitro. Portugal entrou na mesma em 4x4x2, com André Gomes em vez do reclamado Renato Sanches e se a opção parece revelar que Santos não quer Renato numa ala do seu 4x4x2 – e é evidente que não pode jogar com ele ao meio, só com dois médios – a forma como decorreu o jogo deu-lhe razão. Porque entrando aos 50’, Renato ainda teve tempo de se tornar uma força motriz nas chegadas de Portugal à frente. Nessa altura, com a saída de André Gomes, Portugal passou a um 4x3x3 que serve mais as caraterísticas de Renato mas sacrifica João Mário, que teve de se encostar na esquerda do ataque. E não é a mesma coisa ser ala no meio-campo de quatro ou extremo no ataque a três: João Mário, que joga melhor ao meio, pode desempenhar a primeira função mas terá sempre muitas dificuldades em dar à equipa o jogo pleno de velocidade que a segunda exige, razão pela qual foi depois naturalmente sacrificado para dar entrada a Quaresma, quando o treinador percebeu que não ia lá através do jogo consistente e mais valia apostar na tática do esticão. O 4x4x2 português tentava encaixar no 4x2x3x1 croata. Não havia marcações individuais, mas notava-se que William Carvalho se preocupava muito com as movimentações de Rakitic, o croata que jogava mais perto do ponta-de-lança, e que Adrien subia em pressão para ir buscar Modric, o principal cérebro do jogo axadrezado. O jogo era muito feito de encaixes, mas enquanto Portugal baixava para se organizar defensivamente, a equipa de Ante Cacic pressionava a saída de bola portuguesa, levando os centrais lusos a jogar mutas vezes longo e a perder a bola. Isso levou ao domínio territorial e de posse dos croatas, mas nem por isso a um jogo com ocasiões de golo. Em toda a primeira parte não houve um único remate bem enquadrado com as duas balizas e três dos quatro que saíram ao lado (três da Croácia e um de Portugal) nasceram em lances de bola parada. No segundo tempo, com a entrada de Renato Sanches e a passagem dos portugueses para um 4x3x3 que encaixava ainda melhor no 4x2x3x1 croata, só o desgaste natural das duas equipas permitiu que o jogo partisse um pouco e que começassem a entrar contra-ataques e ataques rápidos. Brozovic esteve perto do golo aos 52’, mas chutou cobre a barra da baliza de Patrício e, aos 57’, foi a vez de Renato chutar ao lado de boa posição, após uma boa tabela com João Mário. Até ao final dos 90’, só um cabeceamento de Vida, após livre de Srna, aos 62’, deixou a defesa de Portugal em cuidados. Fernando Santos atacou o prolongamento com Quaresma em vez de João Mário e percebia-se que o jogo estava para os raides do extremo do Besiktas. Ainda assim, o maior volume de jogo croata deixava Portugal em cuidado permanente. Kalinic chutou ao lado de boa posição aos 97’ e Vida voltou a ameaçar num canto, cabeceando por cima da barra aos 112’. Nessa altura já Portugal trocara Adrien por Danilo, numa tentativa de tapar a entrada da área e ganhar altura nas bolas paradas que a Croácia ia tendo com frequência e nas quais criava sempre perigo. Perdia-se a capacidade de Adrien nos penaltis, mas acabou por não ser necessário lá chegar porque a equipa fez valer os argumentos que tinha em campo. Após um cabeceamento de Perisic detido a meias por Rui Patrício e pelo poste, Quaresma desarmou Strinic perto do bico da área portuguesa, a bola sobrou para Ronaldo que a entregou de imediato a Renato Sanches, tirando a bola da zona de pressão croata. Este, com condições para correr, conduziu um contra-ataque de quatro para quatro por uns 50 metros antes de entregar a Nani na esquerda. Nani cruzou de trivela para o segundo poste onde, em boa posição, Ronaldo obrigou Subasic à primeira defesa do jogo. Quaresma, que tinha acompanhado a jogada, só teve de encostar de cabeça para enviar Portugal para os quartos-de-final.
2016-06-26
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Último Passe

Uma exibição decisiva de Ronaldo, que tal como há quatro anos apareceu no Campeonato da Europa à terceira jornada, chegou a Portugal para empatar a três bolas com a Hungria e apurar-se para os oitavos-de-final do Euro’2016, onde a seleção nacional vai defrontar a Croácia. Autor de dois golos de grande execução e de uma assistência para o primeiro dos três tentos portugueses, marcado por Nani, Ronaldo fez a diferença numa tarde em que os portugueses puderam ainda ver os efeitos da sociedade entre João Mário e Renato Sanches a carrilar jogo para o meio-campo adversário, mas na qual a Fernando Santos terá sobrado uma dúvida: como poderá ter os dois miúdos ao mesmo tempo e não sofrer defensivamente? Na resolução desse dilema estará a chave de um Europeu no qual Portugal ainda não convenceu ninguém, mas onde teve a felicidade de calhar na metade certa do quadro, assegurando que só defrontará Espanha, Itália, Alemanha, França ou Inglaterra se chegar à final. Pode parecer uma loucura estar a falar de final quando a seleção nacional teve de sofrer até para ser terceira classificada num grupo que apurou diretamente a Hungria e a Islândia. Ou quando ainda não ganhou uma única das três partidas que fez. No último dia do Grupo F, porém, o jogo foi mesmo de loucos. Mesmo antecipadamente apurada, a Hungria só desistiu de tentar ganhar nos últimos 20 minutos, quando se centrou mais na vontade de acabar o grupo como primeira classificada e fugir também aos favoritos. A precisar de ganhar para ser primeiro, mas sabendo que o empate lhe dava sempre a qualificação, Portugal também só resolveu meter o jogo no bolso nos últimos dez minutos, quando Fernando Santos substituiu Nani por Danilo, na tentativa de evitar uma surpresa desagradável. É que um quatro golo da Hungria mandava a equipa nacional para casa e, além de os dois golos que os húngaros fizeram na segunda parte já terem saído de livres com desvio na barreira, Rui Patrício ainda viu uma bola tabelar-lhe no poste direito que bem podia ter forçado a equipa a recuperar por uma quarta vez. É que a história do jogo mostrou sempre a Hungria na frente e Portugal a ter de recuperar e depois a ver o seu ímpeto destruído por mais um golo húngaro. Enquanto Bernd Storck resolveu poupar os titulares que já tinham visto um cartão amarelo, assegurando dessa forma que os teria no jogo dos oitavos-de-final, Fernando Santos entrou perto daquela que tem sido para ele a equipa de gala. A exceção era a ausência de Raphael Guerreiro, que, lesionado, dava o lugar a Eliseu. André Gomes mantinha a vaga na esquerda de um meio-campo que, com a reentrada de João Mário para o lugar que tinha sido de Quaresma no jogo com a Áustria, regressava aos quatro elementos, enviando a equipa para o 4x4x2. O problema é que André Gomes pareceu limitado e nunca produziu tanto como nos primeiros jogos e William também baixou a sua influência, condenando Portugal a um jogo atacante mais lento – a isso não terá sido estranho o intenso calor de Lyon – e previsível. Daí que, apesar do domínio territorial português, não aparecessem ocasiões de golo na baliza de Kiraly. Portugal quase se limitava a rondar a área, a ganhar cantos e a chutar de fora da área. E foi a Hungria quem marcou primeiro, aos 19’, por Gera, na sequência de um canto de Dzsudzsak: Ronaldo cortou no ar, Nani completou o alívio para a entrada da área portuguesa, onde o médio húngaro apareceu a chutar sem hipóteses para Rui Patrício. O golo húngaro afetou a produtividade da equipa portuguesa, que levou uns minutos a reentrar no jogo. A reação começou num livre de Ronaldo, que Kiraly teve de se esforçar para desviar para canto, aos 29’, mas só teve continuidade já bem perto do intervalo, quando o mesmo Ronaldo solicitou uma diagonal de Nani e este bateu Kiraly com um remate seco para o ângulo mais próximo. Com 45 minutos por jogar, Fernando Santos decidiu assumir o risco de ir à procura da vitória que garantisse o primeiro lugar do grupo e trocou Moutinho por Renato Sanches, mas antes que a alteração pudesse ter efeito, a Hungria voltou a marcar. Dzsudzsak bateu um livre perto da área, a bola desviou em André Gomes e traiu Rui Patrício, deixando Portugal outra vez fora dos oitavos-de-final. A reação portuguesa, desta vez, foi mais rápida. Três minutos depois, aos 50’, João Mário arrancou pela direita e cruzou para o ataque de Ronaldo à bola. Lang acompanhou bem o capitão português e ter-lhe-ia blocado o remate não tivesse Ronaldo inventado uma solução genial: deixou a bola passar e deu-lhe com o calcanhar do pé direito, deixando Kiraly colado ao solo. A espetacularidade do golo, somada à forma como João Mário e Renato Sanches combinavam na direita, parecia poder carregar a seleção para a vitória. Só que, cinco minutos depois, deu-se mais um episódio da Lei de Murphy: Dzsudzsak voltou a ter um livre, desta vez chutou contra a barreira, mas recuperou o ressalto e deu-lhe com alma, fazendo a bola resvalar em Ricardo Carvalho e trair o desamparado Rui Patrício. O 3-2 anulava o efeito do golo de Ronaldo e da substituição e deixava Portugal outra vez a precisar de recuperar. Fernando Santos chamou então Quaresma, para o lugar do fatigado André Gomes e, com o segundo toque na bola – o primeiro tinha sido para marcar o canto – Quaresma cruzou para o bis de Ronaldo, desta vez de cabeça. Faltava meia-hora para o final da partida e Portugal lançou-se à procura da vitória. A ocasião mais flagrante de golo, porém, pertenceu à Hungria, quando Elek se isolou pela esquerda e chutou violentamente contra o poste da baliza de Rui Patrício. Se antes tivera azar na forma como sofreu os dois golos, desta vez a equipa nacional foi sortuda por não ter de procurar a recuperação por uma quarta vez. A jogar em 4x3x3, com Renato Sanches e João Mário à frente de William, e com Quaresma e Nani a ladear Ronaldo na frente, Portugal apresentava o seu onze mais ofensivo imaginável. O empate no outro jogo mandava os portugueses para o segundo lugar e a metade errada do quadro do sorteio e por isso a equipa ainda procurava o quarto golo. Ronaldo esteve por duas vezes perto do hat-trick, mas o que se via também era alguma tremedeira sempre que a Hungria subia até ao ataque. Por isso, mesmo já com os húngaros a jogar com uma linha de cinco atrás, Fernando Santos resolveu tapar o jogo à frente da sua área e substituir Nani por Danilo a nove minutos do fim. O jogo acabou com os húngaros a recusarem sair para o meio-campo adversário e com a notícia do golo islandês na outra partida, a chutar Portugal do segundo para o terceiro lugar e para a metade mais desejada do quadro. Fernando Santos terá gostado do envolvimento atacante que a equipa conseguiu na segunda parte, com a associação de João Mário a Renato Sanches, mas não pode ter ficado satisfeito com os buracos que a equipa abriu a defender. A solução para o jogo com a Croácia terá de ser outra, provavelmente com Renato e João Mário nas alas, sacrificando André Gomes, e João Moutinho ou até Adrien à frente de William (caso o selecionador desista de recuperar Moutinho, como a substituição ao intervalo pode fazer prenunciar). Dúvidas haverá também acerca da condição de Ricardo Carvalho para um jogo que terá lugar já daqui a três dias – ele que já pareceu menos seguro hoje – como na lateral-esquerda, onde Eliseu não fez esquecer Raphael Guerreiro. O tempo para pensar e recuperar não é muito, mas uma coisa é certa: a Croácia é forte e será preciso muito mais Portugal do que o que se viu na primeira fase para seguir em frente.
2016-06-23
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Último Passe

Portugal melhorou do primeiro para o segundo jogo do Europeu, mas voltou a não conseguir ganhar. Desta vez, nem com 23 finalizações e um penalti, nem com duas bolas nos postes da baliza de Almer, nem com uma mudança de sistema que lhe permitiu fazer os médios jogar com mais frequência dentro do bloco adversário os portugueses conseguiram fazer um único golo à Áustria, saindo do Parque dos Príncipes com um 0-0 que é ao mesmo tempo frustrante e pressionante. Frustrante porque a equipa fez mais por ganhar e em condições normais teria ganho, pressionante porque o resultado deve obriga-la a vencer o último jogo, frente à Hungria, na quarta-feira, para seguir para os oitavos-de-final. No fundo faltou à seleção aquilo que Cristiano Ronaldo pode dar-lhe: golos. O capitão teve tudo para os fazer, mas nem de penalti lá chegou: a 11 minutos do fim, ganhou uma grande penalidade, na sequência de um raid de Raphael Guerreiro na esquerda, mas apesar de ter enganado o guarda-redes, fez a bola esbarrar no poste. O segundo penalti consecutivo falhado por Cristiano Ronaldo na seleção – já tinha permitido a defesa do guarda-redes contra a Bulgária, em Março – pode nem levar o selecionador a mudar a hierarquia dos marcadores, mas terá seguramente levado o capitão de equipa a aproximar-se dos restantes “humanos” e procurar tirar mais de si mesmo daqui para a frente. Além de que enfatizou a falta que os golos dele fazem a uma equipa que já na primeira parte tinha acertado no poste, num cabeceamento de Nani, após cruzamento de André Gomes. E essas nem foram as únicas ocasiões flagrantes desperdiçadas por Portugal, o que justifica a forma efusiva como os adeptos austríacos festejaram o empate no final: ficaram a cantar nas bancadas, apesar de a equipa de Koller continuar em último lugar no Grupo F e sem depender apenas de si própria para se apurar. Ao empate não é alheia também a forma como Fernando Santos geriu a equipa no banco. De início, o técnico corrigiu bem os erros táticos cometidos ante a Islândia mas mexeu mal durante o jogo. A entrada de William para o comando do meio-campo trouxe a Portugal a capacidade de afastar a bola das zonas de pressão, graças à sua maior agilidade no passe longo e à capacidade que tem para ganhar terreno com bola, ao passo que passagem para o 4x3x3 também ajudou João Moutinho e André Gomes a entrarem com bola entre as linhas defensivas adversárias: Moutinho foi mesmo designado pela UEFA, com exagero, é verdade, como o melhor em campo (ainda que tenha estado abaixo do rendimento de William e dos dois laterais). A questão é que, com Portugal a encostar a Áustria às cordas, Fernando Santos demorou a mexer. E quando mexeu permitiu que se instalasse a confusão na equipa. Nunca foi claro o que o treinador quis obter, por exemplo, com a entrada de João Mário: impunha-se que ele (ou Renato Sanches) entrasse até antes do minuto 71, mas para jogar em vez de um dos médios-interiores, de forma a dar mais criatividade naquela zona, mas ao fazê-lo entrar para o lugar de Quaresma na direita e mandá-lo explorar o jogo interior, Santos perdeu o flanco. André Gomes acabou por sair, mas apenas a sete minutos do fim, quando o desespero levou o selecionador à entrada de Éder para jogar ao lado de Cristiano no centro do ataque. E Rafa, o último a ser chamado, acabou por ser quem mais trouxe ao jogo – percebeu-se no final que devia ter ocupado a vaga de um Nani que já estava esgotado muito antes do minuto 89, que foi quando ele entrou no relvado. Ainda assim, em condições normais, Portugal devia ter ganho o jogo. Apesar da largueza que os dois centrais portugueses foram dando a Harnik, o ponta-de-lança solitário dos austríacos, para este poder combinar com os médios, a Áustria só chegou três vezes à baliza de Rui Patrício. Logo aos 3’, de cabeça, Harnik soltou-se atrás da defesa portuguesa para cabecear um cruzamento de Sabitzer, mas fê-lo ao lado. O ponta-de-lança voltou a ameaçar aos 41’, na sequência de um livre lateral que Alaba bateu direto à baliza, mas nessa ocasião Vieirinha evitou que ele fizesse a finalização e cortou junto ao poste. E a abrir a segunda parte Rui Patrício fez a sua única defesa, detendo um remate de longe de Illsanker. Até final, com Alaba (que jogou atrás do ponta-de-lança, a ser completamente dominado por William e a ser substituído) os austríacos limitaram-se a conter as ofensivas de Portugal, que só ficou a dever a si próprio a vitória. E aqui Nani e Ronaldo terão de dividir responsabilidades, pois foram perdendo golos à vez. Aos 12’, Nani ganhou um ressalto e isolou-se face a Almer, mas não conseguiu evitar a mancha do guarda-redes. Dez minutos depois, foi Ronaldo quem teve a bola à frente para marcar, após trabalho de Raphael Guerreiro, mas chutou de pé direito ao lado. Nani acertou no poste aos 29’, de cabeça, após cruzamento de André Gomes e aos 38’ foi outra vez Ronaldo quem cabeceou para o guarda-redes, no seguimento de um canto de Quaresma. Na segunda parte, Nani foi-se apagando e teve de ser Ronaldo a assumir as responsabilidades: chutou de longe para grande defesa de Almer aos 55’, cabeceou para o guarda-redes após o canto de Quaresma aos 56’, bateu um livre em boa posição por cima da barra aos 65’ e acertou no poste com o penalti que ganhou aos 79’. Tanto fogo, sem um único tiro certeiro acaba por deixar a equipa numa posição desconfortável e sem o direito a errar de novo no jogo com a Hungria. Santos parece ter acertado no regresso ao 4x3x3, seja com Nani ou Ronaldo ao meio, mas o pouco que se viu neste jogo parece impor a entrada de Rafa na equipa para o último jogo, onde João Mário e Renato Sanches também podem ter um papel a desempenhar – nem que seja saindo do banco – mas para jogar ao meio. 
2016-06-18
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Último Passe

Portugal vai enfrentar a Áustria numa situação que não é brilhante mas também não é desesperada. Saiu com um ponto do primeiro jogo, precisará de fazer mais três – em dois jogos – para se qualificar, uma vez que os quatro pontos darão quase de certeza para se ser um dos quatro melhores terceiros. Contra a Áustria, a obrigação é a mesma que já era ante a Islândia: ganhar. A forma de procurar essa vitória será, no entanto, diferente, porque as circunstâncias próprias e alheias são diferentes. Na conferência de imprensa no Parque dos Príncipes, Fernando Santos não deu muitas respostas que permitam adivinhar o que lhe vai na mente, ao que o próprio diz para não mostrar o jogo todo ao treinador adversário, mas ainda assim é possível fazer sem ele um exercício de pergunta-resposta no qual se colocam as principais dúvidas e se fornecem alguns esclarecimentos com base no mero senso-comum. Pergunta 1: Fernando Santos vai fazer uma revolução no onze? Resposta: Não. Aliás, o próprio o disse na conferência de imprensa. “Revolução foi em 1974”, brincou. Em Portugal muito se tem falado da falsa partida do Europeu de 2004, quando após a derrota com a Grécia no Dragão, Scolari teria feito uma revolução, indispensável para que a equipa chegasse à final. Mas depois olha-se com mais atenção e verifica-se que, do jogo com a Grécia para a segunda partida, frente à Rússia, que Portugal ganhou por 2-0, Felipão só mudou quatro jogadores: Paulo Ferreira por Miguel, Rui Jorge por Nuno Valente, Fernando Couto por Ricardo Carvalho e Rui Costa por Deco. Ronaldo, por exemplo, continuou no banco e só no terceiro jogo, contra a Espanha, ganhou o lugar a Simão. Por isso, desenganem-se os que querem ver muito sangue antes do jogo com a Áustria. No máximo, Fernando Santos mudará quatro jogadores. Mas o mais provável é que só troque dois ou três. Pergunta 2: Portugal pode jogar com Quaresma, Nani e Ronaldo no onze? Resposta: Pode. Aliás, Fernando Santos já o fez em alguns momentos, embora não de início. Na conferência de imprensa, o selecionador limitou-se a dizer que isso “era uma possibilidade”, o que à saída da sala era interpretado de duas formas diferentes pelos vários jornalistas presentes. Uns diziam terem ficado convencidos de que os “três reis magos” iam jogar desde o início, outros que aquilo que Fernando Santos disse veio apenas engrossar o que acham que é um bluff para assustar os austríacos. A questão deve, por isso ser colocada de uma outra forma. Portugal vai jogar com Quaresma, Nani e Ronaldo no onze? Não me parece a hipótese mais provável, sobretudo por duas razões. A primeira – e fundamental – é que essa alteração deixava a equipa com três jogadores que pouco participam no processo defensivo e que veem o jogo sobretudo de uma forma individual. Olhando para os números de toda a época, Ronaldo soma uma média de 1,8 recuperações ou interceções por jogo, Quaresma tem 4,1 e Nani soma 4,6, enquanto que os dois potenciais sacrificados estão acima: André Gomes com 5,9 e João Mário com 6,2. Depois, porque esse onze não deixaria a Fernando Santos muitas hipóteses de reforçar o ataque se as coisas começassem a correr mal. Acresce a isso, para os defensores da disciplina de caserna, que a alteração iria premiar as declarações “fora da caixa” de Quaresma, que de certa forma desautorizou o treinador ao dizer que estava em condições de ter sido titular contra a Islândia, quando Fernando Santos disse que se o tivesse colocado a jogar corria o risco de ter de o tirar aos 40 minutos. Pergunta 3: Se ainda assim Quaresma entrar, qual será o esquema de Portugal? E quem sai? Resposta: O facto de Quaresma entrar não significa que a equipa mude para o 4x3x3, porque com ele não fica resolvido o problema da colocação de Ronaldo, que ainda hoje Fernando Santos voltou a dizer que “nunca será um avançado-centro” na perspetiva de jogar sozinho na frente. A equipa continuará por isso a jogar em 4x4x2, ainda que a presença em simultâneo dos três atacantes permita uma série de alternativas. Até aqui, o extremo do Besiktas tem alinhado sempre numa das alas do meio-campo, deixando na mesma Ronaldo e Nani no centro do ataque, mas pessoalmente acho que faz mais sentido ter Quaresma e Ronaldo na frente, com Nani a ocupar uma posição no meio-campo, seja como “10” num losango ou como ala esquerda no 4x4x2 mais clássico. Mais difícil é definir quem pode sair. E isso depende muito da arrumação inicial dos jogadores. Em condições normais, seja com Nani e Ronaldo na frente e Quaresma numa ala ou com Ronaldo e Quaresma na frente e Nani numa ala, sairia André Gomes, porque além de ter uma melhor percentagem de passe (84% para 83% em termos médios durante a época), João Mário faz mais passes de rotura (3,1 para 2,7 por jogo) e aparece mais na área (sete passes por jogo contra 2,7 são dentro da área). A questão é que com tanta gente que só vê baliza na frente, Fernando Santos pode sentir-se tentado a manter quem pense o jogo mais atrás, e aí André Gomes ganha algum avanço. Até porque os números defensivos dos dois são muito semelhantes. Diferente será se Santos optar por colocar Nani como “10”: aí sairia Moutinho. Pergunta 4: Quem pode então ser sacrificado nas alterações que Fernando Santos anunciou? Resposta: Fernando Santos disse claramente que ia fazer algumas alterações “para refrescar a equipa”. Uma delas será a troca de médio mais recuado, posição que Danilo dificilmente ocupará. A sua entrada contra a Islândia tinha a ver com um aspeto muito específico do jogo islandês, que era o jogo aéreo. Sem essa ameaça, certamente nem seria necessária a lesão de Danilo para que a equipa passasse a apresentar ali um jogador que arrisca mais nos momentos atacantes, como é o caso de William. As outras alterações não são claras. A não ser que queira colocar Nani a “10”, Santos dará provavelmente pelo menos mais um jogo a Moutinho para que ele possa reganhar o ritmo que lhe vem faltando mas que, assim que o recuperar, fará a diferença nos oitavos-de-final, porque é o jogador mais coletivo desta seleção. Adrien e Renato continuarão certamente à espera. Depois, o jogo de Vieirinha contra a Islândia não foi assim tão mau a ponto de justificar uma alteração na hierarquia – e se o facto de o lateral do Wolfsburg ter estado no golo islandês contribui para algo é para que Fernando Santos não o deixe cair em nome da mera rotatividade que noutras circunstâncias talvez até se justificasse. Pergunta 5: O que precisa Portugal de mudar para ter mais garantias de obter um resultado positivo? Resposta: Primeiro que tudo, tem de melhorar a finalização. A seleção nacional foi a que mais rematou na primeira jornada do Euro, mas só fez um golo, que lhe valeu apenas um ponto. As ocasiões de golo, porém, abundaram – e é bom que todos se consciencializem que contra a Áustria não vão ser tantas, porque os austríacos vão querer jogar mais do que os islandeses. Ainda assim, há que perceber que boa parte do baixo índice de certeza na finalização teve a ver com as condições não tão favoráveis em que muitos dos remates foram feitos. E isso já tem a ver com todo o processo de construção de jogo de Portugal. Por raramente ter conseguido meter gente entre as duas linhas defensivas da Islândia, faltou a Portugal o necessário ponto de apoio nas suas jogadas, de onde pudesse partir um passe de rotura para as alas ou para deixar um dos avançados na cara do guarda-redes. Não apareceram ali Nani nem Ronaldo, da mesma forma que nem João Mário nem André Gomes procuraram o corredor central com a frequência recomendada. João Moutinho também andou sempre mais longe da baliza islandesa do que seria desejável, o que pode ter a ver com o facto de Danilo não assumir tanto a construção. O ataque ao espaço central terá de ser uma das prioridades da equipa no jogo de amanhã, o que pode levar à adoção da solução com o meio-campo em losango. Da mesma forma que terá de o ser a agilidade na transição ofensiva. Pergunta 6: E Ronaldo, o que tem de fazer diferente? Resposta: Ronaldo tem sobretudo que compreender que o futebol é um jogo coletivo e que o facto de ser o melhor finalizador do Mundo não recomenda que seja sempre ele a chutar. A luta do CR7 contra os recordes tem destas coisas: se anda obcecado com os golos que lhe permitam ser o melhor marcador da história dos Europeus, acaba por secar tudo à sua volta, não tomando as decisões que seriam mais recomendáveis em benefício da equipa. E nem falo de livres ou de falta de empenho no processo defensivo: isso já faz parte do pacote. Contra a Islândia, no entanto, Ronaldo optou várias vezes por rematar em situações nas quais havia companheiros melhor colocados para dar seguimento a lances que podiam ter tido outro final. Mas este é um problema que só se resolverá quando Ronaldo marcar o primeiro golo e aliviar um pouco a ansiedade que o come por dentro em cada grande competição internacional.
2016-06-17
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Pouco Ronaldo, um meio-campo incapaz de entrar nas linhas do adversário, a incapacidade para ganhar uma bola aérea que fosse a Sigthórsson e falta de concentração e agressividade no ataque às segundas bolas levaram Portugal a uma falsa partida no Europeu de 2016. O empate com a Islândia, fruto de um golo de Nani e de outro de Birkir Bjarnason, não é grave, porque ainda há mais duas jornadas para trabalhar para a qualificação, mas veio deixar a nu algumas carências da equipa de Fernando Santos. A emendar já frente à Áustria, em Paris, num jogo que até face à derrota dos austríacos, de repente ganhou preponderância. A questão Ronaldo não é das fáceis de resolver, porque não se trata de o trocar ou de o fazer jogar noutras funções. Ronaldo não jogou mal, simplesmente não fez a diferença: não conseguiu fazer uma arrancada imparável, não fez golo nos dois cabeceamentos perigosos de que dispôs nem nos livres que marcou. Fez um jogo de esforço, de entrega, mas sem brilho, com exceção talvez do lance em que, ainda com 0-0, trabalhou em cima de Saevarsson e cruzou para um remate de cabeça de Nani que o guarda-redes Halldórsson deteve. E isso o selecionador não só tem de aceitar como por certo o aceitará até melhor que o próprio Ronaldo. Mesmo estando sempre em jogo, o capitão português não só não assinalou o dia em que igualou as 127 internacionalizações recorde de Figo com uma vitória, como viu Nani suplantá-lo na luta pelo título de melhor em campo. O autor do golo português respondeu da melhor forma à oportunidade que Fernando Santos voltou a dar-lhe face à lesão de Quaresma e foi quem mais perto esteve de ampliar a marca, pelo que dificilmente perderá o lugar frente à Áustria. Já quanto à incapacidade do meio-campo entrar nas linhas islandesas haverá certamente algo a fazer, tanto do ponto de vista tático como até da mudança de elementos. É verdade que a Islândia, até por força do futebol direto que praticava, pouco ou nada se desposicionava: no final, os portugueses tentaram 617 passes, contra 221 do adversário, o que significa que se empenhavam em combinações e jogadas de envolvimento, enquanto a Islândia se limitava a jogar direto em Sigthórsson, subindo depois como um bloco de concreto para atacar as sobras. A questão é que se a primeira bola, a que ia para o gigante número 9 do adversário, era inatingível – creio que ele terá ganho todas as bolas aéreas que disputou –, a segunda já não dependia de estatura: dependia de concentração e agressividade. E aí nem os quatro defesas de Portugal, nem Danilo – que Santos preferiu a William Carvalho, por dar mais capacidade no jogo aéreo e combatividade no ataque às segundas bolas – souberam impor-se aos islandeses. Mesmo tendo feito uma primeira parte de nível médio-alto, Portugal nunca contou com todos os jogadores ao mesmo nível. O melhor período da equipa começou logo a seguir a uma primeira desatenção defensiva, aos 3’: Vieirinha estava projetado no ataque, Pepe foi disputar uma bola perto da linha lateral na zona de meio-campo sem a ganhar, o mesmo aconteceu a Danilo face a Gudmundsson já perto do bico da área, tendo que ser Rui Patrício a impedir que a Islândia fizesse logo ali um golo. A partir daí, porém, mesmo sem ter os dois laterais em noite-sim Portugal assentou o seu jogo. É verdade que Moutinho, não conseguia ganhar as costas a Gunnarsson e Sigurdsson, os dois médios-centro islandeses, e que João Mário, demasiado aberto na esquerda, também não era capaz de ganhar aquele espaço interior, mas os lances mais perigosos passaram a surgir na baliza islandesa. Nani, de cabeça, após o tal trabalho individual de Ronaldo, viu Haldorsson tirar-lhe o golo aos 21’; Ronaldo, também de cabeça, falhou o alvo aos 23’ e não acertou sequer na bola aos 26’, quando Pepe viu a aberta e o isolou face ao guarda-redes num passe longo. E quando Nani marcou, aos 31’, na sequência de uma boa combinação entre Vieirinha e André Gomes na direita, o problema parecia resolvido. Mas não. O intervalo voltou a trazer a desconcentração à defesa portuguesa e, logo aos 50’, duas divididas seguidas perdidas pelos portugueses na direita do ataque islandês resultaram num cruzamento de Gudmundsson. O desentendimento entre Pepe – que seguiu Sigthorson – e Vieirinha, que estava demasiado dentro e não intercetou a bola, resultou num volei de Bjarnasson para dentro da baliza de Patrício. João Mário começava a entrar no jogo e a ativar as subidas de Raphael Guerreiro, mas apesar de voltar a ter quase sempre a bola, Portugal não conseguia criar tantos lances de perigo como na primeira parte. Só aos 63’, quando Vieirinha ganhou a linha de fundo e cruzou rasteiro, Nani esteve perto de marcar, não chegando a conseguir antecipar-se a Ragnar Sigurdsson no ataque à bola. Oito minutos depois, já com Renato Sanches em campo, na tentativa de ocupar o tal espaço entre as linhas defensivas islandesas, foi outra vez Nani quem, desviando de cabeça um livre, fez a bola passar a centímetros do poste. À procura do golo, Santos chamou então Quaresma para ocupar o lugar de João Mário. Até final ainda substituiu André Gomes por Éder, colocando a equipa num 4x2x4, com Ronaldo e Éder ao meio, servidos por Nani e Quaresma nas alas. Mas nem assim, nem com a Islândia a abdicar até de jogar no ponta-de-lança, Portugal chegou ao golo. Quaresma (aos 78’), Pepe (após um canto, aos 82’) e Ronaldo (na sequência de um cruzamento de Nani, aos 85’) ainda ameaçaram, mas o empate já não se desfez, punindo o jogo menos conseguido do meio-campo português e algumas apostas perdidas: Danilo nunca impediu a construção direta da Islândia e pode ceder a vaga a William, que faz a equipa jogar mais; Moutinho e João Mário apareceram pouco entre as linhas islandesas e também não têm o lugar assegurado. Certo é que se Fernando Santos optar por chamar Quaresma à partida de Paris, o sacrificado não será certamente Nani, o melhor dos portugueses em Saint-Etiènne.  
2016-06-14
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Quando alguém perguntou a Fernando Santos se já sabia o onze que ia colocar em jogo frente à Islândia, o selecionador nacional disse que sim. Depois de um par de segundos de pausa, corrigiu: “Quer dizer… Mais ou menos”. Mesmo que Santos a tenha justificado com o facto de ainda ter um treino pela frente, a blague diz-nos sobretudo uma coisa: que não há dúvidas na cabeça do técnico acerca da utilização de Quaresma. Ou tudo não passa de bluff, no que sinceramente não acredito, ou o facto de este ser apenas o primeiro jogo da fase final e de face às facilidades crescentes de apuramento – passam dois, eventualmente três – levará Santos a fugir do risco que ponderaria assumir se tudo se decidisse nestes 90 minutos. Sem Quaresma – é mais avisado pensar assim – reentra no onze Nani, que não oferece à equipa o brilhantismo individual do atacante do Besiktas mas até é coletiva e taticamente mais fiável. Foi com Nani e Ronaldo que o esquema dos dois atacantes móveis melhor funcionou, nos jogos com a Bulgária e a Bélgica, ainda que seja legítimo que se diga que este já não é o Nani de Março. Porque está em pior momento de forma e também porque a perda do lugar na hierarquia pode ter deixado mazelas psicológicas num jogador que, ainda por cima, é mais frágil mentalmente que o sempre crente Quaresma. A Nani resta pensar uma coisa como fator motivacional: nem sempre se tem uma segunda oportunidade de causar uma boa primeira impressão e ele vai tê-la.   Em St. Etiènne para ver o Euro? Cheguei hoje a St. Etiènne e estive já no Geuffroy-Guichard, um estádio que estava no meu imaginário desde que, em criança, quando começaram a chegar a Portugal as primeiras revistas Onze (assim mesmo, sem o sufixo Mondial), imaginava como jogaria a equipa de Robert Herbin, dito a “Esfinge”. O primeiro dia em França foi também o primeiro dia em que não vi um único jogo do Europeu. Entre a viagem, os procedimentos burocráticos para a recolha da acreditação, as conferências de imprensa de Lars Lagerback e Fernando Santos e a necessidade de sair para jantar, foram-se as três partidas do dia. Isto não é novidade para mim, ainda que fosse bem diferente há 24 anos, quando acompanhei no local o meu primeiro Europeu. Em 1992, na Suécia, havia só oito equipas, muito menos jornalistas, maior espaçamento entre os jogos e muito menos confusão para se chegar perto dos jogadores e treinadores, aos quais hoje só se chega por interposta pessoa e depois de recolher senhas para isto e passes para aquilo. Não é um lamento, é uma constatação. Quanto ao futebol, pelo resumo pareceu-me que a Espanha jogou bem e talvez seja mais favorita do que eu esperava. E que a Itália, sendo uma máquina terrivelmente concreta, é tão favorita como eu presumia – nunca se deve riscar uma seleção italiana enquanto ela não se riscar a si mesma. E, por fim, que a Bélgica é tão pouco favorita como eu calculava. Ainda que, pelo que pude ir vendo nas vezes que espreitei para o ecrã gigante no meio da confusão do restaurante em que jantei, se Marc Wilmots de repente conseguir pensar um pouco fora da caixa aquela equipa tem muito para melhorar.   E os golos que não aparecem. O Europeu tem trazido grandes golos, mas poucos golos. O resultado mais frequente é o 1-0. Reflexos de um futebol cada vez mais defensivo? Também. Mas a minha teoria é outra. É reflexo, sim, de uma preocupação excessiva da UEFA com o peso do negócio. É verdade que o alargamento da fase final para 24 países permitiu a chegada a França de mais equipas sem tanta qualidade, abrindo a porta às goleadas. Mas o facto de 16 dessas 24 equipas passarem à fase seguinte faz com que muitas das grandes nações do futebol encarem os primeiros jogos como mero aquecimento para um Europeu que, na realidade, só começa daqui a pouco mais de uma semana: há jogadores a meio-gás, outros a ganhar ritmo. A UEFA consegue assim manter mais gente ligada durante mais tempo à competição, faz crescer as audiências globais, o dinheiro gasto em tudo aquilo que anda à volta do futebol, mas está a tornar esta primeira fase um deserto em termos atacantes.
2016-06-14
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A Alemanha foi a primeira seleção a ganhar por mais de um golo, batendo a Ucrânia por 2-0, mas deixou a ideia de que pode jogar mais assim que resolver para um dos lados o conflito interior que a consome e lhe prejudica a identidade coletiva. De um lado, a faceta-Bayern, o “guardiolismo” que se reflete em vários aspetos do jogo, como a saída obsessivamente curta ou a tendência dos pontas (Muller e Drexler) para explorarem o espaço interior e tem depois um claro exagero na forma como Löw abdica do ponta-de-lança para fazer jogar ali Götze. Do outro, a faceta mais tradicional, que se vê sobretudo em momentos de transição ofensiva como a que possibilitou o segundo golo, por sinal marcado por um bastião do tradicionalismo alemão: Schweinsteiger, o ponto final de um contra-ataque rapidíssimo e feito de acordo com os livros, com preenchimento dos três corredores. Ver uma equipa ser capaz de dominar duas formas assim tão diferentes de jogar com a mesma maestria não é comum. E é isso, a juntar à aliança entre os seus dois corações – Kroos, que lança, e Khedira, que sobe com bola – que pode fazer desta Alemanha a mais forte candidata ao título europeu. Mais ainda se conseguir resolver o problema nas duas áreas, com a chamada de Gómez e de um central que ponha ordem à frente de Neuer.   O paradoxo croata: o que fazer a esta bola? Poucas equipas neste Europeu conseguirão aliar tanta qualidade num onze como a Croácia. Ter um ponta-de-lança como Mandzukic, médios criativos e técnicos como Rakitic ou Modric, um extremo incisivo e rápido como Perisic, outro taticamente inteligente a compensar e a procurar terrenos interiores como Brozovic e até laterais disponíveis para atacar como Srna ou Strinic dá aos croatas a possibilidade de apresentar uma proposta atraente e ao mesmo tempo contundente. A vitória sobre uma Turquia dececionante confirmou algumas destas ideias, mas deixou a nu um paradoxo na ideia de jogo croata. Na verdade, só quando os turcos perderam o posicionamento, depois do golo magistral de Modric, é que a Croácia conseguiu ter bola com continuidade e levá-la pelo corredor central até à zona de serviço do ponta-de-lança. Tanto Rakitic como Modric precisam de pegar no jogo mais atrás. Não são “números dez” puros e condenar um deles a estar ali é o mesmo que tirar-lhe influência no jogo: na primeira parte, Rakitic esteve no bolso de Inan. Esta Croácia tinha tudo a ganhar em inverter o triângulo de meio-campo, em jogar com Badelj atrás dos dois criativos, duplicando as vias de saída de cada ataque. Enquanto o não fizer, só é perigosa numa de duas situações: no jogo pelas alas e quando se vir a ganhar e com espaço para jogar.   Irlanda do Norte ou a coragem que não dá para tudo. Depois da Albânia, apareceu uma segunda equipa demasiado curta para poder estar na fase final de um Europeu. A Irlanda do Norte, que se apresentou em 5x4x1 contra a Polónia mas nem com três centrais conseguiu parar a aliança de Milik com Lewandoski, os pontas-de-lança polacos, mostrou coragem onde a Albânia exibiu dissimulação, mas também não irá longe. O jogo direto dos irlandeses precisaria de mais do que Lafferty para ser perigoso. Davis não chega para tudo e McNair e Norwood, os dois médios-ala, nunca foram capazes de criar desequilíbrios nas faixas. Contra a Alemanha e a Ucrânia não vai ser mais fácil.  
2016-06-12
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A Inglaterra melhorou muito da vitória no particular contra Portugal para o empate com a Rússia, mas continua a sofrer de um problema: tem um treinador que acha que a sua missão não passa por intervir no jogo. A passividade de Roy Hodgson no jogo com os portugueses, no qual nunca reagiu ao facto de o adversário ter ficado reduzido a dez homens, repetiu-se na partida contra os russos, em que primeiro abusou da paciência dos adeptos, não mexendo uma palha até Dier desbloquear o resultado num livre, e depois se recusou a compreender que o jogo tinha mudado. A Rússia, que foi a maior desilusão dos primeiros dois dias de competição – nunca meteu a cabeça de fora até estar a perder – subiu as linhas, deixou mais espaço atrás, mas a resposta de Hodgson foi substituir dois jogadores que até faziam sentido naquele momento. Rooney saberia como aproveitar o maior distanciamento dos setores russos, enquanto Sterling podia explorar o adiantamento de uma última linha genericamente lenta, mas em vez deles apareceram Wilshere e Milner, homens que só são melhores do ponto de vista defensivo. É verdade que o golo de Berezutski caiu literalmente do céu aos trambolhões, já em período de compensação, mas a ideia que ficou foi a de que com mais treinador a Inglaterra teria ganho tranquilamente.   O 9 visto como manobra de diversão. Grande parte do empate entre ingleses e russos explica-se, no entanto, pela incapacidade dos atacantes ingleses para usarem aquilo que antigamente era uma das armas tradicionais dos futebolistas britânicos: a objetividade que os levava a meter a bola na baliza. Porque, na verdade, Hodgson montou bem a equipa inicial, trocando o 4x4x2 por um 4x3x3 servido por laterais muito ofensivos (Walker e Rose) e que por isso mesmo permitia a entrada de Lallana e Sterling no espaço interior, criando a confusão entre os centrais e os laterais russos. O 9 era Kane e na verdade nem foi ele quem perdeu mais lances de finalização, o que confirma a teoria segundo a qual, depois de terem desaparecido os 10 puros, agora são os 9 que estão a desaparecer. A França usou Giroud, é verdade, mas só porque perdeu Benzema, um jogador que corre toda a frente de ataque e que no Real Madrid justifica a sua utilidade pela forma como sai tão bem da frente de Ronaldo. E se, mesmo tendo talentos como Stanciu ou Hamsik para os servir, tanto a Roménia (Andone) como a Eslováquia (Duris) escolheram os homens de referência pela forma como eles sabem converter-se no primeiro defesa em momento de perda de bola, Gales entrou em campo com a solução portuguesa: três homens móveis, todos com mais caraterísticas de médio que de avançado. A Rússia chamou um avançado à antiga (Dziuba), mas não soube nunca levar o jogo até ele. Este pode vir a ser o Europeu do ponta-de-lança como manobra de diversão.   O que vale (e exige) o 3x4x3 de Gales. A proposta tática de Gales é diferente e bem mais exigente do que a mostrada pela maioria das equipas presentes neste Europeu. Chris Coleman escolheu entrar com três defesas-centrais e três homens soltos na frente, deixando o meio-jogo a uma linha formada por dois laterais a quem cabe fazer todo o corredor e por dois médios: Edwards tenta equilibrar sem bola, Joe Allen fá-lo em posse. No papel, a coisa tem muito para funcionar, mas só enquanto toda a gente estiver bem viva nas fases defensivas. Assim que a elevadíssima exigência do sistema tira disponibilidade física ou concentração aos jogadores, levando à diminuição da intensidade do pressing na frente e ao alargamento do espaço entre setores, o resultado são lances como o que motivou o golo de Duda. Para já, Gales está a meio-caminho entre duas realidades: faltou-lhe sempre contundência na frente enquanto manteve o sistema a funcionar e parece estar condenado a perder consistência atrás quando ele deixa de ser eficaz.
2016-06-11
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Payet saiu, chorou e riu, porque tinha acabado de marcar um golão e de dar à França a tão ansiada vitória no jogo de abertura, contra a Roménia (2-1). As lágrimas eram de comoção, porque aquele era um encontro com a história que ele não queria falhar e que a ovação do Stade de France não deixou passar em claro. O riso, esse, era de alívio nervoso, de descarga de adrenalina depois de ter visto o problema resolvido, mas certamente também de alegria genuína por ter percebido que é o principal criativo e um dos poucos que para a pensar o jogo numa seleção de França que para já mostrou músculo a mais e ideias a menos. O futebol de Payet, por isso, contrasta. Não tem a potência de Pogba, a geometria de Kanté, a relação frequente com o golo de Griezmann, mas tem a imprevisibilidade de quem pode sair de um drible com qualquer das pernas, de quem é capaz de inventar uma solução diferente para cada situação sem ansiedades na procura do protagonismo. No jogo inaugural cruzou para o golo de Giroud e marcou ele mesmo o segundo, numa altura em que a França já não acreditava. Foi o homem da noite.   Ganhar o ruck mas não o jogo. A França é uma nação de râguebi e é possível recorrer ao râguebi para explicar as dificuldades que esta equipa de Deschamps está condenada a sentir. Aquele meio-campo, com Kanté, Matuidi e Pogba, tem tanta abrangência, potência e amplitude, que leva muitas vezes a equipa a cair na tentação de olhar para ele como se se tratasse de um pack de avançados da seleção de râguebi de quinze. Como jogar? Bola longa na frente e carga dos médios, para ganhar a segunda bola. Com aqueles três, o ruck é sempre francês. O problema é que durante a maior parte do jogo faltou à França dar sequência a esse primeiro momento. Qualquer aficionado da oval sabe que depois é preciso um médio de formação para tirar a bola do ruck e a dar ao médio de abertura, que pensa o jogo. E durante boa parte do jogo com a Roménia, ninguém pensava o jogo da França, que só se tornava perigoso quando Pogba baixava um pouco e solicitava as desmarcações de Giroud para as costas dos centrais. Pouco para tanta expectativa.   Pintilii, um rei dos equilíbrios. Nesse período do jogo, brilharam os centrais romenos – mais Grigore que Chiriches – e sobretudo brilhou Pintilii, um médio que aparecia sempre no caminho da bola e que equilibrava em qualquer zona do campo. A Roménia tem o talento de Stanciu, uma espécie de Hagi destro, mas aplicado aos tempos de crise, só que Iordanescu colocou sempre toda a equipa demasiado longe do ponta-de-lança, o tanque Andone. Este passou o jogo a chocar e a dar luta aos centrais franceses, mas sofria depois pela imensidão de tempo que os colegas levavam a chegar perto dele. Está certo que era o jogo de abertura, que o empate era um resultado positivo, mas falta perceber o que pode fazer esta Roménia quando quiser mesmo ganhar um jogo em vez de se limitar a especular com ele.   A solução na previsibilidade. Para chegar à vantagem, Deschamps precisou de alguma criatividade tática. Para resolver o problema da falta de quem pensasse e criasse jogo no corredor central, pediu a Payet que lá caísse com mais frequência, transformando o 4x3x3 inicial num 4x4x2 em losango, no qual Matuidi assumiu a meia-esquerda e Pogba a meia-direita, avançando o estranhamente ausente Griezmann para perto de Giroud. O empate da Roménia, porém, levou o selecionador francês a abdicar do sistema e a optar pela previsibilidade do 4x2x3x1, com Coman e Martial nos dois corredores, Payet a 10 e Matuidi fazer de box-to-box face ao mais fixo Kanté. Desta forma, a França ficava mais bem distribuída pelos três corredores, mas ao mesmo tempo mais previsível e fácil de conter. Só um momento de génio ou uma falha na cobertura do espaço entre-linhas podia desbloquear o jogo. Foi o que aconteceu.
2016-06-10
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A goleada de 7-0 que Portugal aplicou à Estónia na despedida do público nacional rumo ao Europeu espalhou a euforia entre os adeptos, que já começam a acreditar no sonho de Fernando Santos. Um dos maiores responsáveis pelo clima de euforia é Quaresma, que com dois golos e duas assistências encheu as medidas a quem viu o jogo e ganhou o lugar ao lado de Ronaldo no ataque ao primeiro jogo de competição, frente à Islândia, na terça-feira. Fernando Santos tentará assim tornar-se o primeiro selecionador nacional a resolver a questão da compatibilidade entre Ronaldo e Quaresma, valendo-se da maturidade que os dois não tinham, por exemplo, quando Luís Felipe Scolari o tentou – e desistiu, por perceber que não tinha uma bola para dar a cada um. Para a coisa resultar em jogos a sério – que esta Estónia saiu bem pior do que a encomenda – há ali muito trabalho a ser feito pelo treinador. Ronaldo e Quaresma são incrivelmente talentosos, ainda por cima são amigos e entendem-se bem – o que desde logo resolve a questão de um eventual choque de egos – mas caberá ao treinador fazer-lhes perceber que o facto de possuírem armas individuais muito acima da média não faz com que o jogo deixe de ser um processo coletivo. Contra a Estónia, tanto Ronaldo (ainda que só num lance, na primeira parte, com 0-0 no marcador, quando procurou o remate, tendo colegas melhor colocados) como Quaresma (este por procurar passes ou remates de letra quando a solução simples prometia bastante mais) foram responsáveis pela perda de jogadas que podiam ter causado mais problemas ao adversário. A questão é que é mais fácil fazer estes dois génios evitar os excessos do que dar a jogadores banais a capacidade de resolver jogos, pelo que o risco valerá sempre a pena. Com a Estónia, valeu. Portugal entrou com mais bola mas sem grande capacidade de entrar na área adversária, na maior parte das vezes por causa da timidez do meio-campo: Danilo muito atrás, João Moutinho melhor mas ainda longe do ideal, André Gomes e João Mário sem chegada à área para compensar as constantes derivações para os corredores laterais. Depois de um início mais intenso, o jogo já começava a adormecer, a Estónia segurava a bola por mais tempo entre cada vaga de ataque português, até que Quaresma tirou um coelho da cartola: cruzamento milimétrico de trivela na esquerda para um cabeceamento de Ronaldo e 1-0. Faltavam nove minutos para o intervalo, mas até lá resolver-se-iam o jogo e a corrida do CR7 para o golo: Quaresma fez o 2-0, concluindo com um belo remate em arco um passe simples de João Mário e, mesmo sobre o apito para o descanso, foi outra vez João Mário quem, entendendo aquilo de Fernando Santos queria, pressionou alto, recuperou uma bola e tabelou duas vezes com Ronaldo para dar a este o 3-0. Ronaldo já não voltou para a segunda parte, dando lugar a Nani, mas depressa Fernando Santos emendou a mão e chamou Éder para garantir a presença na área que, sem o CR7, ficava ao abandono. Quaresma passou então para a direita e dali voltou a dar expressão ao marcador: marcou o canto no qual Danilo fez o 4-0; fez o cruzamento do qual nasceu o quinto golo, marcado na própria baliza por Mets e marcou ele mesmo o 6-0, após aceleração de Renato Sanches. O sétimo, obtido por Éder, após cruzamento de André Gomes, completou o ramalhete e mandou a equipa para França no meio da euforia popular, mas não terá resolvido já todas as dúvidas de Fernando Santos. Após os três jogos de preparação, percebe-se que o selecionador está inclinado para Danilo em vez de William, que vai continuar a apostar em Moutinho em vez de Adrien ou Renato, na esperança de que a fase de grupos chegue ao “motorzinho” para recuperar o seu ritmo natural, e que para já prefere Guerreiro a Eliseu e a dupla de centrais formada por Pepe e Ricardo Carvalho. Mas não creio que tenha certezas acerca do defesa-direito (Cédric ou Vieirinha?) ou, sobretudo, do médio-esquerdo. André Gomes é mais consistente mas nunca encheu as medidas, Renato pode aparecer ali e dar ao meio-campo a explosão que lhe tem faltado, Nani ou Rafa verão a candidatura prejudicada pelos excessos individualistas dos dois da frente. Os seis dias que aí vêm darão a resposta.
2016-06-08
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Não vejo as declarações de António Mexia acerca do dinheiro que recebeu em 2015 – 1,9 milhões de euros – como um insulto ao português médio ou mesmo ao remediado. Não vou por aí. Se o homem ganha o que ganha é porque alguém está disponível para lho pagar. Quando Mexia justifica, na galhofa, o que ganha com recurso ao futebol, porém, a coisa pia mais fininho. Porque aquilo que o presidente da EDP afirmou acerca dos “laterais direitos de uma equipa de meio da tabela” é de uma ignorância tal que não é digno de portugueses médios nem remediados e muito menos de um dos gestores mais reputados do país. Não haverá em Portugal futebolistas com esse nível de rendimentos que cheguem para construir um plantel. Muito menos laterais direitos. E menos ainda a meio da tabela. Quem gere tanto dinheiro e gosta de recorrer a metáforas futebolísticas devia saber que se nos três grandes há uma meia-dúzia de salários elevados, fora dali a elite já está ao nível dos gestores de pequenas empresas e a generalidade dos futebolistas ainda não ganha o suficiente para poder encarar com um mínimo de tranquilidade os anos após o fim da carreira. Aliás, bastava ter estado atento às notícias para saber que muitos dos futebolistas “profissionais” que foram apanhados na teia da operação Jogo Limpo ganham menos do que o salário mínimo nacional. Quando recebem, claro, porque mesmo isso nem sempre é certo. A graçola de Mexia passou e passará em claro, porque para a generalidade das pessoas o futebol continua situado apenas no plano da fruição. Para esses, quando se fala de futebol não é preciso ser rigoroso ou honesto. Para eles, quem fala de futebol é porque tem um lado para defender. Seja jogador, treinador, dirigente, juiz ou até jornalista – é por isso que muitos jornalistas que trabalham longe do futebol aparecem com frequência de cachecol de clube ao pescoço e que aos jornalistas que escrevem sobre futebol raramente são apontadas incorreções factuais, mas sempre defeitos de caráter ou parcialidade. A todos falta entenderem que a indústria do futebol é muito mais do que isso. Mesmo quando querem transportá-la para o domínio da irracionalidade que devia estar longe da ideia de qualquer gestor, seja ele de topo ou de uma pequena empresa, tenha ele ou não no currículo uma imensidão de patrocínios ao futebol.
2016-06-03
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O Inglaterra-Portugal foi um confronto entre duas meias-equipas no qual ganhou a que esteve mais tempo com onze jogadores em campo. O cartão vermelho a Bruno Alves, logo aos 35 minutos de jogo, ajuda a explicar o facto de Portugal quase só ter defendido e de a Inglaterra ter passado tanto tempo no meio-campo ofensivo, mas as limitações de ambas as seleções não se esgotaram nas implicações desse momento de vigor excessivo do central português. Mesmo antes disso, se via que a Inglaterra tinha avançados mas falta de criativos e Portugal anulava os seus criativos por conta da falta de avançados que lhes encontrassem espaço para ter a bola. O golo da vitória inglesa (1-0), marcado por Smalling aos 86 minutos de jogo, na segunda vaga de um canto, a aproveitar um erro de cobertura dos defensores portugueses, nem foi o mais relevante da noite. O jogo era particular e o resultado importava menos do que as ilações a tirar da forma como se chegava a ele. E, além de ter permitido tirar conclusões acerca de algumas exibições individuais – bem Ricardo Carvalho, Rui Patrício e Danilo, íngreme o caminho de Moutinho em direção à recuperação da rotatividade que fez dele o jogador que é – o jogo de Wembley permitiu ver que o modelo de jogo criado para Ronaldo tem dificuldades em subsistir sem ele. A utilização do 4x4x2 com dois avançados móveis, que permite potenciar as caraterísticas do CR7 sem deixar a equipa vulnerável do ponto de vista defensivo, exige que pelo menos um deles dê à equipa alguma profundidade – quando isso falta, quando em vez disso Portugal usa dois avançados que baixam em apoio mas não esticam o jogo, quem mais sofre são os médios criativos. Que em Wembley foram uma sombra do que podem render. Enquanto teve onze jogadores, Portugal não deixou a Inglaterra criar lances de perigo mas também não foi capaz de os criar. Chegou pela primeira vez à baliza num livre lateral ao qual acorreu Ricardo Carvalho. Depois da expulsão de Bruno Alves, sem Rafa para poder enquadrar José Fonte no onze, Portugal baixou as linhas e desistiu de atacar. Metia duas linhas de quatro homens à frente da área e beneficiava da falta de criativos atrás de Kane, Rooney e Vardy, que aliada à timidez atacante dos laterais ingleses e à pouca versatilidade de Dier tornava a equipa de Hodgson mais do que previsível. Os ingleses, aliás, nem cruzavam bolas para a área. Numa das primeiras vezes que o fizeram, deu golo. Mas isso nem foi o mais importante da noite.
2016-06-02
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A apresentação de Nuno Espírito Santo como treinador do FC Porto podia dividir o público entre aqueles que lhe são indiferentes e os que vão pela enésima vez levantar um cenário de exigência máxima segundo o qual esta será – mais uma vez – a última oportunidade de Pinto da Costa para devolver o clube aos tempos de vitória. Neste aspeto, Figo deu uma ajuda. Se o novo treinador dos dragões pudesse escolher um presente para o dia do regresso, certamente não pediria nada diferente, pois o que o antigo Bola de Ouro disse veio transferir toda a pressão que ele podia sentir para cima do presidente. Não é nada habitual ver alguém do futebol falar de forma tão desassombrada sobre outro agente do meio como Figo fez em relação a Pinto da Costa. Neste momento não é sequer importante tentar descobrir uma agenda nas palavras de Figo, ainda que certamente vá haver quem prefira centrar-se na ideia de que ele estava a ser uma mera correia de transmissão ou a repetir palavras que teria ouvido a amigos portistas – e também não é difícil perceber quais. Porque, na verdade, como depois disse o presidente portista, Figo “não faz parte da história do FC Porto” e, francamente, não vejo razão para de repente começar a ter opiniões sobre o que se passa no clube… A não ser o facto de lhe terem perguntado ou ainda outro – também nada despiciendo – de ter no futebol mundial um estatuto que o deixa indiferente ao que dele possam pensar os adeptos deste ou daquele clube. Figo está acima disso tudo. Não é inimputável mas está-se marimbando. A questão é que Figo se limitou a repetir em voz alta aquilo que há anos dizem os adversários do FC Porto e do seu presidente. A teoria segundo a qual Pinto da Costa devia abandonar porque estava a ficar velho já data do início do século, desde que os erros cometidos com Otávio Machado depois dos campeonatos perdidos com Fernando Santos foram emendados pela aposta visionária em José Mourinho. A diferença é que hoje começa a haver portistas a dizer a mesma coisa, a centrar-se nas lutas internas em torno dos jogos de influências na SAD. E isso faz toda a diferença em relação ao último período de três épocas seguidas dos dragões sem ganharem um campeonato (de 2000 a 2002). A pressão mediática de ter de acabar com este período negro, sob pena de estarmos perante a evidência de um fim de ciclo hegemónico, estava em cima de Nuno Espírito Santo até Figo a transferir para Pinto da Costa. O novo treinador podia até agradecer. Mas no fundo ansiará por que Figo esteja enganado. Porque na verdade o que depende dele é muito menos do que se pensa – e aí têm razão os indiferentes. Como estão as coisas, o FC Porto precisa sobretudo de acertar plenamente nos retoques que vai fazer no plantel e isso só será possível se o mercado for conduzido a pensar mais na equipa e menos no poder de cada um. Ao contrário do que tem sucedido, portanto.
2016-06-01
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Citius, altius, fortius! Há alguma coisa na vida de um atleta que seja mais importante do que uns Jogos Olímpicos? Aparentemente não, a não ser que estejamos a falar de futebol. E a razão para esta diferença pode custar muito a muita gente, mas está na cara de quem quer vê-la: é que os Jogos Olímpicos são importantes sobretudo na medida em que garantem contratos milionários a quem leva medalhas de ouro para casa. Citius, altius, fortius? Ditius! Quem é como quem diz: mais rápido, mais alto, mais forte? Mais rico! É por isso que andarmos agora a carpir desgostos porque a seleção olímpica de futebol vai viajar para o Rio de Janeiro sem boa parte das suas estrelas soa tanto a hipocrisia. A grande diferença entre o futebol e a generalidade das outras modalidades é que no futebol quem vai aos Jogo Olímpicos são os sub23. Cada seleção pode até reforçar aquela categoria etária com um trio de estrelas, mas o que vai jogar-se não deixa de ser um torneio que não é bem um Mundial de sub20 ou um Europeu de sub21, mas também não é um Mundial absoluto. Se o atletismo tem os seus campeonatos do Mundo e depois, de quatro em quatro anos, os Jogos Olímpicos, para celebrar os melhores, o futebol optou por uma via diferente. Porquê? Para não estragar o negócio que é o Mundial, um dos poucos eventos com mais visibilidade planetária do que os próprios Jogos Olímpicos. A FIFA, portanto, nunca quis dar ao Comité Olímpico Internacional a possibilidade de organizar um torneio verdadeiramente importante e o desprezo a que vota os Jogos Olímpicos vai ao ponto de nem sequer ter colocado as datas do torneio de 2016 na sua calendarização. O que no imediato vem provocar um conflito entre os que levam o olimpismo a sério e os que, olhando para a realidade, percebem que mais importante é um qualquer Benfica-V. Setúbal, um Tondela-FC Porto ou um Sporting-Chaves que venha a jogar-se naquele período. O torneio olímpico de futebol começa, para os homens, a 4 de Agosto. Três dias depois joga-se a Supertaça entre Benfica e Sp. Braga. A 12 deve começar o campeonato nacional. A 16/17, o FC Porto terá a primeira mão da decisiva pré-eliminatória da Liga dos Campeões, jogando a segunda a 23 ou 24. E a 20, horas antes de no Rio se jogar pela medalha de ouro, os clubes portugueses estarão envolvidos na segunda jornada da Liga. Como a FIFA não incluiu os Jogos Olímpicos no calendário oficial, nenhum clube será obrigado a ceder jogadores, havendo neste momento na Federação Portuguesa de Futebol a ideia de chamar um lote restrito de cada clube, provavelmente nem os que mais jeito dariam à equipa, mas aqueles que os clubes não se importarão de ceder. Olhemos para o onze que esteve na final do último Europeu de sub21: José Sá; Esgaio, Illori, Paulo Oliveira e Guerreiro; William, Sérgio Oliveira e João Mário; Cavaleiro, Bernardo Silva e Ricardo. Agora juntemos-lhes nomes que nessa tarde estavam no banco, como Rafa, Iuri Medeiros, Cancelo, Ruben Neves ou Carlos Mané. E ainda valores entretanto revelados, mais jovens e por isso dentro da idade regulamentar, como Renato Sanches ou André Silva. Uma super-seleção, mesmo sem contar com a possibilidade de reforço com os tais jogadores extra-contingente sub23. Neste momento, Rui Jorge não pode saber muito bem quem vai ter ou o que vai fazer quando tiver que convocar os homens que leva aos Jogos. Porque o trabalho fundamental não será dele, mas sim das relações públicas da FPF, dos dirigentes que hão-de conversar. O percurso desta equipa merecia outro tratamento, mas não é dos clubes portugueses. É da FIFA, que continua a não saber fazer uma coisa tão simples como um calendário.
2016-05-31
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Último Passe

Ninguém a não ser os próprios poderá dizer com toda a certeza quais são as relações entre a Gestifute de Jorge Mendes e a Doyen Sports. Um pouco por todo o Mundo se leem coisas absolutamente inconciliáveis. Lê-se em italiano que são aliados numa espécie de cartel que se destina a fazer subir os preços dos passes e aumentar a dependência financeira dos clubes face aos investidores. E lê-se em francês que são inimigos figadais desde que a Doyen se meteu no negócio Falcao, financiando a compra do jogador por parte do Atlético de Madrid, ganhando mais que o mais poderoso agente do Mundo e levando-o depois a enveredar pela opção de empréstimos onerosíssimos – nos quais todos ganham menos o fundo que só recupera o investimento na venda. Seja qual for a verdade, uma coisa é certa: se Nuno Espírito Santo entrar como treinador no FC Porto, Jorge Mendes consegue algo de absolutamente extraordinário, que é o estabelecimento de uma relação privilegiadíssima com dois dos três grandes do futebol nacional. Ainda por cima numa altura em que consta que nem está de costas viradas para o terceiro. Se olharmos para esta realidade à escala global, nem há grande novidade: a Doyen é há muito um dos parceiros prediletos do Atlético de Madrid, que ao mesmo tempo é um dos principais portos de abrigo para os jogadores que a Gestifute transfere de Portugal para o estrangeiro. Aí, ganha a tese do interesse comum. Em Portugal, porém, a radicalização de interesses entre os três grandes nunca permitiu grandes confluências. Veja-se o caso de José Veiga, o antecessor de Mendes como maior agente futebolístico nacional. Enquanto trabalhou preferencialmente com o FC Porto, na década de 90, Veiga era frequentemente verberado pelos grandes de Lisboa. Quando se zangou com Pinto da Costa, no final dos anos do “penta”, fez da vontade de ver crescer o Sporting (primeiro) e o Benfica (depois) quase uma profissão de fé, mas nunca conseguiu estar bem com os dois ao mesmo tempo: o processo que levou à autodestruição de Jardel é disso bom exemplo. Veiga conseguiu sempre algo que Mendes também já pôs em prática, que foi ter um segundo clube para os “ressaltos” – o de Veiga era o Boavista, mas Mendes até tem dois, que são o Sp. Braga e o Rio Ave. Mas foi cometendo erros que o impediram de construir aquilo que Mendes pode estar prestes a conseguir: a quase unanimidade. As boas relações de Mendes com o Benfica estão à vista. O rosto da Gestifute tem sido o operacional preferido para as grandes vendas do clube para o estrangeiro – conseguindo no processo valores absolutamente mirabolantes para jogadores que muitas vezes não tinham sequer passado da equipa B – e mantém com Luís Filipe Vieira um entendimento por sinais de fumo. Aqui convém lembrar que Mendes – um Mendes ainda muito longe da influência que tem hoje… – foi o agente escolhido por Manuel Vilarinho para fazer os primeiros negócios depois de o clube ter extirpado os efeitos da liderança de João Vale e Azevedo (os brasileiros Roger e André), mas que chegou a perder espaço no clube quando José Veiga, com quem chegou a envolver-se em lutas físicas, apareceu como “homem do futebol” de Vieira. Tudo isso, porém, são águas passadas: hoje em dia, sempre que há um problema de mercado para resolver no Benfica, Mendes faz parte da solução. Veja-se, por exemplo, o que aconteceu na saída de Jorge Jesus, que tinha de Mendes uma proposta para seguir para o médio oriente enquanto esperava pelo Paris Saint Germain. No FC Porto, porém, Mendes tem enfrentado mais barreiras. É verdade que durante a passagem de Veiga pelo Benfica, já exerceu ali uma espécie de magistério de influência semelhante ao que agora pratica na Luz – ganhou muito e deu muito a ganhar ao clube depois da vitória na Champions, com a venda para o estrangeiro de jogadores como Paulo Ferreira, Deco, Costinha, Maniche ou Derlei – mas esse efeito foi-se extinguindo à medida que se reforçavam os seus laços com Vieira e com o Benfica. Agora, se Nuno Espírito Santo regressar de facto ao Dragão, como parece ser intenção firme de Pinto da Costa, pode reacender-se a chama da parceria, uma vez que além de ser amigo do técnico desde que, ainda como guarda-redes, o transferiu de Guimarães para a Corunha (foi mesmo o primeiro negócio de Mendes no futebol), o agente tem apostado firmemente no treinador, qu colocou no Rio Ave e depois no Valência. Uma parceria que exigirá de Mendes o equilíbrio no fio da navalha que Veiga, por exemplo, nunca conseguiu manter, mas que, somada ao facto de representar boa parte dos jogadores vendáveis do Sporting, a ser bem sucedida pode dar-lhe um domínio do futebol nacional nunca visto até hoje.
2016-05-31
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O resultado foi bom, a exibição não foi má, mas Portugal precisa de melhorar mais do que os 3-0 à Noruega deixam antever para poder fazer um Campeonato da Europa de grande nível. É verdade que faltaram Ronaldo, Nani e Pepe, mas a Noruega, que nem é um dos 24 qualificados para a fase final, ainda chegou para dividir o jogo com os portugueses durante uma boa meia-hora e para deixar a pairar no ar o espectro de um empate que só um livre superiormente executado por Raphael Guerreiro veio extinguir. Quaresma e Éder fizeram os outros dois golos de um ensaio que, pelo menos, permitirá seguir a preparação com tranquilidade e que, além disso, terá levado Fernando Santos a algumas conclusões. Umas mais satisfatórias do que as outras. As boas primeiro? Danilo pode perfeitamente quebrar o galho como defesa-central, posição que ocupou na última meia-hora, em vez de Ricardo Carvalho, acertando sempre no tempo de entrada aos lances. João Mário continua a respirar classe e vai mesmo lançado para um excelente Europeu, como se percebeu no modo como serpenteava entre os adversários a criar desequilíbrios na direita. Anthony Lopes é uma alternativa muito credível a Rui Patrício nas redes e isso viu-se no modo como tirou a King o que podia ter sido o golo do empate, ainda na primeira parte. Adrien entrou bem, a dar dinâmica a um meio-campo que se tinha deixado adormecer pelo jogo pausado e depois direto dos noruegueses. Guerreiro bate bem livres e Quaresma é um génio, mesmo quando faz o contrário do que está no plano de jogo. Porque o primeiro golo português nasce tanto da inspiração do extremo do Besiktas como da constatação de que com ele é difícil pôr em prática a estratégia dos dois avançados móveis e mesmo assim ter gente na área. Durante a transmissão televisiva lembrei-me da velha história de José Maria Pedroto, que um dia, num jogo do FC Porto, teria gritado a António Oliveira para que este soltasse a bola e, tendo este prosseguido com a jogada individual e feito golo, terá depois balbuciado algo como: “também está bem”. O lance do 1-0 de Portugal foi igual. Combinação entre João Mário e Cédric na direita e cruzamento para a área onde, face à tendência de Quaresma para abrir no flanco oposto, só estava Éder e chegava André Gomes. Os noruegueses repeliram a bola, esta chegou ao flanco oposto, onde Quaresma lhe pegou, saiu da frente de um defesa e chutou em arco para um golo de bandeira. Foi a vitória da inspiração sobre a organização e o prémio para 13 minutos de bom nível, nos quais Portugal teve quase sempre a bola e esteve bem, tanto em ataque posicional como, sobretudo, na pressão defensiva que permitia recuperar muitas vezes a iniciativa ainda bem dentro do meio-campo da Noruega. Instantes depois, Éder teve nos pés a oportunidade para o 2-0, mas como o avançado do Lille falhou o golo, o jogo entrou numa fase de indefinição e até de alguma supremacia norueguesa. Os nórdicos começaram tímidos, sobretudo a explorar a profundidade dada pela velocidade de King ou a estampa física de Berisha, a sair da direita para o meio, mas na segunda parte aproveitaram o retraimento português para se assenhorearem do jogo, estando de forma consolidada mais perto do empate. Notou-se aí que João Moutinho está sem ritmo, não espantando que tenha sido o primeiro a sair quando Fernando Santos resolveu mexer. Com Adrien, o meio-campo de Portugal ganhou amplitude e foi numa falta ganha pelo médio à entrada da área e superiormente convertida por Raphael Guerreiro com um remate ao ângulo que, aos 65’, a seleção pôs termo à indefinição. Aos 2-0, os noruegueses desistiram e os portugueses descansaram. Fizeram ainda o terceiro golo, por Éder, a responder cinco minutos depois a mais uma combinação entre Cédric e João Mário com um remate na cara do guarda-redes. E até final o jogo não teve muitos motivos de interesse a não ser a avaliação do que Renato Sanches pode dar à equipa a partir de uma ala. O médio que o Benfica transferiu para o Bayern fez os últimos 18 minutos em vez de João Mário, sobre a meia-direita, e embora fique a sensação de que a meia-esquerda lhe convém mais, até pode lutar por um lugar de médio-ala com André Gomes, desde que aprenda taticamente as necessidades da posição. 
2016-05-29
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Éric Cantona disse em entrevista recente que gosta de José Mourinho, adora o Manchester United, mas acha que o treinador português e o clube do Norte de Inglaterra não foram feitos um para o outro. As razões que o francês apresentou eram sobretudo estéticas e estão relacionadas com a imagem de Mourinho como treinador hiper-defensivo. Não creio que daí venha mal ao Mundo, porém. Aliás, o que me faz confusão é como é que, a viver a ressaca do abandono de Alex Ferguson, o maior clube inglês nunca aproveitou a disponibilidade do treinador mais impactante nos últimos dez anos de Premier League. Até hoje, pensei que tinha sido o próprio Ferguson a boicotar a entrada de Mourinho em Old Trafford. O escocês sempre se referiu com simpatia a Mourinho, o treinador que lhe levava garrafas de Barca Velha quando os dois se defrontavam, mas apesar de ter abandonado o banco do United em 2013, o mesmo ano em que o português foi demitido do Real Madrid, e de este se ter deixado querer, o desfecho esperado nunca se deu. Porquê? Porque Ferguson não queria alguém que vê o futebol de forma tão diferente no seu lugar? Alguém cuja personalidade, de tão forte, pudesse trazer alguma sombra sobre um passado recente de tantas conquistas? Ou simplesmente porque Ferguson, que sabe como estas coisas são, já adivinhava que os primeiros a sentar-se no banco de Old Trafford eram nomes para queimar, tendo por isso subscrito as opções David Moyes e Louis van Gaal antes de se chegar a Mourinho? A chegada de Mourinho ao Manchester United, três anos depois da saída de Ferguson – mas sem que este tenha perdido influência – parece confirmar a última tese. Falta agora perceber se o técnico português consegue devolver o clube aos títulos – porque no limite vai ser isso a fazer a diferença entre o sucesso e o falhanço. Não será o estilo do futebol, se joga com mais avançados ou se mete menos jogadores formados em casa. Aliás, Mourinho nem sempre foi um treinador defensivo: passou a sê-lo quando chegou ao Chelsea e se confrontava com o super-United de Ferguson, porque essa era a única forma de ter sucesso na Premier League. Continuou a sê-lo no Inter, porque a equipa era fraca. E no Real Madrid porque aquele estilo direto era o que mais convinha a uma equipa que tinha Ronaldo e porque tinha de marcar a diferença para o Barcelona de Guardiola. É verdade que em Old Trafford vai ter outra vez pela frente o treinador catalão, a sua nemesis futebolística, e que isso pode levar à manutenção do ideário futebolístico recente. Mas se o United ganhar, nada disso será importante. Mourinho sabe isso. E Ferguson também.
2016-05-26
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Dois penaltis defendidos por Marafona permitiram ao Sp. Braga ganhar a segunda Taça de Portugal da sua história, 50 anos exatos depois da anterior. O guarda-redes apareceu quando em Braga já não se pensava noutra coisa a não ser na final do ano passado, perdida contra o Sporting depois de uma vantagem de dois golos que os leões anularam com o empate em cima do minuto 90. Desta vez foi André Silva, o jovem goleador portista, quem reanimou o FC Porto e, com um bis, levou a equipa de José Peseiro a um empate (2-2) que teve pelo menos um mérito: passou para segundo plano a forma como os bracarenses se colocaram em vantagem, com dois erros crassos da defesa portista e de Helton. André Silva e Marafona foram, assim, os dois grandes vencedores de uma tarde que bem podia ter ficado marcada pelo papel dos anti-heróis Helton, Chidozie e Marcano. Foram os protagonistas que asseguraram que os nomes aos quais ficará ligada esta final da Taça de Portugal o são pelas razões certas, por proezas e não por erros. Porque a história até ao 2-0 foi, sobretudo, uma história de erros. Primeiro, erraram Helton e Chidozie, quando ficaram um à espera do outro após um passe para as costas da defesa do FC Porto, permitindo que Rui Fonte, a aposta surpresa de Paulo Fonseca, se intrometesse e marcasse numa baliza deserta. A primeira parte ainda mostrou um Sp. Braga a sair bem do primeiro momento de pressão portista e a encontrar espaço nas costas dos laterais, quinda por cima queimando bem linhas em posse. Ante um FC Porto inoperante na frente, o 1-0 ao intervalo até se compreendia. Para a segunda parte, que Peseiro abordou sem Chidozie, com Ruben Neves a meio-campo e Danilo como defesa-central, apareceu um FC Porto diferente. Melhor, mais acordado, a procurar o empate que Herrera quase conseguiu ao minuto 57, quando fez um remate de ressaca passar a milímetros do poste da baliza de Marafona. E na resposta veio o segundo erro: bola longa, a chegar a Helton, que a entregou a Marcano; desatenção do defesa espanhol, que olhou para um lado quando Josué lhe apareceu do outro, a roubar-lhe o esférico e a marcar. Com 2-0, a sorte do FC Porto dependia do tempo que levasse a reduzir – e fê-lo rapidamente, porque aí começou a grande tarde de André Silva. Primeiro a empurrar para as redes um primeiro remate de Brahimi que Marafona defendera; depois, já em período de compensação, a empatar o jogo com um remate acrobático de excelente execução, após cruzamento de Herrera. O empate fazia nascer na mente dos bracarenses o fantasma daquilo que foi a final do ano passada, perdida nos penaltis depois de o Sporting ter anulado uma desvantagem de dois golos no último minuto da partida. Paulo Fonseca há-de ter centrado a conversa com a equipa na necessidade de reação a uma segunda parte que tinha sido de ampla superioridade portista. E, mesmo não tendo voltado a ser capaz de incomodar Helton, o Sp. Braga conseguiu pelo menos impedir o FC Porto de fazer um terceiro golo e levar a decisão para as grandes penalidades. Só que aí, naquela que podia ser a oportunidade de ouro para a redenção, Helton não brilhou e quem o fez foi Marafona – o guardião bracarense deteve os penaltis de Herrera e Maxi Pereira (e ficou a poucos centímetros de parar o de Ruben Neves também), o que, somado aos 100% de acerto dos seus colegas que bateram, levou o Sp. Braga a fazer a festa e lançou ainda mais dúvidas no que vai ser a próxima época do FC Porto. Se uma eventual vitória na final da Taça de Portugal podia dar a José Peseiro a força de que necessitava para reivindicar o cumprimento do ano de contrato que lhe falta, mesmo depois de seis meses em que não foi capaz de recuperar a equipa, a confirmação de um terceiro ano sem um único troféu deixa-o numa posição frágil, à espera de uma palavra de Pinto da Costa. Do outro lado, Paulo Fonseca celebrou um lugar na história do Sp. Braga recusando-se a garantir que quer prosseguir. Neste aspeto, a final da Taça de Portugal pode ser igual à do ano passado.
2016-05-22
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A final da Taça de Liga foi um espelho perfeito da época do Benfica, com uma demonstração de eficácia máxima nas duas áreas a ditar o destino do troféu. Quando a equipa de Rui Vitória foi pela primeira vez à baliza de Haghighi, iam decorridos 11 minutos de jogo, fez o 1-0, por Jonas. Antes, já os madeirenses tinham perdido dois lances de golo cantado, quando Ederson deteve remates de Edgar Costa, primeiro, e Fransérgio, um minuto depois, ambos em situação extraordinária. Logo a seguir, porém, Pizzi descobriu Mitroglou que, já sem guarda-redes sequer pela frente, fez um 2-0 que, mesmo com apenas 18 minutos de jogo decorridos levou a que já ninguém admitisse outro desfecho que não fosse a taça nas mãos de Luisão. O 6-2 final não deixa sequer margem para que alguém venha agora discutir se é uma questão de sorte ou de qualidade. Houve sorte no primeiro golo do Benfica? Claro que sim: Mitroglou falhou o remate, Patrick tentou o corte e acabou por desviar a bola do seu guarda-redes e por colocá-la à frente de Jonas, que só teve de a empurrar para a baliza deserta. Mas antes, houve qualidade na forma como Ederson impediu os golos de Edgar Costa e Fransérgio? É também evidente que sim. É tão óbvio que o guarda-redes reagiu de forma soberba ao remate acrobático de Edgar Costa, desviando-o, ou que se manteve impecavelmente composto antes da finalização de Fransérgio, parando um autêntico penalti em movimento, como o é que ambos os lances nasceram da falta de rotina de Luisão e das dificuldades que André Almeida teve para se coordenar com o capitão, mais lento e pesado que Lindelof. A primeira parte foi um pesadelo para o lado direito da defesa do Benfica por causa disso mesmo. Depois, é claro que houve qualidade e trabalho na forma como o Benfica chegou ao 2-0: lançamento lateral de André Almeida para Jonas, que no segundo exato desmarcou Pizzi junto à linha de fundo, não restando a este outra coisa que não fosse chamar o guarda-redes e entregar a Mitroglou, que fez o golo. Mesmo contra um Marítimo que, ao contrário do que aconteceu no recente jogo contra 10 no campeonato, conseguia chegar à frente, poucos duvidavam de que o jogo estava resolvido. O 3-0, por Mitroglou, no seguimento de uma combinação entre Grimaldo – bom jogo, a atacar – e Gaitán veio acabar com as dúvidas que ainda restassem. E nem o facto de João Diogo ter reduzido ainda antes do descanso, após passe de Fransérgio, levou quem quer que fosse a colocar a vitória benfiquista em causa. É que na segunda parte o jogo continuou a decorrer como até ali, com o Marítimo a perdoar e o Benfica a castigar. Dyego Souza acertou na barra no único lance em que Ederson falhou, perdendo a posição numa saída dos postes, e logo a seguir Éber Bessa também perdeu por pouco o golo que podia reabrir a final. Quem não perdoou foi o Benfica que, já com Talsica em vez de Mitroglou, viu o brasileiro lançar Jonas e este dar um passe açucarado para uma finalização de pura classe de Gaitán. O argentino, que entrara em campo a chorar e saiu logo a seguir, acenando aos adeptos em jeito de despedida, recebeu o prémio de Homem do Jogo e confirmou no final que está “muito perto” de sair do Benfica. Faltavam 13 minutos para o fim quando Gaitán marcou, mas até final o jogo ainda teve mais três golos. Fransérgio reduziu para 4-2, de penalti, a punir derrube de Samaris a Alex Soares, mas antes que o Marítimo tivesse ideias, o Benfica marcou mais dois, já em período de compensação: primeiro por Jardel, a ganhar nos ares um livre lateral de Pizzi, e depois por Jiménez, de penalti, a punir falta do guarda-redes Haghighi sobre ele próprio. O jogo acabou logo a seguir, com ato de contrição de Nelo Vingada para o que considera ter sido uma má época do Marítimo e Rui Vitória a conquistar o segundo troféu na noite que pode ter sido de despedida para muita gente na equipa: Renato Sanches de certeza, Gaitán muito provavelmente, Jonas e Talisca talvez, Luisão quem sabe.
2016-05-20
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Três opiniões sobre o Jogo Duplo   A operação Jogo Duplo não foi uma surpresa para mim. Não sabia que ia acontecer, como é evidente, mas suspeitava de que algumas coisas daquele género se passam em Ligas menos visíveis, como a II Liga portuguesa ou até as Ligas principais de alguns países mais recônditos. Tem tudo a ver com a necessidade de compreender o sistema  e a própria realidade, em vez de lhe fechar os olhos, como têm feito as autoridades. A esse respeito, tenho por isso três coisas a dizer. Perante a detenção de agentes e jogadores acusados de fabricar resultados, a primeira tentação será a de se dizer: “isso das apostas é um mundo podre com o qual temos de acabar”. Errado! É uma falácia achar que o problema está no jogo. O problema está no jogo desregulado. Será mil vezes mais fácil detetar irregularidades e movimentações suspeitas de dinheiro com a regulamentação e a monitorização do jogo online do que limitando o jogo a terminais físicos, como sucede neste momento em Portugal. Ao manter estas limitações, o Estado português não está a acabar com o jogo online nem com as possibilidades de corrupção: está a encaminhar os grandes jogadores para fora do país – dessa forma deixando de recolher impostos sobre os volumes apostados – através de VPN e de contas bancárias no estrangeiro. Porque com ou sem jogo online em Portugal, ele continuará a existir no estrangeiro e a abarcar jogos de equipas portuguesas. Quem me conhece melhor sabe que enquanto isso foi autorizado fiz trading em casas de apostas desportivas, como a Betfair. Nessa altura cheguei a fazer parte de um grupo de “amigos” de vários países que se entretinha a “seguir o dinheiro”. E nem imaginam como é fácil descobrir movimentações suspeitas. Como? É simples. O trading funciona com base em apostas a favor (back) e contra (lay). O jogador não joga contra a casa, mas sim contra outro jogador, que aposta contra uma posição inicial colocada a favor de um determinado evento. Através de software relativamente fácil de utilizar, como o Geek’s Toy, por exemplo, é possível ver os montantes que estão à espera de ser correspondidos, isto é, as apostas colocadas mas ainda sem ninguém do outro lado. Estes grupos de apostadores têm Ligas e equipas sinalizadas como suspeitas, tanto na Betfair como sobretudo nos mercados asiáticos. É impressionante como por vezes aconteciam entradas de volumes anormais de dinheiro num determinado acontecimento e, assim que essas verbas eram correspondidas, esse evento verificava-se. Não é um meio fácil de ganhar dinheiro, porque muitas destas apostas eram simples bluffs: haverá certamente quem faça isto para lavar dinheiro, para o mover de uns países para outros, apostando a favor de um lado e contra do outro. Mas até por isso a regulação é importante, porque permitirá às polícias saber aquilo que os grupos de curiosos não saberão – de onde vem o dinheiro e para onde ele vai. Acredito que a generalidade dos jogadores de futebol não é subornável. Mas também acredito que entre os futebolistas – como entre os jornalistas, os médicos, os arquitetos, os políticos etc. – há gente capaz de aceitar dinheiro para facilitar um acontecimento. No caso dos futebolistas o problema é suscetível de ser agravado quando as suas equipas já não têm objetivos desportivos pelos quais lutar. O que fazer para o evitar? Se não é possível acabar com as apostas no Mundo, há duas coisas a fazer. Regulá-las, primeiro. E tornar o sistema do futebol o mais invulnerável possível a este tipo de tentações. Isto para dizer que ter jogadores profissionais de futebol a ganhar menos do que o ordenado mínimo – quando o recebem, porque parte deles só recebem o primeiro mês – é vulnerabilizar o sistema. Ora se o futebol move milhões – e tanto move, que as apostas se fazem – como é possível que os clubes da II Liga portuguesa, do segundo escalão profissional nacional, de uma elite, não sejam sequer capazes de manter em dia salários de miséria? O que há a fazer é tudo o possível para trazer os milhões que o futebol move para dentro do sistema, apostando depois numa repartição mais equilibrada da receita. É regulamentar o jogo, acabar com os monopólios existentes e permitir que as casas de apostas devolvam parte do dinheiro que ganham aos agentes desportivos sob a forma de patrocínios, por exemplo, e depois ser rigoroso na inspeção das irregularidades, tanto dos jogadores que se vendem como dos clubes que não lhes pagam. É por isso que digo que os menos culpados, aqui, são os jogadores. Eles são as vítimas que se deixaram apanhar num enredo que está viciado desde o início.
2016-05-19
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A lesão de última hora de Bernardo Silva poupou Fernando Santos ao embaraço da escolha e permitiu-lhe uma convocatória de consensos, sem precisar de riscar nenhum dos 24 jogadores que tinham mais expectativas de ser convocados. A somar às indisponibilidades já conhecidas de Fábio Coentrão e Danny e ao regresso demasiado recente de Tiago à competição, a exclusão do médio ofensivo do Mónaco resultou numa lista muito conservadora, em que nem a faísca provocada pela chamada de Renato Sanches corre riscos de provocar celeuma. Os que estão na metade do país que não gosta do jogador – por oposição à metade que o venera – até poderão ensaiar a contestação, mas esbarrarão sempre na falta de argumentos que se sucede ao “se não fosse ele então era quem?” Se houvesse Bernardo Silva, Fernando Santos ver-se-ia obrigado a fazer uma escolha que teria sempre algo de polémica em si. Quem ficava de fora? O próprio Renato Sanches, que pode dar à equipa as suas arrancadas com bola e a explosão a meio-campo? André Gomes, médio de fino recorte, que além do mais pode jogar a partir da meia-esquerda? O ponta-de-lança, deixando a equipa descalça numa qualquer eventualidade em que precise de meter mais peso na área? Um dos defesas-centrais, correndo o risco de, face à idade de todos eles, se ver a contas com lesões que o forçassem a fazer adaptações? Um dos atacantes com menos estatuto mas enorme potencial, como Rafa? Um dos defesas-laterais suplentes, ou até os dois, chamando um polivalente para cobrir os titulares? Tudo serviria para apimentar um pouco as reações à escolha. Assim, não: ninguém fará mais do que erguer um pouco uma sobrancelha, seguindo de imediato com o que estava a fazer antes. Não digo que isso seja mau. O consenso é uma posição difícil de atingir e é de consensos que esta seleção precisa para seguir sem ondas na competição. Soubesse eu da impossibilidade de Bernardo Silva e a minha lista só teria uma diferença relativamente à de Fernando Santos: a chamada de André Silva em vez de Éder. Sei que Éder fez um bom final de época no Lille, que até marcou alguns golos decisivos, mas a minha questão não era tanto de golos – esses pode fazê-los Ronaldo – mas mais de compatibilidade com o CR7 na frente. E aí acho que André Silva dá mais garantias, porque faz tudo aquilo que Ronaldo não faz. A ideia do selecionador é, no entanto, a de jogar com Nani e Ronaldo na frente, guardando Éder para alguma emergência. Não é a minha, mas até essa pode ser relativamente consensual.
2016-05-17
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O Benfica ganhou, como se previa, ao Nacional, por 4-1, na Luz, tornando infrutífera a vitória do Sporting em Braga, por 4-0, e conquistando o seu primeiro tricampeonato desde 1977. Foi um sprint final alucinante, no qual nenhum dos dois primeiros classificados cedeu, acabando o Benfica por impor os seus argumentos e terminar a Liga com uns impressionantes 88 pontos, que tornam irrelevante qualquer discussão à volta da justiça deste título. O Benfica é um campeão justo, porque fez mais pontos. Não jogou o futebol mais bonito, mas foi sempre a equipa mais eficaz, a que teve mais qualidade dentro da área – e isso paga-se com troféus como o que os encarnados acabam de conquistar. No último dia, só por três minutos o Sporting se colocou na frente da tabela provisória. Marcou primeiro, aos 20’, por Téo Gutièrrez, num daqueles lances-tipo do Sporting: bola de João Mário para a esquerda, onde Ruiz alargou a organização defensiva bracarense e devolveu para o meio, para a finalização de primeira do colombiano. O Sporting já tinha estado perto do golo por um par de vezes e desde cedo se percebeu que tinha tudo para ganhar em Braga. Só que os leões precisavam de mais. Precisavam que o Benfica não ganhasse em casa ao Nacional. E três minutos depois do golo de Gutièrrez, Gaitán abriu a festa da Luz, num lance que também é típico do futebol benfiquista: bola em busca da profundidade no corredor central, corte a impedir a finalização de Pizzi, mas para os pés do argentino, que estava solto e marcou num remate cruzado. Daí até final, na classificação, só deu Benfica. Slimani marcou o 2-0 para o Sporting em Braga, após cruzamento de Bruno César, num momento em que a equipa de Paulo Fonseca já tinha ficado reduzida a dez homens, por expulsão de Arghus, que derrubou William quando este se isolava. Só que Jonas também só esperou quatro minutos para dar o segundo ao Benfica, em mais um passe longo, desta vez de Gaitán, a pedir a velocidade de Jonas, que ganhou o duelo com o guarda-redes Gottardi. Ao intervalo dos dois jogos, toda a gente percebia que muito dificilmente o título escaparia ao Benfica. O Nacional ainda veio para a segunda parte a pensar num golo, que poderia reabrir a discussão, mas quem o marcou foi o Benfica, outra vez por Gaitán: recuperação de bola no último terço, cruzamento de Jonas, remate de Mitroglou à barra e recarga do argentino, de cabeça, para a baliza deserta. Começou aí a cantar-se nas bancadas, onde já ninguém estaria preocupado com o resultado do Sporting. Que entretanto chegou também ao terceiro, por Ruiz. E depois ao quarto, também pelo costa-riquenho. Mas, mais golo, menos golo, já nada disso importava. Pizzi ainda fez o 4-0 para o Benfica, já depois de Rui Vitória ter chamado ao relvado Paulo Lopes, o terceiro guarda-redes, que pôde fazer uns minutos e juntar o seu nome ao dos campeões – só mesmo Taarabt subiu ao palanque sem ter jogado. Já era Paulo Lopes quem estava na baliza quando Agra marcou o golo de honra do Nacional, tirando ao Benfica o título de melhor defesa da Liga: os encarnados acabaram com 22 golos sofridos contra 21 do Sporting. Sobrava o título que mais interessava: o de campeão. 
2016-05-15
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O FC Porto colocou um ponto final feliz numa Liga triste, ganhando por 4-0 ao Boavista, no Dragão, e assegurando que na pior das hipóteses terminará a 15 pontos do Benfica na classificação. O terceiro lugar serve de fraca consolação e deixa os responsáveis portistas a pensar no próximo fim-de-semana, quando a final da Taça de Portugal poderá permitir ao clube interromper um jejum de três anos sem troféus. Frente a um Boavista que melhora semana após semana e, a espaços, até conseguiu andar mais próximo da baliza de Casillas, também houve quem já só tivesse a cabeça no Jamor. Não foi o caso de André Silva, cujo golo, o quarto, a dois minutos do fim, foi o momento alto do jogo: na estreia do futebol matinal, horário ao qual estava habituado na equipa B, abriu por fim a sua conta de goleador. No último ensaio antes da final, José Peseiro fez um onze sem Martins-Indi, Sérgio Oliveira, Brahimi ou Aboubakar, deixando a ideia de que quis dar a André André ou a Corona a possibilidade de ainda discutirem um lugar na equipa que fará para o Jamor. Quem jogou e jogará a final foram Chidozie e André Silva: o primeiro, mesmo sem grandes problemas causados pelo Boavista, não complicou, ao passo que o segundo, mesmo antes de marcar o seu golo voltou a trabalhar bastante em prol da equipa, com movimentações de rotura ou de apoio e empenho do ponto de vista defensivo. Foi dele, por exemplo, o passe para o golo de Layun, a jogada que arrumou com a incerteza de que o jogo ainda pudesse estar rodeado, aos 56 minutos. E no entanto o FC Porto começou muito bem, com um futebol fluído e chegadas constantes com perigo à baliza de Mika, protegida por um Boavista organizado, como de costume, em 4x2x3x1. É certo que o golo inaugural, de Danilo, logo aos 11’, não nasceu de um belo movimento, mas sim da presença na área contrária, de um ressalto fortuito em Marcano e do oportunismo do médio, que chutou sem pedir licença. Mas aquilo que o FC Porto mostrou nesses primeiros 20 minutos deixava boas perspetivas. Só que, aos poucos, o FC Porto foi abrandando o ritmo e permitindo que o rival entrasse no jogo. Fê-lo a equipa de Erwin Sanchez com combinações interessantes nos corredores laterais, chegando a deixar uma vez Mesquita na cara de Casillas – com boa defesa do guarda-redes espanhol, que terá feito o último jogo da época. A segunda parte correu no mesmo ritmo, com Ruben Neves e Brahimi em vez de Danilo e Corona, no tal Lado B do ensaio para o Jamor. E no momento em que o FC Porto chegou ao 2-0, num belo remate de Layun a premiar um lance de insistência e visão de André Silva, o jogo fechou. Tudo se resumia a perceber se André Silva conseguia finalmente abrir a sua conta de goleador com a camisola do FC Porto. A primeira boa oportunidade para tal saiu frustrada quando, a cinco minutos do fim, Ruben Ribeiro derrubou Maxi Pereira na área e Carlos Xistra apontou para a marca de grande penalidade. Herrera e Brahimi aproximaram-se para bater, o público assobiou, provavelmente a pedir que fosse André Silva a marcar, mas não se desfez o pré-estabelecido – e bem, porque um penalti falhado faria mais mal do que um golo marcado. Brahimi fez então o terceiro, mas quem foi embora aí perdeu o momento do jogo. Até final, André Silva ainda foi capaz de desbloquear finalmente a conta: respondeu a um passe em profundidade de Brahimi, torneou Mika e chutou para a baliza. O público exultou, porque um golo é sempre um golo, o jovem jogador também, recebendo felicitações de toda a gente, mas a verdade é que mesmo sem esse golo a manhã já tinha sido dele. E, ao contrário do que aconteceu no clássico recente com o Sporting, quando fizer o onze para a final da Taça de Portugal, Peseiro pode começar por ele.
2016-05-14
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Um mérito ninguém tira a Renato Sanches: polarizou o país. Digam o que disserem acerca dele, ninguém lhe fica indiferente. Os benfiquistas acham que acima dele só estará Eusébio, mas os sportinguistas e os portistas – num fenómeno que, tal como a adoração benfiquista, também terá a sua explicação na área da psicanálise – não lhe descobrem sequer nível para jogar no Águias da Musgueira. Diga-se o que se disser, isso já é uma proeza. A transferência para o Bayern trouxe à tona uma série de mitos e de verdades acerca do “Bulo”. Vamos a eles. Renato Sanches passa mal a bola – Não é verdade. Se há coisa que Renato Sanches faz bem é atacar. Com bola, no jeito “selvagem” que lhe identificou Rui Vitória, é extraordinário. Qualquer um é capaz de lhe ver a capacidade de explosão, a mudança de ritmo e de velocidade, que lhe permite queimar linhas em posse. Mas basta recorrer às estatísticas dos dois jogos com o Bayern – para não haver conversas acerca da sobre-valorização por parte da imprensa portuguesa ou da proteção feita pelos árbitros nacionais – para perceber que Renato não só tem uma excelente percentagem de acerto nos passes, como arrisca nos seus destinatários. Em Munique, acertou 20 dos 22 passes que tentou (91%) e o principal destinatário desses passes foi Jonas (seis passes). O jogo da segunda mão, na Luz, já lhe correu um pouco pior, com 19 passes certos em 24 (71%), mas isso terá tido sobretudo a ver com a ausência de Jonas, o que levou a que o jovem perdesse a sua principal referência de passe, entregando mais bolas a Fejsa (quatro passes). Renato Sanches só dá porrada – Também não é verdade. É um jogador agressivo, sim senhores. Talvez até lhe tenham ficado a dever alguns cartões no campeonato nacional, sobretudo à conta da exuberância própria da juventude e das suas características. Mas não é um jogador especialmente faltoso. Recorramos de novo às estatísticas dos jogos com o Bayern, na Liga dos Campeões. Foram zero faltas cometidas na primeira mão, em Munique, e uma na segunda mão, na Luz. Uma falta em 180 minutos. E sem árbitros nomeados por Vítor Pereira. Renato Sanches é o melhor médio do campeonato português – Outro mito. Não é. Renato Sanches foi fulcral na recuperação do Benfica, que sem ele não estaria em condições de ser campeão nacional. Mas não é ainda um jogador completo, sobretudo do ponto de vista tático. Sai muito da posição e, se é certo que os comportamentos sem bola não são alvo de escrutínio por parte dos adeptos comuns – que, sobretudo na TV, só olham para quem tem a bola nos pés – eles constituem 95% das ações de um futebolista. E Renato, nesse aspeto, é um risco defensivo, sobretudo para uma equipa que joga apenas com dois médios na zona central. Precisa de melhorar no jogo posicional, precisa de compreender melhor as necessidades da equipa do ponto de vista defensivo – e para isso Ancelotti pode ser de uma utilidade extrema – e se teve o sucesso que teve na Liga portuguesa isso fica a dever-se à fragilidade e à incapacidade da maior parte das equipas. Numa Liga mais competitiva, para aquela posição, escolheria primeiro Adrien Silva. Porque tem mais oito anos de experiência. Renato Sanches deve ser titular da seleção – Não vejo como. Num enquadramento competitivo mais exigente, como será o do Campeonato da Europa, sobretudo se Fernando Santos decidir jogar em 4x4x2, Portugal não pode arriscar-se a jogar com Renato Sanches na zona central, correndo risco de ficar defensivamente exposto com frequência. O lugar é de João Moutinho e, se não for dele, será de Adrien. Renato pode aparecer como terceira opção, para jogos em que seja preciso atacar e não se preveja grande exigência defensiva ou para jogos em que o treinador opte por jogar com três ao meio. Essa, aliás, é a decisão fulcral na convocatória de Fernando Santos, porque se quer jogar em 4x4x2 vai precisar de quem seja capaz de jogar tanto ao meio como numa das alas – e André Gomes, ao contrário de Renato Sanches, pode fazê-lo. Sendo que só pelo sacrifício de um defesa central ou do ponta-de-lança haverá lugar para os dois. Renato Sanches está sobrevalorizado – Não está. Porque quem compra está a pagar o que ele vale agora e também o que ele pode valer no futuro. Numa avaliação puramente subjetiva, eu diria que, neste momento, Renato valerá entre os 15 e os 20 milhões de euros. Mas nestas coisas paga-se o potencial. Quem mostra o que Renato mostra aos 18 anos, poderá mostrar muito mais quando tiver 23, 24 ou 25, porque agora vai ser submetido a treino de altíssimo rendimento e terá de crescer para continuar a jogar. Extremamente sobrevalorizados foram jogadores como João Cancelo, Ivan Cavaleiro e até, pelo que já tinham mostrado na altura, Bernardo Silva e André Gomes. Mas esses saíram para clubes do circuito-Gestifute (Valência e Mónaco). Com o Bayern, com o rigor e a exigência alemãs, as coisas mudam de figura. E não serve de nada aos “haters” irem agora para a página de Facebook do Bayern dizer que há melhor lá na rua deles. Isso é mesmo para ser levado a sério? Renato Sanches tem a idade aldrabada – Duvido. Mas também não é particularmente importante para o caso, a não ser para estabelecer o preço ou punir legalmente que tenha cometido a ilegalidade (e isso pode sempre correr à margem da discussão presente). Claro que isso só pode ser definido com testes, mas olha-se para a cara dele e vê-se um miúdo. Não tenho dificuldade em acreditar que tem mesmo os 18 anos que apresenta no BI, mas repito: o Bayern contratou-o para jogar nos seniores e tendo em conta o que ele mostra em campo hoje. Claro que os alemães esperarão que Renato melhore e essa margem de progressão dependerá em muito da idade que ele tem neste momento. Mas ninguém paga 35 milhões de euros por uma esperança se não lhe vir condições para ser uma certeza no imediato.
2016-05-11
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O Benfica comunicou à CMVM a venda dos direitos desportivos de Renato Sanches ao Bayern Munique por 35 milhões de euros, informando ainda que “estão previstos valores adicionais, num montante global de 45 milhões de euros, dependentes da concretização de objetivos” até 30 de Junho de 2021. Diz a Kicker que esses objetivos passam pela nomeação de Renato Sanches para o Onze do Ano da FIFA ou para a Bola de Ouro. Subsiste, no entanto, uma dúvida, alimentada pelo facto de estarmos todos habituados ao português insondável de quem escreve estes comunicados: são 35 milhões mais 10 ou 35 milhões mais 45? Uma vírgula, aqui, faz muita diferença. Em todo o caso, mesmo que o valor real seja o mais baixo, trata-se de um excelente negócio para o Benfica. Só divergirá quem está de tal forma iludido pelos valores das transferências de jovens da formação encarnada para os clubes do circuito-Gestifute (Mónaco, Valência…) que acha que a base de licitação de qualquer futebolista está nos 15 milhões de euros. Renato Sanches foi uma das chaves da atual situação do Benfica. Se o clube for tricampeão é em boa parte a ele que o deve, pela explosão que trouxe ao futebol da equipa. Renato já é ofensivamente um extraordinário médio, porque ao contrário do que os seus detratores repetem à exaustão não perde muitos passes (tem uma margem de acerto na ordem dos 90%) e não joga só para trás e para o lado (o destinatário preferencial dos seus passes é Jonas). Além disso tem uma mudança de velocidade que lhe permite queimar linhas em posse como poucos jogadores na Liga portuguesa. E, no entanto, não é ainda um jogador feito. É “um pouco selvagem”, como diz Rui Vitória: defensivamente apresenta lacunas de posicionamento, mesmo que seja preciso procurar bem para as descobrir (o jogo sem bola é sempre menos visível que o jogo com bola). Mas quanto vale Renato Sanches? Valerá menos que um T1 no meio do pântano do Amazonas? Claro que não. O transfermarkt dava-lhe hoje de manhã um valor de mercado de 10 milhões de euros. Acho pouco. Na verdade, o transfermarkt serve-se de um algoritmo que estabelece variações médias e Renato Sanches valorizou a um ritmo extraordinário esta época, pelo que rebenta com esse algoritmo. Eu diria que, até tendo em contra o potencial, só um valor acima dos 25 milhões seria um bom negócio. Se o Bayern já pagou pelo menos 35, esta transferência entra na categoria dos negócios extraordinários – até porque sendo a venda para o Bayern, perdem imediatamente terreno os que virão dizer que o valor está muito inflacionado pela interferência de Jorge Mendes, o empresário que conseguiu vender João Cancelo ou Ivan Cavaleiro por 15 milhões cada um. Se chegar aos 45 milhões, o negócio será ainda melhor. Se, tal como está a ser interpretado pela generalidade dos órgãos de comunicação – que, já se sabe, na área do futebol querem é ver as pessoas felizes e, em caso de dúvida, “beneficiam sempre o ataque” –, o valor por objetivos elevar a transferência para os 80 milhões, então é um negócio da China. Para isso, porém, antes de ficarmos a saber quanto vale Renato Sanches, será necessário a CMVM ter a curiosidade de saber quanto vale uma vírgula. A vírgula que define se a expressão “montante global” se aplica ao negócio em si ou à totalidade do valor por objetivos.
2016-05-10
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Nem a expulsão de Renato Sanches, ainda antes do fim da primeira parte e com o resultado em branco, travou a marcha triunfal do Benfica, que ganhou por 2-0 ao Marítimo nos Barreiros e vai entrar na última jornada como favorito para fazer a festa do tricampeonato: bastar-lhe-á vencer o Nacional na Luz. Mitroglou e Talisca marcaram os golos da vitória na Madeira, mas Jonas (primeiro) e Jiménez (já perto do final) ainda acertaram por duas vezes nos ferros da baliza de Salin. Tudo num jogo em que o Marítimo foi sempre muito tímido do ponto de vista ofensivo e incapaz de parar as tabelas adversárias no espaço interior quando lhe tocava defender e em que o Benfica terá feito a melhor exibição das últimas semanas. O melhor Marítimo, na verdade, viu-se de início. Nelo Vingada optou por um 4x4x2 em que os dois atacantes – Djoussé e Edgar Costa – procuravam sobretudo os corredores laterais, dando depois ordem aos jogadores de meio-campo para preencherem o espaço interior, mas isso só bloqueou o ataque do Benfica enquanto os homens da casa tiveram gás para correr mais que os visitantes. Mesmo sem Gaitán, que por lesão cedeu a vaga a Carcela, o Benfica soltava Renato nos corredores laterais, levando-o muitas vezes a surgir embalado frente aos laterais insulares, e isso chegava para causar a dúvida dos médios interiores: iam à procura dele ou ficavam a tapar o espaço predileto de Jonas? Fosse como fosse, a partir dos 25’ o Benfica desfez o equilíbrio que se verificara até então e teve, de imediato, várias situações para marcar. Jonas acertou no poste aos 29’, Carcela viu um defesa da casa tirar-lhe o golo sobre a linha aos 30’ e, dois minutos depois, foi a vez de Salin tirar o golo a Jonas, com uma defesa magistral, a ir buscar um cabeceamento que o brasileiro dirigira para o chão. E aí apareceu a expulsão de Renato, imprudente a fazer uma falta quando já tinha um amarelo. Com 0-0 e a jogar com menos um durante mais de meio jogo, o Benfica poderia ter um problema. Mas a equipa uniu-se e respondeu bem, mantendo-se sempre alta no terreno, recusando a tentação de baixar as linhas que poderia ter dado iniciativa ao Marítimo. E teve ainda três situações de perigo até ao intervalo: um remate de Carcela sobre a barra e duas finalizações desviadas de Mitroglou. Mesmo com um a mais, o Marítimo não conseguia tapar o espaço entre a linha defensiva e a de meio-campo nem chegar à frente com perigo: atacava quase sempre com poucos e por isso mesmo ficava à mercê do primeiro erro. Que inevitavelmente apareceu logo aos 48’. Alex Soares fez mal um corte e dessa forma isolou Mitroglou, que em boa posição deu de esquerda na bola, sem hipóteses para Salin. Só depois de uma longa interrupção para ser prestada assistência a Maurício é que Nelo Vingada chamou Dyego Souza, o ponta-de-lança de que a equipa precisava para regressar ao 4x3x3, mas a verdade é que nem assim o Marítimo deu a sensação de poder discutir o jogo. Antes de sair, totalmente esgotado, por estar a cumprir a missão dele e a de Renato Sanches, Jonas ainda viu Salin fazer mais uma excelente defesa a um remate seu que podia ter dado o 2-0 (aos 69’). E foi já com Samaris em vez de Jonas que Talisca (que entrara para o lugar de Carcela) arrumou a questão dos três pontos, marcando um livre semelhante ao que já batera Neuer, no empate frente ao Bayern, na Luz. Faltavam sete minutos (mais os dez de compensação, que ainda chegaram para que Jiménez, que substituiu Mitroglou, chutasse uma bola à barra), mas já nada tiraria esta vitória a um Benfica que soube unir-se no momento em que se viu reduzido a dez e terá, até, aproveitado a proximidade para mais um título para fazer a melhor exibição das últimas semanas.
2016-05-08
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Foi um Sporting muito forte, aquele que goleou o V. Setúbal por 5-0, em jogo da penúltima jornada da Liga, regressando à liderança pelo menos até ao momento em que o Benfica visitar o Marítimo e forçando desde já o suspense acerca do campeão até à última ronda. O clima de festa com que os jogadores se despediram dos adeptos, no final do jogo, deixa perceber que todos acreditam ainda que o bicampeão possa escorregar no seu duplo compromisso madeirense e só foi atenuado com a desilusão que foi perder o capitão, Adrien Silva, para a última batalha, devido ao 12º cartão amarelo na Liga. Mas ficou evidente que os leões continuam a sonhar com a possibilidade de interromperem o jejum de 14 anos sem títulos nacionais já na primeira época de Jorge Jesus. Sem João Mário, que Jesus preferiu não arriscar, face a uma questão muscular, e com Gelson a jogar pela direita num onze que tinha Bruno César como lateral-esquerdo, o Sporting deparou-se com um V. Setúbal que repetiu a organização com três defesas-centrais que já tinha utilizado contra o Benfica na Luz. E se é certo que nessa noite perdeu apenas por um golo e conseguiu durante boa parte do jogo anular o jogo interior dos encarnados, também viveu 20 minutos de terror, até ver o adversário chegar ao 2-1 que acabou por ser o score final. Desta vez, a diferença é que o terror durou mais tempo, porque este Sporting chega ao fim da Liga com mais gás e não parou de cavalgar a onda. Gelson – com Ruiz e Ruben Semedo os melhores em campo – só abriu o marcador aos 25’, picando a bola sobre Ricardo depois de ser isolado por um excelente passe do costa-riquenho, mas antes disso já o guardião setubalense tinha tirado dois golos cantados a Bruno César e Slimani e Ruca evitara sobre a linha de golo um cabeceamento de Coates que parecia destinado às redes no seguimento de um canto. O Sporting estava pujante e colocou o jogo em segurança ainda antes do intervalo, num ataque rápido em que William descobriu Gutièrrez para um remate que entrou junto ao poste mais próximo. E se dúvidas houvesse, o bis de Gelson, aos 55’, após passe de Adrien, veio acabar com elas. Só depois (tarde…) Quim Machado mexeu, chamando ao jogo André Horta – muito assobiado o futuro reforço do Benfica – e Miguel Lourenço. Com 3-0 e vendo que não havia perigo de reação do adversário, Jesus precaveu-se em relação a Braga, retirando de campo Slimani – também à beira da suspensão, tal como Adrien, que já tinha visto o cartão amarelo proibido na primeira parte – e acabando por ver a ponta final da partida coroada com mais dois golos de Ruiz, ambos em bolas paradas. Notável a execução, em vólei, do remate que deu o 4-0; mais fruto da inspiração do momento e de alguma ratice o livre direto que passou debaixo da barreira para fixar o resultado nos tais 5-0 que fazem crescer a pressão sobre o Benfica. É agora a vez da equipa de Rui Vitória responder, neste sprint alucinante em que já leva dez vitórias seguidas. Provavelmente vai precisar de mais duas para ser tricampeão e evitar a concretização do sonho leonino. Desde 1993 que nenhuma equipa perde a Liga nas últimas jornadas sem ser no confronto direto com o que haveria de ser campeão. Sucedeu nessa altura ao Benfica, que perdeu em Aveiro com o Beira Mar (1-0), deixando-se ultrapassar pelo FC Porto à 31ª de 34 jornadas. Depois disso, só houve mais duas ultrapassagens consumadas na reta final: o Benfica de Trapattoni superou o Sporting de Peseiro ganhando-lhe o dérbi na penúltima partida de 2004/05 e o FC Porto de Vítor Pereira passou o Benfica de Jesus batendo-o no Dragão, igualmente na penúltima partida de 2012/13. Aquilo em que os sportinguistas acreditam agora é que seja o Marítimo ou o Nacional a fazer encalhar o Benfica. E acreditam mesmo, a julgar pela forma efusiva como celebraram os seus na partida frente ao V. Setúbal.
2016-05-08
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Último Passe

Um onze mais coerente com os princípios de jogo que defende José Peseiro permitiu ao FC Porto sobreviver a uma entrada caótica em jogo, com golo madrugador de Hélder Postiga, e acabar por vencer por 3-1 o Rio Ave, no meio do temporal de Vila do Conde, com uma exibição interessante. O resultado deixa a vida muito difícil para a equipa de Pedro Martins no acesso à Liga Europa e dá pistas relativamente ao que pode esperar-se dos dragões quando a pressão voltar, isto é, na final da Taça de Portugal. Peseiro mudou sete nomes em relação à equipa que perdeu em casa com o Sporting, na última jornada. Já se sabia que ia voltar Helton à baliza e que seria normal que Layun recuperasse o lugar na lateral-esquerda, mas as outras cinco alterações não estavam “anunciadas”. Voltou Marcano ao centro da defesa e quem caiu foi Martins-Indi e não Chidozie; entraram Ruben Neves e André André para o meio-campo, passando Danilo e Herrera para o banco (o que a somar à excelente exibição de Sérgio Oliveira vem apertar a luta por um lugar ali); e Aboubakar e Corona saíram também, para dar lugar a André Silva (aposta firme, pelos vistos) e Varela. O resultado foi um FC Porto com mais condição para tocar a bola, sobretudo devido às características de Ruben Neves e André André, por oposição às de Danilo e Herrera, mais “verticais” no seu jogo, mas também ao que dá à equipa André Silva, mais forte nas desmarcações de apoio que Aboubakar, sempre mais interessado em dar-lhe profundidade. O jogo mais circular do FC Porto podia ter dado mau resultado, caso a equipa tivesse sentido a forma como entrou em jogo, praticamente a perder, fruto de um grande remate de Postiga na sequência de uma recuperação de Wakaso. Mas depois de uns 15 minutos em que o Rio Ave esteve por cima, o FC Porto instalou-se no meio-campo ofensivo, fazendo circular a bola e deixando entender que dificilmente perderia o jogo. Chegou ao empate de penalti, marcado por Layún, e à vantagem já na segunda parte, quando Sérgio Oliveira meteu uma bomba na baliza de Cássio, minutos depois de ter visto o guarda-redes negar-lhe esse golo num lance semelhante. Pedro Martins mexeu nessa altura, trocando Yazalde por Bressan e depois Kuca por Ukra. A 15 minutos do fim, reforçou a frente de ataque com a entrada de Guedes – sacrificando o médio-defensivo Pedro Moreira – mas o FC Porto já não perdeu o controlo das operações, vindo a fazer o 3-1 por Varela. O Rio Ave não aproveitou, assim, a derrota do Paços de Ferreira para se colocar em zona europeia e entra no último dia a depender do resultado dos pacenses em Setúbal. Já o FC Porto deixou ainda mais dúvidas acerca do onze que Peseiro tenciona apresentar na final da Taça de Portugal, uma vez que a Liga já só lhe serve mesmo de aquecimento.
2016-05-07
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Último Passe

Não sei se o Sporting tem um agente a passear-se pelo país com uma mala cheia de dinheiro para incentivar os adversários do Benfica a tirarem pontos ao líder do campeonato. Se tem, acho mal. Como acharei mal se o mesmo se passar com o Benfica relativamente aos adversários do Sporting. Como achei mal que, no passado, tenha havido ausências difíceis de explicar contra qualquer dos grandes ou contratações em alturas menos apropriadas, feitas por qualquer um deles. Se atribuídos por terceiros, os prémios para ganhar um jogo não são tão graves como os prémios para o perder, mas devem na mesma ser punidos, porque desvirtuam a lealdade da competição. Por isso mesmo acho muito bem que a Comissão de Inquéritos da Liga abra um expediente para lidar com as suspeitas lançadas para o espectro mediático. Ainda que me pareça absolutamente impossível que venha a concluir seja o que for sem o auxílio da polícia. O problema aqui, porém, resume-se àquilo a que se resumiu em todos os outros inquéritos que lidam com assuntos tão nebulosos: a prova. Foi estranho que o Marítimo tenha poupado a maioria dos jogadores que tinha à beira da suspensão na partida com o Estoril, para os ter contra o Benfica? Foi. Só que as vozes também se levantaram antes, quando o U. Madeira poupou os jogadores que tinha “à bica” contra o Sporting, de forma a garantir que os tinha na partida seguinte, perante a Académica, onde acabou por dar um passo decisivo em direção à manutenção. Sim, o Marítimo já não tem objetivos na Liga. Mas isso chega para dizer que não tem nenhuma razão para querer fazer boa figura ante o campeão nacional, no jogo com mais visibilidade de toda a época? A verdade é que as equipas, nesta altura do campeonato, poupam jogadores em alguns desafios. Devia Nelo Vingada fazê-lo antes de jogar com o Benfica? Claramente: não! Até para evitar a suspeita. O facto de o ter feito indicia, só por si, um ilícito? Claramente, também: não! Pelo menos até que esse ilícito seja provado. Porque, vamos a ver se nos entendemos, a única diferença entre o que se passa este ano e o que se passou em anos anteriores no nosso campeonato tem a ver com o clima de suspeição generalizada provocado pelos programas de comentadores-engajados e pelo cada vez maior descaramento dos acusadores, que têm cada vez menos vergonha na cara. Façamos uma viagem ao passado. Foi estranho que Armando Sá, que era o melhor jogador do Rio Ave em 1999/00, tenha falhado o jogo com o Sporting (treinado pelo sogro, Augusto Inácio), na ponta final desse campeonato, em que os leões sprintavam com o FC Porto pelo título? Realmente, foi. Foi ilícito? Que se saiba, não! Estava lesionado. Foi estranho que Rui Duarte, que tinha apenas três amarelos em 29 jogos do campeonato de 2004/05, tenha provocado dois em 25 minutos, fazendo-se expulsar a meio da primeira parte do famoso Estoril-Benfica jogado no Algarve, onde os encarnados arrancaram para esse título nacional? Realmente, foi. Foi ilícito? Que se saiba, também não! Teve uma tarde destemperada. Da mesma forma que, por si só, não houve ilícito no facto de André Horta ter falhado apenas um jogo por opção no campeonato do V. Setúbal – contra o Benfica –, no penalti cometido por Tonel no Sporting-Belenenses, no frango de Gudiño no Sporting-U. Madeira ou no corte em rosca de André Vilas Boas no Rio Ave-Benfica, permitindo o golo da vitória a Jiménez. Queremos ir ao fundo da questão? Vamos a isso! Mas não creio que seja através da Comissão de Inquéritos da Liga que lá chegaremos. E também não me parece normal que a cada decisão discutível de um treinador, a cada gesto técnico imperfeito, se chame a polícia. Porque se há um homem a correr o país com uma mala cheia de dinheiro para incentivar terceiros, não é bom que a necessidade de uma investigação seja travada por causa de uns quantos Pedros que passam a vida a gritar “Lobo!”
2016-05-05
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Último Passe

Um golo e uma assistência de Jonas, na segunda parte, depois de o artilheiro ter entrado apenas ao intervalo, permitiram ao Benfica dar a volta e vencer o Sp. Braga por 2-1, assegurando a presença em mais uma final da Taça da Liga, numa noite em que Rui Vitória deu descanso a vários titulares, já a pensar na partida de campeonato que aí vem, contra o Marítimo. Os bracarenses, que tinham passado uma primeira parte mais ou menos tranquila, não resistiram à associação de Jonas a Raul Jiménez, e só nos últimos dez minutos mostraram outra vez interesse em chegar à baliza de Ederson, ficando então um par de vezes à beira do empate. Ante a evidência que tem sido o menor rendimento de alguns jogadores, que vêm acusando excesso de utilização, Rui Vitória abordou esta meia-final com alguns elementos menos utilizados. Jardel e Gaitán estavam lesionados e André Almeida castigado, mas as ausências de Eliseu, Pizzi, Fejsa, Jonas e Mitroglou resultaram de opções do treinador, que assim chamou ao relvado muita gente menos rodada para fazer companhia a Lindelof, Renato Sanches e Ederson, os únicos titulares utilizados de início, mas também a Jiménez, Talsica, Carcela e Samaris, que ainda assim têm vindo a ser opções mais ou menos regulares. Com Rafa ao seu melhor nível, o Sp. Braga adiantou-se no marcador e expôs as dificuldades sentidas neste momento por homens como Luisão ou Sílvio, ambos mal na fotografia do golo. Mas o problema do Benfica não estava só ali. O problema é que faltava sempre a capacidade para criar desequilíbrios, numa noite em que nem Renato ajudou neste particular: jogou muito para trás e nem sempre bem. Uma das ligações frequentes no processo ofensivo do Benfica é a que Renato consegue estabelecer com Jonas. Desta vez, porém, Rui Vitória nem a testou, provavelmente porque a sua programação passava também por não exaurir o jovem médio, que saiu ao intervalo para dar lugar ao goleador brasileiro. E com Jonas perto de Jiménez o Benfica transfigurou-se. O mexicano nem estava a jogar mal, como não estava Carcela, mas a utilização de Talisca como segundo avançado não chegava para dar à equipa a presença suficiente no último terço. Jonas empatou, aproveitando o espaço que ele tão bem sabe encontrar no corredor central, depois de uma abertura de Carcela. E depois fez o passe para Jiménez marcar o 2-1, no seguimento de uma falha caricata do guarda-redes Mateus, que falhou um alívio com os pés e deixou o avançado com a baliza escancarada para uma finalização fácil. Só nessa altura o Sp. Braga voltou a acordar para o jogo. Paulo Fonseca já tinha trocado o mais cerebral Wilson Eduardo pelo potente Stojiljkovic e, com a entrada de Aaron em vez de Mauro foi capaz de pegar no jogo nos últimos dez minutos. Rui Vitória sentiu o perigo e reforçou o meio-campo com Fejsa, mas nem assim foi poupado a dois sustos. Valeu-lhe que tanto Aaron como Stojiljkovic dispararam ao lado, carimbando assim a passagem do Benfica à final da Taça de Liga. A última de três finais que faltam ao Benfica esta época, enquanto que o Sp. Braga pode agora centrar todas as atenções na Taça de Portugal, que jogará frente ao FC Porto no Jamor.
2016-05-02
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Último Passe

Uma tarde quase perfeita de Slimani e João Mário, conjugada com alguma fortuna em momentos capitais e com o desacerto dos homens das linhas mais recuadas do FC Porto permitiram ao Sporting uma vitória tão afirmativa como justa no Dragão, por 3-1, e a continuidade na luta pelo título, a dois pontos do Benfica. A equipa de Jorge Jesus mostrou princípios de jogo mais coerentes e uma qualidade superior, tanto na criação como na definição, pelo que saiu do relvado com os três pontos – que na verdade raramente estiveram em dúvida, mesmo que o terceiro golo leonino só tenha sido marcado por Bruno César a quatro minutos do fim. Mesmo com mais iniciativa em toda a segunda parte, sobretudo quando André André veio dar alguma dinâmica ao meio-campo, os comandados de José Peseiro viram sempre a equipa leonina criar mais situações de golo. A diferença entre leões e dragões foi tanto marcada pelos dois golos de Slimani como pelas duas assistências de João Mário, as duas figuras superlativas de um Sporting onde Adrien ocupou muito espaço a meio-campo e Rui Patrício também foi importante. No FC Porto, que na primeira parte só foi perigoso quando procurava a profundidade de Aboubakar ou este fazia movimentos contrários para soltar Herrera, lamentam-se os dois remates aos ferros da baliza de Rui Patrício, mas a verdade é que o guardião leonino teve um papel importante em ambos: no primeiro, é ele que desvia a finalização de Herrera para a base do poste; no segundo, caso o livre de Sérgio Oliveira tivesse saído cinco centímetros mais abaixo, em vez de esbarrar na barra seria desviado pela luva do guarda-redes, que lá estava bem posicionada. Entre estes lances, porém, o que se viu foi um Sporting sempre mais forte. Tanto no espaço interior, muito graças à imprevisibilidade da movimentação de João Mário e à forma como Adrien, Ruiz e Téo Gutièrrez apareciam também a jogar na zona livre entre Danilo e Sérgio Oliveira e o mais avançado Herrera, como quando escolhia procurar a largura, onde Brahimi e Corona nunca foram capazes de ajudar devidamente os defesas-laterais a travar as duplas leoninas para ali destacadas. Depois de um início dividido, a história do jogo começou a escrever-se na superioridade do flanco direito do Sporting sobre a esquerda portista. João Mário, logo aos 3’, tinha deixado bem à vista a sua grande debilidade – a finalização – chutando uma bola que estava a saltitar à entrada da pequena área sobre a barra; Herrera, aos 7’, viu Rui Patrício roubar-lhe o golo, no tal lance que foi bater no poste. E depois de também Slimani (em canto de Ruiz) e Aboubakar (em antecipação a Rui Patrício) terem também estado perto do golo, o Sporting marcou mesmo. William, sem pressão, abriu o jogo na direita, onde João Mário dominou, superou José Angel e descobriu Slimani totalmente à vontade na área – errada a abordagem de Chidozie – para inaugurar o marcador. Havia 23 minutos de jogo e ali começava o melhor período do Sporting, durante o qual Slimani voltou a estar perto do golo, outra vez após lance na direita: dessa vez, porém, Casillas impediu o 0-2. Só que aí, quando parecia entregue, o FC Porto marcou, por Herrera, num penalti a castigar falta de Coates sobre Brahimi. O FC Porto parecia acreditar que podia equilibrar o jogo, mas nessa altura foi de novo traído pelos erros do seu setor mais recuado: primeiro foi Maxi a deixar Ruiz à vontade para cruzar e depois Martins-Indi a não atacar a bola nem o adversário. Como o adversário era Slimani, o melhor cabeceador da Liga, a bola foi parar às redes de Casillas. Faltava um minuto para o intervalo. E à felicidade de marcar no final da primeira parte, o Sporting somou a de não sofrer no início da segunda, primeiro quando Maxi Pereira viu um remate de boa posição negado por uma mancha de Patrício e depois quando Sérgio Oliveira, de livre, acertou na barra da baliza leonina – ainda que a mão de Rui Patrício estivesse logo ali, para deter a bola, se esta viesse um nadinha mais baixa. José Peseiro optou então por trocar Sérgio Oliveira, demasiado preso no meio-campo, por André André, e o FC Porto ganhou algum ascendente, ainda que meramente territorial. A meia hora do final, o Sporting tentava controlar os ritmos de jogo, se conseguia sair com a bola até era mais perigoso que o adversário, mas este andava sempre mais perto da sua área. Aí faltou aos portistas alguma qualidade na frente, algo que também não melhorou com a troca de Corona por Varela. O FC Porto tinha mais bola, mas as melhores situações de golo eram verdes e brancas. Como quando André André veio compensar mais um erro atrás e tirou o 1-3 a João Mário (aos 66’). Ou quando Casillas fez uma defesa monstruosa, a deter sobre a linha um cabeceamento de Slimani que levava selo de golo (aos 69’). Percebendo isto mesmo, José Peseiro tardou a fazer a sua última aposta, que passava por tirar gente de trás e meter mais homens na frente. A cinco minutos do fim, trocou o desastrado Chidozie por mais um ponta-de-lança, na ocasião André Silva. E um minuto depois, o Sporting matou o jogo: João Mário veio para dentro, descobriu um desequilíbrio que a troca provocara na defesa portista e meteu a bola à frente de Bruno César, que entretanto entrara para o lugar de Téo. O “Chuta-Chuta” chutou e Casillas deixou a sua marca no clássico, permitindo que a bola se lhe enrolasse debaixo do corpo e entrasse. O 1-3 acabava com a discussão do jogo e, em contrapartida, mantinha bem acesa a da Liga. O Sporting superava o teste maior com muita personalidade e mantinha-se a dois pontos do Benfica. Os leões serão agora os próximos a jogar, recebendo no sábado o aflito V. Setúbal e, se ganharem, devolvem a pressão ao Benfica, que no domingo visita o Marítimo nos Barreiros. Este campeonato, um dia, vai acabar. Mas ainda não foi desta.
2016-04-30
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Último Passe

Um golo de Jardel, a corresponder de cabeça a um livre muito bem batido por Gaitán, mesmo no início da segunda parte, permitiu ao Benfica vencer o V. Guimarães, por 1-0, e assegurar que, graças à quarta vitória seguida pela margem mínima, continuará isolado na frente da Liga, seja qual for o resultado que o Sporting fizer frente ao FC Porto no Dragão. A equipa de Rui Vitória voltou a sentir dificuldades para somar os três pontos, porque a falta de criatividade e de intensidade raramente lhe permitiu entrar na muito povoada organização defensiva dos minhotos, mas acabou por superar mais uma barreira, a antepenúltima, a caminho do tão desejado tricampeonato. E ficou a dever os três pontos a dois lances em que André Almeida, primeiro, e Ederson, depois, tiraram o empate a Hurtado. Sérgio Conceição entrou na Luz com três defesas centrais, num 5x4x1 que soltava apenas Henrique Dourado na frente, com Hurtado num lado e Cafu no outro, mas a sua principal preocupação era a de manter bem preenchido o corredor central à frente da área, de forma a não permitir liberdade de ação a Jonas. O Benfica ressentiu-se disso e, com Pizzi claramente a perder gás, confirmando uma tendência das últimas semanas, não conseguia criar desequilíbrios. Ia rematando, mas sempre sem grande perigo, a ponto de a primeira defesa do jogo ter sido feita por Ederson, aos 34’: o guardião benfiquista opôs-se a um remate seco, feito de fora da área por Henrique Dourado. Mesmo tendo mais volume de jogo e iniciativa, em toda a primeira parte só por uma vez o Benfica criou um lance de verdadeiro perigo, quando Lindelof chegou a um livre de Gaitán e o amorteceu para um remate que, mesmo em boa posição, Mitroglou dirigiu mal, para fora. Era um anúncio do que estava para vir. Logo a abrir a segunda parte, em novo livre de Gaitán, Jardel foi mais rápido que Pedro Henrique e cabeceou para golo. O jogo entrou nessa altura numa espécie de limbo, porque Sérgio Conceição – expulso na primeira parte, por protestos – não desmontou a sua organização e, por isso, o Vitória demorou a reagir. Otávio soltou-se um pouco mais nos lances de ataque, mas foi Hurtado quem perdeu as melhores situações de golo que se viram até final. Aos 67’, beneficiando de uma perda de bola de Jardel, viu André Almeida tirar-lhe o empate sobre a linha no remate e depois na recarga, já sem guarda-redes. E aos 77’, após boa abertura de Otávio, foi batido por uma saída providencial de Ederson, muito rápido a fazer a mancha. O Vitória chamou reforços para o ataque, mas quem se viu mais depois de sair do banco até foi Jiménez, que substituiu Mitroglou e também esteve à beira do golo, sobretudo quando acertou em cheio na barra da baliza de Miguel Silva (aos 84’). Avisado, Rui Vitória tentou fechar o jogo com a entrada de Samaris para o lugar do explosivo mas defensivamente menos consistente Renato Sanches. Conseguiu assim que a partida acabasse no 1-0 que agora lhe permitirá ver descansado como o Sporting se sai da difícil visita ao Dragão. O pior que pode acontecer-lhe é entrar na penúltima jornada, nos Barreiros, com dois pontos de avanço, numa partida onde ainda poderá contar com André Almeida: o lateral estaria excluído, por ter visto o quinto amarelo da Liga, mas já em período de compensação acabou por ser expulso, o que fará com que continue “à bica” na Liga e falhe antes a partida contra o Sp. Braga na meia-final da Taça da Liga.
2016-04-29
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Mais um golo decisivo de Raul Jiménez, desta vez a aproveitar um erro de André Vilas Boas, deu ao Benfica uma vitória justa sobre o Rio Ave (1-0), em Vila do Conde, e o regresso à liderança da Liga, quando faltam apenas três jornadas para o fim da prova. A resposta dos encarnados ao desafio lançado na véspera pelo Sporting não foi brilhante como noutras noites deste campeonato, mas foi competente e competitiva. O Rio Ave foi retardando o golo encarnado, mas na verdade nunca deu mostras de poder fazer um seu, enquanto que, mesmo sem jogar enormidades, antes do tento de Jiménez já o Benfica tinha perdido três ou quatro situações claras para marcar. Mais uma vez com o seu onze de gala, trocando apenas Nelson Semedo por André Almeida, Rui Vitória viu um Benfica perro ofensivamente durante toda a primeira parte, na qual o Rio Ave foi capaz de montar acampamento longe da área de Cássio e dessa forma impedir as combinações entre Jonas, Pizzi e Gaitán, que geralmente desequilibram os adversários. O bloco montado por Pedro Martins, com Pedro Moreira e Wakaso à frente da defesa, mas sem recuos excessivos, garantiu o equilíbrio no jogo e impediu o Benfica de criar situações de golo a não ser em lances de bola parada. Jardel viu Paulinho desviar perto da linha um cabeceamento que se seguiu a um canto de Gaitán, logo aos 2’, e o argentino perdeu uma boa oportunidade num remate de ressaca, após um alívio da defesa vila-condense, aos 32’, chutando ao lado de uma boa posição. Mas nada mais se viu em 45 minutos que foram marcados pela competência defensiva da equipa da casa. Na segunda parte, o Benfica passou a entrar com mais frequência na organização do Rio Ave, que por isso se viu forçado a recuar o seu bloco. E as ocasiões de golo apareceram. Gaitán perdeu um golo cantado, fazendo um “passe” a Cássio (aos 54’) após ter sido deixado em posição privilegiada por Jonas. E Jonas imitou-o um minuto depois, quando conseguiu passar entre dois adversários e encarar o guarda-redes vila-condense. Quando, aos 57’ Mitroglou desviou demais um toque subtil na sequência de um canto, fazendo a bola passar a lado, Rui Vitória decidiu mudar o ataque. Trocou Pizzi por Salvio e o próprio grego por Jiménez, enquanto que Pedro Martins optava por refrescar o ataque, com Postiga e Kayembé. E se as alterações do Rio Ave não trouxeram nada de novo ao jogo, as do Benfica resultaram no golo, aos 73’: cruzamento de André Almeida, desvio infeliz de André Vilas Boas para a sua própria barra e recarga à boca da baliza de Jiménez. A ganhar tão perto do fim, o Benfica congelou o jogo. Rui Vitória chamou Samaris para ajudar a equilibrar, sacrificando Jonas, e a equipa passou a controlar pela posse, arriscando sempre o mínimo e somando três pontos sem sobressaltos até final. Os encarnados encaixaram bem o golpe dado pelo Sporting e terão na sexta-feira a hipótese de voltar a bater a bola da pressão para o outro lado do court: se ganharem ao V. Guimarães farão com que o Sporting entre no Dragão, no sábado, com cinco pontos de atraso. A Liga começa a ser para os duros.
2016-04-24
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Último Passe

Vinte minutos de bom futebol, com aproveitamento total das situações de golo criadas nessa altura, valeram ao Sporting uma vitória tranquila sobre o U. Madeira em Alvalade, por 2-0, a certeza matemática da qualificação para a Liga dos Campeões da próxima época e a continuação na luta pelo título, metendo pressão sobre o Benfica, que amanhã visita o Rio Ave. Teo Gutièrrez voltou a marcar e a mostrar-se importante na manobra global da equipa, para a qual também contribuíram em grande parte os três médios, ante um adversário que só deu um ar da sua graça num remate de Danilo Dias, superiormente defendido por Rui Patrício. Jorge Jesus disse mesmo no fim do jogo que “em oito meses”, já pagou o seu “contrato de três anos”, mas por muito que o treinador se esforce por realçar o crescimento da equipa, que superou a três jornadas do fim o total de pontos feito na época passada, o objetivo principal está por alcançar e não depende apenas daquilo que o Sporting possa fazer. O treinador leonino tem razão quando diz que o Sporting está a fazer um “campeonato espetacular”, mas já foi demasiado parcimonioso ao afirmar que o Benfica – “o rival”, nas palavras dele – também está a fazer “um bom campeonato”. Ambos estão a ser bem mais do que bons e a verdade é que, ganhe quem ganhar, acabará por tê-lo merecido. Como o Sporting mereceu a vitória contra o U. Madeira, de resto. Os leões entraram sem Ruiz, fazendo alinhar Bruno César na esquerda, mas mostraram na mesma as movimentações trabalhadas em momentos ofensivos, conseguindo criar situações de golo desde o arranque da partida. Téo Gutièrrez marcou logo aos 7’, na sequência de um canto na direita em que os leões fizeram girar a bola até à esquerda, de onde saiu um cruzamento de Zeegelaar para o cabeceamento do colombiano. Mesmo sem cinco habituais titulares, todos em risco de exclusão e por isso poupados para a batalha com a Académica, que terá lugar já na próxima jornada, o União da Madeira podia ter empatado, por Danilo Dias, também na sequência de um canto, mas o remate esbarrou numa excelente intervenção de Rui Patrício. E, ainda antes dos 20’, João Mário acorreu a mais um cruzamento de Zeegelaar para fazer o 2-0 num vólei que permitiu que o jogo entrasse numa fase pachorrenta. Até final, o União só criou perigo em duas situações, ambas na segunda parte e sempre fruto de erros leoninos. Primeiro quando Ruben Semedo cortou mal um cruzamento e quase o endereçava para a própria baliza, e depois, já perto do final, quando Rui Patrício largou uma bola vinda de um canto. Pelo meio, o Sporting limitava-se a gerir o jogo em posse, raramente metendo a velocidade que lhe permitiria o 3-0 e a tranquilidade total. Téo ainda perdeu esse terceiro golo na primeira parte, após belo trabalho de Coates na direita, e voltou a estar perto dele no segundo tempo, mas se na primeira vez acertou mal na bola, na segunda viu Gudiño impedir o golo com uma boa mancha. Slimani, que saiu mais cedo para evitar riscos de um amarelo que o afastasse do decisivo jogo do Dragão, também teve duas chances, disparando em ambos os casos para fora. E Adrien ainda acertou com estrondo no poste. O golo, porém, não fazia grande falta. Não tanta como poderá vir a fazer um do Rio Ave ao Benfica na partida de amanhã.
2016-04-23
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Dois golos de grande recorte técnico e uma série de oportunidades bem construídas pelas duas equipas mereciam mais do que o “charuto” com que Brahimi deu ao FC Porto a vitória frente à Académica em Coimbra (2-1), mantendo, nem que seja por umas horas, as hipóteses matemáticas de a equipa chegar ao título ou ao segundo lugar, que também dá qualificação direta para a Liga dos Campeões. Se o jogo mostrou alguma coisa, porém, foi um FC Porto descontraído, pouco pendente do resultado, que conseguiu mais uma vez de virada – a quarta do FC Porto de Peseiro – e uma Académica muito mais pressionada, porque entra nas últimas três jornadas em posição de despromoção. O jogo valeu pelos golos. Primeiro o de Pedro Nuno, a dar vantagem à Académica com um livre pleno de potência e colocação, ainda que fiquem dúvidas acerca da possibilidade de Helton fazer um pouco mais no lance. A jogar para ganhar rodagem para a final da Taça de Portugal, o guardião brasileiro viu a bola entrar pelo seu lado, ainda que possa ter como atenuante a visibilidade nula que tinha do momento do remate. Fez depois o empate Ruben Neves, num remate colocadíssimo, de fora da área, a encobrir Pedro Trigueira com um chapéu milimétrico depois de a defesa da casa ter rechaçado para a zona frontal um lançamento lateral de Maxi Pereira. Depois de dois golos tão belos, o jogo acabou por se decidir a meio da segunda parte com um tento fortuito de Brahimi, que procurava meter a bola no interior da área, onde André Silva fazia uma diagonal de encontro a ela, quando a bola desviou em Hugo Seco e foi aninhar-se nas redes, sem que o ponta-de-lança portista ou o guarda-redes da Académica lhe tocasse. A vantagem portista aceitava-se, porque a equipa de Peseiro foi sempre a que procurou o golo com mais insistência, ainda que nem sempre o tenha feito com grande qualidade ofensiva. Quase sempre em contra-ataque, a Académica também teve lances em que podia ter marcado, nomeadamente uma tentativa de chapéu de Nii Plange a Helton, já perto do minuto 90, que passou o guarda-redes e bateu na barra da baliza, resvalando para fora. O FC Porto assegurava aí a vitória, que lhe valeu tanto pelos três pontos como por algumas boas indicações deixadas por Danilo a defesa-central ou por Ruben Neves, um pouco menos perro que contra o Nacional, na semana passada. A pensar na final da Taça de Portugal, o regresso de André André também deve ser assinalado, faltando a Peseiro que André Silva marque finalmente um golo e que, com a abertura da conta pessoal, o jovem português justifique a persistência do treinador para lá do esforço e do trabalho na movimentação que indiscutivelmente vem mostrando.
2016-04-23
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A resposta dada na RTP por Julen Lopetegui às declarações de Jorge Nuno Pinto da Costa acerca da situação que ainda o liga ao FC Porto mostrou que o treinador espanhol mudou mais do que a forma física – parece mais gordito, provavelmente por causa dos três meses de inatividade a que foi forçado pela demissão no Dragão. Mudou mesmo uma coisa fundamental: começa finalmente a perceber o que é ser FC Porto e de que é feito o futebol português. Se tivesse entendido antes, talvez ainda estivesse no clube. Há um aspeto em que o treinador basco tem 100 por cento de razão. É que quando chegou a Portugal, o FC Porto tinha ficado a 13 pontos do Benfica; acabou o campeonato seguinte a três e com a desvantagem competitiva de ter estado na Champions até Abril; saiu do atual, a um jogo de terminar a primeira volta, empatado com os encarnados e a quatro pontos do Sporting; e, 14 jogos depois, os dragões estão a dez pontos do Sporting e a doze do Benfica. Além disso, se o FC Porto perdeu sete vezes nos 30 jogos de 2013/14, já foi derrotado apenas três vezes em 50 jogos com ele e entretanto cedeu mais cinco derrotas em 14 jogos, depois da sua saída. Olhando para os números, tem razão Lopetegui quando alega que foi um erro demiti-lo. Mas o futebol não são números. O futebol são títulos. E ele, nesse aspeto, prolongou aquilo que vinha sendo o falhanço do FC Porto – e que, é preciso dizê-lo, não melhorou depois da sua saída. Porque falhou Lopetegui, então? Sempre tive a mesma opinião: Lopetegui chegou a Portugal com a sobranceria natural de quem vem de uma Liga superior e nunca procurou perceber bem o ambiente que o rodeia: basta ver que mesmo tendo estado ano e meio em Portugal e a dar uma entrevista à RTP, que é uma televisão portuguesa, e a uma jornalista portuguesa, para ser vista por portugueses, falou em castelhano. São detalhes? Sem dúvida. Mas não é um detalhe falhar na motivação dos seus jogadores, muitos deles também vindos de ambientes competitivos superiores, sempre que iam jogar a um daqueles “quintais” que são tão vulgares na nossa Liga. Como não é um detalhe não se ter preparado para lidar com a tal “fação” da claque portista onde teve origem a tal “contestação exagerada” após o empate com o Rio Ave. Então Lopetegui veio treinar o FC Porto e não se deu sequer ao trabalho de saber quem foi e como saiu Co Adriaanse do Dragão? Quando diz agora que finalmente começa a compreender essa tal “fação”, Lopetegui pretende enfatizar o que considera ser um processo de manipulação vindo de fora para dentro mas com origem no interior do clube, mas acaba por deixar bem à vista que não tinha feito o trabalho de casa no que respeita à compreensão do ambiente – “el entorno, señor Lopetegui, si es que me entiende” – do qual (também) dependia o seu sucesso. Aliás, não foi só isso que Lopetegui não entendeu logo à primeira: também lhe faltou perceber que, em Portugal, mercado pequeno, quando um clube quer ver-se livre de um treinador, o mais normal é que, para voltar a trabalhar e não ficar com o nome sujo no mercado, esse treinador abdique de receber o que falta do contrato. Tantas vezes ouvi essa história! Aqui, no entanto, quando diz que nem precisa de dois segundos para resolver o assunto, que as negociações foram feitas na altura de assinar o contrato e que depois disso tudo o que as partes têm a fazer é cumpri-lo, é Lopetegui quem tem razão. Neste aspeto, sim, os nossos dirigentes deviam aprender com ele.
2016-04-22
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Um Benfica de duas caras foi suficiente para ganhar por 2-1 ao V. Setúbal e retomar o lugar no topo da classificação da Liga, com dois pontos de avanço sobre o Sporting, quando já só faltam mais quatro jornadas para o termo da competição. A equipa de Rui Vitória fez 25 minutos à campeão, com velocidade, intensidade e criatividade, chegando com inteira justiça à vantagem, depois de ter visto o adversário marcar logo aos 17 segundos. Mas a segunda parte foi à mandrião, a mostrar uma equipa ao mesmo tempo fatigada e desconcentrada, que só não deixou dois pontos pelo caminho porque, no último minuto de compensação, Arnold não foi capaz de aproveitar a oferta de Pizzi e, isolado na cara de Ederson, deixou que o guardião encarnado levasse a melhor e evitasse o golo do empate. O golo do V. Setúbal, no primeiro lance da partida, condicionou a forma como decorreu toda a primeira parte. Gorupec encontrou espaço por fora na direita e cruzou para o outro lado, onde André Claro apareceu atrás de Nelson Semedo a abrir o marcador. Estavam decorridos apenas 17 segundos de jogo e este golo, que podia ter afetado animicamente os bicampeões nacionais, veio antes lançá-los numa ofensiva louca e determinada em direção à baliza de Ricardo. Foi dos melhores períodos do Benfica esta época, com oportunidades de golo umas atrás das outras, a deixar antever que a virada no marcador não tardaria. Jonas esteve perto do golo aos 3’ (evitou Ruca) e aos 6’ (impediu-o Tiago Valente). Mitroglou aproveitou um cruzamento de Gaitán para cabecear ao lado (aos 8’), mostrando à equipa que por cima podia lá chegar. Jardel, após canto de Pizzi, cabeceou para Ricardo defender com dificuldade, aos 11’, Mitroglou imitou-o aos 13’, forçando o guarda-redes a socar de improviso. E foi depois de André Claro falhar em boa posição o que até podia ter sido o 0-2, cabeceando ao lado, aos 15’, que Jonas empatou: iam decorridos 19 minutos, Eliseu cruzou e Gaitán, de cabeça, meteu a bola entre a linha defensiva e o guarda-redes, onde Jonas apareceu de rompante para marcar de primeira. Ainda os adeptos festejaram o primeiro quando Jardel fez o segundo, de cabeça, nas costas de Paulo Tavares – muito mais baixo do que ele – após um canto de Gaitán. Só que aí, com apenas 24' de jogo, o Benfica pareceu tirar o pé do acelerador. Certo que aquele ritmo era impossível de manter até final e que tanto o jogo com o Bayern, na quarta-feira, como a fadiga acumulada por alguns jogadores (Pizzi, por exemplo, está uma sombra do que já foi) ou o facto de outros (Gaitán, MItroglou...) estarem a regressar de lesões prejudicaram a capacidade encarnada. Mas a diferença foi do dia para a noite. Pizzi ainda teve a oportunidade para fazer o 3-1 que descansaria a equipa, a fechar a primeira parte, mas Venâncio cortou o chapéu que o ala fez ao guarda-redes antes de a bola cruzar a linha. E, sem esse golo, o Benfica foi como que apanhado entre dois focos. Forçava em busca da tranquilidade? Defendia a vantagem magra que possuía? Acabou por não se decidir por uma coisa nem pela outra. Em toda a segunda parte, só um cabeceamento de Mitroglou (aos 66’) e outro de Jardel (aos 75’) causaram frisson junto da baliza de Ricardo. O Vitória conseguia equilibrar a meio-campo, mas raramente entrava na área. Fê-lo aos 59', por Arnold, e aos 60', por Ruca, e mesmo assim intranquilizava o campeão, que se foi pondo a jeito para uma surpresa. E esta quase aparecia no segundo minuto de descontos: Pizzi fez mal um atraso e isolou Arnold na cara de Ederson, valendo ao Benfica a qualidade da mancha feita pelo guarda-redes, que dificilmente perderá já o lugar para Júlio César. O 2-1 não se alterou, Arnold acabou o jogo a chorar e os mais de 50 mil adeptos benfiquistas na Luz a festejar. Porque estão um jogo mais perto do objetivo, o tricampeonato, enquanto o do Vitória, que é a manutenção e chegou a parecer garantido, está em risco sério com uma segunda volta muito abaixo da primeira.
2016-04-18
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Uma entrada contundente, com dois golos em nove minutos, permitiu ao FC Porto de José Peseiro afastar o espectro das duas derrotas consecutivas que subiu ao relvado com os seus jogadores para a partida com o Nacional e deu ao treinador a hipótese de ganhar pela primeira vez ao seu antigo clube. Os 4-0 com que se concluiu a partida, maior vitória do FC Porto desde a chegada de Peseiro, chegaram para que os dragões mantivessem as hipóteses matemáticas de alcançar os dois rivais de Lisboa na classificação mas, muito mais importante do que isso, lançaram mais três jogadores para o foco mediático nesta espécie de pré-época em que se transformaram as semanas que antecedem a final da Taça de Portugal: André Silva, Ruben Neves e Varela juntam-se a Sérgio Oliveira como “descobertas” de fim de temporada. O golaço de Varela, logo aos 2’, na primeira vez que o FC Porto visou as redes de Rui Silva, e o tento que se lhe seguiu, de Herrera, aos 9’, transformaram uma partida que se presumia pudesse ser competitiva num mero exercício de avaliação. A perder por 2-0 desde tão cedo, o Nacional deixou cair grande parte das esperanças de levar pontos do Dragão, pelo que o que havia a ver era sobretudo como se comportavam as novas apostas de Peseiro. E não se portaram nada mal, lançando entre os dragões a esperança de se verem mais representados na escolha final de Fernando Santos para jogar o Europeu, na qual só mesmo Danilo já estava seguro. O treinador recuou o médio para defesa-central, em vez de Chidozie, e dessa forma permitiu, de bónus, o regresso de Ruben Neves à titularidade no comando das operações a meio-campo, a tempo de voltar a ter algumas – poucas, é verdade… – esperanças de ser chamado. Na frente, com Aboubakar sentado no banco, apostou no jovem André Silva, que voltou a não marcar (esteve perto, aos 18’ e aos 67’) mas se mexeu sempre bem e deu o seu contributo para o excelente arranque da equipa. Com 2-0 ao intervalo – e Sérgio Oliveira também esteve perto do terceiro ainda na primeira parte – o Nacional procurou reagir no início do segundo tempo, com Luís Aurélio em vez de Aly Ghazal. Ainda assim foi o FC Porto quem marcou, por Danilo, de cabeça, após cruzamento de Corona. Se dúvidas havia – até então, um golo do Nacional ainda podia reabrir o jogo – elas acabaram nesse momento. E houve ainda tempo para que Aboubakar, que entrou a 15 minuto do fim, reforçasse o seu estatuto de maior goleador da equipa, rompendo a resistência que vinha sendo feita pelo guarda-redes Rui Silva e fechando o marcador num golo de chapéu. Os três pontos não estavam em discussão há muito, mas o jogo valeu mesmo para que vários jogadores dissessem que se o que o clube atravessa neste momento é uma pré-época, então devem contar com eles quando começar a competição.
2016-04-17
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O Sporting venceu o Moreirense, fora de casa, por 1-0, graças a um golo do inevitável Slimani, em jogada inventada por Téo Gutièrrez, que voltou a confirmar o bom momento que atravessa. A partida esteve longe de ser brilhante: os leões controlaram-na no limite do risco, mas acabaram por ganhar bem, face à total inoperância ofensiva da equipa da casa. Além de lhe chegarem para manter a pressão sobre o Benfica e para o regresso provisório ao topo da classificação – pelo menos até que os encarnados recebam o V. Setúbal, na segunda-feira – os três pontos permitem à equipa de Jorge Jesus ficar a apenas uma vitória da certeza matemática do apuramento para a próxima edição da Liga dos Campeões. Sem a sua principal arma ofensiva, que é Iuri Medeiros, jogador emprestado pelo Sporting e por isso excluído da partida, o Moreirense optou por abordar o jogo com um bloco muito baixo, apostando no reagrupamento defensivo junto da sua área e na criação de lances de perigo em contra-ataque ou em bolas paradas. Isso deixou o Sporting como dono e senhor do meio-campo, sem ter sequer que meter velocidade no jogo. Quando chegava aos últimos 30 metros e procurava fazê-lo, era tanta a densidade de pernas ali colocadas que tal se tornava difícil. Com isto perdeu o espetáculo, que nunca foi bom. O Moreirense ainda teve a primeira situação de perigo, logo aos 5’, num canto que André Micael cabeceou ao lado, aparecendo só ao primeiro poste. Os cónegos deixavam desde logo nota da única forma que tinha de ameaçar Rui Patrício: em toda a primeira parte só causaram frisson em mais dois livres, um de Fábio Espinho, ao lado (aos 26’) e outro de Nildo, para defesa apertada do guardião leonino (aos 36’). O Sporting vivia muito da capacidade dos seus médios tirarem a bola da zona de pressão, onde havia mais opositores. E de vez em quando ainda conseguia criar lances bonitos. João Mário beneficiou de uma bela abertura de Adrien, aos 15’, para se isolar sobre a direita, mas finalizou mal. Um minuto depois, foi a vez de Téo inventar a solução: à entrada da área, com uma densa barreira pela frente, picou a bola sobre a linha defensiva, isolando Schelotto na direita, de forma a que este pudesse cruzar e Slimani aparecesse a finalizar à boca da baliza. A ganhar, o Sporting pareceu diminuir a intensidade do seu jogo. A equipa parecia até algo anestesiada pela incapacidade adversária, mas ainda assim foi sempre a mais perigosa em campo. Téo Gutièrrez (39’) e João Mário (42’) estiveram mesmo perto do 2-0, mas o intervalo chegou com um só golo a separar as duas equipas. Na segunda parte, o jogo mudou pouco. Téo Gutièrrez voltou a ser o primeiro a estar perto do golo, num cabeceamento após assistência de Slimani, aos 61’. E poucos minutos depois começaram as substituições. Jesus trocou Zeegelaar, que já tinha amarelo, por Bruno César, que voltou a ser lateral-esquerdo e, mais tarde, substituiu Ruiz por Gelson, que também esteve perto do golo, aos 78’. Do outro lado, Miguel Leal não mexia muito, talvez por sentir que não tinha no banco quem fosse capaz de virar o jogo. A primeira substituição foi para refrescar (Ernest por Boateng), a segunda apareceu apenas a cinco minutos do fim (Nildo por Fati). A verdade é que a equipa da casa não conseguia chegar-se à frente: em toda a segunda parte, só dois remates de ressaca de Schons, aos 70’ e aos 71’, causaram alguma perturbação à defesa leonina. Daí que, mesmo sem ter feito um bom jogo, o Sporting tenha acabado por ser a única equipa que mostrou argumentos para procurar a vitória que acabou por sorrir-lhe.
2016-04-17
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O Benfica vendeu cara a eliminação da Liga dos Campeões, forçando o Bayern Munique a um empate na Luz (2-2) que se justificou plenamente, face ao que as duas equipas fizeram em campo, e chegando a lançar a dúvida sobre o destino da eliminatória, ao adiantar-se no marcador antes da meia-hora, com um cabeceamento de Jiménez. O Bayern tem outros argumentos, tanto ao nível das individualidades como no plano tático, chegou rapidamente ao empate e até à vantagem, mas Pep Guardiola chegou a irritar-se com os seus jogadores no banco pela forma como estes permitiram que os encarnados colocassem a passagem às meias-finais em dúvida. Rui Vitória já sabia que não ia ter Jonas, que estava castigado, devido ao amarelo que viu em Munique. No dia do jogo ficou a saber também que não poderia contar com Mitroglou e Gaitán, as suas duas outras principais armas ofensivas, que se ressentiram de lesões contraídas em Coimbra, no sábado. Armou a equipa em 4x2x3x1, com Jiménez na frente, apoiado por um Pizzi que não está a viver uma fase particularmente fulgurante, e com Salvio e Carcela nas alas. Provavelmente sabendo que o Benfica ia apresentar três médios, Guardiola abdicou de um dos pontas-de-lança (no caso Lewandowski), fazendo jogar Müller sozinho em cunha, com Douglas de um lado e Ribery do outro, igualando a batalha a meio-campo com a junção de Xabi Alonso a Tiago Alcântara e Vidal. E apesar de um início forte do Benfica, aos 5’ o Bayern congelou o jogo com o seu futebol de posse e variação constante de flancos. Lahm, pela forma como aparecia sempre a aproveitar as manobras de diversão de Douglas Costa, era o principal causador de perigo para Ederson, como se viu no modo como descobriu Lahm (19’) para um volei que este fez passar rente ao poste, ou como esteve na base do lance em que Tiago Alcântara solicitou o cabeceamento de Vidal, para defesa de Ederson (22’). Só que aí o Benfica marcou. A pressão do Bayern a meio-campo falhou, a equipa portuguesa fez a bola chegar a Eliseu, que tinha espaço para correr na esquerda. Rui Vitória percebeu o que aí vinha e correu a incentivar Eliseu, que galgou campo e cruzou para Jiménez, que ganhou o sprint aos dois centrais do Bayern e aproveitou a saída sem sentido de Neuer para cabecear para o 1-0. Eliminatória igualada aos 27’, portanto. O jogo convidava à contemporização, mas três minutos depois Salvio ganhou uma bola na direita e cruzou rasteiro para uma falha de Alonso no corte e um remate fraco de Jiménez, que teve tempo e espaço para fazer mais do que entregar a bola a Neuer. Ora se o Benfica não marcou foi o Bayern que o fez, logo aos 38’, num belo lance de envolvimento na direita que terminou com cruzamento de Lahm. Ederson ainda afastou, mas aí os médios do Benfica foram batidos pela sua própria sofreguidão: acorreram à área, onde o Bayern não tinha assim tanta gente, e deixaram a meia-lua à mercê de Vidal, que fez o golo de primeira. Com 1-1, a eliminatória não ficava sentenciada -o Benfica voltava a precisar de dois golos. Mas o que a equipa sentiu foi que a montanha à sua frente tinha ficado repentinamente inultrapassável, de tão íngreme, tendo perdido concentração e permitido mais espaço às trocas de bola do Bayern. O problema, de resto, não se resolveu após o intervalo, pois foi outra vez o Bayern quem entrou melhor. E aproveitando uma desconcentração global na zona defensiva do Benfica após um canto da esquerda, o Bayern fez o 2-1, aos 52’, por Müller, o único a acorrer a uma primeira bola ganha por Javi Martínez nos ares. Foi o pior período do Benfica no jogo. Ederson teve de se esforçar para impedir o 1-3 logo aos 55’, num contra-ataque, e viu depois Douglas Costa chutar ao poste, aos 60’. Rui Vitória trocou então Pizzi por Gonçalo Guedes, procurando ganhar velocidade no corredor central, e o jovem extremo foi providencial na forma como o Benfica regressou ao jogo: travado em falta por Javi Martínez, após uma arrancada da direita para o meio, deu a Talisca – que entretanto substituíra Salvio – a possibilidade de, num livre magistral, estabelecer o empate. O golo acordou o público e a equipa do Benfica, mas só faltavam 14 minutos para o final da partida. Rui Vitória, expulso do banco por protestos, viu da bancada como o Benfica, já em 4x2x4, com Jovic a juntar-se ao ataque e Carcela a fazer de defesa-esquerdo improvisado, tentou impor ao Bayern uma derrota que talvez os alemães não merecessem. Valeu a tentativa, prova de caráter de uma equipa que fez das tripas coração para estar entre as maiores da Europa e não sai envergonhada da tentativa. Com a certeza de que para o ano haverá mais.
2016-04-13
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O FC Porto confirmou em Paços de Ferreira que não só está fora da luta pelo título como que nem o facto de ainda poder receber o Sporting no Dragão, na 28ª jornada, lhe permitirá discutir sequer o segundo lugar e a entrada direta na Liga dos Campeões. A equipa de José Peseiro não respondeu bem às palavras de Pinto da Costa, a meio da semana, encarando a partida contra o Paços de Ferreira com uma descrença que nem a ampla superioridade estatística em ataques, remates, cantos ou posse de bola disfarçou. A derrota por 1-0 terá sido punição extrema, face à nula ambição atacante da equipa da casa, e não deverá engrossar o lote de “vergonhas” do presidente, mas foi o grito dado do relvado para que se mude de paradigma. Peseiro respondeu à entrevista do presidente trocando Aboubakar e Brahimi por Suk e Varela, mas mantendo a confiança em Sérgio Oliveira, cuja presença constante no onze foi a maior alteração que promoveu desde a sua chegada. O médio, que passou a última temporada no Paços de Ferreira, até foi dos mais ativos na procura do golo, com remates à entrada da área, como aquele com o qual deu a última vitória aos dragões, em Setúbal, antes da interrupção do campeonato para os jogos das seleções. Porém, acabou por ser também ele a ficar ligado ao lance do golo do Paços de Ferreira. Ele e Layun. O lateral mexicano aliviou mal uma bola para os pés de Edson Farías, que lançou o lateral Bruno Santos, tendo este sido mais rápido e agressivo no ataque à bola que Sérgio Oliveira antes de colocar a bola no coração da área, para a conclusão de Diego Jota. Antes de bater Casillas, o remate ainda tabelou em Danilo, por aquela altura a fazer de segundo central por força da troca de Chidozie por André Silva. Faltavam dez minutos para o final do jogo e aquela era apenas a terceira vez que o Paços entrava na área portista. Até aquele momento, porém, mesmo tendo um domínio amplo do jogo (acabou com 18-5 em remates e com 14-1 em cantos), o FC Porto também não vinha fazendo uma exibição de encher o olho. Podia ter marcado? Podia. Na primeira parte teve dois bons lances: um cruzamento de Sérgio Oliveira, que cruzou a pequena área sem que ninguém lhe tocasse, aos 26’, e um slalom de Corona, concluído com um remate atabalhoado já no centro da área, um minuto depois. Na segunda parte, que os dragões atacaram com Brahimi em vez de Corona, as situações de perigo foram surgindo quase sempre em remates de meia-distância ou bolas paradas. Sérgio Oliveira, que chutara um pouco ao lado, aos 50’, obrigou Defendi a uma boa defesa, aos 71’. Entre os dois lances, tanto Chidozie (de cabeça, após um canto) como Maxi Pereira (numa tentativa de chapéu) falharam por pouco o alvo. Depois do golo pacense, Defendi ainda teve de brilhar por mais duas vezes, a impedir o empate, que quase saiu da bota de André Silva, aos 85’, ou da cabeça de Suk, ao quinto minuto de compensação. O resultado, porém, já não mudaria, levando o treinador do Paços de Ferreira, Jorge Simão, a subir à bancada, de forma a festejar a vitória de forma eufórica com os adeptos e a aplaudir com eles a ação dos jogadores. Do outro lado, mesmo não sendo o mais culpado da situação, José Peseiro ficou ainda com menos espaço para reivindicar um lugar no FC Porto de 2016/17.
2016-04-10
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O Sporting manteve a distância relativamente ao Benfica no topo da Liga em dois pontos, ao vencer em casa o Marítimo por 3-1, numa partida que fica marcada pela continuação do bom momento de Teo Gutièrrez e pelo regresso de Slimani aos golos em Alvalade mas também pela confirmação da influência de Adrien Silva na equipa e pelo lançamento de algumas dúvidas acerca da possibilidade de Bruno César continuar a ser lateral-esquerdo. Sem o capitão, o meio-campo leonino perdeu qualidade e agressividade nos momentos defensivos e colocou-se várias vezes à mercê de perigosos ataques maritimistas. Aí, por mais de uma vez, valeram intervenções de qualidade de Rui Patrício, a fazer a diferença entre os dois ataques. Não pode sequer dizer-se que a vitória se justifique com um excelente índice de aproveitamento das ocasiões de golo criadas, pois tal como habitualmente os avançados leoninos pareceram apostados em tirar expressões de desespero da face de Jorge Jesus, como a que o treinador fez logo aos 15’, quando Ruiz perdeu um golo feito, cabeceando ao lado após um cruzamento de Gutièrrez. Não foi caso isolado, porém, e felizmente para os leões foi até um problema comum ao Marítimo, que chegou ao intervalo com o dobro dos remates (seis contra três) da equipa da casa. A forma como o Sporting chegou à vantagem, aliás, foi duplamente afortunada. Edgar Costa já tinha perdido uma ocasião soberana aos 17’, quando surgiu nas costas de Bruno César, mas desviou a bola sobre a barra, mas o momento definidor do primeiro tempo tem a ver com as botas de João Diogo: aos 41’, o lateral maritimista fez uma bela jogada na direita, superou os passivos Ruiz e Bruno César e chegou a uma boa posição para marcar, mas permitiu a defesa de Rui Patrício; um minuto depois, desviou com a ponta da bota um remate de fora da área feito por Teo Gutiérrez, levando a bola a fazer um arco e fugir da tentativa de defesa de Salin, aninhando-se nas redes. Gutièrrez, que até tinha sido o melhor do Sporting na primeira parte, colocava a equipa da casa numa situação de vantagem que, verdadeiramente, ela só mereceu no segundo tempo. Mais alerta, o Sporting entrou bem no segundo tempo, fazendo uma boa meia-hora, na qual chegou aos 3-0 sem grandes dificuldades. Logo aos 53’, William Carvalho fez o segundo, com um remate muito colocado após iniciativa de João Mário. E aos 76’, pouco depois de Aquilani ter estado perto do terceiro, num lance que também teve direito a carambola mas que desta vez Salin conseguiu defender, foi a vez de Slimani pôr fim ao jejum de golos em casa que já datava desde a partida com o Tondela, há três meses, aparecendo na ponta final de mais um remate de João Mário que a defesa maritimista desviou. Com o jogo resolvido, os lisboetas relaxaram e talvez até o tenham feito em demasia, porque o Marítimo pôde assim crescer. Ghazaryan fez o merecido golo de honra insular, aos 81’, e os últimos minutos foram particularmente abertos, com ocasiões de golo de parte a parte, perdidas pelo maritimista Djoussé e pelo sportinguista Matheus (esta escandalosa, após um lance em que os leões apareceram em três para um, num contra-ataque). Nenhum dos dois marcou, pelo que o jogo ficou nuns 3-1 que se aceitam sem problemas, ainda que a margem mínima talvez fosse mais acertada para uma partida que mostrou que o Marítimo vale mais que o 12º lugar que ocupa na tabela e que, defensivamente, o Sporting não vive muito bem com as ausências de Adrien.
2016-04-10
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O Benfica voltou a sentir dificuldades para somar os três pontos numa partida de campeonato no terreno de um dos últimos classificados, ganhando desta vez à Académica, por 2-1, graças a um golo de Jiménez, a cinco minutos do fim da partida. A vitória foi justa, porque foi o Benfica quem esteve sempre por cima no jogo, mas podia ter sido posta em causa pela entrada displicente dos jogadores encarnados, que passaram a primeira meia-hora com a cabeça no jogo da próxima quarta-feira, com o Bayern, e à espera que este, de Coimbra, se resolvesse por si mesmo. A questão não pareceu tanto de fadiga como de foco. Rui Vitória entrou em campo com dez dos onze homens que perderam em Munique na terça-feira – trocou apenas Fejsa por Samaris – mas a forma como o Benfica reagiu ao golo que sofreu à saída do primeiro quarto-de-hora parece indicar que a equipa tinha energia de reserva. A Académica, que Filipe Gouveia escalonou em 30/40 metros à saída da sua própria área, reduzindo o espaço entre linhas e apostando em três defesas-centrais, para ter sempre dois homens sobre Jonas e Mitroglou e alguém à sobra, aproveitava a lentidão do Benfica para conseguir sair com alguma regularidade e impedir o sufoco que a sua colocação em campo poderia deixar adivinhar. E chegou mesmo ao golo, após um corte disparatado de Eliseu, na sequência do qual Pedro Nuno aproveitou a reação tardia de Samaris e Renato Sanches para ganhar o espaço entre linhas e rematar colocado. A perder à saída do primeiro quarto-de-hora, o Benfica reagiu. Pareceu ligar os motores e, como é natural perante uma equipa que defendia tão atrás como a Académica, acabou por aproveitar um dos erros que os da casa cometeram até ao intervalo. João Real, o central solto de Gouveia, tirou duas oportunidades quase seguidas a Gaitán (aos 32’) e Pizzi (aos 37’), mas este redimiu-se aos 39’, com um grande cruzamento, que Mitroglou aproveitou para empatar, de cabeça, nas costas de Iago, que falhou a interceção. Até ao intervalo, Pizzi ainda falhou um golo impossível de falhar, depois de já ter tirado o guarda-redes do caminho e tudo, chutando contra Nuno Piloto, pelo que foi com alguma surpresa que a segunda parte revelou uma Académica outra veze mais certa nas marcações e um Benfica pouco imaginativo. No segundo tempo, apesar de uma superioridade esmagadora em posse de bola e ocupação de terreno, o Benfica quase só se mostrou perigoso em bolas paradas. Pedro Trigueira fez um punhado de boas defesas, primeiro num livre de Gaitán, depois num corte de Ricardo Nascimento que quase dava autogolo, e por fim em dois cabeceamentos de Jonas (após um lançamento lateral) e Jardel (na sequência de um canto). Rui Vitória foi arriscando e meteu mais gente na frente. Depois de trocar Pizzi por Carcela, chamou Talisca para o lugar de Samaris (para ganhar meia-distância) e Raul Jiménez para a vaga de Eliseu, passando a ter três homens na área. E a entrada do mexicano foi decisiva: a 5’ do fim, Jiménez usou as pernas compridas para dominar um cruzamento de André Almeida que parecia ir fugir-lhe e disparou sem hipótese para o guarda-redes da Académica. Depois do 1-0 contra o Boavista, no Bessa, fruto de um golo de Jonas já em tempo de compensação, o Benfica ultrapassava mais uma barreira bem perto do fim de uma partida, aproximando-se do tri-campeonato. Faltam mais cinco.
2016-04-09
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O Benfica sobreviveu ao teste de Munique e fê-lo com personalidade e um futebol adulto que Pep Guardiola até se deu ao luxo de anunciar mas que talvez não esperasse ver tão bem interpretado em campo. É certo que a equipa portuguesa perdeu, que não fez o golo fora que tanto jeito lhe daria – e até teve oportunidades claras para o fazer –, mas conseguiu mesmo assim levar a discussão da eliminatória com o Bayern para o seu estádio, graças a uma derrota pela margem mínima (1-0). O golo de Vidal, logo aos 2’ de jogo, fez temer um descalabro, mas a pouco e pouco Rui Vitória foi juntando as peças e com isso anulando uma das máquinas atacantes mais poderosas desta Liga dos Campeões. Os encarnados tiveram um início difícil, pois Ribery e Douglas Costa, sempre muito abertos nas duas alas, causavam problemas constantes à organização defensiva benfiquista, viciada nas derivações de Pizzi e Gaitán para o espaço interior. Sempre que o Bayern virava o flanco, André Almeida e Eliseu eram apanhados em situação de inferioridade, porque aos extremos o Bayern juntava laterais sempre prontos a ajudar no ataque e médios sem medo de entrar na área. O golo nasce desse “excesso de gente” do Bayern na frente: Ribery veio para dentro, descobriu Lewandowski, que descaiu na esquerda para solicitar o cruzamento de Bernat, entretanto deixado sozinho. E quando o espanhol cruzou, havia na mesma quatro homens do Bayern em zona de finalização. Marcou Vidal, em antecipação a Eliseu. Era o pior começo possível, porque a equipa tremeu. Naturalmente. E nessa altura foi Ederson quem a segurou no jogo, com um punhado de boas intervenções a impedir um 2-0 do qual já seria muito difícil recuperar. Destacou-se o jovem guardião brasileiro em oposição a Lewandowski (16’) e a Müller (20’), mas a partir de dada altura o Benfica corrigiu. Pizzi deixou de se preocupar tanto com o corredor central, obrigando a que Renato Sanches fosse mais posicional – e com isso também menos vistoso, porque o seu futebol atacante ganha com a explosão aquilo que perde se tiver de jogar de pé para pé – e o Benfica começou a ganhar as segundas bolas que vinham de Mitroglou, partindo delas para chegar também à área de Neuer. E a verdade é que, mesmo tendo o Bayern sempre mais bola, o jogo não voltou a estar tão desequilibrado como naqueles primeiros 15 ou 20 minutos. Müller, aos 33’, e Vidal, aos 36’, ainda podiam ter ampliado o marcador, mas ao primeiro opôs-se Ederson, enquanto que o cabeceamento do segundo saiu sobre a barra. E a primeira grande ocasião da segunda parte até pertenceu ao Benfica, quando Jonas se virou bem sobre Alaba e, face a face com Neuer, não conseguiu desviar a bola do guarda-redes alemão. O brasileiro, que viu um cartão amarelo e não poderá estar na segunda mão, teve ainda mais uma situação dourada para empatar, aos 64’, quando um cruzamento de André Almeida o encontrou solto na área, mas o remate acertou em cheio em Javi Martínez, que Guardiola chamara ao campo para substituir Kimmisch, de modo a ganhar presença na área. O maior desafio que o Benfica tinha pela frente nessa altura era segurar os últimos minutos do Bayern, aqueles em que a Juventus, por exemplo, baqueou. Porque contrariar uma equipa que tem tanta bola cansa e a dada altura o mais natural é recolher para perto da área. Guardiola ainda tentou animar o ataque da sua equipa, com Coman e Götze, mas o Bayern nunca chegou ao segundo golo. Ribery, aos 81’, viu Ederson negar-lhe esse intento, após um raide da esquerda para a área. E Lewandowski, aos 89’, preferiu dar a bola a Lahm em vez de tentar bater o guardião brasileiro, que lhe fez a mancha para evitar o que parecia um golo certo: valeu ao Benfica que o passe saiu muito largo e o capitão do Bayern não o captou. O resultado ficava assim numa margem mínima que, não sendo excelente, permite ao Benfica opções sérias para a segunda mão.
2016-04-05
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Último Passe

O Sporting não desiste do campeonato e respondeu à goleada do Benfica ao Sp. Braga com outra goleada ao Belenenses no Restelo, com um resultado quase idêntico (5-2). Livres de todas as outras obrigações e compromissos, os leões voltaram a fazer uma grande exibição, impondo desde o início o seu habitual futebol feito de triangulações e apagando com naturalidade a luz que dava esperança ao Belenenses. Slimani bisou durante a primeira parte, Téo Gutiérrez imitou-o na segunda, tendo Adrien, Bakic e Tiago Silva feito os restantes golos de um segundo tempo em que Julio Velásquez desequilibrou a equipa azul com substituições atacantes que não tiveram o efeito desejado. Mas não foi por aí que o jogo se resolveu. Jorge Jesus voltou a apostar em Bruno César como defesa-esquerdo, mostrando que a solução não lhe serve apenas para os jogos em casa, enquanto que o Belenenses entrava com a equipa esperada, em 4x2x3x1, com Carlos Martins a comandar as operações. A chave da partida foi a forma como, logo desde o início, os jogadores do Sporting iam à procura da bola ainda bem dentro do meio-campo adversário, cortando linhas de passe e conseguindo muitas recuperações altas, das quais partiam para situações de golo, umas atrás das outras. Quando Slimani abriu o marcador, aos 23’, após passe de Adrien, já Jorge Jesus praguejava no banco com tanta falha na finalização: Téo Gutiérrez, por duas vezes, e William Carvalho, noutra, a mais escandalosa de todas, porque caiu com a baliza à mercê, depois de passar o guarda-redes, perderam esse golo de abertura. Não os imitou o argelino, como também não falhou depois, quando Jesus deu para dentro do campo ordens expressas para que fosse ele a bater o penalti cometido por Tiago Almeida sobre Bryan Ruiz; à passagem da meia-hora de jogo. Com 2-0 ao intervalo, Julio Velásquez tentou repetir o que fizera contra o FC Porto. Trocou Tiago Almeida e Tiago Caeiro por Tiago Silva e Juanto, mandou Sturgeon tapar o flanco direito e incentivou a equipa a ir para cima da baliza de Rui Patrício. O problema é que, ao contrário do que sucedeu nesse jogo, desta vez a equipa teve de encarar mais ou menos o mesmo desfecho que tinha enfrentado na sequência da estratégia ofensiva adotada na receção ao Benfica: mais golos nas redes de Ventura. Adrien fez, com um belo remate, o 0-3. Minutos depois, Ruiz voltou a perder um golo cantado por excesso de confiança (que originou um corte oportuno de Gonçalo Brandão).O costa-riquenho deu depois, noutro lance, esse mesmo quarto golo a Téo, que desta vez não falhou. Com o jogo resolvido, o Belenenses ainda reduziu, num livre lateral em que Bakic foi mais forte que Slimani. Téo fez o 5-1, após jogada do recém-entrado Carlos Mané, tendo Tiago Silva fixado o 5-2 final num remate de fora da área. Mais golo, menos golo, a vitória do Sporting não sofre contestação e mantém os leões na corrida ao título. A equipa de Jesus manteve os dois pontos de atraso para o Benfica, que desta forma continua proibido de falhar.
2016-04-04
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O FC Porto voltou a complicar a vida a si próprio, perdendo em casa com o último classificado da Liga, o Tondela, por 1-0, e vendo desaparecerem as últimas esperanças de chegar ao título, com o aumento da desvantagem para o Benfica para nove pontos. O jogo era um desastre à espera de acontecer, face aos antecedentes das duas equipas: um Tondela que só mostra os dentes fora de casa e um FC Porto que vinha sofrendo susto atrás de susto quando defrontava as equipas mais fracas do campeonato no Dragão. O resultado foi ditado por um grande golo de Luís Alberto, aos 59’, mas nem com mais de meia-hora para reverter a situação a equipa de Peseiro foi capaz de chegar sequer ao empate. Valeu-se aí o Tondela de duas grandes intervenções do seu guarda-redes, Cláudio Ramos. O início da partida, na verdade, não fazia prever nada do que acabou por suceder. A avalanche de ataque do FC Porto chegava a ser asfixiante para uma defesa do Tondela que, muitas vezes, nem sabia como conseguia tirar a bola da sua área. Ia sobrevivendo, apenas. Danilo e Aboubakar, este por duas vezes, estiveram à beira de abrir o marcador nuns primeiros 20/25 minutos de grande ritmo e com bons lances de envolvimento da equipa portista, mas o abaixamento da intensidade de jogo que se seguiu, sem um golo portista para servir de farol, permitiu a entrada do Tondela no jogo. E a equipa de Petit começou desde logo a ensaiar alguns contra-ataques, como que a mostrar que pode já estar meio condenada à despromoção mas sabe o que fazer quando lhe dão espaço: já tinha empatado a dois golos em Alvalade, por exemplo. Quem esperasse um FC Porto outra vez desenfreado na sequência do intervalo terá ficado desiludido com a entrada tímida dos dragões na segunda parte. Foi mesmo o Tondela quem mais se mostrou na frente, até ao momento em que marcou mesmo: Luís Alberto aproveitou o espaço que lhe deram à entrada da área para escolher o canto em que colocou a bola, fora do alcance de Casillas. Tal como o Moreirense e o Arouca, também o Tondela se adiantava no Dragão. Definia desde logo o que seria a última meia-hora de jogo: muita gente na área de Cláudio Ramos. E o guarda-redes do Tondela teve ainda tempo de se ligar ao resultado do jogo, com duas manchas gigantes, face a Corona e depois face a Aboubakar, impedindo-os de chegar ao empate. A segunda derrota do FC Porto em casa, a deixar os dragões a nove pontos do líder, arrumou de vez com as esperanças que ainda pudessem ter de chegar ao título. Em contrapartida, a terceira vitória fora de casa do Tondela pode nem ajudar assim tanto a equipa de Petit, que ainda está a oito pontos da linha de água. 
2016-04-04
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Se o Sp. Braga era o maior obstáculo que o Benfica ia ter pela frente no trilho que os encarnados esperam os conduza o tri-campeonato, os 5-1 com que a equipa de Rui Vitória arrumou a questão e a chegada ao centésimo golo da época deixam poucas dúvidas de que o objetivo está cada vez mais próximo e de que não há muitas equipas em Portugal com capacidade para se atravessar à frente deste comboio em movimento. E, no entanto, no arranque, tudo parecia complicar-se. A vantagem deste Benfica é que mesmo quando a dinâmica coletiva não o favorece, como aconteceu no início da partida frente ao Sp. Braga, a qualidade individual dos seus jogadores permite resolver os jogos. Às vezes de forma avassaladora, como aconteceu hoje. Rui Vitória cumpriu o que tinha prometido e não poupou ninguém a pensar em Munique. Queria era ganhar. Mas o início do jogo deve tê-lo deixado a pensar nas soluções que tinha em campo, pois o Sp. Braga teve as duas primeiras ocasiões de golo: Wilson Eduardo cabeceou ao poste logo no primeiro minuto e Rafa desperdiçou um lance isolado na cara de Ederson, fazendo um chapéu ao lado, aos 11’. O Benfica tinha dificuldades em encaixar com as rápidas movimentações interiores dos alas do Sp. Braga e não conseguia pegar no jogo. Até que Mauro ofereceu o 1-0 a Mitroglou, com dois passes errados sucessivos à entrada da sua própria grande área. Com o golo, a equipa de Paulo Fonseca tremeu e desapareceu em termos ofensivos, ao mesmo tempo que o Benfica se agigantou. E, passando a mandar no jogo, contou com a tal qualidade individual dos seus homens, que não cometem erros em situações-limite. Paulo Fonseca terá ansiado pela chegada do intervalo com aquele resultado, de forma a poder voltar a juntar os cacos a tempo de discutir a segunda parte, mas Jonas fez o 2-0 de penalti, a punir mão de André Pinto, aos 37’. E dois minutos depois, em remate de longe que enfatizou o facto de ser ele o maior injustiçado das últimas convocatórias de Fernando Santos, Pizzi chegou aos 3-0. Com a questão do resultado arrumada, a segunda parte seria um mero pró-forma. O Sp. Braga já não entrou tão bem, mas ainda assim voltou a acertar no poste, por intermédio de Hassan. E se isso serviu para alguma coisa foi para voltar a acordar os atacantes encarnados, que fizeram mais dois golos de rajada. Primeiro, Jonas aproveitou as linhas subidas do adversário para se isolar na esquerda e oferecer o 4-0 a Mitroglou e, depois, foi a vez de Samaris, de livre, chegar aos 5-0. O centésimo golo da época – em todas as provas – chegou de forma inédita, pois o Benfica ainda não tinha marcado de livre direto. Até final, quando toda a gente em campo já pensava nos jogos contra o Bayern Munique e o Shakthar Donetsk, que aí vêm a meio da semana, Gaitán e Jardel ainda foram rendidos por Carcela e Nelson Semedo, ficando este ligado a mais um facto inédito: fez o primeiro penalti sofrido pelos encarnados no presente campeonato, ao derrubar Pedro Santos na área. O próprio Pedro Santos reduziu para os 5-1 finais, não beliscando minimamente o estado de euforia com que a equipa do Benfica vai viajar até Munique.
2016-04-01
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Portugal conseguiu uma boa vitória sobre a Bélgica, por 2-1, numa partida em que mostrou menos capacidade para criar desequilíbrios na frente do que tinha feito contra a Bulgária mas onde, em contrapartida, se mostrou uma equipa muito mais segura e disciplinada do que na passada sexta-feira. No último jogo antes da escolha final dos 23 convocados por Fernando Santos, o selecionador deixou algumas pistas acerca não só acerca dos homens que tenciona levar para França mas também da evolução do modelo e da organização que tenciona aplicar quando a competição começar a apertar. A aposta na mobilidade na frente manteve-se, com Nani e Cristiano Ronaldo a funcionarem como os dois elementos mais avançados do esquema. Depois, no entanto, Santos acertou um pouco os equilíbrios na forma como escolheu quatro jogadores que são tendencialmente médios para jogar atrás destes dois avançados. Uma coisa é jogar contra uma Bulgária que só ataca pela certa e outra é fazê-lo contra uma Bélgica que assume o jogo e até acabou a partida com mais posse de bola do que Portugal. No primeiro jogo, Fernando Santos soltou João Mário e Rafa, neste chamou antes André Gomes em vez do atacante bracarense, levando a que a equipa não tivesse sempre tanta gente na frente e se colocasse de forma diferente no momento defensivo. Durante o jogo, mesmo mantendo o modelo, Santos ainda experimentou o 4x3x3, quando chamou Éder ao campo, e o 4x2x3x1, quando sentiu a necessidade de fechar o espaço à frente da sua área com a utilização simultânea de Danilo e William, para controlar uma Bélgica com cada vez mais gente na frente. O jogo, em certa medida, diferiu do de sexta-feira sobretudo na eficácia das finalizações nacionais. Os portugueses não foram exemplares, porém. Após um início em que os belgas pareciam querer monopolizar a bola, Portugal começou a acertar nas combinações ofensivas e, antes de Nani abrir o marcador, aos 20’, na sequência de um bom lance de Cristiano Ronaldo e André Gomes, já o guarda-redes Courtois se tinha oposto com qualidade a remates de João Mário, Adrien, Nani e Ronaldo. E antes de Ronaldo fazer o 2-0, aos 40’, após um excelente cruzamento de João Mário, já este tinha perdido uma ocasião claríssima, traído pela forma como fez a receção a um passe do CR7 que era meio golo. O 2-0 ao intervalo justificava-se, por isso, perfeitamente. Santos trocou então Adrien e João Mário, que já tinham sido titulares na sexta-feira (e essa dupla titularidade é seguramente uma pista acerca dos 23), por Renato Sanches e Bernardo Silva. E Portugal baixou a intensidade. Não tanto pelas substituições – ainda que Renato tenha parecido muito mais tímido do que nos jogos do Benfica, ganhando em disciplina tática o que perde em capacidade de explosão atacante – mas muito pela forma como a equipa decidiu gerir a vantagem. A Bélgica voltou a pegar no jogo e a entrada de Jordan Lukaku, dando profundidade ofensiva ao corredor esquerdo, colocou Portugal em sentido. Santos continuou a sua gestão, trocou Ronaldo e Nani por Quaresma e Éder e mudou para 4x3x3, com Danilo atrás de Renato e André Gomes no meio-campo, e Quaresma e Bernardo abertos no ataque. E foi nessa altura que a Bélgica marcou, numa combinação dos irmãos Lukaku, que Romelu concluiu de cabeça. Nessa altura, com meia-hora para jogar e já sem Ronaldo em campo, Marc Wilmots quis ir à procura do empate. Chamou Batsuayi para jogar perto de Lukaku na frente e Portugal tremeu até ao momento em que Fernando Santos mudou para o 4x2x3x1, com William Carvalho ao lado de Danilo como médios mais recuados (outra pista, a indicar que é possível tê-los em simultâneo em campo). Com a troca, a equipa portuguesa fechou o jogo e segurou o 2-1 até final, vindo mesmo a ter uma ou outra ocasião para ampliar a vantagem. Ainda assim, mesmo pela margem mínima, a vitória chegou para animar um pouco os semblantes, que tão carregados tinham saído depois da derrota com a Bulgária. Afinal, mesmo tendo em conta que à Bélgica faltavam vários titulares, a seleção deixou indicações de que pode ser competitiva.
2016-03-30
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Há três ou quatro coisas evidentes acerca dos últimos anos do Manchester United. E dos próximos, também. Uma é que a seguir a uma liderança forte vem sempre uma liderança fraca, que a seguir a um grande campeão aparecem sempre alguns treinadores que são “para queimar”. Outra é que, seja por saber bem disso – como sabe acerca de todas as verdades clássicas do futebol e do interior dos balneários – ou porque gostava de Mourinho mas era à distância e longe do clube dele, Alex Ferguson nunca quis o treinador português em Old Trafford. E a última é que, quando o fantasma de Ferguson está a deixar de assombrar Manchester, Ryan Giggs está a mover demasiado rápido as peças do seu tabuleiro. A conversa acerca da formação é disso exemplo. Para quem não acompanhou, os jornais ingleses dão José Mourinho como provável novo manager do United e Giggs, o discípulo dileto do mestre escocês, porque foi formado por ele em todas as dimensões da sua personalidade futebolística (e não só), começa a temer não poder dar o salto do lugar de adjunto de Van Gaal para o cadeirão principal. Vai daí, como sabe que não pode contestar abertamente a eventual entrada de Mourinho – que é só isso mesmo, eventual – fá-lo no plano conceptual. Podia ter olhado para o futebol, pois o das equipas de Mourinho tem sido sempre mais especulativo do que a tradição no United, mas optou por se centrar noutro aspeto: a obsessão do português pelos títulos e o seu fraco historial de aposta na juventude. É verdade que Mourinho não ficou propriamente conhecido no Chelsea por lançar muitos jovens da academia. Mas dizer, como disse Giggs, que a aposta na formação “faz parte da história do clube” e “distingue o Manchester United das outras equipas” é conversa para inglês ouvir. Ao contrário do que diz Giggs, o adepto do United não quer um miúdo da casa a brilhar em Old Trafford. Quer é ver a equipa brilhar e ganhar. E esta conclusão não nasce apenas da leitura da psicologia coletiva que define qualquer grupo de adeptos. Basta olhar para a história e, sim, para Alex Ferguson. O tal que dizia que “não é possível ganhar nada com os miúdos e que só mudou de ideias quando teve pela frente uma geração absolutamente fenomenal, da qual faziam parte o próprio Giggs, os irmãos Neville, Beckham, Sharpe, Butt e Scholes. O próximo treinador do United, seja ele Giggs ou Mourinho, não tem de apostar em jogadores da casa ou de fora, novos ou velhos, europeus ou aisáticos, louros ou morenos. Só tem de fazer uma coisa, que é aquilo que o United deixou de fazer com David Moyes e Louis van Gaal. Tem de ganhar. E se, como aconteceu com a “Classe de 92” e Ferguson, os melhores jogadores para o fazer forem miúdos, deve fazê-lo com miúdos. Se não tiver um grupo assim a crescer na academia, não pode impor os miúdos como escolhas numa equipa com tamanha urgência de vitória.
2016-03-29
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Uma noite memorável do guarda-redes Stoyanov e o desacerto global dos portugueses na hora da finalização levaram a seleção nacional a perder por 1-0 com uma insípida Bulgária, em Leiria, no primeiro jogo de preparação para o Europeu de 2016. O resultado foi o pior de uma noite em que foi possível perceber como quer Fernando Santos resolver a questão do enquadramento de Ronaldo no onze. O selecionador quer um ataque feito de mobilidade total, um modelo que vai precisar de trabalho de aperfeiçoamento e que terá implicações na forma como a equipa se organiza defensivamente, mas que chegou para criar ocasiões de golo mais que suficientes para ganhar este jogo com tranquilidade: Portugal acabou com 27 remates contra quatro, com 54 ataques contra doze, com 19 cantos a três. Este novo modelo prefigura ainda uma alteração identitária numa seleção que ultimamente se habituara a jogar muito atrás e que agora, talvez por ter a noção de que vai enfrentar muitas equipas com propensão para jogar na expectativa, parece querer meter mais ênfase na frente. Ronaldo e Nani, os dois pontas-de-lança móveis escalados por Santos, alternavam bem entre a busca dos corredores laterais – sempre chamando Rafa e João Mário, os dois médios-ala, a posições interiores –, a solicitação do passe em profundidade para o espaço nas costas da defesa búlgara ou o recuo em desmarcações de apoio para combinar com o meio-campo. Em resultado disso, os portugueses perderam várias ocasiões de golo cantado, incluindo um penalti, em que o CR7 permitiu a defesa de Stoyanov, a meio da segunda parte. O início de jogo, então, foi de alvoroço total, com oito situações de finalização nos primeiros dez minutos a provarem que o modelo pode funcionar. Mas da mesma forma que é importante não permitir que a depressão pelo resultado negativo tome conta da equipa, também não convém que se entre em euforia à conta do bom funcionamento do novo modelo. Porque a questão é que ele nem sempre funcionou. Por um lado, a desorganização criativa à base da qual funciona o ataque tem repercussões no modo como a equipa defende, pois muitas vezes ela está desequilibrada no momento da perda. Via-se que Portugal metia muita gente na frente, que dava liberdade total a quem por lá andava – e a própria coordenação entre todos melhorará com o tempo de trabalho e a repetição – mas que depois sofria na transição defensiva, sobretudo se falhava a primeira zona de pressão. Essa pareceu ser a preocupação principal de Santos: a seleção procurava estancar cedo a saída de bola dos búlgaros, chegou mesmo a fazer várias recuperações altas, fruto da amplitude de movimentos de William Carvalho e Adrien Silva, os dois médios-centro, mas se não conseguia ganhar a bola logo ali permitia invariavelmente que se abrissem auto-estradas para rápidos ataques do adversário. Num deles apareceu o golo de Marcelinho, a dar vantagem à Bulgária. Até final nunca mais Portugal teve momentos tão avassaladores como aqueles primeiros 15 minutos de jogo. Mas, apesar da quebra de rendimento de alguns jogadores à medida que o jogo avançava – Nani e João Mário pareceram perder concentração na segunda parte – continuou a criar várias situações para evitar a derrota. O sorriso desesperado de Ronaldo quando, já depois de ter perdido o penalti, viu Stoyanov negar-lhe mais um golo certo com uma defesa impossível, dizia tudo: não era noite de Portugal. Resta a Fernando Santos acreditar que pode ter sido a alvorada de um novo jogar.
2016-03-26
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Com a habilidade que se lhe reconhece para as palavras, o poeta uruguaio Eduardo Galeano veio um dia contestar que à seleção holandesa lhe chamassem “Laranja Mecânica”. Porque aquela “obra da imaginação, que desconcertava todos com as suas mudanças incessantes” não tinha “nada de mecânico”. E não tinha, de facto. Aqueles jogadores não eram máquinas, aquele futebol não era robotizado. O que aquela equipa e aquele futebol tinham era o que Johan Cruijff podia dar: cérebro. Porque, como dizia Cruijff, “o futebol joga-se com o cérebro”. Johan Cruijff foi a mais espantosa mente que alguma vez pensou futebol. Era uma mente retorcida, que escolhia caminhos tortuosos para chegar onde queria, mas nunca deixou de ser brilhante e de “viver e morrer pelas suas próprias ideias”, como o próprio não se cansava de dizer acerca do que devia ser a cartilha maternal de um treinador. Algumas das suas ideias explicou-mas uma vez, numa rápida entrevista de uns dez minutos, feita a contragosto, quando o encostei a uma parede nas catacumbas de Camp Nou, depois de Ricard Maxencs, o já falecido ex-diretor de imprensa do Barça, me ter dito que se corresse por um certo corredor talvez ainda o apanhasse a caminho do carro. Eu lembrei-o de que estava em Barcelona há quase uma semana para falar com ele, ele acedeu e debitou aquilo que para ele deviam ser lugares-comuns mas que para mim foram os dez minutos em que mais aprendi sobre futebol até àquela data. As ideias de Cruijff eram simples. Tão simples que parece impossível nunca terem ocorrido a toda a gente. Cá vai uma: “a bola é mais rápida que qualquer jogador e ainda por cima não se cansa”. Básico? Sem dúvida. Mas como o próprio Cruijff dizia, “a solução mais simples é sempre a mais eficaz”. “E muitas vezes a mais difícil de pôr em prática” – mas aí entra a parte do cérebro. O mais simples era, tanto naquele Ajax dos inícios dos anos 70, como foi depois na seleção holandesa ou no Barcelona que ele criou e que deixou de herança a Pep Guardiola, fazer girar a bola, manter a posse, jogar a dois toques com abertura permanente de linhas de passe através da formação de vários triângulos no campo. Em tempos chamaram a isso “futebol total”, porque para o pôr em prática qualquer equipa tinha que extravasar os limites do sistema em que se dispunha no início dos jogos. E para isso era preciso criar uma dinâmica coletiva, uma dinâmica de adaptação constante, de perceção permanente do que mais convinha ao grupo. Se o mais importante era o lateral direito à procura do espaço no terreno do médio do outro lado, era isso que ele fazia. Desde que a equipa respeitasse sempre, como dizia Galeano, essa forma de “desorganização organizada” que lhe permitia ser harmoniosa. Isto é: desde que os seus componentes fossem inteligentes e que a ligá-los em campo estivesse o tal cérebro superior. E aí residia a diferença entre uma grande equipa e uma equipa armada em grande. As equipas de Cruijff foram grandes, porque Cruijff era grande. Era grande a jogar, era grande a pensar, era grande nos afetos e nos ódios, também. Escolhia o campo e ia até ao fim. Foi assim no Ajax e no Barcelona, as suas duas paixões, onde exerceu magistérios de influência quando deixou de a ter em campo, como jogador ou treinador. E com isso formou um séquito de discípulos, que tanto têm dado ao futebol nos últimos anos. Porque todos têm bem presente a mais fundamental das ideias de Cruijff: o futebol joga-se com o cérebro. E o dele já não pensa, mas deixou marcas.
2016-03-24
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O regresso de Julen Lopetegui ao palco cénico do futebol espanhol, por via de uma entrevista à Marca, a falar do Real Madrid e do conhecimento que tem de boa parte do plantel de Zidane, não foi propriamente uma surpresa. O basco tem cartel em Espanha, pelo trabalho que por lá fez, levou o FC Porto aos quartos-de-final da Liga dos Campeões e não há-de ser por não ter sido campeão em Portugal que os espanhóis deixam de considerá-lo. Aliás, em boa verdade, não creio que Lopetegui seja mau treinador: já vi piores a dirigir o Real Madrid, clube ao qual os espanhóis dizem agora que ele pode chegar. É certo que o FC Porto não ganhou nenhuma das duas últimas Ligas nem está bem colocado para ganhar a atual, mas o apuramento de responsabilidades não começa nem acaba no treinador. Se não forem campeões este ano, os dragões vão para o terceiro ano seguido sem ganhar a Liga – e para a segunda série de três anos sem lá chegar desde que Pinto da Costa se sentou na cadeira da presidência. A primeira, de 1999 a 2002, teve como treinadores Fernando Santos, Octávio Machado e José Mourinho, que foi também quem operou a revolução que levou o clube de volta a caminhos ganhadores. Desta vez, Paulo Fonseca e Julen Lopetegui já estão na lista negra, só faltando ver se José Peseiro a continua ou interrompe, mas tal como há década e meia a ideia que fica é a de que os treinadores não foram os mais culpados em dois dos três anos deste série. Há dois anos, Paulo Fonseca, que está a fazer um excelente trabalho em Braga e virá a ser um nome incontornável da nova geração de treinadores portugueses – a par de Marco Silva – teve ao dispor um plantel fraco, demasiado fraco para as aspirações portistas. Não sendo fraco, o grupo deste ano é bastante desequilibrado, com excesso de opções e de concorrência para umas posições e falta de alternativas para outras – e aí alguém na SAD deve ser chamado a dar explicações. Resta justificar a época passada, na qual Lopetegui teve um grupo de luxo, aquele que ainda acho que era o melhor plantel da Liga. E perdeu-a para o Benfica. Não por falta de uma boa ideia de jogo, que isso o FC Porto também tinha. O que faltou ao primeiro FC Porto de Lopetegui foi um treinador com mais conhecimento da realidade nacional e menos soberba, um treinador que não menosprezasse alguns dos quintais e algumas das equipas que jogam a Liga portuguesa e que valorizasse mais aquilo que Vítor Pereira, por exemplo, sempre teve como claro. O “Somos Porto” que o treinador de Espinho tantas vezes repetiu nunca entrou na cabeça do treinador basco e foi por isso que não conseguiu convencer os seus jogadores, por exemplo, que era mais importante ganhar na Choupana ao Nacional depois de o Benfica ter perdido com o Rio Ave em Vila do Conde do que fazer boa figura na eliminatória com o Bayern Munique. O problema de Lopetegui foi ter treinado o FC Porto a pensar que estava no Real Madrid. E nisso os espanhóis são muito práticos: se ele alguma vez treinar o Real Madrid, o problema desaparece.
2016-03-23
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É impossível que o futebol português passe completamente ao lado das acusações feitas por Carlos Cruz no que respeita à alegada compra de votos por parte da candidatura portuguesa à organização do Euro’2004. E no entanto é isso que está a acontecer. Um dia depois de essas acusações terem sido tornadas públicas, na pré-publicação da autobiografia do ex-apresentador de televisão, pelo jornal “A Bola”, não há notícias de seguimento nem há reações oficiais, da Federação, dos clubes, da UEFA, da polícia... Nada. E isso incomoda-me. Carlos Cruz pode ter caído em desgraça quando foi condenado por alegados abusos sexuais a menores, no processo Casa Pia, mas não deixou de ser um dos principais responsáveis pelo sucesso da candidatura portuguesa, um dos principais executivos na empreitada que trouxe o Campeonato da Europa para os estádios nacionais. Lembro-me de entrevistar Cruz, naquele tempo, e de ele mandar vir uns pregos para comer durante a conversa, porque o desdobramento em reuniões atrás de reuniões não lhe deixava sequer tempo para almoçar. Portanto, se há coisa de que Cruz não pode ser acusado é de não ter estado por dentro das coisas, de não saber do que fala. E, bem ou mal intencionado, ele acusa claramente Gilberto Madaíl e José Sócrates de terem comprado votos a presidentes de federações estrangeiras, com envelopes recheados com dinheiro. Se o que Cruz escreveu foi verdade, isso cabe à polícia investigar. Tendo em conta o que se sabe hoje acerca da forma como se ganham e perdem organizações deste calibre, não me custa admitir que a história possa ter um fundo de verdade. Mas para já, o que queria mesmo era ter a certeza do normal funcionamento das instituições e de ser informado para além do que fez Jonas nos treinos da seleção do Brasil, do que disse Gaitán acerca do futuro do Benfica, se Peseiro sente o FC Porto e se os jornais turcos dizem que o Sporting está interessado em Raul Meireles. São tempos estranhos, estes que vivemos.
2016-03-23
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Jonas respondeu à convocatória para a seleção do Brasil com um golo fundamental, encontrando ao terceiro minuto de descontos a solução para o bloqueio a que o Benfica estava a ser submetido por parte do Boavista no Estádio do Bessa e assegurando a vitória por 1-0 que permite à equipa de Rui Vitória manter-se isolado no comando da Liga. O Boavista tinha sido, até então, taticamente perfeito, anulando a arma principal do ataque encarnado, que são as combinações pelo espaço interior, mas os bicampeões nacionais mudaram de cara nos últimos minutos e, num lance direto de Eliseu para a cabeça de Carcela, deixaram Jonas na cara do guarda-redes Mika. O brasileiro fez o golo e o líder manteve a vantagem. Entendendo que o Benfica se torna tanto mais perigoso quanto consegue ganhar ascendente à frente da área, seja pelo recuo de Jonas, pelas diagonais de Pizzi ou pelas arrancadas de Renato Sanches, Erwin Sánchez colocou Idris e Tahar à frente da defesa e os dois médios foram fundamentais na forma como a equipa da casa conseguiu bloquear o ataque encarnado. Privado de Mitroglou, que é fundamental na busca da profundidade – que entre outras coisas obriga a última linha do adversário a recuar e abre espaço para a entrada dos médios – e da criatividade de Gaitán, o Benfica foi sentindo dificuldades para ser perigoso. Se no primeiro tempo ainda se mostrou num pontapé de moinho de Jiménez e num remate de Pizzi, o primeiro detido por Mika e o segundo a sair ao lado, na segunda parte nem isso ia conseguindo. Era, ao invés, o Boavista quem saía com a-propósito, fruto da capacidade de Ruben Ribeiro para segurar a bola na frente e da velocidade de Zé Manuel. Rui Vitória mexeu. Colocou Carcela em vez de Salvio, que ainda não tem a capacidade para fazer esquecer a longa paragem a que foi submetido. Depois trocou Nelson Semedo por Talisca, baixando André Almeida para a direita da defesa. E por fim reforçou o ataque com a estreia de Jovic em vez de Pizzi. Mas era o Boavista que, em rápidos contra-ataques, como um que levou a um remate de Luisinho, ameaçava marcar. Até que a qualidade individual de Jonas se fez notar. Ao terceiro minuto de descontos, surgiu o tal pontapé longo de Eliseu, a cabeça de Carcela e a capacidade para Jonas se adiantar ao seu marcador direto e marcar, de pé esquerdo e de primeira. A inédita 11ª vitória consecutiva do Benfica como visitante teve a marca do seu melhor jogador. E, se chegar, o tricampeonato também a terá, porque terá passado por aqui.
2016-03-20
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A confirmação de que Sérgio Oliveira é opção válida para o meio-campo foi, juntamente com os três pontos somados, a boa notícia para o FC Porto na noite chuvosa em que venceu o Vitória, em Setúbal, por 1-0, mantendo a distância relativamente ao Sporting e ajudando a pressionar o Benfica. O jovem médio português, aquele que menos contava para Julen Lopetegui, deu dinâmica ao meio-campo dos dragões e fez, com um remate de ressaca à entrada da área, o golo da vitória justa mas nunca brilhante ou tranquila dos dragões. Mesmo contra um Vitória que confirmou ter ficado a perder muito como equipa com as movimentações do mercado de Janeiro. No final do jogo, José Peseiro elogiou a exibição dos seus jogadores, mas a verdade é que não havia ali muito a admirar. O FC Porto mandou no jogo? Sim. Podia ter feito mais golos? Também, é certo, sobretudo na primeira parte, na qual criou três ou quatro situações de perigo para a baliza de Raeder, marcando precisamente na última, quando já cheirava a intervalo e o 0-0 subsistia teimosamente no marcador. Mas nunca exibiu um futebol fluído, nunca foi avassalador, perante um adversário que, quando decidiu subir o bloco, no segundo tempo, também podia ter chegado ao golo, porque meteu a bola na área onde os dragões costumam errar mais: a sua própria. A ideia que ficou foi a de que, causticado por vir com tantos jogos consecutivos sempre a sofrer golos, o FC Porto colocou a tónica na necessidade de evitar desequilíbrios a atacar e que, por via disso, nunca foi tão envolvente como chegou a ser, a espaços, na primeira parte contra o U. Madeira ou em momentos do jogo da Luz, contra o Benfica. Depois, é certo, que há o reverso da medalha: a equipa mostrou-se mais segura defensivamente. Mas nunca matou o jogo contra um Vitória que já não tem nada a ver com a equipa da primeira volta. Até pode acontecer que, mesmo a jogar como está a jogar, o FC Porto ganhe os oito jogos que lhe faltam para acabar a época – sete na Liga e a final da Taça de Portugal, contra o Sp. Braga. Se o fizer, o final de época acabará por ser feliz, fazendo desaparecer da cabeça dos adeptos boa parte das dúvidas que ali se instalaram quando de lá saiu o alívio por ver Lopetegui ir embora. Se o conseguir, Peseiro pode finalmente ter o tempo para trabalhar que tem reclamado ultimamente, equilibrar um plantel que foi feito para outro futebol e que também não ficou a ganhar nada com os ajustes feitos em andamento. Para já, no entanto, tudo o que Peseiro vai ter são duas semanas, fruto da interrupção para os compromissos das seleções nacionais. E bem precisa de as aproveitar para consolidar as ideias que tem tentado transmitir aos jogadores.
2016-03-20
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Uma exibição quase perfeita do Sporting valeu à equipa de Jorge Jesus uma goleada (5-1) sobre um Arouca que chegava a Alvalade com o lastro do quinto lugar e de quase nove noras seguidas sem sofrer golos. O resultado permitiu que os leões reassumissem, à condição, a liderança da Liga, à espera do jogo que o Benfica fará amanhã no Bessa, mas esse primeiro lugar provisório nem terá sido tão festejado como o regresso aos golos de Bryan Ruiz e Téo Gutièrrez ou a grande noite de João Mário. Ao contrário do habitual, o Sporting de hoje teve uma boa relação com o golo – e por aí se explica em parte o resultado amplo que conseguiu. Se o que é normal é os leões precisarem de várias ocasiões para desbloquearem um resultado, desta vez os níveis de eficácia do seu ataque estiveram em alta. Ruiz ainda teve na cabeça o 1-0 antes do primeiro golo ser efetivamente marcado, mas nem pelo facto de ter desviado para fora um cruzamento perfeito do improvisado lateral esquerdo Bruno César a abertura do marcador demorou: ao quarto-de-hora, após um canto ganho ao primeiro poste por Coates, Téo Gutièrrez apareceu a desviar ao segundo, na cara do guarda-redes. O Arouca, que até já beneficiara de um canto e dois livres laterais perto da área de Rui Patrício, mostrava na mesma os dentes. Mas isso servia-lhe de pouco: Walter González perdeu um mano a mano com Rui Patrício, após lance veloz na esquerda, aos 17’, e na resposta os leões ampliaram para 2-0, por João Mário, após assistência de Téo. O Sporting tem sentido na pele como é ingrato um resultado de 2-0 e a equipa de Lito Vidigal sabia disso. Só que os leões continuavam pressionantes sem bola e acertados nas triangulações no último terço, criando mais situações de golo. João Mário bisou aos 32’, a culminar uma grande jogada de Adrien Silva e, antes do intervalo, Téo imitou o colega, voltando a surgir ao segundo poste após um canto, desta vez para emendar na cara do guarda-redes uma primeira bola ganha por William Carvalho. Se com 4-0 ao intervalo já não havia dúvidas, o quinto golo, marcado por Ruiz com um remate ao ângulo, após passe de Slimani, aos 60’, só terá servido mesmo para que o costa-riquenho afastasse de vez a má sina que vinha experimentando nos últimos jogos, nos quais falhou golos fáceis. Foi a deixa perfeita para que Jesus o tirasse de campo e lhe desse duas coisas: repouso e moral, vindo das bancadas como uma ovação que mostrou que os adeptos estão com ele. Antes, já Adrien e Slimani, que estão a um cartão amarelo da suspensão, tinham dado os seus lugares a Aquilani e Barcos, este ainda uma incógnita, quase dois meses depois de ter chegado. O Arouca ainda reduziu, por Gegé, após um canto, dando ao resultado uma expressão diferente, mas cedo terá entendido que deste jogo não ia levar nada. A guerra de Lito Vidigal é outra. E a do Sporting começa amanhã, no Bessa, onde os leões têm de esperar que o Boavista tire pontos ao Benfica.
2016-03-19
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A chamada de Renato Sanches aos jogos que Portugal vai fazer com a Bulgária e a Bélgica, no final deste mês, é absolutamente normal e esperada. Por muito que ela seja contestada, já se viram coisas muito mais estranhas. Aliás, no caso do médio benfiquista, estranho seria que Fernando Santos não aproveitasse os últimos jogos antes da convocatória final para o Europeu para ver a nova coqueluche do Benfica num ambiente de seleção A ao qual regressa Ronaldo, em princípio para voltar a jogar como ponta-de-lança. Renato Sanches tem passado nas seleções, pode dar à equipa nacional coisas que ela não tem em abundância, como a amplitude territorial em que se move, a meia-distância ou o arranque forte com bola. Mesmo longe de ser um jogador feito – ainda se lhe notam inconsistências, sobretudo nos comportamentos sem bola – tem sido fundamental na recuperação que trouxe o Benfica dos sete pontos de atraso que tinha quando ele entrou no onze para os dois de avanço que tem neste momento. Não tem um par de jogos como titular, como alguns elementos chamados no passado recente à seleção nacional, pelo que se justifica plenamente a sua convocatória. Aliás, em rigor, toda a convocatória de Fernando Santos parece absolutamente normal. É normal eu estejam Adrien e João Mário, os dois melhores médios do Sporting que, ainda assim, faz figura de desafiante na corrida ao título. É normal que apareçam William e Danilo, quanto mais não seja para Fernando Santos perceber qual dos dois quer levar ao Europeu, uma vez que não será fácil que caibam ambos. É normal que regressem Ronaldo, Danny e Ricardo Carvalho. Aliás, neste caso, o que foi anormal foi não terem estado na última convocatória. É normal que esteja Rafa, um fenómeno de aceleração de jogo no último terço, que pode ter um papel bem mais ativo do que há dois anos, quando foi a surpresa na lista para o Mundial. É normal que caiam Ruben Neves e Gonçalo Guedes, porque deixaram de ser opção no FC Porto e no Benfica. A única coisa anormal é mesmo que ainda esteja por testar um ponta-de-lança capaz de jogar com Ronaldo, algo que o regresso de Éder não vem propriamente resolver. O que me leva a crer cada vez mais que a ideia de Fernando Santos é mesmo a de sacrificar o CR7 na posição de avançado de referência. Talvez nem haja outra solução, mas a verdade é que não foi feito tudo para a encontrar.
2016-03-18
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Benfica e Sp. Braga não foram bafejados pela sorte nos sorteios dos quartos-de-final da Liga dos Campeões e da Liga Europa. Aos bicampeões nacionais saiu o Bayern, um dos tubarões que havia no sorteio – e havia quatro –, a tornar muito complicado pensar mais à frente nesta competição, enquanto que a equipa minhota terá de defrontar o Shakthar Donetsk, poderosa equipa do Leste europeu, que já se sabe vai ganhando ritmo competitivo à medida que a Primavera substitui o inverno. Não sendo proibido pensar em apuramentos, o que mais interessa agora é ver até que ponto a UEFA justifica um descentrar de ideias na Liga. Ora isso não será um problema para o Sp. Braga, que está a onde pontos do terceiro lugar, tem o quinto a seis pontos ainda assim geríveis e pode dar-se ao luxo de pensar sobretudo nas provas a eliminar que tem pela frente: meia-final da Taça da Liga com o Benfica, final da Taça de Portugal com o FC Porto e quartos-de-final da Liga Europa, com o Shakthar. Ainda assim, e mesmo tendo em conta que tem um plantel muito equilibrado, com 16/17 jogadores do mesmo nível, Paulo Fonseca deve lembrar-se que já teve o quinto lugar mais longe e que não lhe convirá tirar por inteiro a cabeça da Liga portuguesa. O Shakthar, ainda por cima, sendo um adversário forte, não é um opositor que pareça inultrapassável. Os ucranianos acabam de afastar o Anderlecht, com duas vitórias, depois de mesmo em férias ativas terem eliminado o Schalke, sem sofrer golos; estão a apenas três pontos do Dynamo Kiev no topo da sua própria Liga e além disso já vão chegar a Abril mais rodados que neste momento, mas não têm um histórico recente nada famoso contra equipas portuguesas. Muito mais complicada é a tarefa à frente do Benfica. É verdade que, sem alguns dos seus titulares, este Bayern Munique parece uma equipa manejável. A Juventus esteve a um minuto de eliminar os alemães, que durante uma hora pareceram irreconhecíveis, na lentidão com que saíam a jogar, por exemplo. Mas o peso competitivo de um plantel que, recorde-se, ainda há um ano goleou o FC Porto em Munique é incomensurável – e isso viu-se na forma como fez o 2-2 no último minuto e partiu dali para ganhar por 4-2 no prolongamento. Só um super-Benfica poderá pensar em equilibrar a eliminatória com o Bayern – e o FC Porto, apesar de tudo, ainda ganhou a primeira mão, há um ano, antes de soçobrar em Munique – e não é líquido que Rui Vitória esteja em condições para meter tudo na Liga dos Campeões, deixando momentaneamente para segundo plano a Liga portuguesa. É claro que qualquer treinador dirá que aborda um jogo de cada vez, mas alguém duvida que a estratégia e o comportamento do FC Porto no jogo do título da época passada (0-0 com o Benfica na Luz) foi condicionado pelo 6-1 que os dragões tinham apanhado em Munique uns dias antes? Porque uma eliminatória com o Bayern pode pesar de inúmeras formas e a física nem é a mais importante.
2016-03-18
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O Benfica ganhou com facilidade ao Tondela, por 4-1, e manteve a liderança isolada na Liga, graças a uma demonstração de superioridade natural quando se trata de um jogo em que primeiro recebe o último classificado. A noite foi absolutamente normal para a equipa de Rui Vitória. O bicampeão nacional nem precisou de meter o pé no acelerador – marcou duas vezes de bola parada e cedo chegou a uma tranquilizadora vantagem de dois golos – e teve direito a mais um bis de Jonas, que assim manteve a distância em relação a Slimani no topo da tabela dos goleadores e voltou a gritar bem alto que têm de contar com ele para a disputa da Bota de Ouro. No fim, aproveitou para gerir quem precisa de descansar, quem tem de ganhar ritmo e até quem, como Mitroglou, precisava de limpar o cadastro com um amarelo. Gaitán e Fejsa, por exemplo, saíram a meio da segunda parte, altura em que Rui Vitória chamou outros jogadores, como Salvio ou Gonçalo Guedes, que precisam de ganhar ritmo para poderem contar na apertada ponta final de época que se apresenta à equipa e em que, entre Liga, Taça da Liga e Champions, todos farão falta. Aliás, já o onze inicial apresentava algumas novidades, como a inclusão de Talisca no lugar do castigado Renato Sanches a meio-campo ou de Nelson Semedo em vez de André Almeida na direita da defesa. Antes que qualquer dos dois mostrasse o que quer que fosse, porém, o Benfica chegou ao golo. Marcou-o Jardel, absolutamente à vontade na sequência de um canto, logo aos 11’, a mostrar que o problema do Tondela nunca foi a capacidade para criar futebol. Ao contrário do que lhe aconteceu quando trouxe o Boavista à Luz, Petit montou desta vez uma equipa positiva, sempre capaz de chegar perto da baliza de Ederson com gente em números interessantes, mas muito mais incompetente no aspeto defensivo. Não foi esse o caso do segundo golo do Benfica, uma magistral jogada coletiva, com contribuição dupla de Gaitán, que ofereceu o remate final a Jonas e tornou o jogo numa tarefa impossível para os beirões, com apenas 24 minutos de jogo. O Benfica passou então a gerir. E só aos 69’ matou de vez a partida, com mais um golo de bola parada: lançamento lateral de Eliseu, desvio ao primeiro poste entre Jardel e um defensor do Tondela, e cabeça de Jonas, sem ninguém por perto mas a ter de meter ele força no remate, tão mortiça vinha a bola. Mitroglou ainda fez o 4-0, num lance em que parecia ir de moto pelo meio dos dois centrais do Tondela – ganhou-lhes uns cinco metros em 20 – e que aproveitou para tirar a camisola nos festejos, colocando-se assim fora da deslocação ao Bessa, na próxima jornada, onde o Benfica também não terá Jardel. No final, o Tondela ainda fez um golo, pelo inevitável Nathan Júnior, a premiar o espírito positivo com que a equipa entrou no jogo. Para que o Tondela se salve, porém, vai ser preciso defender melhor.
2016-03-14
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Um golo de Corona, a aproveitar nos últimos minutos a acumulação de gente na área por parte do FC Porto para tabelar com Suk antes de rematar com potência e colocação para o fundo das redes, manteve a equipa de José Peseiro viva na Liga, porque permitiu a dramática vitória por 3-2 sobre o U. Madeira. Naquela altura, já poucos dos adeptos presentes no Dragão acreditariam no sucesso que parecia inevitável quando a equipa chegou aos 2-0, a abrir a segunda parte. Mas aí revelou-se a propensão recente deste FC Porto para a reanimação de adversários moribundos, com dois erros seguidos a permitirem os golos de Danilo Dias que quase tiravam dois pontos de que a equipa azul e branca estava tão necessitada. No fim do jogo, Peseiro reforçou duas ideias recorrentes. A de que as constantes lesões e castigos tiram consistência à equipa, que se vê constantemente forçada a mudar e por isso não assimila os processos, e a de que, apesar de tudo, a equipa está viva, que a falta de consistência ainda não a matou. Contra o U. Madeira, porém, obrigou-a a trabalhos forçados, depois de uma primeira parte com bom futebol – ainda que não isenta de erros defensivos. Sem os dois centrais titulares – os dois que restam no plantel – Peseiro compôs a charneira central do setor mais recuado com Chidozie, uma vez mais requisitado à equipa B, e Layun, desviado da esquerda, para onde entrou José Angel. Depois, como além de Marcano e Indi faltavam também Danilo e André André, o treinador chamou Ruben Neves e Sérgio Oliveira, tendo este sido dos melhores num primeiro tempo com movimentos ofensivos de qualidade. Foi dele, aliás, o passe de rotura que Maxi Pereira aproveitou para oferecer o primeiro golo a Aboubakar, também ele regressado à titularidade. Acontece que aos tais movimentos ofensivos de qualidade, o FC Porto continua a somar a tal inconsistência defensiva preocupante, que se deve à constante necessidade de fazer mudanças, com disse Peseiro, mas também a uma escassez de alternativas de qualidade no plantel que, por uma questão de solidariedade institucional com a administração, o treinador não reconheceu. Miguel Cardoso falhou o empate ainda na primeira parte, num lance em que teve tudo para o fazer, e como Hererra, num belo remate em arco que foi o momento da noite, fez o 2-0 logo a abrir o segundo tempo, a questão do resultado parecia resolvida. Só que aí voltou a entrar a inconsistência defensiva deste FC Porto, em dois erros seguidos que deram dois golos a Danilo Dias, entretanto lançado por Norton de Matos no jogo. Com pouco mais de 20 minutos para o fim, o FC Porto apertou na frente, passando a jogar com dois pontas-de-lança, fruto da junção de Suk (que entrou para o lugar de Ruben Neves) a Aboubakar. Só que isso deixava espaço atrás e a ideia que ficou foi a de que os jogadores do U. Madeira ainda sonharam com a reviravolta completa num terceiro golo em contra-ataque. Acabou por ser o FC Porto a marcar, no tal lance de Corona, alcançando uma vitória tão justa como sofrida que, sendo verdade que mantém a equipa viva na Liga – a quatro pontos do Sporting e três do Benfica, que só joga na segunda-feira – não faz augurar nada de bom para os jogos que aí vêm.
2016-03-13
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O Sporting respondeu da melhor maneira à derrota no dérbi e venceu no Estoril, por 2-1, com uma exibição que começou por ser de controlo total, corporizada em dois golos de Slimani ainda na primeira parte, mas que acabou em sofrimento, depois de Leo Bonatini ter recolocado os estorilistas no jogo, marcando e lançando o descontrolo na equipa verde-branca ante o futebol mais direto dos donos da casa. Depois de várias oportunidades perdidas para matar o jogo, os leões viram Rui Patrício segurar os três pontos num cabeceamento de Michael, mesmo em cima do apito final da partida e regressaram à liderança da Liga, ainda que à condição, pois o Benfica só joga na segunda-feira. Os leões voltaram ao 4x4x2 com dois avançados de área, juntando Teo Gutièrrez a Slimani no meio e voltando a desviar Ruiz para um dos corredores laterais, e isso, somado a uma primeira parte hiperativa de Schelotto na direita, permitiu-lhes voltar a ganhar a profundidade e a presença na frente que raramente mostram quando o costa-riquenho parte do corredor central, não deixando de ter controlo da partida e ocupação permanente do meio, fruto das constantes diagonais para dentro de Ruiz e João Mário. O Estoril, por sua vez, colocava o alto Mendy à frente de Bonatini, de forma a encontrar espaço para o que é indiscutivelmente o melhor jogador da equipa, num futebol mais direto. A aposta de Fabiano Soares, porém, não surtiu efeito, porque com melhor ocupação dos espaços ao meio, a equipa de Jesus voltou a encontrar o seu futebol triangulado e a esconder a bola ao adversário. O Estoril teve até o primeiro remate da partida, pelo lateral Anderson Luís, logo no primeiro minuto, mas a partir daí foi impotente para impedir o Sporting de se instalar no seu meio-campo. E após dois ou três lances de envolvimento pela direita, os leões marcaram mesmo, aos 5’, num belo trabalho de Slimani, a mudar de um pé para o outro antes de rematar ao ângulo da baliza de Kieszek. O segundo golo não surgiu aos 26’, quando Slimani serviu Ruiz de calcanhar mas este chutou ao lado, em boa posição, e acabou por aparecer mesmo no final do primeiro tempo, quando os dois protagonistas inverteram os papéis: Ruiz cruzou largo da esquerda e Slimani ganhou no ar de forma a fazer o 0-2. O jogo parecia resolvido, mas ainda havia 45 minutos pela frente. E com a nuance de o Sporting ter diminuído a intensidade e a concentração no regresso dos balneários, colocando-se à mercê dos donos da casa. Rui Patrício negou o golo a Mendy logo aos 50’, quando este lhe apareceu na cara, mas o Estoril nem aproveitou esse lance para crescer por aí além e foi o Sporting quem, mesmo com menos bola, continuou a ter as melhores ocasiões para marcar. Slimani e João Mário falharam o terceiro e, quando Leo Bonatini aproveitou a má colocação de Schelotto num canto para, em posição regular, fazer o 1-2, a 11 minutos do fim, o Estoril acordou e o Sporting tremeu. Os canarinhos passaram a abusar do futebol direto e a jogar no meio-campo leonino e podiam até ter empatado, no tal lance de Michael, aos 90+3’. Só que Patrício voltou a defender e a assegurar a justa vitória dos leões.
2016-03-12
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A primeira vitória de uma equipa portuguesa contra o Zenit no Petrovskyi, obtida nos últimos minutos de jogo pelo Benfica (2-1), foi a melhor resposta à tentação resultadista em que, a dada altura, ambas as equipas caíram. Tinha-o feito o Benfica no início da segunda parte, ao baixar as linhas e reduzir a intensidade depois de 45 minutos em que foi sempre capaz de dividir o jogo com os russos, e também o fez o Zenit depois do golo de Hulk, apostando num ritmo mais pausado e na espera por um prolongamento que acabou por não chegar, fruto do empate de Gaitán e, depois, do golo da vitória, marcado no último segundo do jogo por Talisca. O resultado da décima vitória seguida dos encarnados fora de casa foi o justo apuramento para os quartos-de-final da Liga dos Campeões. Afinal, só durante 25 dos 180 minutos da eliminatória os russos justificaram os milhões de que é composto o seu plantel. Rui Vitória fez o onze que se impunha, mexendo só no que tinha mesmo de mexer, por força das ausências de Júlio César, André Almeida e Jardel. Baixou Samaris para central, chamou Fejsa e Nelson Semedo a um onze onde se mantinha Ederson. E o início do jogo foi bom para a equipa portuguesa, que durante toda a primeira parte foi capaz de dividir a iniciativa com os russos. Jonas tinha bola no meio-campo adversário, o meio-campo conseguia manobrar à vontade e a equipa até reagia sempre bem à perda de bola, com uma pressão intensa que impedia as transições ofensivas rápidas ao Zenit. Conseguia o Benfica levar o Zenit para onde queria, impedindo os russos de entrar em contra-ataque e forçando-os a um ataque organizado onde, até por imposições táticas – Witsel e Maurício, por exemplo, nunca saíam da sua área de ação – a equipa de Villas-Boas não é tão forte. Daí que o primeiro tempo se tenha concluído com uma igualdade nos remates e até nas ocasiões de golo. A segunda parte, porém, trouxe um Zenit muito mais ofensivo. E, seja por ter deixado de conseguir sair ou porque abdicou de o fazer, o Benfica pareceu preocupar-se demasiado cedo com a proteção da sua baliza. É certo que na primeira parte tinha tido alguns problemas com o controlo da largura defensiva, permitindo por vezes que os laterais do Zenit aparecessem em boa posição, mas o que saiu desta maior contenção encarnada foram os tais 25 minutos de superioridade clara dos russos, a culminar no golo que Zhirkov ofereceu a Hulk. Faltavam 21 minutos para o jogo acabar e, quando qualquer equipa de sangue quente partiria para cima do adversário, para ganhar vantagem, o que o Zenit fez foi congelar o jogo, à espera de um erro do Benfica ou do prolongamento. E, apesar da reação do Benfica, que voltou a dividir o jogo com os russos, era para aí que o jogo se dirigia quando, num momento de espontaneidade, a cinco minutos do final, Raul Jiménez arrancou um remate de fora da área, Lodygin desviou-o para a barra e Gaitán foi mais rápido que Lombaerts a acorrer à recarga. O golo de Gaitán matou o Zenit, que não conseguiu sequer voltar a organizar-se no período de jogo que faltava. E disso se aproveitou o Benfica, que no último dos cinco minutos de desconto dados pelo árbitro, ainda fez o 2-1, através de Talisca. A vitória no jogo, a décima seguida do Benfica em jogos fora de casa, igualando o recorde da equipa de Jimmy Hagan em 1972/73, talvez tenha sido um presente demasiado generoso – o que as equipas fizeram no campo apontava mais para um empate. Mas a honra de figurar entre as oito equipas que em Abril vão discutir os quartos-de-final da Liga dos Campeões, essa, o Benfica mereceu-a inteiramente.
2016-03-09
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As ausências de André Almeida e Jardel, por castigo, somadas às de Júlio César, Lisandro López e Luisão, estes por lesão, colocam a Rui Vitória um problema de difícil resolução. O Benfica enfrenta o jogo do qual depende a continuidade na Liga dos Campeões, no qual será fundamental manter a solidez atrás, sem o guarda-redes titular, sem as três primeiras escolhas para o centro da defesa e sem ter ainda resolvido por inteiro a questão que se lhe coloca acerca da composição do meio-campo nos jogos de maior grau de exigência. Ainda assim, num jogo em que o primeiro golo pode ser a chave, Vitória deve mexer o mínimo possível, de forma a aproveitar o embalo emocional que o sucesso no dérbi de sábado lhe trouxe. Vai ter de inventar, mas não mais do que o necessário, com a consciência de que este Zenit pode exigir ao Benfica algo que a equipa ainda não mostrou de forma consolidada: que é capaz de ser sólida em desafios de exigência elevada. A vitória em Alvalade, no sábado, como a conquistada em Madrid, no Outono, são as exceções que confirmam a regra: este continua a ser um Benfica mais talhado para jogar contra equipas fracas. Ao todo, em quatro jogos com o Sporting, dois com o FC Porto, dois com o Atlético Madrid, dois com o Galatasaray, um com o Sp. Braga e um com o Zenit, o Benfica, o Benfica só ganhou cinco de doze jogos de grau de dificuldade mais elevado. Pode até chegar para alcançar os objetivos – em São Petersburgo, por exemplo, basta uma derrota pela margem mínima, desde que com golos marcados –, mas deve servir de ponto de partida para uma reflexão interna acerca dos equilíbrios da equipa, que precisa de juntar outro avançado a Jonas para rentabilizar aquele que é o seu melhor jogador e não encontrou ainda uma forma satisfatória de preencher a zona central do meio-campo quando Renato Sanches se torna naquilo a que o treinador chamou “talento selvagem” e perde as referências no jogo sem bola. Problemático é que estas questões se agravem pela ausência de jogadores que são tão importantes nos momentos defensivos, como Jardel ou André Almeida. Lindelof tem respondido muito bem, sobretudo se tivermos em conta que era a quarta opção para o centro da defesa no início da época, mas o que se lhe pedirá no Petrovskyi é que comande o setor, provavelmente com Fejsa a seu lado e sem a ajuda de André Almeida, um lateral cujo principal atributo é a solidez defensiva. A dúvida coloca-se depois, na constituição do meio-campo e do ataque. Salvio à direita com Pizzi no apoio a Mitroglou (ou Jiménez, mais talhado para jogar longe da equipa) ou Jonas com Mitroglou e Pizzi a vir da direita para dentro, no apoio a Samaris e Renato? Rui Vitória saberá melhor que ninguém em que ponto está a recuperação de Salvio e se ele já é capaz de responder num jogo deste grau de exigência, ainda que todos saibamos que nestas coisas o risco maior está na experimentação e não na continuidade. Repetir os seis da frente de Alvalade pode ser uma forma de aproveitar não apenas as rotinas que a equipa vem construindo como a confiança que adquiriu no campo do maior rival. Mas, até pela escassez de golos nos mais recentes jogos do Zenit (0-1, 1-0 e 0-0), a chave da eliminatória estará sempre no primeiro golo. Se o marca o Benfica, pode repetir-se a história do dérbi; se o marca o Zenit o jogo deverá pedir um upgrade àquilo que este Benfica tem mostrado.
2016-03-09
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O Sporting vai entrar no dérbi de sábado, contra o Benfica, em primeiro lugar da Liga, como realçava William Carvalho aos adeptos no final do empate com o Vitória em Guimarães (0-0), mas viu a vantagem sobre o principal rival reduzida para apenas um ponto, pois minutos antes os encarnados venceram com naturalidade o U. Madeira por 2-0 na Luz. Aquece o dérbi, fruto de mais uma clara demonstração de que o Benfica é uma equipa de golo fácil – marcou no primeiro remate que fez e tornou desde logo o jogo mais simples – e de uma noite perfeita de Miguel Silva, o guarda-redes do Vitória, que tirou dois golos cantados a Ruiz e outro a Slimani. Tudo a contribuir para que no dérbi de sábado o empate não sirva a ninguém. Com o dérbi no pensamento, Rui Vitória pôde optar por deixar de fora André Almeida e Renato Sanches, dois dos três jogadores que estavam à beira da suspensão, arriscando apenas Jardel. Em Guimarães, Jorge Jesus fez ao contrário: entrou com os jogadores que estavam tapados, perdeu mesmo Ruben Semedo, que viu o quinto amarelo na Liga, mas antes do final do jogo acabou por retirar de campo Slimani, claramente a meter menos de si próprio em cada bola dividida por receio de um incidente que o retirasse do dérbi. Jesus não o fez para o poupar, no entanto. Fê-lo para tentar ganhar o jogo, mesmo que por essa altura o Vitória já estivesse com um homem a menos, por expulsão de Josué. Entrou Barcos, com antes tinham entrado Téo Guitièrrez e Aquilani, todos com a mesma ideia. Quanto aos jogos, o Benfica acabou por navegar com tranquilidade até um 2-0 nascido de mais dois golos de Jonas, um em cada parte. Podia ter marcado mais, mas parece que nunca teve de se esforçar verdadeiramente por isso, tanta foi a superioridade que demonstrou num desafio sem grande história. Em Guimarães, Rui Patrício até foi o primeiro guarda-redes a ter de se empenhar, para deter um remate cruzado de Licá. Mas daí até final foi sempre o Sporting a ter as melhores ocasiões para marcar, vendo Miguel Silva assinar um punhado de manchas de grande qualidade, a impedir Slimani e Ruiz – este por pelo menos duas vezes – de fazer o golo que permitiria aos leões manter o avanço na entrada para o dérbi. Certo é que, com os resultados de hoje, o dérbi de sábado passou a ter ainda outro interessado: o FC Porto. Já a quatro pontos da liderança, os dragões podem beneficiar do que vier a suceder em Alvalade para reentrarem de forma direta na luta pelo título, até por ainda receberem o Sporting em casa, na antepenúltima jornada da competição. E, mesmo que desvalorize o facto de ter agora um só ponto de avanço, lembrando que quem está atrás é que tem de se preocupar, Jesus sabe que, ao contrário do que fez no jogo do título da época passada, tem de entrar no dérbi para ganhar, tão complicado se lhe apresenta o calendário na ponta final.
2016-02-29
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A aproximação positiva de Julio Velásquez ao jogo, que tinha sido um problema no jogo com o Benfica, perdido com goleada (0-5), foi a chave para explicar as dificuldades que o FC Porto sentiu para vencer o Belenenses no Restelo. As dificuldades sentidas pelos dragões para ganhar nasceram na capacidade que os azuis tiveram para construir futebol durante a segunda parte, mesmo estando a perder por dois golos de diferença desde bastante cedo, fruto daquele que é o maior problema desta equipa: a deficiência dos seus comportamentos defensivos. Nessa altura valeu à equipa portista ter sido capaz de aguentar a pressão. José Peseiro apareceu com André André e Herrera a fazer companhia a Danilo no meio-campo, parecendo querer apostar num jogo de iniciativa e posse: o facto de ter escolhido Brahimi e Corona já o indiciava, mas foi a aposta em Suk para a posição de Aboubakar que o denunciou. Do outro lado, Velásquez também foi menos atrevido do que contra o Benfica, procurando manter algum equilíbrio atrás. Mas foram dois lances em que esses equilíbrios falharam a encaminhar o jogo para as cores do dragão. Primeiro, num movimento interior de Brahimi, com José Angel a abrir na faixa lateral, Tonel ficou nas covas, deixando que o extremo portista aparecesse para concluir à vontade uma segunda bola nascida de uma dividida entre Gonçalo e Suk. Depois, numa boa combinação do ataque portista na direita, o cruzamento de Maxi originou um gesto técnico imperfeito de Tonel, que cortou a bola para dentro da sua própria baliza. Com 2-0 aos 19 minutos, o jogo parecia resolvido. O Belenenses, no entanto, não desistiu. Carlos Martins estava num bom dia, criativo e dinâmico como José Peseiro se lembra dele dos tempos no Sporting ou Jesus o teve depois, no Benfica. Foi dos pés dele que saiu a primeira situação a dizer que o jogo não estava fechado: um livre ao poste, ainda na primeira parte. No segundo tempo, com Miguel Rosa em vez de Tonel e Ruben Pinto a baixar para defesa-central – a tal ousadia que se revelou suicida contra o Benfica – o Belenenses foi à procura do empate. Marcou, por Ortuño, após um cruzamento de André Geraldes, e forçou o FC Porto a uma segunda parte de incerteza, na qual Casillas teve de responder presente por mais de uma vez. Peseiro foi direcionando a equipa mais para o ataque rápido, com as entradas de Marega e Varela, mas acabou por ter na segurança atrás a garantia da vitória que lhe permite manter a pressão sobre Benfica e Sporting.
2016-02-28
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A eleição de Gianni Infantino como presidente da FIFA, batendo com alguma surpresa o cheque Salman al-Khalifa, tem sido vista como uma vitória do primeiro mundo futebolístico sobre a multidão de federações periféricas que ameaçavam com a tomada do poder. Essas, porém, são as razões erradas para rejubilarmos. Como o serão o orgulho patriótico de vermos Onofre Costa e Tiago Craveiro no lado dos vencedores ou começarmos desde já a pensar que proveitos esta vitória pode acarretar para a FPF ou o futebol português. E, no entanto, estou convencido de que, apsar de ter nascido a meia dúzia de quilómetros de Sepp Blatter e de ser antigo braço direito de Michel Platini, o italo-suíço de Brig era a melhor escolha para a FIFA. As bandeiras eleitorais de Infantino dizem-me pouco. O alargamento de participantes no Mundial de 32 para 40 até me parece um exagero popularucho – já os 32 me pareceram demais – e os cinco milhões de dólares que promete dar por federação a cada quatro anos, ao abrigo de um plano de apoio ao desenvolvimento global do futebol, são uma gota de água no oceano do negócio global em que se transformou o futebol. Ou melhor, em que João Havelange e Sepp Blatter transformaram o futebol nos últimos 40 anos. Mas Infantino é um tipo jovem, de apenas 45 anos, com ideias claras e modernas, nas quais se enquadram a luta pelo fair-play financeiro ou a abertura à introdução das novas tecnologias no apoio às decisões de arbitragem. A luta de Infantino, para já, passa por uma só frente de batalha. Dizer que tem de credibilizar a FIFA é pouco mais do que um verbo de encher, mesmo tendo em conta que se houve coisa que Havelange e Blatter não fizeram nos 40 anos em que dominaram o futebol mundial foi preocupar-se com essa credibilização. Mas o que se pede a Infantino não é que renegue 40 anos em que a FIFA se tornou um dos grupos empresariais mais prósperos do Mundo. Os dois últimos presidentes desenvolveram o negócio – e de caminho ter-se-ão aproveitado disso à grande em proveito próprio –, mas aquilo que tem sempre faltado é alguém que perceba esse mesmo negócio, que olhe para ele com outros olhos e lhe compreenda os cancros, de forma a extirpá-los de forma rápida. O que interessa não é a visão quixotesca segundo a qual o futebol não pode ser um negócio. É a visão moderna que aceite esse mesmo negócio e o faça crescer ainda mais dentro da legalidade.
2016-02-26
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O FC Porto despediu-se da Liga Europa, somando a quarta derrota internacional consecutiva, todas sem marcar golos: desta vez foi batido por 1-0 pelo Borussia Dortmund. Os alemães, que já tinham ganho por 2-0 no Westfalen Stadion, mataram cedo a eliminatória, com um autogolo de Casillas, aos 23’, fazendo com que as únicas notas a compensar a frustração portista tenham sido os factos de a expectativa de apuramento já não ser muito elevada e de esta ser já encarada como uma época de transição pós-Lopetegui. Restam ao FC Porto a presença quase certa na final da Taça de Portugal e a esperança de que Sporting e Benfica se atrapalhem mutuamente nas próximas semanas, de forma a que os dragões possam voltar a acreditar mais na hipótese de recuperarem o título de campeões nacionais que já lhes escapa desde 2013. Ante a difícil missão que era ganhar pelo menos por dois golos ao Borussia Dortmund, Peseiro só surpreendeu verdadeiramente nas escolhas de Varela e Evandro em detrimento de Brahimi e Hererra. A primeira opção explica-se com a vontade de, com Varela e Marega perto de Aboubakar, ser mais direto nos últimos metros. A segunda com uma melhor chegada do brasileiro à área. De resto, foi normal a adaptação de Layun a defesa-central, porque assim foi possível manter Danilo a meio-campo. E Danilo foi, com Evandro, um dos melhores do FC Porto no jogo. O problema é que, com o desafio equilibrado, o FC Porto cometeu o já habitual erro em transição defensiva, permitindo que o Borussia Dortmund chegasse em cinco contra três à área (ver imagem). Casillas ainda parou o primeiro remate, de Reus, mas já não pôde fazer nada na recarga de Aubameyang: acabou por ser ele, aliás, a introduzi-la na baliza, quando ela vinha da barra, tornando a missão portista ainda mais impossível. Eram precisos quatro golos para seguir em frente. Depois de absorver o impacto, o FC Porto ainda foi à procura de golos. Evandro, numa boa iniciativa, falhou por pouco o alvo, aos 41’. Varela, de cabeça, obrigou Bürki a grande defesa, dois minutos depois. Aboubakar, de calcanhar, contou mais uma vez com a oposição de qualidade do guardião suíço, mas aí, aos 55’, acabou verdadeiramente a esperança portista. Suk, que substituiu o ponta-de-lança camaronês logo depois desse lance, ainda tentou mostrar serviço, mas o Borussia, que até já tinha retirado de campo Gundogan e Hümmels, passou a controlar a partida sem problemas. Até final, tirando um remate de Brahimi à barra e outro de Mkitharyan ao poste, pouco mais se viu, confirmando a superioridade global da equipa alemã. A eliminatória, na verdade, foi perdida na primeira mão, que o FC Porto encarou com os desequilíbrios só possíveis num plantel onde falta mais gente atrás para qualquer eventualidade.
2016-02-25
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Último Passe

O Sporting vendeu cara a eliminação, deixou até uma boa imagem na BayArena, mas acabou por ceder nova derrota frente ao Leverkusen (3-1) e cair da Liga Europa. Jesus voltou a poupar jogadores nucleares, mas não foi por isso que os leões se deixaram bater: ao contrário do que aconteceu na semana passada, a equipa leonina surgiu personalizada, beneficiou de um maior relaxamento do adversário e teve situações de golo suficientes para seguir na competição. Não as concretizou, o que deixa a equipa numa situação de pressão total. É que, perdidas todas as competições a eliminar, só resta mesmo o campeonato, com onze jornadas de tudo ou nada para definir a primeira época de aposta total em Jesus. Bellarabi, que já tinha marcado o golo alemão em Alvalade, foi o homem da noite, fazendo os dois primeiros golos alemães, ainda por cima ambos em alturas em que os leões estavam melhor no campo. Pelo meio, Carlos Mané perdeu duas situações na cara do guarda-redes, que podiam ter relançado a eliminatória, ambas por excesso de altruísmo ou falta de confiança na finalização: procurou sempre um companheiro em vez de tentar o remate que se impunha. Pela velocidade que é capaz de meter nos últimos metros – é tão rápido como Gelson, mas mais objetivo – Mané causa desequilíbrios de forma constante, mas parece ter regressado da ausência prolongada no onze menos eficaz na finalização. Em Leverkusen, podia ter sido o parceiro ideal para João Mário, que fez uns excelentes 65 minutos como segundo ponta-de-lança, até ao segundo golo alemão, incluindo o golo que deu esperança na qualificação. E o jogo até tinha começado mal para os leões. O Leverkusen entrou forte, a querer marcar para colocar desde logo um ponto final na questão, pelo menos do ponto de vista emocional. Não o fez e o Sporting cresceu. Os leões assentaram o jogo, com João Mário a explorar sempre bem as costas dos dois laterais alemães e o correspondente movimento interior de Mané ou Bruno César a criar problemas na organização defensiva do Leverkusen. Foi quando o jogo estava assim que Bellarabi fez o 1-0, à meia-hora, a explorar uma deficiente transição defensiva dos leões. Mané perdeu o empate pouco depois, mas foi no lance seguinte um dos causadores do desequilíbrio que levou ao empate, feito por João Mário aos 38’. Com o empate, a vantagem anímica passou para a equipa portuguesa, que voltou a perder um golo cantado aos 57’, outra vez por Mané. O Leverkusen já não se expunha muito e Jesus começou a lançar as suas armas. Só que um minuto depois da entrada de Ruiz, surgiu o segundo golo de Bellarabi (aos 65’), um grande remate de fora da área, a entrar onde tinha de o fazer e a aninhar-se nas redes laterais. Jesus ainda chamou Slimani e Gelson, para tentar um segundo golo que reanimasse a questão, o argelino ainda viu Leno tirar-lhe a hipótese de empatar, com uma boa saída dos postes (aos 72’), mas o Sporting acabou aí. Çalhanoglu fez o 3-1 (aos 87’) e Jefferson ainda sacou uma bola de golo em cima da linha, evitando que o resultado assumisse outras proporções e permitindo à equipa, pelo menos, manter a face numa altura em que isso é muito importante. É que, segunda-feira, em Guimarães, joga o primeiro dos onze jogos com que vai acabar a época. E quando só lhe resta mesmo o campeonato, tem em cima a pressão de dar razão ao treinador nas poupanças que lhe custaram a carreira na Europa.
2016-02-25
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Último Passe

O Sporting não precisou de ser brilhante para ganhar ao Boavista, por 2-0, voltando assim a isolar-se no topo da tabela da Liga, num jogo em que Jorge Jesus acabou por poupar mais titulares do que tinha feito contra o Leverkusen, deixando a ideia de que na quinta-feira poderá ir com a equipa mais completa possível à Alemanha, para ficar na Liga Europa. Os leões voltaram a começar mal um jogo em casa, entrando devagar e sem grande ligação, mas serviram-se daquele que o seu treinador batizou como o quinto momento de um jogo de futebol (as bolas paradas) para ganhar sem contestação. Ewerton, após um canto, e Ruiz, num livre com ressalto na barreira, deixaram o jogo resolvido antes do intervalo. Jorge Jesus começou o jogo sem várias das que têm sido as suas primeiras escolhas: entre castigos, lesões e poupanças, faltaram João Pereira, Jefferson, Coates, William e Mané ou Bruno César. A equipa, no entanto, voltou a mostrar a cara do costume nos últimos jogos em casa. Lento, pouco agressivo e dinâmico, o Sporting permitiu que o Boavista ganhasse confiança e se instalasse no meio-campo ofensivo nos primeiros 15 minutos. Só a partir dessa altura, quando Schelotto começou a acelerar e descobriu a forma de combinar com Gelson, na direita, os leões começaram a empurrar o adversário para trás. Ruiz foi dos que respondeu bem à subida de nível do flanco oposto e, na esquerda, ofereceu a Teo Gutièrrez a primeira grande ocasião de golo do jogo. O colombiano falhou escandalosamente – mesmo assim, quando saiu, já na segunda parte, o público aplaudiu-o, respondendo positivamente ao que o treinador tinha pedido. Se mesmo assim não conseguia jogar rápido, se continuavam a faltar-lhe as desmarcações profundas de Slimani, que estão na base do seu futebol atacante, o Sporting só podia fazer uma coisa: parar a bola. E foi de bola parada – que Jesus define como o quinto momento do jogo, além das organizações e transições defensivas e ofensivas – que a equipa ganhou o desafio. Aos 37’, Ewerton, que já tinha ameaçado em dois livres laterais, movimentou-se bem na área, aproveitou a desconcentração de Idris e concluiu de cabeça ao primeiro poste um canto batido por Ruiz. E, antes do intervalo, o costa-riquenho fez ele mesmo o 2-0, num livre frontal em que contou com um desvio na barreira para trair o guardião Mika. Percebia-se que, com dois golos de desvantagem, muito dificilmente o Boavista inverteria as coisas na segunda parte. Um golo podia reabrir o jogo, mas o poste, primeiro, e Rui Patrício, depois, tiraram esse golo a Anderson Carvalho. Em consequência disso, o Sporting conseguiu gerir a partida sem problemas até final. Slimani ainda viu, por duas vezes, Mika tirar-lhe o 3-0 – na segunda Mané fez a recarga, a dois metros da baliza, ao poste – mas o jogo chegou ao fim sem mais novidades. Os leões asseguram que irão a Guimarães, antes de receber o Benfica, três pontos à frente dos rivais. Antes, porém, há a viagem a Leverkusen, onde Jesus poderá fazer regressar alguns dos titulares que desta vez repousaram. Mesmo que o tenha desdenhado com o que disse no final deste jogo. Mas isso é Jesus a ser Jesus.
2016-02-22
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Último Passe

O FC Porto teve de sofrer para ganhar ao Moreirense e manter-se vivo na luta pelo título. Valeu-lhe a terceira reviravolta em cinco vitórias que tem a era-Peseiro, desta vez com direito a trabalho dobrado, pois a equipa portista chegou a estar a perder por 2-0 e acabou por vencer por 3-2. Quer isto dizer que o FC Porto precisou de forçar muito o ataque, de meter mais e mais gente na frente e de se sujeitar ao perigo dos contra-ataques do Moreirense, só chegando à vantagem quando os cónegos deixaram de ter pulmão ou organização para surgir perto de Casillas e foram baixando, baixando, até encostarem à baliza de Stefanovic. Os dragões salvaram os três pontos, mas devem rever o jogo para compreenderem que, sobretudo defensivamente, continuam a fazer muita coisa mal. Peseiro introduziu sete jogadores novos face à equipa de Dortmund, o que nem deve ter sido muito difícil, dada a possibilidade de fazer regressar alguns titulares – Maxi, Marcano, Danilo – e o recente impedimento de outros, como Martins-Indi. As restantes alterações explicam-se com razões de pura estratégia, como as que explicam as ausências de André André ou Corona no jogo da Alemanha ou a alternância no ataque, onde apareceu Suk em vez de Aboubakar. A verdade é que, mesmo com tanta gente fresca, a equipa portista não teve uma entrada forte, permitindo sempre o tempo e o espaço ao Moreirense para se tornar ameaçador. Boateng quase marcou, Iuri fê-lo mesmo e Fábio Espinho dobrou a marca antes da meia-hora, sempre em lances onde o FC Porto mostrou as dificuldades no controlo da profundidade defensiva que já tinha exibido na Luz, contra o Benfica, por exemplo, ou a imensidão de espaço que se cria entre central e lateral em alguns momentos do seu processo defensivo. A reação do FC Porto foi, primeiro, emocional. A equipa foi metendo mais e mais gente na área, tentando jogar depressa – mas nem sempre bem. Suk ainda cabeceou uma vez à barra – e o jogo de cabeça do coreano pareceu ser uma arma a que o FC Porto terá de recorrer mais vezes – antes de Layun reduzir, de penalti, já muito perto do intervalo. O facto de ter ido para o balneário apenas a um golo de distância pode ter sido fundamental no discurso de Peseiro aos seus jogadores, mas na verdade não foi uma forma de atemorizar o Moreirense. O treinador do FC Porto trocou Corona por Evandro, de forma a ganhar ascendente por dentro, mas as duas primeiras ocasiões de golo da segunda parte ainda pertenceram aos visitantes, quando Nildo e Iuri Medeiros obrigaram Casillas a duas boas defesas. E apesar do reforço do ataque portista – entrou Marega para o lugar de Chidozie – não se via como o FC Porto poderia dar a volta ao texto. A equipa de Peseiro ia chegando mais vezes, o Moreirense deixava de conseguir sair, mas faltavam ocasiões claras de golo em cima das quais os dragões pudessem montar o espírito da reviravolta. O que sucede é que quando os jogos se colocam assim, quando se jogam tão dentro de uma área, o normal é quem defende cometer erros, fruto da elevada exigência física e emocional do jogo. Foi o que sucedeu quando um erro de marcação num canto deu a Suk a oportunidade para, de cabeça, empatar o jogo. Quatro minutos depois, Herrera viu o esforço de ir buscar uma bola na linha de fundo recompensado com o terceiro golo, marcado por Evandro. O Moreirense já não tinha maneira de voltar dali.
2016-02-21
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Um Benfica menos intenso do que o habitual, possivelmente por força do desgaste do jogo de terça-feira, contra o Zenit, bastou ainda assim para ganhar em Paços de Ferreira por 3-1, resultado que lhe permite voltar a colar-se ao Sporting no topo da tabela da Liga e sentar-se no cadeirão a ver os rivais jogar. Os pacenses, que encararam o jogo com os bicampeões nacionais com dez ausentes, até se saíram melhor do que seria de esperar, sobretudo do ponto de vista ofensivo: dividiram o jogo até ao terceiro golo encarnado, abrindo brechas frequentes na organização defensiva de Rui Vitória. Sem Gaitán, Vitória chamou Carcela ao jogo, e o marroquino voltou a ser útil, fazendo logo aos 13’ a assistência para o golo com que Mitroglou confirmou a sétima jornada seguida a marcar. O facto de o golo ter aparecido na primeira vez que o Benfica entrou na área do Paços, somado às difíceis circunstâncias em que os donos da casa encararam a partida, com tanta gente impedida de alinhar, pareciam fazer adivinhar um passeio benfiquista na capital do móvel, mas foi aí que a equipa de Jorge Simão mostrou qualidade. É verdade que para isso pode ter contribuído alguma macieza do Benfica no jogo, mas Andrezinho, Edson e Diogo Jota conseguiam encontrar-se uns aos outros com muita frequência no meio-campo encarnado, assinando combinações ofensivas que demonstravam que o resultado não estava ainda feito. Um lance genial de Jota, a driblar Eliseu e Lindelof antes de cobrir Júlio César com um remate de fora da área, fez o empate, dez minutos depois, e deu um sinal concreto daquilo que já se adivinhava. Sucede que a qualidade do jogo ofensivo pacense não tinha correspondência no rigor da sua zona defensiva. Lindelof esteve à beira do 1-2, num canto em que ninguém o estorvou, mesmo antes do intervalo. E, antes de as equipas irem para o descanso, Jonas fez mesmo o golo, na conversão de uma grande penalidade que deixou o treinador da equipa da casa tão enervado a ponto de tirar o casaco. Ao Paços, aí, sobrou a ideia de que tinha de subir outra vez uma ladeira que já tinha subido para recuperar no placar. E o Benfica entrou mais forte após o intervalo: Pizzi deu mais ao jogo, ajudando Renato e Samaris na batalha pela zona central. O transmontano acabou mesmo por estar na origem do 1-3, que matou o jogo: bateu um livre lateral e viu Jardel ganhar no ar entre Marco Baixinho e Bruno Araújo, acorrendo Lindelof a finalizar a sobra. A ladeira, que já era íngreme com 1-2, tornou-se intransponível ao 1-3. É verdade que um golo podia acordar o Paços de Ferreira no jogo, mas mesmo gerindo o plantel – entraram Salvio e Nelson Semedo, ambos à procura de ritmo – Rui Vitória viu o Benfica controlar até final. Consumada nova igualdade pontual com o Sporting, que só joga na segunda-feira e tem depois a Europa a atrapalhar a meio da semana, pode sentar-se calmamente a ver se os adversários escorregam.
2016-02-20
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Último Passe

Um Sporting muito abaixo do exigível comprometeu seriamente a continuidade na Liga Europa, ao perder em casa com o Leverkusen, por 1-0, numa noite em que Jesus até foi parco nas poupanças, mas na qual a equipa se mostrou demasiado descontraída e sempre incapaz de meter em campo combinações ofensivas e de criar situações de perigo. Como resultado, os leões foram submetidos durante quase todo o jogo à superioridade dos alemães. O 0-1 foi mesmo um resultado lisonjeiro para a equipa portuguesa, que viu os alemães desperdiçarem as melhores ocasiões para ampliar a marca, incluindo um remate de Bellarabi ao poste a quatro minutos do fim, e podia bem ter ido para casa com a eliminatória resolvida e sem o dilema acrescido acerca do que fazer na segunda mão: poupar ou arriscar para tentar virar. Desta vez, nem a poupança de titulares ou a prioridade à Liga portuguesa serve de justificação para o que se viu em campo. Jesus entrou em campo com a melhor equipa possível, exceção feita às poupanças de Adrien e Slimani, que foram substituídos por Aquilani e Teo Gutièrrez e entraram apenas a meia-hora do fim. Ainda assim, desde cedo se percebeu que o Leverkusen mandava no campo, fruto da superioridade no corredor central, não só em números, pois Mané estava sempre mais perto de Gutièrrez do que dos dois médios, mas também em vigor físico, uma vez que Kramer e Brandt impunham a sua força a William e Aquilani e empurravam a equipa para a frente. O jogo corria pouco fluído, muito à base de ressaltos, e ainda nem tinha tido muitas situações de golo (só um cabeceamento de Toprak por cima e um remate de Jefferson defendido por Leno) quando Bellarabi aproveitou um cruzamento de Jedvaj e a desatenção de Coates e João Pereira para surgir ao segundo poste a emendar para o 0-1. Jesus não mexeu, nem sequer ao intervalo, obedecendo impassível ao plano de jogo previamente desenhado. O desafio pedia um flanqueador como Gelson, pedia a intensidade de Adrien e a profundidade de Slimani, mas se o primeiro não chegou a entrar, os outros dois subiram ao relvado apenas aos 60’, fazendo com que o melhor que se viu dos leões tenham sido as iniciativas individuais de Ruiz e Mané. Quando Adrien e Slimani entraram, já Mehmedi tinha obrigado Rui Patrício a empenhar-se para evitar o 0-2. E antes de as substituições se refletirem no jogo, Ruben Semedo fez-se expulsar com segundo amarelo, acabando de matar as esperanças na reviravolta. Até final, com William Carvalho a defesa-central ao lado de Ewerton, que pouco antes substituíra Coates, o Sporting não chegou sequer a mostrar os dentes. A melhor ocasião de golo ainda pertenceu aos alemães, num remate de Bellarabi ao poste, mas o 0-1 já não se alterou. O que deixa os responsáveis leoninos ante um dilema: o que fazer na segunda mão? É que se as perspetivas de seguir em frente são agora menores, há ainda a somar a tudo isso a certeza de que o jogo de campeonato que se segue à viagem a Leverkusen (visita a Guimarães) pede muito mais poupança do que o próximo (receção ao Boavista).ruiz
2016-02-18
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A derrota por 2-0 que o FC Porto traz de Dortmund veio complicar as hipóteses de sucesso dos dragões chegarem aos oitavos-de-final da Liga Europa e enfatizar como pode ser ilusória a ideia de controlo num jogo tão cínico como o que decorreu no Westfalenstadion. Este Borussia de Tuchel, que até costuma fazer muitos golos, tem pouco a ver com a equipa vertiginosamente ofensiva de Klopp: recusou cavalgar o golo madrugador que obteve, deixou o FC Porto adormecer o ritmo de jogo, a ponto de se instalar uma sensação de que a equipa portista estava a controlar, mas estava mesmo só à espera de um erro. Que acabou por surgir onde era mais natural: no remendado espaço defensivo do FC Porto. O 2-0 não deixa a eliminatória resolvida, pelo que Peseiro acabou por cumprir o prometido: uma defesa de Casillas a remate de Kagawa e um cabeceamento de Mkitharyan ao poste, já nos últimos dez minutos, asseguraram que tudo se decidirá no Dragão, daqui por uma semana. Mas aí, em princípio já com a equipa recomposta – com Maxi Pereira e Marcano, pelo menos –, o FC Porto sabe que não terá sequer o direito ao erro se quer seguir em frente na Liga Europa. Em Dortmund, com Varela a lateral-direito, bem auxiliado pelo possante Marega, Layun ao lado de Martins-Indi ao meio e José Angel à esquerda, o FC Porto entrou praticamente a perder: mais uma vez, um golo muito cedo, de novo fruto de uma desatenção na forma de defender um canto, faz temer o naufrágio de uma equipa à qual faltava também o ponto de equilíbrio que costuma ter em Danilo, na cabeça de área. O Borussia, contudo, não forçou, em parte porque o FC Porto manteve a sua organização defensiva – um bloco baixo com duas linhas bem próximas, a roubar espaço à velocidade de Aubameyang e Reus – mas também porque os próprios alemães terão sentido que, mantendo a bola, mais tarde ou mais cedo teriam ocasião para aumentar a vantagem. O jogo foi então decorrendo em ritmo pachorrento, entre duas equipas com a ilusão do controlo: o FC Porto aceitava o 0-1 e esperava que os alemães se descontrolassem para eventualmente empatar em contra-ataque, ao passo que o Borussia esperava pelo erro no bloco defensivo portista. Acabou por ser a equipa portuguesa a errar, quando uma recuperação de bola de Marega não teve seguimento ofensivo, antes levando a uma contra-transição que apanhou José Angel muito por dentro. André André, que entrara para o lugar de Brahimi de forma a fechar melhora esquerda, também não acompanhou Mkhitaryan, que não teve dificuldade em dar o golo a Reus. Até final, Peseiro ainda chamou ao relvado Evandro e Suk, que entre os dois fabricaram a melhor situação de golo portista, obrigando Bürki a uma mancha complicada, mas a verdade é que para dar a volta a esta eliminatória o FC Porto não precisava só de dois jogadores novos. Precisava de uma nova ideia de jogo. E essa só poderá assumi-la na segunda mão. Sem direito ao erro.
2016-02-18
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Há duas razões para se considerar que o Sp. Braga é a única das três equipas portuguesas a fazer figura de favorito nos 16 avos de final da Liga Europa. Por um lado, defronta um adversário mais fraco que os que tocaram a FC Porto e Sporting, que terão pela frente duas equipas de Champions. Por outro, com a classificação praticamente definida na Liga portuguesa, pode centrar esforços em ir o mais longe possível na competição europeia, ao contrário de leões e dragões, que enfrentam uma batalha esgotante com o Benfica na corrida ao título de campeão. Jorge Jesus deixou bem claro que ia optar pela rotatividade na receção ao Leverkusen, como quase sempre tem feito esta época nos jogos europeus, pois a prioridade do treinador era e continua a ser o campeonato. Não está provado que os jogadores do Sporting não possam render o mesmo se tiverem de jogar duas vezes por semana em vez de uma. Os três jogos europeus em que Jesus usou maioritariamente os titulares – a pré-eliminatória da Champions com o CSKA em Agosto e o desafio decisivo na fase de grupos da Liga Europa, com o Besiktas, em Dezembro – geraram consequências diversas: empate com o Paços de Ferreira entre os jogos com os russos, vitória sobre a Académica no rescaldo da saída da Champions e sucessos contra o Marítimo e o Moreirense antes e depois da partida com o Besiktas. Contudo, é Jesus quem assume a rotatividade, seja porque acredita que a equipa poderia ressentir-se ou porque sente que, ao fazê-lo, consegue de uma cajadada encontrar justificações antecipadas para um eventual insucesso europeu e evitar que esse eventual insucesso cause danos emocionais no plantel. Nos jogos com o Leverkusen, terceiro classificado da Bundesliga, não precisaria, pois o poderio do adversário fala por si. Como fala também a qualidade do Borussia Dortmund, que é segundo do campeonato alemão e vai defrontar o FC Porto. Peseiro não estará a pensar em rodar a equipa, mas a verdade é que corre o risco de enfrentar o jogo com o melhor ataque da Bundesliga com uma defesa muito diferente da que os responsáveis da equipa idealizaram. Sem Maxi Pereira e Danilo, castigados; sem Maicon, que já foi embora; sem Chidozie, a alternativa inventada para o jogo com o Benfica na Luz; e ainda com Marcano em dúvida, por lesão, Peseiro só não terá de inventar muito para formar o quarteto defensivo porque provavelmente não terá sequer jogadores para escolher: além dos citados, há Layun, Verdasca, Martins-Indi e Jose Angel. E precisará certamente de uma noite inspirada no ataque para entrar na segunda mão em condições favoráveis. Daí que, frente ao Sion, sexto da Liga suíça, dez pontos à frente do quinto e a sete do terceiro na Liga portuguesa, o Sp. Braga seja quem está em melhores condições para encarar os 16 avos de final da Liga Europa com otimismo. Até porque, das três equipas portuguesas envolvidas, a minhota é a que tem o plantel mais homogéneo, sem grandes diferenças entre titulares e suplentes. E isso pode dar jeito.
2016-02-17
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Um golo de Jonas, a beneficiar do espaço que Jardel lhe ganhou após uma bola parada de Gaitán, no último minuto de jogo, valeu ao Benfica uma vitória suada e difícil mas justa sobre o Zenit e a possibilidade de viajar até São Petersburgo com um 1-0 que pode ser curto, sobretudo em função do esperado crescimento competitivo dos russos nas três semanas que aí vêm, mas que é bem melhor do que parece, por ter sido conseguido sem sofrer golos em casa. Rui Vitória acabou assim por ver recompensada a estratégia de menor vertigem ofensiva que adotou, destinada sobretudo a controlar o contra-ataque de um Zenit sempre demasiado focado na criação de duas barreiras defensivas à frente da sua área e sem capacidade fisica para esticar o jogo até perto da baliza de Júlio César. Vitória acabou por optar pelo 4x4x2 do costume, repetindo mesmo o onze que tinha apresentado contra o FC Porto, mas via-se que a equipa arriscava muito menos d