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Que o FC Porto está a jogar um grande futebol, o melhor deste país por este Outono, só os mal-intencionados ou aqueles com agendas próprias podem duvidar. Em contrapartida, se vai ser manter-se no topo até Maio e ser campeão, como Sérgio Conceição voltou esta semana a dizer que queria que acontecesse, só os estupidamente crentes podem desde já garantir. Porque à partida muita coisa pode acontecer: uma onda de lesões num plantel que é, de facto, mais curto em profundidade que os dos rivais diretos, uma quebra de rendimento ou até um desequilíbrio numa estratégia de comunicação que vive no fio da navalha, como tem de ser sempre com o genuíno mas super-emocional Sérgio Conceição e na realidade de guerrilha comunicacional em que vive o futebol português. Além de se estar a revelar um excelente treinador de futebol – à frente de uma excelente equipa técnica – Sérgio Conceição tem mostrado coisas que, de facto, fazem pensar que ele podia ser “primo de Mourinho”, como disse Sergio Ramos a propósito do episódio Casillas. Um episódio que foi criado acima de tudo para aumentar a profundidade do grupo, mandando lá para dentro a mensagem de que todos contam. Com pontos de contacto com aquilo que Mourinho fez com Baía, em tempos. Mas querem saber mais? No topo das afinidades está uma muito simples: Conceição pensa pela própria cabeça e chega a estar-se nas tintas para o que acham do que ele pensa e diz, como se viu na forma como se desmarcou das críticas feitas pela comunicação do clube à gestão de Danilo e José Sá pelo selecionador nacional nos particulares contra a Arábia Saudita e os Estados Unidos. É o tipo de coisa que os observadores neutros muito apreciam, porque revela independência intelectual e inteligência. E o tipo de coisa que os rivais aplaudem entusiasticamente, antevendo que a guerrilha comunicacional onde está a jogar-se esta Liga possa vir a ter ali um rombo. Já os portistas dividir-se-ão. Uns acharão que o treinador tem razão; outros recearão a divisão interna. Ao ser expulso no jogo contra o Portimonense, Sérgio Conceição mostrou que não amansou o turbilhão de emoções que vive dentro dele desde os tempos em que era futebolista, que não se tornou um tipo frio e exclusivamente cerebral. Sempre foi um jogador sanguíneo e continuou a ser um treinador com os nervos à flor da pele, como se viu, por exemplo, mais do que na forma como saiu do SC Braga, em conflito com António Salvador, no modo como reagiu ao facto de ter tido de esperar para dar a flash-interview após essa final da Taça de Portugal, perdida nos penaltis com o Sporting. Portanto, Conceição não está brando. A guerrilha comunicacional é que está demasiado agressiva para ser subscrita por quem leva a sério o seu trabalho, como é o caso do treinador do FC Porto. A questão aqui, além do mais, não é a de se perceber se Conceição teve razão no episódio José Sá e Danilo. Porque teve. É a de se perceber – ou tentar adivinhar – se o facto de ele ter posto a razão à frente dos “mind games” afeta a política do clube. Porque esta genuinidade nem sempre dá bons resultados. Dependerá em grande parte da avaliação da força que estiver por trás dele. Veja-se o caso de Mourinho, por exemplo: o “primo” do treinador do FC Porto foi o primeiro a arrasar a gestão de Phil Jones pelo selecionador inglês no particular com a Alemanha. Por duas razões. Primeiro, porque o que se passou com Jones foi realmente grave – pelo menos a crer nas acusações de Mourinho. Depois, porque ao contrário de Sérgio Conceição, Mourinho não está à frente da Liga. Segue mesmo, na tabela, muito atrás do City. Atenção que estas críticas de Mourinho não devem ser vistas como um sacudir de água do capote face a um previsível insucesso, mas sim como uma estratégia de união interna para ir atrás do sucesso. Não são desculpas, são armas estratégicas. E é essa distinção que resta perceber se Sérgio Conceição e a comunicação do FC Porto serão capazes de fazer em condições de manter a equipa no topo. Os próximos meses responderão à dúvida. Para já, resta apenas a hipótese de constatar que como está o futebol em Portugal, até o sempre explosivo e genuíno Sérgio Conceição parece um tipo ponderado e cerebral. E isso dá que pensar. Ou devia dar, pelo menos.    
2017-11-20
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Não era preciso Fernando Santos tê-lo admitido: bastava uma dose normal de bom-senso. Quem pegar na lista de convocados para a dupla jornada que decidiu o apuramento de Portugal para o Campeonato do Mundo e lhe juntar os nomes dos convocados para os amigáveis de Novembro vai ter, não direi 100 por cento, mas muito perto disso no que respeita à lista de jogadores que estarão no Mundial. E não pode garantir-se que sejam 100 por cento, porque futebolistas há que estão ou estiveram a contas com problemas físicos (Coentrão, Raphaël Guerreiro ou Nani, por exemplo), outros que não estão a jogar por razões administrativas (Adrien) e há ainda que deixar margem para uma surpresa, de um jogador que se afirme daqui até ao verão (e neste caso apostaria em Ruben Dias). Mas vamos por partes. Nestes 33 (ou 36), há quem já tenha o bilhete na carteira e possa começar a tratar do visto de entrada na Rússia. Quem? Rui Patrício, Cédric, Pepe, William Carvalho, Danilo, João Moutinho, João Mário, André Gomes, Bernardo Silva, Ronaldo e André Silva só não farão a viagem para a fase final se não estiverem em condições de dar um chuto numa bola. São os 11 fixos deste grupo. Outros, como Nelson Semedo, Raphäel Guerreiro, Quaresma ou Gelson Martins, estão quase lá. E não sobram muitas vagas, até porque duas das oito cadeiras em falta serão ocupadas por guarda-redes. Vejamos, então, posição por posição, quem está mais bem colocado. Guarda-Redes (3) – Rui Patrício está seguro, Anthony Lopes também não deve faltar. Há um bilhete por atribuir. Beto fez o sacrifício de voltar a emigrar para o segurar, mas a mudança na baliza do FC Porto, com a entrada de José Sá para o lugar de Casillas, veio complicar-lhe a vida. Até porque Sá é jovem e convém ter sempre alguém mais novo para começar a ganhar Mundo. Rui Patrício: 100%. Anthony Lopes: 80%. José Sá: 62%. Beto: 58% Laterais direitos (2) – Cédric estará seguro, porque Santos é um treinador que não deixa cair os dele. Mas a concorrência é muita. E forte. Nelson Semedo depende apenas do que fizer esta época em Barcelona. E há Cancelo, fortíssimo a atacar, e Ricardo Pereira, que pode jogar também à esquerda. Quatro excelentes opções. Cédric: 100%. Nelson Semedo: 80%. Cancelo: 10%. Ricardo: 10% Laterais esquerdos (2) – Raphäel Guerreiro só não está nos 100 por cento porque falta ver se recupera o fulgor de antes da lesão grave que sofreu. Mas se voltar bem, está garantido. Para o outro lugar há muitos candidatos. Antunes e Eliseu são fiáveis, Coentrão dependerá sobretudo dele próprio (se conseguir superar as lesões permanentes e garantir continuidade…). Isso quer dizer que Kevin Rodrigues pode ter de esperar pela sua vez. Raphäel Guerreiro: 90%. Eliseu: 45%. Antunes: 35%. Coentrão: 20%. Kevin Rodrigues: 10% Defesas centrais (4) – Pepe é o líder do setor mais depauperado pela idade desta seleção e estará no Mundial desde que não se magoe. Já não pode haver tanta certeza para os outros campeões europeus: Fonte caiu de rendimento, está lesionado, e Bruno Alves é o mais veterano. Neto nunca foi uma paixão do selecionador e, entre os novos, Ricardo Ferreira parece mais o tipo de central desta equipa do que o versátil Edgar Ié. O lote está tão aberto, que pode até aparecer uma surpresa. Ruben Dias? André Pinto (se continuar a jogar no Sporting)? Ruben Semedo (se de repente se impuser no Villarreal)? Pepe: 100%. Bruno Alves: 65%. José Fonte: 60%. Neto: 50%. Ricardo Ferreira: 40%. Edgar Ié: 30%. Ruben Dias: 25%. Ruben Semedo: 15%. André Pinto: 15% Médios (7) – Aqui há muita gente garantida. William e Danilo, a começar, o que vem desde logo reduzir um pouco as chances de Ruben Neves, pois dificilmente irão mais de dois jogadores para a posição de âncora à frente da defesa. João Mário e André Gomes, na sequência, porque são quem mais garantias dá a Fernando Santos de poderem ocupar o lado esquerdo como ele quer, fechando como terceiro médio e abrindo o jogo por ali se necessário. E João Moutinho, que é um símbolo de responsabilidade. Sobram duas posições e muitos candidatos. A começar por Adrien, que se verá como regressa, em Janeiro. Mas contando também com Bruno Fernandes, opção mais ofensiva, Manuel Fernandes, mais experiente, ou Renato Sanches, se recuperar o nível do ano do Europeu. Wiliam: 100%. Danilo: 100%. João Mário: 100%. João Moutinho: 100%. André Gomes: 100%. Adrien: 75%. Manuel Fernandes: 60%. Bruno Fernandes: 40%. Renato Sanches: 25% Avançados (5) – Ronaldo já lá está. André Silva também. Idem para Bernardo Silva. Sobram dois lugares e há tanto talento... Dificilmente Fernando Santos abdicará de Quaresma, mas o mesmo pode dizer-se de Gelson. Ambos são jogadores únicos em talento e criatividade no um para um, se calhar tão iguais que a opção pode ter de cair apenas num deles para encaixar alguém com outras caraterísticas. Gonçalo Guedes, por exemplo, que se tem mostrado um acelerador diferente de todos os outros neste início de época. E Nani, que está agora a regressar de lesão? E Éder? Fica difícil a vida para os que sobram, como Bruma, Ronny Lopes ou Gonçalo Paciência. Talvez tenham de ter paciência e esperar por uma próxima chance. As percentagens que lhes dou não revelam o seu talento, mas sim a excelência daqueles com quem concorrem. Ronaldo: 100%. André Silva: 100%. Bernardo Silva: 100%. Quaresma: 60%. Gelson: 60%. Gonçalo Guedes: 40%. Nani: 30%. Éder: 5%. Bruma: 3%. Ronny Lopes: 1%. Gonçalo Paciência: 1%        
2017-11-12
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Em Madrid há quem chore por Pepe, 34 anos feitos em Fevereiro, que o clube deixou fugir para o Besiktas. Esse, Fernando Santos não deve perdê-lo antes do próximo Campeonato do Mundo. Mas não há tantas certezas acerca de Bruno Alves, que faz 36 anos este mês e já nem sempre joga pelo Glasgow Rangers. Ou até de José Fonte, que faz 34 antes do Natal, mas os celebrará  em recuperação de uma lesão contraída na semana passada e que o afastará dos relvados pelo menos até Janeiro. O selecionador nacional já reconheceu por palavras e por atos que esta é a sua maior preocupação, mas sendo verdade que o panorama é desanimador e não lhe facilita a tarefa, não é menos evidente que ele também tardou em assumir o problema: a chamada de segundas linhas para os particulares solidários deste mês pode ser tão importante como tardia para o que se pretende. O que se pretende é ter pelo menos três defesas-centrais que deem garantias no Mundial, em Junho de 2018. Portugal apareceu e ganhou o Europeu de 2016 com Pepe (33 anos à data), Fonte (32 anos), Bruno Alves (34 anos) e Ricardo Carvalho (38 anos). É absolutamente invulgar uma equipa chegar a uma fase final com quatro defesas centrais tão avantajados, porque se a experiência pode ser uma virtude, ela deve ser temperada com a fogosidade da juventude. Porquê? Para que não suceda o que sucedeu com Ricardo Carvalho, por exemplo, no Europeu: começou a prova como primeira escolha e teve de ser substituído no onze a partir do final da primeira fase. Fez a sua parte, o que lhe competia, e fê-lo bem, mas por muito que um jogador se cuide, é humanamente impossível aguentar o ritmo de uma competição como um Europeu ou um Mundial a partir de determinada idade. Não vou sequer centrar-me no futuro. O futuro, no futebol, é agora. Não acho que Santos deva ter nas listas defesas-centrais sub25 só porque pode vir a precisar deles daqui a dois ou três anos. Sei também que o tempo de treino de uma seleção é geralmente tão curto que tem de ser aproveitado para preparar o jogo seguinte e não dez jogos à frente. Ainda assim, podendo o selecionador chamar 23, 24, 25, até 26 jogadores para cada compromisso duplo da seleção, não vejo nenhuma razão para não se ter já começado a introduzir novos elementos desta posição no grupo há mais tempo. O selecionador confia em Pepe, Bruno Alves, Fonte e Neto (29 anos)? Muito bem. Pois que os convoque. Mas olhando para o envelhecimento daquela posição em específico, podia também já ter alargado o “numerus clausus”, chamando nem que fosse um jogador extra-contingente a cada convocatória. Depois, a treinar, se veria como respondia e se ia à ficha de jogo ou ficava a ver da bancada. Agora, para os jogos com a Arábia Saudita e os Estados Unidos, apareceram na lista de Fernando Santos Edgar Ié, 23 anos, titular no Lille de Bielsa e membro recente da seleção de sub21, e Ricardo Ferreira, 24 anos, uma das opções de Abel Ferreira no SC Braga. Não são más escolhas – e em abono do atraso com que Fernando Santos os chamou pode até dizer-se que Ié era lateral-direito no Belenenses na época passada, que o Lille anda pelos fundos da tabela francesa ou que Ricardo Ferreira vai apenas com cinco jogos competitivos feitos esta época. A questão é que nem estes jogos servirão para avaliar grande coisa – o facto de não estarem os pesos pesados levará inevitavelmente a que toda a equipa os encare de forma, digamos, muito mais distendida – nem haverá já tempo para os avaliar em situação de pressão antes de chegar o Campeonato do Mundo. O problema é que, no que aos defesas-centrais diz respeito, Fernando Santos olhou sempre para a seleção como ponto de chegada. E, tendo em conta a crise que o próprio detetou, devia tê-la visto mais como ponto de partida, reconhecendo até a sua vertente motivacional. Sei bem que, em situações normais, é assim que deve ser. A seleção é uma etapa de excelência, não deve servir para motivar jogadores. Só que esta não é uma situação normal. E para situações excecionais, medidas excecionais. Nos últimos anos, jogadores houve que – como Ruben Dias agora, por exemplo… – podiam ter sido chamados extra-contingente. Falo, por exemplo, de Ruben Semedo, quando foi titular do melhor Sporting de Jesus. De Josué, enquanto foi pilar defensivo de um Vitória SC que andava pelo topo da tabela em Portugal. De André Pinto, que chegou a ser chamado para um destes particulares de escassa exigência, contra Cabo Verde, e depois foi deixado cair. Admito até que Santos não tenha visto nestes jogadores o que viu em Fonte que, valha a verdade, foi ele quem “inventou” para a seleção: testou-o contra a Argentina, num particular de prestígio que tem pouco a ver com os que aí vêm, e deu-lhe meses depois a prova de fogo, quando uma lesão de Ricardo Carvalho o forçou a coloca-lo em campo aos 17’ de um jogo decisivo com a Sérvia. Fonte respondeu bem. Mas está próximo o dia em que Santos vai ter de inventar mais alguém. Talvez seja ainda antes do Mundial.
2017-11-05
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Anda a metade do país futebolístico que gosta de falar de futebol – mesmo – entretida com a proposta de jogo do Rio Ave, mas tão ou mais interessante do que debater a filosofia da equipa de Miguel Cardoso é ver como os vila-condenses foram capazes de condicionar o jogo dos três candidatos ao título. Porque ao colocar a Benfica, FC Porto e Sporting problemas que eles raramente encontram na Liga, o Rio Ave pode funcionar como uma espécie de teste do algodão, que vem confirmar a força da candidatura da equipa de Sérgio Conceição, a única capaz de impedir o Rio Ave de jogar o seu futebol. É verdade que há no exercício um aparente contra-senso. Se os grandes passam 90 por cento da Liga a jogar contra equipas que dão tudo para não deixar jogar, que sentido faz avaliá-los num jogo em que o adversário quer a bola para ele e não abdica de pôr em prática os mesmos princípios de jogo positivo que advoga em qualquer desafio. Jogos contra equipas que se limitam a juntar linhas à frente da sua área e a tentar esticar na frente quando conseguem, os grandes acabam naturalmente por vencer a maioria. E se os ganham ou não, isso depende mais de meras circunstâncias particulares e absolutamente incontroláveis: uma má decisão, uma bola que bate no poste ou que entra, um defesa que sobe uma fração de segundo mais tarde do que devia para fazer o fora-de-jogo… Contra o Rio Ave, equipa que não bate a bola na frente à espera de um bambúrrio ou de ganhar segundas bolas no arreganho, é preciso qualidade para se jogar e, sobretudo, para não deixar jogar. Ora, os três grandes já passaram por Vila do Conde, com uma constante: todos tiveram menos bola do que os donos da casa. Aqui, quem mesmo assim conseguiu ter a bola por mais tempo até foi o Benfica (48/52, face a 42/58 do FC Porto e 43/57 do Sporting), mas a isso não será estranho o facto de o jogo com os tetracampeões nacionais ter sido o único em que o Rio Ave esteve em vantagem, motivando uma reação do adversário desde bem cedo. Porque a verdade é que quem melhor contrariou o jogo do Rio Ave foi o FC Porto, precisamente a equipa que, das três, consegue fazer mais com menos. Além de ser a equipa mais competente das três na pressão sobre a saída de bola do adversário, o FC Porto de Sérgio Conceição é mais explosivo quando em iniciativa e precisa de menos situações para, com espaço nas costas, criar lances de golo iminente. Dos três, foi o que menos sofreu em Vila do Conde – ainda que o facto de nesse dia ter apanhado um Rio Ave sem Pelé e Geraldes ajude a explicar –, tendo-se colocado em vantagem logo a abrir a segunda parte e chegado à tranquilidade dos 2-0 a meio do segundo período. Bem diferente do que se passou anteontem com o Sporting, que foi manietado na primeira parte e não conseguiu fazer mais do que dividir o jogo no segundo tempo contra um Rio Ave também sem Geraldes (emprestado pelos leões), mas com Pelé e um soberbo Ruben Ribeiro. Para ganhar em Vila do Conde, o Sporting fez valer uma arma que também é própria das grandes equipas: a superioridade individual dos seus jogadores, no caso com foco especial em Rui Patrício (o Rio Ave fez 22 remates contra seis) e Bas Dost, mas com destaque para todos os que estiveram em campo, que várias vezes conseguiram transformar água em vinho. Viu-se muitas vezes o Sporting a bater a bola na frente, porque Jesus sabia que tinha de sobrevoar aquele bloco e ir à procura de espaço onde ele estava, que podia perder muitas bolas nessa lotaria mas que o mais provável era que numa das que ganhasse acabasse por fazer um golo. Como fez. E como podia também ter feito antes. Das três equipas, a que mais dificuldades sentiu em Vila do Conde foi mesmo o Benfica, não apenas por ter apanhado um Rio Ave com toda a gente – Geraldes, Bruno Teles, Pelé, Ruben Ribeiro… – mas também por ser a que tem o modelo de jogo menos evoluído, tanto defensiva como ofensivamente. Reage pior à perda, estabelece pior equilíbrios no corredor central, tem mais dificuldades para garantir situações de superioridade nas alas… E, sendo verdade que piorou da época passada para a atual (as saídas de Ederson, Semedo e Lindelof fazem-se sentir, naturalmente), já era assim na época passada. Ou há dois anos. E no entanto o Benfica ganhou esses dois campeonatos. Da mesma forma que o Real Madrid é neste momento bicampeão europeu e não tem o melhor coletivo: tem as melhores individualidades. Se o futebol se ganhasse só pela qualidade do processo, o Rio Ave seria candidato ao título. Não é. Talvez até acabe a época fora dos lugares europeus. Mas o teste de algodão que fez aos grandes valida a candidatura portista ao título, garante um Sporting sólido e pronto para tudo e explica que o penta dependerá muito do nível que perderem Jonas (até agora não perdeu) ou Luisão e do que ganharem Svilar, Ruben Dias ou Diogo Gonçalves. Não é o futuro: o presente depende deles.  Artigo incluído na edição do Diário de Notícias de 29 de Outubro de 2017
2017-10-29
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Há mais do que uma diferença gritante entre os processos de afirmação de Oblak e Ederson no Benfica e aquilo que vive neste momento o jovem Svilar. Já se falou muito na experiência que os dois primeiros conseguiram acumular na UD Leiria e no Rio Ave, da mesma forma que é evidente a diferença de idades, mas uma coisa tem passado mais despercebida: a expectativa. Os adeptos olharam para Oblak e Ederson com desconfiança, não esperavam que fosse eles a resolver os problemas do clube e limitavam-se a ter fé de que não os criassem. Com Svilar é diferente: gerou-se à volta do jovem belga uma aura de prodígio, na qual até José Mourinho colaborou, que faz tudo menos facilitar-lhe o processo de integração e que aproxima o Benfica da abordagem que durante anos o Sporting teve para os seus jovens formandos, de um endeusamento prematuro que não é bom conselheiro. Lembro-me bem da chegada de Ederson à equipa principal do Benfica. A ocasião era o dérbi com o Sporting, em Alvalade, por sinal decisivo para a definição do título de campeão de 2015/16. Júlio César teve o primeiro dos seus achaques físicos no clube e Rui Vitória foi forçado a apostar no jovem brasileiro. Não haveria muitos benfiquistas a achar que era por ali que o Benfica ia ganhar o campeonato – ao invés, a maioria esperaria apenas que o miúdo não comprometesse, como acabou por não comprometer. Svilar já chegou à Luz como Deus das balizas, apesar dos seus 18 anos. É o guarda-redes que até o Manchester United queria mas não pôde ter, dizem agora os meios “bem informados”. Só que tem 18 anos e comete erros próprios de quem não acumulou ainda horas suficientes de baliza para saber automaticamente o que tem de fazer em cada situação. Depois, se foi humilde a pedir desculpa a quem estava na bancada – já li textos emocionados a esse respeito que me pareceram altamente desproporcionados –, se vai aprender com os erros e se Mourinho terá mesmo de pegar na mala cheia de dinheiro que anunciou que ele vai valer para vir buscá-lo, isso só o futuro o dirá. Não me escandaliza que Rui Vitória tenha agora com Svilar um comportamento diferente do que teve com Bruno Varela. Uma equipa de futebol não é uma repartição de finanças, em que toda a gente tem direito ao mesmo tratamento. Se Varela errou e foi afastado e agora Svilar errou e vai manter o lugar, isso quer dizer apenas uma coisa: que o treinador tem em Svilar uma crença, uma fé, que não tinha em Varela. E é ele quem tem de decidir, porque é também ele quem coloca o emprego em risco a cada decisão. O que já não é benéfico é que o próprio Benfica queira justificar esta decisão – normal, repito – através da criação de uma realidade alternativa que tem o seu quê de forçada. Svilar não é o Yashin dos tempos modernos. Ainda não é, pelo menos. E se para justificar a decisão do treinador se tiver de fazer crer ao público de que ele já pede meças a Buffon, há aí um elevado risco de isso vir a contribuir apenas para que ele acabe por não tirar dos erros – normais aos 18 anos, repito – os devidos ensinamentos. Se havia coisa que, nos últimos anos, separava o Benfica do Sporting, por exemplo, era a abordagem que nos dois clubes se fazia ao lançamento de jovens. No Sporting, onde não se ganhou nenhum dos últimos 15 campeonatos, vivem-se entusiasticamente os sucessos de Cristiano Ronaldo ou Nani, como antes se viviam os de Futre ou Figo – e um dia, quem sabe, se o tempo apagar as mágoas, se viverão os de Simão ou Moutinho. Aplaude-se a percentagem de “Aurélios” – nome dado aos formandos de Alcochete, em referência a Aurélio Pereira – na seleção nacional que ganhou o Campeonato da Europa, esquecendo-se que de todos só um (Quaresma) foi campeão no clube. No Benfica, desde que se começou a vencer (o clube ganhou cinco campeonatos nos últimos oito), isso deixou de ser importante – e antes também não o era, porque a verdade é que daquelas escolas não saía nada… Ultimamente, porém, talvez por se sentirem atingidos pelo entusiasmo dos sportinguistas, os benfiquistas começaram a querer bater-se numa área que não é a deles, a endeusar jovens candidatos a prodígios como Renato Sanches, Nelson Semedo, Bernardo Silva, Gonçalo Guedes ou, agora, Svilar, Ruben Dias e Diogo Gonçalves. Não é um bom caminho.
2017-10-22
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Tive a oportunidade de fazer, para o Bancada.pt, a primeira entrevista a Fernando Santos depois de Portugal ter conseguido a qualificação para o Mundial. E o selecionador que me apareceu à frente era um homem não apenas solto, como incrivelmente confiante. É verdade que muito do que Santos disse pode ser entendido como parte de uma estratégia de comunicação, até para dentro do balneário, mas houve uma frase que me fez pensar: “Neste momento, ninguém quer defrontar Portugal”, disse Fernando Santos. E há uma probabilidade elevada de andar muito próxima da realidade, porque, como também me disse o selecionador, “é muito difícil ganhar à seleção portuguesa”. De facto, a seleção nacional, que muitos por cá consideram aborrecida, é monótona sobretudo numa coisa: não perde jogos. Em 29 jogos de competição com Fernando Santos, Portugal venceu 22 – sim, metade foram pela margem mínima, mas também convém perceber que desses 11 ganhos à justa, só um aconteceu na qualificação para este Mundial – empatou seis e perdeu apenas um. Essa derrota, contra a Suíça, pode ter feito disparar os índices de “mau feitio” que o próprio Santos reconhece ter, porque foi concedida no primeiro jogo competitivo após a conquista do Europeu, por uma equipa em alguns pontos demasiado importada em “jogar bonito”, em deixar brilhar a estrela de campeão que cada um dos seus membros levava ao peito. Esse Suíça-Portugal de Basileia teve coisas muito boas e outras que, parecendo más, também podem ter sido muito boas. Teve brilhantismo ofensivo, o que é muito bom, e sobranceria, que também pode ter sido muito boa, se a derrota tiver servido para a erradicar. Já o disse: não creio que Portugal tenha, neste momento, a terceira melhor seleção do Mundo, conforme diz o ranking da FIFA. Chega a parecer estranho que a seleção tenha já garantido um lugar de cabeça-de-série no sorteio do Mundial, ao lado da Rússia (anfitriã), Alemanha, Brasil, Argentina, Bélgica, Polónia e França, e que a Espanha, por exemplo, vá parar ao Pote 2. O próprio Fernando Santos reconhece debilidades na equipa portuguesa e fala de uma forma aberta de algumas delas, as que identificou no centro ou no lado esquerdo da defesa. Olha-se para o lote de jogadores à disposição dos selecionadores da Alemanha, do Brasil, e mesmo da Argentina, da França e da Espanha e não se pode dizer que os portugueses estejam ao mesmo nível. Porque não estão. Mas a verdade é que só jogam onze de cada vez. E em 90 minutos. Ou em 120. E se neste seu percurso competitivo de três anos, a seleção de Fernando Santos só defrontou uma daquelas cinco potências (a França), o que é indesmentível é que lhe ganhou. E ganhou-lhe onde e quando lhe doía mais: no Stade de France, na final do Europeu. Esta seleção de Portugal não é, de facto, uma maravilha de se ver em todos os jogos. Às vezes, também a mim me parece que arrisca pouco: em Andorra, por exemplo, num jogo contra um adversário que não sabia nem queria jogar e se limitava a acantonar-se à frente da área para aproveitar as dificuldades que o sintético provocava aos portugueses, manteve muitas vezes seis jogadores atrás da linha da bola e fora do bloco opositor. Contra a Suíça, mesmo com algumas exibições brilhantes (William, Bernardo, João Mário, a mostrarem que há Portugal para lá de Ronaldo…), nunca se deixou inebriar pelo barulho das luzes e preferiu sempre exercer o controlo a ir à procura do elogio. Terá aprendido a lição de Basileia. A questão é que Portugal acabou por ganhar os dois jogos e não foi pela margem mínima com que ganhava na qualificação do Europeu. E em ambos se viu que a ligação entre as ideias do selecionador e os jogadores está ativa. Porque a razão por trás do controlo do jogo contra a Suíça é a mesma que explica a incapacidade ofensiva no jogo de Andorra. É a urgência de ter segurança. O receio de falhar, de expor a equipa. Após a entrevista, enquanto fumava um cigarro, Fernando Santos perguntava-me: “Mas isto agora mudou? Já não é importante uma equipa ser compacta? Ser segura?” Era uma pergunta retórica. E é tão claro que é importante como é claro que não mudou. Mas também não mudou a insatisfação dos analistas e dos adeptos. Porque se tivéssemos uma equipa a jogar bonito e a perder jogos, a questão iria colocar-se ao contrário. Lembrei-me do que me disse Carlos Queiroz há uns dois meses, a propósito das alterações que fez na seleção depois de um dos melhores jogos que vi fazer a uma seleção nacional ter redundado numa derrota, contra a Dinamarca, em Alvalade (2-3). Passou a privilegiar a segurança, a equipa deixou de sofrer golos, e ainda chegou ao Mundial. Na África do Sul, é verdade, as coisas não correram bem. Mas aquele Portugal não tinha nem a profundidade de escolhas que tem este nem um Cristiano Ronaldo maduro e capaz de aceitar que pode ter na equipa um papel mais importante que o de marcar golos: o de capitão de equipa.
2017-10-15
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Comentei ontem o Andorra-Portugal, para a RTP1, sentado num andaime colocado junto à linha lateral, ligeiramente acima do banco de Portugal. Não o escrevo para me queixar. Os jogadores portugueses jogaram num relvado sintético de primeira geração, que dificulta o jogo mais técnico a que estão habituados e pode ser mais propenso a lesões de impacto. E é assim que tem de ser, porque a alternativa era Andorra receber os adversários nesta fase de qualificação fora do país, num ambiente asséptico e normalizado, mas que não seria o deles. Essa opção era melhor para os interesses de Portugal, que nestas coisas da UEFA é um dos grandes, mas pior para o Mundial, que pode gabar-se precisamente de ser a forma de levar a todo o Mundo a mensagem do futebol. Um pouco como a Taça de Portugal dentro das nossas fronteiras. Não domino questões de segurança e sei bem que um Andorra-Portugal não envolve tantas preocupações a este nível como um Oleiros-Sporting, um Olhanense-Benfica ou um Lusitano de Évora-FC Porto. A razão é simples e tem a ver com as claques que acompanham as equipas dos nossos grandes e que, pelo menos nas fases de qualificação, não estão associadas a jogos de seleção a contar para o Mundial. Não vou, por isso, contestar a parte mais securitária por trás da mudança de local dos jogos da Taça de Portugal. Mas há mais razões. E em relação a estas, todas facilmente rebatíveis (da televisão à relva), parece-me seguro dizer, ao menos, que a letra e o espírito da lei se contradizem no futebol português. Porque se por um lado se condiciona o sorteio desta eliminatória da Taça de Portugal para garantir que os clubes vindos da I Divisão têm de jogar fora, por outro deixa-se os mais pequenos vulneráveis aos interesses dos grandes, de forma a que acabem por trocar os locais de realização dos jogos. O que fica assim em causa é a “festa da Taça”. Já pensou por que razão se ouve esta expressão há décadas? É por isso mesmo: porque ao pôr frente a frente equipas de divisões diferentes, a Taça de Portugal democratiza o futebol e leva o jogo de mais alto nível aos quatro cantos do país. Isso tem de ser preservado. E é isso que fica ameaçado quando se autorizam estas alterações de local ao abrigo de questões como a facilidade da realização televisiva ou o mau estado de alguns relvados. Porque há muito mais dinheiro envolvido em direitos de TV no Andorra-Portugal de ontem e nem por isso ele deixou de ser disputado num estádio que dificilmente teria condições para albergar um jogo da Taça de Portugal. Sem ter espaço para um ângulo favorável às câmeras, sem espaço para os jornalistas, num relvado que já não se usa, ainda que em Andorra até faça sentido – o facto de haver neve durante metade do ano impede que nesta pequena cidade dos Pirenéus cresça e possa manter-se um relvado natural em condições para que se jogue. Menos sentido faz que em Portugal as equipas andem a optar cada vez mais pelos sintéticos só porque os relvados naturais são mais caros de manter, e que depois se ouçam os clubes de I Divisão a queixar-se porque têm de ir lá jogar. Porque ou os relvados são bons e admissíveis ou não são e devem ser proibidos num país com tantos dias de sol e, à exceção de alguns locais, sem neve, como é o nosso. Nem que para isso tenha de se legislar, como se fez quando foram proibidos os pelados em todos os campeonatos nacionais. É verdade que Portugal até foi um dos últimos redutos dos campos pelados e que isso não era bom para o futebol. Nem para os futebolistas – como agora parece consensual que não são os relvados sintéticos. Muito do encanto deste desporto, no entanto, vai-se fazendo das memórias que guardamos todos e muitas dessas memórias têm a ver com aquela tarde em que um craque de seleção foi ao campo da nossa terra e esteve ali ao pé de nós, depois de disputar uma bola com o Joaquim do talho ou ou João da farmácia. Se isso lhe põe em risco a integridade física, então não deve jogar lá ele nem os amadores das divisões secundárias. Porque o Joaquim do talho e o João da farmácia também são gente e merecem o mesmo respeito. No fundo, os jogos mudam de local porque a polícia acha que não consegue controlar as claques dos grandes em estádios mais mal equipados – e nesse aspeto os grandes até beneficiam das suas próprias más condutas, pois acabam a jogar em campo neutro em vez de enfrentarem as dificuldades de uma saída ao campo do adversário. E mudam porque dá mais receita jogar noutros locais do que nos campos de província. Bom era que os clubes pequenos canalizassem essa receita adicional para a manutenção de bons relvados e a edificação de infraestruturas que lhes permitam em breve dar uma alegria às suas populações. Ou isso ou que se mude este regulamento e, sem hipocrisias, tal como na Taça da Liga, se metam os grandes a jogar sempre em casa.
2017-10-08
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Jorge Jesus criou uma moda em Portugal, nos últimos anos. Foi a moda dos dois avançados. O sucesso desportivo do treinador no Benfica, invariavelmente com dois pontas-de-lança, levou um país globalmente convertido ao 4x3x3 a mudar e a adaptar-se às novas tendências. Não foi preciso muito tempo para se verem mais equipas a regressar ao 4x4x2. Foi assim que Sérgio Conceição, que até foi jogador de Jesus e tem com ele uma excelente relação, encarou o trabalho mais mediático da sua carreira como treinador: à chegada ao FC Porto, meteu gente na frente e essa foi uma das grandes mudanças do seu futebol relativamente ao mais conservador Nuno Espírito Santo. E no entanto, ambos se preparam para jogar o primeiro clássico da época com apenas um atacante de referência. As razões para a alteração são múltiplas e creio que serão diferentes. No Sporting, a decisão será mais imposta pelo plantel ao treinador e tem a ver com a existência de um jogador como Bruno Fernandes, dificilmente compatível com o 4x4x2 em desafios de maior exigência. No FC Porto é ao contrário: é mais o treinador a impor ao plantel a vontade de conseguir mais algum controlo para temperar a vertigem que, desregulada, pode redundar em desastres de comboio como o verificado em casa contra o Besiktas. Todos concordaremos que as melhores exibições tanto de Sporting como do FC Porto esta época foram conseguidas em 4x2x3x1: os leões em Guimarães, em Bucareste ou em Atenas (enquanto estiveram acordados); os dragões no Mónaco, onde a equipa já mostrou mais alguma capacidade de ser contundente do que em Vila do Conde, por exemplo – também porque, por mais estranho que possa parecer, o AS Mónaco foi menos competitivo do que o Rio Ave. E o segredo aqui passa por ser capaz de manejar os dois sistemas e de escolher entre eles, consoante os jogos. Os dissabores que Sporting e FC Porto conheceram esta época tiveram, regra geral, a ver com isso. Descontemos aqui o Sporting-FC Barcelona, onde o normal era os leões perderem e as opções táticas de Jesus até ajudaram a diminuir o fosso, com a articulação Battaglia-Mathieu a fechar as vias de abastecimento a Messi. De resto, de que se queixam Sporting e FC Porto? O Sporting do empate em Moreira de Cónegos, onde entrou com um meio-campo demasiado macio – William e Bruno Fernandes – e com dois avançados – Alan Ruiz e Bas Dost. Estes até lhe garantiam qualidade na frente, mas isso tornou-se irrelevante, por estarem inseridos numa equipa que passava demasiado tempo em outras áreas, onde o adversário era sempre mais vigoroso nos duelos. Jesus corrigiu, mas o facto de estar em desvantagem não lhe permitiu fazer o que se impunha, pelo que acabou por montar um meio-campo mais combativo, mas com menos ideias, porque lhe faltava a capacidade de Bruno Fernandes para ligar o jogo e, estranhamente – talvez já a pensar em agilizar processos para o desafio com o FC Barcelona –com Battaglia atrás de William, roubando à equipa a qualidade que este lhe confere no início da construção. O FC Porto queixar-se-á da derrota em casa com o Besiktas, onde Sérgio Conceição também entrou com Danilo e Óliver Torres a enfrentarem o meio-campo a três da equipa turca, mas com dois extremos – Corona e Brahimi – e dois pontas-de-lança – Marega e Soares, face à ausência de Aboubakar. A quipá tinha mais gente na frente, corrigindo a timidez de 2016/17, mas também não tinha bola para a fazer contar, o que terá levado Sérgio Conceição a corrigir aquilo que antes dissera publicamente ser irrelevante. No Mónaco já apareceu Sérgio Oliveira a dar algum amparo a Danilo, permitindo que Herrera se convertesse em unidade de pressão junto ao avançado, com Marega a rasgar na direita e Brahimi a criar da esquerda para o meio. E o que se viu – o próprio treinador o reconheceu depois, quando disse que a partir dos 20’ percebeu que dificilmente deixaria de ganhar o jogo – foi um FC Porto a controlar todo o jogo e todo o campo, à espera apenas da ocasião em que o contra-ataque prometido entraria e levaria ao golo que relançaria a partida. Acho há muito tempo que o 4x2x3x1 é o esquema mais inútil do futebol, porque na maior parte das vezes pode conduzir a vários vícios e defeitos: anula os defesas-centrais na construção, porque tem ali dois médios para sair com a bola, quase que a marcarem-se um ao outro; tira às equipas a capacidade de meter gente na área, porque se as equipas usam um “10” é para ele aparecer entre-linhas do adversário e isso muitas vezes inibe-o de surgir a engrossar os números na zona de finalização. No Sporting-FC Porto de hoje, no entanto, a chave do jogo vai estar no terceiro médio. Porque antes de mais nada, as duas equipas quererão ter mais controlo e menos vertigem. E isso é sinal de evolução.
2017-10-01
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O futebol português vive numa conjuntura em que, independentemente de onde esteja o poder de direito, o importante é entender onde está o poder de facto e fazê-lo funcionar, doa a quem doer. Há já alguns meses que venho escrevendo e dizendo a quem está, por exemplo, na Federação Portuguesa de Futebol, que só da Cidade do Futebol podia vir uma ação contundente para acabar com a podridão que está a gangrenar todo o futebol nacional. Sempre me respondiam que não podia ser, porque o poder de direito é da Liga e só a Liga podia meter-se no caso. Só que a Liga está fraca, a entrada de Pedro Proença não a revitalizou suficientemente e o poder de facto está noutro lado. Portugal foi campeão europeu e, inevitavelmente, a liderança da FPF recolheu daí muitos benefícios em termos de imagem pública. Independentemente disso – mas também por isso –, Fernando Gomes acaba de ser nomeado para substituir Angel Maria Villar na Comissão Executiva da FIFA, sendo neste momento evidente que é, em termos internacionais, o mais poderoso dirigente da história do futebol nacional. Mais do que Antero da Silva Resende, cuja presença nos principais areópagos internacionais era vista como uma vitória para o Portugal dos Pequenitos mas significava pouco. Mais do que João Rodrigues, a cuja presença significativa nos corredores das mais altas instâncias faltava o correspondente reconhecimento público. Além disso, mesmo antes do Europeu de 2016, Tiago Craveiro já era um dos homens mais tidos em conta, quer pela liderança da FIFA quer pela liderança da UEFA. O primeiro abraço de Gianni Infantino depois de ter sido eleito presidente da FIFA foi dado a Onofre Costa, o homem que muita gente em Portugal julga que se limita a sentar-se ao lado de Fernando Santos nas conferências de imprensa e a escolher os jornalistas que têm o direito de fazer perguntas, mas cuja importância transcende em muito esses momentos – por alguma razão era ele quem estava ao lado direito de Infantino na plateia. O verdadeiro poder para influenciar as coisas no futebol português está na Federação Portuguesa de Futebol e não na Liga, até pelo simples facto de não ser a FPF quem mais se envolve diretamente nos assuntos acerca dos quais os clubes mais discutem. Quando foi preciso instituir o vídeo-árbitro foi a FPF quem avançou. A Liga, além de estar a recuperar de um estado de pré-falência, nunca conseguirá – ou pelo menos não o conseguirá nos tempos mais próximos – pairar acima de qualquer suspeita para clubes cuja atividade vive precisamente da criação dessa mesma suspeita. Por isso, sim, embora não tivesse a obrigação de o fazer, só a Federação Portuguesa de Futebol e o seu presidente podiam encabeçar a tentativa de pacificação iniciada com o texto assinado esta semana por Fernando Gomes. Só mesmo o presidente da FPF podia escrever o que escreveu e recolher aplausos de todo o lado – tivesse sido Pedro Proença a fazê-lo e imediatamente choveriam acusações de favorecimento à esquerda e à direita, que é como quem diz a um e a outro dos grandes. E, no entanto… E, no entanto, ainda que toda a gente tenha concordado e aplaudido as palavras de Fernando Gomes, os principais clubes fizeram delas chão raso quando se tratou de as comentar, todos a apontar o dedo uns aos outros, como se as culpas do que se passa fosse apenas e só dos rivais. É por isso que digo que Fernando Gomes deu o pontapé de saída, exercendo aquilo que pode exercer, que é um magistério de influência para tentar colocar as coisas nos eixos, mas que vai ser preciso haver mais gente a fazer mais. Se o que se quer é acabar com o corrente estado de podridão – e não se julgue que isso vai acabar de um dia para o outro, porque foram anos e anos a espalhar ódio, que já se entranhou nas mais diversas camadas da sociedade e leva o comum adepto a ser mais ativo quando se trata de menorizar as conquistas dos adversários do que quando pode festejar as vitórias dos seus – é preciso fazer mais. E o mais, já o disse e escrevi, não passa por enquadrar disciplinarmente os ilícitos, porque isso haverá sempre forma de contornar, seja através de meros adeptos famosos cujo discurso não é imputável aos clubes, seja através de simples funcionários. O mais que é preciso fazer passa por ocupar o espaço mediático. Passa por, como se faz nas Ligas que deviam ser modelo para nós, forçar os clubes a permitirem que os verdadeiros protagonistas – jogadores, treinadores – apareçam nas TVs, nas rádios, nos jornais ou nos sites de informação, com simples declarações ou em entrevistas. E aqui, sim, tem de ser a Liga a chegar-se à frente e a perceber que, por muito que queira manter este equilíbrio precário em que o futebol se está a afundar, não pode manter mais o alibi segundo o qual só faz aquilo que os clubes querem. Os clubes não podem querer a auto-destruição do futebol português. Não têm nada a ganhar com isso.
2017-09-24
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O futebol é um jogo ou é um negócio? Aparentemente nem uma coisa nem a outra – é o ópio do povo. É o que se conclui da bizarra decisão de atrasar o pontapé de saída do Sporting-FC Porto, passando-o para as 19h15 do dia das próximas eleições autárquicas, de forma a que não atrapalhe o normal curso dos procedimentos democráticos. Se fosse um jogo, poderia jogar-se, como todos os que decorrerão nesse domingo. Se fosse um negócio, poderia defender-se, como todos os negócios que estarão de portas abertas nesse domingo. Chato mesmo é ser o ópio do povo, a encarnação de todos os males. A potencial abstenção dos eleitores portugueses não tem, afinal, a ver com o aumento do grau de desilusão que vão tendo nalguns políticos que elegem ou do sentimento de impotência para travar o que sentem estar mal. Não tem sequer a ver com a quantidade de programas de TV idiotas que lhes enchem a grelha do cabo e das generalistas ou com o facto de poderem passar os domingos de eleições a vegetar dentro de centros comerciais, que a cada ano esticam mais os horários de abertura e de fecho – quando em muitos países onde se fazem coisas parvas, como jogar futebol em dia de eleições, esses mesmos centros comerciais fecham ao domingo para permitir o convívio das famílias. Não. A abstenção dos eleitores portugueses tem a ver com os jogos de futebol. Por isso, no próximo dia 1 de Outubro, poderemos todos ir ao cinema, ao teatro, à praia, ver espetáculos de música, fazer piqueniques no campo… Poderemos até passar o dia a ver montras nos centros comerciais, mas estamos protegidos desse mal maior que é a possibilidade de ir ao futebol enquanto as urnas estão abertas. Quem teve esta ideia peregrina demonstra muita coisa, mas não um conhecimento acertado da realidade. É que apesar das tentativas recentes de recuperação do setor, que sim, é um negócio e não está a ser nada ajudado com decisões como esta, o futebol, para os portugueses, deixou há muito de ser uma atividade predominantemente de estádio. É uma atividade de sofá. Há mais gente a ir aos estádios, mas o que as pessoas querem por estes dias não é ver um remate do Aboubakar, um drible do Gelson ou um passe a rasgar do Pizzi. O que querem é saber o que dizem na televisão desses feitos – daí o sucesso de programas que mais não apresentam do que imagens em loop dos treinadores a percorrer a linha lateral e a reação de adeptos “famosos” ao que se vai passando no campo. É giro, não tem de se perceber e sempre mete uns palavrões e uns insultos de vez em quando. Portanto, meus senhores, é melhor proibir também nesse dia os programas sobre futebol – mas podem deixar os reality shows, as novelas, as sessões de cinema e os desenhos animados, que isso, quem os vê não deve votar. Aceito até que aleguem que não é só isso. Que a malta em Portugal anda mais entretida com essa conversa tóxica, com as entrevistas dos diretores de comunicação, os mails, o vídeo-árbitro ou as listas dos corruptos por comprovar do que a ver futebol a sério porque o futebol por cá não é assim tão interessante. Pois bem, eis a má notícia. Nesse dia 1 de Outubro, há um Real Sociedad-Betis às 11h, um Nápoles-Cagliari às 11h30,  Arsenal-Brighton ao meio-dia, um Hertha-Bayern às 14h30, um FC Barcelona-Las Palmas às 15h15, um Newcastle-Liverpool às 16h30, um FC Colónia-RB Leipzig e um Milan-Roma às 17h e por fim um Atalanta-Juventus e um Real Madrid-Espanyol às 19h45. Podem fazer uma de três coisas. Convencer os eleitores a irem votar pela fresquinha, esperar que o Barça e o Bayern resolvam os jogos depressa para se dar um salto à mesa de voto – pode ser que não haja muita fila e dê para votar antes de começar o Liverpool… – ou impor à Sport TV a transmissão dos jogos em diferido. E bloquear os streamings todos, para que quem prefere ver as coisas de forma, digamos, menos legal, também não se sinta tentado a abster-se. O problema é que a política já passou há muitos anos pelo caminho de descredibilização que o futebol está a passar agora. Provavelmente tem a ver com a sociedade. Cresci a ouvir um pouco por todo o lado acerca dos políticos o que se ouve hoje da malta do futebol – e não eram coisas simpáticas. O segredo, acreditem, não passa por proibir. Ninguém deixa de ir votar por causa de um jogo de futebol às 18 horas. A submissão de uma atividade económica tão importante como o futebol – sim, podem rir-se à vontade, mas quando acabarem vão ver os números – a um capricho é que não indicia nada de bom. Nem acerca dos homens do futebol nem dos políticos que acham que estão a fazer uma coisa boa.
2017-09-17
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Feirense e Portimonense portaram-se muito bem nos jogos com Sporting e Benfica, a contar para a quinta jornada da Liga (escrevo ainda antes do FC Porto-Chaves) e essa circunstância foi e voltará a ser aproveitada para ridicularizar os que apontam o dedo à desigualdade na distribuição da receita para falar de perda de competitividade do futebol em Portugal. Na verdade, quem o faz está a ser tão ou mais demagogo do que foi Manuel Machado quando levantou a lebre, depois de ter visto o seu Moreirense ser atropelado pelo FC Porto. Porque aqui há dois planos de realidade: a distribuição da receita devia ser mais justa, mas dentro das injustiças há quem trabalhe melhor e quem trabalhe pior. Imaginemos uma família que faz das tripas coração e consegue viver com o salário mínimo. E outra que, nas mesmas condições chega sempre a meio do mês com as contas a vermelho. O facto de existir a primeira não quer dizer que o salário mínimo seja suficiente ou que a sociedade não deva preocupar-se com as desigualdades que a assolam: significa apenas que há gente que consegue fazer mais com menos. E tanto Nuno Manta como Vítor Oliveira – ou Miguel Cardoso, que protagonizou com o Rio Ave um arranque extraordinário da Liga – são treinadores capazes de fazer muito com pouco. E parte da justificação nem está exclusivamente neles: tem a ver com a qualidade dos grupos de trabalho que lhes puseram à disposição, com uma boa escolha de jogadores, mesmo sem salários muito elevados. Depois, há as questões que têm exclusivamente a ver com os treinadores. Primeiro, as táticas ou estratégicas: o Feirense e o Rio Ave são das poucas equipas do campeonato que jogam olhos nos olhos com os grandes, que tentam sair em construção segura e que vão lá acima à procura da bola quando a não têm, ao passo que o Portimonense sabe ter a bola e jogar com as zonas em que o adversário se sente mais desconfortável. É a velha máxima: joga como os grandes se queres ser como eles. Depois, por questões de liderança: Manta é o irmão mais velho que leva a família toda atrás, Vítor Oliveira o pai em que todos no balneário acreditam e Cardoso uma espécie de jovem professor que transpira ciência e causa admiração. A liderança de Machado é mais antiga, professoral até no discurso, resulta pior, mas isso não quer dizer que ele não tenha razão na crítica que fez. Aliás, um dos problemas do futebol é não haver um sistema funcional de vasos comunicantes que permita a filtragem das reflexões e a sua chegada a quem decide já prontas a serem digeridas. E aqui, lamento, mas não me interessam as “reflexões” – assim mesmo, com aspas – que os grandes vão fazendo sore arbitragem, vídeo-arbitragem ou disciplina, porque essas têm sempre o mesmo intuito, que é tirar aos pobres para dar aos ricos. Não falo de quem só acha que o vídeo-árbitro é uma boa ideia quando ele decide de acordo com as suas conveniências, porque não só é uma boa ideia como é uma ideia fulcral. Falo, por exemplo, das críticas que o presidente do Marítimo, Carlos Pereira, fez esta semana ao modelo de organização da Taça da Liga, que é montado de forma a favorecer a chegada dos grandes à “final four”. Tem razão. E ele sabe que isso acontece porque ter os grandes na “final four” aumenta exponencialmente o interesse popular na competição e, claro, a receita. O que não se lhe ouviu – pelo menos em público – foi uma alternativa que faça da Taça da Liga uma prova mais justa sem perda de receita. Começá-la, por exemplo, logo pela fase de grupos, invertendo a ordem de benefício do fator-casa que atualmente favorece os grandes. Levar os grandes aos campos da província em fase inicial da época, quando há mais fome de bola e emigrantes em Portugal, por exemplo. Fazer mais jogos quando as equipas querem jogar e não lhes sobrecarregar Janeiro, num convite descarado a que joguem com os suplentes e aconteça o que aconteceu no ano passado: apesar de todas as tentativas de os beneficiar no modelo da competição, dos grandes só o Benfica esteve na “final four”. E houve apenas 6703 espectadores na final, entre SC Braga e Moreirense. Falo, por exemplo, das queixas de Jorge Jesus acerca do estado pouco alerta de alguns dos seus jogadores que chegaram a Portugal pouco mais de 24 horas antes do jogo com o Feirense, vindos do outro lado do Mundo. “Deixe-me dormir primeiro, que depois logo lhe digo”, terá respondido Coates ao treinador, quando este lhe perguntou se ele estava em condições de jogar. E esta questão, dos calendários, já tem merecido debates sucessivos nos fóruns de treinadores que os organismos internacionais vão organizando, mas nada evoluiu e nunca se ouviram sequer propostas para melhorar as coisas, por exemplo juntando mais datas de seleções para minimizar o efeito das viagens transatlânticas e usando os milhões que o Mundial de futebol gera para ressarcir os clubes da ausência mais prolongada dos seus jogadores e da falta de receita por interrupção das competições. Pelo contrário, o que se fez foi no sentido inverso: espalharam-se os dias em que se joga sem que se façam mais jogos, mas só para haver menos concorrência entre jogos na TV, aproximando as chegadas dos jogadores aos clubes das datas em que têm de voltar a competir. Esta incapacidade de o futebol levar o pensamento basista às cúpulas está na génese da maior parte dos problemas que o jogo tem de enfrentar. Mas em vez de se trabalhar nesse sentido, o que mais se vê é a tentativa de o menorizar com argumentos que têm sempre o mesmo intuito. O de manter tudo na mesma.
2017-09-10
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