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Último Passe

Tive pena que a carreira de Gianluigi Buffon na Liga dos Campeões acabasse como acabou: com a primeira expulsão em 117 jogos na prova. E, tendo eu no direto ficado com a sensação de que Benatia tinha derrubado Lucas Vásquez e com a impressão contrária no momento em que vi as primeiras repetições, estou agora convencido que de Michael Oliver fez bem em assinalar o penalti que impediu o prolongamento e pôs termo ao sonho improvável da Juventus. De qualquer modo, não é disso que quero falar-vos. Interessa-me mais a argumentação de Buffon no final da partida, quando reconheceu que a ação é duvidosa mas sustentou a tese segundo a qual o árbitro não devia tê-la assinalado por questões do foro emocional: “Para fazeres uma coisa destas, em vez de um coração tens de ter num bidão de imundices”. Diz Buffon que o penalti até pode ter existido, mas que o árbitro não devia ter moral para o assinalar, naquele momento, naquele contexto. Razões? Primeiro, a noção de que a Juventus teria sido prejudicada na partida da primeira mão. Depois, a dimensão épica da reviravolta que a equipa italiana tinha conseguido, que não poderia ser deitada abaixo com um penalti que deixa dúvidas. Percebo Buffon e até simpatizo com a ideia – sobretudo a segunda, porque a primeira levar-nos-ia por caminhos complicados e à junção da famosa lei da compensação às leis do jogo em vigor – mas no limite um árbitro tem de apitar aquilo que vê ou que acha que vê. Sem coração, porque a justiça tem de ser cega e, como explicou o Principezinho de Saint-Exupery, “o essencial é invisível aos olhos” e “só se vê bem com o coração”. A tese de Buffon colhe a simpatia de todos os que gostam de futebol e viram o jogo de forma imparcial, apenas pelo espetáculo majestoso que ele foi – uma Juventus séria, competitiva e rigorosa a aproveitar a anarquia tática ainda maior do que o habitual promovida por Zidane ao abdicar de Benzema e deixar o corredor esquerdo entregue a quem por lá quisesse passar. A tese de Buffon colheu até a simpatia de Cristiano Ronaldo, que no final, ao passar pela Zona Mista, lhe deu um abraço sentido e reconhecido pela grandeza do guarda-redes italiano e por tudo o que ele deu ao futebol. Mas a coisa para aí. Tenho pena de ver Buffon sair como saiu, mas nunca um árbitro pode decidir com o coração. E sim, acho que foi penalti.
2018-04-12
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Último Passe

Haverá muitas maneiras ed explicar a exibição menos conseguida do Benfica em Setúbal, onde ganhou de aflitos, por 2-1, com um golo de penalti já para lá do minuto 90. Em boa verdade, nenhuma é mais válida do que as outras, porque no futebol não há maneira de se voltar atrás para experimentar de outra forma. Mas todas, da falta de Jonas à boa organização do Vitória FC, do nervosismo face à aproximação do jogo decisivo deste campeonato ao aliviar da pressão por já não ter de o ganhar para ser primeiro, trazem matéria de reflexão. As duas primeiras são mais fáceis de explicar. Jonas tem sido o homem-mais desta Liga e não é fácil uma equipa habituada a tê-lo ver-se privada dos seus movimentos desequilibradores, das desmarcações de apoio entre linhas, das derivações para os corredores laterais, da forma como ele encontra sempre espaço para finalizar, como se os adversários o menosprezassem. Como a esse fator se juntou um Vitória FC que José Couceiro dispôs em campo de forma a secar o jogo interior do Benfica, com duas linhas defensivas muito próximas, a maior fonte de jogo ofensivo do Benfica secou quase por completo. Sem capacidade para jogar dentro do bloco adversário, sem extremos dados a grandes larguras – Rafa é mais eficaz em ataque rápido e contra-ataque e Cervi procura muito o jogo interior para abrir o corredor a Grimaldo –, o Benfica só começou a ganhar o jogo quando foi à procura da profundidade, do espaço atrás da última linha sadina, com a entrada de Salvio. Sucede que não foi só isso que Salvio trouxe à equipa: deu-lhe também agressividade sem bola. Tanto a grande ocasião que o argentino desperdiçou com um remate sobre a barra como o lance que origina o penalti nasceram de recuperações de bola que o próprio fez no meio-campo ofensivo. O que me transporta para as outras duas questões e para uma entrada mais apática no jogo de uma equipa do Benfica que, até por andar há meses a jogar apenas uma vez por semana, tem a possibilidade de afogar os adversários em intensidade desde o início dos seus jogos. A explicação mais fácil é a da ansiedade, da aproximação de um jogo decisivo como será o Benfica-FC Porto de domingo que vem. Receio de alguns exagerarem na agressividade por medo de um amarelo que os tirasse do clássico? Poupança subconsciente de outros para esse jogo do ano? Admito que sim, até porque nem todos os elementos de um grupo reagem da mesma maneira aos mesmos estímulos. Mas na generalidade dos casos inclino-me mais para o plano inverso, o do retirar do garrote da pressão. Há dois anos, quando seguia três pontos à frente do Benfica – e ainda o recebia no seu estádio –, o Sporting entrou assim, sem pressão, no jogo em Guimarães, com o Vitória SC. Empatou a zero. Manteve, mesmo assim, um ponto de avanço à entrada para o dérbi que era jogo do ano, podendo começa-lo com a vantagem de jogar por dois resultados, pois apesar de ainda ter de se deslocar ao terreno do terceiro – tal como agora sucede com o Benfica, que vai a Alvalade na penúltima jornada, na altura era o Sporting quem tinha de ir ao Dragão visitar o FC Porto, na antepenúltima – o empate mantê-lo-ia na liderança. As semelhanças com a atual realidade do Benfica são muitas. Rui Vitória, que nessa Primavera de 2016 estava do lado do perseguidor, sabe que este tem sempre mais “momento”, mais capacidade de vencer a inércia. Cabe-lhe agora, do lado de quem está na frente, evitar o afrouxar da pressão. Porque é só pela pressão que se fazem equipas vencedoras.
2018-04-09
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    Tenho estado de acordo com algumas das ideias mais fraturantes defendidas por Bruno de Carvalho. Do efeito pernicioso dos fundos de investimento à necessidade de centralização dos direitos televisivos, tirando-os aos clubes, com passagem pelo vídeo-árbitro, com a recente deriva que pede as imagens nos ecrãs dos estádios – antes de o presidente do Sporting falar no tema eu até tinha ido mais longe, defendendo o exemplo do rugby, com divulgação imediata, em direto, da conversa entre VAR e árbitro de campo. E, no entanto, consigo estar em desacordo com quase todas as intervenções públicas de Bruno de Carvalho. E não, não me digam que do que não gosto é do estilo. Porque não é o estilo que está em causa. É a função. É a noção de responsabilidade institucional, que não existe só para se exibir numa aula de etiqueta: existe porque quem está à frente de uma instituição tão grande quanto um dos maiores clubes nacionais precisa de ter a noção de que, ao falar, está a levar muita gente atrás. Gente que pensa pela própria cabeça, mas também gente que reage a estímulos da mesma forma que o cão de Pavlov. Grave não é Bruno de Carvalho ter ligado para a CMTV. Percebo a contradição, porque o mesmo Bruno de Carvalho aconselhara os sportinguistas a não verem o canal, mas isso, francamente, parece-me irrelevante. Grave é Bruno de Carvalho ter escrito o que escreveu no Facebook, com acusações de índole técnica, tática e até levantamento de suspeições – os que “não quiseram jogar a segunda mão” – aos jogadores. O que está em causa não é se teve ou não razão. Porque é evidente que o Sporting perdeu em Madrid devido a erros individuais. O que está em causa é que eu posso dizer isso em público – e, quando o faço, imediatamente a máquina de propaganda do clube mete-se em marcha para tentar destruir-me a credibilidade. Seja que clube for. Basta que recordemos o caso dos “sportingados”, alcunha criada por Bruno de Carvalho para catalogar os adeptos leoninos que criticavam publicamente o clube ou as suas equipas, ou a tentativa de assassinato de caráter de João Malheiro posta em marcha pela máquina propagandística do Benfica, por exemplo. Mas, dizia, eu posso fazer estas críticas em público. Um presidente de um clube não pode. E, repito: não é porque isso parece mal. Não é, sequer, porque o próprio Bruno de Carvalho disse em Castelo Branco, no discurso dos “sportingados”, que não se pode “num dia, apelidar uma equipa de bestial e noutro dia de besta”. Mais uma vez, o que me preocupa aqui não é a contradição. Não é, tão pouco, porque ter o presidente a criticar publicamente as exibições dos jogadores ou as opções do treinador supera até, em termos institucionais, a afronta que seria ter um jogador ou um treinador a criticar publicamente as aquisições de Shikabala ou Slavchev, de Gauld ou Rosell, ou as intervenções públicas do presidente antes do recente jogo de Braga, quando passou a semana a acicatar o adversário e tornou mais difícil a tarefa dos jogadores em campo. Não é, ainda, por isso ser, no mínimo, pouco inteligente em termos de condução de balneário – Jesus, ao menos, nesse aspeto, pode ser arrogante quando ganha, mas é um senhor quando perde – ou por prenunciar um sacudir de água do capote que não fica bem a um líder máximo. É, sobretudo, porque atrás do que um presidente diz ou escreve vai toda uma legião de seguidores e um líder tem de ter isso em conta. O problema das intervenções de Bruno de Carvalho após a derrota do Sporting em Madrid é o mesmo que esteve por trás do discurso acerca dos jornais na última Assembleia Geral: é que desde ontem os adeptos mais acéfalos – que também existem em todos os clubes – já têm para onde dirigir a frustração. Desde ontem já não são só os árbitros ou os jornalistas. São também os jogadores, como um dia há-de-ser o treinador. Nos comentários ao post de Bruno de Carvalho já li coisas como “apertões” aos jogadores na garagem. E isto não é, não pode ser, uma questão de estilo. É uma questão de civismo e saber estar com os outros.
2018-04-06
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  Há um ano, a explosão no autocarro do Borussia Dortmund, no seguimento do qual o espanhol Bartra ficou ferido, veio a revelar-se obra de um especulador financeiro, que só queria mesmo era ganhar dinheiro no mercado de capitais. Não foram terroristas. Ontem, apesar dos cuidados da polícia, foi a vez de o autocarro do Manchester City ser selvaticamente atacado à chegada a Anfield Road. E a culpa também não foi dos terroristas – a não ser que no mundo de hoje os terroristas sejamos todos nós. Foi em Inglaterra que o hooliganismo primeiro ganhou raízes. E muito por causa disso também, foi igualmente em Inglaterra que começaram a surgir as medidas para o combater. E não falo só do esquema de cartões de identidade imposto pelo governo de Margaret Thatcher ou do plano de remodelação dos estádios: muitos dos que estiveram na Assembleia da República a “combater” a violência no desporto sonhariam ter em Portugal um ambiente tão assético como o que existe no futebol inglês, onde as multas por “causar má reputação ao futebol” são verdadeiramente bíblicas. Portanto, se alguns adeptos do Liverpool FC fizeram uma espera ao autocarro do Manchester City e o inutilizaram à pedrada e com tochas, a culpa não foi certamente dos comentadores, sejam eles neutros ou engajados, dos presidentes, dos treinadores ou até dos diretores de comunicação – que em Inglaterra são isso mesmo e não diretores de propaganda. De vez em quando, incidentes como este servem para acordar o mundo do desporto para uma realidade que não é legislável. Nenhum parlamento pode legislar acerca da quantidade de ódio que um adepto pode ter pelo clube rival – e escusam de vir com falinhas mansas dizer que o que é saudável é que não se odeie o rival, porque todos sabemos como funciona a espécie humana, sobretudo quando organizada em turbas. Em Portugal, podemos até legislar, proibir, regular, mas continuo convencido que a única fórmula capaz de funcionar é a da propaganda positiva, a da ocupação do espaço mediático com conteúdos capazes de acordar o gosto pelo futebol que há – tem de haver – no adepto comum. Por cada insinuação maldosa, um momento de catarse com uma bicicleta como a de Ronaldo. E não se iludam, que esta não é uma batalha para ser ganha. É uma batalha para ser travada, porém. Vencê-la é um desígnio geracional que não creio seja passível de ser alcançado nos anos mais próximos. Porque a realidade é que tudo no Mundo puxa pelo terrorista que há em cada um de nós. E nem todos temos a justificação – pelo menos esse tinha um plano… – de Serguei, o tal especulador que ia ganhar quatro milhões de euros com a explosão do autocarro do Borussia Dortmund. A maioria fá-lo de borla. Só pelo ódio.
2018-04-05
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Último Passe

Já vi muitas leituras do fenomenal golo de Cristiano Ronaldo em Turim. Das mais poéticas às mais inflamadas – e o Alexandre Albuquerque, que narrava o jogo comigo na RTP conseguiu juntar essas duas vertentes naquele momento. A minha, mais ainda passadas quase 24 horas, é de pasmo, mas de pasmo científico. O que me interessa ali é a física da coisa. Tanto se me dá que me digam que como não gritei mais do que o Alexandre no direto da RTP1 deve ser porque não gosto de futebol – e já houve quem o fizesse. Gosto. E gosto ainda mais de o compreender, sobretudo quando vejo um Cristiano Ronaldo a desafiar os limites. Aquele golo não é coisa de futebol. É coisa da NBA. Remete-me para a adolescência, para os spots promocionais com voos de Michael Jordan e a banda sonora de MC Hammer: “You can’t touch this!” Porque é isso que impressiona ali. Mattia De Sciglio mede mais de 1,80m e estava a saltar, mas o pé de Ronaldo subiu bem mais alto do que a cabeça do lateral italiano, acima dos 2,30, talvez até aos 2,50m. Ponha-se aí no meio da sua sala de estar e imagine alguém a tocar no teto com o pé, a coordenar o tempo de salto com o tempo de chegada de uma bola qualquer imaginária e ainda a ter a força para lhe acertar em cheio e a precisão de a enviar na direção de uma baliza. O que impressiona no golo de Ronaldo, aceitemo-lo, não é a parte futebolística. É a parte atlética. Como naquele golo de cabeça a Gales, na meia-final do último Europeu, em que Ronaldo saltou nas costas de James Chester, foi lá acima espreitar à janela do segundo andar e ficou lá, a planar, no ar. Nessa noite ficou ultrapassada a frase de Dadá Maravilha, o avançado brasileiro que dizia que só havia três coisas capazes de parar no ar: “O helicóptero, o beija-flor e o Dadá Maravilha”. Afinal, descobriu-se uma quarta: Cristiano Ronaldo. Que, agora já se sabe, também é capaz de jogar futebol no teto, como um qualquer Homem Aranha, que desafia a lei da gravidade. Há dois debates que vale a pena ter a este respeito e nenhum deles passa por saber se Ronaldo é o melhor do Mundo ou se, em contrapartida, esse título pertence a Messi. Um é o de perceber até que ponto o condicionamento e o trabalho físico podem levar o corpo humano a aperfeiçoar-se do ponto de vista atlético. Porque basta ver, por exemplo, o golo de bicicleta marcado por Ronaldo – e depois anulado pelo árbitro – ao Azerbaijão, em 2006, no Bessa, para se perceber que há muito mais capacidade atlética neste jogador de 33 anos do que havia naquele, de apenas 21. Qual é o limite para este aperfeiçoamento? Não para nos 30? Será Ronaldo capaz de inverter todas as teorias da decadência física com a idade. O outro tem a ver com a forma como Zidane tem sabido preservar Ronaldo para os momentos que verdadeiramente importam. O facto de o português ter marcado em todos os jogos da Liga dos Campeões esta época e de ter sido decisivo nos confrontos de alto perfil com o Paris Saint-Germain ou a Juventus não inibe o treinador de o poupar em jogos mais irrelevantes da Liga espanhola, como aconteceu na última jornada, frente ao UD Las Palmas. É isso fundamental na forma como Ronaldo se apresenta nos momentos certos? E será o suficiente para que chegue a top ao Mundial da Rússia? Os portugueses esperam que sim e que por lá ele invente outra forma de desafiar as leis universais aplicadas aos humanos.
2018-04-04
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Sérgio Conceição voltou a mostrar que está muito bem ligado à realidade quando, após a vitória do FC Porto no Estoril, a meio da semana, desvalorizou os cinco pontos que a sua equipa passou a ter de vantagem sobre os perseguidores e enalteceu a necessidade de desconfiar. Ganhar, no desporto de alta competição, passa sempre por desconfiar, por mais que os adeptos incondicionais olhem sempre para a desconfiança alheia como se de um ataque se tratasse e estejam prontos a soltar os cães a quem desconfia dos seus heróis. O treinador portista, que no decurso deste campeonato criou uma expressão exemplar, que é a “pressão boa”, sempre foi desconfiado – às vezes até demais – e sabe, por isso, que mais do que desconfiar, é preciso fazê-lo na altura certa. Porque depois há alturas em que a confiança é fundamental. Contam-se muitas histórias acerca de reviravoltas épicas no campeonato, mas quando nos ligamos à realidade verificamos que é raríssimo uma equipa desperdiçar a vantagem que o FC Porto tem já bem dentro da segunda volta. Uma coisa é recuperar cinco ou mais pontos em Novembro, outra é fazê-lo em finais de Fevereiro, inícios de Março. Em mais de 80 anos que o campeonato leva, mostrámo-lo no Bancada, só por quatro vezes um campeão anunciado passou assim a frustrado segundo classificado – e só uma delas foi neste século. Essa, como todas as outras, ter-se-á devido antes de todas as outras a uma razão muito simples: o favorito não desconfiou.Aconteceu em 2012 e foi o FC Porto quem se ficou a rir. Viu o Benfica perder em Guimarães e empatar em Coimbra, o que lhe permitiu anular os tais cinco pontos de diferença num ápice, e foi depois ganhar à Luz, por 3-2, passando em definitivo para a frente. Até final da época ainda alargou bastante essa vantagem. Tudo porque aí, que já era tarde, o adversário passou a desconfiar. Confiou em demasia primeiro, perdeu os pontos e a vantagem moral, e isso fê-lo entrar no confronto direto – onde mais do que desconfiar importa confiar – com medo de perder. Essa é a pressão má, a pressão à qual se uma equipa cede está perdida. Mas há a pressão boa, que é a que o FC Porto sente neste momento: a pressão de segurar o primeiro lugar e, mais ainda, de manter a almofada de vantagem de que dispõe por estes dias. A altura exata de aplicar esta pressão boa, sabe-o Sérgio Conceição, é hoje, antes da deslocação a Portimão, onde o espera uma equipa capaz de jogar bom futebol, que já lhe dificultou muito a vida no Dragão, para a Taça de Portugal. Só escorregando frente ao Portimonense o FC Porto se arrisca a entrar no decisivo (para os leões) jogo com o Sporting, no final da próxima semana, ao alcance dos rivais na tabela e sem a confiança necessária para tentar fazer prevalecer os seus argumentos. Que, é bom que se diga, foram crescendo ao longo da época. A forma como Sérgio Conceição geriu a baliza é prova disso mesmo. Quando precisou de passar ao grupo a mensagem de que todos contavam e que não admitia que ninguém se acomodasse nos treinos, encostou Casillas e promoveu José Sá a primeira opção. Mas a verdade é que Sá, que durante a época pode até ter chegado a admitir que estava entre os favoritos a um dos três lugares de guarda-redes no Mundial, não está ainda à altura de Casillas. E um erro num jogo onde esse mesmo erro acabou por ser insignificante – o 0-5 com o Liverpool – foi o pretexto de que o treinador necessitava para fortalecer a candidatura ao título, regressando à fórmula inicial. Por mais importante que seja lançar Sá para o futuro do clube, no qual ele tem todas as condições para figurar, o presente ainda mostra um Casillas mais competente, sobretudo em jogos de exigência máxima. E também aqui Conceição acertou no timing: desconfiou primeiro, quando atacou o acomodamento do espanhol, e confiou depois, quando lhe devolveu as redes. Meteu-lhe em cima a tal “pressão boa”a que ele, de tão habituado, dificilmente deixará de responder à altura.
2018-02-25
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O arraso dado esta semana pelos clubes ingleses nos adversários que lhes apareceram pela frente na Liga dos Campeões dá que pensar, porque parece ser uma coisa que vai muito para lá da dimensão financeira. E até mesmo a total impossibilidade de determinar uma alteração no panorama global do futebol europeu, no sentido de tornar mais acessível o “Clube do Bolinha” que os mais ricos tornam a cada ano mais exclusivo, deveria levar-nos a questionar as razões profundas pelas quais Manchester City e Liverpool FC arrasaram FC Basileia e FC Porto e até o Tottenham pareceu forte demais para uma Juventus quase envergonhada do estatuto de “Velha Senhora” que ostenta. Sérgio Conceição colocou a questão orçamental na ordem do dia, mesmo que o tenha feito de um ponto de vista da negação. De qualquer modo, o treinador do FC Porto sabia perfeitamente que ao dizer que se não costumava levantar essa questão nos jogos de campeonato nacional não iria agora levantá-la na Champions, estava, no fundo, a levantá-la. Para o que desse e viesse. Na minha opinião, contudo, Conceição tinha razão: essa não é a questão fundamental. Até porque a realidade de mercado dos clubes ingleses é muito diferente da dos clubes portugueses: têm de gastar muito mais para contratarem os mesmos jogadores. E isso até nos leva a dizer que, jogador por jogador, os nossos são regra geral melhores e mais baratos. Se não serviu para mais nada, o último Europeu há-de ter servido pelo menos para isso. Bem mais importante é, na minha perspetiva, a questão do ambiente. Olhemos para os últimos 40 anos de futebol. Nos anos imediatamente antes de Heysel, os clubes ingleses dividiam a liderança do futebol europeu com os alemães e os italianos, surgindo os espanhóis e até um ou outro de um campeonato limítrofe dentro da equação. A realidade económica era irrelevante, porque havia limite de estrangeiros e o talento não circulava como hoje – o que valia era a qualidade do trabalho. E os treinadores britânicos, nessa altura, eram quem melhor trabalhava: eram requisitados por todo o mundo, mesmo se depois se lhes via aquela irredutibilidade idiota quando se tratava de mudar um plano em andamento. Dizia-me Bobby Robson, uns anos depois: “Mas se eu estava convencido de que aqueles eram os melhores onze, por que é que haveria de os alterar durante o jogo?” A morte lenta do futebol inglês começou em Heysel e no isolamento que se lhe seguiu. Quando voltaram, os clubes ingleses não ganhavam a ninguém. Tinham perdido o comboio. E levaram uma geração a reentrar na carruagem, porque o fizeram da forma ao mesmo tempo mais difícil e mais consolidada: a forma do negócio de base. Inglaterra mudou os estádios, erradicou vícios antigos que estavam na base de problemas como o “hooliganismo”, criou uma Premier League assente num modelo de negócio de sucesso, que anos depois passou a permitir aos seus clubes recrutar os melhores talentos, as maiores promessas e os melhores treinadores. O Manchester City que foi ganhar por 4-0 a Basileia tem a marca de Pep Guardiola, um espanhol que ganhou no FC Barcelona e no Bayern. O Tottenham que empatou em Itália com a Juventus tem a marca de Mauricio Pochettino, um argentino de quem se diz poder vir a ser solução para o Barça ou o PSG. O Liverpool que ganhou por 5-0 no Porto tem a marca de Jurgen Klopp, um alemão que deu dimensão ao Borussia Dortmund com um futebol sexy. Além destes, no topo da Premier League estão o Manchester United de José Mourinho (português), o Chelsea de António Conte (italiano) e o Arsenal de Arsène Wenger (francês). O primeiro inglês, o rude Sean Dyche, surge em sétimo lugar, com exatamente metade dos pontos do Manchester City (de 36 para 72) e funciona como metáfora perfeita para aquilo que estou a tentar provar. É que não é uma questão de estilo de jogo. Podemos encontrar pontos em comum entre o estilo de Guardiola e o de Wenger (o futebol de toque), entre estes e Klopp, depois entre Klopp, Pochettino e o jovem Mourinho (zonas de pressão e ritmo elevado) e, apesar das ofensas abundantes entre eles, entre o Mourinho de hoje e Conte (jogo mais feito de equilíbrios). É uma questão de lideranças e de qualidade de trabalho ao serviço de um negócio bem gerido. Se não podemos ter os números do futebol inglês, devemos ao menos esforçar-nos por ter o que só depende de nós. Porque o talento, até ser internacionalmente detetado, ainda dá muito jeito a quem o cultiva.
2018-02-17
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Há uma contradição insanável na argumentação dos que querem reduzir o contingente de equipas B autorizadas a participar na II Liga do futebol nacional ou até, mais radical, acabar com elas. Claro que é sempre possível encontrar formas de melhorar o enquadramento competitivo de todo o edifício do futebol nacional, mas de uma coisa tenho a certeza: a inclusão das equipas B na II Liga foi a melhor medida tomada no futebol em Portugal nos últimos dez anos. Tirá-las de lá pode satisfazer clientelas, mas nunca melhorará as coisas. Não é preciso ser um génio da estratégia para perceber que a razão fundamental pela qual os clubes querem reduzir a presença de equipas B ali tem a ver com a vontade de ter mais vagas para eles próprios. O que já de si é bizarro mas naturalmente aceitável, mesmo que seja muito contraproducente. Senão vejamos. O que se ganhou com a inclusão das equipas B na II Liga? Ganhou-se enquadramento competitivo imediato para os melhores jogadores saídos do escalão júnior, que assim podiam continuar a jogar, a ver a sua evolução devidamente acompanhada, em vez de andarem de empréstimo em empréstimo até ao momento em que se perdiam para o futebol num qualquer clube de Chipre ou da Bulgária. Se é de resultados que precisam, aqui vão eles. As equipas B tiveram entrada na II Liga em 2012. A seleção nacional de sub21, que falhara a qualificação para as duas edições anteriores do Europeu da categoria (2011 e 2009) e que não passara da primeira fase das duas que tinha sido disputadas antes dessas (2007 e 2006), ainda falhou a presença em 2013 (por causa de uma derrota na Rússia em Outubro de 2011), mas foi depois finalista vencida em 2015 e não perdeu um jogo competitivo entre Outubro de 2011 e Junho de 2017. Após a ausência na prova de 2009, a seleção nacional de sub20 vai com quatro Mundiais seguidos a superar a fase de grupos, tendo sido eliminada nos últimos dois (2017 e 2015) no desempate por penáltis, nos quartos-de-final. São resultados que vão muito para lá da qualidade de uma geração em particular e que, no limite, pela habituação que estes jogadores foram tendo às vitórias enquanto membros de seleção, pela forma adulta como puderam passar a encarar a competição desde o momento em que deixaram os juniores, estiveram na base do título europeu conquistado pela seleção principal em 2016. Estamos, portanto, insatisfeitos? Queremos acabar com isto para arranjar mais vagas na II Liga (na competição profissional, portanto) para clubes que não formam jogadores? Já nem vou ao ponto de me atrever a gritar que é um contrasenso dizermos que temos clubes a mais nas provas profissionais, que queremos reduzir os campeonatos para aumentar a competitividade (o que seria um erro, convenhamos), mas depois vamos a correr à procura de meter mais uns quantos. Ou, ainda pior, que temos de reduzir os empréstimos, porque é evidente que, desregulados, eles subvertem a verdade desportiva dos campeonatos, mas depois tiramos aos clubes que produzem jogadores a hipótese de manter os jovens jogadores em atividade. Isso é mais do que um erro. É uma idiotice de quem desistiu de atacar o verdadeiro problema, que – e já me cansei também de escrever sobre isto – passa por uma maior equidade na distribuição das receitas e, não menos importante, pelo controlo do que é feito com esse aumento de receitas que cada um passaria a receber. Sou mais do que sensível à argumentação dos clubes que se veem estafegados pelo poder dos grandes e acho que é fundamental encontrar ferramentas para limitar esse poder. Esta, no entanto, não é uma delas. Tratem lá mas é de centralizar os direitos televisivos, de distribuir melhor as receitas que o futebol gera, de obrigar os clubes que estão na competição profissional a ter uma equipa B (em vez de acabar com elas ou de as forçar a jogar um campeonato de sub23 em que os jovens jogadores não vão encontrar verdadeiros desafios e um panorama competitivo divergente do que têm nos juniores) e a seguir se verá o que fazer com a II Liga. Se acharem que há despesa a mais e receita a menos a esse nível, em vez das 20 equipas atuais até podem ser 32, divididas em duas zonas. Isso já é igual a litro. Mas não queiram acabar com a galinha dos ovos de ouro do futebol português só para aumentarem as chances de ter uma equipa no futebol profissional.
2018-02-11
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  Já todos ouvimos estes queixumes, sempre da boca de adeptos cuja equipa não ganha um jogo que era de ganhar. “O adversário chegou aqui e estacionou o autocarro à frente da sua baliza”, lamentam-se, sempre dispostos a encontrar as explicações para um resultado negativo naquilo que os outros fazem. E o pior é quando entram em comparações com aquilo que o mesmo adversário terá feito em jogos com os rivais: “quando foram jogar com o x, abriram-se todos”. Pois bem, esta é uma falsa questão. E a semana que passou encarregou-se de nos mostrar isso mesmo, bem como de desmistificar essa questão do jogar bem e do jogar mal. O que é, afinal, jogar bem? É o que faz o Rio Ave? É que durante todo o campeonato temos lido e ouvido elogios tantas vezes justificados ao futebol da equipa de Miguel Cardoso. O Rio Ave tem princípios muito sólidos, dos quais nunca abdica: constrói em posse desde trás, não vai na conversa do balão para a frente à espera de ganhar as segundas bolas com base na raça e na agressividade. Isso permite-lhe duas coisas. Em primeiro lugar, lances muito bem desenhados que são um primor para os sentidos. Foram do Rio Ave algumas das mais bonitas jogadas do campeonato, algumas das quais com golo no final. E em segundo lugar a construção de um modelo de jogo – que se treina, sim, mas que se aperfeiçoa sobretudo em competição – que lhe permite ser quase sempre melhor do que os adversários do seu campeonato. É por isso mesmo que os vila-condenses estão na posição em que estão na Liga, bem dentro das contas para um lugar europeu. E, no entanto, o Rio Ave trouxe duas goleadas dos dois últimos jogos. Levou 4-1 em Portimão a meio da semana e 5-1 na Luz ontem. O que quer isto dizer? Que jogar como joga este Rio Ave, afinal, é jogar mal? Não. Aliás, não quer dizer isso nem o seu contrário: por si só, esta vontade de sair a jogar desde trás também não é jogar bem. O que isto quer dizer é que esta construção de um modelo de jogo é importante na identidade de uma equipa mas não pode ser responsabilizada por haver melhores ou piores resultados. Esses dependem de muitas outras coisas. Da operacionalização desse modelo, da sua compatibilidade com as características dos jogadores de que se dispõe e, last but not least, daquilo que o adversário for capaz de fazer nos jogos. Os últimos dois jogos do Benfica explicam bem estes três parâmetros. Tal como fez o Rio Ave ontem, também o Belenenses, na segunda-feira, escolheu sair a jogar desde trás, optando por adiantar o seu bloco e dividir a posse de bola com o Benfica. Empatou, esteve até à beira de ganhar, porque sofreu um golo no último lance do desafio, mas no fim do jogo o seu treinador, Silas, veio apontar à equipa alguns erros na gestão da bola e dizer duas coisas: que sabia porque razão esses erros tinham sucedido e que daqui a algum tempo vamos deixar de os ver. Isto é: que o Belenenses ainda não teve o tempo necessário para operacionalizar o novo modelo. Esse não será, no entanto, o problema do Rio Ave, que já treina e joga assim desde o início da época. Aliás, já foi a jogar assim que o Rio Ave empatou em casa com o Benfica e lhe ganhou na Taça de Portugal, contribuindo para este fim de época tranquilo e repousado dos campeões nacionais. Será então uma questão mais ligada à compatibilidade dos jogadores com este tipo de futebol? Não creio. O Rio Ave tem homens para jogar assim: tem bons pés atrás, tem dois cérebros a funcionar em pleno no meio. Falhou, sim, nas bolas paradas, por exemplo (três dos cinco golos sofridos ontem na Luz nasceram em pontapés de canto). Mas isso não tem nada a ver com o facto de se apostar numa construção segura e enleante, que tem naturais reflexos na forma como a equipa tem de se desorganizar a atacar – quem dá um chutão na frente não tem de desenhar os triângulos que a progressão em passes sucessivos pressupõe e, por isso, estará sempre mais organizado no momento em que perde a bola. Daqui se percebe que se o Belenenses esteve à beira de ganhar ao Benfica e o Rio Ave saiu da Luz goleado, isso também terá tido a ver com o que o próprio Benfica fez num jogo – e com o que não fez no outro. Com a competência em particular dos jogadores num momento e a sua falta noutro. E isso, repito, não tem nada a ver com o facto de o adversário estacionar o autocarro à entrada da área ou de jogar à procura de ser construtivo. Não é o que gostam de ouvir os defensores das teorias da conspiração, mas esses também não são capazes de explicar por que razão se contradizem a cada jornada. E por que razão numa semana se queixam de um adversário que joga demasiado fechado para na outra elogiarem uma equipa que soube fechar-se bem para roubar pontos a um rival. Ou por que razão numa semana se queixam de uma equipa que se abriu toda e facilitou a goleada a um rival para na outra lamentarem que apareça uma outra atrevida e capaz de testar bem os seus defesas com sucessivos ataques cheios de intencionalidade. Isso são coisas que o futebol não explica.
2018-02-04
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A forma como Sérgio Conceição deixou o banco do FC Porto para assistir ao desempate do jogo com o Sporting no balneário foi desvalorizada face à comprovada irregularidade da presença de Nelson Pereira atrás da baliza onde foram marcados os penáltis, mas feitas as contas pode ser mais relevante. É que nem o facto de, ainda que de forma dúbia, Jorge Jesus ter chamado a si a autoria da ideia chega para transformar a irregularidade tão evidente como irrelevante em verdadeiro caso. Já a ida de Conceição para o balneário me parece uma situação em claro contra-ciclo com aquilo que é a liderança feita de empatia e sanguinidade que o treinador do FC Porto tem assumido até aqui e que tão bons resultados tem dado.A ser verdade que foi mesmo Jorge Jesus quem enviou o treinador de guarda-redes para trás da baliza, o que posso dizer é que me escapa em que é que a chico-espertice pode ter tido seja que influência for no desfecho do desempate. Ali, no meio de dezenas de foto-jornalistas e atrás dos placares publicitários, não acredito que Nelson pudesse sequer comunicar com Rui Patricio, quanto mais dar-lhe indicações acerca do lado preferido de cada batedor do FC Porto de forma a que ele o ouvisse ou aproveitasse. Não quero com isto esconder a irregularidade, que é clara e há-de ser objeto de multa ou até castigo, se é que a possibilidade está prevista nos regulamentos. Só que não me ocorre como é que ter ali Nelson pode ser uma forma de o treinador “fazer tudo para ganhar o jogo”, tal como Jesus atestou no final.Para ser honesto, também não creio que o FC Porto tenha perdido o desempate porque no momento da decisão Sérgio Conceição optou por recolher aos balneários em vez de ficar no banco, à distância de um grito de incentivo para os seus jogadores. Da mesma forma que não acredito que o Benfica tenha perdido a final da Taça dos Campeões Europeus de 1988, frente ao PSV Eindhiven, porque Toni virou as costas ao relvado no exato momento em que Veloso avançou para a marca dos 11 metros e acabou por permitir a defesa de Van Breukelen. O mais provável é mesmo que a maioria dos jogadores nem se tenha apercebido da ausência do seu líder. A questão que se coloca aqui é mais de compreensão, porque o recuo de Conceição é pouco ou nada condizente com a liderança tão presente e empática, tão à jovem Mourinho,  que o treinador portista tem assumido desde o início da temporada e que tão decisiva foi para transformar a equipa amorfa da época passada no coletivo ambicioso e ganhador que segue na frente da Liga.Na verdade, a questão de Sérgio Conceição não deve ser colocada na perspetiva do efeito que a sua atitude pode ter provocado na equipa, mas sim do que a causou. E aí não consigo encontrar uma explicação plausível. Queria ver melhor e o ecrã de televisão é a melhor forma de o fazer? Fraca explicação. É superstição? Estranho. Não me ocorre uma justificação melhor do que um acesso súbito de desânimo nascido de mais um clássico em que o FC Porto foi melhor mas não foi capaz de fazer golos – e já vão três no que se leva de temporada. E isso é aquilo de que o FC Porto menos precisa, porque muito do que esta equipa tem rendido tem a ver com a união e o entusiasmo que o treinador conseguiu incutir no grupo com a sua proximidade e o discurso motivacional de que a roda final é exemplo tão felizPS – A minha presença na RTP3 aos sábados à noite impede-me de me centrar devidamente na final da Taça da Liga, ontem disputada entre Vitória FC e Sporting. Há tempo e espaço ainda para três pensamentos rápidos, ainda assim. O primeiro para destacar o grande jogo feito por Gonçalo Paciência, imparável em lances de um para um, a mostrar um virtuosismo raramente visto num avançado da sua compleição física. O segundo para assinalar a clara superioridade da estratégia desenhada por José Couceiro face ao plano de jogo completamente falhado por Jorge Jesus, que abdicou das faixas laterais e apostou numa equipa sem velocidade nem intensidade durante toda a primeira parte, em claro sinal de menosprezo pelo adversário. Por fim, o terceiro para questionar o que pode ser a época do Sporting depois do ato falhado que foi a final de ontem: a um candidato ao título exige-se muito mais do que aquilo que os leões mostraram em Braga, com uma taça à mão de semear.
2018-01-27
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A forma como Fábio Coentrão descarregou a sua frustração no banco de suplentes do Estádio do Bonfim, depois de perceber que o Sporting ia ali deitar à rua dois pontos, com um golo sofrido em tempo de compensação, mostra acima de tudo uma coisa: o lateral vila-condense está habituado a ganhar e não a perder pontos desta forma. Pode até ser “feito de Sporting”, como disse no momento em que assinou pelo que sempre foi o seu clube do coração, mas não é daquela parte do ADN do Sporting que cresceu exponencialmente com a conquista de apenas dois títulos nacionais nos últimos 35 anos: a parte fatalista e muitas vezes até sobranceira que já esteve à mostra, por exemplo, há dois anos. Jorge Jesus já disse uma série de vezes que não compreende como perdeu esse campeonato de há dois anos, tendo feito 86 pontos. A resposta mordaz é sempre a mesma: porque o Benfica fez 88. Mas essa é a resposta para “memes” de Facebook. A razão mais profunda fala-nos de outras coisas, como a sobranceria, a falta daquilo a que, em tempos, Bobby Robson chamou “killing instinct” [instinto assassino]. Porque é disso que se fazem os campeões. Há dois anos, na jornada anterior à do desafio decisivo contra o Benfica, o Sporting foi a Guimarães com quatro pontos de avanço, teve ocasiões para ganhar, mas perdoou: empatou a zero. Ainda assim, jogou o dérbi, em casa, com um ponto de avanço. E voltou a perdoar, perdendo por 1-0. Tal como perdoou na sexta-feira em Setúbal, quando o adiamento da segunda parte do Estoril-FC Porto, mais a mais com os dragões em desvantagem, o deixou na frente da classificação. Era facilidade a mais. Tal como disse Sérgio Conceição depois do FC Porto-CD Tondela, há pressão que é boa: a pressão de ganhar para ficar à frente. Difícil é jogar sem ela, sem essa pressão. Há dois anos, depois de se te deixado ultrapassar pelo Benfica, em relação ao qual chegou a ter uma vantagem bastante confortável, o Sporting não voltou a perdoar. Ao contrário do que sucedera antes, já tinha pressão. Simplesmente, o Benfica também respondeu à pressão, ganhando os seus jogos e conduzindo o campeonato a uma longa corrida entre duas equipas que o acabaram com uma pontuação irreal: 88-86. Nessa altura, os jogadores do Benfica – que, continuo a achar, jogava menos do que o Sporting, nessa Liga – mostraram uma coisa: espírito de campeões. E como se tem esse espírito de campeão, esse instinto assassino? Ganhando, habituando-se sempre a ganhar. Parece a história do ovo e da galinha: não se ganha sem espírito de campeão e não se adquire espírito de campeão sem ganhar. Mas não é preciso sequer pensar muito para se perceber que nem os jogadores que compõem o atual plantel do Sporting nem o futebol do clube têm um passado recente de muitas vitórias. As exceções serão Coentrão e, até certo ponto, Mathieu. Os outros, mesmo que a política desportiva do clube tenha mudado com Bruno de Carvalho, podem mesmo ter desenvolvido um determinado nível de resignação próprio daqueles para quem não ganhar é o mais normal e, por isso, aceitável. Rui Patrício é um guarda-redes de classe Mundial, já é o segundo jogador que mais vezes representou o Sporting – e em breve será o primeiro – mas não sabe o que é ser campeão nacional. Como não o soube Figo, como o não souberam Ronaldo ou Nani. Como se muda isto? Com todos os defeitos que tem, sobretudo na comunicação obsessiva e muitas vezes incorreta acerca dos adversários, Bruno de Carvalho tem feito por isso. Passou a recusar a saída dos jogadores antes de atingirem um determinado nível de serviços prestados. Está a reforçar a equipa de uma forma massiva, apetrechando-a de soluções que, em termos futebolísticos, lhe adivinham melhorias. Se é uma aposta consciente ou uma fuga para a frente, capaz de levar o clube a grandes dificuldades, o futuro o dirá – e este texto nem é acerca disso. Mas tomara o Sporting que mais jogadores tivessem sentido os índices de revolta de Coentrão depois do empate em Setúbal, ainda que sem partir nada. E tomaram os sportinguistas que ser “feito de Sporting” fosse aquilo e não as promessas ene vezes repetidas de “levantar a cabeça” e esperar com resignação por dias melhores. 
2018-01-21
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