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A notícia do pedido de uma reunião ao Conselho de Arbitragem por parte do Benfica é tão ou tão pouco significativa para o rumo do campeonato que os tricampeões eram até aqui o único dos três grandes que ainda não tinha solicitado um encontro com o órgão presidido por Fontelas Gomes. Agora, que a Liga aqueceu e se aproxima dos momentos decisivos, enquanto os benfiquistas vão alegando que a pressão dos Super Dragões sobre Soares Dias foi fulcral para a aproximação entre os dois emblemas na tabela, os portistas respondem que é o Benfica quem está com medo e a tentar coagir os árbitros. Nunca chegarão a consenso e por isso prefiro falar de futebol, das razões que estão por trás da preparação do sprint final que se adivinha e que passam muito pela alteração estrutural que o mercado de Janeiro permitiu. Muita gente pergunta: mas que raio, será Soares um jogador assim tão fenomenal que justifique, por si só, a transformação do FC Porto ofensivamente inoperante de há uns meses num candidato ao título? Caramba, o homem andou pelo Nacional e pelo V. Guimarães e ninguém reparava assim tanto nele... A questão é que no futebol o que vale mais são as ideias e em segundo lugar as peças que são capazes de as fazer funcionar. Se colocarmos de lado fenómenos como Ronaldo ou Messi, que quase ganham os jogos sozinhos, o que garante vitórias são as ideias e a capacidade de as colocar em prática. Com a chegada ao Dragão de Soares, viu-se finalmente a ideia de Nuno Espírito Santo, uma ideia à qual Depoitre nunca conseguiu dar corpo. Soares não é um craque de nível estratosférico, mas consegue ser a perna que faltava no boneco que o treinador tentou desenhar há tempos na sala de imprensa, o pilar que mantém esse boneco em pé, porque dá à equipa a presença e a profundidade de que esta precisava para o jogo mais direto que ela tentava praticar. É preciso enquadrar o futebol do FC Porto naquilo que os seus jogadores tinham dentro da cabeça. Passaram de um ano para o outro de um futebol que privilegiava a posse e de decisões que conduziam a equipa inevitavelmente para o ataque organizado em detrimento do ataque rápido ou do contra-ataque para outro tipo de jogo, com linhas mais juntas e procura mais rápida da profundidade. Nuns jogos sofriam porque a cabeça lhes fugia para as ideias antigas, noutros porque não tinham quem fosse buscar essa profundidade – André Silva é mais móvel na largura, procura bem a faixa, mas quase nunca ataca o espaço nas costas da defesa adversária – noutros ainda porque era o adversário quem, jogando muito atrás, roubava essa mesma profundidade e exigia ao FC Porto outros argumentos que esta equipa não tinha, como a presença na área para aproveitar os cruzamentos que ainda ia fazendo. A equipa melhorou primeiro com Jota, porque o simples facto de ter um repentista em campo já lhe permitia buscar o espaço atrás da defesa adversária. Mas vivia entre dois fogos: ou procurava essa profundidade na criatividade dos extremos e na sua capacidade de furar linhas no um para um ou tentava assumir o jogo com reforço do meio-campo, dando um passo para cada lado e acabando por trocar os pés. Soares não resolveu todos os problemas, porque este FC Porto ainda tem de entender como se exprime melhor. Se com dois extremos puros, apostando na vertigem mas arriscando perder o controlo dos jogos se os adversários souberem envolver-lhe o meio-campo com três homens no corredor central – porque André Silva tem disponibilidade para correr sem parar mas não deve pedir-se-lhe que seja ele a estabelecer equilíbrios atrás – se com dois médios de coração a partir das alas, apostando na consistência mas perdendo chispa atacante – porque Herrera e André André pensam mais na bola do que no espaço e isso trava a equipa. Otávio é uma solução de compromisso entre as duas facetas, mas ainda precisa de rodagem para estar verdadeiramente pronto. Na forma que Nuno Espírito Santo encontrar para resolver este dilema estará a resposta para o que vai ser da equipa já na eliminatória com a Juventus e, depois, no sprint que se adivinha com um Benfica que perdeu fulgor mas poderá recuperá-lo com Zivkovic, com o regresso do melhor Pizzi ou com a entrada de Jonas, que ainda está por chegar a este campeonato. 
2017-02-19
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Último Passe

Uma noite perfeita de Ederson e o pesadelo protagonizado por Aubameyang ajudam a explicar a vitória por 1-0 do Benfica sobre o Borussia Dortmund e uma ligeira inversão da balança do favoritismo nos oitavos-de-final da Liga dos Campeões, mas resumir o que se passou na Luz a esses dois fatores seria ignorar outros igualmente importantes, como a mudança de estratégia defensiva do Benfica da primeira para a segunda parte. Foi também por aí que os encarnados ganharam o jogo, ainda que a chave tenha sido a eficácia do sul face ao desperdício alemão: Mitroglou marcou no único remate enquadrado da equipa portuguesa; Aubameyang falhou quatro golos cantados, um deles num penalti, que Ederson defendeu. Na primeira parte, quem olhasse apenas para os dois treinadores dificilmente adivinharia o que aí vinha. Rui Vitória deitava repetidamente as mãos à cabeça, por ver a equipa perder hipótese sobre hipótese de lançar contra-ataques que podiam ser perigosos, não conseguindo passar a primeira barreira defensiva imposta pelo Borussia. Tomas Tüchel, por sua vez, limitava-se a sorrir com incredulidade à medida que os seus jogadores iam perdendo ocasiões para marcar. Só à conta de Aubameyang foram, nesses primeiros 45 minutos, duas, uma na cara de Ederson, outra até já sem guarda-redes, depois de um cruzamento rasteiro de Guerreiro a que o gabonês não chegou. O Benfica entrara com Rafa a fazer de Jonas, atrás de Mitroglou, talvez com a ideia de condicionar Weigl, de o cercar de forma a impedi-lo de pegar no jogo alemão, mas a ideia não resultou. Por um lado, porque com exceção de algumas arrancadas de Salvio na direita – sempre bem auxiliado por Semedo – a equipa portuguesa não conseguia criar embaraço aos alemães. Por outro, porque estes iam mandando no campo e monopolizando a bola. Talvez por isso, Rui Vitória mexeu logo ao intervalo. Saiu Carrillo, que não deu boa sequência ao jogo com o Arouca, e entrou Felipe Augusto, descaindo Rafa para a esquerda e avançado Pizzi para ser ao mesmo tempo segundo avançado e terceiro médio. Não se percebeu se a coisa podia dar resultado, porque logo aos 48’ os encarnados marcaram, num canto: Luisão saltou mais alto que toda a gente e Mitroglou aproveitou a colocação deficiente de Guerreiro num dos postes para, em posição legal, bater Burki. De repente, o jogo adiantou-se à estratégia do Benfica, que se via a ganhar e com mais um médio no campo. Ainda assim, e apesar da energia que a equipa passou a pôr no momento de reação à perda da bola, subindo a primeira linha de pressão, o Borussia foi capaz de voltar a pegar no jogo. Teve ocasiões para empatar, em mais um cara-a-cara de Aubameyang com Ederson – que voltou a sair por cima da barra – e numa grande penalidade que o gabonês desperdiçou. Ederson adivinhou o remate para o meio da baliza, deixou-se ficar e socou a bola. Após essa defesa de Ederson, Tüchel chamou Schurrle e sacrificou o seu melhor marcador, cuja noite-não era já sem remissão. E o Benfica animou-se, equilibrando o jogo até ao momento em que os alemães chamaram Pulisic. Foi o norte-americano que, com um remate à entrada da área – desviado no calcanhar de Jiménez – arrancou a Ederson a defesa da noite. Uma defesa que deve ter assegurado ao guardião brasileiro a chamada à sua seleção (se é que Taffarel, que estava a observá-lo, ainda tinha dúvidas) e que garantiu ao Benfica a entrada no Westfallenstadion em vantagem e, sobretudo, sem ter sofrido golos em casa. Se o Borussia era favorito na eliminatória, neste momento as coisas estão pelo menos equilibradas.
2017-02-14
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“Estávamos a jogar bom futebol e só precisávamos de controlar o jogo, mantendo a posse. Mas nessa altura o Nani decidiu tentar uma finta, perdeu a bola e eles conquistaram um penalti” Alex Ferguson, após uma derrota por 5-4 frente ao Chelsea, em Outubro de 2012   “Amrabat recebeu a bola e o nosso defesa-esquerdo estava a 25 metros dele em vez de estar a cinco. Mesmo a 25 metros devia ter ido pressionar, mas não… Isto é tático mas também é uma atitude mental, algo que não se aperfeiçoa num par de semanas”. José Mourinho, após uma derrota por 3-1 frente ao Watford, em Setembro de 2016    “Na primeira parte, o FC Porto foi melhor, porque o Palhinha não levou o guião certo para se enquadrar no jogo e isso foi fatal em termos táticos” Jorge Jesus, após uma derrota por 2-1 frente o FC Porto, Fevereiro de 2017   Há várias coisas que me incomodam no episódio Jesus-Palhinha e a maior de todas não é o facto de o treinador ter apontado responsabilidades a um jogador em vez de se refugiar no que é politicamente correto, que é não dizer nada de concreto. Não gostei, é verdade, porque também acho que criticar os (hierarquicamente) mais fracos é um mau traço de caráter, mas faço parte dos que acham o discurso “chapa quatro” dos treinadores no final dos jogos um aborrecimento pavoroso e dos que têm saudades, por exemplo, das conferências de imprensa de Bobby Robson. Como aquela em que, após uma derrota do FC Porto frente ao Benfica na Luz, exclamou algo como “Benfica 2, Fernando Couto 0”, irritado por o então jovem defesa central se ter feito expulsar. O que mais me incomodou no episódio Jesus-Palhinha foram outras coisas. Foi não se ter tido a oportunidade de perguntar, logo ali, ao treinador: o que quer dizer com isso do “guião certo”? E foram, depois, as tentativas de politizar aquilo que o treinador disse, de tornar aquela frase a charneira de duas narrativas completamente opostas. De um lado os que nela se suportam para defender que Jesus é “uma besta” que nunca assume responsabilidades e não tem um pingo de sensibilidade para trabalhar com jovens. Do outro os que defendem que aquela frase é a exata medida da assunção de responsabilidades por parte do treinador, que afinal era o argumentista e quem devia ter dado o guião certo ao ator que falhou taticamente na primeira parte do jogo. Na verdade, só uma pessoa sabe quem tem razão e essa é o próprio Jesus. E em vez de estarmos todos a adivinhar – ou, pior, a utilizar a frase para suportar ideias que são nossas – o que ele quis dizer, mais valia discutir o que verdadeiramente interessa: devem os treinadores criticar os jogadores em público? Em resposta, eu diria que depende do que querem alcançar com as críticas. Manda o bom-senso que as críticas sejam feitas no balneário, mas é legítimo que se diga que hoje em dia os jogadores estão cada vez mais sensíveis e que a exponenciação do “star system” através, por exemplo, do endeusamento potenciado pelas redes sociais, não tem ajudado. A verdade é que há milhares de casos na história. Fernando Couto ficou destruído pelo comentário público de Robson? Não, porque era forte e sabia que tinha feito asneira. Alguém duvida que o Super-FC Porto de José Mourinho, que a equipa que veio a ganhar a Taça UEFA e a Liga dos Campeões, começou a nascer nas críticas ferozes que o treinador lançou em conferência de imprensa após uma derrota por 3-0 frente ao Belenenses no Restelo? Foi o que aconteceu, ainda que muitos dos que estiveram nessa noite não tenham tido a força suficiente para passar por cima do que se passou e por isso mesmo não tenham chegado ao sucesso que acabou por premiar aquela equipa. Ferguson, por exemplo, foi sempre extremamente duro com Giggs ou, mais tarde, com Ronaldo, que eram os meninos dos olhos dele. E foi também por isso – e por terem sabido dar a volta – que eles chegaram onde chegaram. Claro que há casos de jogadores que não foram capazes de lá chegar. Quando Paulo Bento, também após um jogo no Dragão, pendurou o jovem guarda-redes Stojkovic na cruz por ter agarrado uma bola cortada por Polga – dando origem a um livre indireto e ao golo da vitória do FC Porto sobre o Sporting – pode até tê-lo feito por ter percebido que tinha Rui Patrício em fila de espera e que o futuro da baliza leonina estava no português e não no sérvio, mas daí até se dizer que a carreira deste nunca descolou por causa do episódio vai um salto maior do que a perna. Quer isto dizer que, seja qual for a verdade no episódio Jesus-Palhinha, não é isso que vai determinar o jogador que vai ser o jovem médio nem o treinador que é o amadorense. Jesus fez asneira, sim, mas foi sobretudo no início da época, quando achou que Petrovic podia jogar na equipa do Sporting, preferindo-a a Palhinha. Mas até saltar dessa decisão para o axioma segundo o qual Jesus é um mau treinador para a formação me parece forçado, porque ninguém estaria hoje a reclamar a presença de Palhinha – ou de Podence e Geraldes – se eles não tivessem tido a oportunidade de jogar meia época no Belenenses e no Moreirense.
2017-02-12
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O mercado foi decisivo no desfecho do FC Porto-Sporting. O bis de Soares impulsionou os dragões para uma vitória que os deixa à condição na frente do campeonato e tira os leões da luta a três meses do final da época. A aposta de Nuno Espírito Santo no jogador recentemente recrutado ao V. Guimarães deu frutos, enquanto que no Sporting Jesus viu Palhinha ser insuficiente face à ausência forçada de William: o médio chegado do Belenenses fez uma boa segunda parte, mas acusou falta de rotinas com o resto da equipa e cometeu um erro de posicionamento quando se atrasou a subir para fazer o fora-de-jogo no lance do primeiro golo portista. Na verdade, ainda que de forma tímida, dos três candidatos ao título só o FC Porto foi ao mercado buscar argumentos para fortalecer a sua candidatura. Do V. Guimarães chegou Soares, que se por um lado pode ser visto como alternativa fisicamente imponente a André Silva, por outro tem a velocidade de ponta capaz de dinamitar as defesas mais rápidas: a forma como bateu Ruben Semedo no segundo golo é disso prova acabada. A chegada de Soares acaba por ser também a assunção do falhanço na contratação de Depoitre, que Nuno Espírito Santo nunca conseguiu transformar no jogador que vira no duplo confronto entre o seu Valencia e o Gent, há um ano. Com a entrada de Soares e a saída de Adrian López, emprestado ao Villarreal, o FC Porto deu uma composição diferente ao seu ataque, que agora conta com três pontas-de-lança mais clássicos para um melhor preenchimento do espaço na área adversária e com a irreverência de Rui Pedro, cuja qualidade certamente o impedirá de perder espaço nas opções do treinador. O resto do ataque continuará a depender da velocidade de Jota, do repentismo de Corona e da criatividade de Brahimi – que chegou a estar com pé e meio fora, no Outono, antes de acertar o passo com as ideias do treinador –, bem como da disposição de Nuno Espírito Santo para os colocar a jogar ao mesmo tempo em vez de ir acumulando médios e privilegiando a segurança, confiando nas bolas paradas. No Sporting, o mercado podia ser visto de duas maneiras. Ou redução de custos, com a saída de jogadores que eram excedentários no campo e no orçamento, ou recuperação da identidade do clube, feita da aposta nos jogadores da casa que tanto agrada aos adeptos mas que, valha a verdade, pouco mais deu nos últimos anos do que insignificantes vitórias de Pirro. Ainda assim, Francisco Geraldes parece um médio com capacidade de se impor no onze dos leões, sobretudo se Jorge Jesus conseguir trabalhá-lo de forma a juntar agressividade inteligente (o contrário da que lhe valeu a expulsão no Dragão, ainda pelo Moreirense) ao cérebro futebolístico que o jovem inegavelmente tem. É, no fundo, dar-lhe um pouco de Enzo Pérez para ele poder ser alternativa ou complemento a Adrien. Apesar dos soluços de ontem, Palhinha será sempre melhor alternativa a William do que o inexplicável Petrovic. E Podence, mesmo parecendo jogador mais feito para equipas de contra-ataque, é uma pilha de energia e velocidade constantes. Tudo somado à renovação de Gelson e à compra do passe de Coates chegaria para ter os sportinguistas satisfeitos não fosse a derrota no Dragão, mas a verdade é que ficou a ideia de que o clube não conseguiu colocar todos os erros de casting do mercado de Verão. Saíram Markovic (Hull), Elias (Atlético Mineiro) e Petrovic (Rio Ave), bem como Spalvis, que foi para o Rosenborg acabar a última fase (a ativa) de recuperação da grave lesão que teve na pré-época. Mas ainda ficaram em Alvalade (para já) jogadores como André ou Castaignos, este uma espécie de Depoitre, com a mesma aversão ao golo. Por fim, durante todo o mercado sentado confortavelmente no cadeirão de uma liderança entretanto ameaçada, o Benfica estabeleceu a realização de mais-valias financeiras como grande prioridade desta janela de transferências. Com o auxílio de Jorge Mendes, os tricampeões conseguiram mais duas enormes operações, fazendo 45 milhões de euros com Gonçalo Guedes (Paris St. Germain) e Hélder Costa (que poucos em Portugal sabem quem é mas valeu 15 milhões da opção de compra pelo Wolverhampton, do segundo escalão inglês). A chegada de Hermes (ex-Grêmio) destina-se a compor mais as laterais da defesa, face à lesão de longa duração de Grimaldo, restando perceber onde se enquadram Pedro Pereira e Filipe Augusto. O lateral contará para Rui Vitória ou terá sido apenas uma forma de resolver o imbróglio Djuricic, que seguiu a título definitivo em caminho inverso para a Sampdoria? E será o médio capaz de se impor onde Danilo falhou ou a sua contratação não passa de mais um efeito secundário da parceria com a Gestifute? As semanas que aí vêm o dirão, sendo que para já o Benfica é, dos três, o único a poder lamentar, no plano estritamente futebolístico, o desfecho de Janeiro: o futebol-ventoinha de Gonçalo Guedes, sempre a mexer, sempre a correr, sempre a pressionar, já terá feito a sua falta nas derrotas com o Moreirense e o V. Setúbal. 
2017-02-05
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Último Passe

Foram o FC Porto e Nuno Espírito Santo que ganharam ou foram o Sporting e Jorge Jesus que perderam? Como sempre, na sequência de um clássico, onde as duas formas de olhar para o jogo assumem igual protagonismo, esta é a pergunta que muitos fazem. A resposta é simples: ambas as afirmações são verdadeiras. Nuno Espírito Santo começou a ganhar o jogo quando apostou em Soares e numa frente de ataque alargada, mas só o ganhou mesmo graças ao compromisso defensivo revelado por jogadores como Corona e Brahimi. E Jorge Jesus começou a perdê-lo, não tanto na aposta-surpresa em Matheus Pereira, mas mais na falta de William Carvalho e na insistência em Bryan Ruiz pelo corredor central, como segundo avançado, quando ainda não ganhou um jogo verdadeiramente competitivo com o costa-riquenho a jogar naquela posição. Soares foi o homem do jogo, pelos dois golos que marcou, mas sobretudo pela volta que permitiu dar ao futebol do FC Porto. Com Soares, o FC Porto pôde mudar para um 4x4x2, porque passou a ter um avançado de referência, com escola a jogar de costas para a baliza, a cobrir a bola, mas que ao mesmo tempo tem finalização e explosão. Talvez fosse isso que o treinador tinha em mente quando contratou Depoitre, mas a verdade é que esses trunfos chegaram com seis meses de atraso. Com Soares na frente, André Silva passou a ser menos massacrado – ainda que ao mesmo tempo tenha perdido protagonismo – e a equipa pôde juntar dois pontas-de-lança a dois extremos puros, como Corona e Brahimi, não perdendo em termos defensivos. Pelo contrário… A diferença para a equipa que atacou no Estoril, há uma semana, com André Silva, Jota, Herrera e André André foi abissal em termos de resultados práticos, mas também de modelo de jogo: o FC Porto de hoje apostou num jogo mais direto, na busca mais rápida da profundidade, juntando linhas atrás e vivendo muito do comportamento defensivo rigoroso dos dois alas, que estiveram sempre bem nos momentos de transição, reduzindo o espaço ao Sporting para atacar. Claro que muito disto teve a ver com o golo madrugador de Soares, obtido logo aos 6’, que permitiu ao FC Porto gerir a vantagem e ao Sporting obter superioridade estatística, porque lhe coube desde cedo a necessidade de recuperar no marcador. E aqui é onde entram os defeitos leoninos. Seria fácil vir agora criticar a aposta surpresa em Matheus Pereira – um minuto jogado na Liga antes de ser titular no Dragão – mas a verdade é que sem ter sido brilhante, não foi por ele que o Sporting começou a claudicar. O início da queda teve a ver com a falta de rotinas de Palhinha com a equipa, mas o essencial passou pela noite má de Zeegelaar e por mais uma manifestação de incapacidade de Bryan Ruiz para jogar como segundo avançado, pelo meio, em jogos onde o patamar de exigência e de competitividade aumentam. Em suma, Jesus não perdeu por ter inventado, como amanha vamos ler um pouco por todo o lado. Perdeu por insistir em soluções que já lhe tinham custado pontos em várias outras situações. É muito por aqui que se explica o jogo. Adiantou-se o FC Porto logo aos 6’, por Soares, num lance onde a criatividade de Corona se juntou ao comportamento insuficiente de Zeegelaar, que o deixou cruzar, e onde depois a eficácia do avançado recrutado ao V. Guimarães veio combinar com a falta de rotina de Palhinha com Coates e Ruben Semedo: os dois centrais definiram bem o momento da subida, um segundo antes do cruzamento, para deixar Soares em fora-de-jogo, mas Palhinha, que estava na área para restabelecer a superioridade numérica, tardou a reagir e deu condição legal ao atacante brasileiro. A ganhar, o FC Porto assumiu o bloco baixo e a busca rápida da profundidade, sobretudo em ataque rápido e contra-ataque. E, mesmo tendo superioridade numérica no corredor central – Palhinha, Adrien e Bryan Ruiz contra Danilo e Oliver – o Sporting não só não tinha saída pelo meio, procurando sempre os corredores laterais, como perdia quase todas as divididas por ali, fruto da inadequação de Bryan Ruiz à posição. O talento está lá, não se discute, mas para jogar a este nível naquela posição é preciso pensar e executar a uma velocidade que o costa-riquenho não tem. Ruiz começou ali contra o FC Porto em Alvalade e Jesus trocou-o por Bruno César quando se viu a perder, ainda na primeira parte; voltou a começar ali contra o Benfica na Luz e Jesus voltou a trocá-lo, desta vez por Alan Ruiz, aos 60’, mais uma vez a perder, mas desta vez por 2-0; por fim, o treinador repetiu a aposta no Dragão, voltando a mudá-lo de posição ao intervalo, outra vez a perder por dois golos. O segundo nascera de um contra-ataque que teve contributo de Danilo, num excelente passe de rotura, e de Soares, que bateu em velocidade a defesa do Sporting, superou Rui Patrício e fez o 2-0. Na segunda parte, com Adrien e Gelson a manterem a bitola elevada, Esgaio na esquerda em vez de Zeegelaar, Palhinha a subir de rendimento – sendo mais médio e menos terceiro central – e sobretudo com Alan Ruiz no apoio direto a Bas Dost, assegurando que o Sporting tinha alguém capaz de jogar dentro do bloco portista, os leões melhoraram. Adrien acertou na trave e Alan Ruiz reduziu, após combinar com Bas Dost. Aqui, foi a vez de o FC Porto repetir o erro que já cometera contra o Benfica, baixando o ritmo, deixando de sair com a certeza dos primeiros 45 minutos, fruto da falta de gente na frente: André Silva deu o lugar a André André, Brahimi foi trocado por Jota e Corona por João Carlos. Podence deu alma ao flanco esquerdo leonino e nos últimos dez minutos pairou sobre o Dragão a hipótese de repetição do golpe de teatro que já sucedera frente ao Benfica. A diferença é que desta vez Casillas fez duas excelentes defesas a cabeceamentos de Coates, impedindo o empate. E em resultado disso não só o FC Porto viu legitimada a sua candidatura ao título, como o Sporting saltou fora da carruagem.
2017-02-04
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Último Passe

O FC Porto-Sporting vai definir que campeonato teremos a partir de Fevereiro. As equipas chegam ao clássico em posições inversas relativamente ao igualmente decisivo desafio da época passada, mas com muito mais jornadas por disputar, o que somado à derrota recente do Benfica em Setúbal permite acalentar esperanças a ambas de ainda terem alguma coisa a dizer na luta pelo título. A esperança é, aliás, a palavra-chave para os que hoje forem ao Dragão. Os portistas vão na esperança de saírem de lá líderes à condição – o Benfica só joga no domingo. E se há um mês estavam a seis pontos de diferença do líder, já não estão na situação de olhar para cima e não ver ninguém desde o jogo de abertura desta Liga, quando foram os primeiros a somar três pontos, com a vitória em Vila do Conde sobre o Rio Ave. Os sportinguistas, por sua vez, vão na esperança de pelo menos manter a distância para o topo – são sete pontos neste momento, os tais que o FC Porto tinha de desvantagem há um mês – e reduzir a que os separa do segundo lugar, para voltarem a entrar na discussão. Ambos os treinadores têm a noção de que o futebol é o momento. E a questão é que o momento não tem sido muito favorável a nenhum dos dois. O FC Porto até vem de três vitórias seguidas depois do empate em Paços de Ferreira que parecia condenar a equipa a uma segunda metade de época sem ambição, mas não tem sido convincente no plano exibicional. No Estoril, por exemplo, a equipa só ganhou asas quando o treinador adicionou homens de ataque a um onze inexplicavelmente tímido de início. Uma das dúvidas acerca de que FC Porto vamos ter prende-se com as opções para acompanhar André Silva. Só Diogo Jota, com Herrera, Oliver e André André é curto, como se viu na Amoreira. É verdade que o treinador vinha escaldado pelos dois golos consentidos em casa ante o Rio Ave e pode ter sido impelido a escolher uma equipa mais conservadora, mas entre Corona e Brahimi, pelo menos um tem de estar de início. Ou até os dois, com Jota de fora. Jesus já dissipou a maior dúvida no onze leonino, que tinha a ver com o homem escolhido para substituir o castigado William Carvalho. Joga Palhinha, igualmente forte fisicamente mas menos desequilibrador no passe e naturalmente menos à vontade com a importância de um jogo como este. Logo aí se deve esperar um Sporting menos virado para o ataque, mas a opção fundamental prende-se com a escolha do homem que vai acompanhar Bas Dost na frente. Em 2015/16, Jesus ganhou com “chapa três” na Luz e no Dragão com dois avançados puros – Slimani e Gutiérrez – mas este é um Sporting diferente, logo à partida por não ter a capacidade de luta do argelino, que era ao mesmo tempo primeiro atacante e primeiro defesa. Os dois clássicos desta época tiveram de início Bruno César e Bryan Ruiz a alternar entre a esquerda e o centro e deverá ser assim também no Dragão, onde lá mais para a frente Jesus pode recorrer a Geraldes e Podence, os dois moreirenses que tão moralizados ali chegam.
2017-02-03
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Último Passe

Quando o Benfica sofreu três golos do Boavista e outros três do Moreirense, toda a gente falou de Fejsa e da falta que o sérvio fazia nos equilíbrios defensivos da equipa de Rui Vitória. Hoje, Felsa estava de volta e o Benfica perdeu com o V. Setúbal no Bonfim. O problema não foram tanto os desequilíbrios defensivos – o Vitória não chegou muitas vezes com perigo perto da baliza de Ederson – mas sim a falta de capacidade para criar desequilíbrios ofensivos. Foi por isso que os tricampeões nacionais registaram o primeiro zero no ataque desde a derrota com o Bayern em Munique (em Abril). Ou, se limitarmos a amostra à Liga portuguesa, desde o empate a zero com o U. Madeira no Funchal, em Dezembro de 2015. Tal como tinha feito o Moreirense, o V. Setúbal fechou bem o corredor central. Aos dois centrais habituais – Venâncio e Fábio Cardoso – juntou Vasco Fernandes na missão de lateral direito, pedindo depois a Mikel e Bonilha, os dois médios-centro, que fizessem um jogo sobretudo rigoroso em termos posicionais. Bloqueado pelo meio, o Benfica só teve saída pela direita, onde Nelson Semedo e Zivkovic ainda iam criando algumas dificuldades, em contraste com o jogo menos conseguido de André Almeida e Cervi do outro lado. Vitória ainda tentou trocar os laterais, mas foi na segunda parte, com Rafa no lugar do argentino, que o Benfica ganhou flanco direito. E nem aí foi capaz de tirar de Jonas a influência que o brasileiro tinha na época anterior. Com o 10 sempre emparedado, o Benfica dependia da capacidade de Mitroglou chegar a um cruzamento, de um remate de longe ou de Luisão transformar um dos muitos cantos de que beneficiou num golo. Não aconteceu. Depois, pode até falar-se da ausência de Rui Vitória, ausente do banco por castigo, mas a verdade é que mesmo com ele este Benfica não vira jogos. Como se viu em desvantagem a meio da primeira parte, no seguimento de uma boa combinação de Edinho e Arnold na direita, que o congolês cruzou para o cabeceamento vitorioso de Zé Manuel, o Benfica deixou que dele se apoderasse o sentimento de fatalidade que lhe custou um dissabor em todos os jogos nos quais deixou que o adversário se adiantasse. Todas as equipas que lhe marcaram primeiro tiraram algo dos jogos: já tinha acontecido com este mesmo V. Setúbal na Luz (1-1), mas repetiu-se duas vezes com o Napoli (4-2 em Itália e 2-1 em Lisboa), com o FC Porto (1-1), o Marítimo (2-1) e o Boavista (3-3). Esta não é uma equipa programada para virar resultados, mas sim para marcar cedo e gerir a vantagem com um apetite atacante que quase sempre lhe permite ampliá-la. É, apesar de tudo, e sobretudo com Fejsa, uma equipa mais forte nos momentos defensivos do que nos ofensivos. E por isso mesmo encara agora o duplo compromisso caseiro com Nacional e Arouca sabendo que em vez de poder fechar o campeonato em caso de derrota portista no clássico de sábado, terá sempre de continuar a pedalar até ao fim se quer garantir o tetra.
2017-01-30
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Último Passe

O apuramento de Sp. Braga e Moreirense para a final da Taça da Liga podia ser uma excelente oportunidade para ensinar os portugueses a gostar de futebol. Os dois jogos das meias-finais foram excelentes, com ritmo, boa qualidade dos executantes e opções estratégicas bastante interessantes, pelo que se antevê uma final igualmente atrativa. Com um senão: em campo não vai estar nenhum dos três grandes. Óbice de monta para um país onde em vez de gostarem de futebol, os adeptos gostam dos seus clubes. Os números não enganam. A Liga portuguesa tem-se esforçado na promoção do espetáculo, na tentativa de encontrar os melhores horários para fazer subir os protagonistas aos relvados – e a este propósito ainda há demasiados jogos em horas pouco convidativas de dias ainda menos interessantes – e nisso tem sido acompanhada por alguns clubes, que já perceberam que é na capacidade para mobilizar o seu exército que se tornam mais fortes. Em termos gerais, ainda sem contar com os jogos desta 19ª jornada entretanto realizados, a média de espectadores por jogo na Liga cresceu 6,5 por cento, dos 10.802 nos jogos do campeonato passado para os atuais 11.552. Não são os 43.300 de média da Bundesliga ou os mais de 36 mil da Premier League, nem sequer os 19 mil da Liga holandesa, a que mais se aproxima das cinco grandes, mas já são um valor assinalável. Sobretudo se repararmos que 11 das 18 equipas da Liga portuguesa cresceram em espectadores da época passada para a corrente e que das sete que baixaram duas – Sp. Braga e Moreirense, exatamente os finalistas da Taça da Liga – ainda não receberam nenhum dos três grandes no seu estádio. Ora é aqui que entra nas contas o principal fator desequilibrante: os três grandes. Só porque o Benfica subiu de 50.322 para 56.031 espectadores por jogo (aumento de 10%); porque o Sporting tem sido capaz de acompanhar os campeões nacionais, com um crescimento de 39.988 para 43.148 espectadores por jogo (subida de 7%) e o FC Porto também aumentou o público por jogo em casa de 32.324 para 35.305 (crescimento de 8%), isso não quer dizer que esteja tudo bem. Porque há uma Liga dos três e uma Liga dos restantes. Sim, é verdade que ainda temos mais uma equipa acima da média geral – o Vitória de Guimarães, que leva em média 17.581 pessoas a cada jogo. As outras 14 estão abaixo da média. Com a agravante de haver uma média para a Liga e outra, bem diferente, para os jogos que não envolvem nenhum dos três grandes, nem na qualidade de visitado nem de visitante, como será o caso da final de hoje, no Algarve: os 111 desafios já disputados sem a presença de nenhum dos três candidatos ao título foram capazes de arrastar até ao estádio pouco mais de 429 mil pessoas. São 3865 espectadores por jogo. Estou convencido de que há maneiras de fazer crescer estes números – e um dia voltarei a este assunto. Neste momento, porém, o que interessa é a final da Taça da Liga e fazer com que o público esteja à altura de duas equipas que valem mais do que os espectadores que levam ao estádio (10.100 por jogo no caso do Sp. Braga; 1.424 no Moreirense, a equipa com menos presença média de adeptos de toda a Liga). Porque aquilo que Sp. Braga e Moreirense foram capazes de mostrar nas meias-finais justificaria um público interessado e conhecedor, mesmo que não seja diretamente interessado numa ou noutra equipa. São duas equipas que sofreram há pouco um processo de mudança técnica, com as entradas de Jorge Simão e Augusto Inácio, mas que já sabem aproveitar muito do que os novos treinadores têm para lhes oferecer: uma boa organização acima de tudo no caso de Simão, a inteligência estratégica que a experiência já longa lhe proporciona no caso de Inácio. O Sp. Braga de Simão passou a ser forte onde a equipa de José Peseiro mais vacilava: no meio-campo. Com Battaglia ao lado de Xeka, os arsenalistas formam uma dupla capaz de ocupar sempre bem a posição que é o coração de qualquer equipa de Simão. Já tinha sido assim no Belenenses, no Paços de Ferreira e no Chaves, os três clubes de topo que o treinador lisboeta dirigiu antes de chegar ao Minho. Depois, a qualidade ofensiva já lá estava, com extremos da categoria de Pedro Santos, Ricardo Horta ou Wilson Eduardo, avançados como Stojiljkovic, Rui Fonte ou Hassan ou até a integração permanente dos dois laterais em manobras atacantes. Por seu turno, o Moreirense de Inácio soube potenciar melhor as caraterísticas dos seus melhores jogadores, fazendo sobressair as capacidades de Dramé, Boateng ou Podence em contra-ataque e de médios como o promissor Francisco Geraldes – um cérebro futebolístico ao serviço de bons pés – e o seguro Fernando Alexandre.
2017-01-29
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Foram bem diferentes as dificuldades sentidas por FC Porto e Sporting para vencerem os seus jogos da 18ª jornada da Liga, na antecâmara do clássico que vai complicar muito mais a vida a um deles – ou até a ambos, se empatarem. Os dragões voltaram a ver-se em défice ofensivo, fruto da recuperação da opção conservadora por parte do treinador, Nuno Espírito Santo, que começou por tentar vencer o Estoril com a equipa muito atrás. Os leões sentiram um défice defensivo quando já ganhavam por 3-0, quando Adrien começou a proteger-se face à hipótese de ver um amarelo que o afastasse da próxima jornada e Jorge Jesus deixou que o seu próprio conservadorismo se manifestasse quando tardou em retirá-lo de campo. No fundo, a história devia ser a de duas vitórias claras. Não foi assim, porém. Na Amoreira, o FC Porto só desbloqueou o 0-0 aos 82 minutos, quando um penalti de André Silva permitiu a Nuno Espírito Santo um suspiro de alívio que as suas opções iniciais dificultaram. A equipa começou com André Silva como ponta-de-lança, Diogo Jota a apoiá-lo e com a missão de cair na esquerda, e com André André e Herrera como médios-ala que frequentemente procuravam o espaço interior. Afinal de contas são essas as suas caraterísticas. As consequências eram duas: falta de largura e falta de gente na frente. Quando Brahimi se levantou do banco para entrar, ainda na primeira parte, não me passou pela cabeça que o sacrificado pudesse ser Jota. O problema manteve-se até que pouco depois da hora de jogo surgiu finalmente a opção atacante, com as entradas de Corona e Rui Pedro com a saída de dois médios. O mexicano dava largura, Rui Pedro acentuava a presença na frente, tirando o foco da defesa estorilista um pouco de cima de André Silva e os golos apareceram. Esse problema, de desbloqueio do jogo, não o teve o Sporting, que marcou cedo e aos 35’ já ganhava por 3-0. Com Gelson de regresso às noites boas, Schelotto a ajudá-lo ofensivamente, Alan Ruiz a desenhar trajetórias menos previsíveis no apoio ao imperturbável Bas Dost, a equipa parecia no caminho de uma vitória tranquila até ao minuto 45. Nessa altura, William Carvalho viu um cartão amarelo que o afastava do clássico de sábado próximo e a situação afetou Bruno César e – sobretudo – Adrien Silva, os outros dois jogadores leoninos que estavam a um cartão da suspensão. O que se viu no regresso para a segunda parte, na qual me surpreendeu até que Adrien tenha sequer reentrado em campo, foi um Sporting defensivamente passivo. Quando não há Adrien – e face ao risco assumido, naquele início de segunda parte foi quase como se não houvesse – o Sporting deixa de funcionar defensivamente. O Paços também sabia disso e Whelton aproveitou para fazer dois golos que, antes do bis de Bas Dost, colocaram o resultado em risco. A dúvida que vai alimentar a semana que aí vem tem a ver com as opções para o clássico. Irá Nuno Espírito Santo repetir a equipa sem pontas e com aposta no meio-campo que titubeou ante o Estoril? Não creio, porque isso equivalerá a dar a iniciativa ao Sporting. E quem irá Jorge Jesus utilizar no lugar de William? Palhinha entrou tímido no jogo com o Paços, mas teve contra ele uma equipa que naquela altura já duvidava muito, e deve ser ainda assim a melhor aposta. A outra opção – Adrien com Bruno César – viria impedir aquele que parece ser o Plano A leonino, no qual Bruno César deverá ser, como foi em Madrid ou na receção ao FC Porto, na primeira volta, simultaneamente segundo avançado e terceiro médio. Porque se é verdade que na época passada Jesus foi à Luz e ao Dragão com dois atacantes (Gutièrrez e Slimani), ganhando ambos os jogos com clareza, as circunstâncias atuais são muito diferentes.
2017-01-28
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Augusto Inácio tinha dito no lançamento da meia-final da Taça da Liga que se o Moreirense chegasse à final toda a gente ia dizer com espanto: “Ahhhh, o Moreirense ganhou ao Benfica!” No entanto, quando a equipa minhota venceu de facto os tricampeões nacionais, a maioria dos observadores vai dizer outra coisa: “Ahhh, o Benfica perdeu com o Moreirense!” É o normal num futebol tão tricéfalo como o português, mas a verdade é que a surpresa do Algarve tem dois lados. Um fala da perda de qualidade defensiva de um Benfica que entrou em quebra quando perdeu Fejsa e que passou a sofrer muito mais na primeira zona de pressão quando recuperou Jonas. O outro de uma segunda parte épica de um Moreirense seguro por Fernando Alexandre, com Geraldes, Podence, Dramé e Boateng a darem um recital de contra-ataque. A história faz-se dos vencedores. Depois de uma primeira parte sem chama, Augusto Inácio foi à procura da felicidade com duas substituições que ajudam a explicar o desfecho do jogo. O velocíssimo Podence e o sempre inteligente Geraldes já lá estavam, mas faltava a âncora que veio a ser Fernando Alexandre e uma outra seta na frente que foi Dramé. O Moreirense fez três golos, mas podia ter feito mais, fruto da velocidade nos últimos metros, da capacidade de lançar os seus velocistas em passes de rutura desde a zona de meio-campo, mas também da forma de sair a jogar desde trás, iludindo um Benfica muito menos eficaz na reação à perda do que tem sido habitual: uma coisa é ter ali Jiménez, Cervi ou Gonçalo Guedes, que correm sempre atrás da bola e travam a organização adversária desde cedo, e outra, bem diferente, é entrar com Jonas, Rafa e Carrillo, muito mais passivos do ponto de vista defensivo. Não é só por aí que se explicam os três golos encaixados pelo Benfica, porém. Sobretudo porque se sucedem a dois feitos pelo Leixões e outros três pelo Boavista. Fejsa lesionou-se em Guimarães, no dia 7 deste mês, e nos cinco jogos que se seguiram a equipa de Rui Vitória sofreu oito golos. Tantos como nos onze jogos anteriores, sendo que nessa série mais antiga – que incluiu sete partidas seguidas em branco – os adversários foram do calibre de Napoli, Sporting ou Besiktas. A falta do sérvio fez-se sentir na forma como a equipa não tem sido capaz de travar trocas de bola aos adversários, tanto no espaço interior como nos corredores laterais, onde a ação de limpa-pára-brisas de Fejsa costuma ser igualmente importante. É verdade que mesmo assim o Benfica ainda podia ter chegado ao empate – acertou duas vezes nos postes da baliza de Makharidze – mas ninguém estranhará que se diga neste momento que do regresso pronto de Fejsa dependerá a capacidade de impedir que este mau momento defensivo se alargue ao campeonato.
2017-01-26
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Os resultados da equipa de futebol serão evidentemente um aspeto a ter em conta pelos sócios do Sporting quando forem chamados a eleger os corpos sociais do clube, em Março. O quarto lugar na Liga, somado à eliminação prematura em todas as outras competições, tem sido a maior arma potencial à mercê da oposição a Bruno de Carvalho. No entanto, os sócios não vão votar em jogadores nem em treinadores – vão eleger quem acharem mais capaz de liderar o clube num rumo que lhe permita ter bons jogadores, bons treinadores e, em resultado disso, bons resultados. Nesse aspeto, Bruno de Carvalho soube dar a volta à má situação desportiva que a equipa vive: ao arregimentar Jorge Jesus para o seu lado da barricada – o que também tem o seu quê de discutível… – expôs Madeira Rodrigues a uma contradição que certamente não ajuda nada o candidato nos esforços para convencer quem pudesse estar insatisfeito com a atual liderança. O que está aqui em causa não é Jorge Jesus. Haverá quem concorde com Bruno de Carvalho, que continua a dizer que o treinador é fundamental para o projeto, como haverá quem veja nele a causa de todos os males e queira vê-lo pelas costas como condição imprescindível para um Sporting ganhador. Isso, para o caso, é irrelevante. O que está aqui em causa é a estratégia de cada candidato para o futuro do clube e sobretudo a perceção que os sócios têm dela. Bruno de Carvalho foi inteligente e conseguiu anular um pouco do efeito dos maus resultados nesta campanha eleitoral. Foi desses maus resultados que nasceram as notícias em torno do afastamento entre presidente e treinador – as primeiras páginas dos dois maiores jornais desportivos de anteontem, com o Record a anunciar a união e A Bola a decretar a distância entre os dois são antológicas – e as consequentes reflexões, que levaram a oposição a acusar Bruno de Carvalho de querer sacrificar Jesus para salvar a pele. Ora, pelo menos publicamente, aquilo que o presidente fez foi exatamente o contrário: chamou Jesus para o seu lado, convidou-o para a Comissão de Honra e passou para a opinião pública a ideia de que está com os seus até ao fim. Sendo que Jesus passou oficialmente a ser um dos dele. Colocado perante este cenário, o que podia fazer Jorge Jesus? Ora aqui há vários planos possíveis de análise. O mais normal era que o treinador, funcionário pago do clube, se recusasse a fazer parte de qualquer candidatura. Isso, porém, era supondo que vivíamos uma situação normal. Esta não é uma situação normal, fruto dos tais maus resultados e das notícias em torno dos desencontros entre presidente e treinador. Se recusasse o convite público de Bruno de Carvalho, Jesus estaria a assumir em nome próprio o ónus da separação e a legitimar desde logo qualquer iniciativa de rutura que nascesse na outra parte. Assim sendo, só restava a Jesus aceitar. Ele até é sócio do Sporting há décadas, sempre se soube que era sportinguista, mesmo quando treinava o rival Benfica, pelo que puxou do seu direito a ter algo a dizer sobre o futuro do clube e juntou-se ao rol dos apoiantes da reeleição de Bruno de Carvalho. Jesus defendeu a sua posição e deu ao presidente-candidato um ás para jogar na próxima puxada: este pode assim alegar que é coerente, que defende o seu treinador, chamando-o para o seu regaço mesmo num momento como este, que é de dificuldades. A questão é que Bruno de Carvalho estava, neste caso, numa situação “win-win”: a alternativa deixava-o com razão para romper a aliança quando quisesse (e ainda há vários jogos até às eleições, onde, assumindo o pior cenário, isso podia dar-lhe jeito). Já Pedro Madeira Rodrigues, pelo contrário, ficou numa situação “loose-loose”. E só porque se precipitara ao anunciar, logo na apresentação da sua candidatura, em Dezembro, que contava com Jorge Jesus. “É o nosso treinador”, dissera na altura, apenas para agora se ver forçado a dizer que não contará com ele caso ganhe as eleições. Face à integração de Jesus na Comissão de Honra de Bruno de Carvalho, podia Madeira Rodrigues fazer outra coisa? Creio que não. Mas a ideia que passa é a de uma estratégia de cata-vento ou pelo menos a de alguém que não equacionou todas as variáveis possíveis antes de anunciar uma medida programática como é sempre a da escolha do treinador da equipa de futebol. Mas isto, afinal, é só política.
2017-01-22
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