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Há mais do que uma diferença gritante entre os processos de afirmação de Oblak e Ederson no Benfica e aquilo que vive neste momento o jovem Svilar. Já se falou muito na experiência que os dois primeiros conseguiram acumular na UD Leiria e no Rio Ave, da mesma forma que é evidente a diferença de idades, mas uma coisa tem passado mais despercebida: a expectativa. Os adeptos olharam para Oblak e Ederson com desconfiança, não esperavam que fosse eles a resolver os problemas do clube e limitavam-se a ter fé de que não os criassem. Com Svilar é diferente: gerou-se à volta do jovem belga uma aura de prodígio, na qual até José Mourinho colaborou, que faz tudo menos facilitar-lhe o processo de integração e que aproxima o Benfica da abordagem que durante anos o Sporting teve para os seus jovens formandos, de um endeusamento prematuro que não é bom conselheiro. Lembro-me bem da chegada de Ederson à equipa principal do Benfica. A ocasião era o dérbi com o Sporting, em Alvalade, por sinal decisivo para a definição do título de campeão de 2015/16. Júlio César teve o primeiro dos seus achaques físicos no clube e Rui Vitória foi forçado a apostar no jovem brasileiro. Não haveria muitos benfiquistas a achar que era por ali que o Benfica ia ganhar o campeonato – ao invés, a maioria esperaria apenas que o miúdo não comprometesse, como acabou por não comprometer. Svilar já chegou à Luz como Deus das balizas, apesar dos seus 18 anos. É o guarda-redes que até o Manchester United queria mas não pôde ter, dizem agora os meios “bem informados”. Só que tem 18 anos e comete erros próprios de quem não acumulou ainda horas suficientes de baliza para saber automaticamente o que tem de fazer em cada situação. Depois, se foi humilde a pedir desculpa a quem estava na bancada – já li textos emocionados a esse respeito que me pareceram altamente desproporcionados –, se vai aprender com os erros e se Mourinho terá mesmo de pegar na mala cheia de dinheiro que anunciou que ele vai valer para vir buscá-lo, isso só o futuro o dirá. Não me escandaliza que Rui Vitória tenha agora com Svilar um comportamento diferente do que teve com Bruno Varela. Uma equipa de futebol não é uma repartição de finanças, em que toda a gente tem direito ao mesmo tratamento. Se Varela errou e foi afastado e agora Svilar errou e vai manter o lugar, isso quer dizer apenas uma coisa: que o treinador tem em Svilar uma crença, uma fé, que não tinha em Varela. E é ele quem tem de decidir, porque é também ele quem coloca o emprego em risco a cada decisão. O que já não é benéfico é que o próprio Benfica queira justificar esta decisão – normal, repito – através da criação de uma realidade alternativa que tem o seu quê de forçada. Svilar não é o Yashin dos tempos modernos. Ainda não é, pelo menos. E se para justificar a decisão do treinador se tiver de fazer crer ao público de que ele já pede meças a Buffon, há aí um elevado risco de isso vir a contribuir apenas para que ele acabe por não tirar dos erros – normais aos 18 anos, repito – os devidos ensinamentos. Se havia coisa que, nos últimos anos, separava o Benfica do Sporting, por exemplo, era a abordagem que nos dois clubes se fazia ao lançamento de jovens. No Sporting, onde não se ganhou nenhum dos últimos 15 campeonatos, vivem-se entusiasticamente os sucessos de Cristiano Ronaldo ou Nani, como antes se viviam os de Futre ou Figo – e um dia, quem sabe, se o tempo apagar as mágoas, se viverão os de Simão ou Moutinho. Aplaude-se a percentagem de “Aurélios” – nome dado aos formandos de Alcochete, em referência a Aurélio Pereira – na seleção nacional que ganhou o Campeonato da Europa, esquecendo-se que de todos só um (Quaresma) foi campeão no clube. No Benfica, desde que se começou a vencer (o clube ganhou cinco campeonatos nos últimos oito), isso deixou de ser importante – e antes também não o era, porque a verdade é que daquelas escolas não saía nada… Ultimamente, porém, talvez por se sentirem atingidos pelo entusiasmo dos sportinguistas, os benfiquistas começaram a querer bater-se numa área que não é a deles, a endeusar jovens candidatos a prodígios como Renato Sanches, Nelson Semedo, Bernardo Silva, Gonçalo Guedes ou, agora, Svilar, Ruben Dias e Diogo Gonçalves. Não é um bom caminho.
2017-10-22
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Tive a oportunidade de fazer, para o Bancada.pt, a primeira entrevista a Fernando Santos depois de Portugal ter conseguido a qualificação para o Mundial. E o selecionador que me apareceu à frente era um homem não apenas solto, como incrivelmente confiante. É verdade que muito do que Santos disse pode ser entendido como parte de uma estratégia de comunicação, até para dentro do balneário, mas houve uma frase que me fez pensar: “Neste momento, ninguém quer defrontar Portugal”, disse Fernando Santos. E há uma probabilidade elevada de andar muito próxima da realidade, porque, como também me disse o selecionador, “é muito difícil ganhar à seleção portuguesa”. De facto, a seleção nacional, que muitos por cá consideram aborrecida, é monótona sobretudo numa coisa: não perde jogos. Em 29 jogos de competição com Fernando Santos, Portugal venceu 22 – sim, metade foram pela margem mínima, mas também convém perceber que desses 11 ganhos à justa, só um aconteceu na qualificação para este Mundial – empatou seis e perdeu apenas um. Essa derrota, contra a Suíça, pode ter feito disparar os índices de “mau feitio” que o próprio Santos reconhece ter, porque foi concedida no primeiro jogo competitivo após a conquista do Europeu, por uma equipa em alguns pontos demasiado importada em “jogar bonito”, em deixar brilhar a estrela de campeão que cada um dos seus membros levava ao peito. Esse Suíça-Portugal de Basileia teve coisas muito boas e outras que, parecendo más, também podem ter sido muito boas. Teve brilhantismo ofensivo, o que é muito bom, e sobranceria, que também pode ter sido muito boa, se a derrota tiver servido para a erradicar. Já o disse: não creio que Portugal tenha, neste momento, a terceira melhor seleção do Mundo, conforme diz o ranking da FIFA. Chega a parecer estranho que a seleção tenha já garantido um lugar de cabeça-de-série no sorteio do Mundial, ao lado da Rússia (anfitriã), Alemanha, Brasil, Argentina, Bélgica, Polónia e França, e que a Espanha, por exemplo, vá parar ao Pote 2. O próprio Fernando Santos reconhece debilidades na equipa portuguesa e fala de uma forma aberta de algumas delas, as que identificou no centro ou no lado esquerdo da defesa. Olha-se para o lote de jogadores à disposição dos selecionadores da Alemanha, do Brasil, e mesmo da Argentina, da França e da Espanha e não se pode dizer que os portugueses estejam ao mesmo nível. Porque não estão. Mas a verdade é que só jogam onze de cada vez. E em 90 minutos. Ou em 120. E se neste seu percurso competitivo de três anos, a seleção de Fernando Santos só defrontou uma daquelas cinco potências (a França), o que é indesmentível é que lhe ganhou. E ganhou-lhe onde e quando lhe doía mais: no Stade de France, na final do Europeu. Esta seleção de Portugal não é, de facto, uma maravilha de se ver em todos os jogos. Às vezes, também a mim me parece que arrisca pouco: em Andorra, por exemplo, num jogo contra um adversário que não sabia nem queria jogar e se limitava a acantonar-se à frente da área para aproveitar as dificuldades que o sintético provocava aos portugueses, manteve muitas vezes seis jogadores atrás da linha da bola e fora do bloco opositor. Contra a Suíça, mesmo com algumas exibições brilhantes (William, Bernardo, João Mário, a mostrarem que há Portugal para lá de Ronaldo…), nunca se deixou inebriar pelo barulho das luzes e preferiu sempre exercer o controlo a ir à procura do elogio. Terá aprendido a lição de Basileia. A questão é que Portugal acabou por ganhar os dois jogos e não foi pela margem mínima com que ganhava na qualificação do Europeu. E em ambos se viu que a ligação entre as ideias do selecionador e os jogadores está ativa. Porque a razão por trás do controlo do jogo contra a Suíça é a mesma que explica a incapacidade ofensiva no jogo de Andorra. É a urgência de ter segurança. O receio de falhar, de expor a equipa. Após a entrevista, enquanto fumava um cigarro, Fernando Santos perguntava-me: “Mas isto agora mudou? Já não é importante uma equipa ser compacta? Ser segura?” Era uma pergunta retórica. E é tão claro que é importante como é claro que não mudou. Mas também não mudou a insatisfação dos analistas e dos adeptos. Porque se tivéssemos uma equipa a jogar bonito e a perder jogos, a questão iria colocar-se ao contrário. Lembrei-me do que me disse Carlos Queiroz há uns dois meses, a propósito das alterações que fez na seleção depois de um dos melhores jogos que vi fazer a uma seleção nacional ter redundado numa derrota, contra a Dinamarca, em Alvalade (2-3). Passou a privilegiar a segurança, a equipa deixou de sofrer golos, e ainda chegou ao Mundial. Na África do Sul, é verdade, as coisas não correram bem. Mas aquele Portugal não tinha nem a profundidade de escolhas que tem este nem um Cristiano Ronaldo maduro e capaz de aceitar que pode ter na equipa um papel mais importante que o de marcar golos: o de capitão de equipa.
2017-10-15
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Comentei ontem o Andorra-Portugal, para a RTP1, sentado num andaime colocado junto à linha lateral, ligeiramente acima do banco de Portugal. Não o escrevo para me queixar. Os jogadores portugueses jogaram num relvado sintético de primeira geração, que dificulta o jogo mais técnico a que estão habituados e pode ser mais propenso a lesões de impacto. E é assim que tem de ser, porque a alternativa era Andorra receber os adversários nesta fase de qualificação fora do país, num ambiente asséptico e normalizado, mas que não seria o deles. Essa opção era melhor para os interesses de Portugal, que nestas coisas da UEFA é um dos grandes, mas pior para o Mundial, que pode gabar-se precisamente de ser a forma de levar a todo o Mundo a mensagem do futebol. Um pouco como a Taça de Portugal dentro das nossas fronteiras. Não domino questões de segurança e sei bem que um Andorra-Portugal não envolve tantas preocupações a este nível como um Oleiros-Sporting, um Olhanense-Benfica ou um Lusitano de Évora-FC Porto. A razão é simples e tem a ver com as claques que acompanham as equipas dos nossos grandes e que, pelo menos nas fases de qualificação, não estão associadas a jogos de seleção a contar para o Mundial. Não vou, por isso, contestar a parte mais securitária por trás da mudança de local dos jogos da Taça de Portugal. Mas há mais razões. E em relação a estas, todas facilmente rebatíveis (da televisão à relva), parece-me seguro dizer, ao menos, que a letra e o espírito da lei se contradizem no futebol português. Porque se por um lado se condiciona o sorteio desta eliminatória da Taça de Portugal para garantir que os clubes vindos da I Divisão têm de jogar fora, por outro deixa-se os mais pequenos vulneráveis aos interesses dos grandes, de forma a que acabem por trocar os locais de realização dos jogos. O que fica assim em causa é a “festa da Taça”. Já pensou por que razão se ouve esta expressão há décadas? É por isso mesmo: porque ao pôr frente a frente equipas de divisões diferentes, a Taça de Portugal democratiza o futebol e leva o jogo de mais alto nível aos quatro cantos do país. Isso tem de ser preservado. E é isso que fica ameaçado quando se autorizam estas alterações de local ao abrigo de questões como a facilidade da realização televisiva ou o mau estado de alguns relvados. Porque há muito mais dinheiro envolvido em direitos de TV no Andorra-Portugal de ontem e nem por isso ele deixou de ser disputado num estádio que dificilmente teria condições para albergar um jogo da Taça de Portugal. Sem ter espaço para um ângulo favorável às câmeras, sem espaço para os jornalistas, num relvado que já não se usa, ainda que em Andorra até faça sentido – o facto de haver neve durante metade do ano impede que nesta pequena cidade dos Pirenéus cresça e possa manter-se um relvado natural em condições para que se jogue. Menos sentido faz que em Portugal as equipas andem a optar cada vez mais pelos sintéticos só porque os relvados naturais são mais caros de manter, e que depois se ouçam os clubes de I Divisão a queixar-se porque têm de ir lá jogar. Porque ou os relvados são bons e admissíveis ou não são e devem ser proibidos num país com tantos dias de sol e, à exceção de alguns locais, sem neve, como é o nosso. Nem que para isso tenha de se legislar, como se fez quando foram proibidos os pelados em todos os campeonatos nacionais. É verdade que Portugal até foi um dos últimos redutos dos campos pelados e que isso não era bom para o futebol. Nem para os futebolistas – como agora parece consensual que não são os relvados sintéticos. Muito do encanto deste desporto, no entanto, vai-se fazendo das memórias que guardamos todos e muitas dessas memórias têm a ver com aquela tarde em que um craque de seleção foi ao campo da nossa terra e esteve ali ao pé de nós, depois de disputar uma bola com o Joaquim do talho ou ou João da farmácia. Se isso lhe põe em risco a integridade física, então não deve jogar lá ele nem os amadores das divisões secundárias. Porque o Joaquim do talho e o João da farmácia também são gente e merecem o mesmo respeito. No fundo, os jogos mudam de local porque a polícia acha que não consegue controlar as claques dos grandes em estádios mais mal equipados – e nesse aspeto os grandes até beneficiam das suas próprias más condutas, pois acabam a jogar em campo neutro em vez de enfrentarem as dificuldades de uma saída ao campo do adversário. E mudam porque dá mais receita jogar noutros locais do que nos campos de província. Bom era que os clubes pequenos canalizassem essa receita adicional para a manutenção de bons relvados e a edificação de infraestruturas que lhes permitam em breve dar uma alegria às suas populações. Ou isso ou que se mude este regulamento e, sem hipocrisias, tal como na Taça da Liga, se metam os grandes a jogar sempre em casa.
2017-10-08
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Jorge Jesus criou uma moda em Portugal, nos últimos anos. Foi a moda dos dois avançados. O sucesso desportivo do treinador no Benfica, invariavelmente com dois pontas-de-lança, levou um país globalmente convertido ao 4x3x3 a mudar e a adaptar-se às novas tendências. Não foi preciso muito tempo para se verem mais equipas a regressar ao 4x4x2. Foi assim que Sérgio Conceição, que até foi jogador de Jesus e tem com ele uma excelente relação, encarou o trabalho mais mediático da sua carreira como treinador: à chegada ao FC Porto, meteu gente na frente e essa foi uma das grandes mudanças do seu futebol relativamente ao mais conservador Nuno Espírito Santo. E no entanto, ambos se preparam para jogar o primeiro clássico da época com apenas um atacante de referência. As razões para a alteração são múltiplas e creio que serão diferentes. No Sporting, a decisão será mais imposta pelo plantel ao treinador e tem a ver com a existência de um jogador como Bruno Fernandes, dificilmente compatível com o 4x4x2 em desafios de maior exigência. No FC Porto é ao contrário: é mais o treinador a impor ao plantel a vontade de conseguir mais algum controlo para temperar a vertigem que, desregulada, pode redundar em desastres de comboio como o verificado em casa contra o Besiktas. Todos concordaremos que as melhores exibições tanto de Sporting como do FC Porto esta época foram conseguidas em 4x2x3x1: os leões em Guimarães, em Bucareste ou em Atenas (enquanto estiveram acordados); os dragões no Mónaco, onde a equipa já mostrou mais alguma capacidade de ser contundente do que em Vila do Conde, por exemplo – também porque, por mais estranho que possa parecer, o AS Mónaco foi menos competitivo do que o Rio Ave. E o segredo aqui passa por ser capaz de manejar os dois sistemas e de escolher entre eles, consoante os jogos. Os dissabores que Sporting e FC Porto conheceram esta época tiveram, regra geral, a ver com isso. Descontemos aqui o Sporting-FC Barcelona, onde o normal era os leões perderem e as opções táticas de Jesus até ajudaram a diminuir o fosso, com a articulação Battaglia-Mathieu a fechar as vias de abastecimento a Messi. De resto, de que se queixam Sporting e FC Porto? O Sporting do empate em Moreira de Cónegos, onde entrou com um meio-campo demasiado macio – William e Bruno Fernandes – e com dois avançados – Alan Ruiz e Bas Dost. Estes até lhe garantiam qualidade na frente, mas isso tornou-se irrelevante, por estarem inseridos numa equipa que passava demasiado tempo em outras áreas, onde o adversário era sempre mais vigoroso nos duelos. Jesus corrigiu, mas o facto de estar em desvantagem não lhe permitiu fazer o que se impunha, pelo que acabou por montar um meio-campo mais combativo, mas com menos ideias, porque lhe faltava a capacidade de Bruno Fernandes para ligar o jogo e, estranhamente – talvez já a pensar em agilizar processos para o desafio com o FC Barcelona –com Battaglia atrás de William, roubando à equipa a qualidade que este lhe confere no início da construção. O FC Porto queixar-se-á da derrota em casa com o Besiktas, onde Sérgio Conceição também entrou com Danilo e Óliver Torres a enfrentarem o meio-campo a três da equipa turca, mas com dois extremos – Corona e Brahimi – e dois pontas-de-lança – Marega e Soares, face à ausência de Aboubakar. A quipá tinha mais gente na frente, corrigindo a timidez de 2016/17, mas também não tinha bola para a fazer contar, o que terá levado Sérgio Conceição a corrigir aquilo que antes dissera publicamente ser irrelevante. No Mónaco já apareceu Sérgio Oliveira a dar algum amparo a Danilo, permitindo que Herrera se convertesse em unidade de pressão junto ao avançado, com Marega a rasgar na direita e Brahimi a criar da esquerda para o meio. E o que se viu – o próprio treinador o reconheceu depois, quando disse que a partir dos 20’ percebeu que dificilmente deixaria de ganhar o jogo – foi um FC Porto a controlar todo o jogo e todo o campo, à espera apenas da ocasião em que o contra-ataque prometido entraria e levaria ao golo que relançaria a partida. Acho há muito tempo que o 4x2x3x1 é o esquema mais inútil do futebol, porque na maior parte das vezes pode conduzir a vários vícios e defeitos: anula os defesas-centrais na construção, porque tem ali dois médios para sair com a bola, quase que a marcarem-se um ao outro; tira às equipas a capacidade de meter gente na área, porque se as equipas usam um “10” é para ele aparecer entre-linhas do adversário e isso muitas vezes inibe-o de surgir a engrossar os números na zona de finalização. No Sporting-FC Porto de hoje, no entanto, a chave do jogo vai estar no terceiro médio. Porque antes de mais nada, as duas equipas quererão ter mais controlo e menos vertigem. E isso é sinal de evolução.
2017-10-01
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O futebol português vive numa conjuntura em que, independentemente de onde esteja o poder de direito, o importante é entender onde está o poder de facto e fazê-lo funcionar, doa a quem doer. Há já alguns meses que venho escrevendo e dizendo a quem está, por exemplo, na Federação Portuguesa de Futebol, que só da Cidade do Futebol podia vir uma ação contundente para acabar com a podridão que está a gangrenar todo o futebol nacional. Sempre me respondiam que não podia ser, porque o poder de direito é da Liga e só a Liga podia meter-se no caso. Só que a Liga está fraca, a entrada de Pedro Proença não a revitalizou suficientemente e o poder de facto está noutro lado. Portugal foi campeão europeu e, inevitavelmente, a liderança da FPF recolheu daí muitos benefícios em termos de imagem pública. Independentemente disso – mas também por isso –, Fernando Gomes acaba de ser nomeado para substituir Angel Maria Villar na Comissão Executiva da FIFA, sendo neste momento evidente que é, em termos internacionais, o mais poderoso dirigente da história do futebol nacional. Mais do que Antero da Silva Resende, cuja presença nos principais areópagos internacionais era vista como uma vitória para o Portugal dos Pequenitos mas significava pouco. Mais do que João Rodrigues, a cuja presença significativa nos corredores das mais altas instâncias faltava o correspondente reconhecimento público. Além disso, mesmo antes do Europeu de 2016, Tiago Craveiro já era um dos homens mais tidos em conta, quer pela liderança da FIFA quer pela liderança da UEFA. O primeiro abraço de Gianni Infantino depois de ter sido eleito presidente da FIFA foi dado a Onofre Costa, o homem que muita gente em Portugal julga que se limita a sentar-se ao lado de Fernando Santos nas conferências de imprensa e a escolher os jornalistas que têm o direito de fazer perguntas, mas cuja importância transcende em muito esses momentos – por alguma razão era ele quem estava ao lado direito de Infantino na plateia. O verdadeiro poder para influenciar as coisas no futebol português está na Federação Portuguesa de Futebol e não na Liga, até pelo simples facto de não ser a FPF quem mais se envolve diretamente nos assuntos acerca dos quais os clubes mais discutem. Quando foi preciso instituir o vídeo-árbitro foi a FPF quem avançou. A Liga, além de estar a recuperar de um estado de pré-falência, nunca conseguirá – ou pelo menos não o conseguirá nos tempos mais próximos – pairar acima de qualquer suspeita para clubes cuja atividade vive precisamente da criação dessa mesma suspeita. Por isso, sim, embora não tivesse a obrigação de o fazer, só a Federação Portuguesa de Futebol e o seu presidente podiam encabeçar a tentativa de pacificação iniciada com o texto assinado esta semana por Fernando Gomes. Só mesmo o presidente da FPF podia escrever o que escreveu e recolher aplausos de todo o lado – tivesse sido Pedro Proença a fazê-lo e imediatamente choveriam acusações de favorecimento à esquerda e à direita, que é como quem diz a um e a outro dos grandes. E, no entanto… E, no entanto, ainda que toda a gente tenha concordado e aplaudido as palavras de Fernando Gomes, os principais clubes fizeram delas chão raso quando se tratou de as comentar, todos a apontar o dedo uns aos outros, como se as culpas do que se passa fosse apenas e só dos rivais. É por isso que digo que Fernando Gomes deu o pontapé de saída, exercendo aquilo que pode exercer, que é um magistério de influência para tentar colocar as coisas nos eixos, mas que vai ser preciso haver mais gente a fazer mais. Se o que se quer é acabar com o corrente estado de podridão – e não se julgue que isso vai acabar de um dia para o outro, porque foram anos e anos a espalhar ódio, que já se entranhou nas mais diversas camadas da sociedade e leva o comum adepto a ser mais ativo quando se trata de menorizar as conquistas dos adversários do que quando pode festejar as vitórias dos seus – é preciso fazer mais. E o mais, já o disse e escrevi, não passa por enquadrar disciplinarmente os ilícitos, porque isso haverá sempre forma de contornar, seja através de meros adeptos famosos cujo discurso não é imputável aos clubes, seja através de simples funcionários. O mais que é preciso fazer passa por ocupar o espaço mediático. Passa por, como se faz nas Ligas que deviam ser modelo para nós, forçar os clubes a permitirem que os verdadeiros protagonistas – jogadores, treinadores – apareçam nas TVs, nas rádios, nos jornais ou nos sites de informação, com simples declarações ou em entrevistas. E aqui, sim, tem de ser a Liga a chegar-se à frente e a perceber que, por muito que queira manter este equilíbrio precário em que o futebol se está a afundar, não pode manter mais o alibi segundo o qual só faz aquilo que os clubes querem. Os clubes não podem querer a auto-destruição do futebol português. Não têm nada a ganhar com isso.
2017-09-24
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O futebol é um jogo ou é um negócio? Aparentemente nem uma coisa nem a outra – é o ópio do povo. É o que se conclui da bizarra decisão de atrasar o pontapé de saída do Sporting-FC Porto, passando-o para as 19h15 do dia das próximas eleições autárquicas, de forma a que não atrapalhe o normal curso dos procedimentos democráticos. Se fosse um jogo, poderia jogar-se, como todos os que decorrerão nesse domingo. Se fosse um negócio, poderia defender-se, como todos os negócios que estarão de portas abertas nesse domingo. Chato mesmo é ser o ópio do povo, a encarnação de todos os males. A potencial abstenção dos eleitores portugueses não tem, afinal, a ver com o aumento do grau de desilusão que vão tendo nalguns políticos que elegem ou do sentimento de impotência para travar o que sentem estar mal. Não tem sequer a ver com a quantidade de programas de TV idiotas que lhes enchem a grelha do cabo e das generalistas ou com o facto de poderem passar os domingos de eleições a vegetar dentro de centros comerciais, que a cada ano esticam mais os horários de abertura e de fecho – quando em muitos países onde se fazem coisas parvas, como jogar futebol em dia de eleições, esses mesmos centros comerciais fecham ao domingo para permitir o convívio das famílias. Não. A abstenção dos eleitores portugueses tem a ver com os jogos de futebol. Por isso, no próximo dia 1 de Outubro, poderemos todos ir ao cinema, ao teatro, à praia, ver espetáculos de música, fazer piqueniques no campo… Poderemos até passar o dia a ver montras nos centros comerciais, mas estamos protegidos desse mal maior que é a possibilidade de ir ao futebol enquanto as urnas estão abertas. Quem teve esta ideia peregrina demonstra muita coisa, mas não um conhecimento acertado da realidade. É que apesar das tentativas recentes de recuperação do setor, que sim, é um negócio e não está a ser nada ajudado com decisões como esta, o futebol, para os portugueses, deixou há muito de ser uma atividade predominantemente de estádio. É uma atividade de sofá. Há mais gente a ir aos estádios, mas o que as pessoas querem por estes dias não é ver um remate do Aboubakar, um drible do Gelson ou um passe a rasgar do Pizzi. O que querem é saber o que dizem na televisão desses feitos – daí o sucesso de programas que mais não apresentam do que imagens em loop dos treinadores a percorrer a linha lateral e a reação de adeptos “famosos” ao que se vai passando no campo. É giro, não tem de se perceber e sempre mete uns palavrões e uns insultos de vez em quando. Portanto, meus senhores, é melhor proibir também nesse dia os programas sobre futebol – mas podem deixar os reality shows, as novelas, as sessões de cinema e os desenhos animados, que isso, quem os vê não deve votar. Aceito até que aleguem que não é só isso. Que a malta em Portugal anda mais entretida com essa conversa tóxica, com as entrevistas dos diretores de comunicação, os mails, o vídeo-árbitro ou as listas dos corruptos por comprovar do que a ver futebol a sério porque o futebol por cá não é assim tão interessante. Pois bem, eis a má notícia. Nesse dia 1 de Outubro, há um Real Sociedad-Betis às 11h, um Nápoles-Cagliari às 11h30,  Arsenal-Brighton ao meio-dia, um Hertha-Bayern às 14h30, um FC Barcelona-Las Palmas às 15h15, um Newcastle-Liverpool às 16h30, um FC Colónia-RB Leipzig e um Milan-Roma às 17h e por fim um Atalanta-Juventus e um Real Madrid-Espanyol às 19h45. Podem fazer uma de três coisas. Convencer os eleitores a irem votar pela fresquinha, esperar que o Barça e o Bayern resolvam os jogos depressa para se dar um salto à mesa de voto – pode ser que não haja muita fila e dê para votar antes de começar o Liverpool… – ou impor à Sport TV a transmissão dos jogos em diferido. E bloquear os streamings todos, para que quem prefere ver as coisas de forma, digamos, menos legal, também não se sinta tentado a abster-se. O problema é que a política já passou há muitos anos pelo caminho de descredibilização que o futebol está a passar agora. Provavelmente tem a ver com a sociedade. Cresci a ouvir um pouco por todo o lado acerca dos políticos o que se ouve hoje da malta do futebol – e não eram coisas simpáticas. O segredo, acreditem, não passa por proibir. Ninguém deixa de ir votar por causa de um jogo de futebol às 18 horas. A submissão de uma atividade económica tão importante como o futebol – sim, podem rir-se à vontade, mas quando acabarem vão ver os números – a um capricho é que não indicia nada de bom. Nem acerca dos homens do futebol nem dos políticos que acham que estão a fazer uma coisa boa.
2017-09-17
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Feirense e Portimonense portaram-se muito bem nos jogos com Sporting e Benfica, a contar para a quinta jornada da Liga (escrevo ainda antes do FC Porto-Chaves) e essa circunstância foi e voltará a ser aproveitada para ridicularizar os que apontam o dedo à desigualdade na distribuição da receita para falar de perda de competitividade do futebol em Portugal. Na verdade, quem o faz está a ser tão ou mais demagogo do que foi Manuel Machado quando levantou a lebre, depois de ter visto o seu Moreirense ser atropelado pelo FC Porto. Porque aqui há dois planos de realidade: a distribuição da receita devia ser mais justa, mas dentro das injustiças há quem trabalhe melhor e quem trabalhe pior. Imaginemos uma família que faz das tripas coração e consegue viver com o salário mínimo. E outra que, nas mesmas condições chega sempre a meio do mês com as contas a vermelho. O facto de existir a primeira não quer dizer que o salário mínimo seja suficiente ou que a sociedade não deva preocupar-se com as desigualdades que a assolam: significa apenas que há gente que consegue fazer mais com menos. E tanto Nuno Manta como Vítor Oliveira – ou Miguel Cardoso, que protagonizou com o Rio Ave um arranque extraordinário da Liga – são treinadores capazes de fazer muito com pouco. E parte da justificação nem está exclusivamente neles: tem a ver com a qualidade dos grupos de trabalho que lhes puseram à disposição, com uma boa escolha de jogadores, mesmo sem salários muito elevados. Depois, há as questões que têm exclusivamente a ver com os treinadores. Primeiro, as táticas ou estratégicas: o Feirense e o Rio Ave são das poucas equipas do campeonato que jogam olhos nos olhos com os grandes, que tentam sair em construção segura e que vão lá acima à procura da bola quando a não têm, ao passo que o Portimonense sabe ter a bola e jogar com as zonas em que o adversário se sente mais desconfortável. É a velha máxima: joga como os grandes se queres ser como eles. Depois, por questões de liderança: Manta é o irmão mais velho que leva a família toda atrás, Vítor Oliveira o pai em que todos no balneário acreditam e Cardoso uma espécie de jovem professor que transpira ciência e causa admiração. A liderança de Machado é mais antiga, professoral até no discurso, resulta pior, mas isso não quer dizer que ele não tenha razão na crítica que fez. Aliás, um dos problemas do futebol é não haver um sistema funcional de vasos comunicantes que permita a filtragem das reflexões e a sua chegada a quem decide já prontas a serem digeridas. E aqui, lamento, mas não me interessam as “reflexões” – assim mesmo, com aspas – que os grandes vão fazendo sore arbitragem, vídeo-arbitragem ou disciplina, porque essas têm sempre o mesmo intuito, que é tirar aos pobres para dar aos ricos. Não falo de quem só acha que o vídeo-árbitro é uma boa ideia quando ele decide de acordo com as suas conveniências, porque não só é uma boa ideia como é uma ideia fulcral. Falo, por exemplo, das críticas que o presidente do Marítimo, Carlos Pereira, fez esta semana ao modelo de organização da Taça da Liga, que é montado de forma a favorecer a chegada dos grandes à “final four”. Tem razão. E ele sabe que isso acontece porque ter os grandes na “final four” aumenta exponencialmente o interesse popular na competição e, claro, a receita. O que não se lhe ouviu – pelo menos em público – foi uma alternativa que faça da Taça da Liga uma prova mais justa sem perda de receita. Começá-la, por exemplo, logo pela fase de grupos, invertendo a ordem de benefício do fator-casa que atualmente favorece os grandes. Levar os grandes aos campos da província em fase inicial da época, quando há mais fome de bola e emigrantes em Portugal, por exemplo. Fazer mais jogos quando as equipas querem jogar e não lhes sobrecarregar Janeiro, num convite descarado a que joguem com os suplentes e aconteça o que aconteceu no ano passado: apesar de todas as tentativas de os beneficiar no modelo da competição, dos grandes só o Benfica esteve na “final four”. E houve apenas 6703 espectadores na final, entre SC Braga e Moreirense. Falo, por exemplo, das queixas de Jorge Jesus acerca do estado pouco alerta de alguns dos seus jogadores que chegaram a Portugal pouco mais de 24 horas antes do jogo com o Feirense, vindos do outro lado do Mundo. “Deixe-me dormir primeiro, que depois logo lhe digo”, terá respondido Coates ao treinador, quando este lhe perguntou se ele estava em condições de jogar. E esta questão, dos calendários, já tem merecido debates sucessivos nos fóruns de treinadores que os organismos internacionais vão organizando, mas nada evoluiu e nunca se ouviram sequer propostas para melhorar as coisas, por exemplo juntando mais datas de seleções para minimizar o efeito das viagens transatlânticas e usando os milhões que o Mundial de futebol gera para ressarcir os clubes da ausência mais prolongada dos seus jogadores e da falta de receita por interrupção das competições. Pelo contrário, o que se fez foi no sentido inverso: espalharam-se os dias em que se joga sem que se façam mais jogos, mas só para haver menos concorrência entre jogos na TV, aproximando as chegadas dos jogadores aos clubes das datas em que têm de voltar a competir. Esta incapacidade de o futebol levar o pensamento basista às cúpulas está na génese da maior parte dos problemas que o jogo tem de enfrentar. Mas em vez de se trabalhar nesse sentido, o que mais se vê é a tentativa de o menorizar com argumentos que têm sempre o mesmo intuito. O de manter tudo na mesma.
2017-09-10
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O encerramento do mercado veio contribuir um pouco mais para a sensação de equilíbrio que os três candidatos ao título vinham fazendo adivinhar na Liga de 2017/18. O Benfica pode já ter resolvido a sucessão de Nelson Semedo, mas deixa dúvidas na baliza e no centro da defesa, pelo que não é seguro que não surja mais fraco do que há um ano. O FC Porto confirmou que vai encarar o campeonato sobretudo com a força que lhe confere uma boa ideia de jogo, a que lhe trouxe Sérgio Conceição, mas fica também a sensação de que o plantel pode ser curto para tanta exigência. E o Sporting, que está mais forte em termos individuais, é também, dos três, quem tem pela frente o mais intrincado puzzle tático e de gestão de balneário, fruto de ter sido quem mais revolucionou o grupo de jogadores. O desafio do pentacampeonato, no Benfica, pode ser tão dificultado pelos jogadores como pela depauperação do plantel trazida pelo mercado. Rui Vitória ficou sem Ederson, Nelson Semedo e Lindelof, tendo-os substituído por Varela/Svilar, Douglas e pela reascensão de Jardel, o que lhe provoca problemas tanto defensivos como ofensivos. Enquanto se espera para ver quem vai emergir da luta a três como titular da baliza, parece claro que, pelo menos no imediato, nenhuma das opções apresenta a qualidade de Ederson, tanto entre os postes como a sair deles ou até na forma de relançar o ataque. Jardel deixa dúvidas em termos físicos, mas também na qualidade da saída de bola, enquanto que Douglas terá de recuperar a forma brasileira para dar à equipa a saída que ela tinha pela direita com Semedo. Na frente, o Benfica parece mais forte, à partida porque volta a ter Jonas, depois porque tendo perdido Mitroglou ganhou Seferovic e finalmente porque tem em Gabriel um jogador capaz de lhe dar alternativas: pode ser retaguarda de Jonas ou até formar um ataque móvel com ele. Aí, se há crise, ela é de abundância, porque além dos três ainda há Jiménez. Sociedades como as já existentes, de Pizzi com Salvio, deste com Jonas, dos três com Seferovic, serão fundamentais no ataque ao penta, cujo sucesso dependerá muito da capacidade da equipa libertar o seu principal pensador – Pizzi – e manter o jogo sempre o mais perto da baliza adversária possível. No último terço, este pode ser um Benfica temível, pela capacidade que tem de imprimir mudanças de velocidade com a bola. O problema é que até para meter velocidade é preciso espaço. E já se viu como o Rio Ave foi capaz de lhe roubar o espaço. Também de tração à frente é o FC Porto de Sérgio Conceição, equipa que mudou poucos jogadores – limitou-se a recuperar emprestados, como Aboubakar, Marega ou Ricardo – mas alterou de forma radical a maneira como encara o jogo. Este FC Porto constrói de outra maneira, joga muito mais à frente, libertando Óliver Torres para tarefas de criação e depois metendo sempre muita gente na zona de definição. A primeira mudança assegura uma qualidade no jogo logo desde trás – e até aqui só o Tondela conseguiu secar Óliver, impedindo-o de ser o patrão de que o FC Porto necessitava. A segunda garante várias alternativas de finalização quando a bola lá chega e reflete-se numa mudança como da noite para o dia na produção goleadora. Se há algo que pode custar caro a este FC Porto é a falta de alternativas para algumas posições – se muda Óliver por André André, por exemplo, torna-se uma equipa mais de transição, ainda que com mais chegada ainda à área; se perde um dos avançados, torna-se difícil manter este 4x4x2, porque lhe falta um suplente à altura – e até por isso parece incompreensível que Rui Pedro tenha sido emprestado ao Boavista. Já o Sporting parece ter sido quem mais se reforçou, com gente de muita qualidade, como Coentrão, Mathieu, Acuña ou Bruno Fernandes. Já para não falar de Battaglia, a coqueluche de Jorge Jesus, que pode agora ver tudo mudar com a permanência de William Carvalho. Tudo indica que o plantel dos leões foi construído a pensar que iam sair William e Adrien, mas afinal o primeiro ficou e o segundo ainda espera autorização da FIFA para seguir para o Leicester. Dirão os otimistas: mas isso é excelente. É e não é. É como alguém comprar uma casa a pensar que vai vender aquela em que vive e depois acabar por ter de ficar com as duas. O overbooking no meio-campo leonino não tem de ter apenas consequências financeiras ou de gestão de egos no balneário: apresenta um desafio-extra ao treinador, até do ponto de vista tático. E se as coisas já iam exigir uma mudança radical no futebol de Jesus – com Bruno Fernandes a alternar entre ser um 8 mais ofensivo do que Adrien, logo a precisar de um 6 mais defensivo do que William, e um 10 menos presente na área do que Alan Ruiz ou Podence, logo a exigir mais movimentos interiores dos extremos – agora é que o puzzle fica mesmo complicado de resolver. Poderá o Sporting jogar com William e Battaglia, sem perder qualidade na aproximação à área? Poderá jogar com William e Bruno Fernandes sem perder agressividade na transição defensiva? Poderá jogar com os três, sem perder presença na área? Se conseguir resolver a equação, Jesus pode ter nas mãos o plantel mais forte desde que chegou a Alvalade – mais forte até do que o de 2015/16. Se não conseguir, estará perante a maior oportunidade falhada desde que passou a vestir de verde-e-branco.
2017-09-03
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Último Passe

Há, em cada decisão dos treinadores, muitas motivações. Umas são de caráter técnico, outras de caráter físico, outras de índole tática e outras ainda obedecem a questões estratégicas. Estas são as mais difíceis de tomar e de compreender – sim, estratégia e tática são coisas muito diferentes. Podem, mesmo, ser mal entendidas pelos próprios jogadores e até pelos adversários, mas são também as que criam condições para produzir mais resultados. É por aqui que se explica a aposta de Jorge Jesus em Doumbia em vez de Bas Dost no jogo de Bucareste, em que o Sporting conseguiu o bilhete de entrada na Liga dos Campeões. E é um pouco por aqui que pode explicar-se a mudança de paradigma na cabeça do treinador do Sporting. Numa coisa, Jesus não mudou. Continua a ser dos treinadores portugueses que mais venera a estratégia particular para cada jogo – e foi por isso que no sábado passado, no programa noturno da RTP3, avancei com a possibilidade da troca de Bas Dost por Doumbia no jogo de Bucareste. A mudança fazia sentido por muitas razões. Primeiro, físicas: nas palavras do treinador, Dost “acabou morto” o jogo de Guimarães. Depois técnicas e táticas: Doumbia é também um goleador, um ponta-de-lança com faro de golo e bom posicionamento na área, com um primeiro toque e uma velocidade de reação que lhe têm permitido lutar pelos títulos de melhor marcador nos países por onde tem passado. Mas fundamentalmente estratégicas: o Steaua estava a jogar em casa, quereria aproveitar esse fator e superiorizar-se ao Sporting, ia subir o bloco e deixar espaço nas costas, pelo que convinha aos leões ter alguém capaz de explorar a profundidade, com rapidez na posse e velocidade na desmarcação. O perigo da decisão foi bem explorado nos muitos comentários que fui ouvindo entre o anúncio dos onzes e o jogo propriamente dito. O que vai pensar a equipa? O facto de o treinador retirar da equação o melhor marcador da época anterior pode ser visto como sinal de medo, pelos próprios jogadores ou até mesmo pelos adversários, que dessa forma poderiam entrar mais moralizados? Não acreditei nisso, sobretudo porque a decisão fazia sentido do ponto de vista tático, pois não representava uma alteração de sistema. E atenção que Jesus sempre acreditou que tudo no futebol parte do sistema e não do modelo de jogo, como sustenta a nova escola de treinadores e provaram o FC Barcelona ou o Bayern de Pep Guardiola ou a Espanha de Vicente Del Bosque. É verdade que o apuramento dos leões foi natural, porque são muito melhor equipa do que este Steaua, tanto do ponto de vista individual como coletivo – e se houve aqui erro de apreciação foi o do próprio Jesus, quando no final da primeira mão afirmou que estavam frente a frente duas equipas do mesmo nível. Não estavam. Ainda assim, mais até do que o apuramento natural, foi a goleada que permitiu colocar as luzes da ribalta em cima da componente estratégica. E a verdade é que em Guimarães e em Bucareste a estratégia passou o teste. Mas, apesar das duas goleadas seguidas, não creio que Jesus tenha já resolvido o puzzle que o plantel desta época lhe apresenta. Porque a entrada no onze de Bruno Fernandes, que foi decisivo nos dois últimos jogos, criará outro problema em partidas como a que se segue já amanhã, em casa com o Estoril, por exemplo. Com Bruno Fernandes a segundo avançado/terceiro médio, o Sporting voltou a ter jogo interior dentro do bloco adversário – e a isso também não é estranha a subida de rendimento de Adrien. Só que a alteração tem outra implicação, que é a diminuição da presença na área: o sistema, de onde partem sempre as ideias de Jesus, até pode ser o mesmo, mas a sua interpretação difere se lá estiver Bruno Fernandes, Alan Ruiz, Podence ou Doumbia (ou Téo Gutierrez, o melhor entre os segundos avançados que Jesus teve no Sporting). Contra equipas que se destapam, que querem jogar, como o Steaua ou o Vitória no jogo do Minho, este 4x4x2 mascarado de 4x2x3x1 funciona às mil maravilhas. Contra equipas que metam o autocarro à entrada da área, um dos médios terá de ser sacrificado para que o Sporting possa continuar a jogar ocupando o campo todo. Cruijff usava um método engraçado para provar a superioridade do 4x3x3: dividia o campo em quadrículas e mostrava que o seu sistema predileto era o que mais se encaixava no retângulo de jogo, ocupando-o na perfeição. Jesus, um cruijfiano convicto, nunca foi grande adepto do 4x3x3: chegou à primeira divisão em 3x5x2, joga há uma década em 4x4x2, testou neste início de temporada o 3x4x1x2 como Plano B mas está a cair muito no 4x2x3x1 de que nunca gostou particularmente. É por isso que me parece que 2017/18 pode marcar uma mudança no pensamento de Jesus: o sistema está em risco como base de todo o futebol, podendo dar lugar a um híbrido que seja capaz de mudar de pele consoante roda jogadores – outra coisa que o Sporting de 2016/17, por exemplo, não fez, sacrificando sempre as segundas opções.  
2017-08-27
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A ver o Rio Ave de Miguel Cardoso jogar e somar a terceira vitória seguida, que lhe garantiu desde sexta-feira o lugar entre os líderes da Liga, não pude deixar de lembrar-me daquilo que disse Jorge Jesus antes de rumar a Guimarães. Porque se há coisa que Jesus faz bem é enaltecer os méritos a quem os merece: sejam os próprios, quando as coisas correm bem às suas equipas, como acabou por ser o caso do Sporting no Minho, sejam os alheios, quando as suas equipas ficam um pouco aquém, como sucedeu na receção ao Steaua. E, ainda que muitos tenham preferido ver ali alguma dose de desresponsabilização própria, quando Jesus comparou as “oito semanas” que este Sporting tem de trabalho com os “oito anos” que um dos rivais já leva, não estava a ser rigoroso, mas no conceito geral tinha razão: a continuidade dá frutos. Pô-la em prática é que é complicado. No caso do Rio Ave, mais até do que nos jogadores, a continuidade é posta em prática no tipo de futebol. Tal como a equipa de Luís Castro no ano passado, este Rio Ave gosta de ter a bola, de praticar um jogo positivo, de pé para pé, tanto como odeia arriscar a bola em chutões sem nexo só para ver o que a coisa dá. Os plantéis até mudam, tal como mudam os onzes-base, mas as ideias continuam as mesmas e esse plano de continuidade permite à equipa nunca ter de começar do zero. Entre os grandes, verdade seja dita, nunca se começa do zero. Mas ajuda muito poder começar em função de uma estrutura que saiba que referências impor dentro de um balneário, que comportamento assumir dentro e fora do campo. Os movimentos saem melhor quando os jogadores já sabem o que os colegas vão fazer antes mesmo de porem uma combinação em prática e a fração de segundo que se ganha nesse entendimento subliminar pode fazer a diferença entre um golo e uma perda de bola seguida de contra-ataque do adversário. A questão é que, na mesma conferência de imprensa, o próprio Jesus respondeu a quem lhe perguntou que jogador quereria se lho dessem que precisava de mais um jogador de ataque. A vantagem do rival é ter a mesma equipa há oito anos, mas a resposta do Sporting passa por mudar a equipa todos os anos? O onze que ontem ganhou em Guimarães tinha seis reforços de 2017/18; o que empatou com o Steaua tinha cinco. Na verdade, o Benfica não tem a mesma equipa “há oito anos”. Do onze que foi campeão com Jesus em 2010, só resta Luisão. Jardel chegou um ano depois, André Almeida e Salvio na temporada seguinte, mas até Fejsa, Pizzi, Eliseu e Jonas vão em quatro ou cinco épocas de águia ao peito. Pega-se no Sporting de 2013, que foi o ano de entrada daquele médio sérvio na Luz, e vai-se à procura de quem continue por Alvalade. Restam Rui Patrício, William Carvalho, Adrien e agora Iuri Medeiros – ainda que este estivesse nessa altura na primeira época de sénior e tenha jogado apenas na equipa B. Os outros perderam-se numa política de mercado errática, na procura permanente de mais-valias nos elementos que acabaram por se revelar válidos e em erros de casting que foram sendo cometidos pelo caminho. Hoje por hoje, Benfica e Sporting estão a corporizar dois paradigmas radicalmente opostos no que diz respeito à recomposição de plantel a que o facto de estarem num mercado periférico como o português os obriga. No Benfica, saíram três titulares pela porta de cima e até ver gastou-se pouco ou nada na contratação de substitutos. Por muito que a propaganda venda esta como a política de longa duração do clube, não tem sido isto que o Benfica tem feito nos últimos anos, em que as compras têm sido também inflacionadas, quanto mais não seja para alimentar o cash-flow de compra-e-venda permanentemente mantido com a Gestifute. Esta época, porém, as substituições de quem saiu por cima foram feitas por baixo – Varela, André Almeida, Jardel… – e a coisa parece até demasiado arriscada, apesar do bom início de temporada. No Sporting, tem-se feito ao contrário e vai-se ao mercado à procura de substitutos valiosos para quem o clube perde, seja por vontade de vender em alta, seja por achar que precisa de mudar em determinadas posições. Na verdade, ambos os caminhos são válidos. E isso quer dizer que não se deve recusar a procura interna de substitutos, na equipa B ou no banco, e depois olhar para essa forma de recompor o plantel como uma vantagem competitiva.
2017-08-20
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O empate a zero do Sporting contra o Steaua de Bucareste, que deixa mais complicado o acesso leonino à fase de grupos da Liga dos Campeões, veio trazer mais evidências para a constatação que já se tinha podido fazer na vitória por 1-0 que a equipa de Jorge Jesus arrancara a ferros contra o Vitória de Setúbal na sexta-feira: falta qualidade na construção pelo corredor central sempre que a equipa deixa de contar com William Carvalho. Ter ali Adrien e Battaglia juntos torna-se um problema para uma equipa que, tal como na última partida, voltou a não conseguir ter posse de bola dentro do bloco adversário e se viu forçada a um jogo de cruzamentos para um Bas Dost sempre muito só na área. O problema pode avolumar-se se o mercado acabar por levar William. Battaglia converteu-se numa coqueluche para Jesus, que ainda hoje voltou a elogiar-lhe a exibição, mas o seu futebol muito físico, com dificuldades na recepção, no passe e na arquitetura dos ataques dificilmente será conciliável com o jogo de Adrien, também um médio mais intenso do que criativo. Tanto um como o outro podem ser muito úteis, mas dificilmente o serão em simultâneo. Adrien precisa de William, da mesma forma que Battaglia precisa de Bruno Fernandes. Quer isto dizer que se vai vender um dos seus dois médios campeões da Europa, o Sporting bem podia vender os dois, de forma a poder construir um meio-campo do zero, sem amarras a um passado feito de um entendimento perfeito entre a dupla que marcou os últimos anos. Assim, se é levado a somar Adrien a Battaglia, Jesus está a fazer deste Sporting uma equipa que não terá nada a ver com as que vem construindo nos últimos anos. O que caracteriza as equipas de Jesus? Entre muitas outras coisas, a exploração do espaço interior, a capacidade para jogar dentro do bloco adversário, para triangular ali. Ora com esta dupla de médios, raramente o conseguiu nestes dois jogos. Culpa de Podence, o segundo avançado que se coloca nas costas de Bas Dost e deveria ocupar esse espaço entre linhas? Nem por isso. Culpa sobretudo de um meio-campo que nunca fez movimentos de aproximação com bola para tirar os médios do Steaua da poltrona onde se sentaram desde o início da partida, à entrada da área. Só Mathieu tentou fazer isso em todo o jogo de hoje. O que isso provoca é que os leões sejam forçados a abusar dos corredores laterais e, se não aparecem um Gelson ou um Acuña superlativos, nota-se mais o paradoxo que é ter Bas Dost sozinho a batalhar pelas bolas aéreas entre as torres adversárias. No final do jogo, Jesus voltou a citar o mercado como fator dissuasor para contar com William, por exemplo, nos jogos que se aproximam. Os dois jogos que aí vêm, contudo, serão bem diferentes destes dois últimos: em Guimarães e em Bucareste, frente ao outro Vitória e outra vez ao Steaua, os leões não vão ter de enfrentar adversários tão fechados e poderão jogar mais em ataque rápido e contra-ataque. Podem ser mais duas oportunidades para esta dupla de médios. E se não correrem bem talvez sejam as duas ultimas.
2017-08-15
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