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Último Passe

Luís Filipe Vieira podia ter chegado à conferência de imprensa de ontem e dito que não, que toda a gente na estrutura do Benfica está com Rui Vitória, que nunca lhe passou pela cabeça despedir o treinador e que a onda de notícias que por aí circulava era obra dos malvados dos jornalistas. Ou “jornaleiros”, especializados em “jornalixo”, como agora se diz neste Mundo de realidades pré-fabricadas ao gosto de cada fação. Só que não. Vieira reconheceu que havia muita gente na estrutura que queria trocar de treinador, que ele próprio acedeu a esse desejo e que, depois de uma noite passada no Seixal, decidiu reconfirmar Vitória. E isto motiva-me duas perguntas. A primeira é: porquê? A segunda é: com que efeitos? Ao porquê só o próprio Vieira poderá responder. Daqui, do lado de fora, posso avançar duas hipóteses. Porque era verdade e Vieira sentiu a necessidade de dizer a verdade – quando podia tê-la escondido, mesmo sem mentir – por solidariedade com os profissionais da comunicação social que estão sempre a ser atropelados e sovados pelas máquinas de comunicação dos clubes,  criadas pelo próprio Vieira e pelos seus colegas presidentes de emblemas rivais. Se foi isso, está de parabéns. Ou então por se sentir iluminado por uma espécie de luz providencial e achar que se Rui Vitória der a volta à situação ele próprio será visto como o mago do sucesso, o homem que manteve a coerência e, tal como sucedera com Jesus em 2013, viu essa aposta dar frutos. O gestor por excelência, portanto. Uma hipótese mostra um Vieira despojado de vaidade, a outra mostra um líder excessivamente vaidoso. Na verdade, a não ser para os benfiquistas e em eventual cenário de futuras eleições, pouco importa qual é a real. Importa que o presidente do Benfica manteve a sua coerência, a aposta num paradigma em nome do qual tinha despachado Jorge Jesus há três anos e meio. Este Benfica é o Benfica do Seixal, da ligação direta entre a formação e a equipa principal, que quer ser a “espinha dorsal da seleção nacional”, conforme o próprio Vieira prometeu em 2003. Foi para isso que Rui Vitória foi contratado – mesmo que isso signifique que a equipa vai perdendo competitividade a cada ano que passa. Não necessariamente (ou apenas) por responsabilidade do treinador, mas também porque promover miúdos tem custos associados antes de valer receitas no mercado. O que nos transporta para a segunda pergunta: que efeitos terá a comunicação de Vieira, o reconhecimento de que quase toda a gente no clube queria Vitória fora e que foi ele, em decisão solitária, que aguentou o treinador? O futuro o dirá, já a partir de sábado, na receção ao Feirense. Porque a partir de agora, quem não sabia ou não tinha a certeza – adeptos, jogadores, adversários, jornalistas… – ficou a saber que Rui Vitória está periclitante. Esperará o presidente encarnado que, sabendo disso, os jogadores consigam ir buscar a reserva extra de forças e de esclarecimento para segurar o treinador e que tudo se conjugue para uma exibição convincente e uma vitória concludente. O pior é se acontece ao contrário.
2018-11-30
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A mim, o que me confunde, não é que Luís Filipe Vieira possa vir a demitir Rui Vitória menos de um mês depois de ter defendido, em entrevista, a sua continuidade. Isso é o pão nosso de cada dia no futebol – os resultados definem tudo e os resultados do Benfica não têm sido bons, face ao que nenhum presidente deve ficar preso a declarações circunstanciais. A mim, o que me confunde, é que Luís Filipe Vieira possa estar a pensar no regresso de Jorge Jesus. Não por falta de competência do treinador, que até está agora no local para onde Vieira queria mandá-lo há três anos e meio – no Golfo Pérsico a reforçar a conta bancária com petro-dólares –, mas porque a eventual contratação de Jesus vai muito para lá dos resultados: é a negação de um projeto. Se avançar para Jesus, Vieira ganha um excelente treinador e, das duas uma: ou faz um ato de contrição e assume que há três anos e meio cometeu um erro de proporções gigantescas; ou está a dizer cá para fora que quando andou a falar de projeto, de formação, de levar o Seixal  para a equipa principal, não estava a falar a sério. Mas vamos por partes. Primeiro, Rui Vitória. O que Luís Filipe Vieira disse, em entrevista à TVI, no final do mês passado, foi que o treinador iria cumprir contrato, ficando na Luz pelo menos mais  um ano e meio. Mentiu? Não necessariamente. É possível que nessa altura essa fosse ainda a intenção do presidente, mas esta é uma declaração circunstancial, de apoio ao treinador em funções, que pode sempre ser emendada se os resultados não melhorarem. Como efetivamente não melhoraram. Desde essa entrevista, o Benfica só ganhou dois jogos, ao CD Tondela e ao FC Arouca, perdendo em casa com o Moreirense e sofrendo a eliminação da Liga dos Campeões graças a um empate caseiro com o Ajax e à recente goleada encaixada frente ao Bayern, em Munique. Ora perante este cenário, perante a produção futebolística confrangedora da equipa nas últimas semanas, perante a contestação crescente vinda das bancadas, até é relativamente vulgar ver um presidente voltar atrás e deixar mesmo cair o treinador. Vieira, por exemplo, não cedeu quando Jesus perdeu tudo em 2013, a ponto de poder dizer-se que é presidente de manter os seus treinadores, mas pode perfeitamente sentir-se inclinado a agir de outra forma agora. A falta de reação por parte do Benfica à recente entrevista de Jesus ao jornal A Bola – em que, a propósito de um eventual regresso à Luz, o treinador afirmou que “o bom filho a casa torna” – foi ao mesmo tempo um sinal de que ali havia gato escondido com rabo de fora e uma falta de solidariedade com o treinador em funções. Se nos detivermos apenas na segunda parte do problema, mais uma vez, poderia ser a assunção de que não havia mais margem para defender o atual treinador. Mas se olharmos para a primeira, há mais coisas a dizer. Porque a história do futebol está cheia de casos de treinadores que foram despedidos de um clube e depois acabam por lá voltar – uns com sucesso, outros sem ele. A questão é que Jesus não foi despedido do Benfica. Jesus foi afastado porque o seu perfil de treinador não servia para os valores mais altos que a administração da SAD apregoa – e não creio que os apregoe apenas para ficar bem na fotografia ou nos prospetos da CMVM. Jorge Jesus é um dos mais resultadistas dos treinadores nacionais e, como tal, faz tudo para ter resultados, incluindo essa coisa estranha que é querer contratar sempre os melhores jogadores disponíveis para cada posição, roubando espaço aos miúdos que estão a sair da formação. Nesse aspeto, bem pode dizer-se que os primeiros títulos de Rui Vitória ainda foram obra de Jesus, não por causa do trabalho de campo efetuado, como Jesus chegou a insinuar, mas porque Vitória herdou um plantel fortíssimo, nascido da exigência e da inquietação permanentes do anterior técnico. Acontece que houve uma altura em que o Benfica resolveu dizer “Basta!” e quis mandar Jesus para o Golfo Pérsico, com a promessa de no futuro lhe ser arranjada uma vaga no Paris St. Germain. Não foi porque ele não ganhasse – tinha acabado de ser campeão – mas sim porque queria mudar de paradigma. E um paradigma não se esgota em decisões ou em declarações circunstanciais. Se demitir Rui Vitória e acabar por trazer de volta Jorge Jesus, Luís Filipe Vieira dá um passo importante para resolver um problema, que é o da falta de qualidade de jogo da equipa. Jesus é dos mais competentes treinadores da atualidade, por exemplo, a trabalhar os processos defensivos, que têm sido um pesadelo nesta época na equipa do Benfica. Fica a curiosidade de se perceber até que ponto o trabalho de Raul José, adjunto de Jesus há anos, era fundamental no treino ofensivo, ou como vai a nação benfiquista pacificar-se com um treinador cuja importância foi ensinada a negar nos últimos anos. Mas fica sobretudo a curiosidade de ver como é que Vieira justificaria a troca, que deitava por terra o novo paradigma que ele tanto tem defendido – e que já levou, por exemplo, à entrada de vários jogadores do Benfica (ou lá formados) na seleção, conforme era anseio antigo do presidente. Deixo uma pequena ajuda. A intervenção devia começar pelas palavras: “Eu estava enganado”.
2018-11-29
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Diz o provérbio que há muitas maneiras – mais de mil – de cozinhar bacalhau. E também há muitas maneiras de se ganhar no futebol. Luiz Felipe Scolari voltou a sagrar-se campeão do Brasil, onde chegou de emergência para impedir que o rico plantel do Palmeiras se afundasse pelo meio da tabela onde se encontrava à data do regresso de Felipão da China. Não perdeu um só dos 22 jogos que fez e garantiu o título a uma jornada do fim, com uma vitória no terreno do São Paulo FC. “Não sou o melhor, não sou o pior”, disse o treinador no final do jogo do título. É uma mensagem antiga e provavelmente difícil de compreender nesta era de extremos, mas é a mais pura das verdades. Quando Scolari anunciou que ia trocar a seleção portuguesa pelo Chelsea, decorria o Europeu de 2008, já era dado como ultrapassado. Os que se riram da opção de Abramovich gargalharam ainda mais quando ele fracassou em Inglaterra, mas o brasileiro também não ficou mal de vida: foi encher ainda mais a conta bancária por paraísos perdidos como o Usbequistão ou a China. De caminho conquistou mais uns troféus, mas sempre desvalorizados, porque eram naquelas paragens pouco competitivas, com as cores do Bunyodkor ou do Guangzhou Evergrande. A dar razão à tese da sua inadequação a estes tempos de futebol moderno e mais científico surgiu o “Mineirazo”, a humilhação aos pés da Alemanha, na meia-final do Mundial de 2014, prova para a qual o Brasil se lembrou de “desenterrar” o velho treinador. Parecia que a Scolari nada mais restava do que arrastar-se por campeonatos marginais, a vender sempre a mesma receita de disciplina e companheirismo, temperados com uns pozinhos de crença e a estatueta de Nossa Senhora do Caravaggio. Tal como em relação a Oscar Wilde, porém, as notícias acerca da morte de Scolari eram profundamente exageradas. Chamado a substituir Roger Machado, o “Sargentão” levou o Palmeiras do sétimo lugar ao título de campeão brasileiro. Aplicou a mesma receita de sempre: uniu o grupo num abraço coletivo, deu carinho aos jogadores, ao mesmo tempo que os enchia de exigência, misturou-se com a comunidade, abrindo-se aos adeptos daquele que acaba por ser um pouco o seu clube do coração no Brasil – já lá tinha ganho uma Libertadores e uma Taça do Brasil nas duas anteriores passagens. “Este grupo precisava de alguém que soubesse que estava lá para ser campeão com eles. Eu precisava da vontade e da determinação deles. Quando estes fatores se conjugam, acontecem coisas muito boas”, resumiu Scolari. Em futebol, treinar bem, estudar, atualizar-se é sempre fundamental. Mas Scolari teria de ser muito idiota se o não fizesse, se não tivesse com ele – podendo – gente aberta a novas áreas do conhecimento. Essa, no entanto, não é a especialidade dele. A especialidade dele é o trato com o balneário. E nisso há poucos como ele. Talvez por isso, nos cinco anos em que esteve à frente da seleção portuguesa – e nos quais chegou à final do Europeu de 2004 e à meia-final do Mundial de 2006 – só fracassou mesmo em 2008, quando caiu logo no primeiro jogo de “mata-mata”. É que por essa altura o grupo já sabia que ele ia para o Chelsea. Quando fracassou, Scolari já não era o líder daquele grupo. E isso notou-se.
2018-11-26
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A primeira aparição do Sporting de Marcel Keizer não foi brilhante – muito longe disso – mas deu para ver aquilo que o treinador holandês quer da equipa. Um futebol de matriz-Ajax, assente no dogma do 4x3x3, na construção elaborada desde trás e na colocação de boa parte dos seus elementos em zonas avançadas do terreno, mesmo quando em ação defensiva. As dificuldades que os leões tiveram durante uma hora para se superiorizarem ao modesto Lusitano de Vildemoinhos tiveram muito a ver com esta transformação e com o tempo que ela vai levar a ser assimilada por um plantel habituado a jogar de outra forma. Numa Liga tão renhida como está a ser esta, o risco que Keizer corre é o de perder o presente para tentar ganhar o futuro. Os defeitos a apresentar ao Sporting no jogo de Viseu foram simples. Lentidão a circular a bola, própria de quem começou agora a treinar uma nova forma de o fazer, de quem trocou as verticalizações mais súbitas por um jogo mais apoiado, e que portanto não sente a segurança necessária para acelerar, e erros posicionais ou de intensidade da primeira linha de pressão, deixando as linhas recuadas mais expostas às transições ofensivas rápidas do adversário. Pode dizer-se que a estrutura não apresentou grandes diferenças, introduzindo Bruno Fernandes mais cedo no jogo para abrir vaga a Wendel como segundo avançado (e terceiro médio), restando perceber se foi o ritmo mais baixo do brasileiro a influenciar o jogo coletivo ou se ele foi vítima de uma equipa toda ela mais insegura na construção e, depois, na entrada em zonas de criação. A verdade é que durante uma hora o Sporting foi tendo quase sempre a bola mas poucas vezes a usava para desequilibrar um Lusitano bem organizado em 4x1x4x1 e sempre capaz de ocupar bem os espaços. E a questão é que se o Sporting não usava os cerca de 70 por cento de posse que tinha para criar situações de perigo, o adversário ainda ia tendo atrevimento e capacidade para ir com perigo até à área leonina, muitas vezes beneficiando do adiantamento geral do favorito. Já se sabe que a escola holandesa manda defender alto, para diminuir o espaço que há a fazer entre o momento da recuperação e a chegada à área adversária, mas o que se viu foi um Sporting pouco agressivo em transição defensiva e, depois, vulnerável sempre que o adversário esticava o jogo, com os centrais ora muito abertos ora fixos no espaço interior, com avenidas abertas nas alas por via da projeção dos dois defesas-laterais em simultâneo. É todo um novo jogar que pode fazer do Sporting uma equipa mais atrativa, mas que por enquanto apenas o transforma num coletivo mais inseguro e até um pouco incoerente. Keizer precisa de tempo. Resta perceber se o decurso normal da Liga lho dará.
2018-11-25
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Rui Vitória explicou a fraca exibição do Benfica contra o FC Arouca com a rotatividade, ao falar em “jogadores que ainda não têm muito jogo” como justificação. Na verdade, a rotatividade é um chapéu que cabe em muitas cabeças: o segredo é usá-lo na medida adequada e nas alturas exatas. Porque se numas vezes é um erro crasso, noutras é a fórmula mágica de que se fazem os campeões, através de uma gestão inclusiva do grupo. A rotatividade não é coisa de hoje. Quando comecei no jornalismo e tinha a mania que sabia tudo de futebol internacional, a ponto de manter atualizadas as fichas de utilização de todas as equipas dos principais campeonatos europeus, ficava abismado com a gestão de plantel que era feita por Luis Fernández no Cannes, clube no qual começou a carreira de treinador com uma subida de divisão e um sexto lugar na Liga francesa, o que lhe permitiu saltar para o banco do PSG, em 1994. Rara era a semana em que Fernández não trocava mais de meia equipa, o que vinha em contra-ciclo com aquilo a que estávamos habituados num futebol português onde ainda era muito forte a influência conservadora dos treinadores britânicos. Uma influência que ainda recentemente pude recordar ao ver o excelente documentário “I Believe in Miracles”, acerca da condução que Brian Clough impôs no Nottingham Forest, no final d década de 70 do século passado. No Forest, Clough nunca teve mais de 14 ou 15 jogadores. Abusava sempre dos mesmos, mas mesmo assim conseguiu subir de divisão num ano, ganhou a Liga inglesa na segunda época e a Taça dos Campeões Europeus nas duas que se seguiram. A dada altura é contada a razão pela qual o mítico treinador se incompatibilizou com o médio escocês Archie Gemmil: tirou-o do onze, bem como a Martin O’Neill, na primeira final europeia; Gemmil não gostou, disse-o e foi vendido logo a seguir, ao passo que O’Neill acatou e ainda foi bicampeão europeu. O que chama a atenção para dois aspetos fundamentais na questão da rotatividade. Primeiro, a questão física: a ciência do treino evoluiu muito – e todos os entrevistados, incluindo alguns que mais tarde deram treinadores, concordavam que o que se fazia naquele Nottingham Forest não era bem treinar – e já se entende que há muito a ganhar em dosear o esforço durante os jogos, não só para os habituais titulares, como também para os outros. Depois, a questão mental: qualquer equipa tem a ganhar com aquilo a que gosto de chamar “gestão inclusiva” dos recursos, isto é, com o facto de conseguir manter focado todo um plantel e não apenas aqueles que sabem que em condições normais jogam sempre. Acontece que fazer uma “gestão inclusiva” não é chegar a um jogo da Taça de Portugal contra uma equipa de um escalão secundário e mudar mais de meia equipa. Que o digam, por exemplo, Fernando Santos, que dessa forma viu o seu FC Porto ser eliminado em casa pelo Torreense e o seu Sporting ser afastado por um então secundário Vitória FC, ou Jesualdo Ferreira, que dessa forma perdeu em casa, pelo Benfica, com o FC Gondomar. Ao mudar tanto, num momento em que não tem as bancadas com ele, Vitória correu riscos demasiados e desnecessários. Fazer uma “gestão inclusiva” é dar a entender a todos que contam e é exatamente o contrário do que se faz numa situação dessas. Não se diz a um jogador que nunca é utilizado que também conta chamando-o num jogo que à partida não tem grau de dificuldade elevado. Aí, a mensagem que se está a passar é a de que o jogo é tão fácil que até aquele poderá jogar e o efeito psicológico arrisca-se a ser devastador no resto da equipa, que normalmente perde intensidade e concentração. “Gestão inclusiva” foi o que fez, por exemplo, Sérgio Conceição no FC Porto na época passada, quando apostou em José Sá em vez de Casillas no jogo com o Lusitano de Évora, mas depois o manteve, quatro dias depois, em Leipzig, na Champions. Ou quando deu a primeira titularidade da época a Sérgio Oliveira na visita ao Mónaco, também na Liga dos Campeões. Essa é a forma correta de fazer rotatividade, porque além de permitir que todos doseiem o esforço, “diz” aos consagrados que têm de se aplicar para jogar e aos menos utilizados que têm de estar focados, porque podem entrar em qualquer momento. Conceição nunca chegou ao cúmulo do que fazia Fernández, porque é evidente que a estabilidade também é importante nas rotinas de jogo – e a verdade é que Fernández nunca deu treinador de topo, apesar do início promissor – mas é para mim evidente que foi graças a essa gestão que ampliou na prática a força de um plantel que no início da época era inferior aos de Sporting e Benfica.  
2018-11-23
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De França chegou a sugestão. De Itália, a revolta. Em Portugal fez-se eco da revolta italiana. Ao que tudo indica, nem Cristiano Ronaldo nem Messi estarão na lista de candidatos a receber a Bola de Ouro do France-Football relativa a 2018. Fim de uma era? De um duelo de titãs? Ou será antes a vingança servida a frio do lóbi do Real Madrid com a conivência dos franceses? Talvez não seja nenhuma das hipóteses acima, mas apenas a constatação de que o Mundial influiu sempre muito nestas escolhas e a base para um debate acerca de prémios individuais em jogos coletivos e do peso das conquistas da equipa nas escolhas dos jurados. Não me restam a mim grandes dúvidas de que Ronaldo e Messi continuam a ser de um planeta à parte e que ainda não houve sucessão. Neymar ficou curto, Mbappé está a caminho mas ainda tem alguns quilómetros para palmilhar. Mas aqui surge a primeira questão: a Bola de Ouro deve premiar o melhor jogador do Mundo a esta data o aquele que foi o melhor do Mundo no ano que está a terminar? Não é a mesma coisa. Messi ganhou a Liga espanhola (de que foi o melhor marcador) e a Taça do Rei; Cristiano venceu a Liga dos Campeões (sendo igualmente o melhor marcador) e o Mundial de clubes (jogado já depois da entrega da Bola de Ouro anterior), mas ambos ficaram aquém do pretendido no Mundial de seleções. E não é preciso fazer um estudo muito aprofundado para se perceber que o anormal, aqui, foi aquilo que se passou nos últimos anos, em que a Bola de Ouro não foi entregue a um jogador que tenha estado, pelo menos, na final do Mundial. Olhemos para trás. Desde que a Bola de Ouro foi criada, em 1956, ela foi entregue por 15 vezes em ano de Mundial (duas delas em parceria com a FIFA). Em seis dessas 15 ocasiões, porque a Bola de Ouro se destinava ainda apenas a jogadores europeus e o campeão mundial foi sul-americano, seria impossível premiar um jogador da seleção que ganhou o Mundial – sucedeu em 1958 (ganhou Kopa porque o campeão foi o Brasil), em 1962 (ganhou Masopust, mais uma vez em ano de Brasil campeão), em 1970 (venceu Müller, mais uma vez em ano de Brasil), em 1978 (impôs-se Keegan, com a Argentina campeã), em 1986 (Belanov foi o mais votado, mais uma vez com a Argentina a levantar a Taça) e em 1994 (a Bola de Ouro foi para Stoitchkov, com o Brasil campeão do Mundo). Em seis dos outros nove anos de Mundial, o Bola de Ouro foi também campeão do Mundo – o inglês Bobby Charlton em 1966, o italiano Paolo Rossi em 1982, o alemão Matthäus em 1990, o francês Zidane em 1998, o brasileiro Ronaldo em 2002 e o italiano Cannavaro em 2006. E alguém acha que Cannavaro alguma vez foi o melhor futebolista do Mundo? Isso quer dizer que em mais de meio século antes da emergência de Cristiano Ronaldo e Messi e da junção da FIFA ao prémio da France-Football, só por uma vez houve um Bola de Ouro que não tinha sido campeão do Mundo – aconteceu com Cruijff em 1974. E mesmo Cruijff jogou a final do Mundial. Depois, Messi ganhou em 2010 com a Espanha a ser campeã do Mundo – e muitos se insurgiram, dizendo que o prémio devia ser para Xavi ou Iniesta – e Cristiano Ronaldo venceu em 2014, depois de a Alemanha ter ganho o Mundial. O normal, portanto, é que em ano de Mundial a Bola de Ouro seja entregue a um jogador que ganhou o Mundial. O normal, este ano, é que Mbappé a vença. Sem complots nem teorias da conspiração. O que não invalida uma realidade muito simples: que Cristiano Ronaldo e Messi continuam a ser os dois melhores do Mundo.
2018-11-22
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  O primeiro hat-trick de Haris Seferovic pela seleção suíça não podia ter escolhido melhor ocasião do que a épica reviravolta dos helvéticos ante uma Bélgica que vinha de peito feito e confirmara pretensões com dois golos madrugadores. Já o disse e escrevi várias vezes: Seferovic não é um goleador de topo, um avançado capaz de acabar um campeonato competitivo com 30 golos no cabaz. Mas tem virtudes que fazem dele um bom jogador de plantel e um delas é a resiliência, que ficou bem à vista num jogo com a Bélgica onde, é verdade, tudo lhe correu de feição, mas onde o mais fácil seria desistir e sair do relvado com a apreciação mais vulgar para um avançado cuja equipa precisava de ganhar por dois golos e ao quarto-de-hora já perdia pelos mesmos dois: “a equipa não o ajudou e ele não pôde fazer mais”. Essa tem sido, aliás, um pouco a história de Ferreyra. Resignação em vez de resiliência. Ferreyra, sim, é um goleador daqueles capazes de acabar uma época numa Liga competitiva com números avassaladores. E no entanto, ao fim de quatro meses de Benfica, quatro meses depois de uma transferência avultada, do que se fala é de desistência. Desistência do Benfica nele, a exemplo do que aconteceu com outros goleadores que no passado tardaram em impor-se, mas também desistência dele em relação ao Benfica, por incapacidade de encaixar numa ideia de jogo que parte de uma primeira linha de pressão agressiva e onde a relação com a bola varia consoante a zona onde se está: ataque à bola e ao espaço, encostando o cabedal ao adversário direto nas imediações da área; bola no pé e toque em apoio, bem mais aveludado, na zona entre linhas opositoras. Ao contrário de Ferreyra, com menos qualidade técnica mas mais espírito de luta, Seferovic é um atacante agressivo. Repito que o hat-trick à Bélgica até pode ter sido um caso isolado de uma noite perfeita, mas o suíço já tinha mostrado capacidade, por exemplo, ao fazer o golo que derrotou o FC Porto, depois de partir como quarta opção para uma vaga apenas na frente de ataque encarnada. E incapacidade, é verdade, depois, no ciclo de derrotas que a equipa de Rui Vitória atravessou, muito devido às falhas de finalização da sua linha da frente. Com Jonas de volta e a confessar-se “a 100 por cento”, o Benfica deverá mesmo ter de tomar decisões na janela de mercado de Janeiro, porque se Castillo é um jogador completamente diferente dos outros – e cuja utilidade também ainda tem de ser provada – se a ideia é continuar a jogar em 4x3x3 há gente a mais para uma vaga só. E por gente “a mais” entende-se gente “a desvalorizar” a cada semana que passa. O mercado de Janeiro serve para corrigir erros e o que aconteceu no ataque do Benfica esta época foi mesmo um erro. Ou um erro de apreciação de quem achava que Jonas acabara e iria embora. Ou um erro de casting/scouting de quem achou que seria fácil fazer Ferreyra encaixar no futebol “fast and furious” do ataque benfiquista. Ou um erro de definição de sistema, porque para o 4x3x3 faz falta um avançado que seja ao mesmo tempo confrontacional e goleador puro. Ou todos os acima mencionados, que é o que me parece mais plausível no momento em que vai a época.
2018-11-19
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Pode muito bem ter sido apenas para pôr termo ao assunto, do qual está farto de falar, mas a forma como Fernando Santos se referiu hoje à ausência de Cristiano Ronaldo na lista de jogadores que amanhã vão lutar por deixar já sentenciada a presença portuguesa na fase final da Liga das Nações foi diferente do que vinha sendo o discurso oficial desde a saída do Campeonato do Mundo. Se até aqui o que se ouvia era quase sempre um adiamento para uma próxima vez da chamada daquele a que o selecionador nacional se refere sempre como “o melhor jogador do Mundo”, agora Santos foi mais seco e evasivo e, questionado por uma jornalista italiana acerca da hipótese do CR7 vir a dar o contributo à equipa a partir de Março, nas eliminatórias do Europeu de 2020, limitou-se a afirmar: “nessa altura veremos”.No mês de Outubro, quando rebentou o caso da acusações de violação a Ronaldo, Santos dissera que o jogador continuava “focado em jogar pelo seu país” e assegurara que não via “nada contra”. Antes, quando a ausência de Ronaldo na primeira chamada pós-Mundial veio surpreender meio mundo, o treinador também tinha sido mais afirmativo acerca de um regresso do capitão: “Por causa de tudo aquilo que é o processo de adaptação [à Juventus], entendemos que nesta janela não faria sentido que ele estivesse connosco”, justificou, dando a entender que assim que a adaptação estivesse completará o capitão iria voltar. Tudo bem diferente do que disse hoje e o suficiente para que seja importante que se fale com clareza deste assunto. Não em termos futebolísticos – porque nesse âmbito os resultados têm sido sempre excelentes e o selecionador também tem dito que nenhuma equipa pode ser melhor sem o melhor jogador do Mundo – mas em termos daquilo que vai ser o futuro próximo da equipa nacional e a ligação ao seu capitão. Se ideia da adaptação a Turim era complicada de defender – houve mais gente a mudar de clube e de país –, a tese da renovação de um grupo envelhecido também não não é a mais certa para acabar com as perguntas, sempre repetidas a cada vez que Portugal prepara um jogo, porque neste grupo têm continuado jogadores como Pepe e a ele regressou agora José Fonte, por exemplo. Fernando Santos tem todo o direito do Mundo a chamar quem quiser, mais ainda se for ganhando jogos, como vem sendo o caso. Mas quando quem fica de fora é aquele a quem chama de forma reiterado o “melhor do Mundo”, o jogador que é a cabeça de cartaz do campeonato do país onde a seleção vem jogar, não poderá estranhar que lhe perguntem pelas razões da sua ausência. Pelo menos enquanto não a explicar de forma a que todos a entendamos e ninguém responder, preto no branco, a duas coisas muito simples. Voltará Ronaldo a jogar pela seleção? E a que se deveu a sua ausência nos jogos da Liga das Nações?
2018-11-16
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Tenho evitado escrever acerca de casos judiciais, por um par de razões: primeiro, porque não tenho nada de útil a acrescentar, pois não é essa a minha área de especialidade, mas sobretudo porque, sejam os arguidos de que clube forem, gosto de me reger pelo princípio da presunção da inocência e não condeno ninguém enquanto os tribunais o não fizerem, não opino acerca daquilo que não posso comprovar. Mas a indignação de muitos amigos meus acerca da atenção mediática que tem estado a ser dada ao caso-Bruno de Carvalho leva-me a dirigir a agulha para outro lado – a razão pela qual os media passam horas a transmitir em direto à porta de um tribunal, onde o que quer que esteja a acontecer não é do conhecimento de ninguém a não ser de quem lá está dentro. Pois bem, a razão é muito simples: o Mundo está um lugar estranho. E perigoso. A verdade é que o futebol parou no domingo – e não foi por causa da detenção de Bruno de Carvalho. Encerrou-se a décima jornada da Liga, a seleção começou a treinar e a preparar os jogos com a Itália e a Polónia e os melhores jogadores nacionais passaram a debitar aquelas palavras de circunstância com que nos presenteiam regularmente como resposta a perguntas igualmente de circunstância com que são presenteados com a mesma regularidade. A verdade é que nada daquilo motiva interesse a ninguém. As pessoas querem acontecimentos, querem causas, querem algo que as apaixone ou revolte. E, tendo a noção disso, os media dão-lhes aquilo que elas querem, numa espécie de variação moderna da política “Panem et circenses” que foi desenvolvida durante o império romano. Seria fácil agora chegar aqui e acusar os algoritmos das redes sociais – cuja responsabilidade é evidente – desta deriva populista que o Mundo está a conhecer. Da mesma forma que é fácil aos cidadãos indignados acusar os programadores de estarem a pensar na audiência – a verdade, digo-vos eu, é que não é nisso que eles estão a pensar, mas sim na capacidade de pagar salários a quem trabalha, porque esses saem da publicidade e essa sai das audiências. É tão fácil aos jornalistas lavarem as mãos e atribuírem toda a responsabilidade às redes sociais como é aos cidadãos isentarem-se de culpa enquanto grupo e apontarem o dedo aos jornalistas. Mas o que é preciso é encontrar um modelo que funcione. A pressão económica sobre os media é clara, num Mundo em que a facilitação do acesso de todos a tudo veio tornar os jornalistas aparentemente dispensáveis. As pessoas não querem verificação de factos, sobretudo se essa verificação as forçar a sair da sua própria zona de conforto, se as obrigar a serem confrontadas com uma realidade diferente daquela que querem ver e que as redes sociais lhes dão, na bolha de “amigos” de que as rodeiam artificialmente. Ao que isto nos leva é a um jornalismo sob garrote económico, que só agrava a situação, forçando os jornalistas a tentarem ir ao encontro daquilo que as pessoas querem. É daí que vem o perigo, sobretudo num mercado tão pequeno como o português, onde mesmo as maiorias são de menos para manter vivos projetos jornalísticos que não cedam à vontade da turba ululante e não lhe deem aquilo que ela quer. No Web Summit do início deste mês, Margot James, ministra britânica das Indústrias Digital e Criativa, deixou no ar a possibilidade de se encontrarem modelos de financiamento e apoio ao jornalismo que compensem aquilo que a internet lhe tirou. Não creio em soluções desse género, nem em Inglaterra – onde apesar de tudo a dimensão do mercado e dos seus nichos ainda permite que subsistam muitas coisas boas – nem, muito menos, em Portugal. Como não creio que seja possível inverter o caminho da crescente liberalização do acesso. Tal como no futebol português de há uns anos – quando os clubes estavam falidos, os jogadores não recebiam a tempo e horas, os adeptos não encontravam condições para ir aos jogos e, no entanto, alguns empresários estavam cada vez mais ricos – o atual modelo de circulação de informação na rede favorece uns quantos, que prosperam. Os media, esses, definham e envergonham-se cada vez mais. Como em tudo na vida, há dois caminhos. Um é para a frente: atrasará mas não evitará a morte de uma indústria. O outro passa pela reconversão, por dar um passo atrás para se poder depois dar dois em frente, por revalorizar uma profissão com base na qualidade e não na quantidade. Dificilmente será no meu tempo, porém. Infelizmente.
2018-11-15
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Último Passe

Com mais ou menos dificuldades circunstanciais, Benfica e Sporting venceram com justiça os seus jogos da 10ª jornada e mantiveram-se a uma distância interessante do FC Porto, numa Liga que está a ser a mais renhida dos últimos anos. Os quatro primeiros estão separados por apenas quatro pontos e para se encontrar distância mais curta nesta fase da Liga é preciso recuar a 2011. E como até aqui, além da predisposição dos grandes para perderem pontos em jogos com equipas de “outro campeonato”, tem prevalecido o fator casa, vale a pena equacionar um final de primeira volta ainda mais equilibrado, pois daqui até lá há apenas mais dois jogos entre candidatos: o Benfica-SC Braga do Natal e o Sporting-FC Porto de Janeiro. Em Tondela, o Benfica fez valer a superioridade frente a um adversário que vendeu cara a derrota e podia mesmo ter saído do relvado com outro resultado. É verdade que, mesmo com Jonas em campo – três jogos, três golos – os encarnados tiveram mais oportunidades de golo e que nem se deve aqui falar de um triunfo da eficácia, mas enquanto Rafa foi dando o seu recital de movimentos de rotura seguidos de finalizações desastradas, também o CD Tondela teve um par de ocasiões flagrantes para voltar à frente no marcador. O jogo foi a prova de que a sorte e o azar não são fatores relevantes na distribuição dos pontos: quando Xavier falhou um golo cantado na cara de Vlachodimos não foi porque teve azar, mas sim porque não teve arte para fazer melhor. Mais perto de perder pontos esteve o Sporting, que fez um jogo dominador mas insuficiente na globalidade. Durante 82 minutos, nos quais Bas Dost – outra ode à eficácia… e não porque tenha sorte – fez o golo que adiantou os leões, o GD Chaves nem chegou à baliza de Renan. Pelo meio, os leões podiam (e deviam) ter forçado o andamento para chegar ao segundo golo, mas foram-se acomodando até levarem com o golo do empate de Niltinho, já com pouco tempo de reação. Um penalti de Bas Dost salvou os pontos, mas o jogo já terá dado boas indicações a Marcel Keizer, o novo treinador, que esteve nas bancadas: esta equipa do Sporting precisa de muita adrenalina, de ritmo, de intensidade, fator em que está uns bons furos abaixo dos três rivais na luta pelo título. Apesar de tudo, das inseguranças do Benfica e da moleza do Sporting, os dois estão lá, na luta. Podemos olhar para os plantéis e dizer que este tem mais qualidade em quantidade do que aquele, mas no futebol há imponderáveis que levam a que nem sempre isso chegue. O FC Porto acredita, em cima do título anterior e da liderança isolada que conquistou pela primeira vez esta época. O SC Braga está moralizado e focado no campeonato – e tem plantel para se bater com os grandes. O Benfica acreditará que a má fase já passou e o Sporting acredita na poção mágica que é o novo treinador. Vamos ter campeonato.
2018-11-12
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