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A ver o Rio Ave de Miguel Cardoso jogar e somar a terceira vitória seguida, que lhe garantiu desde sexta-feira o lugar entre os líderes da Liga, não pude deixar de lembrar-me daquilo que disse Jorge Jesus antes de rumar a Guimarães. Porque se há coisa que Jesus faz bem é enaltecer os méritos a quem os merece: sejam os próprios, quando as coisas correm bem às suas equipas, como acabou por ser o caso do Sporting no Minho, sejam os alheios, quando as suas equipas ficam um pouco aquém, como sucedeu na receção ao Steaua. E, ainda que muitos tenham preferido ver ali alguma dose de desresponsabilização própria, quando Jesus comparou as “oito semanas” que este Sporting tem de trabalho com os “oito anos” que um dos rivais já leva, não estava a ser rigoroso, mas no conceito geral tinha razão: a continuidade dá frutos. Pô-la em prática é que é complicado. No caso do Rio Ave, mais até do que nos jogadores, a continuidade é posta em prática no tipo de futebol. Tal como a equipa de Luís Castro no ano passado, este Rio Ave gosta de ter a bola, de praticar um jogo positivo, de pé para pé, tanto como odeia arriscar a bola em chutões sem nexo só para ver o que a coisa dá. Os plantéis até mudam, tal como mudam os onzes-base, mas as ideias continuam as mesmas e esse plano de continuidade permite à equipa nunca ter de começar do zero. Entre os grandes, verdade seja dita, nunca se começa do zero. Mas ajuda muito poder começar em função de uma estrutura que saiba que referências impor dentro de um balneário, que comportamento assumir dentro e fora do campo. Os movimentos saem melhor quando os jogadores já sabem o que os colegas vão fazer antes mesmo de porem uma combinação em prática e a fração de segundo que se ganha nesse entendimento subliminar pode fazer a diferença entre um golo e uma perda de bola seguida de contra-ataque do adversário. A questão é que, na mesma conferência de imprensa, o próprio Jesus respondeu a quem lhe perguntou que jogador quereria se lho dessem que precisava de mais um jogador de ataque. A vantagem do rival é ter a mesma equipa há oito anos, mas a resposta do Sporting passa por mudar a equipa todos os anos? O onze que ontem ganhou em Guimarães tinha seis reforços de 2017/18; o que empatou com o Steaua tinha cinco. Na verdade, o Benfica não tem a mesma equipa “há oito anos”. Do onze que foi campeão com Jesus em 2010, só resta Luisão. Jardel chegou um ano depois, André Almeida e Salvio na temporada seguinte, mas até Fejsa, Pizzi, Eliseu e Jonas vão em quatro ou cinco épocas de águia ao peito. Pega-se no Sporting de 2013, que foi o ano de entrada daquele médio sérvio na Luz, e vai-se à procura de quem continue por Alvalade. Restam Rui Patrício, William Carvalho, Adrien e agora Iuri Medeiros – ainda que este estivesse nessa altura na primeira época de sénior e tenha jogado apenas na equipa B. Os outros perderam-se numa política de mercado errática, na procura permanente de mais-valias nos elementos que acabaram por se revelar válidos e em erros de casting que foram sendo cometidos pelo caminho. Hoje por hoje, Benfica e Sporting estão a corporizar dois paradigmas radicalmente opostos no que diz respeito à recomposição de plantel a que o facto de estarem num mercado periférico como o português os obriga. No Benfica, saíram três titulares pela porta de cima e até ver gastou-se pouco ou nada na contratação de substitutos. Por muito que a propaganda venda esta como a política de longa duração do clube, não tem sido isto que o Benfica tem feito nos últimos anos, em que as compras têm sido também inflacionadas, quanto mais não seja para alimentar o cash-flow de compra-e-venda permanentemente mantido com a Gestifute. Esta época, porém, as substituições de quem saiu por cima foram feitas por baixo – Varela, André Almeida, Jardel… – e a coisa parece até demasiado arriscada, apesar do bom início de temporada. No Sporting, tem-se feito ao contrário e vai-se ao mercado à procura de substitutos valiosos para quem o clube perde, seja por vontade de vender em alta, seja por achar que precisa de mudar em determinadas posições. Na verdade, ambos os caminhos são válidos. E isso quer dizer que não se deve recusar a procura interna de substitutos, na equipa B ou no banco, e depois olhar para essa forma de recompor o plantel como uma vantagem competitiva.
2017-08-20
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O empate a zero do Sporting contra o Steaua de Bucareste, que deixa mais complicado o acesso leonino à fase de grupos da Liga dos Campeões, veio trazer mais evidências para a constatação que já se tinha podido fazer na vitória por 1-0 que a equipa de Jorge Jesus arrancara a ferros contra o Vitória de Setúbal na sexta-feira: falta qualidade na construção pelo corredor central sempre que a equipa deixa de contar com William Carvalho. Ter ali Adrien e Battaglia juntos torna-se um problema para uma equipa que, tal como na última partida, voltou a não conseguir ter posse de bola dentro do bloco adversário e se viu forçada a um jogo de cruzamentos para um Bas Dost sempre muito só na área. O problema pode avolumar-se se o mercado acabar por levar William. Battaglia converteu-se numa coqueluche para Jesus, que ainda hoje voltou a elogiar-lhe a exibição, mas o seu futebol muito físico, com dificuldades na recepção, no passe e na arquitetura dos ataques dificilmente será conciliável com o jogo de Adrien, também um médio mais intenso do que criativo. Tanto um como o outro podem ser muito úteis, mas dificilmente o serão em simultâneo. Adrien precisa de William, da mesma forma que Battaglia precisa de Bruno Fernandes. Quer isto dizer que se vai vender um dos seus dois médios campeões da Europa, o Sporting bem podia vender os dois, de forma a poder construir um meio-campo do zero, sem amarras a um passado feito de um entendimento perfeito entre a dupla que marcou os últimos anos. Assim, se é levado a somar Adrien a Battaglia, Jesus está a fazer deste Sporting uma equipa que não terá nada a ver com as que vem construindo nos últimos anos. O que caracteriza as equipas de Jesus? Entre muitas outras coisas, a exploração do espaço interior, a capacidade para jogar dentro do bloco adversário, para triangular ali. Ora com esta dupla de médios, raramente o conseguiu nestes dois jogos. Culpa de Podence, o segundo avançado que se coloca nas costas de Bas Dost e deveria ocupar esse espaço entre linhas? Nem por isso. Culpa sobretudo de um meio-campo que nunca fez movimentos de aproximação com bola para tirar os médios do Steaua da poltrona onde se sentaram desde o início da partida, à entrada da área. Só Mathieu tentou fazer isso em todo o jogo de hoje. O que isso provoca é que os leões sejam forçados a abusar dos corredores laterais e, se não aparecem um Gelson ou um Acuña superlativos, nota-se mais o paradoxo que é ter Bas Dost sozinho a batalhar pelas bolas aéreas entre as torres adversárias. No final do jogo, Jesus voltou a citar o mercado como fator dissuasor para contar com William, por exemplo, nos jogos que se aproximam. Os dois jogos que aí vêm, contudo, serão bem diferentes destes dois últimos: em Guimarães e em Bucareste, frente ao outro Vitória e outra vez ao Steaua, os leões não vão ter de enfrentar adversários tão fechados e poderão jogar mais em ataque rápido e contra-ataque. Podem ser mais duas oportunidades para esta dupla de médios. E se não correrem bem talvez sejam as duas ultimas.
2017-08-15
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Acabei a crónica do Sporting-Vitória de Setúbal, fiz o push para que aqueles que as subscrevem possam receber as notificações, a partilha nas páginas de Facebook e de Twitter, e dirigi-me à máquina de café em busca de alento para os dois textos que ainda tinha de escrever naquela noite. Quando voltei ao computador, dois minutos depois, deixei que o sentimento de culpa pelo abandono a que por vezes voto os meus seguidores tomasse conta de mim e, vendo que já tinha 14 comentários, fui ver o que diziam. Eram todos, repito, todos, sem exceção, acerca do mesmo assunto. “Então mas este [inserir aqui insulto à escolha] não escreve que não foi penalti?” Outros, mais elaboradosmas muito mal informados, iam mais longe e, ignorando que em lances de pura subjetividade, como o que protagonizaram Nuno Pinto e Bas Dost, o VAR não pode intervir, perguntavam: “É para isto que serve o vídeo-árbitro?” Há três anos, isto é, desde que saí do circuito dos jornais – neste momento, sou apenas colunista do Diário de Notícias, onde não me pedem opiniões sobre arbitragem –, passei a escrever por iniciativa própria e fundei o Bancada.pt, fiz as minhas próprias regras: não explico jogos de futebol com a arbitragem. Na RTP, se me pedem, dou a minha opinião sobre os lances. Que é isso mesmo: uma opinião. Porque nos casos de arbitragem há dois tipos de lances: os claros, que toda a gente vê, e os que se prestam a exercícios da mais pura subjetividade – intensidade do toque; quem promove o contacto; momento da paragem da imagem em situações de fora-de-jogo, se um frame atrás, se um frame à frente... E aqui muitos se confundem. E de muitas maneiras. Uns dizem-me que é impossível explicar futebol sem recorrer ao fator mais importante (helas!), que no entendimento deles é o árbitro. Argumentam que ao estar a escrever aquilo que estou a escrever agora, estou a comentar arbitragens – quando na verdade do que estou a falar é de espírito desportivo ou da sua falta. E, por fim, decretam já a morte do vídeo-árbitro porque, num lance em que ele nem sequer podia manifestar-se, por ser subjetivo, ele decidiu contra a vontade deles. Querem falar de arbitragens? Vamos a isso. Lembram-se do encontrão de Bruno César em Lindelof na época passada, que o árbitro não assinalou? Era penalti a favor do Benfica? Lembram-se do toque de Soares, ainda no Vitória de Guimarães, nas costas de Schelotto, que o árbitro não considerou faltoso, validando o golo que deu o 3-3 final aos minhotos contra o Sporting, aos 90’? Era falta? E, andando três anos e meio para trás, lembram-se do toque de Slimani nas costas de Rui Correia, num Sporting-Nacional, que acabou empatado a zero, porque nessa altura o árbitro considerou falta e anulou o golo ao argelino? Era falta? A questão é que em nenhum destes lances há uma verdade incontestável. Há opiniões. E aquilo que os leitores querem é que o jornalista dê a dele, para acionarem de imediato uma de duas opções: se estão de acordo, imediatamente decretam que aquele é um jornalista sério e – nunca esta palavra foi tão mal empregue – “isento”; se não concordam, imediatamente aquele jornalista é catalogado como um “avençado”, um “cartilheiro”, que se vende “por um pequeno-almoço” (se o insultante for benfiquista) ou “por um voucher” (se for sportinguista). E depois aparecem as comparações com o “grande jornalismo” que se faz “lá fora”, como se eles costumassem ler a imprensa internacional, como se “lá fora” fosse regra explicar jogos com a atuação dos árbitros, ou como se “lá fora” os árbitros não se enganassem também ou o futebol estivesse livre de lances que se prestam a decisões discutíveis.  O problema é que as pessoas não querem sequer falar de arbitragem. Aliás, estão-se mesmo nas tintas para a arbitragem. Querem validação das suas próprias opiniões parciais – nunca vi um adepto de futebol neutro reclamar que se fale mais de arbitragens. E é por isso que escolho não explicar os jogos que vou analisando com lances de arbitragem: porque este é um tema tão dado à intolerância que seca todos os outros que lhe queiramos juntar. E porque se entro por esse caminho nunca mais consigo falar de futebol. E, peço-vos desculpa a todos, é para falar de futebol que aqui ando. Para falar de arbitragens há por aí muita gente que sabe mais do assunto do que eu.
2017-08-13
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Tive há dias oportunidade de conversar longamente acerca da indústria do futebol com Pedro Proença, presidente da Liga Portugal – o resultado da conversa é uma entrevista publicada hoje em bancada.pt –, a propósito do início do campeonato, que esta tarde arranca com o Desp. Aves-Sporting. O momento é de preocupação global, face à louca escalada dos valores que o futebol continua a movimentar, e de que o caso-Neymar foi apenas o exemplo mais recente, tendo até levado a UEFA a uma ofensiva de relações públicas que chegou aos principais jornais desportivos europeus, mas o Pedro Proença que vi foi um homem estranhamente tranquilo e paciente, qualidades que podem facilmente ser confundíveis com desistência. Os dois anos que tem de experiência do lugar tê-lo-ão trazido até aqui, mas o que tem pela frente nos dois anos que lhe falta cumprir de mandato, até 2019, é tão difícil e exige tanto do patrão do futebol nacional que esta tentativa de mudar o sistema por dentro fica a parecer curta e corre risco de ser tão estéril como a luta de um Quixote contra os moinhos de vento. Proença revelou-se bom conhecedor daquilo a que chama as “boas práticas” internacionais, mas apesar disso fala vezes a mais daquilo que os clubes querem. Porque nesta questão há aquilo que os clubes querem, julgando que estão a defender interesses próprios, e aquilo de que o futebol nacional como um todo precisa. Exemplos? Impedidos de fazer a guerra comunicacional por regulamentos disciplinares mais apertados, os clubes passaram à guerrilha, com “pontas-de-lança” que os representam na perceção popular mas não são castigáveis por serem meros adeptos ou funcionários sacrificáveis face a um bem maior, que é o passar da mensagem bélica. A Liga quer resolver o problema apelando ao bom-senso dos presidentes, recuperando um Conselho Superior que mantenha a discussão no interior do edifício do futebol, mas apesar da vontade de exercer este magistério de influência, Proença pode debater-se com dificuldades insuperáveis. Porque, lá está, falta saber se os clubes querem. As tais “boas práticas” internacionais falam-nos de medidas mais proativas, da substituição de uma estratégia punitiva por outra, que preveja a ocupação do espaço mediático com conteúdos que privilegiem os verdadeiros artistas, os jogadores e os treinadores. Já aqui falei disso há semanas, aliás. Mas também aqui a Liga se deparou com dificuldades estranhas quando toda a gente devia querer o bem do negócio: os clubes não quiseram a centralização dos direitos televisivos, que permitiria aumentar a receita de uma forma significativa e, sobretudo, dividir esta receita de uma forma mais racional entre todos, com a diminuição do fosso entre grandes e pequenos. É assim que se faz em todo o lado, com uma implicação adicional: sendo a Liga a controlar a receita, poderia impor condições para a sua divisão; sendo a Liga a controlar os direitos, poderia impor condições benéficas para o futebol aos operadores que os quisessem retransmitir. Só que, lá está: os clubes não quiseram e, ao contrário do que sucedeu em Espanha, por exemplo, a Liga não quis pedir ajuda acima, ao governo, por exemplo, para fazer vingar aquilo que está até recomendado pela União Europeia. A única carta que a Liga tem na mão é a internacionalização, a vontade dos clubes chegarem a mercados até aqui inexplorados. Para tal, Proença conta com duas vantagens: a necessidade que os operadores terão desses mercados para rentabilizar o muito que pagaram pelos direitos televisivos dos jogos e o conhecimento do mercado asiático que terá conseguido quando foi à China buscar a Ledman para patrocinadora da II Liga. Também aqui, porém, acredito que a Liga terá de contar com o contra-vapor dos principais clubes, que a esta hora já estarão a mover-se para chegarem sozinhos a esses mercados, antes dos rivais e com mais força do que eles. Pedro Proença desvalorizou esse risco com base numa premissa que me parece não se aplicar ao futebol português: o bem geral, a noção de que juntos serão mais fortes. Claro que se forem todos em conjunto, ganharão mais. Mas se isso não foi tido em conta em nenhum dos outros aspetos, por que razão há-de ser neste? A ver vamos se, daqui a dois anos, não estaremos todos a lamentar que os clubes não tenham querido explorar aquela que parece a via de ação mais recomendável. O maior prolema que enfrenta a Liga de Pedro Proença tem a ver com o princípio filosófico de ação. Proença tem tentado ser o presidente que os clubes querem e acreditado na auto-regulação. Mas como as coisas estão, tenho dúvidas de que os clubes sejam quem melhor pode defender o futuro do futebol português. 
2017-08-06
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Há vários tipos de adeptos de futebol. Isto é: há vários tipos de consumidores para o produto que hoje sai da indústria do futebol e que engloba tudo, desde a bilheteira às assinaturas de canais especializados com passagem pela compra de informação relacionada com o fenómeno futebolístico. Nenhuns valem mais do que os outros. Todos contam. Mas alguns não têm como satisfazer a sua curiosidade. Há os adeptos do pitoresco, aqueles que adoram ver os vídeos do Augusto Inácio a zurzir no presidente do Zamalek, os mesmos que ainda choram a rir só de se lembrarem do Toni a falar do Essan ou do Vítor Pereira a vociferar “I speak the truth” perante uma atónita plateia de jornalistas sauditas. Para estes grandes consumidores de golaços e falhanços ridículos no YouTube, o momento alto do futebol nacional nos últimos anos terá sido a conferência de imprensa em que Paulo Futre deu um novo significado à palavra “sócio”, que até já fazia parte do léxico da modalidade, ainda que com outro alcance. Há os adeptos maravilhados, que agora só falam do futebol feminino e que antes se dedicavam a dizer que o futebol em Portugal não vai para a frente porque os jornalistas só querem saber dos três grandes – eles próprios não leem acerca de outras coisas, mas se pudessem decretavam que elas deviam lá estar, juntamente com aquelas modalidades acerca das quais toda a gente diz ler quando responde a inquéritos, quanto mais não seja para ficar bem na fotografia. Aliás, bastaria a qualquer deles olhar para os gráficos de vendas dos jornais ou para as audiências das televisões com os dois olhos abertos para perceberem o mundo real para o qual os seus hábitos de consumo também contribuem. Há os adeptos maldizentes por natureza, que só vêm futebol para dizer que o Renato Sanches não presta, que o William Carvalho é lento e precisa de um andarilho ou que o Casillas já está tão velho que devia andar de muletas. São os mesmos que toda a vida acharam um ultraje que Secretário tenha jogado no Real Madrid, que Luís Campos tenha feito carreira como diretor desportivo no estrangeiro ou agora que Vítor Pereira tenha sido contratado para dirigir a arbitragem grega – mesmo que sejam os mesmos que dizem que a arbitragem nacional só andava para a frente quando para cá viessem árbitros estrangeiros. Ainda não perceberam que é a realidade que não encaixa nas ideias deles mas continuam a viver na ilusão de uma conspiração global contra os interesses que defendem. Para responder a estes, apareceram os adeptos da embirração positiva. Os que chamam a atenção para o dinheiro que Renato Sanches continua a movimentar, para os golos de Gonçalo Guedes nos particulares do Paris St. Germain, para as grandes exibições do João Mário nos amigáveis do Inter Milão. Estes até podiam ter nascido da influência daqueles jornalistas que sonorizavam os resumos televisivos do futebol internacional nos anos 80 e que – por não haver mais portugueses lá fora – chamavam várias vezes a nossa atenção para o facto de Futre ou Rui Barros terem tocado na bola numa jogada que acabaria por dar golo. Mas não – o que querem, tal como os maldizentes, é prolongar os dérbis nacionais pela Europa, como se os jogadores continuassem a vestir as camisolas que eles defendem até à insanidade. E há os adeptos que gostam de futebol. Não são, como tive o cuidado de referir logo a abrir, melhores nem piores do que os outros, porque o futebol, felizmente, tem lugar para todos. As discussões fazem falta – não o digo no sentido de defender que o erro dos árbitros é o sal do futebol, só para que as pessoas possam debatê-lo, mas sim porque cresci num meio multi-clubístico de rivalidade sã – e também alimentam a indústria. A indústria é que, na sua voracidade controladora, alimenta cada vez menos o debate que faria crescer este último grupo, o dos adeptos que gostam mesmo de futebol. Um grupo no qual gosto mais de me incluir a cada dia que passa. A mim, como a muitos outros integrantes deste grupo, interessar-me-ia ouvir o que tem Rui Vitória a dizer acerca do normal envelhecimento dos homens que ele já tinha substituído há dois anos – Júlio César e Jardel – e da necessidade de voltar a fazer deles primeiras escolhas ao mesmo tempo que tem de inventar mais um lateral direito, depois de ter feito nascer Nelson Semedo para substituir Maxi Pereira. Interessar-me-ia debater com Sérgio Conceição as razões pelas quais Aboubakar, que se tornara excedentário no papel de avançado de referência no FC Porto de Lopetegui, pode ser agora fundamental com Soares à sua frente – ou ao seu lado – numa equipa montada de acordo com princípios diferentes, mais explosivos. Interessar-me-ia ouvir a resposta de Jorge Jesus a uma pergunta sobre o efeito pernicioso que o sistema de três defesas que ele tem andado a testar tem na construção de jogo ou de que forma a colocação de William como um desses três pode garantir qualidade a construir desde trás. Em vez disso, temos os treinadores a lerem respostas ditadas a perguntas igualmente escritas previamente pelos mesmos guionistas e interpretadas por quem se limita a fazer um papel que devia ser bem diferente. Fica tudo em família. A este futebol digo: não, obrigado! Prefiro ir ao cinema ou ao teatro, onde pelo menos os atores têm mais jeito para a representação. Texto inserido na edição de hoje do Diário de Notícias
2017-07-30
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Qual é o ponto em em comum entre o caso Mbappé, o caso Neymar e o caso Villar? É simples: é o dinheiro. É a tendência que o futebol está a revelar para cavar cada vez mais o fosso entre muito ricos e a classe média – já para não falar nos muito pobres –, o que nem é coisa do futebol, é coisa da sociedade em geral. O que o futebol tem, mas não tem aproveitado, são os meios de regulação que travariam este processo de aglutinação de tudo por tão poucos. Talvez nem tenha que o fazer. Talvez eu esteja a agarrar-me a um passado em que havia mais do que dez clubes que interessavam no panorama internacional. Talvez o fundamental seja que a justiça funcione e ponha de parte quem pisa o risco da legalidade instituída. Mas não creio. Centremo-nos em Mbappé, o jovem prodígio do Mónaco que a maior parte dos especialistas projeta poder vir a ser o jogador mais caro do Mundo a breve prazo. O jogador tem contrato válido com o Mónaco, mas conta-se que tem sido contactado por todos os grandes colossos do futebol europeu, aqueles dez que contam verdadeiramente para o campeonato do dinheiro. Os jornais enchem-se de manchetes a falar de reuniões entre os agentes do jogador e a estrutura do Paris St. Germain; de telefonemas de Zidane, treinador do Real Madrid, a garantir-lhe que se se mudar para o Bernabéu lhe assegura minutos de competição suficientes para poder continuar a crescer; das tentativas de Arsène Wenger, treinador particularmente influente quando se trata de jovens franceses, para o convencer a escolher o Arsenal… Tudo isto é ilegal, porque o jogador não está nos últimos seis meses de contrato. E no entanto tudo isto se faz – a ponto de o comunicado do Mónaco, recorrendo a um ponto do Regulamento Administrativo da Liga Francesa e a outro do Regulamento de Transferências de Jogadores da FIFA, ser algo para o que se olha com algum desdém. “Lá estão estes a falar das leis”… O mesmo poderia ser dito de Neymar, jogador que tem contrato de longa duração – renovado há um ano – com o Barcelona, mas que alegadamente o terá feito na convicção de que Messi ia atrás de Guardiola e que ele se transformaria na estrela de primeira grandeza blaugrana. Não aconteceu. Messi renovou. E Neymar recorreu ao mesmo expediente que usara há um ano para conseguir a renovação, com passagem de cláusula de rescisão de 200 para 222 milhões de euros: deixou-se querer pelo Paris St. Germain, lançando o pânico nas hostes catalãs. Também aqui se fala de reuniões e se pedem comunicados, nem que sejam através do instagram do jogador, que tem mantido o silêncio. E a operação é apresentada não apenas como possível mas até como potencialmente lucrativa até do ponto de vista económico-financeiro, tal seria o peso que uma eventual chegada de Neymar a Paris teria na força nacional e internacional do clube parisiense. Não se põem em causa sequer as regras do “fair-play financeiro” que qualquer colosso do futebol europeu – PSG e Barcelona incluídos – sabe como driblar, seja através de contratos publicitários com o grupo que dono do clube ou da venda inflacionada de direitos televisivos ao mesmo grupo financeiro. A verdade é que se olha para o caso Neymar e conclui-se que o jogador faz mais sentido em Paris do que em Barcelona. Porque, aí está, ao contrário do caso Mbappé, a transferência do brasileiro contribuiria para aumentar o lote de clubes com estrelas de primeira grandeza – e o PSG neste momento não tem nenhuma. O que faz pouco sentido é que, fruto de um sistema que leva à concentração das grandes receitas nas mãos dos mesmos clubes – e outros a penar para conseguirem reunir as migalhas que lhes permitam cumprir orçamentos – haja clubes com dois ou três candidatos a Bola de Ouro a atropelarem-se no mesmo balneário. E é aqui que entra a ligação ao caso Villar – e se falo do caso Villar é apenas por ter sido o último, porque podia falar de qualquer outro caso em que haja dinheiro à solta nas margens dos negócios do futebol, que a pertinência seria a mesma. Porque o futebol continua a sofrer com uma falta de regulação que se encontra, por exemplo, nos desportos americanos, e que vem contribuir para que o dinheiro que se escapa pelas frechas dos contratos seja tanto que serviria para financiar mais clubes de alto nível e aumentar a concorrência. Lembremo-nos, por exemplo, da chegada a Portugal de Freddy Montero. Para ir contratar o colombiano, o Sporting não teve de chegar a acordo só com o Seattle Sounders, clube que era detentor do seu passe. Teve de conversar também com a Major League Soccer (MLS), que pôs em campo um regulamento de transferências de tal forma bizantino que dificilmente algo lhe escapa. E que, tal como em qualquer outra liga americana (NFL, NBA, NHL, MLB…) favorece a concorrência e impede a concentração dos melhores talentos nas mesmas equipas. Podem até alegar que o fazem para favorecer o negócio. É verdade. O propósito da coisa é esse. Mas a verdade é que com estas regras tão fechadas se impede que o dinheiro escape e, ao mesmo tempo, mantendo a concorrência em altas, se mantém mais adeptos felizes. Aquilo a que estamos a assistir no futebol europeu é precisamente o oposto – muito dinheiro a escapar e cada vez mais adeptos infelizes, porque a concentração de talentos leva à eternização dos campeões. É por isso que fenómenos como o Leicester (campeão inglês em 2016) ou o Mónaco (campeão francês em 2017) são tão bem acolhidos por quem gosta de futebol. Porque permitem agitar as águas. Porque o que mais se vê por aí são campeões eternos (cinco vezes o Bayern, seis vezes o Celtic ou a Juventus, oito vezes o Basileia) e gente a afastar-se do futebol porque este deixa de lhe dar razões de satisfação.
2017-07-23
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O Google tem destas coisas e de repente há temas que saem debaixo das pedras, que sobem no ranking dos motores de busca, ressuscitados por acontecimentos recentes. No seguimento da venda de Nelson Semedo ao Barcelona, apareceu-me uma frase de Luís Filipe Vieira que comecei por tomar por atual: “Este é o último ano em que precisamos de vender”. Afinal, o presidente do Benfica tinha-a a proferido em Agosto de 2013, há quatro anos, numa entrevista à Benfica TV. E nos anos que se seguiram foi batendo sucessivamente o recorde de vendas. Para gáudio de uns (os adeptos que gostam de ganhar o campeonato das vendas), arrelia de outros (os que acham que o Mundo vai acabar e que é possível manter os jogadores para sempre, como se eles não tivessem vontade própria), dúvida sistemática de outros ainda (os que não entendem como é que, mesmo assim, a dívida não desce substancialmente) e preocupação de um (Rui Vitória, que este ano vai precisar de recompor quase todo o setor defensivo). O ressurgimento da frase nos motores de busca teve a ver com a ação de um destes grupos, os mais descontentes, que a terão recordado em fóruns ou nas redes sociais, fazendo-a crescer nos rankings que estão por trás dos algoritmos. Esses, porém, são em boa parte os mesmos que quando o Benfica não renovou contrato a Maxi Pereira porque tinha lá Semedo desesperaram como se o Mundo tivesse data de validade a expirar. São os pessimistas permanentes, os que olham para a equipa que teriam se não houvesse saídas, mas que depois se esquecem de descontar as entradas, sem as quais a equipa também seria muito mais fraca. A esses, vale a pena lembrar que 30 milhões de euros por um defesa lateral são um bom negócio, mesmo tendo em conta o aumento de importância dos laterais no futebol moderno. E que o erro – que acabou por acicatá-los, até – foi terem andado a dizer-lhes que Semedo só sairia pela irreal cláusula de rescisão que lhe puseram no contrato. Os do primeiro grupo, os que fazem tabelas de vendas e somam milhões como se de repente passassem a tê-los no extrato bancário, andam maravilhados. Esfregam as mãos de contentes por superarem a concorrência neste particular, recordando que entre Ederson, Lindelof, Marçal, Mukhtar, Candeias e agora Nelson Semedo, os 100 milhões já lá vão. A julgar pela regularidade com que o Benfica tem atingido esta fasquia – este é o quarto verão sucessivo, após a tal frase de Vieira, no qual os encarnados rondaram os 100 milhões em vendas – as transferências na Luz já estão mais perto de ser receita ordinária do que extraordinária. E a estes vale a pena lembrar que não é tudo lucro. Que não só há casos de jogadores cujo valor não reverte totalmente para o clube, como foi o caso de Ederson (cujo passe era partilhado com o Rio Ave ou com quem quer que seja que o detivesse por trás do Rio Ave), como já se sabe que quando um clube entra nestas coisas do mercado com a força com que, por força da sua parceria com Jorge Mendes, o Benfica tem entrado, sabe que tem de manter a máquina a rolar. Que para beneficiar da parceria não tem só de vender – também tem de comprar. E neste busílis está a resposta ao terceiro grupo, o dos que não entende como é que apesar de todo o dinheiro realizado, a dívida não baixa substancialmente. O propósito de um clube como o Benfica não é vender nem comprar jogadores. É ganhar campeonatos. E esses o Benfica tem-nos ganho. Pelo caminho, vende muito e compra muito, é verdade, mas isso é acessório. No plano abstrato é fácil de entender que se há um player que exerce uma força dominante sobre o mercado e nos ajuda a vender ativos a valores apetecíveis, depois quererá também que o ajudemos a escoar ativos de outros parceiros que estejam num patamar abaixo. Essa tem sido, até aqui, a estratégia do Benfica, que vende muito, compra muito, move muito dinheiro mas não reduz a dívida de forma substancial. E por que é que isto importa, neste momento? É que pela primeira vez em quatro anos quem parece estar a ser negligenciado é o quarto grupo. O grupo formado por Rui Vitória e pelos que com ele tentam encontrar soluções para refazer a equipa no seguimento das vendas. Este ano, Vitória terá uma tarefa muito dura pela frente. Tem de substituir três dos cinco elementos mais valiosos da sua defesa: um guarda-redes que se tornara preponderante tanto na estratégia defensiva (porque permitia que a defesa jogasse invulgarmente alto) como ofensiva (pela saída de bola de proporciona); um lateral direito que fazia todo o corredor e se impunha a chegar à linha de fundo para cruzar mas também pela velocidade de recuperação; e um defesa-central sóbrio, que funcionava como complemento perfeito a Luisão. Até ver, não se viram grandes movimentações no sentido de assegurar entradas de jogadores pelos valores que, ainda assim, o Benfica vinha gastando, o que até leva a crer que, finalmente, quatro anos depois, a frase de Vieira possa fazer sentido: se abater dívida em vez de se reforçar com jogadores caros, o Benfica pode estar a criar condições para não ter de parecer tão interessado em vender na próxima época. É verdade que no plantel já havia peças sobressalentes para substituir Ederson, Semedo e Lindelof, ou que eles mesmo foram peças sobressalentes lançadas nos últimos dois anos para substituir Júlio César, Maxi Pereira e Jardel. Mas acreditar que o truque resulta sempre pode ser um excesso de confiança quase tão pernicioso como o alimentar permanente da conta corrente de entradas e saídas. Texto incluído na edição de hoje do Diário de Notícias
2017-07-16
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O novo Sporting de Jorge Jesus é uma incógnita quase tão grande como o novo FC Porto de Sérgio Conceição. O segundo falhanço na tentativa de ataque ao título nacional – e sobretudo a clara noção de que a equipa esteve mais longe de lá chegar do que na primeira vez – levaram a mais uma revolução no plantel, a um abalo que pode até estar ainda longe de conhecer o fim, uma vez que falta saber o que vai acontecer com os alvos que o leão tem mais apetecíveis no mercado internacional: Rui Patrício, William, Adrien e Gelson. No fundo, tudo depende deles e da política adotada por Bruno de Carvalho para lidar com os apetites internacionais por eles. Nem tão mole como era tradição em Alvalade antes da sua chegada, nem tão inflexível como se mostrou há um ano. A grande dificuldade na condução de uma equipa da dimensão do Sporting – que é grande num mercado periférico, mas cujos resultados internacionais e salários praticados mostram que é pouco mais do que irrelevante no panorama internacional – tem precisamente a ver com a gestão de expetativas dos jogadores mais renomados. A excelente primeira época de Jesus, seguida de um Europeu onde Portugal foi muito para lá do esperado, sagrando-se campeão europeu com uma série de jogadores leoninos no onze, levou a que lá fora se olhasse para Alvalade como se de um mercado de pechinchas se tratasse. Porque os jogadores até podem ter cláusulas de rescisão muito altas, mas se elas forem pouco condizentes com os salários que lhes são pagos isso acaba sempre por se virar contra o clube que as estabelece. De que serve proteger um jogador com uma cláusula de rescisão de 100 milhões de euros, se depois ele ganha dez vezes menos do que os jogadores cujo valor real de mercado são mesmo esses 100 milhões de euros?  Na prática, serve para que o clube possa segurar o jogador, é verdade. Mas isso é bom se de repente houver quem lhe ofereça um salário quatro ou cinco vezes maior do que ele ganha mas queira pagar apenas um terço da cláusula de rescisão, isto é, o real valor do jogador? A dúvida é: vale a pena ficar com jogadores contrariados? Não há certezas a este respeito. No ano passado, Bruno de Carvalho aceitou perder João Mário e Slimani, mas teve de se atravessar para ficar com Adrien, por exemplo, que fez de tudo – incluindo uma entrevista à revelia do clube, na qual assumiu a vontade de ir embora – para forçar a saída para o Leicester. E se é verdade que nenhuma equipa que tenha aspirações deve ser de um ano para o outro forçada a perder mais do que dois ou três jogadores, o que o fracasso da última época terá dito é que também não pode assentar a estrutura em elementos cuja cabeça esteja longe. O mais razoável é que haja um fluxo de comunicação desempoeirado entre clube e jogadores, em que estes aceitem a lógica do par de saídas por ano e o clube assuma uma fila de prioritários. Olhemos para casos práticos. Em 2003, por exemplo, José Eduardo Bettencourt assumira que, já tendo vendido Quaresma ao Barcelona, e sem necessidades de tesouraria prementes, não ia deixar sair mais nenhum jogador de peso. Mas apareceu o Manchester United por Ronaldo e o Sporting não resistiu. Foi um erro? Creio que sim. Um ano depois, o jogador poderia certamente ser muito mais rentabilizado financeiramente e de caminho até poderia ter conquistado algo com a camisola do Sporting. Saiu logo ali porquê, então? Porque o clube não era capaz de resistir à pressão do mercado, dos jogadores, dos empresários, dos colossos europeus. A cena repetiu-se vezes sem conta no Sporting desde essa altura. Jogadores a saírem antes de tempo, antes da glória desportiva, antes de terem um valor decente no mercado, um valor que compensasse o clube por se separar deles. Porquê? Porque eles queriam. Chegava-se ao ponto de qualquer jogador formado no Sporting já não ter como objetivo imediato de carreira o fixar-se na equipa principal mas sim o sair para o estrangeiro. A geração dos Bruma, dos Ilori, dos Edgar Ié, já não tem raiz em Portugal. Bruno de Carvalho mudou isso e assumiu a atitude rigorosamente inversa desde o seu primeiro defeso, onde teve de lidar com os casos Dier e Bruma, por exemplo. O Sporting passou a ser capaz de vender menos e muito melhor, mas a forma como correu a última época desportiva deixa dúvidas acerca de tanta inflexibilidade e pode ser uma forma de lançar o que aí vem. Até ver, os leões estão a construir um super-plantel. Falta perceber duas coisas. Se as estrelas que por cá estavam ficam e se, em caso afirmativo, isso não pode transformar os novos recrutas em peças sobressalentes sem uso, acabando por torná-los tão inúteis como aconteceu há um ano com Petrovic, Elias ou Markovic.
2017-07-09
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Rui Vitória lançou o alvoroço nas hostes benfiquistas ao dizer, em entrevista à BTV, que está a ponderar fazer “mudanças táticas e na forma de jogar” da equipa tetracampeã nacional. Duas coisas a este respeito. Primeiro, que mudanças táticas não implicam um novo sistema, como já vi escrito. Depois, que a afirmação me parece muito mais para consumo externo do que para debate ou plano de ação no Seixal. A questão não é tanto a de ser tolice mudar algo que, para já, funciona: as grandes organizações são as que mudam antes de entrar na curva descendente. A questão é sobretudo a de não se verem alternativas melhores do que o recurso à qualidade de Jonas. E de se perceber se vai ou não haver Jonas. Muito daquilo que for o Benfica de 2017/18 vai depender da capacidade de Rui Vitória para voltar a potenciar Jonas, o avançado que foi fulcral há dois anos, mas a quem problemas físicos roubaram grande parte da época passada. E Jonas, tal como Ronaldo, por exemplo, rende mais como avançado em 4x4x2, com uma referência frontal presente, que lhe permita escolher por onde circular, do que num sistema mais próximo do 4x3x3, que o obrigasse a ser ponta-de-lança solitário. Rui Vitória, ele próprio um treinador que sempre gostou do 4x2x3x1, tentou aplicar este sistema à chegada à Luz: a primeira partida oficial que fez no Benfica, uma Supertaça perdida contra o Sporting, foi abordada neste sistema, com Talisca atrás e Jonas como ponta-de-lança solitário. Não resultou. E com Jonas será sempre má ideia regressar a essa variante. Porque, tal como Ronaldo, mais uma vez, Jonas é um excelente finalizador, mas não deve pedir-se-lhe que seja a referência avançada da equipa, não se deve amarrá-lo aos centrais adversários. Ele ajuda mais a equipa se aparecer atrás do homem que faz isso. É verdade que, na sequência daquela frase, Rui Vitória deixou essas eventuais mudanças como dependentes de várias coisas. “Está dependente de eventuais saídas de jogadores-chave”, disse. “Uma coisa é ter um lateral que entra na área, outra é ter um que só faz jogo por fora. Uma coisa é ter o Jonas, outra é atuar sem ele”, prosseguiu. E aí está, mais uma vez, Jonas no centro da decisão. Parece mais ou menos evidente que as saídas de jogadores-chave, no Benfica, já não irão muito além das que se verificaram. Sem Ederson, Vitória perde qualidade entre os postes e uma alternativa viável na saída de bola mais direta. Sem Lindelof, também perde qualidade no centro da defesa, que pode tentar resgatar entre as até aqui segundas opções, como Jardel ou Lisandro. Isto, presumindo que Luisão consegue fazer mais um ano no top. A verificarem-se mais saídas, como as dos laterais – e Vitória referiu-se a isso na entrevista – a questão passará sempre por ser capaz de encontrar alternativas no mercado. Tarefa em que os cofres entretanto reforçados podem ajudar. E muito. Porque a maior arma do Benfica para ser considerado favorito na nova época é a continuidade. Há novos argumentos na frente – Seferovic permite uma maior exploração da profundidade ofensiva do que Mitroglou e até Jiménez, sem perder capacidade defensiva – mas há sobretudo a noção de que os que já existiam continuam a ser válidos. E se Jonas já recusou o exílio na China em Janeiro, como também não é admissível que possa vir aí uma equipa de topo de um dos campeonatos mais representativos da Europa atrás dele neste momento, não haverá razão nenhuma para que pense agora que ele possa sair. A não ser que a dúvida de Rui Vitória esteja, de facto, na capacidade de Jonas para voltar a ser o Jonas de 2015/16. No fundo, essa é a grande dúvida em torno de um Benfica que, pela primeira vez desde a chegada de Rui Vitória, entra na Liga com o estatuto de maior favorito popular.
2017-07-07
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Um dos grandes atrativos desta pré-época vai ser ver o FC Porto de Sérgio Conceição. Um FC Porto “boom-boom”. Não só o treinador é um tipo explosivo, em termos de personalidade e liderança, como o futebol das suas equipas costuma ser muito baseado na capacidade de explorar as transições ofensivas. E o plantel vai reforçar-se com elementos capazes de servir este modelo. A dúvida que se coloca é a mesma que deve assaltar neste momento a cabeça do treinador: é possível montar uma equipa candidata ao título em Portugal assente nestes princípios, provavelmente mais dados à competição internacional? A pré-época vai certamente dar-nos pistas a este respeito, mas a ideia com que parto é a de que Conceição ganharia muito, por exemplo, em convencer Abobuakar a regressar. Mesmo depois de todos os desencontros que clube e jogador já protagonizaram. As equipas de Conceição costumam ser um pouco montadas à imagem do que era o Conceição jogador: velozes, explosivas, genuínas, mas não controladoras ou dominadoras. Já em Braga, por exemplo, ficaram dúvidas acerca da viabilidade de uma equipa que quer estar ao nível dos três grandes jogar este futebol baseado sobretudo em transições ofensivas. O jogo mais visível de Sérgio Conceição como treinador em Portugal – a final da Taça de Portugal, contra o Sporting, em 2015 – terá deixado a nu o problema: a ganhar por 2-0 e com um jogador a mais, por expulsão de Cédric, desde meio da primeira parte, o SC Braga decidiu controlar e deu-se mal, acabando por ceder o empate e perder nos penaltis. A separação de António Salvador teve mais a ver com aspetos de personalidade – a tal explosão sincera e genuína que é tão comum em Sérgio Conceição – mas a questão meramente futebolística merece ser debatida agora que o treinador chega a um grande. À partida, seria fácil associar o futebol típico de Conceição a um futebol de equipa pequena. Não tem de ser assim. E a diferença está precisamente na capacidade de explosão – daí falar aqui em FC Porto “boom-boom”. Ao contrário de Lopetegui, cuja equipa usava e abusava da posse, Nuno Espírito Santo, por exemplo, é um treinador da escola de Jesualdo Ferreira, um treinador que dá particular atenção às transições ofensivas e que gosta do ataque rápido. E o sucesso, aí, depende de quê? De médios inteligentes, capazes de definir bem o que fazer naqueles cinco segundos após a recuperação da bola (o momento de transição), e de atacantes capazes de explorar o espaço. Qual é o maior problema? É o que resulta do paradoxo-Depoitre: há equipas que, contra os grandes, se expõem tão pouco que obrigam a um jogo quase sempre em ataque organizado. Foi para isso que Nuno Espírito Santo quis Depoitre e foi com o falhanço do belga que o FC Porto anterior se espalhou. Ora a diferença entre esse FC Porto e o de hoje pode estar precisamente na capacidade de meter dinamite na frente. Para dinamitar o jogo portista, ficam Corona (veloz e repentista), Soares (bem na profundidade) e Danilo (bem a queimar linhas em posse), acrescentam-se Marega (explosivo), Hernâni (veloz e repentista) e Ricardo Pereira (explosivo, sobretudo se a jogar desde posições mais recuadas). E há ainda a possibilidade de também reaparecer Aboubakar (explosivo e combativo), que encaixaria que nem uma luva neste novo FC Porto. Ainda que para tal tivessem de o convencer de que o paradigma mudou e de que, ao contrário do que sucedia com Lopetegui, esta equipa lhe serve as caraterísticas. Era ainda preciso passar uma esponja sobre uma série de coisas que se disseram, de um lado e do outro. Mas isso é uma especialidade do futebol.
2017-07-06
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O futebol é, há muitos anos já, coisa de profissionais onde, com cada vez mais raras exceções, quem tem verdadeiro amor à camisola – ou ódio, muitas vezes, que aqui funciona mesmo como uma espécie de amor ao contrário – são apenas os adeptos. Os jogadores, esses, tal como os treinadores, os jornalistas e ultimamente até os dirigentes, são profissionais. Sempre defendi que deve exigir-se-lhes que façam tudo o que podem em defesa das cores com as quais têm contrato enquanto esse vínculo vigora e nada a partir do dia em que ele termina. Querer levar a coisa para além disso é uma ilusão a que só uma meia dúzia de eleitos pode corresponder: os que aliam paixão clubística com independência financeira. Foi por isso que o vídeo de apresentação de Fábio Coentrão como jogador leonino, no qual o jogador diz já ter vestido muitas camisolas mas ter sido sempre “feito de Sporting”, me disse tanto como aquele outro, até há pouco tempo apresentado como a verdade, no qual o jogador dizia que em Portugal só jogaria no Benfica. Ou como uma entrevista mais antiga, dada num momento em que Coentrão ainda era jogador do Rio Ave mas já se dizia nos jornais que o Sporting podia estar interessado nele, na qual o jogador confessou que era sportinguista e que jogar em Alvalade seria uma honra. Qual é a verdade que vale aqui? A primeira, por ser mais antiga? A última, por ser mais atual? Na verdade, isso devia ser irrelevante, pois em todos os casos aquilo que Coentrão quer é agradar a quem nele aposta. Fica-lhe bem esse sentimento de gratidão, mas não devia ser preciso demonstrá-lo assim, ignorando a existência de neurónios na cabeça de quem o ouve. E no entanto, ele fá-lo. Como o fazem outros. Porquê? Porque a verdade é que isso conta. A partir do momento em que Coentrão disse agora o que disse e isso foi posto a circular nas redes sociais, estas vão ser palco de uma luta entre dois exércitos: os que acham que Coentrão andou anos a enganar o Benfica e a sofrer pelo Sporting e os que acham que Coentrão foi feliz no Benfica e agora vai enganar o Sporting. Não alinho num grupo nem no outro. Tanto se me dá se, no fim dos jogos do Real Madrid, Coentrão ia perguntar à família como ficou o Sporting ou como ficou o Benfica. E a Jorge Jesus, outro sportinguista que foi feliz no Benfica e tenta tudo para voltar a sê-lo no Sporting, isso também não interessa nada. O que lhe interessa é saber se o jogador ainda é capaz de encher o corredor esquerdo como fazia quando ele o liderava no Estádio da Luz. O resto é conversa para encher chouriços e enganar tolinhos.
2017-07-05
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