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Foram 27 em 728. Quase quatro por cento dos golos desta Liga portuguesa foram autogolos, havendo neste aspeto dois jogadores que se destacaram: o egípcio Aly Ghazal e o português Pica, que tiveram por três vezes a infelicidade de desfeitear o seu próprio guarda-redes, quando tentavam evitar o pior. Em termos coletivos, a equipa mais fustigada por esta infelicidade foi o Nacional, com cinco autogolos, enquanto que o mais beneficiado foi o Benfica, com quatro autogolos a favor. A propensão para marcar na própria baliza acabou por cortar a progressão a Aly Ghazal na equipa do Nacional. O médio e defesa egípcio tinha sido um dos jogadores-chave para Manuel Machado nos últimos anos, mas esta época correu-lhe particularmente mal. Logo à segunda jornada foi ele a desfazer o 0-0 num Nacional-Benfica, que os encarnados acabaram por ganhar por 3-1. À 11ª ronda, em Novembro, e mais uma vez com o resultado em branco, voltou a bater Rui Silva para estabelecer o 0-1 final de uma partida contra o Estoril. Um mês passou e, outra vez com um 0-0 no marcador, Aly Ghazal assinou mais um autogolo, num jogo que o Nacional acabou por perder por 2-1, contra o Rio Ave, em Vila do Conde. O egípcio só jogou mais uma vez pelo alvi-negros, quatro dias depois, numa derrota em casa contra o Boavista, mas saiu aos 36’, com o resultado já em 0-2, e acabou por deixar o clube no mercado de Janeiro, para jogar no Guizhou Hengfeng Zhicheng, da China. Por sua vez, também Pica viu essa tendência para os autogolos arruinar-lhe a época. Titular no centro da defesa beirã no início da temporada, fez logo um autogolo à terceira jornada, na derrota em casa (0-1) contra o Belenenses. Acabou por perder a vaga em inícios de Outubro, mas reassumiu a titularidade em meados de Novembro, mantendo-a até um jogo terrível, em Setúbal, na antevéspera de Natal. Nessa noite, Pica não fez só um – fez dois autogolos, a abrir e a fechar um score que ficou pelos 3-0 favoráveis aos sadinos. Pepa, que substituiu Petit nos comandos da equipa no início de Janeiro, só o utilizou três vezes até final da época, tendo-o sempre no banco na reta final, marcada pelas cinco vitórias em seis jogos que valeram a salvação à equipa. Com cinco autogolos, o Nacional foi a equipa que mais vezes marcou na própria baliza – além dos três de Aly Ghazal, há a registar um de Nené Bonilha pelo Belenenses e outro de César a favor do Sp. Braga. No final, só quatro equipas não registam autogolos: Benfica, FC Porto, Chaves e Estoril. Por outro lado, o Benfica foi o principal beneficiário, com quatro autogolos a seu favor. Além do já citado, de Aly Ghazal, o tetra-campeão nacional teve ainda mais dois a abrir os resultados, em duas vitórias que acabaram por ser folgadas: um de Luís Aurélio (Feirense) e outro de Luís Martins (Marítimo). Falta referir o autogolo de Fábio Espinho (Boavista), que acabou por dar um ponto, pois estabeleceu o empate final (3-3) no Estádio da Luz. Ao todo, 15 equipas viram os adversários marcar autogolos a seu favor, sendo as exceções o Sporting, o Boavista e o Arouca.
2017-05-23
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Bressan, do Chaves, e Iuri Medeiros, do Boavista, foram os jogadores que mais golos fizeram na conversão de livres diretos nesta Liga: três cada um. Mas as suas equipas não foram, ainda assim, as que melhor aproveitaram estas bolas. Quem mais golos marcou em livres diretos foram o Paços de Ferreira e o Tondela, com a particularidade de os beirões terem obtido os seus quatro golos de livre através de quatro marcadores diferentes. No polo oposto está o Marítimo, que encaixou quatro golos de livre direto nesta Liga. Primeiro, os especialistas. O pé esquerdo de Iuri Medeiros foi três vezes certeiro, e duas delas no mesmo jogo – frente ao Marítimo obteve dois golos de livre, o primeiro na convergência da meia-lua com a linha de área, sobre a direita do ataque, e o segundo perto do bico da área, do mesmo lado. Antes disso, Iuri já tinha marcado de livre ao Benfica, igualmente sobre a direita, mas um pouco mais atrás. Por sua vez, o pé direito de Bressan nem precisou de tantos jogos para marcar os seus três golos de livre direto. O bielorrusso de origem brasileira jogou apenas 15 vezes pelo Chaves – contra as 27 em que Iuri representou o Boavista – e os seus golos parecem o outro lado do espelho dos do boavisteiro: marcou a Feirense, V. Guimarães e Estoril sempre do lado esquerdo, entre o bico da área e a convergência entre a meia-lua e a linha de grande área. Curioso é que nem com este “avanço” o Boavista e o Chaves tenham conseguido ser as equipas mais goleadoras neste particular. Ambas se ficaram pelos três golos de livre, menos um do que os obtidos por Paços de Ferreira (dois de Welthon, um de Andrezinho e um de Pedrinho) e Tondela (Candé, Lystsov, Pité e Pedro Nuno marcaram os golos, este último da vitória em Arouca que acabou por revelar-se decisiva para a permanência). Cinco equipas não fizeram um único golo de livre direto na Liga – foram elas V. Setúbal, Belenenses, Moreirense, Arouca e Nacional. O Belenenses até marcou dois, mas ambos na Taça da Liga. Do outro lado, o bom, foram também cinco as equipas que nunca foram batidas de livre direto na Liga: FC Porto, Rio Ave, Paços de Ferreira, Belenenses e Tondela. Os mais castigados neste particular acabaram por ser Marítimo (quatro golos sofridos), Sporting, Arouca, Feirense e Boavista (todos com três). O guardião brasileiro Charles, que jogou apenas por pouco mais de meia época na baliza dos insulares, tem aqui muito com que se entreter durante as férias, pois este é um ponto em que precisa mesmo de melhorar.
2017-05-23
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Gelson Martins foi o maior assistente da Liga portuguesa em 2016/17, assinando dez passes para golo. O jovem extremo do Sporting sucedeu assim ao lateral portista Layún, que na edição anterior tinha protagonizado 15 assistências, ficando o decréscimo no total associado ao facto de Gelson não ter feito nenhum passe decisivo na sequência de bolas paradas, uma das especialidades do mexicano. Os maiores rivais de Gelson na lista desta época foram o lateral portista Alex Telles – sucessor de Layún no onze do FC Porto – e o extremo Iuri Medeiros, que esteve emprestado pelo Sporting ao Boavista. Ambos terminaram a Liga com oito assistências no currículo. A produção de Gelson Martins, no entanto, esteve longe de ser regular. Das suas dez assistências para golo, oito apareceram na primeira volta e sete nas primeiras doze rondas – enquanto o Sporting esteve vivo na luta pelo título. Desde a derrota na Luz, à 13ª jornada, o jovem extremo fez apenas mais três passes para golo: assistiu Bas Dost no empate em Chaves com que se encerrou a primeira volta, em meados de Janeiro; deu um golo a Alan Ruiz em Arouca, nos inícios de Abril; e outro a Matheus Pereira na receção ao Chaves, no último domingo. Se foi o Sporting que se ressentiu da quebra de Gelson ou este a sentir a quebra da equipa, isso já é mais difícil de definir. Certo é que Gelson vinha sendo de uma regularidade extraordinária, pois dava golos em quase todos os jogos (as suas dez assistências apareceram em dez jogos diferentes) e a vários companheiros: Bas Dost, com quatro golos após passes de Gelson, foi o único repetente, sendo os outros beneficiados Bryan Ruiz, Adrien Silva, Campbell, William Carvalho, Alan Ruiz e Matheus Pereira. A lista dos maiores criadores de golos da Liga segue, como já foi escrito, com Alex Telles e Iuri Medeiros, ambos com oito assistências. Com sete aparece o primeiro assistente do Benfica, campeão nacional: o médio Pizzi somou sete assistências, ainda assim mais uma do que na época anterior, na qual o principal criador do Benfica tinha sido Gaitán, entretanto transferido para o Atlético de Madrid. E Pizzi não está sozinho: também com sete passes de golo aparecem o avançado vimaranense Marega (emprestado pelo FC Porto) e o lateral maritimista Patrick. O top 10 dos assistentes completa-se com André Silva (FC Porto), Nelson Semedo (Benfica), Otávio (FC Porto), Pedro Santos (Sp. Braga), Raphinha (V. Guimarães), Salvio (Benfica) e Wilson Eduardo (Sp. Braga). Todos somaram seis assistências.
2017-05-23
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Se a Liga portuguesa perdeu golos, a responsabilidade não é seguramente de Bas Dost, um cidadão holandês mais alto que a média que o Sporting foi buscar ao Wolfsburg para substituir Slimani, quando este saiu para o Leicester. Bas Dost estreou-se apenas à quarta jornada, já o mês de Setembro ia quase a meio, com um golo ao Moreirense, mas conseguiu na mesma acabar a prova como melhor marcador. Apontou 34 golos, a uma média de um por jornada (sem descontar as três em que ainda por cá não andava, porque disso ninguém teve culpa), sendo o primeiro a chegar a estes valores desde que, em 2001/02, Jardel apontou 42 e levou para casa a Bota de Ouro europeia. Dost teve de contentar-se com a prata. Nos 15 anos que mediaram entre as duas proezas, só um homem tinha passado a barreira dos 30 golos: foi Jonas, que acabara a época passada com 32. Bas Dost, que além dos 34 golos no campeonato, só fez mais um na Taça de Portugal e outro na Liga dos Campeões – há, ainda, mais um na Taça da Alemanha, antes de assinar pelo Sporting – fez uma segunda volta muito melhor do que a primeira. O bis ao Chaves no encerramento da primeira volta levou-o a chegar ao ponto de viragem com 13 golos, aos quais somou 21 na segunda volta. Sinal de adaptação crescente ao novo campeonato e à nova equipa foi o facto de os seus três hat-tricks (Boavista, Sp. Braga e Chaves) e o póquer (ao Tondela) terem todos eles surgido neste segundo turno. Somou-lhes bis a Nacional, Paços de Ferreira (ambos também na segunda volta), Chaves, Feirense, Arouca e Estoril (estes na primeira vez que os defrontou). Bas Dost fez golos a 15 dos 17 adversários que teve na Liga – só o FC Porto e o V. Guimarães não o viram meter a bola no fundo das redes. É sabido que só mais perto do final da Liga começou a marcar penaltis, mas ainda converteu sete, o que veio contribuir para retirar algum peso à sua principal arma, que é o jogo aéreo: dos 34 golos que fez na Liga, 12 foram de cabeça, 21 de pé direito e apenas um de pé esquerdo (o segundo nos 2-1 em casa ao Feirense). Quase todos nasceram dentro da área: a exceção aqui, é um golo nos 4-2 ao Estoril, marcado cara-a-cara com o guarda-redes, após passe em profundidade de William Carvalho. O holandês marcou mais golos na segunda parte (20) do que na primeira (14), tendo como período predileto o segundo quarto de hora deste segundo período (nove golos entre os 61’ e os 75’), mas tanto marca golos a abrir (o mais madrugador foi logo aos 5’, no Sporting-Feirense) como a fechar (comprova-o o golo da vitória frente ao Belenenses, no Restelo, aos 90+3’). Curioso é que Gelson, o principal assistente do Sporting, não tenha disparado nos passes decisivos para Bas Dost. A prova de que a ligação entre os dois ainda pode ser melhorada é que o jovem extremo português fez tantas assistências para Bas Dost como o costa-riquenho Campbell (quatro), sendo os dois seguidos por Alan Ruiz, Schelotto, Bruno César e Matheus Pereira (todos com dois passes para golo) como principais municiadores do goleador holandês.
2017-05-22
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Já deve ter reparado que a Liga portuguesa perdeu golos em relação ao ano anterior. Foram 103 a menos, caramba! Mais de três por jornada, em média. Se não reparou é porque anda mesmo desatento. E o que é preocupante não é apenas isso. É que esta é uma redução em contra-ciclo com aquilo que é a realidade das Ligas de topo da Europa e até com aquilo que vinha sendo a história da própria Liga portuguesa, que estava a ver o total de golos crescer desde 2014, que foi a última vez que tínhamos descido tão baixo. As 34 jornadas da Liga portuguesa resultaram em 728 golos, a uma média de 2,38 golos por jogo. São menos 103 se compararmos com os 831 golos marcados na época passada, que nessa altura valeram uma média de 2,72 golos por jogo, a melhor desde os 2,78 de 2012/13. O primeiro ano do tetra do Benfica marcou uma acentuada quebra, para 2,37 golos por jogo, mas desde então tinha sido sempre a subir: os 2,49 de 2014/15 e os 2,72 da época passada tinham deixado a Liga portuguesa em linha com as maiores da Europa. Há um ano, aliás, entre as grandes, a Liga portuguesa só era batida pela Bundesliga, que fechara a competição com uma média de 2,83 golos por jogo. A questão é que enquanto a Liga portuguesa voltou a baixar para números próprios da primeira década deste século – a prova andava estagnada por ali desde meados dos anos 80 do século passado – todas as Big Five cresceram na frequência com que se festeja a festa do golo. A Liga espanhola assumiu a dianteira, com 2,94 golos por jogo, seguida da Série A italiana, com 2,92 (a uma jornada do fim), da Bundesliga alemã, com 2,87, e da Premier League inglesa, com 2,80. Mais perto da nossa realidade só a Ligue 1 francesa, que encerrou a contabilidade nos 2,62 golos por jogo. E a culpa desta descida em contra-ciclo não pode ser dos treinadores portugueses, porque o campeão francês, o Monaco de Leonardo Jardim, foi uma das raras equipas europeias de topo a marcar mais de 100 golos no campeonato. À frente dos 107 golos monegascos (2,81 por jogo) só aparecem os 116 do Barcelona (3,05 por jogo). O Benfica, que passou a marca dos 100 golos (em todas as competições) pela sétima temporada consecutiva – e de resto foi a única equipa da I Liga portuguesa a conseguir fazê-lo esta época – teve o melhor ataque da Liga, mas ficou-se pelos 72 golos, que correspondem a 2,11 por jogo.
2017-05-22
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Há um ano, se me perguntassem, diria que, em função da dinâmica de vitória que apresentava, o Sporting era o principal favorito a ganhar a Liga que se seguia. E no entanto as coisas mudaram tanto que os leões não passaram do terceiro lugar. Nesta altura, tudo indica que o Benfica vai sair à frente dos rivais para o campeonato de 2017/18. Falta perceber o que vai mudar daqui até lá, seja em termos de mercado (entradas e saídas de jogadores), da força dos treinadores dentro do contexto do clube ou de variáveis internas de balneário. Há um ano, a gestão de todos estes fatores contribuiu para que o Sporting caísse a pique em termos de produção. Caberá agora ao Benfica gerir os três meses até ao início do campeonato de forma a evitar os erros cometidos pelos outros. Começo hoje a antevisão desses três meses que vão definir aquilo que vai ser a nova época precisamente pelo Sporting, onde a atualidade é mais efervescente. A pressão mediática está naturalmente mais em cima de quem mais falhou, que foi o Sporting. Saem notícias de desentendimentos entre treinador e presidente, seguidas de desmentidos formais de ambos, mas falta perceber como vai ser montada a equipa leonina para atacar a nova época. Há um ano, a adoção de uma política errada de perfis na altura de substituir os jogadores perdidos, seguida da alegada perda de poderes do treinador e, a montante disto, a pressão exterior nascida no êxito da seleção nacional e na consequente procura – e vontade de sair – de elementos fundamentais do balneário foi uma montanha demasiado íngreme para a equipa escalar.  Bas Dost e Gelson foram os melhores leões em 2016/17, mas aquilo que deram à equipa foi sobretudo individual – os golos de Dost, a imprevisibilidade e as assistências de Gelson – e não substituiu aquilo que lhe davam Slimani e João Mário, que era altruísmo, capacidade para fazer brilhar os outros e poder coletivo de controlo sobre os jogos. Não é por acaso que além de Dost e Gelson mais ninguém tenha feito uma boa época no Sporting e que vários jogadores fundamentais tenham mesmo caído a pique em termos de rendimento – Bryan Ruiz é disso exemplo paradigmático.  Em paralelo, obedecendo a uma teoria de vasos comunicantes mas não só por causa deles, houve muitas contratações falhadas: uns por umas razões, outros por outras, Markovic, Castaignos, Elias, Douglas, Meli, Petrovic, Campbell ou André nunca justificaram a entrada no plantel. Tudo somado, os resultados foram maus e a empatia entre presidente e treinador começou necessariamente a diminuir.  Jesus pode ou não continuar à frente da equipa do Sporting – e o melhor para os leões é que continue, porque os dois anos que lá passou levam a que não haja ninguém em melhores condições de compreender aquele balneário e de devolver ao clube o futebol que jogava há um ano. Mas o fundamental mesmo é que treinador e presidente compreendam que precisam de uma política comum, o que implica algumas cedências de parte a parte. Bruno de Carvalho tem de conceder que se o treinador tem uma ideia para a equipa, ou concorda com ela ou, se discorda, assume que errou na escolha – porque se há verdade absoluta na cartilha dos treinadores é a de que se deve viver e morrer de acordo com as suas próprias ideias e parte já para outra, sem perder mais tempo e dinheiro. E Jesus tem de assumir que o poder económico do Sporting não está, nem pouco mais ou menos, de acordo com aquilo que gasta na equipa técnica e que, por isso, não lhe resta outra alternativa a não ser continuar a aproveitar miúdos saídos da formação – como fez, bem, com Gelson ou Ruben Semedo e se prepara para fazer com Podence – e acertar mais nas escolhas dos craques que o clube contrata a peso de ouro. No fundo, o desmentido que os adeptos esperam de Bruno de Carvalho e Jesus não é o de que estão pontualmente em desacordo. O que eles precisam de desmentir agora é aquilo que muitos anteviam como principal problema da parceria, que era o excesso de ego de ambos. Este não veio à tona nos primeiros 18 meses de convivência porque o que estava lá à frente – a perspetiva de ganhar a Liga – era mais forte do que aquilo que tinham deixado para trás – nada, na época de arranque, e um campeonato perdido com recorde de pontos e excelente futebol, no início da segunda temporada. Agora, no rescaldo de uma época totalmente falhada, a tentação é grande e manda apurar responsabilidades. E muito daquilo que anda por aí tem menos a ver com uma reivindicação de poder do que com uma declaração de isenção de culpa. Quando se diz que o que está aqui em causa é a decisão acerca de quem vai formar o plantel, no fundo, o que está a debater-se é quem fez asneira a formar o anterior. Porque nem presidente nem treinador – nem os seus defensores acérrimos, de resto – alguma vez admitirão que a miséria que foi a época de 2017/18 tem a ver com culpas próprias.
2017-05-21
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Nuno Espírito Santo esperou que a frieza da matemática consumasse aquilo de que muitos já esperavam – o tetracampeonato do Benfica – para deitar a toalha ao ringue e assumir que a sua tarefa redundou num falhanço. Como se a conclusão final dependesse só de resultados. Pelo meio deixou recados a quem o quis ouvir. Que o FC Porto cresceu como equipa – e perante a hecatombe que tinha sido a época passada, não se admitia outra coisa – e que a confiança nele está expressa num contrato que está assinado. São duas conclusões válidas, mas não dizem tudo. E o próprio Nuno terá de mostrar que aprendeu que para montar um FC Porto melhor e capaz de voltar aos títulos não pode mostrar tão pouco no ataque. Objetivamente, as coisas são simples: o FC Porto tinha sido terceiro, a 15 pontos do campeão, e vai agora ser segundo, a uma distância final que pode variar entre os dois e os oito pontos. Já assegurou que fará pelo menos mais três pontos do que na época passada – tem 76 e a equipa de Lopetegui e depois Peseiro acabou a Liga com 73 – e que marca mais e sofre menos golos. Chegou mais longe na Europa, mas há um ano tinha estado na final da Taça de Portugal, perdida de forma tão inglória como incrível, depois de uma recuperação épica. Não há dúvidas de que este FC Porto foi mais equipa do que o anterior, montado em bases muito mais sólidas, com uma coerência maior, para a qual basta dizer que teve apenas um cérebro, enquanto que o anterior foi pensado por um treinador e passou metade da temporada a ser liderado por outro, que durante boa parte do tempo já tinha percebido que não ia ficar. Tinha-o percebido ele e tinham-no percebido os jogadores, o que é suficiente para matar qualquer liderança que se quer firme. O FC Porto de Nuno Espírito Santo é uma equipa muito jovem e por isso com bases sustentáveis de crescimento. Mas para tal, já o disse, não pode continuar a ser construída com base em ideias que encaixam melhor num plantel de veteranos. A predileção pela busca dos equilíbrios em detrimento da inspiração casa mal com um plantel cheio de miúdos de sangue na guelra – André Silva, Jota, Oliver, Otávio, Ruben Neves, Rui Pedro e até Corona, Danilo ou Alex Telles estão naquela idade em que os sonhos valem mais do que as certezas e é em nome deles que se movem. Claro que o realismo é fundamental para se chegar aos títulos, mas o elevado total de zeros atacantes – foram doze em 48 jogos, isto é, um em cada quatro – arruinou as aspirações de uma equipa que mostrou solidez para poder aspirar a mais. Em 52 jogos, o ataque do Benfica só não funcionou três vezes, o que demonstra que os encarnados mobilizaram sempre mais gente para chegar ao golo e que por isso foram recompensados com o pote de ouro no final do arco íris. Por esta altura, Nuno Espírito Santo não terá a certeza de que vai continuar a ser o treinador do FC Porto. O facto de ter trazido para a mesa de conferência de imprensa o contrato assinado é sinal disso mesmo. Pinto da Costa não gosta de desistir das suas ideias à primeira, por vezes nem quando elas são comprovadamente más – o que nem me parece ser o caso. É verdade que são já quatro anos sem nada ganhar, desde a Supertaça de 2013, e que isso pressiona qualquer um. Mas da mesma forma que mostrou que percebeu que Depoitre não servia para o seu plano – e a equipa melhorou com a integração de Soares, em Janeiro – Nuno tem de demonstrar que já entendeu que o ataque portista não morre ali e que para ser campeão no futebol de hoje em Portugal tem de meter mais gente em zonas de definição, mesmo que isso implique povoar menos atrás. A necessidade de recuperação do protagonismo de André Silva, o mais promissor dos jovens dragões, não quer dizer que o FC Porto dependa de individualidades. Quer somente dizer que não pode desperdiça-las, sobretudo quando são quem melhor defende a ideia que a equipa precisa para crescer.
2017-05-15
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Boa parte das razões para justificar o Benfica campeão estão nos números, porque eles nos dão o retrato fiel do que as equipas rendem em campo. Basta olhar para eles para perceber que Benfica e FC Porto são quem melhor compatibilizou defesa e ataque nesta Liga e que o título dos encarnados se explica pela vantagem que obtiveram nos dois parâmetros. Até o falhanço do Sporting tem aquiacolhimento: a equipa leonina foi absolutamente bipolar no que a essa compatibilidade diz respeito, sendo a mais bem trabalhada no ataque mas defendendo ao nível das que por esta altura lutam para evitar a descida de divisão. O erro mais habitual de quem usa os números para justificar uma perceção da realidade é o excesso de simplificação. Olha-se para os números em absoluto e eles pouco explicam: dizem-nos que o FC Porto tem o melhor ataque e a melhor defesa, mas depois é o Benfica quem soma mais pontos. Contradição? Dizem-nos que o Sporting consegue ter mais bola em média nos seus jogos do que o FC Porto, sendo os dois suplantados pelo Benfica, mas isso só significa que os três gerem os jogos de forma diferente: o Benfica controla com bola quando se coloca em vantagem, o Sporting cria mais envolvimentos do que o FC Porto, que vai mais direto ao objetivo. E dizem-nos, por exemplo, que o Benfica permitiu até aqui mais 54 remates aos adversários do que o FC Porto – mesmo tendo a bola por mais tempo – e mais 37 do que o Sporting, mas isso também não nos diz nada de especial. Prefiro centrar a análise na relação remate/golo, porque essa, mesmo podendo ser sujeita a interpretações desviantes, ajuda muito melhor a entender o que as equipas valem. E é nesta análise que se estabelecem as diferenças que explicam a coroação do Benfica como campeão nacional. O Benfica marca um golo a cada 7,3 remates e só o sofre quando os seus opositores chegam aos 16,9 remates. Em comparação, o FC Porto precisa de 7,7 remates para fazer um golo e permite que os adversários o façam aos 14,5. E enganem-se os que pensam que isto tem a ver só com eficácia ou até predominantemente com eficácia de avançados e guarda-redes – o segredo, aqui, é a condição em que os remates são feitos ou o modo como se conduz o adversário para áreas em que eles podem na mesma rematar mas sem poderem à partida ser tão felizes.Assumindo que a diferença não se explica pela incapacidade dos jogadores de umas equipas fazerem golos e pela qualidade dos guarda-redes de outras a evitá-los – seria estranho que, em média, só por causa das suas competências técnicas, um jogador do Nacional precisasse de 18 remates para marcar, enquanto que um do Sporting o fizesse a cada 5,9 tentativas – o que estes números nos revelam é a qualidade dos comportamentos coletivos das várias equipas da Liga. E aqui a bipolaridade do Sporting é um exemplo paradigmático. Sendo uma equipa muito bem trabalhada do ponto de vista ofensivo – um golo a cada 5,9 remates fazem dos leões os melhores da Liga neste aspeto – é a pior de todas na forma de defender. E certamente ninguém no seu perfeito juízo sustentará que a razão para que os leões sofram um golo a cada 7,1 remates – os piores da Liga, seguidos de Nacional (7,3), Moreirense (7,4) e Tondela (7,6) – é a má qualidade de Rui Patrício, guarda-redes da seleção nacional que esteve em destaque no último Europeu. Não. O que se passa é que o Sporting defende tão mal, tem comportamentos tão irregulares sem bola, que por aí se explica a falência da candidatura da equipa de Jesus ao título. Aliás, se compararmos a relação entre a eficácia defensiva e ofensiva, o ratio do Sporting (1,20) é apenas o quinto da Liga, atrás de Sp. Braga e V. Guimarães (ambos nos 1,61) e, sobretudo, das duas equipas que lutaram até ontem pelo título: o FC Porto nos 1,87 e o Benfica, bem lá longe, nos 2,33. Por isso o Benfica foi campeão.   Remates por golo marcado 1º Sporting​5,9 Rpg 2º Sp. Braga​7,0 Rpg 3º V. Guimarães​7,2 Rpg 4º Benfica​7,3 Rpg 5º FC Porto​7,7 Rpg (…) 18º Nacional​18,0 Rpg   Remates por golo sofrido 1º Benfica​16,9 Rpg 2º FC Porto​14,5 Rpg 3º V. Guimarães​11,6 Rpg 4º Marítimo​11,5 Rpg 5º Sp. Braga​11,2 Rpg (…) 18º Sporting​7,1 Rpg   Ratio Eficácia defensiva/ofensiva 1º Benfica​2,33 2º FC Porto​1,87 3º V. Guimarães​1,61 3º Sp. Braga​1,61 5º Sporting​1,20 (…) 18º Nacional​0,40 Nota – Valores no final da 32ª jornada
2017-05-14
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Último Passe

O Benfica confirmou o esperado tetracampeonato com uma goleada (5-0) ao V. Guimarães, numa partida exemplar em que espelhou as maiores virtudes desta época – acima de todas, o comportamento ativo e pressionante nos momentos defensivos e a inspiração das suas maiores figuras na fase da criação. A forma como Fejsa e Jiménez combinaram para ganhar uma bola a Rafael Miranda na saída de jogo do Vitória, conduzindo ao primeiro golo, marcado por Cervi, foi tão importante no quarto título da série como a solução encontrada por Jonas para marcar o seu primeiro, o 4-0, com um chapéu notável a Douglas. As duas coisas juntas fizeram o título do Benfica. Este Benfica foi, ainda assim, ligeiramente inferior ao da época passada. Não em termos de processo coletivo, que nesse particular já em 2015/16 se baseava muito na capacidade das suas individualidades – Jonas acima de todos – e esta época até melhorou do ponto de vista defensivo. Mas baixou porque algumas dessas individualidades desapareceram: Jonas passou metade da época lesionado, Renato Sanches e Gaitán saíram antes de começar o campeonato, roubando à equipa a capacidade que o primeiro tinha para esticar o jogo e o cérebro aliado à técnica que o segundo representava em momentos de criação. Mas se a perda de Jonas, sobretudo na primeira metade da época, foi bem colmatada pela passagem de Gonçalo Guedes para o corredor central – mudando o futebol da equipa, pela maior capacidade de morder os calcanhares aos adversários em transição defensiva – a troca de Renato por um Pizzi a assumir mais responsabilidades também levou a um Benfica mais certeiro do ponto de vista tático, com menos buracos por preencher. E se Pizzi não dava à equipa os esticões que Renato proporcionava, essa vertigem acabava na mesma por ser recuperada pela solução que Rui Vitória encontrava para a esquerda, fosse Cervi, Zivkovic ou Rafa, todos eles velozes e capazes de promover roturas. Este Benfica fez mais jogos fracos do que em 2015/16, é verdade, e por isso mesmo acabará a Liga com menos pontos. Mas se há um ano era uma equipa incapaz de ganhar os jogos grandes – ganhou apenas um de seis nessa primeira época de Rui Vitória – a transformação no sentido de uma maior proatividade defensiva permitiu-lhe passar a ser implacável neste particular. Em 2016/17, o Benfica não perdeu um único jogo com os seus maiores rivais nacionais, chegando à última jornada da Liga com apenas duas derrotas, frente ao Marítimo e ao V. Setúbal. Isso não o impediu de manter o primeiro lugar na tabela desde a quinta jornada, em meados de Setembro. E desde aí muita coisa aconteceu. Grimaldo parou cinco meses; Fejsa esteve de fora durante quase dois; Jonas andou dentro e fora, ao ritmo dos seus problemas físicos; André Horta desapareceu das escolhas para acolher Felipe Augusto; Jiménez ídem, devido à saída fracassada para a China em Janeiro; e Gonçalo Guedes saiu mesmo para o PSG. Mesmo assim, é verdade que por vezes graças a tropeções de um FC Porto que nunca foi capaz de assumir a candidatura a sério, chegou ao título a uma jornada do fim. E se assim foi, é porque o mereceu.
2017-05-13
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Último Passe

Afinal de contas, o que está em causa no imbróglio Bruno de Carvalho-Jorge Jesus em que o Sporting estará a meter-se? Nada, dirá a via de informação oficial. Tudo, argumentarão os que fazem vida a saber tudo, por vezes até mais do que a própria realidade. Eu ficaria pelo meio e diria que podem estar em causa duas coisas: a visão para o futebol do clube, que facilmente pode ser confundida por uma luta pelo poder, e a otimização da própria posição face aos resultados. A primeira é mais fácil de explicar. Jesus quererá recuperar a influência total que tinha na política de contratações do Sporting, mas o fracasso desta época servirá que nem uma luva aos que defendem que o treinador deve trabalhar com os jogadores que lhe dão e ponto final. A visão de Jesus, que o treinador defendeu há poucas semanas no congresso “Future of Football”, organizado pelo clube, é simples: é ele que sabe de futebol, logo deve ser ele a definir quem fica, quem sai, quem vem e quem não vem. A mim, desde que temperada pela realidade da política desportiva do clube, parece-me a correta, já o tinha defendido antes aqui. A visão dos que se opõem a esta visão, sustentada nos fracassos que representaram as aquisições de Elias, André, Markovic ou Castaignos, é a de que o treinador não tem nada que mandar nisto e que se o clube quer voltar a fazer uma equipa com miúdos da formação ele tem de a fazer e de bater a bolinha baixa. A questão à qual estes não sabem responder é a seguinte: se não for o treinador, quem toma decisões acerca da composição do plantel? São os que nos anos anteriores à chegada de Jesus aprovaram as aquisições de Gerson Magrão, Maurício, Chikabala, Rabia, Sarr, Rosell, Gauld ou Tanaka? Esta é, portanto, uma não-questão. Aquisições acertam-se e falham-se e está por provar que num clube haja alguém mais competente para as decidir do que o treinador, que é quem tem a ideia de jogo na cabeça e quem sabe o que quer fazer com este ou aquele jogador. O que é aqui fundamental é adotar-se uma política desportiva – na qual se inclui a definição de objetivos desportivos, a forma lata de a eles chegar, o futebol que se quer ver, a relação entre a integração de jovens e a presença de consagrados que os contextualizem – e tomar decisões de acordo com ela. E é aqui que pode haver divergências verdadeiramente importantes. Porque se de um lado se quer mais formação e do outro se quer menos formação, não há conciliação possível. A questão é que se isso é verdade, então não se vê como podem Bruno de Carvalho e Jesus estar a trabalhar juntos há dois anos. Só se um dos dois tivesse posto em stand-by as suas ideias só pelo prazer da união. E isso não parece uma coisa muito adulta de se fazer. Aqui chegados, se de repente Bruno de Carvalho concluiu que é um desperdício pagar o que paga por um treinador se isso não lhe garante o título de campeão, tem de tentar pôr termo à parceria, mas de caminho tem de assumir o erro na primeira pessoa, porque toda a gente sabe que nenhum treinador pode garantir um título e foi ele quem tomou a decisão de contratar Jesus. E se de repente Jesus concluiu que não consegue ser campeão com a estrutura meio amadora, meio bipolar que o tem no Sporting e que por isso não sente vontade para continuar, tem mais é que se demitir, mas de caminho tem de assumir o erro na primeira pessoa, porque toda a gente se lembra do que ele disse quando saiu do Benfica e desvalorizou a estrutura que por lá tinha. Como nenhum dos dois deve ter neste momento vontade de o fazer, o melhor que lhes resta é terem juízo e continuarem a trabalhar juntos. Porque o Sporting não tem nada a ganhar em mudar de treinador agora e se há dois anos, com Jorge Mendes a mexer os cordelinhos e o título de campeão no bolso, Jesus não tinha colocação nos maiores clubes da Europa, não é agora que vai lá chegar.
2017-05-10
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Artigo

As diferentes reações que se têm visto à chegada do vídeo-árbitro ao futebol português têm a ver, sobretudo, com a incapacidade de entender aquilo que o vídeo-árbitro é ou pode ser por parte de mentes excessivamente tradicionalistas ou bloqueadas por um grave défice de cultura desportiva. O vídeo-árbitro é um meio auxiliar de diagnóstico, não é uma forma de acabar com o erro numa área onde muitas vezes impera a subjetividade. É uma forma, isso sim, de ajudar a impedir injustiças, não uma forma de acabar com elas ou com a polémica em torno delas. Porque a polémica não tem nada a ver com a arbitragem, mas sim com a tal falta de cultura desportiva, que é o que em Portugal – e em poucos países mais – gera tanto ruído em torno dos casos de arbitragem. No limite, aos céticos, respondo sempre com o râguebi, onde o TMO (Television Match Official) já impediu erros grosseiros e onde a dinâmica de interação entre jogadores, árbitros e vídeo-árbitros está tão bem oleada que passou a ser um espetáculo dentro do espetáculo. E é nessa altura que me respondem: “Mas queres comparar o público do futebol com o do râguebi?”. E eu digo: claro que sim! A ideia segundo a qual o futebol nunca poderá seguir o exemplo do râguebi nesta matéria por haver muito em jogo cai pela base quando se verifica que o TMO funciona – e bem – em competições como o Campeonato do Mundo, o Torneio das Seis Nações ou a Taça dos Campeões Europeus. Nestas competições, já vi ensaios irregulares serem anulados pelo TMO, não apenas pela conclusão, mas também por se detetar uma irregularidade lá mais atrás, tal como já vi questões disciplinares serem resolvidas com justiça pelo mesmo TMO. A dinâmica dos dois jogos não é assim tão diferente, ou não tivessem eles nascido da mesma base – as regras das duas modalidades eram as mesmas até meados do século XIX, quando se deu a separação entre os que permitiam que se agarrasse o adversário e se transportasse a bola nas mãos e os que o impediam. Se na altura houvesse programas de TV com adeptos dos diferentes clubes, imagino o que não se diria a respeito deste corte com a tradição. Não havendo, admito que a reunião decisiva para a cisão, na mítica Freemason’s Tavern, tenha sido preenchida com frases como “O futebol nunca mais vai ser o mesmo” ou “estão a destruir o futebol”. E a verdade é que tanto o futebol como o râguebi prosperaram. Foi por essa altura que nasceu o famoso aforismo segundo o qual “o futebol é um jogo de cavalheiros jogado por brutos e o râguebi um jogo de brutos jogado por cavalheiros”. Não tem de ser assim, no entanto. Nos círculos do râguebi, contam-se outras piadas, como as que marcam a diferença entre os jogadores das duas modalidades: no futebol rebolam no chão e dizem que estão lesionados quando estão de perfeita saúde, enquanto que no râguebi tentam convencer o árbitro e o treinador de que estão bem quando na verdade estão lesionados. E isto também não tem de ser assim. A questão é que nem tudo tem a ver com formação. Há aqui muito de ética, é verdade, mas muito de ação, também. E neste aspeto quem tem de aprender são as hiper-profissionais estruturas que governam o futebol, que ganhavam tudo em deixar de apostar no secretismo como arma. Podia aqui encher-vos a paciência com histórias acerca do “fruto proibido” e de como ele é o mais apetecido, mas prefiro dar o exemplo positivo: há pouco mais de um mês fui a Twickenham assistir ao vivo ao Inglaterra-Escócia que permitiu à equipa inglesa assegurar, a uma jornada do fim, a segunda vitória consecutiva no Torneio das Seis Nações. À entrada, quem quisesse, podia levar um mini-transistor. E não era para ouvir o relato: era, sim, para ouvir as conversas entre o árbitro de campo e o TMO. Para compreender as decisões, portanto. É nesse sentido, também, que as decisões são expostas à apreciação popular com repetições esclarecedoras nos ecrãs gigantes dos estádios. Ouvimos o árbitro dizer o que se passou e podemos ver que realmente se passou. É verdade que o fanatismo leva muita gente a ver o que não está lá e a ignorar o que qualquer mente sã é capaz de ver. Mas não terá sido essa a razão principal pela qual a FIFA deu em tempos indicações aos organizadores de jogos para que não sejam difundidas repetições nos ecrãs gigantes. Isso terá sido para que o público, os jogadores e até os próprios árbitros não possam aperceber-se de que estes últimos se enganaram de forma grosseira. E até isso o vídeo-árbitro pode impedir.  
2017-05-07
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