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Tenho evitado escrever acerca de casos judiciais, por um par de razões: primeiro, porque não tenho nada de útil a acrescentar, pois não é essa a minha área de especialidade, mas sobretudo porque, sejam os arguidos de que clube forem, gosto de me reger pelo princípio da presunção da inocência e não condeno ninguém enquanto os tribunais o não fizerem, não opino acerca daquilo que não posso comprovar. Mas a indignação de muitos amigos meus acerca da atenção mediática que tem estado a ser dada ao caso-Bruno de Carvalho leva-me a dirigir a agulha para outro lado – a razão pela qual os media passam horas a transmitir em direto à porta de um tribunal, onde o que quer que esteja a acontecer não é do conhecimento de ninguém a não ser de quem lá está dentro. Pois bem, a razão é muito simples: o Mundo está um lugar estranho. E perigoso. A verdade é que o futebol parou no domingo – e não foi por causa da detenção de Bruno de Carvalho. Encerrou-se a décima jornada da Liga, a seleção começou a treinar e a preparar os jogos com a Itália e a Polónia e os melhores jogadores nacionais passaram a debitar aquelas palavras de circunstância com que nos presenteiam regularmente como resposta a perguntas igualmente de circunstância com que são presenteados com a mesma regularidade. A verdade é que nada daquilo motiva interesse a ninguém. As pessoas querem acontecimentos, querem causas, querem algo que as apaixone ou revolte. E, tendo a noção disso, os media dão-lhes aquilo que elas querem, numa espécie de variação moderna da política “Panem et circenses” que foi desenvolvida durante o império romano. Seria fácil agora chegar aqui e acusar os algoritmos das redes sociais – cuja responsabilidade é evidente – desta deriva populista que o Mundo está a conhecer. Da mesma forma que é fácil aos cidadãos indignados acusar os programadores de estarem a pensar na audiência – a verdade, digo-vos eu, é que não é nisso que eles estão a pensar, mas sim na capacidade de pagar salários a quem trabalha, porque esses saem da publicidade e essa sai das audiências. É tão fácil aos jornalistas lavarem as mãos e atribuírem toda a responsabilidade às redes sociais como é aos cidadãos isentarem-se de culpa enquanto grupo e apontarem o dedo aos jornalistas. Mas o que é preciso é encontrar um modelo que funcione. A pressão económica sobre os media é clara, num Mundo em que a facilitação do acesso de todos a tudo veio tornar os jornalistas aparentemente dispensáveis. As pessoas não querem verificação de factos, sobretudo se essa verificação as forçar a sair da sua própria zona de conforto, se as obrigar a serem confrontadas com uma realidade diferente daquela que querem ver e que as redes sociais lhes dão, na bolha de “amigos” de que as rodeiam artificialmente. Ao que isto nos leva é a um jornalismo sob garrote económico, que só agrava a situação, forçando os jornalistas a tentarem ir ao encontro daquilo que as pessoas querem. É daí que vem o perigo, sobretudo num mercado tão pequeno como o português, onde mesmo as maiorias são de menos para manter vivos projetos jornalísticos que não cedam à vontade da turba ululante e não lhe deem aquilo que ela quer. No Web Summit do início deste mês, Margot James, ministra britânica das Indústrias Digital e Criativa, deixou no ar a possibilidade de se encontrarem modelos de financiamento e apoio ao jornalismo que compensem aquilo que a internet lhe tirou. Não creio em soluções desse género, nem em Inglaterra – onde apesar de tudo a dimensão do mercado e dos seus nichos ainda permite que subsistam muitas coisas boas – nem, muito menos, em Portugal. Como não creio que seja possível inverter o caminho da crescente liberalização do acesso. Tal como no futebol português de há uns anos – quando os clubes estavam falidos, os jogadores não recebiam a tempo e horas, os adeptos não encontravam condições para ir aos jogos e, no entanto, alguns empresários estavam cada vez mais ricos – o atual modelo de circulação de informação na rede favorece uns quantos, que prosperam. Os media, esses, definham e envergonham-se cada vez mais. Como em tudo na vida, há dois caminhos. Um é para a frente: atrasará mas não evitará a morte de uma indústria. O outro passa pela reconversão, por dar um passo atrás para se poder depois dar dois em frente, por revalorizar uma profissão com base na qualidade e não na quantidade. Dificilmente será no meu tempo, porém. Infelizmente.
2018-11-15
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Com mais ou menos dificuldades circunstanciais, Benfica e Sporting venceram com justiça os seus jogos da 10ª jornada e mantiveram-se a uma distância interessante do FC Porto, numa Liga que está a ser a mais renhida dos últimos anos. Os quatro primeiros estão separados por apenas quatro pontos e para se encontrar distância mais curta nesta fase da Liga é preciso recuar a 2011. E como até aqui, além da predisposição dos grandes para perderem pontos em jogos com equipas de “outro campeonato”, tem prevalecido o fator casa, vale a pena equacionar um final de primeira volta ainda mais equilibrado, pois daqui até lá há apenas mais dois jogos entre candidatos: o Benfica-SC Braga do Natal e o Sporting-FC Porto de Janeiro. Em Tondela, o Benfica fez valer a superioridade frente a um adversário que vendeu cara a derrota e podia mesmo ter saído do relvado com outro resultado. É verdade que, mesmo com Jonas em campo – três jogos, três golos – os encarnados tiveram mais oportunidades de golo e que nem se deve aqui falar de um triunfo da eficácia, mas enquanto Rafa foi dando o seu recital de movimentos de rotura seguidos de finalizações desastradas, também o CD Tondela teve um par de ocasiões flagrantes para voltar à frente no marcador. O jogo foi a prova de que a sorte e o azar não são fatores relevantes na distribuição dos pontos: quando Xavier falhou um golo cantado na cara de Vlachodimos não foi porque teve azar, mas sim porque não teve arte para fazer melhor. Mais perto de perder pontos esteve o Sporting, que fez um jogo dominador mas insuficiente na globalidade. Durante 82 minutos, nos quais Bas Dost – outra ode à eficácia… e não porque tenha sorte – fez o golo que adiantou os leões, o GD Chaves nem chegou à baliza de Renan. Pelo meio, os leões podiam (e deviam) ter forçado o andamento para chegar ao segundo golo, mas foram-se acomodando até levarem com o golo do empate de Niltinho, já com pouco tempo de reação. Um penalti de Bas Dost salvou os pontos, mas o jogo já terá dado boas indicações a Marcel Keizer, o novo treinador, que esteve nas bancadas: esta equipa do Sporting precisa de muita adrenalina, de ritmo, de intensidade, fator em que está uns bons furos abaixo dos três rivais na luta pelo título. Apesar de tudo, das inseguranças do Benfica e da moleza do Sporting, os dois estão lá, na luta. Podemos olhar para os plantéis e dizer que este tem mais qualidade em quantidade do que aquele, mas no futebol há imponderáveis que levam a que nem sempre isso chegue. O FC Porto acredita, em cima do título anterior e da liderança isolada que conquistou pela primeira vez esta época. O SC Braga está moralizado e focado no campeonato – e tem plantel para se bater com os grandes. O Benfica acreditará que a má fase já passou e o Sporting acredita na poção mágica que é o novo treinador. Vamos ter campeonato.
2018-11-12
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O FC Porto-SC Braga foi um dos melhores jogos do campeonato, porque teve ritmo, dois adversários que souberam merecer-se um ao outro e sucessivas nuances táticas, a deixar a certeza de que a intervenção de um treinador não se limita ao trabalho durante a semana ou à palestra motivacional antes dos encontros. Partindo de uma base que me pareceu errada, Sérgio Conceição teve a arte de dar a volta ao jogo com mexidas oportunas e inteligentes. Ganhou, isolou-se, bateu com a mão no peito à campeão, mas do jogo saiu mais uma certeza: há que contar com o SC Braga na luta pelo título.Já aqui tinha escrito que para defrontar o SC Braga convinha ao FC Porto recuperar os três médios. Conceição achou o contrário e levou a jogo a versão vertiginosa do dragão, com Corona e Brahimi nas faixas laterais, Soares e Marega na frente e deixando o meio-campo entregue ao labor de Danilo e Óliver. Abel tinha dois médios mais posicionais na zona central em Fransérgio e Claudemir e contava ainda com as movimentações de Paulinho – mais lesto na aproximação ao meio-campo do que qualquer dos avançados portistas – e de Ricardo Horta – que saía muito da esquerda em busca do espaço interior de modo a abrir caminho ao lateral Sequeira. O resultado foi que após um início naturalmente fulgurante do FC Porto, o SC Braga foi ganhando algum ascendente e pôs-se mesmo por cima do jogo após o intervalo. Prova de candidatura aceite, portanto.Sérgio Conceição tinha um problema. Para ganhar tinha de equilibrar a equipa com mais um médio. Mas se o fizesse arriscava-se a enviar uma mensagem errada para dentro do campo e até para as bancadas. Como reagiria a equipa – e os adeptos – se a empatar a zero com o SC Braga em casa o treinador do FC Porto trocasse um avançado por um médio? Conceição teve então de dar um passo atrás para dar dois à frente. Começou por dar uma ideia de querer puxar a equipa para a frente, trocando um lateral (Maxi) por um médio (Otávio) e mandando baixar Corona para o quarteto defensivo. Era uma troca de cariz atacante mas tinha a vantagem de deixar a equipa mais próxima do 4x3x3, pois Otávio também procurava mais o corredor central do que o fazia antes Corona. Sérgio Conceição estava a preparar terreno para a entrada de Herrera, que apareceu pouco depois em vez de Brahimi – o FC Porto passou a ter Danilo, Óliver e Herrera no meio, Marega de um lado e Otávio do outro e tomou conta do meio-campo e do desafio. Abel sentiu que tinha de responder e chamou ao jogo Palhinha para trancar o corredor central mas aí, já com o jogo de feição e a dinâmica do meio-campo bracarense afetada (a saída de Paulinho exigia um jogador capaz de ligar o meio-campo e o ataque, algo que Fransérgio nunca conseguiu ser), Conceição pôde voltar a explorar as alas, com a entrada de Hernâni.Foi dali, do corredor direito, onde estavam Hernâni e Corona, que Otávio sacou um cruzamento extraordinário para a cabeça de Soares garantir o golo da vitória. Mais do que discutir agora se foi justo ou injusto importa lembrar que foi um grande jogo entre duas equipas que vão estar lá na luta por uma Liga que promete ser a mais discutida dos últimos anos. Basta ver que nos quatro jogos entre potenciais candidatos só num (o Benfica-Sporting, que acabou empatado a um golo) não mandou o fator casa. De resto, sempre por 1-0, o SC Braga ganhou ao Sporting, o Benfica bateu o FC Porto e agora o FC Porto impôs-se ao SC Braga. E se Benfica e Sporting vencerem hoje, ao fim de dez jogos teremos os quatro candidatos separados por quatro pontos no topo da tabela. Prometedor!
2018-11-11
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Em véspera de um FC Porto-SC Braga que é uma cimeira pela liderança da Liga, Sérgio Conceição não resistiu a lembrar o incidente que protagonizou na época passada com Abel Ferreira e que levou a que os dois não se cumprimentassem no final da partida entre as respetivas equipas. O treinador campeão resumiu o caso ao facto de ter dito há nessa altura que considerava o SC Braga um candidato ao título, mas é mais ou menos evidente que a questão primordial terá nascido quando ambos trabalhavam no Minho, Sérgio como técnico principal dos arsenalistas, Abel na equipa secundária. De qualquer modo, o “soundbyte” não serviu para mais do que para abrir as hostilidades em termos de “mind games”, porque o fundamental é mesmo que se reconheça que este SC Braga é um real candidato ao título. E aqui Sérgio Conceição acertou no ponto quando referiu um dos principais argumentos a favor dos arsenalistas: estão fora da Europa. Basta olhar para a performance do clube liderado por António Salvador nos últimos anos para o entender. Recuando uma década, só por uma vez a equipa minhota ficou a menos de dez pontos do campeão: foi em 2009/10, quando Domingos Paciência a colocou em segundo lugar, a cinco pontos do Benfica de Jesus e a discutir matematicamente o título até à última jornada. Ora essa foi precisamente uma das duas épocas em que, nesta década, os bracarenses não estiveram na Europa, tendo sido afastados de forma mais ou menos escandalosa pelos suecos do Elfsborg, ainda em Agosto, na pré-eliminatória – a outra foi, curiosamente, no ano que Sérgio Conceição lá passou (em 2014/15), na sequência de um modesto nono lugar obtido na Liga anterior. E é bom que se diga que nestes dez anos o SC Braga foi liderado por vários treinadores que já eram ou que se tornaram referências no futebol nacional ou Europeu, como Jorge Jesus (ficou a 20 pontos do topo em 2008/09), Leonardo Jardim (a 13 pontos em 2011/12), José Peseiro (a 26 pontos em 2012/13), Jesualdo Ferreira (a 37 pontos em 2013/14), Sérgio Conceição (a 27 pontos em 2014/15), Paulo Fonseca (a 30 pontos em 2015/16) ou o próprio Abel Ferreira (a 13 pontos na época passada). Rejeitar a ideia de que o afastamento europeu precoce fortalece uma candidatura ao título é negar que o treino tenha influência no rendimento das equipas. Porque aqui, atenção, o que está em questão não é o dizer popularucho segundo o qual os jogadores são profissionais e têm mais é que aguentar jogar de três em três dias. Porque é claro que aguentam. O que está em questão não é sequer uma eventual superioridade física de uma equipa que não jogou a meio da semana sobre outra que teve de fazê-lo, ainda por cima num relvado pesado pela carga de água que tem caído. O que está em questão é a superioridade potencial de uma equipa que passou a semana a preparar-se para um jogo sobre outra que teve outros afazeres pelo meio. E isso, se o treino for de qualidade, tem de refletir-se muito para lá da fadiga que os jogadores possam ou não sentir. É também por aí – além de ter um excelente onze – que o SC Braga pode afirmar-se como candidato ao título. Resta perceber se começa a gritar essa afirmação já hoje.  
2018-11-10
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Há uns anos, estava eu ainda na direção do Record, um dirigente de um clube que nos contestava por portas e travessas ao mesmo tempo que mantinha em público um silêncio cúmplice disse-me mais de uma vez (e só ele saberá se estava a ser sincero): “Nós sabemos que vocês são honestos, mas o problema é que a perceção que as pessoas têm do vosso trabalho é outra”. Tanto tempo passado, Tiago Fernandes está a sofrer do mesmo mal, este mal do século XXI que nasce agarrado ao reinado das redes sociais, para as quais o que parece, é. O treinador-interino do Sporting precisa de fazer tudo para combater esta imagem de “Mourinho 2.0” com que está a ser rotulado – e não necessariamente pelos melhores motivos. Porque, por mais agradável que lhe seja para o ego a colagem a um treinador de top, de quem ainda por cima é amigo, a perceção que as pessoas começam a ter dele é a de um jovem convencido e pouco escrupuloso no relacionamento com os colegas de profissão. E manter isso equivale a jogar um jogo com a parada demasiado alta. Tiago Fernandes tem estado a fazer um bom trabalho aos comandos da equipa do Sporting, na qual pegou depois da derrota contra o Estoril, para a Taça da Liga, e da demissão de José Peseiro. Começou por ganhar ao Santa Clara nos Açores, é verdade que sem que a equipa tenha sido brilhante. Depois empatou no Emirates com o Arsenal, conquistando um ponto que pode ser precioso, ainda que num desafio em que os leões pura e simplesmente não existiram do ponto de vista ofensivo. Nos dois jogos, tentou deixar um cunho pessoal. Nos Açores usando um 4x4x2 que pode até fazer sentido mas ao qual os jogadores não se adaptaram de imediato, por via também das condições meteorológicas difíceis em que se jogava e – pareceu-me – da apatia de alguns deles. Em Londres com a colocação de Miguel Luís no onze titular, tendo o jovem respondido ao nível do resto da equipa: cumpriu sem brilhar. Até à chegada de Marcel Keizer falta a Tiago Fernandes a receção ao GD Chaves, jogo que tem de ser de ganhar e com aquilo que ainda não mostrou: futebol atrativo. Se o conseguir, passa o testemunho com a plena satisfação do dever cumprido e a certeza de que terá crescido como alternativa para uma próxima ocasião. A questão é a de entender se, aos 37 anos, isso deve chegar-lhe – e é em função da resposta a esta pergunta que Tiago Fernandes deve conduzir os próximos tempos da sua carreira. É verdade que a opinião pública ficou condicionada com a frase proferida por ele há um ano: “É difícil chegar aqui algum treinador e ensinar-me mais do que sei sobre futebol”, afirmou na altura. Talvez por isso, o debate nas TVs enquanto se esperava pela sua conferência de imprensa na sequência da estreia, nos Açores, estava a ser feito mais em torno do facto de ele não ter deixado na “flash interview” uma palavra de apreço a José Peseiro do que daquilo que a equipa tinha ou não rendido no campo. Depois do empate em Londres e já com a certeza – ainda que só oficializada mais tarde – de que vinha aí Marcel Keizer, a conversa passou para a ambição do jovem treinador: se se sentia “injustiçado” por não passar de interino a principal e se achava que “merecia uma oportunidade”. Aqui, Tiago Fernandes entendeu bem a lição do passado de José Mourinho e vestiu a capa da humildade: “Estou a ter a minha oportunidade”, respondeu aos jornalistas. Aos 37 anos, quando Vale e Azevedo o chamou para ser treinador do Benfica, Mourinho já tinha sido adjunto de Robson e van Gaal, por exemplo. Durante esse período, mantinha relações amistosas com muitos jornalistas, mas não se lhe ouviam em público assomos de vaidade que não podia justificar na prática – só se auto-denominou “Special One” quando assinou pelo Chelsea, depois de ser bicampeão nacional e de ganhar uma Taça UEFA e uma Liga dos Campeões. Só assim fez o percurso que tinha de fazer e que incluiu o Grito de Ipiranga no FC Barcelona para pegar no Benfica e até o bater com a porta da Luz para recomeçar por baixo, em leiria, depois de ter visto frustrada a mudança para Alvalade devido, ainda assim, a alguns “excessos de personalidade”. A lição que Tiago Fernandes tem do passado de Mourinho vai muito para lá dos blocos de treino que o treinador de Setúbal lhe confiou e é muito simples: a não ser que sejam de tal forma poderosos que garantam desde logo a vitória, os trunfos guardam-se para quando possam ser verdadeiramente eficazes. E, para Tiago Fernandes, este ainda não é o momento de os jogar.
2018-11-09
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Rui Vitória tem razão quando afirma que os minutos 92 e 94 dos dois jogos entre o Benfica e o Ajax podem ter mudado a história deste grupo da Liga dos Campeões. Não tivessem os holandeses marcado golo em Amesterdão tão perto do final e não tivesse Onana defendido o remate de Gabriel mesmo em cima do fim do jogo da Luz e seria o Benfica quem estava agora em posição privilegiada para se apurar. Onde o treinador do Benfica não tem razão é no raciocínio que faz a seguir. Porque não foi só esse detalhe a falhar na prestação de uma equipa que continua muito desorganizada a defender e cujos adeptos andam iludidos pelo fogo de artifício de uma primeira zona de pressão agressiva.A expressão “pressão alta” entrou no dia-a-dia dos adeptos de futebol portugueses com o FC Porto de José Mourinho, em 2002. Veio de uma outra expressão, a “zona pressing” que tão bem caraterizava o Milan de Arrigo Sacchi, no final da década de 80 (e mesmo o treinador de Fusignano foi beber a inspiração a Niels Liedholm, o sueco que começou a acabar com o homem-a-homem no futebol italiano e que foi, por exemplo, o mentor de Eriksson). O problema de quem apreende os vocábulos e não os conceitos é que se prende muito mais com as cores do foguetório do que com o processo que leva cada foguete a descrever uma determinada trajetória ou a rebentar na altura exata. Muitos olhavam para aquele FC Porto de Mourinho e só viam a forma como Derlei, Postiga e companhia caíam em cima dos opositores e os sufocavam logo ali, recuperando bolas ou levando a um início de construção precipitado do opositor. Era bem mais difícil de reparar na forma como a equipa se comportava quando o adversário rompia aquela primeira linha de pressão: ficava junta, “curta”, como se dizia no futebol italiano, com linhas próximas, de forma a não deixar que o adversário jogasse dentro do seu bloco.Ontem, durante o jogo com o Ajax, ouvi muita gente dizer que o Benfica estava a defender muito bem, que pressionava muito, mas que o problema seria perceber se a equipa iria ser capaz de aguentar aquele ritmo. Ora, sendo verdade que o comportamento defensivo foi melhor do que no jogo com o Moreirense, esteve longe de ser bom, uma vez superada a primeira linha de pressão. Porque, lá está, o resto da equipa não acompanha a pressão feita na frente, tenta resguardar-se, quem sabe se com medo ou com falta de referência, e nas inevitáveis ocasiões em que o opositor consegue entrar no bloco com a bola, joga a seu bel-prazer. Há dias, o Moreirense achou sempre forma de superar a tal primeira linha encarnada, entrou com bola no bloco, atraiu os laterais ao espaço interior (sobretudo um atónito Grimaldo) e lançou-lhes depois os extremos nas costas. Ontem, quando ainda assim o Benfica melhorou posicionamentos e coberturas a meio-campo (mesmo que me pareça que nenhuma equipa pode realmente melhorar sacrificando o seu melhor médio, no caso Pizzi), o pecado maior foi o espaço entre as linhas, causado pelo temor de avançar da mais atrasada.É aí, e não na defesa de Onana (até porque também Vlachodimos fez excelentes defesas em Amesterdão e porque camaronês antes já tinha facilitado no golo de Jonas) que Vitória deve procurar pistas para melhorar. Este Benfica tem excelentes jogadores, mas não pode encontrar explicação para os resultados em erros ou proezas individuais. Elas são quase sempre coletivas.
2018-11-08
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Depois de levar o FC Porto a ganhar uma Taça UEFA num 4x3x3 pressionante e ofensivo, José Mourinho entendeu que para ter igual sucesso na Liga dos Campeões teria de mudar e adotou um 4x4x2 mais conservador e dado aos equilíbrios, com Pedro Mendes e Costinha a darem à fotografia um ar mais ponderado e menos rebelde. Os tempos são outros, como os jogadores também, mas a busca de sucesso feita por Sérgio Conceição parece destinada a seguir o caminho inverso: como se viu frente ao Lokomotiv, é no 4x3x3, com Danilo, Óliver e Herrera, que o FC Porto se torna realmente competitivo, pelo menos quando os rivais elevam o nível.A recente eclosão de Óliver no onze titular é uma notícia extraordinária para o portismo: o espanhol pensa e executa rápido e a tudo isso junta precisão, como se viu no momento sublime do terceiro golo, aquele que acabou com quaisquer esperanças que o Lokomotiv pudesse ter de discutir o resultado. Antes, porém, Herrera já tinha deixado a sua marca, fazendo em nome próprio o primeiro e indo descobrir Marega na ode à retribuição que foi o segundo. O mexicano diz que com Marega as coisas são simples, que é só meter a bola no espaço a solicitar a profundidade que o atacante vai lá buscá-la e ganha o duelo a quem quer que seja, mas a forma como ele definiu os ritmos do jogo nos momentos entre estes pontos altos mostra que a equipa terá de contar com ele, quer acabe por renovar ou mantenha a “ameaça” de partir a custo zero no final da época. Os dois, suportados por um Danilo de passada larga e com o explosivo Otávio a funcionar como revulsivo para as ocasiões, são fundamentais para o sucesso da equipa portista frente a opositores que queiram também jogar e não apenas acantonar homens à frente da baliza, porque é esse o momento mais duvidoso a respeito deste FC Porto.Quando Sérgio Conceição encostou Herrera e o sacrificou a um 4x4x2 com dois extremos e dois pontas-de-lança fê-lo com a ideia de que podia suprir o défice de qualidade a definir através da quantidade de definidores. É que Marega é um bulldozer capaz de cumprir as promessas que Herrera e Óliver descobrirem nele, mas não é um exemplo de precisão. Como o não é Aboubakar quando regressar de lesão e como o não é Soares. Tendo o camaronês ou o brasileiro, o treinador até pode resolver a equação encostando Marega à direita e mantendo um 4x3x3 em que um dos extremos funciona quase como segundo ponta-de-lança (da mesma forma que o outro, no caso Brahimi, aparece como quarto médio, a explorar o espaço interior no meio das linhas adversárias). Até lá, veremos um FC Porto com um meio-campo despovoado em alguns jogos, mas nunca naqueles que contam verdadeiramente.A prova virá já no sábado, na cimeira pela liderança frente ao SC Braga. Herrera e Óliver serão as armas principais de Conceição nessa noite no Dragão.
2018-11-07
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A corrente em torno do eventual regresso de Jorge Jesus ao Benfica alimenta-se daquilo que cada vez mais faz a notícia – o “buzz”, o assunto de que se fala. Não são “fake news”, porque na verdade ninguém no seu perfeito juízo se atreveu a apresentar a coisa como um facto, mas as alusões ao regresso também podem não ser mais do que um desejo para uns e um pesadelo para outros, com o potencial disruptivo de que se fazem os temas de que se fala nas redes sociais. São estes “trending topics” que, qual pescadinha de rabo na boca, fazem o Mundo andar para a frente e aproveitam o embalo para seguir caminho. Assim sendo, perante uma mera suposição, tudo o que posso fazer são três perguntas: É possível? É inteligente? É justificável? E se consigo dizer sim às duas primeiras, tenho mais dificuldade em explicar a terceira. Primeiro: é possível? Neste momento, evidentemente, não. O Benfica tem um treinador em funções e ainda recentemente o presidente do clube lhe reforçou a legitimidade em entrevista televisiva. Se a palavra de Luís Filipe Vieira for para levar a sério, Rui Vitória estará para durar. A não ser que – e seguramente nenhum benfiquista quererá que tal suceda… – a equipa continue a perder e passe da atual fase de derrapagem para a consumação de um acidente de dimensões épicas. Aí, se Rui Vitória se demitisse, seja por desistir de lutar ou por ser convencido por alguém acima dele a fazê-lo, a questão mudava de figura. E então, sim, seria possível o clube recuperar Jorge Jesus, até porque as relações entre o treinador da Amadora e o presidente encarnado estão normalizadas à conta de sucessivos encontros no Ritz, onde Jesus almoçava diariamente e onde Vieira mantém frequentes reuniões de negócios. Segundo: é inteligente? Aqui a questão assume duas ramificações. Se olharmos para o plano meramente futebolístico, eu diria que sim. A qualidade de trabalho de Jesus é muito superior à média, pelo que tê-lo é sempre melhor do que vê-lo num rival. Por isso, sim, contratá-lo seria uma medida inteligente. No entanto, o elevado potencial de amor e ódio que o treinador reúne poderia levar a uma cisão dentro do clube, que a partir desse momento precisaria de pacificação como de pão para a boca. Mesmo a jogar menos, muitos benfiquistas preferem o cavalheirismo e a solidariedade dentro do grupo de Vitória ao conflito permanente e ao abuso do “eu” que sempre foi apanágio de Jesus. Outros, ainda, nunca lhe perdoaram que tivesse assinado pelo Sporting e partilhado a trincheira com Bruno de Carvalho, mesmo que no final os dois tenham acabado em campos diversos. Se é verdade que grande parte deste tipo de “ameaças” nunca são concretizadas, já vi muita gente pronta a pôr o benfiquismo em hibernação se e quando Jesus voltasse. E se digo que tenho grandes dificuldades em responder positivamente à terceira pergunta – é justificável? – nem é a pensar nos adeptos que só são do clube se lá não estiver alguém de quem eles não gostam particularmente. É sim, por pensar em termos estratégicos. A dispensa de Jorge Jesus, há três anos e meio, depois de o treinador ter ganho dois campeonatos consecutivos e levado o Benfica a duas finais europeias, foi “vendida” ao Mundo como uma questão programática. Jesus não servia para o Benfica porque não apostava nos miúdos da casa, que para ele teriam de “nascer duas vezes”, ou porque – e esta é uma vitória das “fake news” – alegadamente queria fazer de Bernardo Silva defesa-esquerdo. O projeto de auto-sustentação do Benfica passava por outros caminhos, nomeadamente pela afirmação dos jovens jogadores que saem do Seixal. Ora isso não mudou. E se a coisa se concretizasse até tinha graça só para ver como é que os “spinners” iriam dar a volta a esta narrativa.
2018-11-06
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Quer consiga levar a bom porto a aposta em Marcel Keizer, treinador cuja carreira teve como ponto alto a condução da segunda equipa do Ajax ao melhor futebol do segundo escalão holandês e a posterior nomeação como responsável máximo do futebol do clube, quer tenha de ficar mais tempo com o jovem Tiago Fernandes, técnico vindo dos juniores com uma autoestima do tamanho da do José Mourinho dos primeiros tempos, parece evidente que Frederico Varandas quer ressuscitar a aposta na formação que torna internacionalmente reconhecida a marca Sporting mas que deu apenas dois campeonatos nos quase 30 anos desde que eclodiu na equipa principal o primeiro Bola de Ouro criado no clube. Certo? Errado? Eu diria certo, mas arriscado e a precisar de muito mais convicção e paciência do que a que novo presidente tem demonstrado desde que assumiu o cargo. Há décadas que o Sporting se debate com este dilema. Em que apostar? Numa equipa jovem, sem canalizar muitos recursos para o mercado, de forma a não roubar espaço aos jovens que saem das categorias inferiores? Ou numa equipa capaz de ganhar os campeonatos, contratando jogadores vencedores e de qualidade? Desde que apareceu na equipa o primeiro dos dois Bolas de Ouro criados em casa (Figo, no início da década de 90), o clube tanto apostou na formação (o período Paulo Bento, por exemplo, onde não havia dinheiro para reforços e se assistiu, por isso mesmo, à subida de vários miúdos ao onze) como na competição (com Jorge Jesus, onde o mercado era o primeiro recurso e esse investimento roubou naturalmente espaço à imposição da rapaziada mais jovem). Sem títulos para ostentar – apenas dois campeonatos ganhos nos últimos 30 anos – a marca Sporting é reconhecida sobretudo pela excelência de uma formação que deu ao Mundo Figo, Ronaldo, mas também Futre, Nani, Moutinho ou Rui Patrício. E a questão aqui é a de perceber o que é causa e o que é consequência. Isto é, de entender se o Sporting não ganha porque quer formar ou se forma porque não tem meios para jogar para ganhar. Ainda recentemente, no relatório do Observatório do Futebol, o Sporting surge em sexto lugar na lista dos clubes que mais jogadores dão às Ligas europeias de topo, lista essa que é liderada, precisamente, pelo Ajax, cujo modelo Marcel Keizer domina de cor e salteado. A questão é que, ao contrário do que sucede com o Ajax na Holanda – dez vezes campeão holandês nesse mesmo período, desde o início da década de 90 – os leões depois não conseguem transpor o sucesso para a equipa principal. As razões, do meu ponto de vista, são tão simples de entender como complicadas de contrariar e têm tanto a ver com a incapacidade de gerir a pressão que o mercado – e os agentes – fazem sobre os jovens jogadores, mantendo-os por tempo suficiente para que possam chegar a ganhar, como com a capacidade de lhes dar enquadramento competitivo satisfatório. E com isto quero dizer espaço de afirmação numa equipa que precisa de ser competitiva apesar de eles lá estarem mas também espaço de crescimento antes de lá chegarem, aspeto em que a extinção da equipa B foi um autêntico tiro no pé. Daí que me pareça que se a aposta de Frederico Varandas é no Sporting como marca de formação, o presidente vá precisar de convicções fortes e de paciência. Paciência, porque a formação do Sporting já não é o que era: os últimos anos viram os leões serem superados pelo Benfica não apenas a nível de títulos nas camadas inferiores como também no que respeita a presenças nas seleções jovens e até na quantidade de jovens da casa que chegam à seleção A. E não, ao contrário do que pensam os mais fanáticos, não há nisso nenhuma conspiração. É mesmo uma questão de qualidade. Depois, de convicção, porque é bem possível que, em virtude da tal quebra de qualidade que a formação leonina tem vindo a sofrer, essa aposta leve o seu tempo a colher frutos. E se a respeito de José Peseiro a aparente reação de Varandas a reboque das bancadas ainda pode ter a justificação de que aquele não era o treinador que ele teria escolhido se não o tivesse já encontrado no cargo quando assumiu a liderança, com o novo técnico será diferente: vai ser ele a escolhê-lo e terá de o assumir como parte da solução e nunca como problema.  
2018-11-05
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Quando, há algumas semanas, Pinto da Costa revelou publicamente as elevadas exigências de Herrera para renovar contrato com o FC Porto, não era preciso ser um génio para perceber que, imolado dessa forma na praça pública, o mexicano ia perder influência na equipa. Estava criado um problema de que Sérgio Conceição seguramente não precisava no ataque ao bicampeonato. O treinador, no entanto, soube transformar a crise em oportunidade e aproveitou para dar a Óliver Torres o protagonismo que este nunca tivera com ele, conferindo nova alma à equipa. O médio espanhol foi providencial nos últimos dois jogos dos dragões no campeonato e, tanto como incensá-lo agora, seria curioso perceber por que razão ele andou tão apagado durante tanto tempo – porque a qualidade esta lá.Ainda estou para perceber a estratégia no caso de Herrera. O mercado tem destas coisas e não haverá aqui uma forma certa e uma forma errada de reagir. Luís Filipe Vieira, por exemplo, permitiu que Jorge Jesus utilizasse Maxi Pereira até ao final do contrato, antes de o lateral uruguaio se mudar do Benfica para o FC Porto – foi campeão, mas retardou a busca de uma solução de continuidade. Bruno de Carvalho, por sua vez, impediu o mesmo Jesus de continuar a aproveitar Carrillo quando se viu que ele não ia renovar – a equipa perdeu o que era o seu melhor jogador mas abriu espaço para a entrada de Gelson, que só os extraordinários acontecimentos do final da época passada impediram (para já) que se transformasse num saco cheio de notas de euro. Com Herrera a jogar e a assumir alguma preponderância na equipa, Pinto da Costa veio dificultar que tal continuasse a suceder, excluindo-o do lote dos que sentem o clube no coração. Já se sabe que, no Porto, essas coisas se levam muito a sério – e o caso levou imediatamente à sua queda para o banco de suplentes.Se isso faz parte de uma estratégia que ainda possa levar à venda do passe do mexicano no mercado de inverno, à sua renovação com outras condições mais favoráveis ao clube ou se foi apenas um lapso do presidente, só o futuro poderá dizê-lo. Para já, o que importa é a equipa. E a equipa tem funcionado. Óliver entrou no onze no jogo de Moscovo, ainda no contexto do 4x3x3, ao lado de Herrera e à frente de Danilo, mas manteve-se quando o treinador decidiu optar pelo ofensivo 4x4x2 com sacrifício de um médio para promover a entrada de mais um ponta-de-lança. O jogo do Funchal, no qual Otávio até assumiu mais protagonismo, por ter marcado o golo de abertura instantes depois de ter entrado em campo, mostra bem aquilo que o espanhol dá ao onze. No primeiro golo, é dele o rasgo, a capacidade de sair a rir de uma situação de um para três, depois resolvida de forma brilhante e sempre ao primeiro toque até à finalização do brasileiro. No segundo, é dele a ação de pressão que leva ao roubo de bola, bem como depois a condução do contra-ataque e a decisão (boa) de libertar a bola para quem pudesse dar bom seguimento ao lance.Desde que Julen Lopetegui o trouxe para o FC Porto, interrompendo-lhe o percurso de jovem estrela à procura de afirmação no Atlético de Madrid, Óliver Torres deixou bem à mostra o que podia dar à equipa do FC Porto, tanto na fase ofensiva como na fase defensiva. É um jogador criativo, criterioso e inteligente, que devidamente motivado nem se furta a cumprir trabalho mais invisível. E no entanto, na época passada, seis meses depois de o clube português ter investido bem na compra do seu passe, transformando o empréstimo numa situação tão irreversível quanto o futebol o permite, o espanhol foi desaparecendo gradualmente. As razões, só quem está naquele balneário as saberá, mas a maior dúvida que me subsiste não é tanto se Óliver deve ser titular e figura chave deste FC Porto. É, sim, se a equipa pode manter este esquema com dois pontas-de-lanca e dois extremos contra opositores que, ao contrário do Marítimo de ontem, entendam que um campo de futebol não acaba na linha de meio-campo e acreditem que é possível atacar a baliza adversária.
2018-11-04
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Último Passe

A derrota contra o Moreirense e, provavelmente quase tanto como isso a paupérrima exibição da equipa do Benfica na abertura da nona jornada da Liga, viraram ainda mais os ânimos de uma boa parte dos adeptos presentes no Estádio da Luz contra Rui Vitória. São reações emocionais, nascidas da frustração, como emocional foi igualmente a agressão de Jardel a Arsénio, punida com expulsão, ou terá sido a irritação de Jonas com Fábio Pacheco, num momento do jogo em que tiveram de ser os miúdos Gedson e João Félix a acalmar o experiente brasileiro. Rui Vitória, porém, já veio dizer que não desiste e Luís Filipe Vieira tinha sido taxativo no início da semana, a garantir que não muda de treinador. E, no entanto, nem tudo isto é irrelevante. Rui Vitória é hoje o mesmo treinador que ganhou dois campeonatos no Benfica. É um técnico seguro, aquilo a que se chama um treinador de projeto. Dele não se esperam momentos de brilhantismo, mas sim fidelidade às linhas mestras que lhe traçam desde cima. Se é para apostar nos miúdos, ele aposta nos miúdos – e não deixa de ser curioso que todos os que o elogiaram quando, deixado sem mais alternativas por circunstâncias várias, foi forçado a promover jogadores como Ederson, Lindelof ou Renato Sanches, mais tarde vendidos a preço de ouro, agora o critiquem por jogar com os miúdos e deixar no banco jogadores mais batidos, como Salvio ou Cervi. No fundo, quem agita lenços brancos quer é ganhar e tanto se lhe dá se o faz com jogadores novos ou velhos, brancos ou negros, destros ou canhotos. Quem decide, no entanto, tem de ser capaz de ver um pouco mais longe. Sempre achei que o maior mérito de Rui Vitória no Benfica tinha sido dirigir a favor do balneário. Mais influente no treino, no trabalho diário, Jorge Jesus via a personalidade levá-lo a uma gestão mais conflituosa dos jogadores. O primeiro campeonato ganho por Rui Vitória, precisamente ao Sporting de Jesus, não foi ganho porque o seu Benfica jogasse mais, que não jogava… – foi ganho porque o seu líder era mais discreto, usava mais o “nós” e menos o “eu”, e isso predispunha os jogadores a superar-se na defesa do grupo. O segundo título ganho por Vitória terá sido aquele em que, por dificuldades do FC Porto e impulso auto-destrutivo do Sporting, o Benfica foi claramente superior aos rivais. Sempre me convenci de que esse teria sido o momento para Rui Vitória sair – porque Vieira mimetizou de Pinto da Costa a tendência de não se separar de treinadores em baixa e aquele era o momento de corrigir o tiro e ao mesmo tempo ser grato a quem o tinha ajudado, como tentou fazer com Jesus quando quis desfazer-se dele, em 2015. Ainda hoje não sei o que falhou – embora suspeite que terá sido o facto de Jorge Mendes não ter conseguido tirar Leonardo Jardim do Mónaco nesse Verão de 2017 (falava-se do Arsenal…), depois de o madeirense ter atingido as meias-finais da Liga dos Campeões. Jardim ficou e o carrossel não arrancou. A terceira época de Vitória na Luz já foi em perda. À campanha miserável na Liga dos Campeões somou-se a perda do campeonato para o FC Porto, a eliminação da Taça de Portugal aos pés do Rio Ave e a incapacidade de chegar sequer ao “final four” da Taça da Liga, em benefício do Vitória FC. A resposta do Benfica foi reforçar a equipa – e esta época, apesar do apagamento de Ferreyra, o ponta-de-lança que faria com que tudo aquilo adquirisse sentido, parece evidente que o melhor plantel da Liga é o que trabalha na Luz e no Seixal. Até por isso, a sequência de derrotas que afasta os encarnados do topo da Liga e os deixa em maus lençóis na Liga dos Campeões vem pressionar mais Rui Vitória, que a perder também mudou um pouco de forma de estar: parece mais tenso e substituiu o paternalismo pela irritação face a perguntas que nem chegam sequer a ser incómodas. Além disso, já bateu várias vezes com a mão no peito, reclamando em nome próprio os milhões encaixados pelo clube nos últimos mercados e chegando até a difundir dados errados acerca do “ratio” de vitórias em partidas internacionais em comparação com outros treinadores. Vitória comporta-se em consonância com a frase que soltou ontem, depois de ver a sua equipa ser vencida e convencida pelo Moreirense – algo que não sucedera nem com o Ajax em Amesterdão nem como o Belenenses no Jamor. “Não desisto de nada!”, disse. E não desiste. Vai defender-se. E Vieira? Vieira continua marcado pela demissão de Fernando Santos e é hoje muito mais o presidente que segurou Jorge Jesus quando este perdeu tudo em 2013 do que um líder suscetível de mudar de treinador por causa da pressão, venha ela de adeptos ou até de dirigentes da SAD ou do clube. A questão aqui é a de se saber o que pensa Vieira de Vitória. Confia que ele é o melhor treinador para o Benfica, como confiava em Jesus em 2013? Se assim for, nem a eventualidade de mais uma derrota contra o Ajax, na quarta-feira, o levará a demitir o treinador. Ou está já convencido de que Vitória não é a melhor pessoa para comandar o barco e manifestou-lhe solidariedade no início da semana só porque é isso que se espera dele e estará nesse caso recetivo a aceitar um pedido de demissão que não o leve a entrar em contradição? As próximas semanas no-lo dirão.
2018-11-03
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