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O futebol português vive numa conjuntura em que, independentemente de onde esteja o poder de direito, o importante é entender onde está o poder de facto e fazê-lo funcionar, doa a quem doer. Há já alguns meses que venho escrevendo e dizendo a quem está, por exemplo, na Federação Portuguesa de Futebol, que só da Cidade do Futebol podia vir uma ação contundente para acabar com a podridão que está a gangrenar todo o futebol nacional. Sempre me respondiam que não podia ser, porque o poder de direito é da Liga e só a Liga podia meter-se no caso. Só que a Liga está fraca, a entrada de Pedro Proença não a revitalizou suficientemente e o poder de facto está noutro lado. Portugal foi campeão europeu e, inevitavelmente, a liderança da FPF recolheu daí muitos benefícios em termos de imagem pública. Independentemente disso – mas também por isso –, Fernando Gomes acaba de ser nomeado para substituir Angel Maria Villar na Comissão Executiva da FIFA, sendo neste momento evidente que é, em termos internacionais, o mais poderoso dirigente da história do futebol nacional. Mais do que Antero da Silva Resende, cuja presença nos principais areópagos internacionais era vista como uma vitória para o Portugal dos Pequenitos mas significava pouco. Mais do que João Rodrigues, a cuja presença significativa nos corredores das mais altas instâncias faltava o correspondente reconhecimento público. Além disso, mesmo antes do Europeu de 2016, Tiago Craveiro já era um dos homens mais tidos em conta, quer pela liderança da FIFA quer pela liderança da UEFA. O primeiro abraço de Gianni Infantino depois de ter sido eleito presidente da FIFA foi dado a Onofre Costa, o homem que muita gente em Portugal julga que se limita a sentar-se ao lado de Fernando Santos nas conferências de imprensa e a escolher os jornalistas que têm o direito de fazer perguntas, mas cuja importância transcende em muito esses momentos – por alguma razão era ele quem estava ao lado direito de Infantino na plateia. O verdadeiro poder para influenciar as coisas no futebol português está na Federação Portuguesa de Futebol e não na Liga, até pelo simples facto de não ser a FPF quem mais se envolve diretamente nos assuntos acerca dos quais os clubes mais discutem. Quando foi preciso instituir o vídeo-árbitro foi a FPF quem avançou. A Liga, além de estar a recuperar de um estado de pré-falência, nunca conseguirá – ou pelo menos não o conseguirá nos tempos mais próximos – pairar acima de qualquer suspeita para clubes cuja atividade vive precisamente da criação dessa mesma suspeita. Por isso, sim, embora não tivesse a obrigação de o fazer, só a Federação Portuguesa de Futebol e o seu presidente podiam encabeçar a tentativa de pacificação iniciada com o texto assinado esta semana por Fernando Gomes. Só mesmo o presidente da FPF podia escrever o que escreveu e recolher aplausos de todo o lado – tivesse sido Pedro Proença a fazê-lo e imediatamente choveriam acusações de favorecimento à esquerda e à direita, que é como quem diz a um e a outro dos grandes. E, no entanto… E, no entanto, ainda que toda a gente tenha concordado e aplaudido as palavras de Fernando Gomes, os principais clubes fizeram delas chão raso quando se tratou de as comentar, todos a apontar o dedo uns aos outros, como se as culpas do que se passa fosse apenas e só dos rivais. É por isso que digo que Fernando Gomes deu o pontapé de saída, exercendo aquilo que pode exercer, que é um magistério de influência para tentar colocar as coisas nos eixos, mas que vai ser preciso haver mais gente a fazer mais. Se o que se quer é acabar com o corrente estado de podridão – e não se julgue que isso vai acabar de um dia para o outro, porque foram anos e anos a espalhar ódio, que já se entranhou nas mais diversas camadas da sociedade e leva o comum adepto a ser mais ativo quando se trata de menorizar as conquistas dos adversários do que quando pode festejar as vitórias dos seus – é preciso fazer mais. E o mais, já o disse e escrevi, não passa por enquadrar disciplinarmente os ilícitos, porque isso haverá sempre forma de contornar, seja através de meros adeptos famosos cujo discurso não é imputável aos clubes, seja através de simples funcionários. O mais que é preciso fazer passa por ocupar o espaço mediático. Passa por, como se faz nas Ligas que deviam ser modelo para nós, forçar os clubes a permitirem que os verdadeiros protagonistas – jogadores, treinadores – apareçam nas TVs, nas rádios, nos jornais ou nos sites de informação, com simples declarações ou em entrevistas. E aqui, sim, tem de ser a Liga a chegar-se à frente e a perceber que, por muito que queira manter este equilíbrio precário em que o futebol se está a afundar, não pode manter mais o alibi segundo o qual só faz aquilo que os clubes querem. Os clubes não podem querer a auto-destruição do futebol português. Não têm nada a ganhar com isso.
2017-09-24
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O futebol é um jogo ou é um negócio? Aparentemente nem uma coisa nem a outra – é o ópio do povo. É o que se conclui da bizarra decisão de atrasar o pontapé de saída do Sporting-FC Porto, passando-o para as 19h15 do dia das próximas eleições autárquicas, de forma a que não atrapalhe o normal curso dos procedimentos democráticos. Se fosse um jogo, poderia jogar-se, como todos os que decorrerão nesse domingo. Se fosse um negócio, poderia defender-se, como todos os negócios que estarão de portas abertas nesse domingo. Chato mesmo é ser o ópio do povo, a encarnação de todos os males. A potencial abstenção dos eleitores portugueses não tem, afinal, a ver com o aumento do grau de desilusão que vão tendo nalguns políticos que elegem ou do sentimento de impotência para travar o que sentem estar mal. Não tem sequer a ver com a quantidade de programas de TV idiotas que lhes enchem a grelha do cabo e das generalistas ou com o facto de poderem passar os domingos de eleições a vegetar dentro de centros comerciais, que a cada ano esticam mais os horários de abertura e de fecho – quando em muitos países onde se fazem coisas parvas, como jogar futebol em dia de eleições, esses mesmos centros comerciais fecham ao domingo para permitir o convívio das famílias. Não. A abstenção dos eleitores portugueses tem a ver com os jogos de futebol. Por isso, no próximo dia 1 de Outubro, poderemos todos ir ao cinema, ao teatro, à praia, ver espetáculos de música, fazer piqueniques no campo… Poderemos até passar o dia a ver montras nos centros comerciais, mas estamos protegidos desse mal maior que é a possibilidade de ir ao futebol enquanto as urnas estão abertas. Quem teve esta ideia peregrina demonstra muita coisa, mas não um conhecimento acertado da realidade. É que apesar das tentativas recentes de recuperação do setor, que sim, é um negócio e não está a ser nada ajudado com decisões como esta, o futebol, para os portugueses, deixou há muito de ser uma atividade predominantemente de estádio. É uma atividade de sofá. Há mais gente a ir aos estádios, mas o que as pessoas querem por estes dias não é ver um remate do Aboubakar, um drible do Gelson ou um passe a rasgar do Pizzi. O que querem é saber o que dizem na televisão desses feitos – daí o sucesso de programas que mais não apresentam do que imagens em loop dos treinadores a percorrer a linha lateral e a reação de adeptos “famosos” ao que se vai passando no campo. É giro, não tem de se perceber e sempre mete uns palavrões e uns insultos de vez em quando. Portanto, meus senhores, é melhor proibir também nesse dia os programas sobre futebol – mas podem deixar os reality shows, as novelas, as sessões de cinema e os desenhos animados, que isso, quem os vê não deve votar. Aceito até que aleguem que não é só isso. Que a malta em Portugal anda mais entretida com essa conversa tóxica, com as entrevistas dos diretores de comunicação, os mails, o vídeo-árbitro ou as listas dos corruptos por comprovar do que a ver futebol a sério porque o futebol por cá não é assim tão interessante. Pois bem, eis a má notícia. Nesse dia 1 de Outubro, há um Real Sociedad-Betis às 11h, um Nápoles-Cagliari às 11h30,  Arsenal-Brighton ao meio-dia, um Hertha-Bayern às 14h30, um FC Barcelona-Las Palmas às 15h15, um Newcastle-Liverpool às 16h30, um FC Colónia-RB Leipzig e um Milan-Roma às 17h e por fim um Atalanta-Juventus e um Real Madrid-Espanyol às 19h45. Podem fazer uma de três coisas. Convencer os eleitores a irem votar pela fresquinha, esperar que o Barça e o Bayern resolvam os jogos depressa para se dar um salto à mesa de voto – pode ser que não haja muita fila e dê para votar antes de começar o Liverpool… – ou impor à Sport TV a transmissão dos jogos em diferido. E bloquear os streamings todos, para que quem prefere ver as coisas de forma, digamos, menos legal, também não se sinta tentado a abster-se. O problema é que a política já passou há muitos anos pelo caminho de descredibilização que o futebol está a passar agora. Provavelmente tem a ver com a sociedade. Cresci a ouvir um pouco por todo o lado acerca dos políticos o que se ouve hoje da malta do futebol – e não eram coisas simpáticas. O segredo, acreditem, não passa por proibir. Ninguém deixa de ir votar por causa de um jogo de futebol às 18 horas. A submissão de uma atividade económica tão importante como o futebol – sim, podem rir-se à vontade, mas quando acabarem vão ver os números – a um capricho é que não indicia nada de bom. Nem acerca dos homens do futebol nem dos políticos que acham que estão a fazer uma coisa boa.
2017-09-17
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Feirense e Portimonense portaram-se muito bem nos jogos com Sporting e Benfica, a contar para a quinta jornada da Liga (escrevo ainda antes do FC Porto-Chaves) e essa circunstância foi e voltará a ser aproveitada para ridicularizar os que apontam o dedo à desigualdade na distribuição da receita para falar de perda de competitividade do futebol em Portugal. Na verdade, quem o faz está a ser tão ou mais demagogo do que foi Manuel Machado quando levantou a lebre, depois de ter visto o seu Moreirense ser atropelado pelo FC Porto. Porque aqui há dois planos de realidade: a distribuição da receita devia ser mais justa, mas dentro das injustiças há quem trabalhe melhor e quem trabalhe pior. Imaginemos uma família que faz das tripas coração e consegue viver com o salário mínimo. E outra que, nas mesmas condições chega sempre a meio do mês com as contas a vermelho. O facto de existir a primeira não quer dizer que o salário mínimo seja suficiente ou que a sociedade não deva preocupar-se com as desigualdades que a assolam: significa apenas que há gente que consegue fazer mais com menos. E tanto Nuno Manta como Vítor Oliveira – ou Miguel Cardoso, que protagonizou com o Rio Ave um arranque extraordinário da Liga – são treinadores capazes de fazer muito com pouco. E parte da justificação nem está exclusivamente neles: tem a ver com a qualidade dos grupos de trabalho que lhes puseram à disposição, com uma boa escolha de jogadores, mesmo sem salários muito elevados. Depois, há as questões que têm exclusivamente a ver com os treinadores. Primeiro, as táticas ou estratégicas: o Feirense e o Rio Ave são das poucas equipas do campeonato que jogam olhos nos olhos com os grandes, que tentam sair em construção segura e que vão lá acima à procura da bola quando a não têm, ao passo que o Portimonense sabe ter a bola e jogar com as zonas em que o adversário se sente mais desconfortável. É a velha máxima: joga como os grandes se queres ser como eles. Depois, por questões de liderança: Manta é o irmão mais velho que leva a família toda atrás, Vítor Oliveira o pai em que todos no balneário acreditam e Cardoso uma espécie de jovem professor que transpira ciência e causa admiração. A liderança de Machado é mais antiga, professoral até no discurso, resulta pior, mas isso não quer dizer que ele não tenha razão na crítica que fez. Aliás, um dos problemas do futebol é não haver um sistema funcional de vasos comunicantes que permita a filtragem das reflexões e a sua chegada a quem decide já prontas a serem digeridas. E aqui, lamento, mas não me interessam as “reflexões” – assim mesmo, com aspas – que os grandes vão fazendo sore arbitragem, vídeo-arbitragem ou disciplina, porque essas têm sempre o mesmo intuito, que é tirar aos pobres para dar aos ricos. Não falo de quem só acha que o vídeo-árbitro é uma boa ideia quando ele decide de acordo com as suas conveniências, porque não só é uma boa ideia como é uma ideia fulcral. Falo, por exemplo, das críticas que o presidente do Marítimo, Carlos Pereira, fez esta semana ao modelo de organização da Taça da Liga, que é montado de forma a favorecer a chegada dos grandes à “final four”. Tem razão. E ele sabe que isso acontece porque ter os grandes na “final four” aumenta exponencialmente o interesse popular na competição e, claro, a receita. O que não se lhe ouviu – pelo menos em público – foi uma alternativa que faça da Taça da Liga uma prova mais justa sem perda de receita. Começá-la, por exemplo, logo pela fase de grupos, invertendo a ordem de benefício do fator-casa que atualmente favorece os grandes. Levar os grandes aos campos da província em fase inicial da época, quando há mais fome de bola e emigrantes em Portugal, por exemplo. Fazer mais jogos quando as equipas querem jogar e não lhes sobrecarregar Janeiro, num convite descarado a que joguem com os suplentes e aconteça o que aconteceu no ano passado: apesar de todas as tentativas de os beneficiar no modelo da competição, dos grandes só o Benfica esteve na “final four”. E houve apenas 6703 espectadores na final, entre SC Braga e Moreirense. Falo, por exemplo, das queixas de Jorge Jesus acerca do estado pouco alerta de alguns dos seus jogadores que chegaram a Portugal pouco mais de 24 horas antes do jogo com o Feirense, vindos do outro lado do Mundo. “Deixe-me dormir primeiro, que depois logo lhe digo”, terá respondido Coates ao treinador, quando este lhe perguntou se ele estava em condições de jogar. E esta questão, dos calendários, já tem merecido debates sucessivos nos fóruns de treinadores que os organismos internacionais vão organizando, mas nada evoluiu e nunca se ouviram sequer propostas para melhorar as coisas, por exemplo juntando mais datas de seleções para minimizar o efeito das viagens transatlânticas e usando os milhões que o Mundial de futebol gera para ressarcir os clubes da ausência mais prolongada dos seus jogadores e da falta de receita por interrupção das competições. Pelo contrário, o que se fez foi no sentido inverso: espalharam-se os dias em que se joga sem que se façam mais jogos, mas só para haver menos concorrência entre jogos na TV, aproximando as chegadas dos jogadores aos clubes das datas em que têm de voltar a competir. Esta incapacidade de o futebol levar o pensamento basista às cúpulas está na génese da maior parte dos problemas que o jogo tem de enfrentar. Mas em vez de se trabalhar nesse sentido, o que mais se vê é a tentativa de o menorizar com argumentos que têm sempre o mesmo intuito. O de manter tudo na mesma.
2017-09-10
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Último Passe

O encerramento do mercado veio contribuir um pouco mais para a sensação de equilíbrio que os três candidatos ao título vinham fazendo adivinhar na Liga de 2017/18. O Benfica pode já ter resolvido a sucessão de Nelson Semedo, mas deixa dúvidas na baliza e no centro da defesa, pelo que não é seguro que não surja mais fraco do que há um ano. O FC Porto confirmou que vai encarar o campeonato sobretudo com a força que lhe confere uma boa ideia de jogo, a que lhe trouxe Sérgio Conceição, mas fica também a sensação de que o plantel pode ser curto para tanta exigência. E o Sporting, que está mais forte em termos individuais, é também, dos três, quem tem pela frente o mais intrincado puzzle tático e de gestão de balneário, fruto de ter sido quem mais revolucionou o grupo de jogadores. O desafio do pentacampeonato, no Benfica, pode ser tão dificultado pelos jogadores como pela depauperação do plantel trazida pelo mercado. Rui Vitória ficou sem Ederson, Nelson Semedo e Lindelof, tendo-os substituído por Varela/Svilar, Douglas e pela reascensão de Jardel, o que lhe provoca problemas tanto defensivos como ofensivos. Enquanto se espera para ver quem vai emergir da luta a três como titular da baliza, parece claro que, pelo menos no imediato, nenhuma das opções apresenta a qualidade de Ederson, tanto entre os postes como a sair deles ou até na forma de relançar o ataque. Jardel deixa dúvidas em termos físicos, mas também na qualidade da saída de bola, enquanto que Douglas terá de recuperar a forma brasileira para dar à equipa a saída que ela tinha pela direita com Semedo. Na frente, o Benfica parece mais forte, à partida porque volta a ter Jonas, depois porque tendo perdido Mitroglou ganhou Seferovic e finalmente porque tem em Gabriel um jogador capaz de lhe dar alternativas: pode ser retaguarda de Jonas ou até formar um ataque móvel com ele. Aí, se há crise, ela é de abundância, porque além dos três ainda há Jiménez. Sociedades como as já existentes, de Pizzi com Salvio, deste com Jonas, dos três com Seferovic, serão fundamentais no ataque ao penta, cujo sucesso dependerá muito da capacidade da equipa libertar o seu principal pensador – Pizzi – e manter o jogo sempre o mais perto da baliza adversária possível. No último terço, este pode ser um Benfica temível, pela capacidade que tem de imprimir mudanças de velocidade com a bola. O problema é que até para meter velocidade é preciso espaço. E já se viu como o Rio Ave foi capaz de lhe roubar o espaço. Também de tração à frente é o FC Porto de Sérgio Conceição, equipa que mudou poucos jogadores – limitou-se a recuperar emprestados, como Aboubakar, Marega ou Ricardo – mas alterou de forma radical a maneira como encara o jogo. Este FC Porto constrói de outra maneira, joga muito mais à frente, libertando Óliver Torres para tarefas de criação e depois metendo sempre muita gente na zona de definição. A primeira mudança assegura uma qualidade no jogo logo desde trás – e até aqui só o Tondela conseguiu secar Óliver, impedindo-o de ser o patrão de que o FC Porto necessitava. A segunda garante várias alternativas de finalização quando a bola lá chega e reflete-se numa mudança como da noite para o dia na produção goleadora. Se há algo que pode custar caro a este FC Porto é a falta de alternativas para algumas posições – se muda Óliver por André André, por exemplo, torna-se uma equipa mais de transição, ainda que com mais chegada ainda à área; se perde um dos avançados, torna-se difícil manter este 4x4x2, porque lhe falta um suplente à altura – e até por isso parece incompreensível que Rui Pedro tenha sido emprestado ao Boavista. Já o Sporting parece ter sido quem mais se reforçou, com gente de muita qualidade, como Coentrão, Mathieu, Acuña ou Bruno Fernandes. Já para não falar de Battaglia, a coqueluche de Jorge Jesus, que pode agora ver tudo mudar com a permanência de William Carvalho. Tudo indica que o plantel dos leões foi construído a pensar que iam sair William e Adrien, mas afinal o primeiro ficou e o segundo ainda espera autorização da FIFA para seguir para o Leicester. Dirão os otimistas: mas isso é excelente. É e não é. É como alguém comprar uma casa a pensar que vai vender aquela em que vive e depois acabar por ter de ficar com as duas. O overbooking no meio-campo leonino não tem de ter apenas consequências financeiras ou de gestão de egos no balneário: apresenta um desafio-extra ao treinador, até do ponto de vista tático. E se as coisas já iam exigir uma mudança radical no futebol de Jesus – com Bruno Fernandes a alternar entre ser um 8 mais ofensivo do que Adrien, logo a precisar de um 6 mais defensivo do que William, e um 10 menos presente na área do que Alan Ruiz ou Podence, logo a exigir mais movimentos interiores dos extremos – agora é que o puzzle fica mesmo complicado de resolver. Poderá o Sporting jogar com William e Battaglia, sem perder qualidade na aproximação à área? Poderá jogar com William e Bruno Fernandes sem perder agressividade na transição defensiva? Poderá jogar com os três, sem perder presença na área? Se conseguir resolver a equação, Jesus pode ter nas mãos o plantel mais forte desde que chegou a Alvalade – mais forte até do que o de 2015/16. Se não conseguir, estará perante a maior oportunidade falhada desde que passou a vestir de verde-e-branco.
2017-09-03
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Último Passe

Há, em cada decisão dos treinadores, muitas motivações. Umas são de caráter técnico, outras de caráter físico, outras de índole tática e outras ainda obedecem a questões estratégicas. Estas são as mais difíceis de tomar e de compreender – sim, estratégia e tática são coisas muito diferentes. Podem, mesmo, ser mal entendidas pelos próprios jogadores e até pelos adversários, mas são também as que criam condições para produzir mais resultados. É por aqui que se explica a aposta de Jorge Jesus em Doumbia em vez de Bas Dost no jogo de Bucareste, em que o Sporting conseguiu o bilhete de entrada na Liga dos Campeões. E é um pouco por aqui que pode explicar-se a mudança de paradigma na cabeça do treinador do Sporting. Numa coisa, Jesus não mudou. Continua a ser dos treinadores portugueses que mais venera a estratégia particular para cada jogo – e foi por isso que no sábado passado, no programa noturno da RTP3, avancei com a possibilidade da troca de Bas Dost por Doumbia no jogo de Bucareste. A mudança fazia sentido por muitas razões. Primeiro, físicas: nas palavras do treinador, Dost “acabou morto” o jogo de Guimarães. Depois técnicas e táticas: Doumbia é também um goleador, um ponta-de-lança com faro de golo e bom posicionamento na área, com um primeiro toque e uma velocidade de reação que lhe têm permitido lutar pelos títulos de melhor marcador nos países por onde tem passado. Mas fundamentalmente estratégicas: o Steaua estava a jogar em casa, quereria aproveitar esse fator e superiorizar-se ao Sporting, ia subir o bloco e deixar espaço nas costas, pelo que convinha aos leões ter alguém capaz de explorar a profundidade, com rapidez na posse e velocidade na desmarcação. O perigo da decisão foi bem explorado nos muitos comentários que fui ouvindo entre o anúncio dos onzes e o jogo propriamente dito. O que vai pensar a equipa? O facto de o treinador retirar da equação o melhor marcador da época anterior pode ser visto como sinal de medo, pelos próprios jogadores ou até mesmo pelos adversários, que dessa forma poderiam entrar mais moralizados? Não acreditei nisso, sobretudo porque a decisão fazia sentido do ponto de vista tático, pois não representava uma alteração de sistema. E atenção que Jesus sempre acreditou que tudo no futebol parte do sistema e não do modelo de jogo, como sustenta a nova escola de treinadores e provaram o FC Barcelona ou o Bayern de Pep Guardiola ou a Espanha de Vicente Del Bosque. É verdade que o apuramento dos leões foi natural, porque são muito melhor equipa do que este Steaua, tanto do ponto de vista individual como coletivo – e se houve aqui erro de apreciação foi o do próprio Jesus, quando no final da primeira mão afirmou que estavam frente a frente duas equipas do mesmo nível. Não estavam. Ainda assim, mais até do que o apuramento natural, foi a goleada que permitiu colocar as luzes da ribalta em cima da componente estratégica. E a verdade é que em Guimarães e em Bucareste a estratégia passou o teste. Mas, apesar das duas goleadas seguidas, não creio que Jesus tenha já resolvido o puzzle que o plantel desta época lhe apresenta. Porque a entrada no onze de Bruno Fernandes, que foi decisivo nos dois últimos jogos, criará outro problema em partidas como a que se segue já amanhã, em casa com o Estoril, por exemplo. Com Bruno Fernandes a segundo avançado/terceiro médio, o Sporting voltou a ter jogo interior dentro do bloco adversário – e a isso também não é estranha a subida de rendimento de Adrien. Só que a alteração tem outra implicação, que é a diminuição da presença na área: o sistema, de onde partem sempre as ideias de Jesus, até pode ser o mesmo, mas a sua interpretação difere se lá estiver Bruno Fernandes, Alan Ruiz, Podence ou Doumbia (ou Téo Gutierrez, o melhor entre os segundos avançados que Jesus teve no Sporting). Contra equipas que se destapam, que querem jogar, como o Steaua ou o Vitória no jogo do Minho, este 4x4x2 mascarado de 4x2x3x1 funciona às mil maravilhas. Contra equipas que metam o autocarro à entrada da área, um dos médios terá de ser sacrificado para que o Sporting possa continuar a jogar ocupando o campo todo. Cruijff usava um método engraçado para provar a superioridade do 4x3x3: dividia o campo em quadrículas e mostrava que o seu sistema predileto era o que mais se encaixava no retângulo de jogo, ocupando-o na perfeição. Jesus, um cruijfiano convicto, nunca foi grande adepto do 4x3x3: chegou à primeira divisão em 3x5x2, joga há uma década em 4x4x2, testou neste início de temporada o 3x4x1x2 como Plano B mas está a cair muito no 4x2x3x1 de que nunca gostou particularmente. É por isso que me parece que 2017/18 pode marcar uma mudança no pensamento de Jesus: o sistema está em risco como base de todo o futebol, podendo dar lugar a um híbrido que seja capaz de mudar de pele consoante roda jogadores – outra coisa que o Sporting de 2016/17, por exemplo, não fez, sacrificando sempre as segundas opções.  
2017-08-27
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A ver o Rio Ave de Miguel Cardoso jogar e somar a terceira vitória seguida, que lhe garantiu desde sexta-feira o lugar entre os líderes da Liga, não pude deixar de lembrar-me daquilo que disse Jorge Jesus antes de rumar a Guimarães. Porque se há coisa que Jesus faz bem é enaltecer os méritos a quem os merece: sejam os próprios, quando as coisas correm bem às suas equipas, como acabou por ser o caso do Sporting no Minho, sejam os alheios, quando as suas equipas ficam um pouco aquém, como sucedeu na receção ao Steaua. E, ainda que muitos tenham preferido ver ali alguma dose de desresponsabilização própria, quando Jesus comparou as “oito semanas” que este Sporting tem de trabalho com os “oito anos” que um dos rivais já leva, não estava a ser rigoroso, mas no conceito geral tinha razão: a continuidade dá frutos. Pô-la em prática é que é complicado. No caso do Rio Ave, mais até do que nos jogadores, a continuidade é posta em prática no tipo de futebol. Tal como a equipa de Luís Castro no ano passado, este Rio Ave gosta de ter a bola, de praticar um jogo positivo, de pé para pé, tanto como odeia arriscar a bola em chutões sem nexo só para ver o que a coisa dá. Os plantéis até mudam, tal como mudam os onzes-base, mas as ideias continuam as mesmas e esse plano de continuidade permite à equipa nunca ter de começar do zero. Entre os grandes, verdade seja dita, nunca se começa do zero. Mas ajuda muito poder começar em função de uma estrutura que saiba que referências impor dentro de um balneário, que comportamento assumir dentro e fora do campo. Os movimentos saem melhor quando os jogadores já sabem o que os colegas vão fazer antes mesmo de porem uma combinação em prática e a fração de segundo que se ganha nesse entendimento subliminar pode fazer a diferença entre um golo e uma perda de bola seguida de contra-ataque do adversário. A questão é que, na mesma conferência de imprensa, o próprio Jesus respondeu a quem lhe perguntou que jogador quereria se lho dessem que precisava de mais um jogador de ataque. A vantagem do rival é ter a mesma equipa há oito anos, mas a resposta do Sporting passa por mudar a equipa todos os anos? O onze que ontem ganhou em Guimarães tinha seis reforços de 2017/18; o que empatou com o Steaua tinha cinco. Na verdade, o Benfica não tem a mesma equipa “há oito anos”. Do onze que foi campeão com Jesus em 2010, só resta Luisão. Jardel chegou um ano depois, André Almeida e Salvio na temporada seguinte, mas até Fejsa, Pizzi, Eliseu e Jonas vão em quatro ou cinco épocas de águia ao peito. Pega-se no Sporting de 2013, que foi o ano de entrada daquele médio sérvio na Luz, e vai-se à procura de quem continue por Alvalade. Restam Rui Patrício, William Carvalho, Adrien e agora Iuri Medeiros – ainda que este estivesse nessa altura na primeira época de sénior e tenha jogado apenas na equipa B. Os outros perderam-se numa política de mercado errática, na procura permanente de mais-valias nos elementos que acabaram por se revelar válidos e em erros de casting que foram sendo cometidos pelo caminho. Hoje por hoje, Benfica e Sporting estão a corporizar dois paradigmas radicalmente opostos no que diz respeito à recomposição de plantel a que o facto de estarem num mercado periférico como o português os obriga. No Benfica, saíram três titulares pela porta de cima e até ver gastou-se pouco ou nada na contratação de substitutos. Por muito que a propaganda venda esta como a política de longa duração do clube, não tem sido isto que o Benfica tem feito nos últimos anos, em que as compras têm sido também inflacionadas, quanto mais não seja para alimentar o cash-flow de compra-e-venda permanentemente mantido com a Gestifute. Esta época, porém, as substituições de quem saiu por cima foram feitas por baixo – Varela, André Almeida, Jardel… – e a coisa parece até demasiado arriscada, apesar do bom início de temporada. No Sporting, tem-se feito ao contrário e vai-se ao mercado à procura de substitutos valiosos para quem o clube perde, seja por vontade de vender em alta, seja por achar que precisa de mudar em determinadas posições. Na verdade, ambos os caminhos são válidos. E isso quer dizer que não se deve recusar a procura interna de substitutos, na equipa B ou no banco, e depois olhar para essa forma de recompor o plantel como uma vantagem competitiva.
2017-08-20
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O empate a zero do Sporting contra o Steaua de Bucareste, que deixa mais complicado o acesso leonino à fase de grupos da Liga dos Campeões, veio trazer mais evidências para a constatação que já se tinha podido fazer na vitória por 1-0 que a equipa de Jorge Jesus arrancara a ferros contra o Vitória de Setúbal na sexta-feira: falta qualidade na construção pelo corredor central sempre que a equipa deixa de contar com William Carvalho. Ter ali Adrien e Battaglia juntos torna-se um problema para uma equipa que, tal como na última partida, voltou a não conseguir ter posse de bola dentro do bloco adversário e se viu forçada a um jogo de cruzamentos para um Bas Dost sempre muito só na área. O problema pode avolumar-se se o mercado acabar por levar William. Battaglia converteu-se numa coqueluche para Jesus, que ainda hoje voltou a elogiar-lhe a exibição, mas o seu futebol muito físico, com dificuldades na recepção, no passe e na arquitetura dos ataques dificilmente será conciliável com o jogo de Adrien, também um médio mais intenso do que criativo. Tanto um como o outro podem ser muito úteis, mas dificilmente o serão em simultâneo. Adrien precisa de William, da mesma forma que Battaglia precisa de Bruno Fernandes. Quer isto dizer que se vai vender um dos seus dois médios campeões da Europa, o Sporting bem podia vender os dois, de forma a poder construir um meio-campo do zero, sem amarras a um passado feito de um entendimento perfeito entre a dupla que marcou os últimos anos. Assim, se é levado a somar Adrien a Battaglia, Jesus está a fazer deste Sporting uma equipa que não terá nada a ver com as que vem construindo nos últimos anos. O que caracteriza as equipas de Jesus? Entre muitas outras coisas, a exploração do espaço interior, a capacidade para jogar dentro do bloco adversário, para triangular ali. Ora com esta dupla de médios, raramente o conseguiu nestes dois jogos. Culpa de Podence, o segundo avançado que se coloca nas costas de Bas Dost e deveria ocupar esse espaço entre linhas? Nem por isso. Culpa sobretudo de um meio-campo que nunca fez movimentos de aproximação com bola para tirar os médios do Steaua da poltrona onde se sentaram desde o início da partida, à entrada da área. Só Mathieu tentou fazer isso em todo o jogo de hoje. O que isso provoca é que os leões sejam forçados a abusar dos corredores laterais e, se não aparecem um Gelson ou um Acuña superlativos, nota-se mais o paradoxo que é ter Bas Dost sozinho a batalhar pelas bolas aéreas entre as torres adversárias. No final do jogo, Jesus voltou a citar o mercado como fator dissuasor para contar com William, por exemplo, nos jogos que se aproximam. Os dois jogos que aí vêm, contudo, serão bem diferentes destes dois últimos: em Guimarães e em Bucareste, frente ao outro Vitória e outra vez ao Steaua, os leões não vão ter de enfrentar adversários tão fechados e poderão jogar mais em ataque rápido e contra-ataque. Podem ser mais duas oportunidades para esta dupla de médios. E se não correrem bem talvez sejam as duas ultimas.
2017-08-15
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Acabei a crónica do Sporting-Vitória de Setúbal, fiz o push para que aqueles que as subscrevem possam receber as notificações, a partilha nas páginas de Facebook e de Twitter, e dirigi-me à máquina de café em busca de alento para os dois textos que ainda tinha de escrever naquela noite. Quando voltei ao computador, dois minutos depois, deixei que o sentimento de culpa pelo abandono a que por vezes voto os meus seguidores tomasse conta de mim e, vendo que já tinha 14 comentários, fui ver o que diziam. Eram todos, repito, todos, sem exceção, acerca do mesmo assunto. “Então mas este [inserir aqui insulto à escolha] não escreve que não foi penalti?” Outros, mais elaboradosmas muito mal informados, iam mais longe e, ignorando que em lances de pura subjetividade, como o que protagonizaram Nuno Pinto e Bas Dost, o VAR não pode intervir, perguntavam: “É para isto que serve o vídeo-árbitro?” Há três anos, isto é, desde que saí do circuito dos jornais – neste momento, sou apenas colunista do Diário de Notícias, onde não me pedem opiniões sobre arbitragem –, passei a escrever por iniciativa própria e fundei o Bancada.pt, fiz as minhas próprias regras: não explico jogos de futebol com a arbitragem. Na RTP, se me pedem, dou a minha opinião sobre os lances. Que é isso mesmo: uma opinião. Porque nos casos de arbitragem há dois tipos de lances: os claros, que toda a gente vê, e os que se prestam a exercícios da mais pura subjetividade – intensidade do toque; quem promove o contacto; momento da paragem da imagem em situações de fora-de-jogo, se um frame atrás, se um frame à frente... E aqui muitos se confundem. E de muitas maneiras. Uns dizem-me que é impossível explicar futebol sem recorrer ao fator mais importante (helas!), que no entendimento deles é o árbitro. Argumentam que ao estar a escrever aquilo que estou a escrever agora, estou a comentar arbitragens – quando na verdade do que estou a falar é de espírito desportivo ou da sua falta. E, por fim, decretam já a morte do vídeo-árbitro porque, num lance em que ele nem sequer podia manifestar-se, por ser subjetivo, ele decidiu contra a vontade deles. Querem falar de arbitragens? Vamos a isso. Lembram-se do encontrão de Bruno César em Lindelof na época passada, que o árbitro não assinalou? Era penalti a favor do Benfica? Lembram-se do toque de Soares, ainda no Vitória de Guimarães, nas costas de Schelotto, que o árbitro não considerou faltoso, validando o golo que deu o 3-3 final aos minhotos contra o Sporting, aos 90’? Era falta? E, andando três anos e meio para trás, lembram-se do toque de Slimani nas costas de Rui Correia, num Sporting-Nacional, que acabou empatado a zero, porque nessa altura o árbitro considerou falta e anulou o golo ao argelino? Era falta? A questão é que em nenhum destes lances há uma verdade incontestável. Há opiniões. E aquilo que os leitores querem é que o jornalista dê a dele, para acionarem de imediato uma de duas opções: se estão de acordo, imediatamente decretam que aquele é um jornalista sério e – nunca esta palavra foi tão mal empregue – “isento”; se não concordam, imediatamente aquele jornalista é catalogado como um “avençado”, um “cartilheiro”, que se vende “por um pequeno-almoço” (se o insultante for benfiquista) ou “por um voucher” (se for sportinguista). E depois aparecem as comparações com o “grande jornalismo” que se faz “lá fora”, como se eles costumassem ler a imprensa internacional, como se “lá fora” fosse regra explicar jogos com a atuação dos árbitros, ou como se “lá fora” os árbitros não se enganassem também ou o futebol estivesse livre de lances que se prestam a decisões discutíveis.  O problema é que as pessoas não querem sequer falar de arbitragem. Aliás, estão-se mesmo nas tintas para a arbitragem. Querem validação das suas próprias opiniões parciais – nunca vi um adepto de futebol neutro reclamar que se fale mais de arbitragens. E é por isso que escolho não explicar os jogos que vou analisando com lances de arbitragem: porque este é um tema tão dado à intolerância que seca todos os outros que lhe queiramos juntar. E porque se entro por esse caminho nunca mais consigo falar de futebol. E, peço-vos desculpa a todos, é para falar de futebol que aqui ando. Para falar de arbitragens há por aí muita gente que sabe mais do assunto do que eu.
2017-08-13
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Tive há dias oportunidade de conversar longamente acerca da indústria do futebol com Pedro Proença, presidente da Liga Portugal – o resultado da conversa é uma entrevista publicada hoje em bancada.pt –, a propósito do início do campeonato, que esta tarde arranca com o Desp. Aves-Sporting. O momento é de preocupação global, face à louca escalada dos valores que o futebol continua a movimentar, e de que o caso-Neymar foi apenas o exemplo mais recente, tendo até levado a UEFA a uma ofensiva de relações públicas que chegou aos principais jornais desportivos europeus, mas o Pedro Proença que vi foi um homem estranhamente tranquilo e paciente, qualidades que podem facilmente ser confundíveis com desistência. Os dois anos que tem de experiência do lugar tê-lo-ão trazido até aqui, mas o que tem pela frente nos dois anos que lhe falta cumprir de mandato, até 2019, é tão difícil e exige tanto do patrão do futebol nacional que esta tentativa de mudar o sistema por dentro fica a parecer curta e corre risco de ser tão estéril como a luta de um Quixote contra os moinhos de vento. Proença revelou-se bom conhecedor daquilo a que chama as “boas práticas” internacionais, mas apesar disso fala vezes a mais daquilo que os clubes querem. Porque nesta questão há aquilo que os clubes querem, julgando que estão a defender interesses próprios, e aquilo de que o futebol nacional como um todo precisa. Exemplos? Impedidos de fazer a guerra comunicacional por regulamentos disciplinares mais apertados, os clubes passaram à guerrilha, com “pontas-de-lança” que os representam na perceção popular mas não são castigáveis por serem meros adeptos ou funcionários sacrificáveis face a um bem maior, que é o passar da mensagem bélica. A Liga quer resolver o problema apelando ao bom-senso dos presidentes, recuperando um Conselho Superior que mantenha a discussão no interior do edifício do futebol, mas apesar da vontade de exercer este magistério de influência, Proença pode debater-se com dificuldades insuperáveis. Porque, lá está, falta saber se os clubes querem. As tais “boas práticas” internacionais falam-nos de medidas mais proativas, da substituição de uma estratégia punitiva por outra, que preveja a ocupação do espaço mediático com conteúdos que privilegiem os verdadeiros artistas, os jogadores e os treinadores. Já aqui falei disso há semanas, aliás. Mas também aqui a Liga se deparou com dificuldades estranhas quando toda a gente devia querer o bem do negócio: os clubes não quiseram a centralização dos direitos televisivos, que permitiria aumentar a receita de uma forma significativa e, sobretudo, dividir esta receita de uma forma mais racional entre todos, com a diminuição do fosso entre grandes e pequenos. É assim que se faz em todo o lado, com uma implicação adicional: sendo a Liga a controlar a receita, poderia impor condições para a sua divisão; sendo a Liga a controlar os direitos, poderia impor condições benéficas para o futebol aos operadores que os quisessem retransmitir. Só que, lá está: os clubes não quiseram e, ao contrário do que sucedeu em Espanha, por exemplo, a Liga não quis pedir ajuda acima, ao governo, por exemplo, para fazer vingar aquilo que está até recomendado pela União Europeia. A única carta que a Liga tem na mão é a internacionalização, a vontade dos clubes chegarem a mercados até aqui inexplorados. Para tal, Proença conta com duas vantagens: a necessidade que os operadores terão desses mercados para rentabilizar o muito que pagaram pelos direitos televisivos dos jogos e o conhecimento do mercado asiático que terá conseguido quando foi à China buscar a Ledman para patrocinadora da II Liga. Também aqui, porém, acredito que a Liga terá de contar com o contra-vapor dos principais clubes, que a esta hora já estarão a mover-se para chegarem sozinhos a esses mercados, antes dos rivais e com mais força do que eles. Pedro Proença desvalorizou esse risco com base numa premissa que me parece não se aplicar ao futebol português: o bem geral, a noção de que juntos serão mais fortes. Claro que se forem todos em conjunto, ganharão mais. Mas se isso não foi tido em conta em nenhum dos outros aspetos, por que razão há-de ser neste? A ver vamos se, daqui a dois anos, não estaremos todos a lamentar que os clubes não tenham querido explorar aquela que parece a via de ação mais recomendável. O maior prolema que enfrenta a Liga de Pedro Proença tem a ver com o princípio filosófico de ação. Proença tem tentado ser o presidente que os clubes querem e acreditado na auto-regulação. Mas como as coisas estão, tenho dúvidas de que os clubes sejam quem melhor pode defender o futuro do futebol português. 
2017-08-06
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Há vários tipos de adeptos de futebol. Isto é: há vários tipos de consumidores para o produto que hoje sai da indústria do futebol e que engloba tudo, desde a bilheteira às assinaturas de canais especializados com passagem pela compra de informação relacionada com o fenómeno futebolístico. Nenhuns valem mais do que os outros. Todos contam. Mas alguns não têm como satisfazer a sua curiosidade. Há os adeptos do pitoresco, aqueles que adoram ver os vídeos do Augusto Inácio a zurzir no presidente do Zamalek, os mesmos que ainda choram a rir só de se lembrarem do Toni a falar do Essan ou do Vítor Pereira a vociferar “I speak the truth” perante uma atónita plateia de jornalistas sauditas. Para estes grandes consumidores de golaços e falhanços ridículos no YouTube, o momento alto do futebol nacional nos últimos anos terá sido a conferência de imprensa em que Paulo Futre deu um novo significado à palavra “sócio”, que até já fazia parte do léxico da modalidade, ainda que com outro alcance. Há os adeptos maravilhados, que agora só falam do futebol feminino e que antes se dedicavam a dizer que o futebol em Portugal não vai para a frente porque os jornalistas só querem saber dos três grandes – eles próprios não leem acerca de outras coisas, mas se pudessem decretavam que elas deviam lá estar, juntamente com aquelas modalidades acerca das quais toda a gente diz ler quando responde a inquéritos, quanto mais não seja para ficar bem na fotografia. Aliás, bastaria a qualquer deles olhar para os gráficos de vendas dos jornais ou para as audiências das televisões com os dois olhos abertos para perceberem o mundo real para o qual os seus hábitos de consumo também contribuem. Há os adeptos maldizentes por natureza, que só vêm futebol para dizer que o Renato Sanches não presta, que o William Carvalho é lento e precisa de um andarilho ou que o Casillas já está tão velho que devia andar de muletas. São os mesmos que toda a vida acharam um ultraje que Secretário tenha jogado no Real Madrid, que Luís Campos tenha feito carreira como diretor desportivo no estrangeiro ou agora que Vítor Pereira tenha sido contratado para dirigir a arbitragem grega – mesmo que sejam os mesmos que dizem que a arbitragem nacional só andava para a frente quando para cá viessem árbitros estrangeiros. Ainda não perceberam que é a realidade que não encaixa nas ideias deles mas continuam a viver na ilusão de uma conspiração global contra os interesses que defendem. Para responder a estes, apareceram os adeptos da embirração positiva. Os que chamam a atenção para o dinheiro que Renato Sanches continua a movimentar, para os golos de Gonçalo Guedes nos particulares do Paris St. Germain, para as grandes exibições do João Mário nos amigáveis do Inter Milão. Estes até podiam ter nascido da influência daqueles jornalistas que sonorizavam os resumos televisivos do futebol internacional nos anos 80 e que – por não haver mais portugueses lá fora – chamavam várias vezes a nossa atenção para o facto de Futre ou Rui Barros terem tocado na bola numa jogada que acabaria por dar golo. Mas não – o que querem, tal como os maldizentes, é prolongar os dérbis nacionais pela Europa, como se os jogadores continuassem a vestir as camisolas que eles defendem até à insanidade. E há os adeptos que gostam de futebol. Não são, como tive o cuidado de referir logo a abrir, melhores nem piores do que os outros, porque o futebol, felizmente, tem lugar para todos. As discussões fazem falta – não o digo no sentido de defender que o erro dos árbitros é o sal do futebol, só para que as pessoas possam debatê-lo, mas sim porque cresci num meio multi-clubístico de rivalidade sã – e também alimentam a indústria. A indústria é que, na sua voracidade controladora, alimenta cada vez menos o debate que faria crescer este último grupo, o dos adeptos que gostam mesmo de futebol. Um grupo no qual gosto mais de me incluir a cada dia que passa. A mim, como a muitos outros integrantes deste grupo, interessar-me-ia ouvir o que tem Rui Vitória a dizer acerca do normal envelhecimento dos homens que ele já tinha substituído há dois anos – Júlio César e Jardel – e da necessidade de voltar a fazer deles primeiras escolhas ao mesmo tempo que tem de inventar mais um lateral direito, depois de ter feito nascer Nelson Semedo para substituir Maxi Pereira. Interessar-me-ia debater com Sérgio Conceição as razões pelas quais Aboubakar, que se tornara excedentário no papel de avançado de referência no FC Porto de Lopetegui, pode ser agora fundamental com Soares à sua frente – ou ao seu lado – numa equipa montada de acordo com princípios diferentes, mais explosivos. Interessar-me-ia ouvir a resposta de Jorge Jesus a uma pergunta sobre o efeito pernicioso que o sistema de três defesas que ele tem andado a testar tem na construção de jogo ou de que forma a colocação de William como um desses três pode garantir qualidade a construir desde trás. Em vez disso, temos os treinadores a lerem respostas ditadas a perguntas igualmente escritas previamente pelos mesmos guionistas e interpretadas por quem se limita a fazer um papel que devia ser bem diferente. Fica tudo em família. A este futebol digo: não, obrigado! Prefiro ir ao cinema ou ao teatro, onde pelo menos os atores têm mais jeito para a representação. Texto inserido na edição de hoje do Diário de Notícias
2017-07-30
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Qual é o ponto em em comum entre o caso Mbappé, o caso Neymar e o caso Villar? É simples: é o dinheiro. É a tendência que o futebol está a revelar para cavar cada vez mais o fosso entre muito ricos e a classe média – já para não falar nos muito pobres –, o que nem é coisa do futebol, é coisa da sociedade em geral. O que o futebol tem, mas não tem aproveitado, são os meios de regulação que travariam este processo de aglutinação de tudo por tão poucos. Talvez nem tenha que o fazer. Talvez eu esteja a agarrar-me a um passado em que havia mais do que dez clubes que interessavam no panorama internacional. Talvez o fundamental seja que a justiça funcione e ponha de parte quem pisa o risco da legalidade instituída. Mas não creio. Centremo-nos em Mbappé, o jovem prodígio do Mónaco que a maior parte dos especialistas projeta poder vir a ser o jogador mais caro do Mundo a breve prazo. O jogador tem contrato válido com o Mónaco, mas conta-se que tem sido contactado por todos os grandes colossos do futebol europeu, aqueles dez que contam verdadeiramente para o campeonato do dinheiro. Os jornais enchem-se de manchetes a falar de reuniões entre os agentes do jogador e a estrutura do Paris St. Germain; de telefonemas de Zidane, treinador do Real Madrid, a garantir-lhe que se se mudar para o Bernabéu lhe assegura minutos de competição suficientes para poder continuar a crescer; das tentativas de Arsène Wenger, treinador particularmente influente quando se trata de jovens franceses, para o convencer a escolher o Arsenal… Tudo isto é ilegal, porque o jogador não está nos últimos seis meses de contrato. E no entanto tudo isto se faz – a ponto de o comunicado do Mónaco, recorrendo a um ponto do Regulamento Administrativo da Liga Francesa e a outro do Regulamento de Transferências de Jogadores da FIFA, ser algo para o que se olha com algum desdém. “Lá estão estes a falar das leis”… O mesmo poderia ser dito de Neymar, jogador que tem contrato de longa duração – renovado há um ano – com o Barcelona, mas que alegadamente o terá feito na convicção de que Messi ia atrás de Guardiola e que ele se transformaria na estrela de primeira grandeza blaugrana. Não aconteceu. Messi renovou. E Neymar recorreu ao mesmo expediente que usara há um ano para conseguir a renovação, com passagem de cláusula de rescisão de 200 para 222 milhões de euros: deixou-se querer pelo Paris St. Germain, lançando o pânico nas hostes catalãs. Também aqui se fala de reuniões e se pedem comunicados, nem que sejam através do instagram do jogador, que tem mantido o silêncio. E a operação é apresentada não apenas como possível mas até como potencialmente lucrativa até do ponto de vista económico-financeiro, tal seria o peso que uma eventual chegada de Neymar a Paris teria na força nacional e internacional do clube parisiense. Não se põem em causa sequer as regras do “fair-play financeiro” que qualquer colosso do futebol europeu – PSG e Barcelona incluídos – sabe como driblar, seja através de contratos publicitários com o grupo que dono do clube ou da venda inflacionada de direitos televisivos ao mesmo grupo financeiro. A verdade é que se olha para o caso Neymar e conclui-se que o jogador faz mais sentido em Paris do que em Barcelona. Porque, aí está, ao contrário do caso Mbappé, a transferência do brasileiro contribuiria para aumentar o lote de clubes com estrelas de primeira grandeza – e o PSG neste momento não tem nenhuma. O que faz pouco sentido é que, fruto de um sistema que leva à concentração das grandes receitas nas mãos dos mesmos clubes – e outros a penar para conseguirem reunir as migalhas que lhes permitam cumprir orçamentos – haja clubes com dois ou três candidatos a Bola de Ouro a atropelarem-se no mesmo balneário. E é aqui que entra a ligação ao caso Villar – e se falo do caso Villar é apenas por ter sido o último, porque podia falar de qualquer outro caso em que haja dinheiro à solta nas margens dos negócios do futebol, que a pertinência seria a mesma. Porque o futebol continua a sofrer com uma falta de regulação que se encontra, por exemplo, nos desportos americanos, e que vem contribuir para que o dinheiro que se escapa pelas frechas dos contratos seja tanto que serviria para financiar mais clubes de alto nível e aumentar a concorrência. Lembremo-nos, por exemplo, da chegada a Portugal de Freddy Montero. Para ir contratar o colombiano, o Sporting não teve de chegar a acordo só com o Seattle Sounders, clube que era detentor do seu passe. Teve de conversar também com a Major League Soccer (MLS), que pôs em campo um regulamento de transferências de tal forma bizantino que dificilmente algo lhe escapa. E que, tal como em qualquer outra liga americana (NFL, NBA, NHL, MLB…) favorece a concorrência e impede a concentração dos melhores talentos nas mesmas equipas. Podem até alegar que o fazem para favorecer o negócio. É verdade. O propósito da coisa é esse. Mas a verdade é que com estas regras tão fechadas se impede que o dinheiro escape e, ao mesmo tempo, mantendo a concorrência em altas, se mantém mais adeptos felizes. Aquilo a que estamos a assistir no futebol europeu é precisamente o oposto – muito dinheiro a escapar e cada vez mais adeptos infelizes, porque a concentração de talentos leva à eternização dos campeões. É por isso que fenómenos como o Leicester (campeão inglês em 2016) ou o Mónaco (campeão francês em 2017) são tão bem acolhidos por quem gosta de futebol. Porque permitem agitar as águas. Porque o que mais se vê por aí são campeões eternos (cinco vezes o Bayern, seis vezes o Celtic ou a Juventus, oito vezes o Basileia) e gente a afastar-se do futebol porque este deixa de lhe dar razões de satisfação.
2017-07-23
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