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Último Passe

Um dia antes de a seleção nacional se qualificar para as meias-finais da Taça das Confederações, na Rússia, a equipa de sub21 ficou fora das meias-finais do Campeonato da Europa da categoria, que está a decorrer na Polónia, muito por força de duas questões: um regulamento idiota e o facto de ter ficado no mesmo grupo da Espanha, uma das poucas potências que pode rivalizar connosco nestas coisas do futebol de desenvolvimento e que impôs aos miúdos de Rui Jorge a primeira derrota em competição desde 2011. Futuro assegurado? Sim, se tudo dependesse dos jogadores e dos treinadores. Infelizmente não é assim, pois eles estão condenados a crescer num ambiente de oposição e irracionalidade permanentes. A verdadeira imagem do futebol português podia ser esta, a de sucessivas gerações de sub21 que abriram e fecharam o ciclo sem perder um único jogo e que vão desbravando caminho até à seleção principal. Na Taça das Confederações estão vários representantes dessas gerações – José Sá, Cédric, Nelson Semedo, William, Danilo, André Gomes, Gelson, Bernardo Silva ou André Silva fizeram todos parte deste percurso, como nele entraram João Mário, ausente na Rússia devido a uma lesão de última hora, ou Renato Sanches, desta vez relegado para os sub21 mas presente no Europeu do ano passado. A verdadeira imagem do futebol português podia ainda ser a de uma seleção A que venceu o campeonato da Europa e que continua em liça para lhe somar a Taça das Confederações, uma equipa que desde a entrada de Fernando Santos, em Outubro de 2014, só perdeu um jogo competitivo, contra a Suíça, na qualificação para o Mundial do ano que vem. E no entanto, os portugueses que falam de futebol vagueiam entre a indiferença e o ódio por esta equipa. Porque foi isso que lhes ensinaram, é isso que ouvem no dia a dia. Como jornalista e sobretudo analista de futebol, já muitas vezes me acusaram de ser “pessimista” ou “cético”, de incluir um “sim, mas” em cada frase. É verdade. Mas há uma coisa que procuro sempre fazer, que é compreender as razões de quem toma uma decisão. Percebi, discordando, que Fernando Santos tenha ontem colocado Pepe a jogar de início contra a Nova Zelândia, porque o selecionador terá achado que era importante mandar para dentro do balneário uma mensagem de responsabilização. Já percebi pior, continuando a discordar, que o defesa-central tivesse voltado para a segunda parte, quando havia 2-0 no marcador e um cartão amarelo o afastaria da meia-final. Que começa empatada a zero e onde o adversário será mais forte que os neo-zelandeses. Uma coisa, porém, não faço. Que é alegar que Pepe jogou ou voltou após o intervalo em nome de uma qualquer agenda escondida e inconfessável do selecionador nacional. Porque como estão condenados a, nesta matéria, ser todos das mesmas cores, os portugueses depressa vão à procura de uma forma de se oporem. E aí há os que entendem que William, Adrien, Cédric e Gelson não estão a fazer nada na equipa e que a culpa dos golos é sempre de Rui Patrício. Depois, há os que entendem que quem está a mais são Nelson Semedo, Pizzi, João Moutinho, Bernardo Silva ou André Gomes, da mesma forma que estava a mais Renato Sanches há um ano em França. Estes dois grupos misturam-se muito com o dos que acha que qualquer decisão do selecionador nacional foi tomada ao serviço deste ou daquele agente de jogadores – há um ano Moutinho só jogava porque era de Jorge Mendes, agora Adrien e William só jogam porque o Sporting precisa de os vender… Não vou ao cúmulo de ingenuidade de pensar que os agentes não têm influência, mas não creio que Fernando Santos pense pela cabeça de ninguém a não ser a dele ou a dos seus adjuntos. E a maior ameaça ao futebol português não é esta ou aquela decisão de um selecionador. É, sim, o ambiente geral. Não conheço mais nenhum país onde o futebol se veja assim, onde tudo tenha a ver com a cor. Porque os mesmos que antes achavam bem que as escutas do Apito Dourado fossem divulgadas, agora acham mal que os mails da polémica surjam na praça pública. E podia escrevê-lo ao contrário: os mesmos que antes se queixavam de devassa são os que agora mais contribuem para a revelação. Lá em cima escrevi futebol? Pois devia ter escrito desporto. Porque os mesmos que durante meses a fio ridicularizaram os que se queixam das arbitragens, agora aplaudem a decisão de fazer falta de comparência a uma final four da Taça de Portugal de hóquei em patins. E também aqui podia escrevê-lo ao contrário, já se sabe.
2017-06-25
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Se há coisa tão irrelevante como tentar descobrir o clube do coração dos jornalistas é tentar descobrir o clube do coração dos futebolistas. Mas o futebol move-se em terrenos pantanosos que muito rapidamente se aproximam da irracionalidade, a ponto de quem está de fora tender muito a achar que os profissionais preferem fazer mal o seu trabalho só para depois celebrarem com os amigos a vitória do seu clube e isso acaba por condicionar toda a gente – tanto jornalistas como jogadores. Só por isso, para satisfazer esta audiência sedenta de clubismo, Coentrão terá dito um dia que a regressar a Portugal só o faria para jogar no Benfica. Felizmente para ele, nos tempos do Rio Ave também tinha dado uma entrevista em que se afirmava sportinguista e revelava o sonho que seria jogar no Sporting e isso agora será apresentado como atenuante no julgamento a que a santa inquisição vai submeter um lateral-esquerdo que já foi o melhor de Portugal mas que se perdeu no caminho e precisa outra vez de encontrar quem o compreenda e lhe dê o enquadramento competitivo correto. Pode ser no Sporting, ainda que o facto de chegar diminuído não o ajude. Não vale a pena agora estarmos a questionar aquilo em que se transformou o futebol e que, por exemplo, leva os jornalistas presentes numa competição como a Taça das Confederações – ou um Europeu ou um Mundial – a não ter alternativas às entrevistas com os adeptos se querem exercer a faceta mais nobre da profissão, que é a reportagem. Mas, quando a Itália discute como discute o caso-Donnarumma, quando os adeptos lhe atiram notas falsas para o campo só porque não entendem as aspirações do jovem guarda-redes melhorar a vida e a carreira, percebe-se que não é uma corruptela só nossa e faz sentido pensar nas razões que levaram alguém a fazer aquela pergunta a Coentrão – e, antes ou depois, a Markovic, Simão, Bernardo Silva, Quaresma… –, bem como nas razões que os levaram a responder como responderam, com juras de fidelidade eterna cujo cumprimento na realidade não podem garantir. A questão é que se as coisas lhes correrem bem depois deste “o dobro ou nada” jogado no campeonato do amor ao emblema, ninguém se vai lembrar. Mas se correrem mal, toda a gente vai ter a arma apontada ao traidor, que passa a ser “mal-visto” dos dois lados da barricada. Por isso, o Coentrão que entrar em Alvalade já vem duplamente diminuído. Vem diminuído no plano físico e competitivo, como se percebe facilmente pelas lesões acumuladas em 2016/17 e pelos menos de 300 minutos que fez em campo em toda a temporada. E depois vem diminuído pela pressão que vão colocar-lhe em cima aqueles adeptos mais fundamentalistas, que já não gostaram de ver chegar Markovic e vão exercer o grau-zero de tolerância para com erros, até porque não lhes agrada a ideia de verem Jesus, ex-treinador do Benfica, recorrer a jogadores que brilharam com ele na Luz e são, por inerência, do lado contrário da barricada. A verdade é que, mais do que parte do problema, aqui Jesus pode ser a solução. Foi ele que deu a segunda vida a Coentrão, quando o jogador andava perdido em empréstimos sucessivos – Nacional, Real Saragoça, Rio Ave –, o que parece significar que compreende como ninguém a muito complicada psicologia por trás do rendimento de Coentrão. Resta perceber se consegue sacar-lhe mais uma ressurreição. 
2017-06-20
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Há duas formas bem distintas de olhar para o resultado da seleção nacional frente ao México, na abertura da campanha na Taça das Confederações. Uma obriga-nos a olhar para a exibição, frouxa e descontínua, e para o resultado, que podia e devia ter sido melhor. A outra força-nos a olhar para a frente e para a vantagem que Portugal tem face a russos e mexicanos: joga com a Nova Zelândia na última jornada e, desde que não peca com os russos, na quarta-feira, fá-lo-á a saber de quantos golos precisa para se apurar para as meias-finais. Nunca mais de três, já se sabe. “Voltou a trupe dos empatas”. Era isso que se lia um pouco por todo o lado, nas redes sociais, no seguimento do Portugal-México. Os portugueses sabem tanto de futebol como de incêndios e, regra geral, não hesitaram em condenar de forma veemente o resultado contra o México. O que é estranho é que o tenham feito recorrendo ao exemplo do último Europeu, prova na qual seis empates em sete jogos – dois deles transformados em vitórias no prolongamento – valeram o troféu à equipa de Fernando Santos. A gestão calculista dos resultados e da estratégia para os alcançar tem sido uma das principais armas deste selecionador e basta fazer contas mais com a cabeça do que com o coração para perceber que o empate com o México não deixa Portugal em tão maus lençóis. Ou que, mesmo tendo ganho à Nova Zelândia por 2-0, no jogo de abertura, a Rússia entrará em campo na próxima quarta-feira tão ou até mais pressionada do que a equipa portuguesa. Como é possível? É. Porque Portugal tem a vantagem de defrontar a Nova Zelândia no último dia e acertar contas nessa altura. Imaginemos que Portugal empata com a Rússia e que o México ganha à Nova Zelândia por vários golos. Nesse caso, à entrada para a jornada das decisões, Portugal teria dois pontos, contra os quatro dos rivais, mas só precisaria de ganhar à Nova Zelândia por três golos para assegurar o apuramento. Isto, presumindo que México e Rússia empatavam, porque se um dos dois se impusesse no duelo, para ter a certeza da qualificação sem depender do que se passará à mesma hora em São Petersburgo, bastaria aos portugueses vencer os neozelandeses. Imaginemos, em contrapartida, que os mexicanos ganham à Nova Zelândia por apenas um golo – nesse caso, tudo se manteria, menos a necessidade de ganhar por três no último dia. Aí bastaria vencer os All Whites, bem menos poderosos do que os seus colegas All Blacks, do râguebi. Mas quer isso dizer que Portugal esteve bem frente ao México? Não. Portugal cometeu erros, demasiados erros. Primeiro, o selecionador adotou uma estratégia que acabou por se revelar errada – a exclusão de André Silva para permitir a entrada de Nani como tampão a Herrera não resultou bem, sobretudo por ter inibido a equipa do ponto de vista ofensivo (conforme pode ler aqui: http://bancada.pt/futebol/artigo/falta-andre-silva-a-ronaldo-para-se-ver-o-melhor-de-portugal). Depois, a equipa acumulou erros individuais, reveladores de que afinal há ali gente longe dos melhores momentos: Fonte teve dificuldades nas saídas e falhou no segundo golo mexicano, Guerreiro mostrou menos fulgor do que habitualmente, Moutinho voltou a ser uma sombra do jogador dinâmico que já se revelou, Nani não justificou nova aposta como segundo avançado… Tudo coisas que Fernando Santos pode pensar em emendar antes do jogo com a Rússia. Ainda que, bem feitas as contas, novo empate acabe por não ser assim tão mau. Foi o que o Europeu nos ensinou.
2017-06-19
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Portugal vai entrar hoje naquela que se diz poderá vir a ser a última Taça das Confederações da história do futebol num papel a que nunca se habituou e com o qual, diga-se, nunca se deu bem também: o de favorito. Olha-se para as principais publicações europeias, sejam elas de que país forem, e todas carregam a equipa nacional de favoritismo. Para dizer a verdade, não estou assim tão convencido. E não é por Portugal estar mal, que não está. Está até melhor do que há um ano. Nem sequer por esta ser uma competição maldita, cujo vencedor costuma dar-se mal no Mundial a seguir. É só porque todas estas análises se fundam na premissa de que esta jovem Alemanha que Joachim Löw trouxe até à Rússia não tem capacidade para competir ao mais alto nível, mas se há coisas que estes alemães têm a mais do que os outros são energia, ritmo e intensidade. E isso costuma ser decisivo em finais de época. Há aquela velha frase de Gary Lineker. “O futebol é um jogo com onze de cada lado e onde no final ganha a Alemanha”. Pois bem, desta vez toda a gente acha que não ganha a Alemanha. É que, consciente de que não seria bom para o esforço de manter o título Mundial chegar à Rússia, daqui por um ano, com jogadores sujeitos a três anos seguidos com férias reduzidas e a conta-gotas, Löw trouxe uma equipa sem as suas maiores estrelas. Só lá estão três campeões do Mundo (Draxler, Mustafi e Ginter, sendo que este nem jogou um minuto sequer no Mundial); o mais velho é Wagner, ponta-de-lança do Hoffenheim, que tem 29 anos; e 18 dos 23 convocados têm 25 anos ou menos. Mais: face às lesões de Demme e Sané, o selecionador optou por nem chamar mais ninguém. “Bastam 21 jogadores”, disse Löw, mostrando uma ligeireza de atitude que, se for imitada pelos jogadores nos relvados, pode permitir-lhes ter as pernas muito mais leves do que as dos adversários. Esta não é a super-Alemanha que ganhou o Mundial há três anos, mas continua a ser uma muito boa equipa, com jogadores como Goretzka, Kimmisch, Draxler ou Werner. E será o maior teste ao novo paradigma do futebol alemão, o tal paradigma inaugurado depois da derrota contra Portugal no Europeu de 2000 (3-0 contra as reservas portuguesas, que os titulares ficaram a descansar depois de terem garantido a qualificação), em que passou a beneficiar-se a habilidade em vez do físico. Claro que Portugal pode fazer sombra a esta Alemanha e é, até, favorito, como dizem as mais renomadas publicações internacionais. Mas é aqui que entra o fator-maldição: o vencedor da Taça das Confederações nunca faz um bom Mundial. E não é seguramente por causa de um alinhamento negativo dos astros, mas devido a uma conjugação de fatores onde entram o tal cansaço acumulado com os efeitos perniciosos que o sucesso traz a uma equipa: se se ganha, muda-se menos e chega-se ao Mundial com uma equipa mais velha, petrificada, com menos sede de vitórias. Talvez por isso mesmo Santos tenha reforçado que traz “oito jogadores” que não estiveram no Europeu, como quem diz que, caso Portugal se qualifique para o Mundial, outras mudanças poderão suceder. Aliás, bem vistas as coisas, mais três equipas podem sonhar com o sucesso nesta prova. Há o Chile, que apresenta como desvantagem o facto de ser a seleção mais velha – 29 anos de idade média – de uma competição onde a recuperação física será fundamental, com três jogos numa semana. Mas que tem como vantagem o facto de muitos destes jogadores, de Sánchez a Vidal, de Bravo a Médel, já se conhecerem como irmãos, tantas batalhas já travaram juntos, incluindo as vitórias nas duas últimas edições da Copa América. Há a Rússia, uma Rússia rejuvenescida por Tcherchesov, em parte devido às ausências forçadas de Dzyuba, Dzagoev, Kokorin e Mamaev e aos abandonos internacionais dos centrais Berezutsky e Ignashievich, mas que mostrou contra a frágil Nova Zelândia uma velocidade rara nas suas seleções. E, sim, há o México, mais uma equipa veloz e vertiginosa, que depois dos 7-0 encaixados contra o Chile nos quartos-de-final da última Copa América, há exatamente um ano, não voltou a perder um jogo oficial e que além da tripla de inspiração portista – Layún, Reyes e Herrera – tem muita gente de qualidade na frente, graças a Chicharito, ao benfiquista Jiménez e aos regressos de Vela e Giovanni dos Santos.
2017-06-18
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Último Passe

Chega-se ao dia de estreia numa grande competição e a tentação maior é a de descobrir a equipa com que Portugal vai começar. E as maiores dúvidas – únicas, na verdade – estão nas alas do meio-campo/ataque. Sem hipótese de ver os treinos, há que recorrer ao pensamento normal do selecionador, que nos conta duas histórias. Primeiro, e fundamentalmente, que com Santos costuma jogar um ala mais dado a labor de centrocampista e outro com mais caraterísticas de extremo, para que o 4x4x2 possa transformar-se com 4x3x3 sempre que a equipa assim o entender. E depois que cada um destes alas tem geralmente um corredor preferencial, sendo raramente tidos em conta para o lado oposto. É por isso que, se tivesse de responder agora, ainda sem qualquer informação privilegiada mas numa espécie de jogo do “MasterMind”, arriscaria dizer que Fernando Santos vai começar com Bernardo Silva à direta e André Gomes à esquerda. Nove-onze-avos da equipa que mais daqui a pouco vai defrontar o México está definida. São eles: Rui Patrício, Cédric, Pepe, José Fonte, Guerreiro, William, Moutinho, André Silva e, claro, Ronaldo. Restam depois os dois lugares nas alas. Aplica-se o primeiro princípio do “Santismo” e separam-se os seis jogadores que podem jogar nas alas em dois grupos. De um lado, por um dos lugares, lutam os que têm caraterísticas de terceiro médio: André Gomes, Pizzi, eventualmente Bernardo Silva. Do outro, pela outra vaga no onze, lutam os que têm caraterísticas de terceiro avançado: Nani, Quaresma, Gelson e eventualmente Bernardo Silva, que assume uma espécie de papel dúplice por força da ausência de João Mário. Quer isto dizer que, a não ser em situações de vantagem, dificilmente se verá um Portugal tão conservador que junte em campo Pizzi e André Gomes nas duas alas. Mas também será difícil que, exceção feita a momentos em que seja preciso ir à procura do golo, vejamos ao mesmo tempo uma equipa tão ofensiva a ponto de somar Quaresma e Nani nas alas, por exemplo. Aqui chegados, antes de se aplicar o segundo princípio do “Santismo” vai-se buscar o senso comum. E o senso comum diz-nos várias coisas. Que Gelson, por exemplo, ganhou o lugar à direita pelo que fez depois de entrar ao intervalo no particular contra Chipre, no qual Bernardo Silva tinha estado mais discreto, mas que depois não confirmou essa tendência de crescimento contra a Letónia em Riga. Que Quaresma entrou bem em Riga, mas que Santos gosta de o ter perto dele no banco, graças a essa capacidade rara que o extremo do Besiktas tem para entrar bem em qualquer jogo que não faz de início. E que Nani, um fixo desta equipa, estará a regressar ao melhor momento depois da lesão que lhe roubou protagonismo, mas ainda não confirmou esse crescimento em campo – e a concorrência na seleção nacional é cada vez mais dura. É à luz destes conhecimentos que deve aplicar-se então o segundo princípio do “Santismo”. E este diz que André Gomes e Nani jogam sempre à esquerda e que Pizzi, Bernardo, Quaresma e Gelson partem sempre da direita. Agora é aplicar a lógica “santista” e completar as vagas. Neste momento, antes de chegar ao estádio ou de ter contacto com alguém que saiba algo de concreto, diria que Portugal começará hoje contra o México com Bernardo Silva à direita e André Gomes na esquerda, ambos à procura do espaço interior, dando mais projeção aos dois laterais. Que, depois, se começar com Quaresma não joga Bernardo Silva. E se começar com Nani não joga André Gomes. Mas que me parece improvável que a equipa arranque na partida com dois extremos tão claramente pronunciados como são Quaresma e Nani, a somar a Ronaldo e André Silva, estes seguros na frente, pela complementaridade que asseguram e pelo rendimento que têm dado.
2017-06-18
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Começa a ser um clássico que Cristiano Ronaldo se veja metido em grandes novelas por altura das grandes competições. Agora, garante a Marca, através do seu enviado a Kazan, o jogador já terá garantido a colegas de seleção que se vai embora do Real Madrid. Razão? Sente-se “maltratado em Espanha”, na sequência da investigação a que foi submetido e da posterior acusação de fuga ao fisco. Ora se nestas coisas entre o cidadão comum e a máquina fiscal a simpatia da quase todos nós está quase sempre com o cidadão comum, quando o cidadão é, digamos, menos comum, como é o caso de Cristiano Ronaldo, convém distinguir os factos do que é comunicação. E descansar os adeptos: não será por causa disto que Ronaldo vai render menos na Taça das Confederações. Bem pelo contrário. Vamos a factos. Em Dezembro, o Der Spiegel obteve documentos via Football Leaks indicando que Ronaldo teria recebido parte substancial das verbas de direitos de imagem através de paraísos fiscais, fugindo à tributação devida. Soube-se então que a Fiscalía espanhola ia abrir – ou já teria até aberto – um expediente de investigação à conduta do jogador do Real Madrid. Duas semanas depois, Jorge Mendes, o agente de Ronaldo, declarou à Sky Itália que havia propostas da China pelo jogador: 300 milhões de euros para o Real Madrid e 150 milhões anuais para Ronaldo. Nunca se soube que clube fez a oferta – nem tinha de se saber, na realidade, pelo que esse facto tanto poderia servir para evitar um desmentido formal como para preservar o natural secretismo do negócio. Ato contínuo, foi dito que as propostas foram recusadas, porque, ainda nas palavras de Jorge Mendes, “o dinheiro não é tudo e o Real Madrid é a vida de Cristiano Ronaldo”. Passaram seis meses e A Bola foi a primeira a noticiar que ia aparecer uma oferta de 180 milhões de euros – que o As, diário de Madrid, elevou depois para 200 milhões – por Ronaldo. Não tinha aparecido, note-se: ia aparecer. Semana e meia depois, a Fiscalía de Madrid fez sair a denúncia, acusando o futebolista português de criar uma estrutura societária para defraudar o estado espanhol em 14,7 milhões de euros, de forma “consciente”. O facto pressupõe a clara escalada do conflito mas, é preciso dizê-lo, não é uma condenação. É, isso sim, uma acusação, à qual Ronaldo tem o direito a apresentar defesa, como estará a fazer. António Lobo Xavier, advogado do jogador, diz que não há fraude fiscal mas sim “diferença de critério” e que Cristiano até pagou mais impostos do que deveria. O que em si também é peculiar. Os factos são estes. As leituras, essas, podem ser diversas, dependendo do crédito que se dá às máquinas comunicacionais. Se olharmos para esta disputa como se de um jogo de póquer se tratasse, em que os jogadores vão de bluff em bluff sem que a outra parte possa saber onde está a realidade, verificamos que se há seis meses tudo se colocava no plano das relações públicas – “o Real Madrid é a vida de Cristiano” –, neste momento o conflito ameaça chegar a vias de facto – “Ronaldo quer ir embora de Espanha”. Para dizer a verdade, não me convence nem uma coisa nem a outra. Por mais que o sinta, nenhum jogador de futebol profissional pode alguma vez dizer de forma 100 por cento honesta que um clube é a sua vida, porque a este nível é o mercado que manda. E manda muito mais se, como é o caso, falamos do melhor de todos eles. Por outro lado, não vejo na ameaça de sair de Madrid muito mais do que uma forma de arregimentar para a luta os “soldados” que a máquina de Ronaldo sabe ter do seu lado – os milhões de “madridistas” que nenhuma administração fiscal ou política gostará de ver culpá-la se o clube vier a perder o jogador que deu um contributo tão decisivo para a conquista de três Ligas dos Campeões nos últimos quatro anos. Aqueles que, mais do que saber se Ronaldo paga ou não ao fisco espanhol, querem sobretudo que ele conduza a seleção portuguesa a uma Taça das Confederações repleta de glória podem neste momento ter uma certeza. É que o capitão da equipa nacional está bem, chega a Junho numa forma que há muitos anos não conhecia nesta fase da época e não só não é rapaz para deixar que estas coisas o afetem em campo como sabe que, para a estratégia comunicacional que tem em campo fazer ainda mais efeito, não haverá nada como levar a taça para casa. É nisso que ele está concentrado. E é isso que dirá aos jornalistas de todo o Mundo, se hoje for escolhido para falar à imprensa e for confrontado com as notícias da sua vontade de deixar Espanha e o Real Madrid.
2017-06-17
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Achei curioso que, ontem, o El Confidencial, jornal digital espanhol, tivesse dado corpo a uma suspeita que nos tinha assaltado a todos logo pela manhã, na redação do Bancada, quando olhámos para as primeiras páginas dos jornais desportivos espanhóis do dia. Que todos traziam Ronaldo na manchete, era uma evidência gritante. Que os dois de Madrid apresentavam o jogador equipado à Portugal e os dois de Barcelona o exibiam com a camisola do Real Madrid já requeria algum esforço de análise. Que o facto tenha resultado de um pedido expresso do Real Madrid, como revelou o “El Confidencial”, já é um labéu de suspeição lançado sobre o jornalismo que se faz e que não queremos fazer no Bancada. Não podemos exigir às pessoas que saibam exatamente como se faz jornalismo, mas uma das coisas que exigimos a nós próprios é fazê-lo como ele deve ser feito. Ainda ontem tivemos um exemplo disso. Estando Paulo Gonçalves, funcionário do Benfica, sob suspeita no caso dos emails, impunha-se contar quem ele é e o que tinha feito no futebol e nesse sentido falámos com José Veiga, que o trouxe para a Luz, com Carlos Janela, o influenciador mais próximo das posições do Benfica neste momento, com José Guilherme Aguiar, que o conhece do círculo de advogados da cidade do Porto e foi durante muitos anos dirigente do FC Porto, e até com Hermínio Loureiro, que na qualidade de ex-presidente da Liga esteve envolvido numa polémica com Paulo Gonçalves, quando este esteve para entrar para os quadros do organismo a que ele então presidia. Poucos gostaram. Os benfiquistas não gostaram sequer que se falasse do assunto ou que para ele fosse chamado o nome de Veiga, que está para a Luz como Voldemort para o universo de Harry Potter – é “aquele que não deve ser nomeado”. Os portistas odiaram que tivéssemos contactado Carlos Janela, por verem nele a cabeça por detrás da cartilha do Benfica. E houve até os que condenaram o facto de termos destacado a condição de “portista fanático”, assim mesmo, entre aspas, achando que estávamos a querer culpar o FC Porto por tudo o que estava a passar-se, mas ignorando que até tinha sido Guilherme de Aguiar a caraterizar assim aquele que agora é profissional das cores rivais. Fazer jornalismo é isto. Não é ignorar as opiniões que parciais – é ouvir todas as fações, ser plural, e refletir no produto final todas as versões, todas as sensibilidades. E é, sobretudo, não nos deixarmos influenciar pelo que nos é dito. Porque uma coisa vos garanto: ouvimos todos, mas nenhum vai mandar nas nossas opiniões e nas nossas opções editoriais. Aqui, escusam de pedir para usar fotos dos jogadores com esta ou com aquela camisola. Usaremos a que a verdade impuser como mais natural.
2017-06-15
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O mundo do futebol está cheio de casos assim. Só para falar dos mais recentes, mediáticos e comprovados pela justiça, houve o caso Standard Liège-Waterschei no início dos anos 80, o escândalo OM-Valenciennes no final dessa década ou o polvo Juventus com tentáculos de Luciano Moggi na primeira década deste século. O que quer dizer que a tentação é grande e que andam todos ao mesmo: controlar, manipular o sistema, tirar dele o máximo proveito para aumentar as chances de ganhar. O limite, aqui, é o limite de cada um, porque nem todos temos a mesma noção de honestidade. E o importante, tanto no caso Apito Dourado como agora no caso dos mails divulgados pelo FC Porto a envolver funcionários do Benfica e outros ligados à arbitragem, é que a polícia investigue sem ser condicionada e a justiça atue se houver razão para tal. É nessa fase que estamos. Vamos estabelecer aqui um ponto de ordem à mesa. Se um clube faz uso da sua influência para mexer na classificação dos árbitros, na nomeação dos delegados ou dos observadores ou alimenta a ideia segundo a qual os árbitros ou os adversários têm de lhe ser simpáticos se querem usufruir de determinadas benesses, isso chama-se tráfico de influências e é crime. Seja o Benfica, o FC Porto ou o Carcavelinhos a fazê-lo. O problema, aqui, é sempre o mesmo e tem a ver com o ónus da prova. Os adeptos tendem a culpar os jornalistas, a colocá-los como fazendo parte deste mesmo sistema corrupto, seja pela divulgação ou pelo silêncio, consoante os podres alastram aos seus clubes do coração ou aos rivais mais empedernidos. Aquilo que posso dizer em defesa da classe é que histórias já todos ouvimos muitas, mas obter provas a ponto de poder contá-las não está, quase nunca, ao alcance de um jornalista, a quem o estatuto de carreira obriga a uma dose de responsabilidade muito maior do que um simples bloguer ou um adepto anónimo. É por isso que Bob Woodward ou Carl Bernstein ficaram na história – por terem conseguido algo que é extraordinariamente difícil e que costuma estar apenas ao alcance da polícia, no caso Watergate. Claro que entretanto podemos ter opinião. Há muito estou convencido de que entre os fatores de sucesso no futebol português, quero crer que ainda assim com menos influência do que os jogadores ou os treinadores, estão os influenciadores e os facilitadores. Por outras palavras? Estão os homens que influenciam a perceção da realidade do público, sejam os “paineleiros” dos clubes, os estrategas da comunicação ou até os spin-doctors que trabalham mais na sombra para semear ideias na cabeça de quem depois escreve ou fala na TV. E estão os homens que trabalham nos gabinetes com a missão de estabelecer relações de poder entre clubes ou entre clubes e órgãos de decisão, quase sempre através de manifestações de força, seja ela real ou fictícia, só para fazer bluff. O futebol está cheio desta gente, que se move nos limites da legalidade, umas vezes mais para o lado de cá, outras mais para o lado de lá. E é porque a linha que separa as duas coisas é tantas vezes tão ténue que nestas coisas, mais do que a legalidade, me interessa a moralidade. Porque há coisas que são legais e não são morais. E há outras que são ilegais mas não são imorais. Quem nunca tiver pisado um traço contínuo ou conduzido na auto-estrada a 130kms/h que atire a primeira pedra.
2017-06-14
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Último Passe

Se lhe pedirem uma comparação entre a seleção portuguesa que vai entrar na Taça das Confederações e a que, há um ano, se preparava para dar os primeiros passos no Europeu, a diferença é muito mais do que um estado de espírito, uma dose de confiança reforçada por um título internacional. A ideia geral – que era a minha também – é a de que a equipa chega a este ponto da temporada menos sobrecarregada em 2017 do que em 2016, quando apresentou vários jogadores “presos por arames”. Mas esta é uma teoria que não tem sustentação nos números. Fazem-se as contas e a diferença entre a utilização do plantel atual e a do de há um ano é menor do que a causada pela troca dos dois guarda-redes suplentes – além de crença e credibilidade, o que há agora é mais talento. E mais idade. Claro que as perceções gerais são sempre muito influenciadas pelos exemplos de topo. E nesta seleção não há ninguém acima de Cristiano Ronaldo, que na parte final da época em curso até foi poupado por Zidane a várias deslocações do Real Madrid, com o objetivo de poder estar em grande na fase decisiva da Liga dos Campeões. Disso poderá beneficiar também a seleção, mas a questão é que, tudo somado, entre clube e seleção, Ronaldo fez esta temporada mais um jogo competitivo – e mais 103 minutos em campo – do que os que tinha na bagagem antes de entrar no Europeu de 2016. São 51 jogos contra 50. Se há um ano tinha feito 36 jogos da Liga, 12 na Champions e dois na qualificação para o Europeu, desta vez soma 29 na Liga, 13 na Champions, dois no Mundial de clubes, outros dois na Taça do Rei e cinco na qualificação para o Mundial. Ronaldo, portanto, jogou mais este ano. Como jogaram mais Moutinho, Guerreiro, Cédric, William ou André Gomes, só para citar os que estiveram no onze inicial contra a Letónia e já tinham estado no Europeu. Entre estes, só Rui Patrício, Fonte e Bruno Alves vêm com menos competição do que há um ano, sendo que Gelson e André Silva são novidades. Tudo somado, os 23 convocados para a Taça das Confederações têm, na verdade, menos jogos na época do que os que tinham os 23 que estiveram no Europeu: são 918 jogos, contra os 948 que o plantel acumulava há um ano. Mas esta diferença – 30 jogos – é anulada se retirarmos da equação os dois guarda-redes suplentes das duas listas: há um ano, Anthony Lopes (47 jogos) e Eduardo (44) somavam 91 partidas competitivas, enquanto que este ano Beto (nove jogos) e José Sá (seis) só contabilizam 15. Quem a 91 tira 15 fica com 76, bem mais do que os 30 que são a diferença geral. O que a equipa deste ano tem é gente importante em melhor fase – Ronaldo e Moutinho não chegam em dificuldades –; mais talento no meio-campo e na frente – Pizzi, Bernardo Silva, André Silva e Gelson são acrescentos muito importantes, que permitem, por exemplo, prescindir sem grandes dramas de João Mário e Renato Sanches, um lesionado e o outro nos sub21 – e mais crença em jogadores com os quais Fernando Santos conta em absoluto mas que há um ano não eram bem vistos pela nação futebolística, como Cédric, Guerreiro ou André Gomes. E, no entanto, é preciso ter calma. No final do jogo com a Letónia, uma jornalista levou Fernando Santos a rir num misto de incredulidade e indignação quando lhe perguntou se ele estava em condições de garantir que Portugal ia ganhar a Taça das Confederações. A lógica do raciocínio parece simples, mas bem vistas as coisas é apenas simplista. Se a equipa está melhor do que a que foi campeã da Europa… Acontece que Portugal não está melhor em tudo. Precisa, por exemplo, de encontrar sangue novo para o centro da defesa, nem de propósito o setor da equipa onde os escolhidos tiveram menos competição este ano do que no anterior: Neto substituiu Ricardo Carvalho, enquanto que Pepe passou de 32 jogos para 22, José Fonte de 45 para 41, Bruno Alves de 43 para 39. Vai-se a ver e afinal o problema que esta seleção pode apresentar na Rússia não é o excesso de competição. Também não será a falta. A surgir, será antes aquilo que levou a essa diminuição: a idade de um setor ao qual a renovação vai tardando a chegar. Sim, a experiência conta muito e a Juventus fez a época que fez com três defesas centrais trintões. Mas no fim quem ganhou a Champions foi o Real Madrid.
2017-06-11
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Último Passe

A seleção nacional não foi brilhante em Riga, mas acabou por ganhar com naturalidade por 3-0 à Letónia, mantendo a pressão sobre a Suíça na corrida ao Mundial de 2018. A equipa não mostrou a mesma pujança que no particular frente a Chipre, por exemplo, mas a verdade é que o adversário era mais complicado, tanto por fatores ambientais como táticos. No fim, valeu a já tradicional aliança entre Cristiano Ronaldo e André Silva: dois golos do primeiro e um do segundo elevaram o total conjunto dos dois para 17 golos em cinco jogos e meio (CR7 faltou na primeira partida da qualificação), um rendimento de que não há memória em nenhuma dupla de pontas-de-lança da equipa nacional. Em Riga, Ronaldo marcou à terceira, depois de ver o guarda-redes Vanins negar-lhe o golo nos primeiros dois remates, que equivaleram às duas únicas situações de golo criadas pela equipa nacional na primeira parte. Surpreendida, não pela acumulação de gente atrás dos letões ou pela opção básica destes baterem a bola longa na frente para a corrida dos seus dois atacantes, mas mais pelo 5x3x2 do adversário, a equipa portuguesa tardou a entrar no jogo. A Letónia bloqueava bem o corredor central e, em vez de optarem pelo natural dois para um que podiam criar nas alas, os portugueses interiorizavam muitas vezes Gelson e André Gomes, abandonando os laterais à sua sorte. O resultado foi um jogo de muitos cruzamentos feitos de trás, que sem muita gente na área – o próprio Ronaldo recuava muito à procura do espaço entre linhas – eram muitas vezes pera doce para os corpulentos centrais letões. E até ao golo, quando já cheirava a intervalo, só duas iniciativas individuais de Ronaldo permitiram a Portugal ameaçar Vanins com alguma contundência. Em vantagem, Portugal tinha feito o mais difícil. Mas o jogo da primeira volta já tinha mostrado que um golo pode não chegar – nessa altura, depois de se colocar em vantagem e perder até um penalti, a equipa nacional permitiu o empate já a segunda parte ia a meio e teve até alguma fortuna na forma como respondeu tão rapidamente com o 2-1. Só o segundo golo podia evitar a administração de adrenalina a conta-gotas que este resultado ia fornecendo aos letões. E só com a entrada de Quaresma esse golo chegou: o extremo do Besiktas continua a ter essa rara capacidade para usufruir de uma festa mesmo chegando a meio e, certamente com indicações claras do treinador para abrir o jogo, ganhou a linha e, é certo que beneficiando de um desvio em Jagodinskis, deu o 2-0 a Ronaldo. A Letónia já assumira mais o 3x5x2 do que o 5x3x2, com o adiantamento permanente dos dois laterais para ir à procura do empate, e as limitações técnicas dos centrais na saída de bola acabaram por permitir a André Silva o terceiro golo, após pressão sobre Gorkss. Resultado feito, Portugal limitou-se a gerir até final. A cabeça, nessa altura, já estava na Taça das Confederações. E, vistas bem as coisas, esse decréscimo de rendimento que a equipa mostrou hoje nem terá sido assim tão mau. É que numa prova de média/longa duração jogada no final de época, como é a Taça das Confederações, entrar com muita força não costuma ser bom. Veja-se o que sucedeu há um ano no Europeu.
2017-06-09
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Último Passe

O facto de ter conquistado os últimos quatro campeonatos nacionais e de ter terminado a época com uma dinâmica de vitória superior até à da época passada deixa, à partida, o Benfica na “pole position” para a Liga que aí vem. Como, apesar de práticas recentes poderem indiciá-lo, Luís Filipe Vieira já veio dizer que não tenciona mudar de treinador nem de paradigma, ao Benfica resta sobretudo não estragar o que tem feito até aqui, acertando o mais possível nas inevitáveis substituições de jogadores a que o mercado vai obrigá-lo. Mesmo que, como pode acontecer este ano, se veja forçado a substituir muita gente num mesmo setor tão fundamental como é o defensivo. Parece afastada a ideia segundo a qual Vieira e Jorge Mendes poderiam sentir-se tentados a fazer com Rui Vitória o que já quiseram fazem com Jorge Jesus há dois anos: trocá-lo em alta e aproveitar esse facto para o colocar num clube de topo na Europa, de forma a alargarem a sua zona de influência no mercado e potenciarem futuras transferências milionárias. Se Vitória fica, resta verificar se o paradigma de aposta nos jovens do Seixal se mantém também e se essa é a melhor política para um defeso em que se prevê que o Benfica possa perder boa parte da sua estrutura defensiva mais recuada. Porque a maior ameaça à hegemonia que o Benfica tem estabelecido no futebol português é a junção do fator sucesso-mercado à veterania de peças fundamentais, como Luisão e Jonas, que entrarão nesta nova época com 36 e 33 anos no BI, respetivamente. É verdade que o Benfica já suportou esta época uma quebra enorme de rendimento de Jonas, que passou boa parte do tempo de fora, por doença. É verdade também que na época anterior foi quando Luisão se magoou e Vitória fez dupla de centrais com Jardel e Lindelof que a equipa arrancou para o título, aguentando de forma estoica o sprint final do Sporting. A questão é que nunca faltaram os dois ao mesmo tempo, como a crescente veterania de ambos poderá levar a que aconteça, mais cedo ou mais tarde. Além de que, quando eles faltaram, à vez, havia em campo uma estrutura na qual a equipa podia montar-se. Uma estrutura que teve Júlio César e depois Ederson, que tinha Fejsa e Pizzi para permitir as eclosões de Lindelof, Nelson Semedo, Renato Sanches ou até Gonçalo Guedes. E falta perceber se há lá mais como estes – sobretudo se há tantos para um mesmo setor, no caso o defensivo. É mais ou menos consensual que o nível do campeonato de 2016/17 foi um pouco inferior ao de 2015/16, mas também é verdade que o segundo Benfica campeão de Rui Vitória já se baseou mais em ideias do treinador do que o primeiro, excessivamente dependente da inspiração das suas individualidades (Jonas e Gaitán acima de todos) e do efeito Sanches, que deu à equipa uma explosão determinante. Na época que agora termina, o Benfica melhorou muito do ponto de vista defensivo – e a colocação do mais equilibrado e perspicaz Pizzi no lugar que Renato tantas vezes deixava vago, ao meio, foi tão importante para isso como a liderança firme de Luisão, cuja experiência foi um atributo de excelência na coordenação dos comportamentos defensivos. O problema, para Rui Vitória, é que daqui por uns meses Luisão corre riscos sérios de olhar para o lado e não ver as caras a que se habituou. Ederson já foi, Lindelof e Nelson Semedo parecem estar a caminho e até Grimaldo teria mercado, caso agora o Benfica decidisse prescindir dele. Num setor onde a coordenação coletiva é tão importante, até para definir a altura onde se coloca a linha ou o momento de subida, fazer assim tantas mudanças já seria um problema, mesmo que o Benfica estivesse na disposição de gastar muito, de forma a que para o lugar dos que saem entrassem outros do mesmo valor, ou que haja por lá Jardel, já habituado a jogar ao lado do capitão. E é aqui que entra a questão do paradigma: a aposta nos miúdos, que foi desde sempre a maior justificação para a troca de Jesus por Vitória. Porque uma coisa é inserir, com meses de diferença, Lindelof, Renato Sanches e Ederson no onze-base e outra, completamente diferente, é começar a nova época com um novo guarda-redes, um novo defesa-direito e um novo defesa-central, todos vindos do futebol de formação. Assim ficará mais difícil.
2017-06-04
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