últimas

Artigo

Nos quase 30 anos que já levo de futebol, cansei-me de ouvir dizer que a Liga deveria castigar duramente quem pusesse em causa o prestígio da competição com declarações inflamatórias. Cheguei a engrossar o pelotão dos que defendiam essas sanções, importadas do então muito à frente futebol inglês. Hoje estou convencido de que o problema tem de ser atacado muito antes. O que a Liga tem de fazer não é no plano reativo. Tem, isso sim, que ser proativa. Tem de criar condições para que essas declarações não existam e sobretudo tem de fomentar a sua substituição no plano mediático por outras, que satisfaçam todos os players no mercado: a própria Liga, os clubes, os operadores e, sobretudo, o público, que é quem paga. Isso, em Portugal, é terreno absolutamente virgem. Vamos, então, falar de comunicação aplicada ao futebol. A questão das punições a quem abalar o prestígio do futebol, os clubes já a driblaram. Criaram braços armados que não são dirigentes nem funcionários mas apenas e só adeptos socialmente reconhecíveis, para estarem nos programas onde se discute “futebol”. E sim, as aspas não são engano – porque o que ali se discute não é futebol, mas sim agendas políticas. Tenta-se sempre passar a mensagem de que o presidente, o treinador ou os jogadores do clube que se defende são os mais impolutos e que esse mesmo clube é invariavelmente o mais prejudicado, mas de caminho passa-se também a mensagem de que o futebol está cheio de malandragem que anda a roubar e que por isso nem vale a pena perder-se tempo ou gastar-se dinheiro com o tema. Aquilo vê-se como os reality shows, para perceber que novos limites se cruzam desta vez, mas quem quer que seja que, não sendo espectador habitual de futebol, vá ali parar, não fica com vontade de comprar bilhetes para o próximo jogo, camisolas para dar aos filhos ou assinaturas de canais temáticos. Chegados a este ponto, há quem goste de culpar os operadores de televisão. Não o faço. Os operadores de televisão fazem o que os deixam fazer, na realidade em que estão inseridos – que é uma realidade de acesso-zero aos protagonistas. E dou um exemplo. A UEFA, que está muito à frente de toda a gente do futebol nesta matéria, criou há uns anos o conceito de mini-flash, a ser feita antes dos jogos da Liga dos Campeões pelo canal detentor dos direitos televisivos. Como estou no relvado antes dos jogos, habituei-me a ver passar por estas mini-flashes todas as grandes figuras dos bancos das maiores equipas europeias, mas nem assim os clubes portugueses mudaram de atitude. O Benfica manda invariavelmente Shéu Han, o secretário técnico; do FC Porto costuma aparecer Rui Barros, um dos treinadores-adjuntos; no Sporting já por lá vi Jaime Marta Soares, presidente da Assembleia Geral, ou Otávio Machado, diretor de futebol. Não é isto que promove o futebol, não foi por isto que os operadores pagaram e, acreditem, até pode ser isto que o público acha que quer, porque há muitos anos que não tem outra coisa. Pensemos nas conferências de imprensa, agora sempre televisionadas e por isso mesmo um meio absolutamente gratuito que a Liga tem de promover o futebol. O que se passa lá? Para quem começou a carreira nas conferências de imprensa de Sven-Goran Eriksson, Tomislav Ivic ou Bobby Robson, que duravam enquanto houvesse uma dúvida por esclarecer, uma explicação a dar, e não estavam freadas por subterfúgios impostos pelos limites políticos à comunicação, estes simulacros de conferência de imprensa a que se assiste agora são absolutamente risíveis. O que temos ali é, sempre, um desastre à espera de acontecer: um treinador sem vontade de falar, um diretor de comunicação interessado em que ele fale o mínimo possível – a não ser que haja agenda política a satisfazer – e jornalistas dos canais de TV interessados em soundbytes rápidos, porque tudo o que seja acima de um minuto já é demasiado em termos televisivos. É assim que o futebol vai ganhar quota de mercado? Claro que não. E se o leitor acha agora que este é um problema dos jornalistas, desengane-se. Não é. É um problema do futebol. Os jornais apanham por tabela, mas quem perde mais com este vazio mediático é mesmo o futebol, que desaproveita as oportunidades que lhe são dadas de bandeja, abrindo caminho (e as TVs dos clubes são, aqui, caso emblemático) a mais intervenções que para enaltecerem o próprio, destroem o meio em que ele se insere. Como jornalista, defendo e defenderei sempre o livre acesso aos protagonistas por parte dos meios de informação. No caso do futebol, porém, já ficaria feliz se a Liga aprendesse com a UEFA e percebesse que se quer acabar com aquilo de que não gosta nos programas sobre “futebol” – assim mesmo, com aspas – tem de tonar o caso em mãos e criar condições para que haja conteúdos sobre Futebol – assim mesmo, com maiúscula.
2017-03-26
LER MAIS

Artigo

A perda de uma vaga na Liga dos Campeões por parte dos clubes portugueses já fez mexer a Liga. Pedro Proença, presidente do organismo que tutela a competição em Portugal, deu o primeiro passo, ao admitir o problema, e disse não só que quer “encontrar soluções” como que quer ver a Liga portuguesa “no Top 5 das Ligas europeias”. E se o primeiro objetivo me parece relativamente fácil de assumir – assim haja vontade… – para encarar o segundo já temos um atraso tão significativo que dificilmente o poderemos encarar no curto ou médio prazo. Mas, cada coisa a seu tempo. Para já, era urgente que a Liga se centrasse em três áreas de atuação: o plano competitivo, o plano da comunicação e, resultado do sucesso nos dois primeiros, o plano do negócio. Não sou dos que acham que para a Liga ser competitiva seja necessário reduzir o número de clubes na divisão de topo. Se olharmos para as cinco principais Ligas da Europa, todas têm pelo menos 18 participantes. Têm mais jogadores, um universo maior? Verdade. Mas o número de clubes não é um fator decisivo na competitividade. Nenhuma dessas cinco Ligas tem a luta pelo título tão apertada como a portuguesa: a diferença entre Benfica e FC Porto era, à entrada para a jornada deste fim-de-semana, de um ponto, contra os dois que separam Real Madrid e Barcelona (e em Espanha o líder tem um jogo a menos) ou os três que dista o PSG do Mónaco. Em Inglaterra e na Alemanha as diferenças são de 10 pontos e em Itália são de 12. E se formos comparar com uma realidade de uma Liga com menos clubes, como a escocesa, o que vemos é o Aberdeen a 25 pontos do Celtic. Aliás, aos que depois argumentam que a diferença deve ser feita para os não candidatos ao título, a resposta também é simples: a diferença do primeiro ao sexto não é muito maior em Portugal (26 pontos) que na Alemanha (24) ou em França (25). Na Escócia, o dito paraíso do campeonato reduzido, é de 47 pontos em 28 jornadas. Abissal, portanto. Ter mais clubes na I Liga não significa diminuir a competitividade. Significa, pelo contrário, dar a mais clubes – a mais jogadores, a mais treinadores, a mais adeptos – a hipótese de competir ao mais alto nível e, portanto, de crescer competitivamente. A competitividade aumenta-se, isso sim, quando lhes dermos condições para competir verdadeiramente. E aqui a questão começa a ser política e já exige alguma coragem que até ver não se viu a nenhum dirigente máximo do futebol em Portugal. Para termos uma Liga verdadeiramente competitiva temos de ter uma Liga em que existam mais do que os três grandes. E Portugal, neste particular, está particularmente inquinado. Basta ver o regozijo que os adeptos de cada um dos clubes assumiu assim que o rival foi afastado da Europa. Ou reparar que assim que se começou a debater a perda de uma vaga na Champions, tudo o que a generalidade dos adeptos quis discutir foi que clube estava a dar mais ou menos pontos para o bolo geral. A questão é que isso é absolutamente indiferente: Portugal só terá uma Liga de topo quando houver mais do que três clubes a contribuir de facto para esse bolo. E isso só se consegue quando a Liga – antes seja de quem for – assumir que em Portugal há mais do que três clubes. Como? Na distribuição da receita, por exemplo. Mas não só aí. A questão da receita é flagrante. Primeiro, é importante deixar algumas perguntas. A Liga acha possível fazer subir o bolo global da receita gerada pela sua atividade? Como? Já fez alguma coisa para centralizar as negociações dos direitos televisivos dos jogos, podendo logo à partida aumentar o bolo e depois distribuí-lo de forma mais igualitária, assumindo como objetivo que passe a haver mercado interno em Portugal, com mais de três “players”? Já fez alguma coisa para assegurar, junto dos dois últimos governos, que uma das principais fontes de financiamento do futebol – o mercado de apostas – não seja excluída do mercado português? Já fez alguma coisa para garantir que o futebol em Portugal não são três estádios cheios, três meio-cheios e 12 às moscas? Já deu algum passo no sentido de promover o espetáculo do qual depende a sua sobrevivência, criando conteúdos mais abrangentes que possam ser atraentes para os operadores e para os telespetadores e que dessa forma substituam o insulto à inteligência de quem gosta de futebol que são os programas que gastam horas a discutir os centímetros de um fora-de-jogo ou a intensidade de um toque nas costas? Não, pois não? Pode começar por aqui. Mas amanhã voltarei ao tema.
2017-03-25
LER MAIS

Artigo

A matemática não engana e esta semana soube-se que muito provavelmente Portugal vai perder uma das três vagas que ocupa na Liga dos Campeões já em 2018/19. Podemos até dizer que é normal, consequência natural de termos as equipas mais fortes a jogar na I Divisão do futebol europeu, porque se sabe que elas pontuaram – e pontuariam – muito mais na Liga Europa, onde estão agora os russos e os belgas, que nos ameaçam. O sinal de preocupação não vem, portanto, da pura aritmética. E também não vem de onde devia vir: da eliminação do Sp. Braga na fase de grupos da Liga Europa, precisamente face a ucranianos e belgas; da incapacidade do Sporting se sobrepor ao modesto campeão polaco na corrida à permanência na Europa, esgotada a hipótese de continuidade na Champions; ou, por fim, da constatação de inferioridade evidente de Benfica e FC Porto face a Borussia Dortmund e Juventus (esta última ainda por confirmar no jogo da segunda mão, é verdade, mas com pouca esperança de êxito face ao resultado que se verificou no Dragão). Estes sinais do apocalipse deviam chegar para se pôr a mexer as ideias e se fazer algo, tanto no plano do contexto como no do negócio. Tem a palavra a Liga.Jorge Jesus ainda esta semana falou do assunto e voltou a dizer que Portugal produz dos melhores treinadores que o futebol europeu vai vendo. Há Fernando Santos campeão da Europa. Há Mourinho para o confirmar. Há Jardim para ajudar à festa. Já houve Villas-Boas, antes do exílio dourado na China. Mas então se temos bons treinadores, dos melhores que a Europa produz, se vamos renovando a produção de jogadores de alto nível, capazes de serem campeões da Europa e de se imporem nos melhores clubes do continente, por que raio estaremos condenados a ficar apenas pela classe média da Champions e a perder influência numa Liga Europa que já foi feudo nosso?Aqui chegados, toda a gente se foca na questão dos orçamentos. Mas a este propósito só tenho duas coisas a dizer. A primeira é que a questão dos orçamentos não tem de ser decisiva e só aparece sempre à tona do debate porque nos serve de bode expiatório perfeito. A cada vez que uma equipa portuguesa cai na Europa, aparece a justificação: o orçamento do adversário era superior e portanto está o assunto arrumado, não haveria nada a fazer. Perdão?! É para superar esta desvantagem que existem os tais excelentes treinadores e a tal renovação permanente de um quadro que tem dos melhores jogadores da Europa. E a segunda é que se a questão é a dos orçamentos, então o que tem de ser feito é mexer no futebol em termos de negócio, criar condições para que os orçamentos possam crescer e o jogo seja um oásis de prosperidade que não dependa apenas da criação de mais-valias nascidas na transferência dos melhores jogadores. Foi o que fizeram os ingleses há 25 anos, quando os resultados dos seus clubes definhavam e eles não só criaram a Premier League como lhe associaram uma estratégia de divulgação global do futebol que por lá se joga.Claro que há coisas a melhorar em ambos os planos. No que toca ao contexto, era bom que os adeptos portugueses se preocupassem mais em perceber o processo de jogo das suas equipas, as condições físicas, táticas e técnicas enfrentadas pelos jogadores e treinadores em cada situação e pusessem de lado a atual obsessão pelos cinco centímetros fora-de-jogo ou pelo intensómetro no toque do defesa no avançado. E termina nas pessoas mas começa nos clubes, que não entenderam ainda que só têm a ganhar em abrir onde hoje fecham, em utilizar o conhecimento dos seus treinadores em sessões públicas em vez de se fecharem sobre si mesmos, remetendo os néscios para a discussão das arbitragens. Já viram Vitória, Jesus ou Espírito Santo falar de forma aberta do processo de jogo das suas equipas? Claro que não, porque sempre que eles falam as conversas se limitam a aspetos banais, à busca do soundbyte televisivo, da polémica que queima mais depressa mas não cria valor.Já acerca dos orçamentos, há uma coisa que não podemos mudar, que é a dimensão do país. Mas podemos mudar a dimensão do mercado. Portugal tem durante quatro anos uma vantagem competitiva enorme no plano do marketing: é campeão da Europa. Já tem há uma década outra vantagem do mesmo calibre: produziu Cristiano Ronaldo, crónico candidato ao título de melhor jogador do Mundo. Se mesmo assim não conseguimos que o Mundo queira ver os nossos jogos, é porque, das duas uma: ou não estamos a fazer o que podemos para os mostrar ou não lhes associámos as vantagens competitivas que temos. Há 30 anos, quando se viu perante um quadro de falta de talentos, a FPF lançou um plano de formação revolucionário que alimentou o futebol nacional durante duas gerações. Mais recentemente, colocada face ao mesmo problema, integrou as equipas B na II Liga e criou condições para voltar a ter de forma repetida a melhor seleção de sub21 da Europa e, consequência disso, a seleção campeã da Europa. O plano do negócio pertence à Liga. E acho que já era altura de a Liga fazer qualquer coisa.
2017-03-12
LER MAIS

Artigo

A demissão de Claudio Ranieri no Leicester tem sido apresentada por toda a gente como o triunfo da ingratidão. Então o homem que pegou num lote de jogadores sem qualquer aspiração nem reconhecimento de categoria e fez deles campeões ingleses, que depois à conta disso foi eleito treinador do ano da FIFA, de repente deixou de servir? A resposta é muito simples. Sim. Deixou de servir porque aquilo que se lhe pedia passou a ser diferente. Para perceber as razões pelas quais o Leicester fez bem em demitir Ranieri era preciso ter percebido as razões pelas quais Ranieri fez do Leicester campeão inglês. E essas tiveram mais a ver com o trabalho de mentalização do que com futebol puro e duro. Na história da época passada ficou a fábula da pizza. Conta-se que, ainda no início da aventura, irritado por a sua equipa não ser capaz de manter a baliza a zeros uma única vez, Ranieri terá prometido aos jogadores que os levava a jantar fora no dia em que o conseguissem. No menu estaria a típica pizza italiana. E à primeira oportunidade após a promessa, bingo: 1-0 ao Crystal Palace. Metido em trabalhos, Claudio Ranieri teve a arte para transformar o problema numa oportunidade. Levou os jogadores a um restaurante italiano, mas quando estes lá entraram tinham uma surpresa à espera: eram eles quem ia cozinhar as pizzas. A fábula da pizza foi de mestre em termos de construção de espírito de equipa, uma das chaves na chegada do Leicester ao título de campeão. A partir daquele momento, os jogadores perceberam que tinham de trabalhar por tudo aquilo que queriam, mas que se trabalhassem acabariam por alcançar o objetivo. Durante meses, todos os que íamos achando piada ao esforço do Leicester e até a torcer pelo sucesso dos “underdogs” glorificávamos a fábula da pizza e a capacidade de Claudio Ranieri para, pela crença, pelo espírito coletivo, transformar jogadores banais em campeões. Só agora, que o Leicester anda pelos fundilhos da classificação, em risco de descer de divisão, é que nos vamos lembrando de uma coisa muito simples. É que nos argumentos utilizados na construção de um campeão pelo veterano treinador italiano não aparecia o treino. Não havia futebol. E é disso que a equipa do Leicester mais precisa agora. Porque neste momento já não é formada por um conjunto de operários em busca do primeiro sucesso – já são campeões, já não vão lá com receitas básicas de auto-ajuda. E esse upgrade, Claudio Ranieri nunca foi capaz de o dar à equipa. No fundo, salvaguardadas as devidas diferenças – porque o Boavista era muito maior à escala portuguesa do que o Leicester alguma vez será em Inglaterra – repetiu um pouco aquilo que aconteceu com Jaime Pacheco no Boavista. E, apagada a chama do campeonato ganho em 2001, muito à conta da garra, do compromisso e do empenho, Jaime Pacheco também acabou por ver extinto o seu período de ouro à frente da equipa axadrezada quando os milhões da Liga dos Campeões permitiu trazer mais jogadores e aspirar a maiores feitos. Dir-me-ão que Jaime Pacheco saiu do Bessa de livre vontade e que por isso mesmo nunca teve a onda de apoio de que Ranieri goza agora, que o seu “sonho” morreu. De Mourinho a Klopp, com passagem até pelo australiano Eddie Jones, que é o selecionador inglês de râguebi, toda a gente por Inglaterra se mostra incrédula com a decisão do clube e solidária com o treinador italiano. Mas é preciso também entender estas tomadas de posição à luz de uma realidade muito diferente. A Premier League é muito mais popular do que a Liga portuguesa e os últimos dez anos também mudaram muito no panorama mediático mundial. E aquilo que toda a gente via agora era não apenas um Leicester que deixou de jogar acima das suas possibilidades – como lhe sucedeu na época passada, jogo após jogo – mas também adversários já precavidos e capazes de se ajustar ao que o Leicester tinha para propor. Que, no plano futebolístico, continuava a ser demasiado pouco para os pergaminhos de um campeão inglês. Sem Ranieri, o Leicester pode melhorar ou não. Uma coisa é certa. O novo treinador volta a ter nas mãos uma equipa que duvida de si mesma, como a que Ranieri encontrou há um ano e meio. Pode repetir a receita do italiano, mas talvez não seja pior apostar no futebol.    
2017-02-26
LER MAIS

Último Passe

A ver Bruno de Carvalho e Pedro Madeira Rodrigues debaterem com vista às eleições do Sporting lembrei-me várias vezes de uma corrida de 400 metros. Os dois candidatos à presidência assemelhavam-se a dois atletas que, cada um na sua pista, iam traçando percursos paralelos, sem nunca se cruzarem. Madeira Rodrigues, o desafiante, focava-se nos aspetos que julga mais negativos no mandato do atual presidente e dizia que com ele tudo ia ser diferente. Bruno de Carvalho, por sua vez, centrava atenções no que considera serem as suas maiores vitórias e agitava documentos para as "provar", quase nunca dando respostas convincentes às críticas que lhe iam sendo lançadas. Resultado: as únicas vezes em que cruzaram argumentos foi acerca dos insultos que um e outro foram registando durante a campanha ou na questão das comissões, em que um disse uma coisa e outro disse outra. Duvido que um único sócio do Sporting tenha hoje mudado o seu sentido de voto. Depois de ver os dois candidatos, quem era de Bruno de Carvalho vai continuar a ser de Bruno de Carvalho e criticará a atuação de Pedro Madeira Rodrigues e o facto de o desafiante quase se ter limitado a despejar frases feitas acerca do que quase toda a gente vê de negativo no presidente: a obsessão com o Benfica, o culto da personalidade, a dificuldade para aceitar opiniões divergentes... Por sua vez, quem era de Pedro Madeira Rodrigues continuará a ser de Pedro Madeira Rodrigues e a reparar que em vez de dar respostas concretas às críticas que lhe eram feitas, o presidente fugia para os temas em que se sentia mais confortável, como quando ripostou ao desequilíbrio entre despesas e receitas operacionais com o saldo positivo entre vendas e compras na equipa de futebol.  A verdade é que, mesmo tendo passado todo o debate ao ataque, Madeira Rodrigues nunca disse como poderá fazer melhor aquilo que entende que Bruno de Carvalho fez mal - só que vai fazer melhor. E, mesmo tendo quase sempre dado a sensação de que estava ali apenas a cumprir um pró-forma, Bruno de Carvalho também nunca fez qualquer ato de contrição relativamente ao que lhe correu pior: a rábula de ter uma média de taças por ano superior à média geral do Sporting é um passo atrás relativamente ao discurso ambicioso de quem há quatro anos ia mudar o Mundo leonino e fazer do Sporting muito grande outra vez. Se o debate serviu para alguma coisa foi para que Madeira Rodrigues se desse um pouco mais a conhecer. De Bruno de Carvalho já todos sabem o que é - é aquilo que tem feito, com coisas positivas e outras negativas. Já o desafiante mostrou trazer o discurso preparado, os soundbytes bem alinhados e decorados e até valer mais do que aquilo que a perceção geral lhe concede em termos de reais possibilidades de vir a ser presidente do Sporting já este ano. A não ser que haja uma grande surpresa daqui até dia 4 de Março, Bruno de Carvalho vai ser re-eleito para mais um mandato à frente do Sporting. Pedro Madeira Rodrigues poderá capitalizar os votos que vier a acumular para se constituir como alternativa válida, como oposição que nenhum dos três grandes clubes portugueses verdadeiramente tem. Se quiser vir a contar, o candidato perceberá que a sua melhor aposta é no médio e no longo prazo e que a corrida que mais lhe interessa não é de 400 metros. É uma maratona.
2017-02-23
LER MAIS

Artigo

A notícia do pedido de uma reunião ao Conselho de Arbitragem por parte do Benfica é tão ou tão pouco significativa para o rumo do campeonato que os tricampeões eram até aqui o único dos três grandes que ainda não tinha solicitado um encontro com o órgão presidido por Fontelas Gomes. Agora, que a Liga aqueceu e se aproxima dos momentos decisivos, enquanto os benfiquistas vão alegando que a pressão dos Super Dragões sobre Soares Dias foi fulcral para a aproximação entre os dois emblemas na tabela, os portistas respondem que é o Benfica quem está com medo e a tentar coagir os árbitros. Nunca chegarão a consenso e por isso prefiro falar de futebol, das razões que estão por trás da preparação do sprint final que se adivinha e que passam muito pela alteração estrutural que o mercado de Janeiro permitiu. Muita gente pergunta: mas que raio, será Soares um jogador assim tão fenomenal que justifique, por si só, a transformação do FC Porto ofensivamente inoperante de há uns meses num candidato ao título? Caramba, o homem andou pelo Nacional e pelo V. Guimarães e ninguém reparava assim tanto nele... A questão é que no futebol o que vale mais são as ideias e em segundo lugar as peças que são capazes de as fazer funcionar. Se colocarmos de lado fenómenos como Ronaldo ou Messi, que quase ganham os jogos sozinhos, o que garante vitórias são as ideias e a capacidade de as colocar em prática. Com a chegada ao Dragão de Soares, viu-se finalmente a ideia de Nuno Espírito Santo, uma ideia à qual Depoitre nunca conseguiu dar corpo. Soares não é um craque de nível estratosférico, mas consegue ser a perna que faltava no boneco que o treinador tentou desenhar há tempos na sala de imprensa, o pilar que mantém esse boneco em pé, porque dá à equipa a presença e a profundidade de que esta precisava para o jogo mais direto que ela tentava praticar. É preciso enquadrar o futebol do FC Porto naquilo que os seus jogadores tinham dentro da cabeça. Passaram de um ano para o outro de um futebol que privilegiava a posse e de decisões que conduziam a equipa inevitavelmente para o ataque organizado em detrimento do ataque rápido ou do contra-ataque para outro tipo de jogo, com linhas mais juntas e procura mais rápida da profundidade. Nuns jogos sofriam porque a cabeça lhes fugia para as ideias antigas, noutros porque não tinham quem fosse buscar essa profundidade – André Silva é mais móvel na largura, procura bem a faixa, mas quase nunca ataca o espaço nas costas da defesa adversária – noutros ainda porque era o adversário quem, jogando muito atrás, roubava essa mesma profundidade e exigia ao FC Porto outros argumentos que esta equipa não tinha, como a presença na área para aproveitar os cruzamentos que ainda ia fazendo. A equipa melhorou primeiro com Jota, porque o simples facto de ter um repentista em campo já lhe permitia buscar o espaço atrás da defesa adversária. Mas vivia entre dois fogos: ou procurava essa profundidade na criatividade dos extremos e na sua capacidade de furar linhas no um para um ou tentava assumir o jogo com reforço do meio-campo, dando um passo para cada lado e acabando por trocar os pés. Soares não resolveu todos os problemas, porque este FC Porto ainda tem de entender como se exprime melhor. Se com dois extremos puros, apostando na vertigem mas arriscando perder o controlo dos jogos se os adversários souberem envolver-lhe o meio-campo com três homens no corredor central – porque André Silva tem disponibilidade para correr sem parar mas não deve pedir-se-lhe que seja ele a estabelecer equilíbrios atrás – se com dois médios de coração a partir das alas, apostando na consistência mas perdendo chispa atacante – porque Herrera e André André pensam mais na bola do que no espaço e isso trava a equipa. Otávio é uma solução de compromisso entre as duas facetas, mas ainda precisa de rodagem para estar verdadeiramente pronto. Na forma que Nuno Espírito Santo encontrar para resolver este dilema estará a resposta para o que vai ser da equipa já na eliminatória com a Juventus e, depois, no sprint que se adivinha com um Benfica que perdeu fulgor mas poderá recuperá-lo com Zivkovic, com o regresso do melhor Pizzi ou com a entrada de Jonas, que ainda está por chegar a este campeonato. 
2017-02-19
LER MAIS

Último Passe

Uma noite perfeita de Ederson e o pesadelo protagonizado por Aubameyang ajudam a explicar a vitória por 1-0 do Benfica sobre o Borussia Dortmund e uma ligeira inversão da balança do favoritismo nos oitavos-de-final da Liga dos Campeões, mas resumir o que se passou na Luz a esses dois fatores seria ignorar outros igualmente importantes, como a mudança de estratégia defensiva do Benfica da primeira para a segunda parte. Foi também por aí que os encarnados ganharam o jogo, ainda que a chave tenha sido a eficácia do sul face ao desperdício alemão: Mitroglou marcou no único remate enquadrado da equipa portuguesa; Aubameyang falhou quatro golos cantados, um deles num penalti, que Ederson defendeu. Na primeira parte, quem olhasse apenas para os dois treinadores dificilmente adivinharia o que aí vinha. Rui Vitória deitava repetidamente as mãos à cabeça, por ver a equipa perder hipótese sobre hipótese de lançar contra-ataques que podiam ser perigosos, não conseguindo passar a primeira barreira defensiva imposta pelo Borussia. Tomas Tüchel, por sua vez, limitava-se a sorrir com incredulidade à medida que os seus jogadores iam perdendo ocasiões para marcar. Só à conta de Aubameyang foram, nesses primeiros 45 minutos, duas, uma na cara de Ederson, outra até já sem guarda-redes, depois de um cruzamento rasteiro de Guerreiro a que o gabonês não chegou. O Benfica entrara com Rafa a fazer de Jonas, atrás de Mitroglou, talvez com a ideia de condicionar Weigl, de o cercar de forma a impedi-lo de pegar no jogo alemão, mas a ideia não resultou. Por um lado, porque com exceção de algumas arrancadas de Salvio na direita – sempre bem auxiliado por Semedo – a equipa portuguesa não conseguia criar embaraço aos alemães. Por outro, porque estes iam mandando no campo e monopolizando a bola. Talvez por isso, Rui Vitória mexeu logo ao intervalo. Saiu Carrillo, que não deu boa sequência ao jogo com o Arouca, e entrou Felipe Augusto, descaindo Rafa para a esquerda e avançado Pizzi para ser ao mesmo tempo segundo avançado e terceiro médio. Não se percebeu se a coisa podia dar resultado, porque logo aos 48’ os encarnados marcaram, num canto: Luisão saltou mais alto que toda a gente e Mitroglou aproveitou a colocação deficiente de Guerreiro num dos postes para, em posição legal, bater Burki. De repente, o jogo adiantou-se à estratégia do Benfica, que se via a ganhar e com mais um médio no campo. Ainda assim, e apesar da energia que a equipa passou a pôr no momento de reação à perda da bola, subindo a primeira linha de pressão, o Borussia foi capaz de voltar a pegar no jogo. Teve ocasiões para empatar, em mais um cara-a-cara de Aubameyang com Ederson – que voltou a sair por cima da barra – e numa grande penalidade que o gabonês desperdiçou. Ederson adivinhou o remate para o meio da baliza, deixou-se ficar e socou a bola. Após essa defesa de Ederson, Tüchel chamou Schurrle e sacrificou o seu melhor marcador, cuja noite-não era já sem remissão. E o Benfica animou-se, equilibrando o jogo até ao momento em que os alemães chamaram Pulisic. Foi o norte-americano que, com um remate à entrada da área – desviado no calcanhar de Jiménez – arrancou a Ederson a defesa da noite. Uma defesa que deve ter assegurado ao guardião brasileiro a chamada à sua seleção (se é que Taffarel, que estava a observá-lo, ainda tinha dúvidas) e que garantiu ao Benfica a entrada no Westfallenstadion em vantagem e, sobretudo, sem ter sofrido golos em casa. Se o Borussia era favorito na eliminatória, neste momento as coisas estão pelo menos equilibradas.
2017-02-14
LER MAIS

Artigo

“Estávamos a jogar bom futebol e só precisávamos de controlar o jogo, mantendo a posse. Mas nessa altura o Nani decidiu tentar uma finta, perdeu a bola e eles conquistaram um penalti” Alex Ferguson, após uma derrota por 5-4 frente ao Chelsea, em Outubro de 2012   “Amrabat recebeu a bola e o nosso defesa-esquerdo estava a 25 metros dele em vez de estar a cinco. Mesmo a 25 metros devia ter ido pressionar, mas não… Isto é tático mas também é uma atitude mental, algo que não se aperfeiçoa num par de semanas”. José Mourinho, após uma derrota por 3-1 frente ao Watford, em Setembro de 2016    “Na primeira parte, o FC Porto foi melhor, porque o Palhinha não levou o guião certo para se enquadrar no jogo e isso foi fatal em termos táticos” Jorge Jesus, após uma derrota por 2-1 frente o FC Porto, Fevereiro de 2017   Há várias coisas que me incomodam no episódio Jesus-Palhinha e a maior de todas não é o facto de o treinador ter apontado responsabilidades a um jogador em vez de se refugiar no que é politicamente correto, que é não dizer nada de concreto. Não gostei, é verdade, porque também acho que criticar os (hierarquicamente) mais fracos é um mau traço de caráter, mas faço parte dos que acham o discurso “chapa quatro” dos treinadores no final dos jogos um aborrecimento pavoroso e dos que têm saudades, por exemplo, das conferências de imprensa de Bobby Robson. Como aquela em que, após uma derrota do FC Porto frente ao Benfica na Luz, exclamou algo como “Benfica 2, Fernando Couto 0”, irritado por o então jovem defesa central se ter feito expulsar. O que mais me incomodou no episódio Jesus-Palhinha foram outras coisas. Foi não se ter tido a oportunidade de perguntar, logo ali, ao treinador: o que quer dizer com isso do “guião certo”? E foram, depois, as tentativas de politizar aquilo que o treinador disse, de tornar aquela frase a charneira de duas narrativas completamente opostas. De um lado os que nela se suportam para defender que Jesus é “uma besta” que nunca assume responsabilidades e não tem um pingo de sensibilidade para trabalhar com jovens. Do outro os que defendem que aquela frase é a exata medida da assunção de responsabilidades por parte do treinador, que afinal era o argumentista e quem devia ter dado o guião certo ao ator que falhou taticamente na primeira parte do jogo. Na verdade, só uma pessoa sabe quem tem razão e essa é o próprio Jesus. E em vez de estarmos todos a adivinhar – ou, pior, a utilizar a frase para suportar ideias que são nossas – o que ele quis dizer, mais valia discutir o que verdadeiramente interessa: devem os treinadores criticar os jogadores em público? Em resposta, eu diria que depende do que querem alcançar com as críticas. Manda o bom-senso que as críticas sejam feitas no balneário, mas é legítimo que se diga que hoje em dia os jogadores estão cada vez mais sensíveis e que a exponenciação do “star system” através, por exemplo, do endeusamento potenciado pelas redes sociais, não tem ajudado. A verdade é que há milhares de casos na história. Fernando Couto ficou destruído pelo comentário público de Robson? Não, porque era forte e sabia que tinha feito asneira. Alguém duvida que o Super-FC Porto de José Mourinho, que a equipa que veio a ganhar a Taça UEFA e a Liga dos Campeões, começou a nascer nas críticas ferozes que o treinador lançou em conferência de imprensa após uma derrota por 3-0 frente ao Belenenses no Restelo? Foi o que aconteceu, ainda que muitos dos que estiveram nessa noite não tenham tido a força suficiente para passar por cima do que se passou e por isso mesmo não tenham chegado ao sucesso que acabou por premiar aquela equipa. Ferguson, por exemplo, foi sempre extremamente duro com Giggs ou, mais tarde, com Ronaldo, que eram os meninos dos olhos dele. E foi também por isso – e por terem sabido dar a volta – que eles chegaram onde chegaram. Claro que há casos de jogadores que não foram capazes de lá chegar. Quando Paulo Bento, também após um jogo no Dragão, pendurou o jovem guarda-redes Stojkovic na cruz por ter agarrado uma bola cortada por Polga – dando origem a um livre indireto e ao golo da vitória do FC Porto sobre o Sporting – pode até tê-lo feito por ter percebido que tinha Rui Patrício em fila de espera e que o futuro da baliza leonina estava no português e não no sérvio, mas daí até se dizer que a carreira deste nunca descolou por causa do episódio vai um salto maior do que a perna. Quer isto dizer que, seja qual for a verdade no episódio Jesus-Palhinha, não é isso que vai determinar o jogador que vai ser o jovem médio nem o treinador que é o amadorense. Jesus fez asneira, sim, mas foi sobretudo no início da época, quando achou que Petrovic podia jogar na equipa do Sporting, preferindo-a a Palhinha. Mas até saltar dessa decisão para o axioma segundo o qual Jesus é um mau treinador para a formação me parece forçado, porque ninguém estaria hoje a reclamar a presença de Palhinha – ou de Podence e Geraldes – se eles não tivessem tido a oportunidade de jogar meia época no Belenenses e no Moreirense.
2017-02-12
LER MAIS

Artigo

O mercado foi decisivo no desfecho do FC Porto-Sporting. O bis de Soares impulsionou os dragões para uma vitória que os deixa à condição na frente do campeonato e tira os leões da luta a três meses do final da época. A aposta de Nuno Espírito Santo no jogador recentemente recrutado ao V. Guimarães deu frutos, enquanto que no Sporting Jesus viu Palhinha ser insuficiente face à ausência forçada de William: o médio chegado do Belenenses fez uma boa segunda parte, mas acusou falta de rotinas com o resto da equipa e cometeu um erro de posicionamento quando se atrasou a subir para fazer o fora-de-jogo no lance do primeiro golo portista. Na verdade, ainda que de forma tímida, dos três candidatos ao título só o FC Porto foi ao mercado buscar argumentos para fortalecer a sua candidatura. Do V. Guimarães chegou Soares, que se por um lado pode ser visto como alternativa fisicamente imponente a André Silva, por outro tem a velocidade de ponta capaz de dinamitar as defesas mais rápidas: a forma como bateu Ruben Semedo no segundo golo é disso prova acabada. A chegada de Soares acaba por ser também a assunção do falhanço na contratação de Depoitre, que Nuno Espírito Santo nunca conseguiu transformar no jogador que vira no duplo confronto entre o seu Valencia e o Gent, há um ano. Com a entrada de Soares e a saída de Adrian López, emprestado ao Villarreal, o FC Porto deu uma composição diferente ao seu ataque, que agora conta com três pontas-de-lança mais clássicos para um melhor preenchimento do espaço na área adversária e com a irreverência de Rui Pedro, cuja qualidade certamente o impedirá de perder espaço nas opções do treinador. O resto do ataque continuará a depender da velocidade de Jota, do repentismo de Corona e da criatividade de Brahimi – que chegou a estar com pé e meio fora, no Outono, antes de acertar o passo com as ideias do treinador –, bem como da disposição de Nuno Espírito Santo para os colocar a jogar ao mesmo tempo em vez de ir acumulando médios e privilegiando a segurança, confiando nas bolas paradas. No Sporting, o mercado podia ser visto de duas maneiras. Ou redução de custos, com a saída de jogadores que eram excedentários no campo e no orçamento, ou recuperação da identidade do clube, feita da aposta nos jogadores da casa que tanto agrada aos adeptos mas que, valha a verdade, pouco mais deu nos últimos anos do que insignificantes vitórias de Pirro. Ainda assim, Francisco Geraldes parece um médio com capacidade de se impor no onze dos leões, sobretudo se Jorge Jesus conseguir trabalhá-lo de forma a juntar agressividade inteligente (o contrário da que lhe valeu a expulsão no Dragão, ainda pelo Moreirense) ao cérebro futebolístico que o jovem inegavelmente tem. É, no fundo, dar-lhe um pouco de Enzo Pérez para ele poder ser alternativa ou complemento a Adrien. Apesar dos soluços de ontem, Palhinha será sempre melhor alternativa a William do que o inexplicável Petrovic. E Podence, mesmo parecendo jogador mais feito para equipas de contra-ataque, é uma pilha de energia e velocidade constantes. Tudo somado à renovação de Gelson e à compra do passe de Coates chegaria para ter os sportinguistas satisfeitos não fosse a derrota no Dragão, mas a verdade é que ficou a ideia de que o clube não conseguiu colocar todos os erros de casting do mercado de Verão. Saíram Markovic (Hull), Elias (Atlético Mineiro) e Petrovic (Rio Ave), bem como Spalvis, que foi para o Rosenborg acabar a última fase (a ativa) de recuperação da grave lesão que teve na pré-época. Mas ainda ficaram em Alvalade (para já) jogadores como André ou Castaignos, este uma espécie de Depoitre, com a mesma aversão ao golo. Por fim, durante todo o mercado sentado confortavelmente no cadeirão de uma liderança entretanto ameaçada, o Benfica estabeleceu a realização de mais-valias financeiras como grande prioridade desta janela de transferências. Com o auxílio de Jorge Mendes, os tricampeões conseguiram mais duas enormes operações, fazendo 45 milhões de euros com Gonçalo Guedes (Paris St. Germain) e Hélder Costa (que poucos em Portugal sabem quem é mas valeu 15 milhões da opção de compra pelo Wolverhampton, do segundo escalão inglês). A chegada de Hermes (ex-Grêmio) destina-se a compor mais as laterais da defesa, face à lesão de longa duração de Grimaldo, restando perceber onde se enquadram Pedro Pereira e Filipe Augusto. O lateral contará para Rui Vitória ou terá sido apenas uma forma de resolver o imbróglio Djuricic, que seguiu a título definitivo em caminho inverso para a Sampdoria? E será o médio capaz de se impor onde Danilo falhou ou a sua contratação não passa de mais um efeito secundário da parceria com a Gestifute? As semanas que aí vêm o dirão, sendo que para já o Benfica é, dos três, o único a poder lamentar, no plano estritamente futebolístico, o desfecho de Janeiro: o futebol-ventoinha de Gonçalo Guedes, sempre a mexer, sempre a correr, sempre a pressionar, já terá feito a sua falta nas derrotas com o Moreirense e o V. Setúbal. 
2017-02-05
LER MAIS

Último Passe

Foram o FC Porto e Nuno Espírito Santo que ganharam ou foram o Sporting e Jorge Jesus que perderam? Como sempre, na sequência de um clássico, onde as duas formas de olhar para o jogo assumem igual protagonismo, esta é a pergunta que muitos fazem. A resposta é simples: ambas as afirmações são verdadeiras. Nuno Espírito Santo começou a ganhar o jogo quando apostou em Soares e numa frente de ataque alargada, mas só o ganhou mesmo graças ao compromisso defensivo revelado por jogadores como Corona e Brahimi. E Jorge Jesus começou a perdê-lo, não tanto na aposta-surpresa em Matheus Pereira, mas mais na falta de William Carvalho e na insistência em Bryan Ruiz pelo corredor central, como segundo avançado, quando ainda não ganhou um jogo verdadeiramente competitivo com o costa-riquenho a jogar naquela posição. Soares foi o homem do jogo, pelos dois golos que marcou, mas sobretudo pela volta que permitiu dar ao futebol do FC Porto. Com Soares, o FC Porto pôde mudar para um 4x4x2, porque passou a ter um avançado de referência, com escola a jogar de costas para a baliza, a cobrir a bola, mas que ao mesmo tempo tem finalização e explosão. Talvez fosse isso que o treinador tinha em mente quando contratou Depoitre, mas a verdade é que esses trunfos chegaram com seis meses de atraso. Com Soares na frente, André Silva passou a ser menos massacrado – ainda que ao mesmo tempo tenha perdido protagonismo – e a equipa pôde juntar dois pontas-de-lança a dois extremos puros, como Corona e Brahimi, não perdendo em termos defensivos. Pelo contrário… A diferença para a equipa que atacou no Estoril, há uma semana, com André Silva, Jota, Herrera e André André foi abissal em termos de resultados práticos, mas também de modelo de jogo: o FC Porto de hoje apostou num jogo mais direto, na busca mais rápida da profundidade, juntando linhas atrás e vivendo muito do comportamento defensivo rigoroso dos dois alas, que estiveram sempre bem nos momentos de transição, reduzindo o espaço ao Sporting para atacar. Claro que muito disto teve a ver com o golo madrugador de Soares, obtido logo aos 6’, que permitiu ao FC Porto gerir a vantagem e ao Sporting obter superioridade estatística, porque lhe coube desde cedo a necessidade de recuperar no marcador. E aqui é onde entram os defeitos leoninos. Seria fácil vir agora criticar a aposta surpresa em Matheus Pereira – um minuto jogado na Liga antes de ser titular no Dragão – mas a verdade é que sem ter sido brilhante, não foi por ele que o Sporting começou a claudicar. O início da queda teve a ver com a falta de rotinas de Palhinha com a equipa, mas o essencial passou pela noite má de Zeegelaar e por mais uma manifestação de incapacidade de Bryan Ruiz para jogar como segundo avançado, pelo meio, em jogos onde o patamar de exigência e de competitividade aumentam. Em suma, Jesus não perdeu por ter inventado, como amanha vamos ler um pouco por todo o lado. Perdeu por insistir em soluções que já lhe tinham custado pontos em várias outras situações. É muito por aqui que se explica o jogo. Adiantou-se o FC Porto logo aos 6’, por Soares, num lance onde a criatividade de Corona se juntou ao comportamento insuficiente de Zeegelaar, que o deixou cruzar, e onde depois a eficácia do avançado recrutado ao V. Guimarães veio combinar com a falta de rotina de Palhinha com Coates e Ruben Semedo: os dois centrais definiram bem o momento da subida, um segundo antes do cruzamento, para deixar Soares em fora-de-jogo, mas Palhinha, que estava na área para restabelecer a superioridade numérica, tardou a reagir e deu condição legal ao atacante brasileiro. A ganhar, o FC Porto assumiu o bloco baixo e a busca rápida da profundidade, sobretudo em ataque rápido e contra-ataque. E, mesmo tendo superioridade numérica no corredor central – Palhinha, Adrien e Bryan Ruiz contra Danilo e Oliver – o Sporting não só não tinha saída pelo meio, procurando sempre os corredores laterais, como perdia quase todas as divididas por ali, fruto da inadequação de Bryan Ruiz à posição. O talento está lá, não se discute, mas para jogar a este nível naquela posição é preciso pensar e executar a uma velocidade que o costa-riquenho não tem. Ruiz começou ali contra o FC Porto em Alvalade e Jesus trocou-o por Bruno César quando se viu a perder, ainda na primeira parte; voltou a começar ali contra o Benfica na Luz e Jesus voltou a trocá-lo, desta vez por Alan Ruiz, aos 60’, mais uma vez a perder, mas desta vez por 2-0; por fim, o treinador repetiu a aposta no Dragão, voltando a mudá-lo de posição ao intervalo, outra vez a perder por dois golos. O segundo nascera de um contra-ataque que teve contributo de Danilo, num excelente passe de rotura, e de Soares, que bateu em velocidade a defesa do Sporting, superou Rui Patrício e fez o 2-0. Na segunda parte, com Adrien e Gelson a manterem a bitola elevada, Esgaio na esquerda em vez de Zeegelaar, Palhinha a subir de rendimento – sendo mais médio e menos terceiro central – e sobretudo com Alan Ruiz no apoio direto a Bas Dost, assegurando que o Sporting tinha alguém capaz de jogar dentro do bloco portista, os leões melhoraram. Adrien acertou na trave e Alan Ruiz reduziu, após combinar com Bas Dost. Aqui, foi a vez de o FC Porto repetir o erro que já cometera contra o Benfica, baixando o ritmo, deixando de sair com a certeza dos primeiros 45 minutos, fruto da falta de gente na frente: André Silva deu o lugar a André André, Brahimi foi trocado por Jota e Corona por João Carlos. Podence deu alma ao flanco esquerdo leonino e nos últimos dez minutos pairou sobre o Dragão a hipótese de repetição do golpe de teatro que já sucedera frente ao Benfica. A diferença é que desta vez Casillas fez duas excelentes defesas a cabeceamentos de Coates, impedindo o empate. E em resultado disso não só o FC Porto viu legitimada a sua candidatura ao título, como o Sporting saltou fora da carruagem.
2017-02-04
LER MAIS

Último Passe

O FC Porto-Sporting vai definir que campeonato teremos a partir de Fevereiro. As equipas chegam ao clássico em posições inversas relativamente ao igualmente decisivo desafio da época passada, mas com muito mais jornadas por disputar, o que somado à derrota recente do Benfica em Setúbal permite acalentar esperanças a ambas de ainda terem alguma coisa a dizer na luta pelo título. A esperança é, aliás, a palavra-chave para os que hoje forem ao Dragão. Os portistas vão na esperança de saírem de lá líderes à condição – o Benfica só joga no domingo. E se há um mês estavam a seis pontos de diferença do líder, já não estão na situação de olhar para cima e não ver ninguém desde o jogo de abertura desta Liga, quando foram os primeiros a somar três pontos, com a vitória em Vila do Conde sobre o Rio Ave. Os sportinguistas, por sua vez, vão na esperança de pelo menos manter a distância para o topo – são sete pontos neste momento, os tais que o FC Porto tinha de desvantagem há um mês – e reduzir a que os separa do segundo lugar, para voltarem a entrar na discussão. Ambos os treinadores têm a noção de que o futebol é o momento. E a questão é que o momento não tem sido muito favorável a nenhum dos dois. O FC Porto até vem de três vitórias seguidas depois do empate em Paços de Ferreira que parecia condenar a equipa a uma segunda metade de época sem ambição, mas não tem sido convincente no plano exibicional. No Estoril, por exemplo, a equipa só ganhou asas quando o treinador adicionou homens de ataque a um onze inexplicavelmente tímido de início. Uma das dúvidas acerca de que FC Porto vamos ter prende-se com as opções para acompanhar André Silva. Só Diogo Jota, com Herrera, Oliver e André André é curto, como se viu na Amoreira. É verdade que o treinador vinha escaldado pelos dois golos consentidos em casa ante o Rio Ave e pode ter sido impelido a escolher uma equipa mais conservadora, mas entre Corona e Brahimi, pelo menos um tem de estar de início. Ou até os dois, com Jota de fora. Jesus já dissipou a maior dúvida no onze leonino, que tinha a ver com o homem escolhido para substituir o castigado William Carvalho. Joga Palhinha, igualmente forte fisicamente mas menos desequilibrador no passe e naturalmente menos à vontade com a importância de um jogo como este. Logo aí se deve esperar um Sporting menos virado para o ataque, mas a opção fundamental prende-se com a escolha do homem que vai acompanhar Bas Dost na frente. Em 2015/16, Jesus ganhou com “chapa três” na Luz e no Dragão com dois avançados puros – Slimani e Gutiérrez – mas este é um Sporting diferente, logo à partida por não ter a capacidade de luta do argelino, que era ao mesmo tempo primeiro atacante e primeiro defesa. Os dois clássicos desta época tiveram de início Bruno César e Bryan Ruiz a alternar entre a esquerda e o centro e deverá ser assim também no Dragão, onde lá mais para a frente Jesus pode recorrer a Geraldes e Podence, os dois moreirenses que tão moralizados ali chegam.
2017-02-03
LER MAIS