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Último Passe

A derrota contra o Napoli, mas sobretudo a forma como os italianos foram tantas vezes capazes de expor as debilidades que a equipa do Benfica ainda revela serão as duas maiores preocupações na cabeça de Rui Vitória na noite em que, mesmo perdendo, celebrou um justo segundo apuramento consecutivo para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões. A Europa, porém, pode esperar, porque o que aí vem é o escaldante dérbi com o Sporting, onde o tricampeão nacional põe em risco a liderança na Liga. E aí os problemas de hoje até podem voltar para assombrar o treinador. Porque mesmo que Jesus os não conhecesse, teria tido a oportunidade de os ver. O facto de vir de duas derrotas seguidas (contra o Marítimo e o Napoli) tanto pode provocar no Benfica um sentimento de insegurança como a vontade urgente de superação. A verdade é que as duas derrotas acabam por ser muito diferentes. Mais devida a falta de concentração, alguma sobranceria e até uma boa dose de passividade própria de quem acha que tudo se resolverá a encaixada na Madeira; mais natural e saída das próprias debilidades a que o Napoli impôs na Luz. Mesmo quando ainda estava espacialmente concentrada nos 25/30 metros da sua organização defensiva, quando o ritmo de reação à perda ditado por Gonçalo Guedes ainda imperava no campo, o Benfica viu os italianos serem capazes de o desequilibrar sempre da mesma forma: com passes diagonais a explorar as costas dos seus laterais. Não é um problema nascido da falta de Grimaldo, porque não foi só André Almeida a comprometer: Nelson Semedo também foi réu neste particular, mais nascido da projeção ofensiva natural dos dois laterais e da falta de capacidade defensiva demonstrada quando o adversário ultrapassa a feroz primeira linha de pressão encarnada. Fejsa, sozinho, nem sempre consegue disfarçar. Pior, porém, aconteceria quando, seguro face à goleada que o Besiktas já embrulhava em Kiev, Rui Vitória abdicou de Gonçalo Guedes – poupança para domingo? – e o Napoli trocou o corpulento Gabbiadini pelo repentista Mertens. Tal como em Istambul, após a perda da capacidade defensiva de Guedes, o Benfica sofreu dois golos quase seguidos. E se isso pode ser resolúvel, outras questões podem implicar a necessidade de uma decisão. Os problemas de concentração de Lindelof – eventualmente originados pelas vozes de mercado – estiveram na origem do primeiro golo italiano, enquanto que as dificuldades de Luisão face a avançados rápidos a mudar de direção se somaram à falta de solidariedade defensiva dos extremos (no caso Salvio) para gerar o segundo. Não são questões fáceis de resolver – a projeção ofensiva de laterais e extremos é preciosa para a máquina atacante que este Benfica também é – mas esperará Rui Vitória que sejam irrelevantes no domingo. O problema é que Jorge Jesus até já tinha dito que só estava 90% focado no jogo de Varsóvia e os 10% restantes já estarão a pensar na forma de as explorar.
2016-12-06
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Último Passe

Os dérbis entre Benfica e Sporting sempre foram um jogo à parte na história do futebol português, mas nunca terão sido marcados por tantos “mind games” como na época passada, fruto da passagem de Jorge Jesus de um para o outro lado da Segunda Circular. Dos quatro desafios entre ambos que se jogaram em 2015/16, só o último não ficou marcado por trocas de galhardetes verbais – o que de certa forma vem contrariar a ideia segundo a qual os leões perderam o campeonato por causa da estratégia de polémica constante a envolver os rivais, pois esse foi o único dos quatro jogos que não ganharam. Esta época, porém, tudo parece mais morno. Ainda que o último fim-de-semana já tenha representado um ligeiro aquecer de reatores, a que a semana de Liga dos Campeões pode ou não dar o devido empurrão. A época passada começou com Jorge Jesus ao ataque e Rui Vitória muito mais recatado. Por uma questão de personalidade – mais confrontacional a do atual treinador leonino, muito mais professoral a do técnico benfiquista. Os resultados favoráveis ao Sporting (1-0 na Supertaça, 3-0 na Luz para a Liga e 2-1 em Alvalade para a Taça de Portugal) ainda levaram a um extremar de posições por parte de Jesus, cujo ego, já se sabe, supera em muito o muito que já é capaz de fazer à frente de uma equipa. Passou-se do “eles perderam o cérebro” ao “pu-lo deste tamanhinho” e ao “nem o vejo como treinador”. Ao mesmo tempo, estas constantes provocações levaram ainda a uma tentativa certamente ensaiada mas nunca bem conseguida de resposta por parte de Vitória, que definitivamente não está na sua praia quando se trata de confronto. Não quero aqui fazer juízos morais acerca de um e de outro. Acho mesmo que, dentro de determinados limites, estas provocações animam as bancadas, levam os adeptos a sair de casa e a defender as suas cores com outra paixão. Até porque, no final, elas não foram decisivas: o que ganha os jogos são as bolas na baliza. O que diz a teoria é que Jesus ganhará sempre no bate-boca, mas que terá perdido no campo porque as constantes provocações terão levado a uma muito maior união num adversário que nunca se importou de perder nos soundbytes desde que ganhasse nos relvados. A teoria, porém, também não tem necessariamente de estar certa. Porque da única vez que manteve o recato face ao adversário, Jesus perdeu o jogo (1-0 em Alvalade, para a Liga) e o próprio campeonato. A questão aqui é a de perceber porque esteve Jesus mais calado antes do quarto dérbi. Por falta de assunto, esgotados os temas de provocação? É possível. Por ter empatado em Guimarães na semana anterior, ter visto a vantagem diminuir e passar a correr ali o risco de ver o rival ultrapassá-lo na tabela (tal como pode acontecer agora ao Benfica de Rui Vitória)? É mais provável. Por entender que, já há oito meses na Luz, os jogadores rivais já não podiam ver as suas convicções acerca do velho e do novo mestre abaladas por declarações do primeiro? É ainda mais provável. O que transporta os “mind games” de Jesus para uma dimensão completamente diferente, da mera fanfarronice para a estratégia. Pode ser por isso, aliás, que o aquecimento para o Benfica-Sporting de domingo tem sido tão lento e que talvez até possamos assistir a um cumprimento cordial entre os dois técnicos antes e no final da partida que definirá quem fica na frente do campeonato. Para gáudio de todos os que defendem um desporto assético e impoluto, sem tricas nem ofensas. Não tenho, ainda assim, a certeza de que tal venha a acontecer. Porque apesar dos mornos dias anteriores, houve ali, de parte a parte, sinais de que há alguma vontade de condicionar na sala de imprensa o que vai passar-se no relvado. Começou Rui Vitória, ainda antes da deslocação ao Funchal, quando aproveitou uma pergunta da BTV acerca do departamento médico – dando-se até ao trabalho de mostrar alguma surpresa por essa pergunta ter sido feita – para vir defender os médicos postos em causa e para deixar no ar um nada enigmático “eu não ando nisto há dois dias”. Tradução: alguém anda a pôr na rua notícias acerca do nosso descontentamento com o departamento médico e não somos nós mas sim quem nos quer mal. Continuou Jorge Jesus, quando após a vitória por 2-0 frente ao V. Setúbal aproveitou para vir queixar-se da arbitragem, que anulou dois golos aos leões – quando nem nas derrotas é hábito vê-lo pôr em causa os árbitros. Tradução: já fomos prejudicados hoje, portanto não se atrevam a apitar de modo a que não gostemos no jogo da Luz. Os sinais estão lá. Os vulcões estão ativos, apenas à espera de um sinal para poderem entrar em erupção. E a semana europeia pode bem provocar ali alguma coisa. Antes de um jogo em que pode acabar de deitar ao lixo uma vantagem que já foi de sete pontos, o Benfica recebe o Napoli – que também precisa de pontuar – num jogo que, faça o Besiktas o seu papel em Kiev, pode ser de mata-mata. Um dia depois, o momento leonino pode ser afetado ou confirmado em Varsóvia – e francamente nem sei o que pode ativar mais Jesus, se a euforia ou a depressão – num jogo que pode mandar o Sporting para a Liga Europa ou deixá-lo sem provas europeias até final da temporada. Lá para o final da semana fazemos contas.
2016-12-05
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Último Passe

O FC Porto podia até nem ter ganho ao Sp. Braga, tão tarde apareceu o golo salvador de Rui Pedro, mas isso teria sido uma tremenda injustiça. Porque hoje, ao contrário do que tem vindo a acontecer em quase todos os jogos dos Dragões, só faltaria mesmo o marcador - e não era aquele que falhou a Nuno Espírito Santo em mais uma aula prática de educação visual, dada esta semana aos jornalistas. O FC Porto encostou à baliza a equipa que, antes do jogo, era terceira na Liga, e nem o facto de os minhotos terem ficado reduzidos a dez ainda na primeira parte serve de justificação para a tão grande diferença entre o futebol jogado pelos dois conjuntos. O que leva a questão da crise portista para outro patamar: se esta equipa sabe jogar, por que razão não o faz mais vezes e passou mais de oito horas de jogo sem fazer um golo, contra equipas bem mais fracas que Benfica e Sp. Braga, que lhe motivaram as últimas exibições de bom nível?À partida, ocorrem-me duas justificações. Uma é meramente futebolística e muito concreta. A outra entra na psicologia de balneário e tem o seu quê de adivinha. A mais concreta fala da ideia de jogo de Nuno Espírito Santo, uma ideia bem mais alicerçada nos momentos de transição do que nos momentos de organização. O FC Porto de Nuno é muito forte na reação à perda da bola - transição defensiva - e imediatamente após a recuperação da posse - transição ofensiva. Para que esta equipa possa exprimir-se na plenitude, é preciso que o adversário queira ter a bola. Ora a maior parte das equipas não é isso que pretendem, limitando-se a juntar as linhas à frente da sua área, abdicando de jogar e forçando os dragões a abusar do momento em que são menos fortes, que é a organização ofensiva.O grão de areia nesta explicação está no facto de o Sp. Braga também não ter tido qualquer interesse em jogar a partir do minuto em que ficou reduzido a dez, por expulsão de Artur Jorge. E mesmo assim o FC Porto jogou a bom nível. É verdade que havia Brahimi e Corona ao mesmo tempo ou que Layun dá mais qualidade no ataque do que Alex Teles, mas isso não me parece suficiente para explicar a diferença entre o FC Porto de qualidade que se viu frente a Benfica e Sp. Braga e a equipa apática e infeliz que se mostrou em Setúbal ou no Restelo. Aqui chegado, a melhor explicação que encontro tem a ver com a motivação do grupo. Que nos jogos com outros grandes aparece bem focado e nos restantes entra a achar que as coisas acabarão por se resolver mais cedo ou mais tarde. Isso só pode querer dizer que a mensagem não está a chegar devidamente ao balneário. E que a Nuno não basta substituir o marcador. Porque é improvável que lá chegue a fazer mais desenhos.
2016-12-03
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Último Passe

Dentro de todo o equilíbrio com que indiscutivelmente analisou a derrota do Benfica no Funchal, frente ao Marítimo, Rui Vitória disse não aceitar que alguém viesse considerar que os donos da casa tinham tido o domínio do jogo. “Não posso deixar que se diga que o Marítimo foi a melhor equipa”, sentenciou. São duas coisas diferentes, porém. Claro que o Marítimo não teve o domínio de jogo – nem o queria, de resto. Mas nunca devemos estar à espera que quem quer seja na nossa Liga precise ou procure esse domínio de jogo quando quer ganhar a um dos grandes do futebol português. Foi o caso hoje, num jogo cuja chave foi a troca da confiança pelo sentimento de fatalidade iminente que a sucessão de finais provocou nos encarnados. Usando a expressão também hoje elaborada por Nuno Espírito Santo, na antevisão do FC Porto-Sp. Braga, o Marítimo teve uma ideia para o jogo e defendeu-a como podia. A ideia não era atraente, não leva gente aos estádios, no final aproximou-se perigosamente do anti-jogo – como se aproximam todos os jogos em que os pequenos estão quase a bater o pé aos grandes, ainda que os adeptos achem que isso só acontece aos clubes deles – mas deu indiscutivelmente mais resultado do que a abordagem ingénua e passiva desta mesma equipa ao jogo na Luz, há dias, onde encaixou 6-0 do Benfica. Dir-me-ão que o ideal está no meio. Que bom era que os pequenos conseguissem sacar pontos aos grandes limitando-se a perder a passividade mas mantendo a positividade. E eu até concordo. Mas para tal precisaríamos de ter uma Liga mais equilibrada em todos os aspetos, a começar pelos meios disponíveis a todos. O Marítimo ganhou ao Benfica por várias razões, sendo que a estratégia de perda de tempo no final foi apenas uma delas. Antes disso houve uma entrada estrategicamente muito bem conseguida, reduzindo os espaços que os tricampeões nacionais costumam utilizar e criando até mais ocasiões de golo do que eles durante a primeira parte. Depois houve também o aproveitamento da pressão a que vem sendo repetidamente submetido um Benfica que salta de final em final a cada semana, seja na Liga ou na Europa. Se por um lado jogos houve já recentemente em que a equipa de Rui Vitória podia ter feito um resultado pior, tendo acabado por ganhá-los no detalhe, graças à confiança que se monta em cima da sucessão de bons resultados – aquilo a que genericamente se chama “estrelinha de campeão” mas que é muito mais do que isso – acaba por ser normal também que, confrontada com uma semana na qual não podia falhar, ela vacile e se deixe diminuir pelo mesmo sentimento de fatalidade iminente que afetou o Sporting de Jesus na Primavera passada. A diferença, aqui, vê-se no dia seguinte. Muito do que é feito este Benfica se verá já na terça-feira e no próximo fim-de-semana, contra Napoli e Sporting. Aumenta a pressão, aquece a Liga.    
2016-12-02
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Último Passe

Quando Rui Vitória afirma que o Benfica “funciona como um todo e não por departamentos” está a fazer o mesmo que o goleador que marca um “hat-trick” e vem a seguir dizer que não o conseguiria sem a ajuda dos companheiros ou o mesmo que o defesa-central que, após uma derrota pesada, se justifica dizendo que a missão de defender é de toda a equipa e não apenas da linha mais recuada. Isto é: pode até ter alguma razão, que as lesões não são só culpa dos médicos – mesmo daqueles médicos vistos na perspetiva mais alargada em que o futebol de hoje os transformou –, mas está sobretudo a querer ser politicamente correto e provocador ao mesmo tempo. O que não é nada fácil. O rendimento de uma equipa de futebol depende de muitos fatores. Da categoria dos seus jogadores, da qualidade do treino que fazem, da capacidade do treinador para os juntar e formar um coletivo forte, obedecendo a uma ideia de jogo coerente, da forma como o mesmo treinador desenha estratégias para os levar à vitória, mas também daquilo que a estrutura auxiliar faz para que os jogadores se sintam bem, focados naquilo que importa, da capacidade de resposta de massagistas ou médicos, da perspicácia dos scouts enviados a fazer relatórios acerca dos adversários, do apoio dos adeptos, do acerto das equipas de arbitragem, das condições meteorológicas… E podia ficar aqui até amanhã, nem que fosse para dizer o seguinte: dizer que dentro de uma equipa não há departamentos é errado. Claro que há. E que uns funcionam melhor do que outros. Em todas as equipas. O Benfica não é exceção. O que Rui Vitória pensou ao dizer aquilo foi que não vai entregar na praça pública quem quer que seja nesta cadeia que não estiver a funcionar da melhor maneira. Que tudo é analisado, que ele como chefe da equipa tem a missão de assegurar a melhor forma de funcionar e lidará internamente com o que estiver a funcionar pior. Por que não o disse assim? Porque assim não passava a mensagem que queria. Aquele “eu não ando aqui há dois dias” tinha múltiplos destinatários. Os seus jogadores, que podem até perder a crença no funcionamento no departamento médico e de planificação de treino, mas sobretudo os que estão fora do clube. Foi a forma que Rui Vitória encontrou para ser, ao mesmo tempo, politicamente correto e provocador. Porque com este alívio para a bancada, lançou no ar a suspeita de que as notícias segundo as quais Luís Filipe Vieira não estaria satisfeito com o departamento médico podiam ter sido plantadas com o intuito de desunir o Benfica. Se o foram ou não, não sei dizer. Mas sei que nada funcionaria tão bem como ter o próprio Luís Filipe Vieira a dizê-lo de viva voz e a reiterar a sua confiança nos contestados. Mesmo que isso fosse assim como ver Pinto da Costa renovar nesta altura contrato com Nuno Espírito Santo. E se não o fazem, um nem o outro, por alguma razão será.
2016-12-01
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As minhas reflexões sobre jornalismo são constantes, diárias, mesmo que muitas vezes as guarde só para mim. Sejam acerca do objetivo da profissão ou das suas permanentes mutações, não só relativas aos modos de funcionar como à rentabilização – porque se o jornalismo é grátis para o consumidor, continua a ter custos para quem o produz e esses custos têm de ser cobertos. Na semana passada, reagi com uma entrada a “pés juntos” à enxurrada de elogios que andava pelas redes sociais acerca de uma primeira página da “Marca”, onde aparecia Cristiano Ronaldo, mas o facto do CR7 aparecer equipado à Sporting fez com que a maior parte de vós quisesse discutir o clubismo em vez de debater o jornalismo. Vou, por isso, voltar a tentar hoje. A primeira página da “Marca” de hoje, feita à volta da tragédia que foi a queda do avião onde viajava a Chapecoense, é belíssima e sensibilizadora. Mas, mais uma vez, acho que está muito mais próxima das relações públicas do que do jornalismo. O facto de o dizer não quer dizer que esteja menos solidário com o drama de familiares e adeptos dos jogadores desaparecidos, mas o que a “Marca” fez, sendo um excelente outdoor, um cartaz de grande nível, não é a evolução do jornalismo. É evidente que o jornalismo tem de evoluir, mas não para se transformar em relações públicas, porque se assim for deixamos de ter dois nomes diferentes para duas funções que, sendo ambas nobres, são adversárias e não aliadas. Já diz a citação, que “jornalismo é aquilo que [os agentes] não querem ver publicado; o resto são relações públicas”. A “Marca” é o expoente máximo, julgo mesmo que a nível mundial, deste género de “jornalismo”. Para o explicar é preciso compreender a história do desporto espanhol, que estava pouco mais do que moribundo no início da década de 90 e soube aproveitar os programas de incentivo gerados por altura dos Jogos Olímpicos de Barcelona para se tornar uma das maiores potências mundiais. Não só em futebol como em muitos outros desportos coletivos e individuais. Seja no que for, há um espanhol no topo do Mundo. E a “Marca” viu ali a oportunidade de responder a uma das maiores preocupações de quem pensa jornalismo em todo o Mundo – a viabilização financeira da atividade. Os jornais têm de se vender, porque apesar de muitos de vós acharem que o jornalismo é gratuito (os cliques na internet não pagam taxa), as empresas de jornalismo continuam a ter de pagar salário aos profissionais que escrevem as notícias. E não, isto não é uma vergonha para a profissão – nenhuma atividade a que os consumidores de informação grátis na internet recorram abdica de se fazer pagar. Pagam pelas obras lá em casa, pelo café na pastelaria, pelo gasóleo para o carro… O que a “Marca” fez a partir do final da década de 90 – e que lhe permitiu ser o único jornal desportivo europeu a não perder vendas no trágico ano de 2002 – foi um produto que se foi aproximando mais das relações públicas, com a glorificação permanente dos seus campeões. Começaram a ver-se primeiras páginas laudatórias, apelando sobretudo ao sentimento dos potenciais consumidores, que gostam que lhes pintem uma realidade até por vezes excessiva. Foi esse o tipo de “jornalismo” exportado pelos tais consultores espanhóis que as principais empresas de media portuguesas chamaram para explicar o segredo do seu sucesso após as quebras de 2002 e 2003. E quando se abre a porta a esse tipo de “infotainement”, chega-se ao radicalismo que um deles uma vez expôs sem qualquer pudor. O problema é que o “há que ser mais fanático do que os adeptos mais fanáticos” que nos foi explicado por um ex-diretor do “As” não será nunca exportável para Portugal, porque as realidades são diferentes. E são diferentes em quê? Primeiro, o desporto português não tem sequer um décimo dos campeões do desporto espanhol. Eles têm o Fernando Alonso, nós temos o Pedro Lamy. Eles têm o Rafael Nadal, nós temos o João Sousa. E por aí a fora. Depois, porque se em Espanha o espectro de adeptos dos maiores clubes chega para alimentar diversos jornais que deles se aproximam, em Portugal somos menos e nenhum clube tem consumidores em número suficiente para manter vivo um jornal. E quando os jornais tentam, à vez, agradar a todas as cores, acabam por perder o respeito das cores adversárias. A este respeito, quando em 2007 estive em Espanha reunido com os cérebros da Unidad Editorial – dona da “Marca” e do “El Mundo” – para estudarmos a possibilidade de se lançar a “Marca” em Portugal, uma das primeiras perguntas que me fizeram foi: “E de que clube vamos ser?” Respondi que de nenhum, que íamos estar rigorosamente ao meio. O que me leva à segunda parte do raciocínio. Porque se a transformação do jornalismo em relações públicas pode até funcionar financeiramente em Espanha – mas não em Portugal – ela vem colocar questões que me parecem pertinentes também no plano deontológico. No meu percurso nos jornais desportivos, tive cinco diretores: João Marcelino, José Manuel Delgado, Alexandre Pais, Manuel Tavares e João Querido Manha. Uns eram pelo jornalismo de combate, outros pelo jornalismo de compromisso, outros ainda pelo jornalismo (sobretudo desportivo) enquanto entretenimento. Aprendi coisas com todos, mas continuei sempre a pensar pela minha cabeça. E sempre rejeitei a vertigem das boas notícias de que o jornalismo desportivo português está cheio: a ideia é sempre agradar ao potencial leitor, tocando-lhe no coração, que tanto pode ser o emblema do clube como, neste caso, o choque recente com a tragédia da Chapecoense. E isso, nalguma parte do caminho, sobrepôs-se à missão principal do jornalismo, que é e continuará a ser a de dar notícias, mesmo que elas sejam incómodas. É evidente que a manchete da “Marca” no dia do Sporting-Real Madrid tinha de ser o regresso de Cristiano Ronaldo a Alvalade: o que contestei foi que aquilo fosse apresentado assim, com foco apenas da beleza do cartaz em vez de ser, por exemplo, numa reportagem aos inícios de carreira do jogador. E se na altura falei em marketing – o que levou muita gente a achar erradamente que era marketing para promover Ronaldo – o que estava a dizer é que era marketing do jornal, às costas de Ronaldo, que serve para vender muita coisa… e também jornais. É evidente que a manchete de hoje da “Marca” ou de qualquer jornal desportivo tem de ser com a Chapecoense, mas em nome do jornalismo eu preferiria que ela fosse noticiosa em vez de parecer um cartão de solidariedade que se envia aos familiares das vítimas. Porque a solidariedade pode até vender mais, mas não é jornalismo – é relações públicas. PS – Muitas das reações ao que vou pensando sobre jornalismo remetem-me para exemplos concretos do que se faz em Portugal. Percebam por favor uma coisa: não vou estar aqui a fazer crítica de primeiras páginas dos jornais portugueses, não só por bons amigos em todos, mas sobretudo porque ninguém me nomeou provedor da imprensa desportiva nem eu me arrogo ao direito de o ser. E porque o facto de já ter passado – e ter sido afastado – da direção de dois dos três jornais poderia levar a que aquilo que penso fosse confundido com despeito. PS II – Quando comentei a primeira página da “Marca” com Cristiano Ronaldo vestido à Sporting, muitos criativos acharam que aquilo era contra o CR7 ou contra o Sporting. Não era. Reitero agora publicamente aquilo que disse nesse dia em mensagem privada aos que me ameaçaram fisicamente: fui ao jogo, da mesma forma que continuarei a ir a todos os estádios de cara destapada e cabeça erguida. Aos que quiseram discutir o tema de forma mais séria, digo que nada me move nem contra Ronaldo – com quem mantenho uma relação de respeito desde que em 2002 comecei a acompanhar a sua carreira – nem contra o Sporting – clube que trato da mesma forma que trato os outros, independentemente das simpatias que tenho ou que me tentam arranjar por esta ou aquela cor. Aliás, continuo convencido que o facto de diariamente virem aqui acusar-me de estar a favorecer Benfica, Sporting ou FC Porto é o maior ato de validação ao meu trabalho que pode haver.
2016-11-30
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Último Passe

Uma equipa que passa 430 minutos sem fazer um golo, como acontece atualmente com o FC Porto, pode queixar-se de muita coisa. Porque quem não marca um golo em mais de sete horas de futebol não tem apenas um problema de criatividade na organização do ataque, de ineficácia na finalização, de falta de qualidade de alguns elementos ou até de infelicidade face a algumas decisões. Tem esses problemas todos ao mesmo tempo. E no segundo 0-0 consecutivo contra o Belenenses de nada serviu a Nuno Espírito Santo recuperar Brahimi e Ruben Neves, cuja presença até vinha sendo reclamada há algum tempo, porque lhes faltou o contexto. Além de ser uma equipa mal trabalhada do ponto de vista do ataque organizado, a este FC Porto já lhe falta confiança em cada movimento, nota-se-lhe a indisponibilidade para assumir o risco de muitos jogadores, que com medo de falhar preferem jogar seguro a procurar o desequilíbrio – e nesse particular Brahimi até foi dos poucos que chamou a si as decisões de risco, acabando até por meter alguns bons cruzamentos na área. A questão é que essa predisposição para o risco também não é ajudada pela presença em campo de jogadores que estão num patamar claramente inferior de qualidade. E aqui, falo por exemplo de Depoitre. Porque quanto mais vejo jogar este lento e complicativo avançado belga mais me confunde que, mesmo com toda a sua altura, possa ser ele o reforço de ataque para uma equipa que quer ganhar a Liga e chegar longe na Champions. Não me recordo de um FC Porto com um avançado tão fraco desde que Tomislav Ivic “inventou” o comprido Vinha para a frente quando queria desbloquear jogos. E Vinha até chegou a fazer alguns golos, como os fará inevitavelmente Depoitre se continuar a jogar. Mas não resolveu, como não resolverá Depoitre, por mais que o treinador o faça jogar. O empate, mais um a chamar lenços brancos às bancadas onde estão adeptos portistas, pode até deixar Nuno Espírito Santo com vontade de acordar cedo para continuar a trabalhar amanhã, mas diminui-lhe ainda mais a margem de manobra e pode deixá-lo em breve sem razões profissionais para se levantar da cama. Contra o Sp. Braga e o Leicester, os adversários que aí vêm, só duas vitórias interessam, porque só ganhando aos minhotos os dragões regressam ao Top 3 da Liga e só batendo o segundo terão a certeza de seguir para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões sem depender do resultado entre Copenhaga e Brugges. E para isso são precisos golos.
2016-11-29
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Ainda sou do tempo em que havia quem tentasse aplicar ao futebol regras do direito comum do trabalho, advogando que para se libertar de um contrato, rescindindo-o, a um jogador bastaria pagar ao clube a que estava ligado o valor correspondente aos salários que ainda teria a receber. Não era assim, não viria a ser assim, porque o futebol obteve neste particular o direito a uma especificidade que tem a ver com os milhões pelos quais são transacionados os passes dos jogadores e até com os salários muito acima da média que alguns destes recebem. E aí nasceram as cláusulas de rescisão. Que não servem para definir quanto vale um jogador nem muito menos para se fazer um campeonato, ao contrário do que acham os adeptos mais fervorosos e aqueles que se entretêm a alegrar-lhes os dias. Quando um clube contrata um jogador, é porque acredita nele e quer contar com ele até o ver corresponder em campo, até o ver pagar com rendimento desportivo o que nele foi investido. A dada altura, passou a ser habitual que se lhe fixasse uma cláusula de rescisão, que entra num contrato como parâmetro negocial ao nível dos anos de duração, do salário ou do prémio de assinatura. Às vezes há coisas exageradas, como as cláusulas de dezenas de milhões de euros que o Sporting fixou para alguns jogadores da formação que andavam na equipa B ou os 80 milhões em que parece ir ficar a cláusula de rescisão de Nelson Semedo com o Benfica. São casos diferentes – o Sporting blindava os miúdos por ainda não saber se ali ia aparecer um novo Ronaldo, o Benfica blinda Semedo por estar a vê-lo crescer na equipa principal – mas têm em comum uma coisa: ambos os clubes ficaram aquelas cláusulas porque puderam fazê-lo, porque no ato de assinatura dos contratos os jogadores e os seus agentes concordaram com isso. Nunca os clubes insinuaram sequer que aqueles jogadores valiam aquele dinheiro: queriam apenas assegurar que se um dia viessem a valer algo próximo daquilo não podiam fugir a não ser por aquele valor. Cissé não valia 60 milhões de euros, Semedo não vale 80 milhões e, mesmo que venha a assinar o novo contrato com a cláusula que o Sporting quer impor-lhe, Gelson não valerá ainda 100 milhões. O que vale então um jogador? Era costume dizer-se que valia aquilo que alguém se oferecesse para pagar por ele. É assim a lei do mercado. Se eu tenho um ativo – o passe de um jogador –, se me oferecem dez milhões por ele e se eu aceito, esse ativo valerá esses dez milhões. Só que, tal como em tudo na vida, o mercado de futebolistas mudou muito com as intervenções dos mega-agentes e dos fundos de investimento. Não é sequer uma questão exclusiva do futebol. Todas as áreas onde há mega-investimento para criação de mais-valias acolhem este tipo de especulação. Seja o imobiliário, a bolsa de valores ou até o trading em apostas desportivas. Aquilo que mais influencia os mercados hoje em dia não é a qualidade dos jogadores, mas sim o dinheiro dos investidores. Os principais fatores determinantes nos valores das transferências dos jogadores não são a vontade dos clubes vendedores ou compradores ou a qualidade dos futebolistas mas sim a determinação estratégica de grandes grupos financeiros que entraram no futebol. São estes que, de acordo com o caminho que querem dar ao negócio, decidem se é altura de fazer dumping e vender abaixo do preço justo ou se, usando as influências que têm em clubes de vários países e dimensões, o que lhes convém é subir os preços numa espécie futebolística de cartelização. Exemplos disto são as chegadas a Portugal de jogadores como Elias (da primeira vez que veio para o Sporting), Jiménez ou Imbula, mas também saídas como as de Rodrigo para o Valência ou do mesmo Imbula, que fracassou e mesmo assim se valorizou. É por isso, sobretudo, que cada vez fazem menos sentido estes campeonatos da venda de jogadores que só os tais adeptos mais fervorosos vão alimentando. Nem as mais-valias são assim tão grandes, porque para vender caro é preciso comprar caro e manter a roda a girar um nível mais abaixo, nem o objetivo principal dos clubes é vender jogadores. É ganhar campeonatos, daqueles a sério, em que se somam pontos.
2016-11-28
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Último Passe

Toda a gente que viu o Benfica ganhar ao Moreirense enaltecerá a prestação de Pizzi, autor dos primeiros dois golos dos encarnados. Mas para se perceber como é que um homem que joga como segundo médio consegue ser um dos melhores marcadores da equipa de Rui Vitória é preciso colocar os olhos mais à frente, na mobilidade de Raul Jiménez e Gonçalo Guedes. Sobretudo do primeiro, que foi a novidade apresentada hoje pelo treinador encarnado. É que a relação de Pizzi com o golo cresce exponencialmente com o mexicano em campo. Pizzi tomou parte em 19 partidas do Benfica nesta temporada, entre Supertaça, Liga, Liga dos Campeões e Taça de Portugal. Nelas, contabiliza 1603 minutos em campo e sete golos marcados. Mas comecemos então a detalhar as coisas. Destes 1603 minutos, 1071 foram com Mitroglou na frente e apenas 284 com Jiménez (há ainda a registar 23 minutos com os dois avançados em simultâneo e 225 sem nenhum deles). Ora a questão é que com Mitroglou à sua frente Pizzi fez três golos (um a cada 357 minutos), tendo marcado os outros quatro com Jiménez (um a cada 71 minutos). Os números explicam aquilo que os olhos vêem. Isto é, que Jiménez é um ponta-de-lança muito mais móvel, que sai mais da zona de finalização, dessa forma permitindo a entrada dos médios até junto do golo. Foi o que aconteceu no lance do primeiro golo do Benfica hoje, por exemplo, uma jogada que nasce em Jiménez na esquerda e acaba com remate de Pizzi na cara do guarda-redes. Mais a mais depois da quase crucificação de Mitroglou pela ocasião falhada em Istambul, que podia ter dado ao Benfica o 4-1, seria demasiado fácil concluir desde já que os encarnados deviam jogar com o mexicano em vez do grego. Mas não. O que estes números mostram não é que seja melhor para o Benfica jogar com Jiménez. Mostram, sim, que a entrada do mexicano muda a forma de atuar de Pizzi, que lhe pede outras responsabilidades, e que o transmontano, sendo um jogador inteligente, não lhes foge como podia fazer. E mostram ainda que o Benfica tem mais de um método para chegar ao golo, o que, mesmo tendo em conta a predileção encarnada pelas conclusões em transição e ataque rápido, acaba por ser um ponto a favor do trabalho de Rui Vitória.
2016-11-27
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Último Passe

Os 340 minutos de futebol que o FC Porto leva sem marcar golos desde que Diogo Jota faz o 1-0 frente ao Benfica, no Dragão, há três semanas, chegam para justificar o ar resignado com que Nuno Espírito Santo se apresentou hoje na sala de imprensa do Restelo, após o empate com o Belenenses. O resultado foi mau, porque deixa os dragões dois pontos atrás do Sporting e pode levar ao aumento da desvantagem face ao Benfica para sete pontos já no domingo. E foi flagrante a diferença no olhar do treinador face à chispa confiante que se lhe tinha visto, por exemplo, após a vitória por 3-0 sobre o Arouca, enquanto desenhava para a plateia de jornalistas os pilares em que queria ver a sua equipa assentar o jogo. Hoje não faltou comunicação, compromisso ou cooperação. O que mais faltou foi qualidade. O que mudou desde esse jogo com o Arouca? Ou desde a muito boa exibição contra o Benfica, há três semanas, onde a qualidade ficou à vista de todos? Estas são perguntas com respostas diferentes. As diferenças entre o FC Porto de todos os dias e o FC Porto que encostou o Benfica atrás têm a ver com fatores tão díspares como a motivação dos jogadores para um clássico ou um maior investimento do treinador no delinear da estratégia. O jogo com o Benfica, com variantes interessantes, como a derivação de Oliver para a meia-esquerda, onde com Alex Telles e Otávio foi capaz de tapar a saída a Nelson Semedo e desequilibrar o Benfica, teve dedo de treinador. Tanto na forma como o FC Porto subjugou o tricampeão nacional como mais tarde na forma como lhe permitiu vir à procura do empate, quando tirou do campo quem tinha capacidade para ter a bola. O jogo com o Arouca foi diferente: o FC Porto fez uma muito boa exibição sobretudo porque aquele que é o ponto fulcral do “jogar à NES” – a reação forte à perda da bola – chegou para quase impedir o opositor de sair dos últimos 30 metros. Começando muitas vezes a atacar ali à frente, asfixiou o adversário, dando o mote para justificar uma ideia recorrente acerca deste FC Porto: bom não é ter a bola; bom é que o adversário a tenha, para poder recuperá-la em condições de o surpreender na transição ofensiva. O problema coloca-se quando a frescura física e mental dos jogadores envolvidos nessa pressão não é a ideal ou quando o adversário tem mais categoria e consegue sair da teia, como fez o Belenenses hoje. Aí, o jogo é transportado para outro segmento: o da qualidade. E aqui, o FC Porto não tem conseguido fazer a diferença com os onze que entram nem com as alternativas. Ainda hoje se viu: Depoitre por Jota, para dar peso na áera e tentar superar as condições meteorológicas adversas com um jogo mais direto; André André por Oliver, talvez para ganhar intensidade de pressão, mas seguramente não capacidade para desequilibrar; e Varela por Otávio, quem sabe se para ganhar largura e um jogo mais retilíneo, ainda que com a consequência natural de, sem Oliver e Otávio, a equipa sentir ainda mais a falta de um médio que lhe dê qualidade em ataque posicional, como seria por exemplo Ruben Neves. A verdade é que nenhuma resultou e que o olhar pesado de Nuno Espírito Santo não faz prever que ele venha a ser agora tão claro como foi na semana passada, quando disse que a falta de golos ia deixar de ser assunto.
2016-11-26
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Último Passe

O empate do Sp. Braga na Bélgica, arriscando vir a fazer depender a continuidade na Liga Europa do resultado frente ao poderoso Shakthar Donetsk de Paulo Fonseca, na última jornada da fase de grupos da prova, não pode ser visto apenas à luz das declarações do diretor financeiro do Benfica, Domingos Soares Oliveira, que veio protestar contra os prémios insignificantes da competição quando comparada com a Liga dos Campeões. Disse Soares Oliveira que o dinheiro que se ganha na Liga Europa é tão pouco que nem os clubes portugueses a levam a sério. Mas nem todos podem pensar assim. Aliás, nem o Benfica devia pensar assim. A razão do dirigente benfiquista parece estar bem à vista, por exemplo, na carreira do Inter Milão, ontem matematicamente afastado dos 1/16 de final da segunda competição da UEFA depois de somar frente aos israelitas do Hapoel Beer Sheva a quarta derrota em cinco partidas, num jogo em que Stefano Pioli trocou cinco jogadores relativamente ao onze que empatou no fim-de-semana com o Milan. Para o Inter, a Liga Europa vale pouco mais de zero, porque o prize-money que ali pode alcançar não faz nenhuma diferença no orçamento da sociedade. Soares Oliveira assenta ainda o que diz na experiência do próprio clube português, que com Jorge Jesus chegou a duas finais da Liga Europa, depois de fracassar na Champions, mas colocando sempre a Liga interna à frente e poupando jogadores até à fase decisiva da competição internacional. Aliás, o próprio Jesus parece ainda pensar assim, não tivesse ele repetido depois da derrota com o Real Madrid que o Sporting tem de se afirmar primeiro em Portugal, para depois poder andar na Europa. Os prémios monetários que a UEFA paga pela progressão na Liga Europa são, na verdade, escandalosamente mais baixos do que na Champions. Nisso, Soares Oliveira tem razão. Se conseguir o segundo lugar no grupo, o Sp. Braga irá ainda buscar um valor na ordem do milhão de euros (um pouco mais se o fizer ganhando ao Shakthar, um pouco menos se se apurar empatando ou até perdendo o último jogo). Depois disso, cada eliminatória vai valendo mais à medida que a prova se aproxima do fim: 750 mil euros por chegar aos oitavos-de-final, um milhão para atingir os quartos, 1,6 milhões pelas meias-finais, mais 3,5 milhões se for finalista vencido ou 6,5 milhões se ganhar a decisão. Para uma equipa como o Sp. Braga, atenção, esses valores já fazem diferença. Aliás, já a fizeram para o Benfica nos anos em que chegou às finais. E não apenas pelo que pesaram na realização orçamental. É que a partir de certa altura os jogadores ganham visibilidade e tornam-se alvos mais apetecíveis no mercado, o que não é despiciendo para clubes de um país periférico e sempre a precisar de realizar mais-valias com transferências, como são os portugueses. E, mesmo que o Benfica tenha esse problema resolvido através da parceria que estabeleceu com Jorge Mendes, até à recente alteração das regras de escalonamento das equipas para o sorteio, privilegiando os campeões dos países mais bem colocados no ranking da UEFA, foi em grande parte aos pontos que foi somando na Liga Europa que os encarnados ficaram a dever as suas sucessivas colocações no Pote 1 da Champions e os grupos menos complicados que tiveram de enfrentar nesta competição. É também por isso que o apuramento para a fase seguinte da Liga Europa é tão importante para o Sp. Braga e até para o Sporting, que por ele vai lutar em Varsóvia, sendo um mal-menor para Benfica e FC Porto, que ainda podem continuar na Liga dos Campeões mas para quem a Liga Europa não pode ser uma hipótese desprezível. Por mais que os prémios não cheguem para virar a cabeça de quem faz as contas todos os semestres.
2016-11-24
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