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O arraso dado esta semana pelos clubes ingleses nos adversários que lhes apareceram pela frente na Liga dos Campeões dá que pensar, porque parece ser uma coisa que vai muito para lá da dimensão financeira. E até mesmo a total impossibilidade de determinar uma alteração no panorama global do futebol europeu, no sentido de tornar mais acessível o “Clube do Bolinha” que os mais ricos tornam a cada ano mais exclusivo, deveria levar-nos a questionar as razões profundas pelas quais Manchester City e Liverpool FC arrasaram FC Basileia e FC Porto e até o Tottenham pareceu forte demais para uma Juventus quase envergonhada do estatuto de “Velha Senhora” que ostenta. Sérgio Conceição colocou a questão orçamental na ordem do dia, mesmo que o tenha feito de um ponto de vista da negação. De qualquer modo, o treinador do FC Porto sabia perfeitamente que ao dizer que se não costumava levantar essa questão nos jogos de campeonato nacional não iria agora levantá-la na Champions, estava, no fundo, a levantá-la. Para o que desse e viesse. Na minha opinião, contudo, Conceição tinha razão: essa não é a questão fundamental. Até porque a realidade de mercado dos clubes ingleses é muito diferente da dos clubes portugueses: têm de gastar muito mais para contratarem os mesmos jogadores. E isso até nos leva a dizer que, jogador por jogador, os nossos são regra geral melhores e mais baratos. Se não serviu para mais nada, o último Europeu há-de ter servido pelo menos para isso. Bem mais importante é, na minha perspetiva, a questão do ambiente. Olhemos para os últimos 40 anos de futebol. Nos anos imediatamente antes de Heysel, os clubes ingleses dividiam a liderança do futebol europeu com os alemães e os italianos, surgindo os espanhóis e até um ou outro de um campeonato limítrofe dentro da equação. A realidade económica era irrelevante, porque havia limite de estrangeiros e o talento não circulava como hoje – o que valia era a qualidade do trabalho. E os treinadores britânicos, nessa altura, eram quem melhor trabalhava: eram requisitados por todo o mundo, mesmo se depois se lhes via aquela irredutibilidade idiota quando se tratava de mudar um plano em andamento. Dizia-me Bobby Robson, uns anos depois: “Mas se eu estava convencido de que aqueles eram os melhores onze, por que é que haveria de os alterar durante o jogo?” A morte lenta do futebol inglês começou em Heysel e no isolamento que se lhe seguiu. Quando voltaram, os clubes ingleses não ganhavam a ninguém. Tinham perdido o comboio. E levaram uma geração a reentrar na carruagem, porque o fizeram da forma ao mesmo tempo mais difícil e mais consolidada: a forma do negócio de base. Inglaterra mudou os estádios, erradicou vícios antigos que estavam na base de problemas como o “hooliganismo”, criou uma Premier League assente num modelo de negócio de sucesso, que anos depois passou a permitir aos seus clubes recrutar os melhores talentos, as maiores promessas e os melhores treinadores. O Manchester City que foi ganhar por 4-0 a Basileia tem a marca de Pep Guardiola, um espanhol que ganhou no FC Barcelona e no Bayern. O Tottenham que empatou em Itália com a Juventus tem a marca de Mauricio Pochettino, um argentino de quem se diz poder vir a ser solução para o Barça ou o PSG. O Liverpool que ganhou por 5-0 no Porto tem a marca de Jurgen Klopp, um alemão que deu dimensão ao Borussia Dortmund com um futebol sexy. Além destes, no topo da Premier League estão o Manchester United de José Mourinho (português), o Chelsea de António Conte (italiano) e o Arsenal de Arsène Wenger (francês). O primeiro inglês, o rude Sean Dyche, surge em sétimo lugar, com exatamente metade dos pontos do Manchester City (de 36 para 72) e funciona como metáfora perfeita para aquilo que estou a tentar provar. É que não é uma questão de estilo de jogo. Podemos encontrar pontos em comum entre o estilo de Guardiola e o de Wenger (o futebol de toque), entre estes e Klopp, depois entre Klopp, Pochettino e o jovem Mourinho (zonas de pressão e ritmo elevado) e, apesar das ofensas abundantes entre eles, entre o Mourinho de hoje e Conte (jogo mais feito de equilíbrios). É uma questão de lideranças e de qualidade de trabalho ao serviço de um negócio bem gerido. Se não podemos ter os números do futebol inglês, devemos ao menos esforçar-nos por ter o que só depende de nós. Porque o talento, até ser internacionalmente detetado, ainda dá muito jeito a quem o cultiva.
2018-02-17
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Há uma contradição insanável na argumentação dos que querem reduzir o contingente de equipas B autorizadas a participar na II Liga do futebol nacional ou até, mais radical, acabar com elas. Claro que é sempre possível encontrar formas de melhorar o enquadramento competitivo de todo o edifício do futebol nacional, mas de uma coisa tenho a certeza: a inclusão das equipas B na II Liga foi a melhor medida tomada no futebol em Portugal nos últimos dez anos. Tirá-las de lá pode satisfazer clientelas, mas nunca melhorará as coisas. Não é preciso ser um génio da estratégia para perceber que a razão fundamental pela qual os clubes querem reduzir a presença de equipas B ali tem a ver com a vontade de ter mais vagas para eles próprios. O que já de si é bizarro mas naturalmente aceitável, mesmo que seja muito contraproducente. Senão vejamos. O que se ganhou com a inclusão das equipas B na II Liga? Ganhou-se enquadramento competitivo imediato para os melhores jogadores saídos do escalão júnior, que assim podiam continuar a jogar, a ver a sua evolução devidamente acompanhada, em vez de andarem de empréstimo em empréstimo até ao momento em que se perdiam para o futebol num qualquer clube de Chipre ou da Bulgária. Se é de resultados que precisam, aqui vão eles. As equipas B tiveram entrada na II Liga em 2012. A seleção nacional de sub21, que falhara a qualificação para as duas edições anteriores do Europeu da categoria (2011 e 2009) e que não passara da primeira fase das duas que tinha sido disputadas antes dessas (2007 e 2006), ainda falhou a presença em 2013 (por causa de uma derrota na Rússia em Outubro de 2011), mas foi depois finalista vencida em 2015 e não perdeu um jogo competitivo entre Outubro de 2011 e Junho de 2017. Após a ausência na prova de 2009, a seleção nacional de sub20 vai com quatro Mundiais seguidos a superar a fase de grupos, tendo sido eliminada nos últimos dois (2017 e 2015) no desempate por penáltis, nos quartos-de-final. São resultados que vão muito para lá da qualidade de uma geração em particular e que, no limite, pela habituação que estes jogadores foram tendo às vitórias enquanto membros de seleção, pela forma adulta como puderam passar a encarar a competição desde o momento em que deixaram os juniores, estiveram na base do título europeu conquistado pela seleção principal em 2016. Estamos, portanto, insatisfeitos? Queremos acabar com isto para arranjar mais vagas na II Liga (na competição profissional, portanto) para clubes que não formam jogadores? Já nem vou ao ponto de me atrever a gritar que é um contrasenso dizermos que temos clubes a mais nas provas profissionais, que queremos reduzir os campeonatos para aumentar a competitividade (o que seria um erro, convenhamos), mas depois vamos a correr à procura de meter mais uns quantos. Ou, ainda pior, que temos de reduzir os empréstimos, porque é evidente que, desregulados, eles subvertem a verdade desportiva dos campeonatos, mas depois tiramos aos clubes que produzem jogadores a hipótese de manter os jovens jogadores em atividade. Isso é mais do que um erro. É uma idiotice de quem desistiu de atacar o verdadeiro problema, que – e já me cansei também de escrever sobre isto – passa por uma maior equidade na distribuição das receitas e, não menos importante, pelo controlo do que é feito com esse aumento de receitas que cada um passaria a receber. Sou mais do que sensível à argumentação dos clubes que se veem estafegados pelo poder dos grandes e acho que é fundamental encontrar ferramentas para limitar esse poder. Esta, no entanto, não é uma delas. Tratem lá mas é de centralizar os direitos televisivos, de distribuir melhor as receitas que o futebol gera, de obrigar os clubes que estão na competição profissional a ter uma equipa B (em vez de acabar com elas ou de as forçar a jogar um campeonato de sub23 em que os jovens jogadores não vão encontrar verdadeiros desafios e um panorama competitivo divergente do que têm nos juniores) e a seguir se verá o que fazer com a II Liga. Se acharem que há despesa a mais e receita a menos a esse nível, em vez das 20 equipas atuais até podem ser 32, divididas em duas zonas. Isso já é igual a litro. Mas não queiram acabar com a galinha dos ovos de ouro do futebol português só para aumentarem as chances de ter uma equipa no futebol profissional.
2018-02-11
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  Já todos ouvimos estes queixumes, sempre da boca de adeptos cuja equipa não ganha um jogo que era de ganhar. “O adversário chegou aqui e estacionou o autocarro à frente da sua baliza”, lamentam-se, sempre dispostos a encontrar as explicações para um resultado negativo naquilo que os outros fazem. E o pior é quando entram em comparações com aquilo que o mesmo adversário terá feito em jogos com os rivais: “quando foram jogar com o x, abriram-se todos”. Pois bem, esta é uma falsa questão. E a semana que passou encarregou-se de nos mostrar isso mesmo, bem como de desmistificar essa questão do jogar bem e do jogar mal. O que é, afinal, jogar bem? É o que faz o Rio Ave? É que durante todo o campeonato temos lido e ouvido elogios tantas vezes justificados ao futebol da equipa de Miguel Cardoso. O Rio Ave tem princípios muito sólidos, dos quais nunca abdica: constrói em posse desde trás, não vai na conversa do balão para a frente à espera de ganhar as segundas bolas com base na raça e na agressividade. Isso permite-lhe duas coisas. Em primeiro lugar, lances muito bem desenhados que são um primor para os sentidos. Foram do Rio Ave algumas das mais bonitas jogadas do campeonato, algumas das quais com golo no final. E em segundo lugar a construção de um modelo de jogo – que se treina, sim, mas que se aperfeiçoa sobretudo em competição – que lhe permite ser quase sempre melhor do que os adversários do seu campeonato. É por isso mesmo que os vila-condenses estão na posição em que estão na Liga, bem dentro das contas para um lugar europeu. E, no entanto, o Rio Ave trouxe duas goleadas dos dois últimos jogos. Levou 4-1 em Portimão a meio da semana e 5-1 na Luz ontem. O que quer isto dizer? Que jogar como joga este Rio Ave, afinal, é jogar mal? Não. Aliás, não quer dizer isso nem o seu contrário: por si só, esta vontade de sair a jogar desde trás também não é jogar bem. O que isto quer dizer é que esta construção de um modelo de jogo é importante na identidade de uma equipa mas não pode ser responsabilizada por haver melhores ou piores resultados. Esses dependem de muitas outras coisas. Da operacionalização desse modelo, da sua compatibilidade com as características dos jogadores de que se dispõe e, last but not least, daquilo que o adversário for capaz de fazer nos jogos. Os últimos dois jogos do Benfica explicam bem estes três parâmetros. Tal como fez o Rio Ave ontem, também o Belenenses, na segunda-feira, escolheu sair a jogar desde trás, optando por adiantar o seu bloco e dividir a posse de bola com o Benfica. Empatou, esteve até à beira de ganhar, porque sofreu um golo no último lance do desafio, mas no fim do jogo o seu treinador, Silas, veio apontar à equipa alguns erros na gestão da bola e dizer duas coisas: que sabia porque razão esses erros tinham sucedido e que daqui a algum tempo vamos deixar de os ver. Isto é: que o Belenenses ainda não teve o tempo necessário para operacionalizar o novo modelo. Esse não será, no entanto, o problema do Rio Ave, que já treina e joga assim desde o início da época. Aliás, já foi a jogar assim que o Rio Ave empatou em casa com o Benfica e lhe ganhou na Taça de Portugal, contribuindo para este fim de época tranquilo e repousado dos campeões nacionais. Será então uma questão mais ligada à compatibilidade dos jogadores com este tipo de futebol? Não creio. O Rio Ave tem homens para jogar assim: tem bons pés atrás, tem dois cérebros a funcionar em pleno no meio. Falhou, sim, nas bolas paradas, por exemplo (três dos cinco golos sofridos ontem na Luz nasceram em pontapés de canto). Mas isso não tem nada a ver com o facto de se apostar numa construção segura e enleante, que tem naturais reflexos na forma como a equipa tem de se desorganizar a atacar – quem dá um chutão na frente não tem de desenhar os triângulos que a progressão em passes sucessivos pressupõe e, por isso, estará sempre mais organizado no momento em que perde a bola. Daqui se percebe que se o Belenenses esteve à beira de ganhar ao Benfica e o Rio Ave saiu da Luz goleado, isso também terá tido a ver com o que o próprio Benfica fez num jogo – e com o que não fez no outro. Com a competência em particular dos jogadores num momento e a sua falta noutro. E isso, repito, não tem nada a ver com o facto de o adversário estacionar o autocarro à entrada da área ou de jogar à procura de ser construtivo. Não é o que gostam de ouvir os defensores das teorias da conspiração, mas esses também não são capazes de explicar por que razão se contradizem a cada jornada. E por que razão numa semana se queixam de um adversário que joga demasiado fechado para na outra elogiarem uma equipa que soube fechar-se bem para roubar pontos a um rival. Ou por que razão numa semana se queixam de uma equipa que se abriu toda e facilitou a goleada a um rival para na outra lamentarem que apareça uma outra atrevida e capaz de testar bem os seus defesas com sucessivos ataques cheios de intencionalidade. Isso são coisas que o futebol não explica.
2018-02-04
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A forma como Sérgio Conceição deixou o banco do FC Porto para assistir ao desempate do jogo com o Sporting no balneário foi desvalorizada face à comprovada irregularidade da presença de Nelson Pereira atrás da baliza onde foram marcados os penáltis, mas feitas as contas pode ser mais relevante. É que nem o facto de, ainda que de forma dúbia, Jorge Jesus ter chamado a si a autoria da ideia chega para transformar a irregularidade tão evidente como irrelevante em verdadeiro caso. Já a ida de Conceição para o balneário me parece uma situação em claro contra-ciclo com aquilo que é a liderança feita de empatia e sanguinidade que o treinador do FC Porto tem assumido até aqui e que tão bons resultados tem dado.A ser verdade que foi mesmo Jorge Jesus quem enviou o treinador de guarda-redes para trás da baliza, o que posso dizer é que me escapa em que é que a chico-espertice pode ter tido seja que influência for no desfecho do desempate. Ali, no meio de dezenas de foto-jornalistas e atrás dos placares publicitários, não acredito que Nelson pudesse sequer comunicar com Rui Patricio, quanto mais dar-lhe indicações acerca do lado preferido de cada batedor do FC Porto de forma a que ele o ouvisse ou aproveitasse. Não quero com isto esconder a irregularidade, que é clara e há-de ser objeto de multa ou até castigo, se é que a possibilidade está prevista nos regulamentos. Só que não me ocorre como é que ter ali Nelson pode ser uma forma de o treinador “fazer tudo para ganhar o jogo”, tal como Jesus atestou no final.Para ser honesto, também não creio que o FC Porto tenha perdido o desempate porque no momento da decisão Sérgio Conceição optou por recolher aos balneários em vez de ficar no banco, à distância de um grito de incentivo para os seus jogadores. Da mesma forma que não acredito que o Benfica tenha perdido a final da Taça dos Campeões Europeus de 1988, frente ao PSV Eindhiven, porque Toni virou as costas ao relvado no exato momento em que Veloso avançou para a marca dos 11 metros e acabou por permitir a defesa de Van Breukelen. O mais provável é mesmo que a maioria dos jogadores nem se tenha apercebido da ausência do seu líder. A questão que se coloca aqui é mais de compreensão, porque o recuo de Conceição é pouco ou nada condizente com a liderança tão presente e empática, tão à jovem Mourinho,  que o treinador portista tem assumido desde o início da temporada e que tão decisiva foi para transformar a equipa amorfa da época passada no coletivo ambicioso e ganhador que segue na frente da Liga.Na verdade, a questão de Sérgio Conceição não deve ser colocada na perspetiva do efeito que a sua atitude pode ter provocado na equipa, mas sim do que a causou. E aí não consigo encontrar uma explicação plausível. Queria ver melhor e o ecrã de televisão é a melhor forma de o fazer? Fraca explicação. É superstição? Estranho. Não me ocorre uma justificação melhor do que um acesso súbito de desânimo nascido de mais um clássico em que o FC Porto foi melhor mas não foi capaz de fazer golos – e já vão três no que se leva de temporada. E isso é aquilo de que o FC Porto menos precisa, porque muito do que esta equipa tem rendido tem a ver com a união e o entusiasmo que o treinador conseguiu incutir no grupo com a sua proximidade e o discurso motivacional de que a roda final é exemplo tão felizPS – A minha presença na RTP3 aos sábados à noite impede-me de me centrar devidamente na final da Taça da Liga, ontem disputada entre Vitória FC e Sporting. Há tempo e espaço ainda para três pensamentos rápidos, ainda assim. O primeiro para destacar o grande jogo feito por Gonçalo Paciência, imparável em lances de um para um, a mostrar um virtuosismo raramente visto num avançado da sua compleição física. O segundo para assinalar a clara superioridade da estratégia desenhada por José Couceiro face ao plano de jogo completamente falhado por Jorge Jesus, que abdicou das faixas laterais e apostou numa equipa sem velocidade nem intensidade durante toda a primeira parte, em claro sinal de menosprezo pelo adversário. Por fim, o terceiro para questionar o que pode ser a época do Sporting depois do ato falhado que foi a final de ontem: a um candidato ao título exige-se muito mais do que aquilo que os leões mostraram em Braga, com uma taça à mão de semear.
2018-01-27
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A forma como Fábio Coentrão descarregou a sua frustração no banco de suplentes do Estádio do Bonfim, depois de perceber que o Sporting ia ali deitar à rua dois pontos, com um golo sofrido em tempo de compensação, mostra acima de tudo uma coisa: o lateral vila-condense está habituado a ganhar e não a perder pontos desta forma. Pode até ser “feito de Sporting”, como disse no momento em que assinou pelo que sempre foi o seu clube do coração, mas não é daquela parte do ADN do Sporting que cresceu exponencialmente com a conquista de apenas dois títulos nacionais nos últimos 35 anos: a parte fatalista e muitas vezes até sobranceira que já esteve à mostra, por exemplo, há dois anos. Jorge Jesus já disse uma série de vezes que não compreende como perdeu esse campeonato de há dois anos, tendo feito 86 pontos. A resposta mordaz é sempre a mesma: porque o Benfica fez 88. Mas essa é a resposta para “memes” de Facebook. A razão mais profunda fala-nos de outras coisas, como a sobranceria, a falta daquilo a que, em tempos, Bobby Robson chamou “killing instinct” [instinto assassino]. Porque é disso que se fazem os campeões. Há dois anos, na jornada anterior à do desafio decisivo contra o Benfica, o Sporting foi a Guimarães com quatro pontos de avanço, teve ocasiões para ganhar, mas perdoou: empatou a zero. Ainda assim, jogou o dérbi, em casa, com um ponto de avanço. E voltou a perdoar, perdendo por 1-0. Tal como perdoou na sexta-feira em Setúbal, quando o adiamento da segunda parte do Estoril-FC Porto, mais a mais com os dragões em desvantagem, o deixou na frente da classificação. Era facilidade a mais. Tal como disse Sérgio Conceição depois do FC Porto-CD Tondela, há pressão que é boa: a pressão de ganhar para ficar à frente. Difícil é jogar sem ela, sem essa pressão. Há dois anos, depois de se te deixado ultrapassar pelo Benfica, em relação ao qual chegou a ter uma vantagem bastante confortável, o Sporting não voltou a perdoar. Ao contrário do que sucedera antes, já tinha pressão. Simplesmente, o Benfica também respondeu à pressão, ganhando os seus jogos e conduzindo o campeonato a uma longa corrida entre duas equipas que o acabaram com uma pontuação irreal: 88-86. Nessa altura, os jogadores do Benfica – que, continuo a achar, jogava menos do que o Sporting, nessa Liga – mostraram uma coisa: espírito de campeões. E como se tem esse espírito de campeão, esse instinto assassino? Ganhando, habituando-se sempre a ganhar. Parece a história do ovo e da galinha: não se ganha sem espírito de campeão e não se adquire espírito de campeão sem ganhar. Mas não é preciso sequer pensar muito para se perceber que nem os jogadores que compõem o atual plantel do Sporting nem o futebol do clube têm um passado recente de muitas vitórias. As exceções serão Coentrão e, até certo ponto, Mathieu. Os outros, mesmo que a política desportiva do clube tenha mudado com Bruno de Carvalho, podem mesmo ter desenvolvido um determinado nível de resignação próprio daqueles para quem não ganhar é o mais normal e, por isso, aceitável. Rui Patrício é um guarda-redes de classe Mundial, já é o segundo jogador que mais vezes representou o Sporting – e em breve será o primeiro – mas não sabe o que é ser campeão nacional. Como não o soube Figo, como o não souberam Ronaldo ou Nani. Como se muda isto? Com todos os defeitos que tem, sobretudo na comunicação obsessiva e muitas vezes incorreta acerca dos adversários, Bruno de Carvalho tem feito por isso. Passou a recusar a saída dos jogadores antes de atingirem um determinado nível de serviços prestados. Está a reforçar a equipa de uma forma massiva, apetrechando-a de soluções que, em termos futebolísticos, lhe adivinham melhorias. Se é uma aposta consciente ou uma fuga para a frente, capaz de levar o clube a grandes dificuldades, o futuro o dirá – e este texto nem é acerca disso. Mas tomara o Sporting que mais jogadores tivessem sentido os índices de revolta de Coentrão depois do empate em Setúbal, ainda que sem partir nada. E tomaram os sportinguistas que ser “feito de Sporting” fosse aquilo e não as promessas ene vezes repetidas de “levantar a cabeça” e esperar com resignação por dias melhores. 
2018-01-21
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A vitória em Braga, no jogo mais dominador que ali fez em anos, mostrou o Benfica que se esperava: um Benfica articulado e capaz de surgir à tona nos momentos importantes. Tem sido sempre assim nos últimos anos: inícios de campeonato não raras vezes débeis, mas finais de grande seriedade competitiva, a conduzirem a conquistas. E isso, por mais que tentem trazer essa questão para dentro do balneário, não tem a ver com nenhuma espécie de reação do grupo ao tema dos e-mails. Tem a ver com aquilo que estes jogadores têm dentro: qualidade e espírito de vencedores, que foram alimentando nos últimos anos. O que se viu em Braga foi um Benfica ao mesmo tempo confiante – o que é notável, dado o número de derrotas que já somou está época – e a começar a mostrar evidências de se sentir mais à vontade neste 4x3x3 que Rui Vitória adotou como antídoto para a crise de início de época. Foi um Benfica capaz de gerir os ritmos de jogo a seu bel-prazer, de impor um ritmo lento quando entrava em organização ofensiva, porque não era esse o momento de jogo que lhe interessava, mas também de fazer pressão na saída de bola do adversário, de cortar a ligação entre os centrais e os médios, levando a recuperações e a transições para ataques rápidos ou contra-ataques capazes de aproveitar os espaços deixados por um adversário que tentava sair a jogar. Esta foi a parte tática: definição correta da altura do bloco quando sem bola, boa articulação da movimentações dos extremos para dentro com a entrada dos dois médios interiores para fora ou até com a subida dos laterais quando em posse, a mostrar que o 4x3x3 está aprendido e que até o problema da utilização de Jonas sozinho na frente parece em vias de resolução. Depois houve uma parte técnica que tem a ver com a qualidade na definição dos jogadores do Benfica. Quando há um Jonas, um Salvio, um Cervi, um Krovinovic ou um Pizzi a definir, tudo fica mais fácil. E por fim há uma parte mental, a mais imprevisível e difícil de controlar, mas onde toda a gente gosta de influir, porque é aquela que faz ganhar e perder campeonatos entre equipas de valor aproximado. As últimas conferências de imprensa de Rui Vitória focaram varias vezes aquilo que o treinador chamou um “ataque ao Benfica”. Não se iludam: não são queixinhas. É a tentativa de trazer para dentro do balneário a união e a revolta que se viram em anos anteriores e que foi providencial, por exemplo, na conquista do campeonato de 2015/16. Há, contudo, uma grande diferença. É que em 2015/16 os jogadores reagiram sobretudo a uma tentativa de os apoucar, de insinuar que tudo o que tinham conquistado anteriormente tinha a ver com os méritos de quem os conduzia: Jorge Jesus. Desta vez, é verdade que também há quem afirme que tudo o que o Benfica ganhou nos últimos anos se deveu a fatores externos – neste caso os árbitros, condicionados por uma “teia de poder”. Há, contudo, uma grande diferença: os jogadores gostam de futebol, sabem de futebol, falam de futebol. Respeitam os treinadores, suportam os dirigentes. Tudo o que tenha a ver com o trabalho destes últimos passa-lhes completamente ao lado. Muito me espantaria que um grupo de jogadores se unisse em torno de acusações feitas a quem não dá um chuto numa bola, a quem não partilha com eles o espaço íntimo de um balneário. Para eles, os gabinetes são como Las Vegas: o que acontece lá, fica lá. Não foi nem será por aí, portanto. O Benfica está na luta pelo título – e a passagem por Braga voltou a ser decisiva para isso – porque tem equipa com qualidade para tal. E, em relação a FC Porto e Sporting tem neste momento uma desvantagem que, caso os adversários mantenham a cadência, será decisiva – os pontos – mas duas vantagens: um calendário mais desafogado, com apenas 16 jogos até final da época, e uma mentalidade coletiva vencedora, alimentada pelos títulos que estes jogadores têm ganho nos últimos anos.
2018-01-14
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Há toda uma desconstrução semântica a fazer na frase que Jorge Jesus mais vezes repetiu no final do dérbi de quarta-feira. “Não é preciso ir à China! Este resultado é pior para o Benfica do que para o Sporting”. Rui Vitória, depois, foi mais prudente. Primeiro porque à exceção do monte de avançados que manda para dentro do campo sempre que o resultado não lhe agrada, é sempre mais prudente, sobretudo no discurso. Depois porque quis ali invocar as energias positivas provocadas pela conjugação da superioridade mostrada pela sua equipa em campo com o golo tardio de Jonas, que só lhe valeu um empate. É que, como bem se percebe pela reação unida do FC Porto ao episódio de Santa Maria da Feira, há sempre algo de bom a retirar do que não correu bem, seja um resultado como o empate da Luz, uma classificação como o terceiro lugar do Benfica ou apenas um aspeto isolado de um jogo, como a expulsão de Felipe e a revolta com Fábio Veríssimo. O que quis dizer Jesus? Então entra na Luz a poder acabar com um rival para se centrar no outro, coloca-se em vantagem cedo, perde essa possibilidade ao 90º minuto, depois de um jogo em que o futebol da sua equipa foi pobre e apenas baseado na confiança que o treinador tem na capacidade da sua última linha defensiva e ainda assim saiu feliz e contente? Mais uma vez, no dérbi, Jesus quis ser igual a si mesmo, repetir as mesmas ideias. Esta é a forma mais comum de Jesus abordar clássicos. No Benfica, já perdeu campeonatos assim, como em 2013, o ano do famoso golo de Kelvin no Dragão – também aí tinha confiança de que com aquela última linha defensiva era difícil fazerem-lhe golos. Mas também já ganhou campeonatos assim, como em 2015, quando passou os clássicos fora de casa encostado à baliza de Artur, mas ganhou no Dragão com um bis de Lima e empatou em Alvalade, graças a um golo de Jardel nos últimos instantes da partida. Ainda assim, o que se viu na Luz não foi bonito nem deixa grandes razões para otimismo e sobranceria. Foi uma equipa que, mantendo os três pontos para o Benfica, perdeu dois para o FC Porto, cujo estádio ainda tem de visitar. Que ora baixava os demasiado os médios para dentro da área, ora os forçava a aproximar-se de Dost, tudo isto resultando sempre no aumento do espaço entre as linhas – seria diferente com Doumbia ou Podence, por exemplo, uma vez que o espaço nasce da relação da distância com a velocidade de reação. Mas Jesus quis sempre segurar, controlar, como se percebe pelas entradas de Bruno César e Bryan Ruiz. E, bem antes disso, o Benfica já tinha aproveitado o convite para tomar conta do jogo. Krovinovic, Grimaldo, Cervi, Salvio, até André Almeida tinham amplas avenidas a invadir à sua frente e nunca se fizeram rogados, fazendo crescer a equipa para a melhor exibição da época em desafios com adversários do seu campeonato. É verdade que Jesus teve razão na confiança que tinha na sua última linha, que é de facto fortíssima, mas também é verdade que, permitindo o empate, patrocinou a mais credível ameaça de recuperação que o Benfica já fez esta época. E foi a pensar nisso que Rui Vitória disse o que disse. Na verdade, não é preciso ir à China para perceber que ganhar é melhor do que empatar e que empatar é melhor do que perder. Mas nem tudo se esgota num resultado, sobretudo quando as distâncias não são assim tão categóricas. Vitória ainda tinha o apoio entusiástico dos adeptos à equipa a ressoar no peito quando se sentou na sala de imprensa e avançou: “veremos no fim a quem este ponto vai dar mais jeito”. O facto de já ter ganho ao Sporting uma Liga na qual chegou a ter sete pontos de atraso também lhe terá servido de empurrão para a sua própria dose de basófia controlada. Não foi uma declaração corajosa – no sentido do compromisso – como o famoso “Em condições normais vamos ser campeões e em condições anormais também vamos ser campeões” que Mourinho disse uma vez, em Fevereiro de 2003, no FC Porto, mas mesmo sem o murro na mesa que o “Special One” deu depois de falar tinha o mesmo objetivo: prolongar no balneário o efeito de uma boa exibição para que os jogadores possam responder às contrariedades nos tempos difíceis que se avizinham. Para quem foi melhor este resultado? Não me atrevo sequer a dizer que foi para o FC Porto, que assim ganhou pontos aos dois rivais, porque admito que Sérgio Conceição preferisse ter um Benfica a desistir da corrida para centrar atenções no Sporting. Lutar a três é sempre mais complicado do que fazê-lo a dois. Para o Benfica? Sim, se a equipa continuar a produzir como na quarta-feira. Para o Sporting? Sim, se a equipa recuperar o futebol conquistador que chegou a mostrar. As respostas começam já hoje.
2018-01-07
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Ontem de manhã, no carro, a caminho do mercado, ouvi parte da reposição de uma entrevista radiofónica [de Inês Meneses, na Radar] a Daniel Sampaio, em que o psiquiatra falava dos riscos de diabolização da internet na educação das crianças, da mesma forma como há uns anos se diabolizava a televisão. Não ouvi a entrevista até ao fim, mas como pai tenho opinião formada sobre o assunto. O que importa não é diabolizar, é ocupar. O que importa não é proibir, mas sim preencher. E o mais extraordinário é que isto é válido para a educação dos nossos filhos como é para as suspeitas de corrupção no futebol português: o que importa não é diabolizar o jogo online, não é proibi-lo ou limitá-lo à espécie de oligopólio que o explora, é compreendê-lo e regulá-lo de forma a que todos possam ganhar. Daniel Sampaio defendia uma coisa muito simples: que se fale com os adolescentes, que se reserve o tempo da família. Porque de nada serve proibir-lhes a internet e as redes sociais se depois os “abandonamos” para estarmos nós próprios… na internet. Também é assim com o jogo online, que nem é diabólico em si nem deixa de o ser para ser beato se for explorado pela Santa Casa da Misericórdia. Perante as suspeitas de viciação de resultados, que já tinham manchado jogos da II Liga e agora há quem estique até ao campeonato principal e até a jogos do topo da tabela, mais vale pensar da mesma forma: de nada serve proibir o jogo, porque ele encontrará sempre uma forma de aparecer à superfície, nem que seja clandestina; o que importa é perceber por que razão ele encontra campo fértil num campeonato que devia ser dos mais invulneráveis à viciação da Europa, por ser um dos mais fortes do continente. Estamos ou não estamos no top 10 dos campeonatos melhor posicionados no ranking? Porque, sim, as coisas estão ligadas. Quem me lê não sabe provavelmente quanto ganha em média um jogador de futebol de primeira ou, ainda pior, de segunda divisão em Portugal. Ou, mais grave, quando ganha – porque os meses para quem trabalha no futebol, além de serem dez e não 14, como na maioria dos empregados por conta de outrem, têm muitas vezes 60 ou 90 dias e tendem a atrasar-se mais à medida que as provas se aproximam do fim e os objetivos ficam mais distantes. Quem já andou pelos fóruns dedicados ao tema na internet sabe bem de onde apareciam mais resultados viciados há um par de anos. A Letónia era um maná. A segunda divisão da Geórgia um banquete. A Bulgária ou os campeonatos de reservas da Ucrânia um festim. E de repente aparece a II Liga portuguesa. E depois, pasme-se, até a primeira, que todos queríamos julgar acima de qualquer suspeita de um cancro que, acreditávamos, só atacava no terceiro mundo. A razão é muito simples e tem a ver com duas coisas. Primeiro, é evidente, desonestidade de quem compra e de quem se vende. Mas isso é da natureza humana: em todas as profissões haverá quem se venda desde que haja quem queira comprar. Jogadores, árbitros, médicos, jornalistas, caixas de banco ou de supermercado… São, felizmente, uma anomalia no sistema, porque a maioria de nós não está à venda. É, por isso, a segunda razão que importa entender: desadequação da receita real face à receita potencial. Um campeonato que gera um nível de interesse – e portanto de receita potencial – elevado, mas paga muito abaixo disso torna-se mais vulnerável à corrupção. No caso de Portugal, que é isso que me importa agora, é evidente que se reduz a permeabilidade à corrupção se se passar a premiar melhor a honestidade. Porque ninguém gosta de ganhar a perder se puder ganhar a ganhar. Tal como com os miúdos e a internet, a questão não passa por diabolizar ou proibir o jogo. Passa, isso sim, por enquadrá-lo e por permitir que as receitas que ele gera sirvam a todos e não apenas a uns quantos. Passa por uma série de medidas inteligentes não só na criação de receita – uma das fontes de receita dos clubes ingleses são as casas de apostas, por exemplo – como na sua posterior distribuição. Passa por uma reflexão que o poder político ainda não soube ou não quis fazer acerca da carga fiscal perfeitamente idiota que está a impor ao jogo online em Portugal, permitindo a criação de um “cartel” de casas autorizadas que, para serem viáveis, têm de mexer no bolso dos apostadores com odds surreais – e menos imposto sobre maior investimento seria bem melhor para todos, como já se provou por toda a Europa onde não são conhecidos casos de resultados combinados. Obrigaria os que estão praticamente sós no meio a enfrentar maior concorrência, mas seria melhor para os apostadores, para os clubes e para a administração fiscal. Por que não se faz, então? A alternativa é continuarmos a diabolizar a internet e a incentivar que os miúdos fiquem isolados no quarto, sem acesso ao mundo exterior e sem falarmos com eles – porque estamos no Facebook ou no Instagram ou no Twitter. E quando alguns deles acabarem por seguir maus caminhos, poderemos aparecer com um moralismo bacoco e dizer: “Estes tempos de hoje são terríveis”. A questão é que nós é que falhámos rotundamente na nossa missão de educadores ou reguladores.
2017-12-31
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Há meia dúzia de coisas acerca do momento do Benfica sobre as quais vale a pena refletir. Uma tem a ver com a forma como os benfiquistas que querem mudança reagem à situação atual, ao facto de a equipa de futebol estar já fora de todas as competições à exceção do campeonato. Outra diz respeito à avaliação dessa circunstância: isso é bom ou mau para a carreira do Benfica na Liga? Uma terceira prende-se, a nível estratégico, com os efeitos de um eventual mau ano naquilo que é e que pode vir a ser o clube nos tempos mais próximos. Outra ainda relaciona o clima geral do futebol nacional, dos emails ao “blitzkrieg” comunicacional, com o afastamento do Benfica das várias competições. Começo por uma constatação óbvia: o Benfica está a jogar menos do que na época passada. Tal como me pareceu que na época passada já jogou menos do que há duas épocas, mesmo tendo ganho a Liga com mais margem – por desistência alheia. Há aqui uma tendência, que uns relacionam com o envelhecimento de alguns jogadores, outros com o fracasso da substituição das estrelas vendidas para o estrangeiro e outros ainda, saudosos de Jorge Jesus, com a perda gradual de rotinas criadas pelo antigo treinador. Acho, francamente, que todos esses fatores influíram um pouco. Uns mais do que os outros, naturalmente. E que os efeitos da troca de treinador, que ajudaram a explicar o campeonato ganho em 2015/16, chegam até à guerra comunicacional em que se trava a atual Liga. Acredito que no que diz respeito a trabalho de campo, a treino de futebol, Jorge Jesus é o melhor treinador da Liga portuguesa. Da mesma forma que acredito que além dos três campeonatos ganhos no Benfica graças a essa virtude – e aos plantéis fantásticos que conseguiu reunir – podia bem ter somado pelo menos mais dois, que perdeu naquele que é o seu ponto mais fraco: a gestão de grupos e de expectativas. Falo do campeonato de 2012/13, ainda no Benfica, e do de 2015/16, já no Sporting, nos quais as suas equipas jogavam o melhor futebol. Para o caso em apreço, porém, em vez de pensarmos por que razão Jesus perdeu esses campeonatos, vale mais pensar nas razões que levaram Vítor Pereira (FC Porto) e Rui Vitória (Benfica) a ganhá-los. Acima de todas, uma: a união do grupo face a ataques externos. Aos benfiquistas que neste momento estão a perguntar por que razão isso não está agora a unir ainda mais o plantel do clube, a resposta é simples: porque neste momento não é o plantel que está a ser atacado. Vitória ainda terá tentado chamar a ofensa ao balneário, motivar alguma revolta, algum sentido de amor-próprio e orgulho, mas a diferença é que neste momento os tiros – ou ricochetes – não se dirigem aos jogadores nem ao seu líder. Dirigem-se aos diretores. A Paulo Gonçalves, João Gabriel, Domingos Soares Oliveira... Aos comunicadores. A Pedro Guerra, Rui Gomes da Silva... E ao estratega do plano comunicacional, Carlos Janela. Em suma, quem está debaixo de fogo é toda a guarda que serve de proteção ao presidente Luís Filipe Vieira. E com essa gente os jogadores não perdem um minuto de preocupação. Até se uniriam para defender o treinador de ataques externos, como o que foi feito por Jesus depois dos 3-0 na Luz, há dois anos – “podia pô-lo assim pequenino” – mas a diferença é que, desta vez, até os ataques ao treinador vêm mais de dentro do que de fora. Há mais descontentamento com Rui Vitória no seio dos benfiquistas do que gozo por parte dos rivais. Claro que se quisermos ser frios na análise, Rui Vitória não é hoje um treinador diferente do que era quando os benfiquistas, esses mesmos benfiquistas que agora o contestam, andavam com ele ao colo. Tinha as mesmas virtudes e os mesmos defeitos. Sendo que um desses defeitos pode ser confundido com uma virtude e dá pelo nome de “solidariedade institucional”. Porque se alguém no Benfica estava convencido de que se pode substituir sempre, em anos seguidos, os melhores de cada setor por miúdos da equipa B, que no Seixal se dá um pontapé numa pedra e sai um potencial Bola de Ouro, esse alguém não é seguramente Rui Vitória, que é quem mais conhece o que tem em mãos. Não estou convencido de que esta época tenha de acabar mal para o Benfica. Uma vitória no dia 3 de Janeiro sobre o Sporting relançaria a candidatura do Benfica ao penta e de Rui Vitória a um tricampeonato que ninguém consegue em nome pessoal em Portugal desde Jimmy Hagan, no início da década de 70. Como a época do Benfica se joga em grande parte nessa noite e nas deslocações a Moreira de Cónegos e a Braga, logo a seguir, não me parece que o afastamento das outras provas possa vir a ajudar seja no que for – ou que a presença de FC Porto e Sporting nas três taças os prejudique nesta questão particular. Uma coisa é certa. Corra como correr, ainda acho que se enganam os que veem no insucesso a chave da mudança, os benfiquistas que até tolerarão um ano sem ganhar nada se esse ano servir para mudar as coisas. É que me parece cada vez mais difícil que a culpa, neste caso, morra solteira. Ou que ninguém se lembre de comparar Ederson com Svilar (hoje, não é daqui a três anos, quando Mourinho trouxer a tal “mala grande” cheia de dinheiro para o levar), Nélson Semedo com Douglas, Lindelof com Lisandro e Mitroglou com Seferovic ou Gabigol. E é também por isso que continuo convencido de que, para não perder face, é muito mais fácil a Luís Filipe Vieira prescindir de Rui Vitória a ganhar do que na eventualidade de chegar ao fim do ano de mãos a abanar.  
2017-12-24
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Quando acabou a final do Campeonato da Europa, enquanto a equipa festejava, vivi um momento de torpor, como que para me habituar à ideia. Eles é que eram campeões, mas a maior parte já crescera a ver o Figo, o Rui Costa ou o Vítor Baía a baterem-se com os mais fortes. A falharem, sim, mas a baterem-se. E isso faz toda a diferença. Para eles, não vou dizer que a coisa fosse normal, porque ser campeão da Europa nunca é corriqueiro, mas era pelo menos uma versão incrementada do “another day at the office”, por isso mesmo a valer umas fotos no Instagram, uns pulos no autocarro da equipa e não se fala mais nisso. A mim, no entanto, a ideia de uma seleção de Portugal campeã da Europa ainda me provocava alguma confusão. Tive de me habituar à ideia antes do meu momento de regozijo nas redes sociais, no terminal do Charles de Gaulle: a primeira página do “L’Équipe” e os pés em cima do trólei, antes do regresso a casa, em direta, logo no primeiro avião da manhã seguinte. A ideia de um Portugal campeão não era fácil de assimilar. Cresci com a desilusão do falhanço do apuramento de 1980, depois de uma vitória em Viena, contra a Áustria de Krankl e Prohaska, nos ter deixado tão bem encaminhados que nem parecia verdade. Confirmei esse fatalismo lusitano em 1982, quando o Mundial era em Espanha, com mais seleções, e parecia feito para nós. E que difícil foi para mim perceber a derrota em Israel ou quão impotente me senti a ver a forma como os nossos craques eram atropelados pela Irlanda do Norte, em Belfast, no auge da questão Bobby Sands: ainda hoje o Windsor Park exerce em mim um fascínio muito particular à conta da atmosfera vivida nesse jogo, que a RTP trouxe até minha casa. É certo que depois subimos um patamar. Que os 5-0 de Moscovo, ante uma equipa da URSS cheia de Demianenkos sobre-humanos, foram cancelados pela conjugação feliz da arte de Chalana com a frieza de Jordão e a boa-vontade de um árbitro francês com apelido germânico – Georges Konrath – para nos levar ao Europeu de 1984. Mas até aí parecia que o objetivo final era convencer-nos da nossa pequenez com algum sadismo. Fomos ao Europeu para perder a meia-final com a França da forma mais incrível que podia ser imaginada: com dois golos sofridos nos últimos cinco minutos do prolongamento a anularem uma vantagem que tinha custado tanto a obter. Qualificámo-nos depois para o Mundial de 1986 de forma tão heróica que Estugarda mais parecia o estreito dos Dardanelos e a seleção de José Torres se assemelhava ao grupo dos 300 espartanos frente ao exército persa. Mas aquele tiro teleguiado de Carlos Manuel a entrar na baliza de Schumacher e a resistência da equipa toda à frente de Bento, a aliança com os postes, a negar sabe-se lá como o golo aos alemães, foram outra forma perversa do Mundo nos dizer que aquilo dos Mundiais não era para nós. Como se viu depois em Saltillo, na confusão que começara dois anos antes em França mas por lá se foi desenvolvendo e da qual ninguém saiu inocente. Nem jogadores, nem treinadores, nem dirigentes. Vivi depois, ainda como adepto, a bizarra seleção dos Seabrinhas, montada como se tivéssemos um campo de recrutamento tão vasto que pudéssemos dar-nos ao luxo dispensar os melhores. Comecei a trabalhar com as tentativas fracassadas de Juca levar a equipa ao Mundial de 1990 e de Artur Jorge repetir na seleção, em 1992, aquilo que conseguira no FC Porto, em 1987: o sucesso internacional. Falhou. Estive, por isso, na Suécia, a ver um Europeu sem Portugal, como fui depois aos Estados Unidos, em 1994, acompanhar mais um Mundial sem portugueses. Para os jornalistas, a vida ficava mais fácil. Nessa altura, o sucesso de Carlos Queiroz à frente das seleções jovens tinha desembocado na “porcaria” e esse anátema criado naquela noite de 1993 em Milão acompanhou toda uma geração: quando as coisas se decidiam, os portugueses perdiam, mas sempre por culpa alheia. Se não era a “porcaria” seria outra coisa qualquer fora do nosso controlo. Fomos a Inglaterra, em 1996, para aprender, mas falhámos a presença em 1998. Porquê? Por causa do excesso de rigor de outro árbitro francês, Marc Batta, que expulsou Rui Costa por demorar a sair do relvado, em Berlim, por alturas de uma substituição. Podíamos ter sido campeões em 2000, mas aí foi o penalti de Abel Xavier assinalado por um fiscal de linha eslovaco a enterrar a equipa na meia-final com a França de Zidane. O odioso convergiu em Igor Sramka – assim se chamava o homem do olho de falcão. Envergonhámo-nos em 2002, saindo logo à primeira fase de um Mundial que podíamos ter disputado até ao fim. Mas se fomos eliminados foi por causa da lesão que Figo contraíra no Real Madrid, e que o deixara a precisar de botas de tamanhos diferentes em cada pé, do clima de Macau ou da superstição, dos alhos no balneário, dos passeios na praia ou da recusa de António Oliveira passar para dentro de campo a informação de que, face ao que estava a suceder no outro jogo do grupo, o empate com a Coreia bastava às duas equipas e era altura de refrear os ímpetos. Perdemos a final de 2004 em casa, contra uma equipa antiga e ultrapassada como era aquela Grécia de Rehhagel – e nem nos demos ao trabalho de encontrar uma explicação, tão idiota tinha sido a derrota. Caímos na meia-final com a França em 2006, outra vez de penalti. Era sina. Em 2008 a culpa foi do Chelsea, que contratou Scolari antes do final do Europeu, e em 2010 de um golo que a Espanha nos meteu em fora-de-jogo, do isolamento em Magaliesburgo ou da inadequação das táticas defensivas do “Carlos” [Queiroz] às aspirações de um capitão [Ronaldo] que afinal não chegava para “encher a camisola”. Em 2012 foi a lotaria dos penaltis a ditar a derrota na meia-final com a Espanha e em 2014 o clima de Campinas – que se doze anos antes Macau era demasiado quente para se treinar, agora o interior paulista era excessivamente fresco e os alemães é que a sabiam toda e por isso foram treinar na Bahia, com calor e humidade máximos. As seleções de Portugal, já se vê, não estavam ali para ganhar. E nunca era por nada que fizessem de errado. Aliás, se pensarmos bem, já em 1966 só não fomos campeões do Mundo porque os ingleses trocaram o local da meia-final de Liverpool para Wembley e nos obrigaram a uma viagem-extra de comboio. E depois, durante duas décadas, não fomos a uma única fase final mas não foi porque nos faltassem os treinadores, os craques, a equipa ou a organização. Não. Era porque os outros eram fortes demais, porque o lote de apurados era demasiado pequeno ou porque não tínhamos peso nenhum na UEFA e na FIFA – uma obsessão dos adeptos nos tempos da FPF de Silva Resende e depois de João Rodrigues, os mesmos adeptos que agora acham que se temos peso nas instituições é porque andamos a fazer alguma coisa mal. Porque o normal, para nós, portugueses, é perdermos e queixarmo-nos de que nos maltratam. Não é ganharmos e vermos que nos respeitam. O Europeu de 2016 foi, por isso, uma coisa à qual foi difícil habituarmo-nos, porque aconteceu em contraciclo com toda a história do nosso futebol. Porque, por uma vez na vida, ganhámos – na verdade empatámos muitas vezes, mas até a empatar ganhámos. E por uma vez na vida, se se ouvia o país profundo, não éramos bons. Pelo contrário. Mais uma vez, a culpa – ou neste caso o mérito – não era da nossa equipa, dos nossos craques, dos nossos treinadores, da nossa organização… Não. Eram os outros que tinham azar, porque nós não jogávamos nada. Tivemos sorte na qualificação, sem adversários de jeito. Repetimos a sorte na primeira fase, onde o grupo também era muito fraco: Hungria e Áustria já não são o que eram e a Islândia, por amor de Deus, não é uma equipa de futebol. Esgotámos essa mesma sorte na final, naquela bola que Gignac mandou ao poste no último minuto do tempo regulamentar, sem a qual não haveria prolongamento nem golo de Éder. Porque a verdade é que nada mudou na forma de se ver futebol em Portugal, onde dois mais dois nunca são quatro: são sempre cinco, só que o árbitro rouba um. Claro que, mesmo não tendo mudado o país futebolístico, para se ganhar um Europeu muita coisa teve de se mudar na equipa. Mudou-se o espírito, a noção de responsabilidade e de solidariedade. Mudou a forma que os jogadores têm de encarar o coletivo. Os selecionados deixaram de olhar para a equipa como reflexo dos seus egos, como chegou a acontecer em provas anteriores, até com jogadores que ainda lá estão. E deixaram de a ver como extensão dos clubes, como sucedera em tempos no balneário e sucedia ainda agora com os adeptos que seguiam a prova em casa, sempre mais preocupados em enaltecer os jogadores que tinham vestido de uma cor da sua predileção e em arrasar os que tinham vestido outras. No Europeu, para aqueles jogadores, a equipa era a forma única de expressão competitiva. Eliminou-se, além disso, a ideia de desculpabilização permanente do insucesso: quando esta seleção perdeu o primeiro jogo na qualificação para o Mundial de 2018, com a Suíça, em Basileia, pondo em risco o apuramento, não foi por não ter Cristiano Ronaldo, por ter tido azar ou alguns momentos de desconcentração que os suíços aproveitaram. Foi porque se deslumbrou e foi pior do que o adversário. E nessa consciencialização começou a vencer o jogo seguinte. Os nove jogos seguintes, aliás. A questão é a de saber se o país aproveitou esta mudança. E não, infelizmente não aproveitou. Não aproveitou porque, mesmo sofrendo desse mesmo mal geral da portugalidade, a seleção nacional sempre foi uma realidade à parte dentro do futebol português. Para o entender é preciso compreender um aparente paradoxo: os jogos da seleção são sempre os mais vistos da TV em Portugal, batendo recordes de audiência época após época e acabando invariavelmente no top da televisão nacional, mas quando a seleção joga os diretores de jornais desportivos deixam de dormir bem à noite, porque já sabem que vão ter de encontrar solução para quebras de vendas de 20 ou 30 por cento face às semanas de jogos de campeonato. A explicação não é – não pode ser – validada cientificamente, mas não creio que ande muito longe disto: a seleção vê-se e não se discute, por não haver adversário à vista com quem o fazer no dia-a-dia; os clubes discutem-se, mesmo quando não se veem os jogos – ou quando se veem mas não se entendem –, só pelo gosto de ir contra esse adversário do quotidiano. É claro que a tendência para se ser do contra também se reflete nos jogos da seleção: daí a tal posição em contraciclo permanente dos adeptos ativos, para quem éramos bons quando não ganhávamos e somos fracos agora que ganhámos. Mas a seleção, além de só jogar de tempos a tempos, não gera debate de ideias. E sobretudo não mobiliza convicções. Muitos dos que passaram a prova toda a achar que a equipa era horrível estiveram depois no mar de gente que a recebeu em Lisboa com alegria genuína e que delirou quando Éder decretou um feriado no palco da Alameda D. Afonso Henriques. No fundo, a tal tendência para se ser do contra é, quando a seleção entra em campo, uma manifestação de portugalidade tão enraizada como são a comoção e a pele de galinha quando toca o hino ou o júbilo perante bons resultados. Não é, ao contrário do que acontece com os clubes, uma manifestação de cegueira ou de interesse parcial. É por isso que, se me pedem para dizer o que mudou no futebol português com a conquista do Europeu de 2016, preciso de dividir a resposta em duas. Mudou a perceção que os estrangeiros têm do nosso jogo: afinal, conseguimos ser vencedores. Mas até esse era já um processo em curso, com a afirmação crescente dos nossos jogadores no plano internacional desde a geração de ouro, com o aumento do prestígio dos nossos treinadores desde a exportação de Mourinho e com a presença permanente e crescente dos nossos dirigentes nas comissões mais relevantes da UEFA e da FIFA. O Europeu foi, no fundo, um clique, o acontecimento que fez com que as pessoas se virassem para o campo, refletissem e dissessem para si mesmas: “pois é, eles estão a crescer”. Em Portugal, no entanto, não mudou nada, porque já se sabe que a seleção tem público de jogos – estádios cheios, recordes de audiências… – mas não de debates: esse está e continuará a estar restrito aos clubes. Toda a gente vibra com os sucessos da equipa nacional, mas ninguém os discute. Quanto muito, discutem-se os insucessos. E só até ao momento em que se puder passar a discutir um penalti ou um fora-de-jogo no jogo de campeonato, as Ligas da Verdade dos jornais, a falha de comunicações do VAR, a Porta 18, o Apito Dourado ou o depósito de dinheiro na conta de um árbitro auxiliar. Porque mais importante – e mais fácil, também – do que discutir nuances técnicas ou táticas do jogo é falar da influência das arbitragens, dos negócios e das vidas pessoais dos presidentes dos clubes. Quando se discute futebol, em Portugal, há uma certeza: a explicação está sempre fora do campo. E eu acrescento-lhe outra: só há hipótese de isto mudar quando se conseguir levar essa mesma discussão para dentro do campo, quando se abrirem outra vez as portas que começaram a fechar-se nos anos 80. A questão, aqui, é a de perceber a quem é que isto interessa e quem é que pode funcionar como agente de mudança. Depois, a jusante, há que perceber se ainda é possível mudar a cabeça dos consumidores – sim, os adeptos são consumidores, porque o que está em causa é a viabilidade do futebol enquanto realidade empresarial, que, queiramos ou não, é a única forma de ele ser bem sucedido num plano global – e em quanto tempo. Mas vamos por partes. Há a tendência para se julgar que o futebol se tornou um fenómeno hermético por conta das elevadas exigências do profissionalismo. É um pouco verdade. Ainda numa das últimas saídas da seleção nacional, a Andorra, onde há uma imensa comunidade portuguesa, muitos dos que lá vivem tiveram dificuldades para compreender por que razão conseguiram tirar uma “selfie” com o Presidente da República, que lá tinha passado semanas antes, e não viam agora Cristiano Ronaldo dar-lhes a mesma alegria. Mas mesmo que se perceba por que razão as equipas de futebol deixaram de conviver com os cidadãos comuns como o faz Marcelo Rebelo de Sousa, já se percebem pior as razões que levaram a que os jogadores, que deviam ser modelos para os adeptos, se tenham transformado em autênticos eremitas cm ordem de soltura tecnológica. Que não possam falar além do discurso planeado, em conferências de imprensa vazias e sempre com um delegado de propaganda a vigiar cada frase e pronto a interromper se o discurso sair do vácuo combinado, mas que depois nos encham o telemóvel com “instastories” patrocinadas a mostrar as últimas chuteiras ou o restaurante da moda. Da mesma forma que se percebe pior que os treinadores, que deviam ser os primeiros a estimular o debate público acerca do jogo, nunca possam dar entrevistas a falar dele, que sejam impedidos de fazer o que deles se espera para levar a discussão para dentro do campo. Deixem-me aborrecer-vos com um pouco de história,. Comecei a trabalhar ainda no final da década de 80 e tive a minha dose de convivência com os maiores treinadores internacionais. Uma vez, no Restelo, conduzi Arsène Wenger do balneário do Mónaco à sala de imprensa, porque o homem estava tão perdido ali como viria a estar, anos depois, na busca de troféus para o Arsenal. Já nos anos 90, habituei-me às conversas acaloradas com Tomislav Ivic na mesa do Snob, com moedas a fazer de jogadores em cima do pano verde da mesa do canto, ou ao chá com tostas com que Bobby Robson substituía o almoço em Alvalade, no fim dos treinos, durante o qual havia sempre uma explicação acerca de uma opção, da evolução física de Figo para se tornar um jogador que caísse menos, da melhor posição para Balakov... Debati os modelos de treino de Cruijff com Jorge Jesus, que na altura era treinador do FC Felgueiras e obcecado por tudo o que tinha a ver com o holandês. E depois, puf. Acabou tudo, silenciado por máquinas de comunicação que acham que o ruído que produzem acerca dos fatores externos ao jogo se torna mais eficaz se não tiver a concorrência de uma boa conversa acerca de futebol. E o que é extraordinário é que os adeptos – consumidores, lembram-se? – aplaudem aquilo que dizem ser um justo castigo aos jornalistas, quando na verdade os maiores castigados são eles, que ao verem extinto o acesso dos intermediários se viram condenados a substituir o debate futebolístico por lixo fedorento. Mas até isso as máquinas de propaganda conseguiram: iludir as pessoas acerca de quem são os verdadeiros inimigos de um desporto que elas adoram acima de todos os outros. Tudo isto começou algures em meados dos anos 90 e, é verdade, teve o contributo importante dos centros de estágio, da melhoria das condições de trabalho da generalidade das equipas. À boleia dessa verdade, porém, espalhou-se por cá que lá fora se fazia assim e portanto era assim que tinha de ser. O que era mentira. Nos anos 90 estive em sítios como Milanello, onde calhou almoçar na mesma mesa de dois ou três jogadores campeões europeus antes de entrevistar Fabio Capello no seu gabinete. Pernoitei no hotel do Bayern Munique, em Colónia, e na manhã de um jogo da Bundesliga com o Leverkusen – e antes de uma eliminatória europeia com o FC Porto – não só entrevistei como tomei o pequeno-almoço com Jupp Heynckes. Joguei minigolfe com Bora Milutinovic e o irmão em Morschach, na Suíça, dias antes de começar o Mundial’98, em que ele ia dirigir a seleção da Nigéria. Tomei chá com Alex Ferguson, em Old Trafford, após uma derrota caseira do Manchester United com o Everton, quando em Inglaterra, em vez da conferência de imprensa, os treinadores iam ter com os jornalistas para falar de forma saudável do jogo que todos tinham visto. Convencionou-se também que para ganhar era preciso fechar. Havia casos de sucesso, sim. A Itália foi campeã mundial em 1982 depois de decretar o “silenzio stampa”, como resposta às críticas dos jornalistas na sequência das derrotas nos jogos de preparação, em Portugal, antes do início da competição. Enzo Bearzot era uma “velha raposa” e sabia como poucos manejar um grupo, unindo-o em torno da noção do inimigo externo. Um pouco à imagem do que fizera José Maria Pedroto no FC Porto, na década de 70. Mas essa era uma medida excecional, para uma ocasião excecional, para suplantar uma posição de fraqueza, e não podia durar sempre. Porque o que garanto é que também se ganha de outra forma, mais aberta. Uma vez, entrevistei Johan Cruijff nas catacumbas de Camp Nou, depois de o saudoso Ricard Maxencs – ex-diretor de comunicação do FC Barcelona – não ter sido capaz de convencer o arquiteto daquele super-Barça a vir ter comigo ao local combinado, indicando-me em contrapartida o caminho que ele tinha de fazer do balneário para onde tinha o carro. A conversa foi assim, com Cruijff encostado à parede do parque de estacionamento, contrariado mas lúcido como sempre. E nunca vi tamanha baderna em torno de uma equipa como a que presenciei em Los Gatos, na Califórnia, na concentração da seleção brasileira que acabou por ganhar o Mundial de 1994. A confusão era tanta que a dada altura já não se distinguiam os jogadores dos jornalistas, muitos deles em tronco nu e calções, para fazer face ao calor. O fecho do futebol falado e a sua substituição pelo lixo estratégico não são inevitabilidades da modernidade. São pragas que afetam o futebol português porque todos os clubes estão convencidos de que é assim que ficam mais perto de ganhar. E de caminho convencem o público que paga para ver futebol que melhor do que ouvir o seu treinador é ouvir um comentador engajado debitar aquilo que a comunicação enviesada acha que mais pode ferir o rival. A única coisa que isto consegue generalizar, porém, não são vitórias: é ódio. O ódio ao diferente, ao que veste cores diferentes. Que não tem nada a ver, digo eu, com o que se passa “lá fora”. Lá fora, as Ligas entendem – porque os clubes já o entenderam antes e lhes deram o poder para regular – que o sucesso do negócio passa pela credibilização. E quando falo em credibilização não falo na extinção das rivalidades nem sequer na sua higienização por via disciplinar. Se há coisa que já se percebeu foi que de nada serve proibir os agentes desportivos de produzirem declarações que ponham em causa o prestígio do jogo, porque eles encontrarão sempre funcionários que as produzam por eles, causando tanto ou mais danos à globalidade do futebol. A busca de credibilização passará sempre pela ocupação do espaço com conteúdos higiénicos, com a devolução do futebol falado ao campo de jogo, de onde ele nunca teria saído se não o tivessem de lá expulsado. Claro que não se pode, por decreto, impedir os meios de comunicação social de discutir os milímetros de um fora-de-jogo, a intensidade de um toque ou a intencionalidade de um contacto. Impedi-lo seria uma afronta à liberdade de expressão e serviria apenas para adensar as teorias da conspiração comuns a adeptos de todos os clubes, segundo as quais isto está tudo feito para ganharem os outros. Mas pode compreender-se que se esses espaços proliferam como cogumelos numa floresta húmida é porque isso interessa aos clubes – que passaram a digladiar-se em tweets com queixas de arbitragem em tempo real – e porque os meios de comunicação não têm mais nada para mostrar quando querem falar de futebol. As grandes Ligas europeias já perceberam esta necessidade e já lhe responderam, quanto mais não seja através de magazines televisivos onde há boas entrevistas de jogadores e treinadores. A própria UEFA já entendeu esta necessidade há muito – terá sido, mesmo, percursora – quando passou a vender produtos associados à Liga dos Campeões, como as “super-flash” com os treinadores, antes dos jogos. São capazes de adivinhar quais são os clubes que, em vez dos treinadores, mandam os adjuntos, os secretários-técnicos, os dirigentes, mas não os treinadores principais? Se disseram os portugueses, acertaram. Para que o futebol em Portugal mude, para que a atividade se torne mais atraente e saudável – e porque não dizê-lo também, mais segura – não bastou ganhar o Europeu de 2016 nem bastará, se o conseguirmos, vencer o Mundial de 2018 a seguir. Não bastará sequer a “revolução de mentalidades” que os idealistas passam a vida a pedir, porque a lusitanidade não muda e vai continuar a achar que o que é, afinal, não é, e que o que não é é que é. “A mim não me enganam eles!”, dizem, com um piscar de olhos. Mas é preciso, com urgência, devolver o jogo ao relvado. E não se iludam os que acham que a mudança vencerá de um dia para outro. Vai levar tempo. Talvez uma geração, que os hábitos não se mudam assim tão rapidamente. Certo é que quanto mais tarde se começar mais tarde esse momento de mudança triunfará. E tempo não é coisa que sobre, neste momento, ao futebol português.
2017-12-20
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Cinco a cinco. Cristiano Ronaldo igualou o total de Bolas de Ouro de Lionel Messi e a luta, que ultimamente até tem andado dentro dos limites do desportivismo, ganhou novo fôlego. Esta é uma era nunca antes vista, de superioridade de dois futebolistas sobre os demais, mas o facto de eles não caminharem para novos leva a que se suponha que a próxima edição é que vai ser decisiva para atribuir o título de rei absoluto. A Bola de Ouro de 2018 vai ser um bocado como aquele primeiro golo de um prolongamento: pode ser o passo definitivo para a vitória. E do que vai depender? Do Mundial? Talvez já não seja tanto assim. Sempre se gerou a ideia de que a vitória nesta votação dependia, sobretudo, das grandes competições de seleções. Pode até já ter sido assim. Beckenbauer ganhou em 1972, ano da RFA campeã europeia. Perdeu em 1974 para Cruijff, mas este estivera, ainda assim, na final do Mundial, prova em que a Holanda foi a melhor equipa. Rummenigge ganhou em 1980, ano de mais um Europeu pintado com as cores alemãs; Rossi ganhou em 1982, a colocar a última pincelada no título mundial da Itália. Platini mandou em 1984, ano do super-Europeu francês e van Basten em 1988, no ano em que a Holanda acabou com a sua malapata. Depois, Matthäus ganhou em 1990, Sammer em 1996, Zidane em 1998, Ronaldo em 2002 e Cannavaro e 2006, todos em anos de grandes títulos das suas seleções. Mas aqueles eram outros tempos. Tempos sem Messi nem Ronaldo. E tempos sem uma Liga dos Campeões com o peso que a competição tem por estes dias. É que se a Argentina não ganha nada desde que Messi chegou à seleção e se Portugal só em 2016 venceu, por fim, uma grande prova de seleções, como explicar que os dois tenham dividido entre si as últimas dez Bolas de Ouro? Ou que Messi esteja há onze anos seguidos no “Top 2” desta votação (cinco vezes primeiro, cinco vezes segundo atrás de Ronaldo e uma primeira vez segundo atrás de Kaká)? Ou ainda que nesses mesmos onze anos Ronaldo só tenha falhado o mesmo “Top 2” por duas vezes (foi sexto em 2010 e terceiro em 2007)? A eclosão destes dois fenómenos teve a ver com o aumento de popularidade da Liga dos Campeões. É lá que eles aparecem com uma regularidade tal que é capaz de ofuscar o que se vai fazendo nas grandes provas de seleções. Neuer, campeão mundial em 2014 com a Alemanha, foi apenas terceiro na Bola de Ouro, atrás de Ronaldo e Messi. Iniesta, estrela maior da Espanha que ganhou o Mundial de 2010 e o Europeu de 2012 não foi, nesses anos, além de um segundo (em 2010) e de um terceiro lugar (em 2012) na Bola de Ouro. O mesmo terceiro posto que ficou reservado a Torres, o goleador da Espanha campeã europeia em 2008. Por isso, é verdade que um título mundial na Rússia, no próximo Verão, poderá desequilibrar os pratos da balança a favor de um candidato, mas à partida apenas se ele se chamar Ronaldo ou Messi. Ou eventualmente Neymar, se a campanha do Paris Saint-Germain na Liga dos Campeões corresponder ao nível do investimento feito na equipa. Portanto, não devem ser vistos como fatores à partida desequilibradores a maior idade de Ronaldo (que é dois anos e meio mais velho que Messi e sete anos mais velho que Neymar), uma pretensa superioridade da seleção brasileira sobre a argentina ou a portuguesa ou a vantagem do FC Barcelona na Liga espanhola, onde o Real Madrid arrancou a gasóleo, bem devagar. Da mesma forma que o facto de, na semana em que recebeu a quinta Bola de Ouro, Ronaldo ter estabelecido um novo recorde, ao marcar em todos os jogos da fase de grupos da Champions, também não será mais do que uma simples indicação de prioridades. Os jogos deste Outono já não contam para a Bola de Ouro de 2018, mas quando se vê o contraste entre o Ronaldo triste e incapaz da Liga espanhola e o goleador pujante e influente da Liga dos Campeões, percebe-se ao menos que Zidane está a pôr a prioridade da equipa na competição europeia. Tem sido esse o maior contraste na gestão da época destes dois extra-terrestres, já ambos para lá dos 30 anos e por isso nada aconselhados a fazerem 50 ou 60 jogos a tope numa só época. É que enquanto Zidane, a ver o Real Madrid a uma distância inegociável, se prepara para repetir o que já fez na época passada e poupar Ronaldo nos jogos da Liga interna, durante a segunda metade da época, Ernesto Valverde tem optado por poupar Messi na competição europeia: o argentino saiu do banco contra o Sporting, tal como já lhe tinha sucedido perante a Juventus. É certo que esta prioridade será seguramente invertida na fase decisiva da Champions, quando o FC Barcelona precisar do seu astro a 100 por cento, a tempo de influenciar uma possível caminhada do Barça até à final mas talvez já não de roubar a Cristiano Ronaldo o cetro de melhor marcador da prova: Messi segue para já com três golos, a seis de Ronaldo e a três de Neymar, Cavani ou Kane. Coisa pouca? Talvez não. É que há onze anos seguidos (os cinco de Ronaldo, os cinco de Messi e ainda o de Kaká) que o Bola de Ouro é o melhor marcador da Liga dos Campeões.
2017-12-10
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