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Último Passe

A eliminação da Taça de Portugal, a somar à saída prematura da Europa e da Taça da Liga e aos oito pontos de atraso para o Benfica na Liga, vem provocar um dos momentos mais difíceis dos quatro anos de Bruno de Carvalho como presidente do Sporting. O “black-out” decretado antes da dupla visita a Chaves não permite antecipar como vão reagir jogadores, treinadores e o próprio presidente, mas o melhor para o clube era mesmo que se evitasse o extremar de posições e que as reflexões fossem feitas sem ninguém ter de puxar galões para ficar melhor na fotografia. Mesmo em vésperas de eleições. As razões desta má época estão identificadas: o plantel teve investimento mas não foi bem construído, uma vez que o perfil dos jogadores que entraram não tem muito a ver com o perfil dos que saíram. A equipa vinha de uma temporada fulgurante, com grande futebol, a jogar de olhos fechados, pelo que a vontade de mudar se tornava difícil de entender. Ela foi, no entanto, assumida, não nas palavras mas nos atos. Aqui chegados, a única forma de resolver o assunto é emendar caminho, ver que erros se cometeram e quem os cometeu, mas fazê-lo internamente e de forma serena. Os jogadores que estiverem a mais devem sabê-lo nas movimentações de mercado e não em acusações mais ou menos públicas de quem está interessado apenas em desviar as atenções. Porque enquanto estiverem no clube podem ser chamados a defender a camisola e convém que o façam de cabeça fria. Jesus também não tem feito a melhor gestão do grupo, é verdade. Seja por causa das mudanças permanentes em duas ou três posições – impedindo que alguns elementos do onze ganhem a rotina e a confiança que permitia o futebol da época passada – ou da insistência em soluções que dificilmente resultarão, a equipa está uma sombra daquilo que já foi. Em campo, o futebol de ataque não sai fluente e a defesa parece titubeante e desconcentrada. Ainda assim, certamente que Jesus não deixou em ano e meio de ser o treinador em quem Bruno de Carvalho meteu todas as fichas e a boa solução não passará nunca pela sua saída. Até porque quem o conhece sabe que ele não desistirá nunca e despedi-lo custaria valores que o Sporting não pode dar-se ao luxo de pagar – nem isso seria inteligente. Apostar numa estratégia de desgaste, com a criação de condições para que ele arque sozinho com as culpas em termos públicos – para limpar a face de outros – colocaria em risco o que resta de temporada, onde o Sporting ainda terá uma palavra a dizer em termos de campeonato ou de qualificação direta para a Liga dos Campeões. O problema, na perspetiva de Bruno de Carvalho, é que está a mês e meio das eleições e quer continuar por mais quatro anos à frente do clube. Em campanha, o presidente não pode repetir a estratégia corrosiva de há quatro anos, porque já não é oposição. E não pode renegar a sua quota-parte de culpa na situação atual, porque nesse caso já só os “yesmen” do costume o seguiriam numa “egotrip” difícil de levar a sério. Se acredita mesmo no trabalho que tem feito, Bruno de Carvalho terá de enfrentar o veredicto dos sócios com serenidade e a humildade própria de quem está em quarto lugar na Liga e fora de todas as outras competições. Mais do que isso seria um abuso de confiança.
2017-01-17
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Último Passe

A oito pontos do Benfica no campeonato, onde já perdeu mais pontos em meia Liga do que em toda a edição passada, prematuramente afastado da Europa e da Taça da Liga, é evidente que o Sporting joga muito do que vai ser a sua temporada 2016/17 na eliminatória dos quartos-de-final da Taça de Portugal, em Chaves. A importância do jogo foi suficiente para, mesmo em black-out – ou talvez sobretudo por haver black-out – Bruno de Carvalho saltar de novo para o topo da atualidade. O presidente está no olho do furacão por uma razão muito simples: tem eleições daqui a mês e meio e não quer chegar lá com a equipa de futebol numa posição próxima daquela em que a encontrou, temendo legitimar quem é agora oposição. No plano teórico, faz sentido. Na prática, porém, a realidade parece-me muito diferente. O modelo populista da liderança que incorpora, a mimetização de comportamentos já vistos a Pinto da Costa nos anos 80 ou a Luís Filipe Vieira no início deste século levam-me a crer que Bruno de Carvalho precisava sobretudo de estar quieto e passar despercebido para ganhar as eleições. Fá-lo-ia sem problemas de maior. Isso, porém, não casa com a sua elevada auto-estima e a vontade de não deixar ninguém sequer a suspeitar que a culpa do que corre mal possa pertencer-lhe. O pior é que quanto mais se mexe publicamente no problema maior é a dimensão que ele assume. E quanto mais se aborda a questão da culpa desta forma, para a afastar, mais ela se aproxima dos que estão com ele no mesmo barco. Começa a ser evidente que houve erros na planificação da época do Sporting. Erros de mercado, em primeiro lugar. Não tanto em questões de qualidade – ninguém põe em causa Bas Dost ou Campbell, por exemplo – mas sobretudo em termos de perfis, pois os jogadores que chegaram são muito diferentes daqueles que partiram. Dost não é Slimani e disso se ressente Bryan Ruiz, por exemplo; não há ninguém capaz de fazer o que fazia Téo; André não se aproxima do futebol de Montero; e ao meio-campo falta um terceiro jogador de controlo, como era João Mário. Os resultados têm a ver com isso, como acontece sempre. Querer encontrar a explicação nas substituições feitas neste ou naquele jogo ou no facto de alguns jogadores saírem à noite antes da folga é mascarar o problema. É dizer que o mercado foi bem planeado e dirigido, mas a equipa não ganha por falta de empenho de quem está em campo. E a questão aqui é a de se saber por que razão se quer mascarar o problema – porque a tese até foi avançada no próprio canal televisivo do clube. Se foi uma repetição do episódio José Eduardo-Marco Silva, uma tentativa de encontrar alguém para sacrificar no pelourinho, foi má ideia, porque Bruno de Carvalho precisa dos jogadores para chegar a Março em boa posição. Se o objetivo foi justificar a intervenção do presidente no balneário no final do empate em Chaves para o campeonato, também foi má ideia, porque ainda levou a que se falasse mais no assunto. Se o que se queria era motivar uma reação pronta dos jogadores, eventualmente feridos no orgulho, ver-se-á no jogo da Taça se isso resultou, mas na última vez que se entrou por este caminho – as críticas do próprio presidente no Facebook, após uma derrota em Guimarães, há dois anos – ainda se avolumaram os problemas de que a equipa sofria e a distância para o topo da tabela.
2017-01-16
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Em semana de Congresso dos Jornalistas, o documento “The European Football Landscape”, lançado pela UEFA, veio ajudar um pouco à reflexão em torno do jornalismo que se faz. Sei por experiência própria que os jornalistas de hoje não são piores do que os de há 30 anos. Pelo contrário: são melhores. Têm é problemas diferentes para ultrapassar, o maior dos quais é o mundo que os rodeia e que conspira para lhes roubar um bem precioso, que é o tempo. A forma como foi tratado o documento da UEFA vem provar isso mesmo. Sem tempo, o que se faz? Primeiro, não se lê, treslê-se. Olha-se para aquilo e rapidamente se descobre que o Benfica é a segunda equipa mais endividada da Europa. Já há título, porque é esse tipo de comportamento extremo que os leitores procuram. E depois, seguindo outro aspeto particular da sociedade de hoje, onde todos se sentem informados e com opiniões definitivas sobre tudo, que lê divide-se em dois grupos: o dos que acham que é uma vergonha e o dos que sabem que é uma cabala. Não é uma coisa nem a outra. É assim mesmo. Não é uma cabala porque o Benfica tem de facto uma dívida monstruosa, bem maior que as de FC Porto e Sporting. Não é uma vergonha porque o clube também tem uma receita muito superior aos rivais e faz dessa dívida e da sua gestão quotidiana uma forma de vida nos limites que lhe permite andar de mãos dadas com o sucesso. É essa forma de vida que ajuda a entender, por exemplo, a parceria com Jorge Mendes e o ocaso a que tem estado a ser vetado Raul Jiménez, que Luís Filipe Vieira já vem dizendo há muito tempo – há mais de um ano, creio… – que vai ser a maior venda da história do clube. Como se já tivesse visto o guião escrito em algum lado. Transpondo a história para a nossa vida real de todos os dias, imaginemos que temos um vizinho que é futebolista num clube de meio da tabela, mas que de repente atinge os píncaros do sucesso e assina um novo contrato por um dos grandes, a ganhar 100 mil euros por mês. O rapaz ganhava uns dois mil no contrato anterior e estava a pagar uma casa ao banco que lhe tinha custado 250 mil euros. Uma casa sobre a qual penderia a normal hipoteca. De repente, com o aumento da receita garantido, abalançou-se a comprar uma vivenda de luxo numa zona mais rica da cidade e pediu um empréstimo de quatro milhões de euros. Tecnicamente, ficará com uma das maiores dívidas da rua, talvez mesmo a maior. Mas na prática tem condições de a pagar e ninguém tem nada a ver com isso. A gestão do Benfica tem vindo a ser feita assim há anos, mesmo que Luís Filipe Vieira ande há anos também a dizer que quer passar a apostar na formação, porque quer manter a receita e reduzir a despesa. A narrativa que passa para o exterior é muito a de que isso não foi feito mais cedo porque Jorge Jesus não permitia e que com Rui Vitória, de facto, aumentou muito a aposta nos rapazes do Seixal. Se a segunda parte desta história bate certo com a realidade, já em relação à primeira tenho muitas dúvidas, porque para a relação com Mendes poder funcionar na perfeição as movimentações têm de ser para lá e para cá. A própria posição do agente no mercado internacional poderia ficar comprometida se só fizesse negócios mega-inflacionados num sentido. Porque a questão aqui não é a de o dinheiro ser verdadeiro ou em notas de Monopólio, como muitos se atrevem a dizer. Não me passa pela cabeça que o dinheiro não seja real. Mas que todo o esquema se monta na capacidade para vender bens muito acima – nem é só acima, é muito acima – do seu real valor de mercado, isso parece evidente. Ora centremo-nos em Jiménez, que não ocupou a sua posição no banco de suplentes ontem com o Boavista porque Luís Filipe Vieira está a tentar vendê-lo para o futebol chinês. As notícias que circulam dão conta de propostas de 50 milhões de euros, mas que o presidente encarnado só aceita libertar o jogador pelos 60 milhões de que fala há meses. 60 milhões de euros. Por um suplente. A concretizar-se – e não tenho muitas dúvidas de que acontecerá, se não já em Janeiro, no mercado de Verão – é caso para se dar uma nova perspetiva à expressão “negócio da China”. Só que basta andar um pouco para trás para perceber que o circuito é bi-direcional. Jiménez saiu do México para o Atlético de Madrid por 11 milhões de euros. Foi suplente em Espanha e saiu para o Benfica por um total de 22 milhões, pagos em duas partes. Continuou a ser suplente em Portugal e está prestes a sair para a China por 50 ou 60 milhões de euros. Isto sim, e não a dimensão da dívida do Benfica, merece esclarecimentos por parte de quem sabe e o tempo dos jornalistas.
2017-01-15
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Último Passe

Benfica e Sporting deixaram dois pontos pelo caminho face a adversários menos apetrechados, mas fizeram-no por razões diferentes. Os encarnados porque entraram no jogo com o Boavista iludidos com a sucessão de vitórias que transportavam no histórico recente, a ponto de Rui Vitória ter sentido a necessidade de dizer no final que “esta não é uma equipa invencível”; os leões porque mesmo em esforço total e espicaçados pelo tropeção do rival foram curtos para se imporem a um Chaves aguerrido e organizado, porque de facto é como diz Jesus e ali é “sempre o mesmo a marcar os golos”. Quem esteve na Luz pode preferir optar por destacar a recuperação épica do tricampeão nacional, que esteve a perder por 3-0 e ainda salvou um ponto, mas sendo verdade que o volume de jogo ofensivo da equipa encarnada depois de reduzir para 1-3 foi impressionante, não durou sempre e a seguir aos 3-3, já conseguidos em fase de perda, o Boavista até teve a capacidade para criar duas ocasiões de golo claras. A história do jogo está refletida na frase que Rui Vitória disse no final: esta equipa “não é invencível”. Porque a ideia que deu de início, sem rigor nem agressividade atrás foi a de se julgar invencível, como se as camisolas chegassem para ganhar. A ajudar à festa, entrar com Jonas e Gonçalo Guedes na frente roubou-lhe presença na área e uma referência de que o seu jogo precisava para lá chegar em tabelas. Com a entrada de Mitroglou e, ao intervalo, de Cervi para começar a atacar desde a posição de defesa-esquerdo, o Benfica construiu o cenário de que precisava para a tal recuperação. Chegou aos 3-3, mas aí, com mais de 20 minutos por jogar, parou. Falta de pulmão, acerto tático de Miguel Leal com a entrada de Mesquita ou simplesmente a ideia de que esta “equipa não é invencível” e de vez em quando aparecerão adversários capazes de lhe colocar dificuldades, como fez o Boavista com o seu jogo de corredor a corredor. Diferente é a problemática do Sporting. E a frase sintomática, Jesus disse-a na semana passada, depois de ganhar ao Feirense. “Não é normal nas minhas equipas que seja sempre o mesmo a fazer os golos”. Em Chaves, o mesmo fez o seu papel. Bas Dost respondeu com dois golos de oportunidade a um início desconcentrado que permitiu aos transmontanos adiantar-se no marcador. O Sporting até respondeu bem à desvantagem, sempre sem brilhar, é verdade, sem o jogo envolvente que praticava na época passada, mas assumindo a iniciativa do jogo e impedindo o Chaves de criar perigo. Teria chegado, não fosse mais uma vez o descontrolo das emoções em que esta equipa é pródiga: expulsão de Ruben Semedo, necessidade de sacrificar Dost para fazer entrar Paulo Oliveira e um golão de Fábio Martins a dois minutos no fim. O golo do empate do Chaves foi um pouco como a recuperação do Benfica: fez-se anunciar a todos os sentidos antes de se deixar ver por quem estava no estádio. E é destas fatalidades que se faz a história dos campeonatos.
2017-01-14
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Último Passe

O que espanta na forma fácil como o Benfica voltou a vencer o Vitória em Guimarães no Minho e se qualificou para a Final Four da Taça da Liga não é tanto o facto de Rui Vitória ter trocado oito jogadores na equipa inicial, porque também Pedro Martins apresentou uma equipa alternativa na repetição do jogo de sábado. O que espanta mais é a forma diferente como o Benfica jogou: apresentou como denominador comum a velocidade nos momentos ofensivos, mas trocou desta vez a dupla Jonas-Mitroglou por outra, muito mais móvel, com Rafa e Gonçalo Guedes. O que vale, ali, é a ideia. Claro que o sistema continuou a ser o 4x4x2. Mas os jogadores que o serviam hoje eram muito diferentes. Carrillo não é Salvio, Zivkovic até se aproxima do jogo de Cervi, mas sobretudo nem Rafa nem Gonçalo Guedes são jogadores de presença constante na área como é Mitroglou. E se Guedes ainda tem um histórico recente a ocupar as zonas prediletas de Jonas – mesmo que de forma radicalmente diferente, com mais dinâmica, mas muito menos intuição e capacidade de antecipação dos acontecimentos – foi Rafa quem surgiu no apoio. E até aí o Benfica mudou, pois foi quase sempre o segundo avançado a procurar a profundidade, tendo Guedes recolhido para, por exemplo, marcar os dois golos. Tudo diferente, a dificultar o processo defensivo do Vitória, pela imprevisibilidade, mas também a tornar mais difícil de prever a capacidade de resposta dos jogadores. Na Final Four da Taça da Liga, onde já não há FC Porto nem Sporting, com um sorteio favorável na Taça de Portugal e seis pontos de avanço na Liga, este Benfica continua a perseguir um póquer histórico – começou a época a ganhar a Supertaça. E isso tanto pode ser um aspeto de que Rui Vitória venha a servir-se para motivar os jogadores como um fator descompressor, que permita ao plantel meter um maior foco na competição internacional. Mesmo com todos os perigos que isso encerra, uma equipa com esta capacidade de se transfigurar pode ter a tentação de ir por aí. Essa é a grande decisão a tomar nos tempos mais próximos.
2017-01-10
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A consagração de Cristiano Ronaldo na Gala da FIFA, destinada a premiar o melhor jogador do Mundo em 2016, fez mais que confirmar uma supremacia do português sobre Messi no último ano, que a conquista da Bola de Ouro do France-Football, em Dezembro, já tinha antevisto. Em 2016, Cristiano não se limitou a reduzir o score, que ainda é favorável a Messi, por 5-4. Cristiano conquistou o terceiro troféu de melhor do Mundo nos últimos quatro anos, deixando bem evidente que, apesar de ser mais velho que o argentino, é ele quem está a envelhecer melhor. Apesar de jogar um futebol mais físico. Tendo em conta que os últimos nove anos só viram estes dois vencedores e que Ronaldo até chegou lá primeiro, sendo depois arrasado por quatro troféus consecutivos de Messi, esta retoma é mais do que parece. Argumentarão de um lado que as conquistas de CR7 se devem a momentos físicos menos conseguidos do argentino, mas isso não é forma de menorizar aquilo que Cristiano tem conseguido. Pelo contrário. Também ele tem tido lesões, mas a forma como trabalha permite-lhe superá-las, o seu espírito de sacrifício chega para que jogue e renda mesmo diminuído. E, ainda que a ausência de todo o grupo do Barcelona na gala de hoje não seja vista com o mesmo olhar crítico de que se revestiram as reações às faltas de Ronaldo e Mourinho na cerimónia de há cinco anos (quando as razões são as mesmas), o célebre “mau feitio” do português não o impede de fazer balneário e assegurar que as suas equipas ganham sem ele em campo – veja-se, a título de exemplo, o que se passou na final do Europeu. Sacrificado na gala foi Fernando Santos, cuja vitória com Portugal no Europeu teve muito de treinador, não só na estratégia que foi desenhando para cada jogo como ainda (e sobretudo) na forma como foi capaz de unir os 23 jogadores convocados em torno de um ideal, em tempo de extremismo faccioso no país. Fernando Santos acabou por ser apenas terceiro na votação para os treinadores, mas até isso pode ser compreendido. É que Zidane ganhou a Liga dos Campeões e o Mundial de Clubes depois de ter pegado nos cacos que Rafa Benítez deixara no Real Madrid. E Ranieri protagonizou apenas a maior surpresa do século no futebol mundial. Dir-me-ão que Ranieri não tem uma ideia, que não é treinador para estes palcos, que é muito mais o homem despedido da Grécia do que o campeão com o Leicester e eu até concordo. Mas aquilo que o homem fez com o Leicester merece ser assinalado.
2017-01-09
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Último Passe

Bas Dost bisou e já segue na frente da lista de goleadores do campeonato, Alan Ruiz mostrou durante 45 minutos poder ser o segundo avançado de que Jorge Jesus precisa, Campbell voltou a parecer aposta ganha na esquerda, mas nem assim o Sporting foi capaz de passar um domingo sem sofrimento na receção ao modesto Feirense. Após uma excelente primeira parte, a redução de intensidade e concentração no segundo tempo permitiu aos visitantes reduzir para 2-1 e reentrar no jogo a ponto de ameaçar empatar, servindo de metáfora para aquilo que tem sido a época dos leões: se estão a oito pontos da liderança devem-no também a defeitos próprios, que anulam parte do que de bom a equipa vai fazendo a cada jogo. Uma equipa que tem um avançado letal como Bas Dost tem de fazer mais golos. E se não encontrou ainda um segundo ponta-de-lança capaz de o acompanhar, não deve abdicar das boas sensações que alguns candidatos ao lugar lhe vão dando quando por ali passam. Alan Ruiz voltou ontem de umas férias de Natal excessivamente prolongadas e mostrou condições para o lugar que já não se viam na equipa desde que, de outra forma, ali jogou Campbell, no Bessa. Mas entretanto por lá tem passado muita gente, não se dando continuidade a ninguém: e se ainda se compreende o desvio de Campbell para a esquerda, onde tem sido aposta ganha, pela forma como cria situações de superioridade e conduz a equipa à finalização, já é mais difícil de perceber que pelo meio tenham entretanto passado o próprio Alan Ruiz (na Luz), Bryan Ruiz (quase sempre), Castaignos, Markovic e Bruno César. Até final da época, o Sporting terá, na melhor das hipóteses, 22 jogos – quatro na Taça de Portugal e 18 no campeonato. Já se vê que não há grande necessidade de Jesus andar a mudar muita coisa, até porque só uma campanha muito próximo dos 100 por cento de sucesso poderá dar-lhe as tais razões para festejar em Maio de que falava o presidente antes do desaire de Setúbal. E se a lesão de Adrien não é tão preocupante como chegou a temer-se, permitindo ao capitão ficar no onze e aos leões manter o foco defensivo, esses 100 por cento de sucesso dependerão muito da capacidade de Jesus para acertar nos outros dez jogadores. Com especial atenção para o defesa-esquerdo – Bruno César está no golo do Feirense – e o segundo avançado. Estranho será que em Chaves não jogue Alan Ruiz.
2017-01-08
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Uma semana dedicado a outros projetos valeu-me agora o regresso a um futebol português posto de pernas para o ar. As razões são as habituais: as arbitragens e a interferência que têm nos resultados dos jogos. A este respeito, quem me segue já sabe o que penso. Há culpa de todos, dos que andam nos relvados aos que dirigem, passando pelos que reportam (estes umas vezes por inércia e outras por exagero no aproveitamento populista), mas o pior é mesmo não querermos olhar para as coisas como elas devem ser vistas. Os árbitros erram e acredito que o futuro do futebol tem de passar (e rapidamente) pela criação de condições para que comecem a errar menos, com a institucionalização de um árbitro de régie, que tenha acesso às imagens de todas as câmeras disponíveis ao realizador de televisão. Isto não é unânime nem sequer pacífico. E até se preza a leituras como as que vi esta semana feitas por gente inteligente e responsável, que mesmo assim não se coibiu de dizer que com o vídeo-árbitro as coisas não teriam sido diferentes. Talvez. Não sou capaz de dizer que sim nem que não. Mas tenho a certeza que a complexidade de que se faz a natureza humana pode ajudar-nos a explicar o que acontece tanto a montante como a jusante dos factos. Nunca explico jogos em função do acerto ou do erro das arbitragens. E se o não faço não é por achar que os árbitros acertam sempre, por ter medo de os afrontar ou por estar ao serviço de alguém que os comande como se fossem marionetas. Não o faço por acreditar que há sempre aspetos mais relevantes, que quem gosta de futebol pode debater para aumentar os seus conhecimentos e tornar o debate bem mais frutuoso. E não o faço por saber que o dia em que entrasse por aí seria o dia em que todos os outros caminhos iriam esbarrar numa parede, porque nesse caminho nunca é possível definir quem tem mais razão, tais são as suas subjetividade e (até às vezes) irracionalidade. A mesma natureza humana que nos ajuda a explicar o erro dos árbitros volta a entrar na equação no momento em que o discutimos. Duplamente. Primeiro porque o sacudir de água do capote (em direção a tudo e muitas vezes aos árbitros) em noites de frustração é um reflexo muito normal no homem. Depois, porque em qualquer organização as relações de poder e a forma de as condicionar a nosso favor são aspetos fundamentais para separar o sucesso do insucesso. Sei disso. Sempre o soube. Ora isto quer dizer o quê? Que os árbitros erram, sim. Que cabe aos líderes do futebol criar condições para que eles errem menos a cada dia que passa. Que apesar de isso não levar a lado nenhum, o choradinho de quem se sente prejudicado é tão natural e humano como o erro. Tão natural, igualmente, como a propensão – também ela humana – para querer dominar as organizações e passar a ser beneficiado nelas se tal for possível. Aliás, muitas vezes esse choradinho não mais é do que uma tentativa de condicionamento para virar a mesa. Perante isto, o que fazer? Depende do lugar em que nos coloquemos. Os árbitros têm de continuar a apitar, os jogadores a jogar, os treinadores a treinar, os dirigentes a dirigir, os adeptos a apoiar, os jornalistas a reportar e a investigar. O que é muito diferente de se concluir que se os árbitros erram é porque são corruptos ou parte de um sistema que é corrupto, mas também de inferir que se as provas não nos caem no colo é porque não há corrupção nenhuma  – aqui serão as provas a marcar a diferença, mas é preciso inquietação e ir à procura delas. Esta semana, tal como em várias ocasiões no passado, quando eram outros a queixar-se e outros também a manter-se em silêncio, não foram apenas os árbitros a exorbitar nos seus erros. Houve muitos jogadores e treinadores a ir longe demais nos protestos, mas também na acusação pública e na tentativa de expor os rivais ao ridículo. Houve responsáveis de clubes a exagerar na reação à infelicidade e adeptos a passar muito para lá das marcas nas ações e nas palavras. Os jornalistas estão entre a apatia face ao que muitos julgam ser passível de acusação (mesmo sem provas, que não se conseguem só porque se quer) e a denúncia populista, porque é o caminho mais fácil para somar likes e cliques. Este é um assunto delicado. Não é por medo ou por conivência, mas sim por respeito à presunção da inocência. E não se resolve a misturar análise a jogos com avaliação das arbitragens.
2017-01-08
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Quando Pep Guardiola disse que a organização defensiva do Benfica era “digna de uma equipa de Arrigo Sacchi” não tinha visto a forma como os encarnados ganharam em Guimarães, superando um dos obstáculos mais complicados no caminho que pretendem seja o do inédito tetracampeonato. Mais uma vez a equipa de Rui Vitória marcou primeiro e pôde depois sentar-se no cadeirão a gerir a vantagem, conseguindo a proeza rara para um grande de ter sempre mais espaço no ataque do que o adversário – algo que teria dado muito jeito ao FC Porto em Paços de Ferreira, onde não foi além de um empate a zero. Quando um clube grande joga, o normal é ter pela frente equipas fechadas. Isso não acontece tantas vezes com o Benfica e leva muitas vezes os adeptos a insinuar que estes adversários se abrem quando defrontam os tricampeões. Mas não é assim. É que com o Benfica, há dois fatores-extra a ter em conta. Primeiro, o comportamento da equipa nas transições: agressividade na transição defensiva, que permite recuperar a bola mais vezes, mais cedo e mais perto da área adversária; e velocidade na transição ofensiva, levando-a a uma percentagem maior de ataques rápidos e contra-ataques do que os outros grandes, forçados a cair mais vezes em organização ofensiva e a defrontar defesas mais bem posicionadas e organizadas. Neste aspeto, o futebol do Benfica é menos trabalhado no ataque posicional que o do Sporting ou do FC Porto – vale-lhe o facto de fazer por que isso quase nunca lhe faça falta. Depois, os níveis de eficácia na finalização benfiquista permitem que a equipa se coloque quase sempre em vantagem antes de o adversário poder marcar e dão-lhe a oportunidade de fazer o jogo de que gosta. Não é um jogo defensivo, mas é um jogo defensivamente competente, com um posicionamento impecável em organização defensiva, onde se vêem as tais duas linhas bem juntas, entre as quais Guardiola dizia que não cabia sequer “um cabelo”. Não será bem assim, sobretudo quando ali falta Fejsa. Ter Samaris não é a mesma coisa, pela forma como o grego não é capaz de antecipar as ideias do adversário para equilibrar. Em Guimarães, mesmo sem Fejsa durante quase todo o jogo, o Benfica manteve as redes de Ederson a zeros, mas esse já não foi tanto um triunfo da organização como foi da ocasião.
2017-01-07
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O país futebolístico anda entretido com a Taça da Liga e a ideia generalizada é a de que os espetáculos não têm sido condizentes com a quadra festiva que se vive. Acumulam-se os resultados mínimos, em jogos tardios, com o frio e a falta de interesse competitivo a levar a que se registem médias consideravelmente mais baixas de espectadores para todos os clubes. A Liga, que até tem feito muito pela credibilização desta prova, não fez ainda o suficiente. Nem sequer o que podia. E não falo sequer da atribuição de uma vaga na Liga Europa para aquele a que agora quem manda no futebol quer chamar campeão de Inverno.Quem é que não inveja o boxing day inglês, aquela jornada de dia 26 de Dezembro, à tarde, com estádios cheios de famílias e a competitividade ao máximo? Ou aquilo que se fazia na Escócia até há poucos anos, com o Old Firm (Celtic-Rangers) sempre marcado para o dia de Ano Novo? No fundo, o que os britânicos fazem há muito tempo é uma coisa muito simples: juntam a predisposição do público para assistir ao espetáculo com a realização de jogos apaixonantes. Aqui, se é verdade que já se acabou com essa ideia peregrina de interromper a competição por duas ou três semanas por alturas do Natal e do Ano Novo, que é quando as famílias têm mais dinheiro e tempo livre, depois enche-se o calendário desta época festiva com jogos muitas vezes vazios de sentido, porque são organizados com a intenção firme de ter os grandes no “final four” e fingir que se joga uma competição justa até lá chegarmos. João Eusébio, treinador do Varzim, lamentou após a derrota em Alvalade o facto de ter de jogar duas vezes fora e apenas uma em casa, mais uma desvantagem competitiva a juntar ao facto de liderar uma equipa de um escalão inferior, apenas para concluir de forma até muito compreensiva que “o futebol é cada vez mais um negócio”. A questão é que é um negócio que não sabe defender-se em boas condições.Percebo bem a ideia por trás do raciocínio de Eusébio: o negócio precisa de ter tantos grandes clubes quanto for possível no “final four” para tornar o evento atrativo para a TV ou para os compradores de bilhetes. Mas o negócio defender-se-ia muito melhor com mais competitividade. E se olharmos para o futebol como um todo, o negócio defender-se-ia melhor se a Taça da Liga, a terceira das provas nacionais em termos de relevância, aparecesse numa altura em que o público tem mais fome de bola. No início da época, por exemplo, em vez de atafulhar esta altura de Natal, na qual seria muito mais cativante dar aos potenciais interessados jornadas competitivas, sim, mas do campeonato nacional, onde cada clube mete sempre mais gente nos estádios. Se os treinos abertos de Natal são um sucesso, por que razão não se explora melhor esta época com jornadas diurnas, eventualmente até com os derbis regionais? É por isso que continuo a considerar a Taça da Liga como a melhor ideia desaproveitada dos últimos anos do futebol português. Já no ano de inauguração me parecia que a melhor altura para a jogar seria o início de época, a altura em que a fome de bola dos adeptos é tão grande que até um Sporting-Varzim, um FC Porto-Feirense ou um Benfica-Vizela são pratos apetecíveis. Depois, toda a prova se revela injusta, na forma como os grandes são poupados à primeira fase e fazem dois jogos em três nos seus estádios: uma competição justa começaria com a fase de grupos entre todos os participantes e, no final do Verão, com os grandes a jogar fora, nos campos das equipas de II Liga, fazendo uma espécie de “tournée” pelo país real. Até me parece evidente que, na maioria das vezes, os grandes acabariam na mesma por satisfazer quem se preocupa apenas com os nomes dos participantes na decisão final, sobretudo se jogassem as fases a eliminar numa altura da época em que ainda não estão fatigados pela dureza da época que já vai longa. E nesta altura estaríamos todos a deliciar-nos com uma jornada diurna cheia de derbis. Com os estádios cheios e com as famílias felizes a ver futebol em vez de andarem a vaguear pelos centros comerciais. Não tem de ser assim apenas no estrangeiro.
2017-01-01
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Último Passe

A imagem de Cristiano Ronaldo de pé junto à linha lateral, ao lado de Fernando Santos, ambos a gritar instruções para dentro do campo, na final do Europeu, era uma espécie de prenúncio da presença de ambos na gala da FIFA, como candidatos a vencedores dos prémios de melhor jogador e treinador de 2016. Os méritos de cada um para lá chegar são, contudo, muito diferentes.A presença de Ronaldo a este nível é habitual e é seguro dizer que ele lá estaria na mesma se Portugal não tivesse ganho a final contra a França. A vitória nesse jogo, mesmo tendo em conta que, lesionado desde cedo, nesse dia ele pouco contribuiu em campo, será o empurrão final para que o português possa somar mais um título de melhor do Mundo à Bola de Ouro da France-Football, mantendo acesa a disputa com Messi para definir qual dos dois extra-terrestres é mais alienígena. O que Ronaldo ganhou nesse dia afasta-o do argentino num particular: mesmo jogando numa seleção potencialmente mais fraca, já a conduziu a um título internacional, coisa que Leo ainda não fez com a bem mais poderosa Argentina.A reeleição de Ronaldo como melhor do ano, porém, não se esgota ali. É feita dos números mais uma vez impressionantes de golos, da vitória na final da Liga dos Campeões com o Real Madrid e também, porque isso revelou uma dimensão diferente do craque, do que mostrou ao nível da liderança na fase final do Europeu. O incidente do microfone, no qual se viu um Ronaldo irado com críticas e a virar a ira para o lado menos produtivo – para os jornalistas – marcará uma diferença entre o Ronaldo egocêntrico e o Ronaldo coletivo. A partir daí, o que se viu foi um CR7 que não se importava de se sacrificar em prol da equipa, que colocava o resultado final da seleção à frente do seu destaque pessoal na forma de lá chegar. A presença do craque ao lado de Fernando Santos na linha lateral no calor da disputa com a França ilustra aquilo que foi bem mais profundo: o compromisso entre os dois. E aí começa a explicar-se a entrada de Fernando Santos no lote dos que vão lutar pelo título de treinador do ano.Porque há muitas formas de ter êxito como treinador. O povo fala de táticas, o analista junta a estratégia, não há quem negue que o estar rodeado dos colaboradores certos tem muita importância, mas não há nada mais decisivo do que ser capaz de tirar o melhor de cada jogador. Fazer que cada um assuma na primeira pessoa o compromisso com o coletivo. Foi isso que Fernando Santos teve a arte de conseguir. E foi por isso que saiu de França com o título de campeão da Europa.
2016-12-28
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